novembro 30, 2003

MUTILADOS. CONSEQUÊNCIAS DA GUERRA EM ÁFRICA (1961-1974): testemunhos- 2

Continuando a apresentação de testemunhos representativos da problemática supra-referenciada, seguem-se as palavras de Mário Santos Sobral. Nascido em 1946, foi 1º cabo comando. Serviu em Angola (1967-1968).

MUTILADOS. DOR ETERNA

Mário Santos Sobral
"Fui classificado para os comandos, tirei o curso de comandos em Angola e mantive-me operacional até ao ano em que fui ferido. Fazia operações constantemente. No dia 13 de Janeiro, partimos para o Leste de Angola, para Teixeira de Sousa, depois para Gago Coutinho, Lumbala, entrámos na Zâmbia. Estive uns três meses no Leste de Angola. Descansávamos dois ou três dias, no máximo cinco, e avançávamos outra vez para o mato. Tínhamos também operações relâmpago, quando íamos num dia e vínhamos no outro. Demos muitos tiros, fizemos muitas baixas ao inimigo, caçámos muitas armas, mas nunca sofremos qualquer baixa enquanto estivemos no Leste de Angola. Só no Norte de Angola é que sofremos uma baixa. Eu fui ferido na Maria Fernanda, na zona dos Dembos, no Norte. Aí sim, fomos muitas vezes atacados pelo MPLA. Uma noite fiquei a emboscar um trilho por onde eles passavam e por onde acabaram por não passar porque nos pressentiram. Da vez que fui ferido, a minha equipa ia à frente, o mato era muito intenso, e demos com um acampamento. Nessa altura, as balas batiam mesmo junto a nós e fizemos a reacção. Eu fui atingido na coluna por um estilhaço, ou qualquer coisa, mas não fiquei logo paraplégico. Ainda fui para Luanda no carro. Aguentei com muitas dores até ao outro dia, e ainda fui para o hospital pelos meus próprios pés. Só quando me fizeram a punção lombar no hospital é que eu deixei de sentir as pernas. Se fosse socorrido mais a tempo, talvez não tivesse ficado paraplégico. Depois, estive 23 dias nos cuidados intensivos de Luanda e fui evacuado para Portugal. Fiz tratamentos no Hospital Militar de Alcoitão. O que senti primeiro, quando fui ferido, foi raiva aos pretos. Mas a maior raiva que eu tive foi quando cheguei ao hospital, a berrar de dores, e o médico me disse: "Ou te calas ou não te faço nada." Era a má vontade dele para me fazer a punção lombar".

(p. 960-961)

Publicado por sandra em novembro 30, 2003 10:19 PM
Comentários