Com este post editamos a última parte do texto de João Madeira, "A herança de Estaline". Neste ponto será abordada a reorganização verificada no PCP nos inícios (e ao longo) dos anos 40, em particular, aquilo que esta significou de bolchevização do partido. Regista-se, igualmente, a readmissão do PCP no movimento comunista internacional.
JOSÉ ESTALINE MORREU HÁ 50 ANOS
PCP: um partido estalinizado
"A reorganização do PCP em 1940-41, já num contexto de guerra, configura uma verdadeira refundação e é o marco para a sua bolchevização, representando o reatamento dos laços com o movimento comunista internacional em 1947-48, como que o fecho de abóbada desse novo edifício.
Os seus dirigentes revelavam-se apuradamente diligentes na aplicação da estratégia soviética, mesmo que inicialmente isso assentasse num enorme esforço seguidista de interpretação das consignas que iam fundamentalmente beber às emissões em língua portuguesa da Rádio Moscovo.
A inversão do curso da guerra, com o poderoso efeito internacional de derrota nazi em Estalinegrado e, internamente, o papel desempenhado no ciclo grevista de 1943-44 ou no lançamento do MUNAF- Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista- desencadeiam admiração e simpatias acrescidas no PCP, que lhe permitiram crescer e rodear-se de uma orla de apoios vasta e socialmente diversificada.
Identificar-se, aceitar ser estalinista em Portugal nos anos 40 e 50 era sem dúvida, para a maioria dos militantes, das gerações de militantes e das suas orlas mais ou menos próximas, estar do lado da luta contra o fascismo, já que naquele contexto de luta aberta contra o regime ser anti-estalinista foi, esmagadoramente, ser anti-comunista.
Nestas circunstâncias, o modelo orgânico, mas ideologicamente determinado, que se construíra em Portugal era o de partido clandestino, fortemente centralizado, hierarquizado, compartimentado, dotado de um corpo de regras muito detalhadas de funcionamento verificadas e controladas de cima para baixo, que, no caso dos funcionário clandestinos- controleiros, tipógrafos e respectivas companheiras- iam da verificação pormenorizada das despesas à inspecção física das casas ou do controlo das movimentações de rua à filtragem da correspondência familiar.
Com esta pesadíssima carga procedimental, o espaço para o debate político era fortemente condicionado e frequentemente anulado em nome da defesa do partido. A orientação política era determinada por uma elite dirigente muito restrita- os membros do Secretariado e da Comissão Política- e a sua discussão e aprovação dificilmente ultrapassava o círculo do Comité Central e das troikas de direcção provincial e regional.
Mas foram estas regras que permitiram ao PCP manter, com altos e baixos, um funcionamento permanente, que implicava renovação de lugares deixados em aberto pelas investidas repressivas, edição e distribuição da imprensa, e uma variável acção política nos locais de trabalho ou por áreas de intervenção.
Evidentemente que se o Partido Comunista era o partido do proletariado e o seu comité central a sua direcção, ter, para lá de tímidos limites de moderação, ideias diferentes ou posturas divergentes era, nessa lógica estreita, afrontar e atentar contra o proletariado e os seus interesses.
A tal ponto que, nos primeiros anos 50, também em Portugal se acompanharam os grandes processos de eliminação, inclusivamente física, de quadros que entraram numa rota de dissidência e suspeição. Naquele contexto atraíam com espantosa facilidade o anátema de terem traído os superiores interesses do partido, e portanto, do proletariado, ateando facilmente a possibilidade de se terem bandeado para o regime e entrarem em conluiu activo com a sua polícia política.
Daí à denúncia pública e à expulsão dos militantes legais ia um passo. No caso dos anónimos funcionários clandestinos, ter-se-ia chegado mesmo à execução, como parece ter sido o caso mais conhecido, embora nunca cabalmente explicado, em 1951, do vidreiro Manuel Domingues, da Marinha Grande, que aí participara no 18 de Janeiro de 1934, que estudara nos anos 30 na Escola Leninista de Moscovo, membro do Comité Central, responsável pelas tipografias clandestinas no pós-guerra e que chegara a integrar o Bureau Político do Comité Central.
O legado de Estaline assentava na concepção "nacional" de comunismo, na codificação do funcionamento partidário e na utilização da violência a partir das estruturas de poder. É isso tal que se expressa na História do Partido Comunista Bolchevique Russo, dirigida por Estaline, que viria a ser publicada em 1938.
Estaline apresenta em forma simplificada de cartilha o carácter do partido como vanguarda iluminada, dotado de verdade científica, a roçar a infalibilidade, aprofundando as tendências centralizadoras, já presentes na versão matricial de Lenine".
(p. 41-42)
Publicado por sandra em novembro 29, 2003 11:50 AM