novembro 30, 2003

MUTILADOS. CONSEQUÊNCIAS DA GUERRA EM ÁFRICA (1961-1974): testemunhos- 1

Dando continuidade ao post sobre o assunto editado no passado dia 18, apresentamos o 1º testemunho da responsabilidade de Luís Almeida Machado. Nasceu em 1948 e foi fuzileiro especial. Serviu na Guiné (1967-1969 e 1970-1971) e em Angola (1972-1973).

MUTILADOS. DOR ETERNA

Luís Almeida Machado
"Fui para os fuzileiros porque onde eu vivia não tinha saídas nenhumas. Lembrei-me de ir para a Marinha para ganhar alguns tostões. Fui formado lá e, com um certo espírito de aventura e parvoíce, assim que o curso de fuzileiros especiais acabou ofereci-me como voluntário para a Guiné. Como lá se ganhava mais, e eu tinha sido promovido, quando terminei a comissão fui novamente para lá. Tinha vontade de fazer asneiras e fiquei na Marinha porque não tinha qualquer outra formação para trabalhar. Até 1969, os fuzileiros estavam aquartelados em Bissau e faziam operações periódicas onde era necessário e quando os superiores o determinavam. Normalmente, as operações eram de oito em oito dias, ou de quinze em quinze dias. Íamos para o interior e andávamos por lá não sei quanto tempo. Em Angola era diferente, porque normalmente as operações eram de um dia. Íamos ao objectivo, fazíamos o que tínhamos a fazer e regressávamos. Quando o general Spínola chegou dizia-se, na conversa popular, sobre ele: "Agora, passamos à psico." Criou-se a ideia de que Spínola queria transformar os métodos de actuação na Guiné. Mas a questão do aquartelamento dos fuzileiros não dependeu só de Spínola. Quando umas lanchas foram atacadas no rio Cacheu, houve necessidade de se colocar uma unidade de serviços especiais na zona. Então, os fuzileiros passaram a estar aquartelados também em Buba, em Ganturé, em Teixeira Pinto, fazendo operações por toda a Guiné. Sempre que havia qualquer coisa os helicópteros transportavam-nos para lá.
Aquilo limitava-se, às vezes, a espalhar lá uns panfletos. Uma vez mandaram imprimir uns impressos com a imitação de uma nota de mil escudos, que era o que o governo daria aos tipos por cada arma que encontrassem. Mas em termos de operações, quando lá cheguei, cada vez que seguíamos para uma operação no interior éramos flagelados uma, duas, três ou quatro vezes. Na segunda comissão já não foi assim. Penso que terá sido pela experiência que o PAIGC adquiriu, passando a aparecer-nos com maior segurança, sem se expor tanto. A partir de 1970, eles já não surgiram com tanta frequência. Fui ferido em Bissau, no dia 13 de Junho de 1971, quando caíram obuses junto à SACOR, por baixo das instalações dos fuzileiros. O meu destacamento estava aquartelado, na altura, em Porto Gole, numa situação transitória, e foi chamado para perseguir o grupo que tinha flagelado Bissau. Fomos a Bissau, de onde partimos de helicóptero para a perseguição. Estivemos uma noite inteira a andar e, cerca das treze horas, estávamos a descansar um pouco quando eles nos apareceram. Isto só confirmava que eles tinham adquirido mais experiência, porque só apareceram quando estávamos a descansar. Fui ferido com estilhaços, na bariga e na perna, eu e mais dois. O helicóptero foi-nos buscar e fomos para o hospital. Fui tratado em Bissau e depois fui fazer os últimos tratamentos às nossas instalações no aquartelamento de fuzileiros, porque éramos melhor tratados aí. Em relação às reacções, quer minhas quer de outras pessoas, não estou contra ninguém. Mas lembro-me de que, no dia em que cheguei com os outros dois fuzileiros ao hospital militar em Bissau, cerca das catorze horas, já lá tinham dado entrada vinte e tal militares feridos. O general Spínola foi visitar o grupo todo e eu recordo-me de o ouvir dizer: "Isto hoje, está a render." Ainda hoje não sei o que é que ele queria dizer com aquilo, mas não gostei de ouvir. Fui tratado, estive lá dois ou três meses, e voltei para Ganturé, onde estava aquartelada a minha unidade. Não vim para Portugal antes do fim da comissão. Em Angola não tive grandes problemas porque estive sempre em zonas muito pacatas, no Sul.
Não sou uma pessoa muito sensível, mas ainda vivo com a guerra. Anteontem, passei a noite toda na Guiné. Em média, de três em três semanas, vivo na Guiné, com coisas que se passaram, e com outras que eu invento. Em relação aos pesadelos, já sonhei mais que uma vez com uma cena que se passou lá. Eu andava no rio Cacheu, dentro de um bote, com quatro homens, para impedir que se fizesse o transporte de material de guerra para a outra margem. Cada grupo passava lá oito horas, de noite. Recordo-me que estava na minha hora de descanso, a tentar dormir quando, em sonhos, imagino que vejo na margem do rio um grupo de guerrilheiros, e que quero informar o meu grupo mas que não consigo. Como não me consigo mexer nem fazer nada, fiquei numa aflição, a transpirar, até que me lembrei que estava a sonhar. Mas não conseguia acordar nem falar com nenhum.
Isto aconteceu-me mais duas vezes cá em Portugal. É uma coisa infernal. As coisas que me marcaram foram muitas, muitas, muitas. Houve uma extremamente chocante, durante uma operação que fizemos. Ao amanhecer, chegámos ao objectivo: um poço onde os grupos de guerrilheiros e as famílias se abasteciam de água. Emboscámos junto ao poço, e deparámos com duas ou três mulheres e quatro ou cinco homens, alguns armados. Desencadeou-se o fogo, não morrendo nenhum homem, mas ficando uma mulher ferida, que trazia uma criança às costas. A mulher ficou deitada meio de lado, com a criança a gritar. E houve um colega meu, fuzileiro, que pegou num sabre- a mulher estava de pernas abertas- e espetou-lhe o sabre na vagina. Na altura, fiquei revoltado: "Porquê? O que é a guerra? A guerra é isto?" Viemos embora e a criança ficou a chorar. Esta cena chocou-me muito, porque isto não era guerra. Outra história foi quando capturámos um indivíduo. Ele não nos podia acompanhar, mas também não o podíamos largar para ele não denunciar a nossa posição. Então, o comandante deu ordem para o matar. Encheram-lhe a boca de trapos para não gritar e espetaram-lhe um sabre no pescoço. À primeira não entrou, mas entrou à segunda".

(p. 959-960)

Publicado por sandra em novembro 30, 2003 06:52 PM
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