dezembro 20, 2003

0 3Oº ANIVERSÁRIO DA FUNDAÇÃO DA LIGA INTERNACIONALISTA COMUNISTA: Portugal, Dezembro de 1973

Verificando-se hoje a comemoração na "Voz do Operário" em Lisboa, dos 30 anos sobre a fundação da Liga Comunista Internacionalista (LCI), originária do futuro PSR (Partido Socialista Revolucionário), editamos a cronologia que faz a ligação entre estes dois acontecimentos saída no jornal Público, num trabalho da responsabilidade de Maria José Oliveira (20/12/2003).

DA LIGA COMUNISTA INTERNACIONALISTA AO PARTIDO SOCIALISTA REVOLUCIONÁRIO

1969
No contexto da crise académica de Coimbra, João Cabral Fernandes, estudante de Medicina, e Francisco Sardo, aluno de Filosofia, organizam o Centro de Estudos Sócio-Económicos, que promove uma alternativa à esquerda dominante. Sardo viaja para França. Assiste, em Paris, a um comício da Liga Comunista Revolucionária (LCR) e reconhece empatia com as palavras de Daniel Bensaid e Alain Krivine, dirigentes da IV Internacional. Cabral Fernandes é detido durante a crise académica.

1970
O Centro de Estudos Sócio-Económicos edita clandestinamente o livro "Tratado de Economia Marxista", de Ernest Mandel. Cabral Fernandes é eleito para a direcção da academia coimbrã e organiza uma república de contornos inéditos- sem nome, mista e antipraxe.

1971
Dois jovens do grupo trotskista de Coimbra, Cabral Fernandes e Jorge Nabais, viajam para França, onde estabelecem relações com dirigentes da LCR. No fim do ano, Cabral Fernandes e José Falcão abandonam Coimbra e instalam-se em Lisboa. Sardo ruma para o Porto.

1972
São criados os Grupos de Acção Comunista (GAC) em Lisboa, Porto e Coimbra. Na capital, as acções centram-se na luta contra a guerra colonial e no Porto prosseguem intervenções junto do operariado e dos estudantes universitários. Uma cisão no grupo do Porto origina a criação da União Operária Revolucionária (UOR), que tem reservas sobre a IV Internacional e privilegia acções nos bairros operários. Francisco Vale, Heitor de Sousa, António Brandão e Adelino Fortunato dirigem a organização. Em Dezembro, na Capela do Rato, Francisco Lousã e Bernardo Vasconcelos e Sousa são presos, juntamente com mais de uma centena de activistas, numa vigília de contestação à guerra colonial.

1973
Três dirigentes dos GAC/Lisboa- Alfredo Frade, José Manuel Boavida e António Gomes- são presos durante a distribuição de panfletos. Durante o Verão, vários activistas trotskistas viajam para Paris. A 17 e 18 de Dezembro, em casa de Manuel Cavaco, em Peniche, os GAC reúnem-se naquele que será o encontro de fundação da Liga Comunista Internacionalista (LCI). Para o comité central são eleitos Cabral Fernandes, Faustino (um dos dirigentes do PAIGC em Portugal) e João Alcântara (Lisboa), Sardo e Ferreira dos Santos (Porto) e Carlos Queirós (Coimbra). O movimento lança um dos "slogans" mais ouvidos nas manifestações: "Nem mais um soldado para as colónias".

1974
A 23 de Abril, a LCI manifesta-se contra a guerra colonial na Cova da Piedade (foi a última acção política antes do 25 de Abril) e os participantes arremessam pedras às montras da filial do Banco Pinto de Magalhães. A queda da ditadura leva à reformulação da LCI e à reunificação com a UOR. São eleitos novos dirigentes para o comité central e estabelecido um funcionamento centralizado em Lisboa. Comício na Voz do Operário (dia 19 de Maio), com a participação de Ernest Mandel, da IV Internacional. O encontro é promovido por quatro grupos políticos de estrema-esquerda e acontecem alguns desacatos quando Sardo alude à "ditadura estalinista".

1975
Em pleno "Verão quente" realiza-se o II Congresso da LCI, no qual surgem quatro tendências e são apresentadas cerca de meia centena de moções. Vence a corrente liderada por Francisco Vale, que é favorável à integração da LCI na FUR (Frente de Unidade Revolucionária), grupo que inclui também o MES (Movimento da Esquerda Revolucionária), o PRP (Partido Revolucionário do Proletariado) e a LUAR (Liga Unitária de Acção Revolucionária). Em Agosto, a LCI constitui os SUV (Soldados Unidos Vencerão), grupos de militares que actuam no interior dos quartéis com vista a promover a auto-organização política dos militares. Os SUV actuam sob a direcção de Ferreira Fernandes, Manuel Resende, José Carvalho e Heitor de Sousa, entre outros. Face ao golpe militar do 25 de Novembro, a LCI desafia a proibição imposta às publicações de extrema-esquerda e no dia 26 lança para as ruas o nº 19 do "Luta Proletária", jornal oficial do movimento.

1976
No III Congresso da LCI, em Janeiro, é eleito um novo comité central (composto por Cabral Fernandes, Lousã, Frade, Brandão e Heitor de Sousa) e criticada a integração na FUR. Francisco Vale é um dos dirigentes que se afastam do partido. Em Abril, a LCI concorre às eleições legislativas (obtém precisamente 16 232 votos), mas vê os seus tempos de antena na televisão e na rádio serem suspensos por ordem do Conselho da Revolução (CR), que acusa o partido de criticar o militarismo. O CR acaba por recuar na sua decisão.

1978
Aquele que seria o IV Congresso da LCI torna-se no congresso de criação do Partido Socialista Revolucionário (PSR), fundado a partir da fusão da LCI com o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT). É lançado o jornal "Combate Operário". Uma das primeiras posições do PS foi a "luta contra o Governo de Mota Pinto, cujo objectivo é continuar a atacar os trabalhadores".

(Itálico nosso)

NOTA: Refere Maria José Oliveira que "Algumas destas informações foram recolhidas na publicação comemorativa dos 20 anos da LCI, editada pelo PSR em 1993, e em vários jornais da época.

Publicado por sandra em dezembro 20, 2003 05:48 PM
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