Na sequência de um excerto ontem editado (citação do autor)- que corresponde, aliás, ao 1º parágrafo do texto hoje apresentado-, deixamos para consulta o artigo integral de António Manuel Hespanha, intitulado "Para ler os tristes dias de hoje".
Publicado na revista História de Maio de 2003, chama o seu conteúdo a atenção, num contexto internacional de guerra, para aspectos ou regras que devem ser atendidos e seguidos pelos historiadores, no sentido de explicarem acontecimentos verificados nos dias de hoje.
Especificando situações que se encontram directamente relacionadas com contextos de conflito armado, não deixa o autor de alargar o seu âmbito para aquela que é a generalidade da compreensão de civilizações diferentes da ocidental.
Neste sentido, as abordagem feitas desenvolvem as seguintes problemáticas:
1. A crítica das fontes.
2. A diferente notoriedade da verdade "dos factos".
3. A questão da diferença.
(HESPANHA, António Manuel- "Para ler os tristes dias de hoje". In: História. Ano XXV (III Série), nº 56, Maio 2003, p. 18-19)
PARA LER OS TRISTES DIAS DE HOJE
"A história- já o escrevi aqui por demais- não é, nem a mestra da vida, nem um seguro contra o erro. Mas tem regras úteis para ler as coisas de modo menos arbitrário. Os historiadores conhecem-nas, embora em grau diverso.
A primeira diz respeito à crítica das fontes. Nem todos os documentos são "verdadeiros". A guerra sempre teve a verdade como a sua primeira vítima. As palavras, escritas, cantadas ou difundidas em briefings, sempre foram uma arma, hoje das mais temíveis e de destruição (moral) mais massiva. Por vezes a falsificação dos documentos é tão grosseira que o inimigo tem vantagem em mostrar rapidamente ("olhem como eles são mentirosos!"). Outras vezes, é mais insidiosa, legitimada por ares de serena pompa, por apresentações em Powerpoint ou por animações tecnologicamente sofisticadas. As falsificações que mais temo são as dos chamados analistas independentes com que nos brindam todas as noites. Frequentemente, uns espertalhões de conhecidos engajamentos, mais uns militares de conspícua experiência bélica, quase todos a tirar o partido que podem da ignorância e da desgraça alheias. Tomar como verdades o que os contendores dizem- directamente ou por interposta pessoa- é, para qualquer historiador, um erro de palmatória.
De palmatória é também julgar que todas as verdades "dos factos" ganham a mesma notoriedade. Algumas são pura e simplesmente silenciadas, outras não têm força para se fazer ouvir. A vida quotidiana, feita de palavras em voo, foi sempre uma destas últimas. As opiniões das pessoas comuns, dos que não foram poderosos, cultos, ou ricos, têm tido o mesmo destino. Por isso é que a história "das mentalidades" surgiu contra a história "da cultura"; ou, mais recentemente, que a história oral surgiu contra a história feita à medida das fontes escritas; ou, ainda, que a história dos grupos "subalternos"- ou seja, daqueles que, por não dominarem os media, foram reduzidos ao silêncio- surgiu contra a história dos homens, dos brancos ou dos "normais. Hoje, os meios de produção de notícias (de "acontecimentos") estão tão desigualmente repartidos que as oportunidades de se ser sujeito da história nunca foram tão desiguais. Já vimos muitas vezes Donald Rumsfeld, mas nunca vi nem Noam Chomsky, nem Edward Said, nem Gunter Grass, nem nenhum dos muitos intelectuais dissidentes da guerra. Tal como os iraquianos nunca viram, na televisão deles, os opositores ao seu regime. Fartei-me de ver prisioneiros iraquianos em todas as posições e situações. Mas o acontecimento "prisioneiros" só apareceu quando apareceram imagens, também lamentáveis, dos prisioneiros americanos. Quanto aos que estão em vários Guatanamos, esses nunca os verei e, salvo em fontes de informação raras e de elite (como os relatórios da American Bar Association, a prestigiosa associação de advogados dos Estados Unidos), nunca serão acontecimento. Claro que posso- os iraquianos talvez não ...- andar a procurar uns e outros na Internet ou em jornais mais ou menos sofisticados e indisponíveis. Mas isso não muda uma vírgula quanto ao fundo do problema.
