novembro 30, 2003

ENFERMEIRAS PÁRA-QUEDISTAS EM ACÇÃO NO PORTUGAL COLONIAL: testemunhos-1

Dando sequência à introdução feita à temática em post de dia 18, editamos hoje a 1ª parte do primeiro testemunho consigo relacionado. Pertence este a Maria Ivone Quintino Reis que foi enfermeira e tenente pára-quedista. Nascida em 1929, serviu em Angola, Guiné e Moçambique entre os anos de 1962-1973.

ENFERMEIRAS PÁRA-QUEDISTAS.

Maria Ivone Quintino Reis (1ª Parte)
"Mesmo que a minha família não deixasse, eu ia para a Força Aérea. O que aconteceu em Angola sensibilizou-me para ir ao encontro daqueles que estavam indefesos. Nunca tinha ido a África, não tinha lá parentes, nem na tropa, mas achava impressionante que famílias que tinham feito a sua vida em África, de repente acordassem com os filhos mortos. Como iriam mais militares para África em defesa das populações, negras ou brancas- ali não havia brancos nem pretos, mas portugueses- a missão que nos era proposta era acompanhar todos os feridos que surgissem na frente de combate, de maneira a não desfalcar as pessoas qualificadas que estariam lá a receber os feridos. Faríamos a evacuação da zona operacional para o hospital da retaguarda e, eventualmente, de tanto em tanto tempo, acompanhávamos os feridos a Lisboa em aviões transatlânticos. No curso de pára-quedistas, em Tancos, éramos onze e sujeitámo-nos a todos os testes de admissão. Claro que havia um cuidado de adaptação, porque não tínhamos a mesma resistência que os homens. Mas marcámos sempre a nossa diferença. Às vezes, depois de fazermos o que estava adequado à nossa capacidade física, havia testes de fim de dia, para voluntários, para ver quem é que era capaz de fazer isto ou aquilo. Nós íamos sempre tentar. Mas depois soubemos que os homens faziam à noite apostas sobre o que nós erámos ou não capazes de fazer. O próprio capitão Fausto Marques, chefe de grupo, quando o general Kaúlza de Arriaga formou o nosso quadro para irmos para Tancos e nos mandou para lá, sentiu-se um bocado afectado porque os pára-quedistas tinham cinco anos de existência e seria uma quebra do mito de que eles eram os melhores, os mais audazes, o máximo. Nós íamos desmistificá-los.
Mas a partir de certa altura o capitão Fausto Marques, que no princípio sentira uma certa reserva face à nossa presença, já nos defendia, à noite, nas apostas e nas noitadas em que eles comentavam as nossas capacidades. Provámos que éramos capazes ou, pelo menos, fazíamos tudo para o conseguir. Depois desses treinos, muitos disseram-nos que aguentámos uma determinada exigência, como pioneiras, que os grupos posteriores não aguentaram. Tudo passou a ser mais moldado para outras, já com um certo acolhimento e sensibilidade para com as mulheres. Até porque muitas de nós acompanharam os grupos que todos os anos entravam, como elo de apoio, que nós não tivemos. O curso era de oito semanas: entrámos a 6 de Junho de 1961 e fomos brevetadas a 8 de Agosto. No fim do curso, ficámos umas semanas em Lisboa, para se fazerem as nossas fardas e se tratar de toda a papelada porque era a primeira vez que se fazia um curso daqueles. Enquanto se faziam as fardas, houve uma operação na serra da Canda e pensaram: "Vão duas enfermeiras, para se fazer o teste da sensibilidade dos soldados, para ver como é que eles reagem às mulheres." Eu e a Maria Arminda fomos para Angola, não sabíamos bem para quê, para um teste de integração do meio operacional. Fomos para Angola no dia 22 de Agosto e no dia seguinte participámos no lançamento de pára-quedistas, numa zona de combate. Ficámos na base aérea, no Negage. Na zona mais próxima da guerra havia sempre um posto de comando, a partir do qual os aviões lançavam os pára-quedistas. Nós aterrávamos na base do comando operacional, que comandava os lançamentos que se faziam. Não pudemos saltar, estivemos dentro dos aviões enquanto eles saltavam, e fazíamos o apoio sanitário porque levávamos todo o nosso equipamento. Depois, aterrámos numa determinada zona, no Norte de Angola, onde estava o posto operacional de comando, para ver como é que a operação se desenrolava".

(p. 663-664)

(Cont.)

Publicado por sandra em novembro 30, 2003 02:44 PM
Comentários

"Que Nunca Por Vencidos Se Conheçam"

"Famosa Gente À Guerra Usada"

"Honra-se A Pátria De Tal Gente"

"Gente Ousada Mais Que Quantas"

Um abraço de admiração, orgulho e amizade para todas as camaradas Boinas Verdes, Enfermeiras Pára-quedistas.

O Páraquedista atento ;)


Afixado por: Pára-quedista em março 11, 2004 02:07 AM

Só posso agradecer a participação. Volte sempre e dê o seu contributo.

Afixado por: Sandra em março 11, 2004 07:00 AM