A terceira regra do bom historiador é lidar com o diferente. E, para isso, ser capaz de fazer a difícil operação intelectual que é, no conhecimento do outro, ir para além das suas aparências (ou das suas evidências). Nunca é demais repetir isto nos tristes tempos de hoje. Os média todos os dias constroem uma imagem dos contendores, mesmo quando não fazem senão filmá-los "como eles são". Nos nossos enterros, por muita raiva que tenhamos pela morte e por quem a causou, há uma serena compostura ritual. Não se grita, não se corre atabalhoadamente com o morto aos ombros, não se dão tiros para o ar, não se queimam, em pleno féretro, as efígies do condutor bêbado ou do médico incompetente. Hoje, não temos mártires entre nós, apesar de os continuarmos a honrar nos altares e nos panteões, como santos e como heróis. Mas, se os tivéssemos, não os poríamos na televisão, transmitindo, em carne viva, a sua determinação suicida. As nossas manifestações são organizadas e marcadas pela moderação das palavras de ordem. Os nossos líderes não antecedem cada intervenção com uma invocação de Deus e, de qualquer modo, o nosso Deus chama-se mesmo "- Deus", como Deus manda, não dando por esse nome de Alá, que nos remete para medos atávicos. Alguns dizem que tudo isto acontece, porque somos mais civilizados (ou mesmo, apenas civilizados). Pelo menos, assumem o seu etno-centrismo; embora não expliquem muito bem porque é que, depois de 200 anos de esforços violentos, o homem branco ainda não pôde descansar de transportar o seu fardo. Outros- como a generalidade dos bons historiadores a fazer história- preferem chamar a isto "diferenças culturais". Enfim, não exigem ao mundo muçulmano que tenha tido o nosso Iluminismo, a nossa Declaração dos Direitos do Homem, o nosso laicismo, as nossas boas maneiras, a nossa ritualização da morte, a nossa forma de exprimir sentimentos, a nossa maneira de sentir, a nossa geometria da alma, o nosso nome de Deus. Tudo tem de ser contextualizado, mediado pela inteligência da diferença, despido de preconceitos ocidentais, entendido num contexto cultural, social e político que não é o nosso, mas na construção do qual nós temos colaborado, desde há duzentos anos, raramente de forma exemplar.
Muitos pensarão que este afã de compreensão é a garantia da desculpa e o princípio da cumplicidade. Os historiadores sabem que, pelo contrário, tentar compreender é o corolário da sabedoria e o princípio da convivência. No caso dos historiadores, a questão é puramente intelectual. No caso dos leigos dos dias de hoje, é também existencial e moral. E, por isso, mais decisiva.
Uma nota final. O que aqui escrevo não é consensual entre os historiadores. Muitos pensam que, com esta querela dos métodos, a história perdeu em ligibilidade e que, por isso, perante a indecisão sobre quem tem razão, mais vale, neutralmente, contar as coisas "como elas realmente são (ou foram)". Como aquele vizinho que, ao descer as escadas, ouve um marido espancar a mulher. "Sei lá quem tem razão... Para que me vou meter nisto? Eles que se entendam, que devem estar um para o outro". Entretanto a mulher vai sendo normalmente espancada. Muitas vezes a mulher tem razão; quase nunca oferece um perigo que a tareia possa prevenir; e, de qualquer maneira, nunca por nunca deveria ser espancada. A mulher perdeu tudo- dignidade, paz, e, por vezes, a vida; mas o vizinho não sujou as mãos e continua a ser um cidadão que pode dar lições de neutralidade e de sabedoria aos que se metem nos insondáveis sarilhos dos outros".
(Sublinhado a negro nosso)
Publicado por sandra em dezembro 22, 2003 01:26 PM