Concluímos hoje a edição da entrevista ao arqueólogo Cláudio Torres. Nesta parte restante são dadas respostas a:
15. Voltando à ciência e ao conhecimento. Há um florescimento extraordinário da ciência, da própria filosofia, do estudo, de uma convivência do livre pensamento até ao século XIV. E depois parece que há um corte. As grandes figuras, Averróis, Avicena, Ibn Khaldun, os grandes viajantes, o Ibn Battuta, são todos até ao século XIV. Depois parece que há um corte...
16. Está a falar das repúblicas marítimas veneziana, genoveza, Amalfi, etc, e depois da Espanha e de Portugal... Todos vão estrangulando...
17. Isto é: enquanto há crescimento no Norte, o mundo islâmico vira-se para dentro...
18. Só que diante desse ataque há muita coisa que se vai perdendo. Por exemplo, o velho conceito de cidade-mosaico mediterrânica está praticamente destruído...
19. A queixa permanente que se ouve um pouco por todo o lado é que os árabes não se unem. E a verdade é que olhando a história, vemos sempre muitos conflitos.
ENTREVISTA COM CLÁUDIO TORRES
15. Voltando à ciência e ao conhecimento. Há um florescimento extraordinário da ciência, da própria filosofia, do estudo, de uma convivência do livre pensamento até ao século XIV. E depois parece que há um corte. As grandes figuras, Averróis, Avicena, Ibn Khaldun, os grandes viajantes, o Ibn Battuta, são todos até ao século XIV. Depois parece que há um corte...
E há. Temos de ver que todas essas e muitas outras figuras são os últimos representantes da cultura mediterrânica. A sua base filosófica vai beber a Aristóteles, a Platão. Eles foram os herdeiros de toda a cultura milenar do Mediterrâneo. Dos grandes sábios do Egipto que hoje conhecemos mal ou que desapareceram. Toda a ciência do Egipto, da Mesopotâmia, grega, latina, está neles condensada. Não só a conhecia, como foram os seus tradutores para o árabe, de onde passou depois para as línguas latinas ou neolatinas. Eles são o repositório desse passado. De certa forma, estes sábios marcam o final da sua própria civilização e o lançamento de uma ponte para a Europa moderna. E de facto é nas cidades-Estado, nas repúblicas italianas, que surge essa viragem. Ainda fortemente ligadas ao mundo do Sul, ao mundo islâmico, estão também em contacto com uma nova riqueza e muito poder que chega das extensas e fartas planícies europeias. A partir dos séculos XIII-XIV, esta Europa feudal já impulsionada pela burguesia nascente, expande-se para Sul. É o que sucede na França e na Península Ibérica. Na altura, era no al-Ândaluz que florescia a civilização mais avançada da sua época. Não há dúvida que esta civilização brilhante foi sendo integrada e assimilada pelos recém chegados do Norte, o que justifica a importância histórica da Península Ibérica nos tempos que se vão seguir. Era impensável de outra forma. A expansão europeia não acontece em Londres ou Paris e sim nas orlas do Sul, em Sevilha ou Lisboa, cidades que herdaram os saberes mediterrânicos.
Mas também é preciso notar que a lógica económica dos mercados mediterrânicos estava a esgotar-se. Eram cada vez mais difíceis os caminhos da seda, do ouro e das especiarias. E a nova Europa, enriquecida com os saberes mediterrânicos precisa de expansão rápida, tem necessidade de atingir os grandes mercados do Oriente. Não é por acaso que andam todos em busca do caminho para a Índia. Os percursos do interior estavam esgotados. Havia um certo marasmo, as mercadorias chegavam a preços altíssimos. De repente há uma explosão, em que a parte mais dinâmica da sociedade, a burguesia mercantil- muitos deles antigos muçulmanos ou judeus convertidos à nova ordem- se lançam na aventura marítima, na conquista de todo o mundo. É uma época em que a Europa é inundada de grandes riquezas vindas do saque de outros continentes, levando à marginalização das antigas redes comerciais mediterrânicas e portanto ao empobrecimento dos países islâmicos.
16. Está a falar das repúblicas marítimas veneziana, genovesa, Amalfi, etc, e depois da Espanha e de Portugal... Todos vão estrangulando...
Vão estrangulando. Estes centros de expansão comercial marítima, tinham consolidado a sua rectaguarda. É o caso de Veneza com as planícies riquíssimas do Veneto que a rodeiam a Norte. É uma espécie de gigantesco anfiteatro com águas correntes dos Alpes... Assim como Génova, apertada entre as rochas do seu porto... e que no entanto domina um vasto território, com as planícies do pó e as ilhas da Córsega e Sardenha. De antigas cidades-Estado, passam a poderosos Estados modernos. A constituição destas nações ibéricas e italianas, com vastos territórios e viradas para o comércio mundial vai desviar e secundarizar os circuitos antes dominados por Alexandria, Damasco ou Bizâncio.
17. Isto é: enquanto há crescimento no Norte, o mundo islâmico vira-se para dentro...
Vai enquistando. E é um processo que continua até aos nossos dias. A grande expansão começara nas repúblicas italianas, e depois prossegue pelas Descobertas ibéricas. Mas a pendulação histórica tem muitas variantes. Nunca sabemos qual poderá vir a ser no futuro um outro pólo de desenvolvimento. A África, as Ásias, a própria América do Sul, são zonas que ainda não tiveram historicamente a sua oportunidade de serem pólos agregadores de civilizações. Aquilo que se vai construindo passa-se como um testemunho a outras civilizações, a outros espaços.
Quanto ao Islão, à religião muçulmana, continua em expansão. E este é um facto indesmentível. É a única grande religião que mantém uma grande e rápida expansão. Pela sua espantosa simplicidade, pelos seus mecanismos de reconhecimento quase não-iniciáticos, toca muito fundo os mais desprotegidos, os mais explorados, os mais marginais. A grande marginalização que está a ser feita pela nossa civilização ocidental, a empurrar os que não vencem, a esmagar os mais fracos, a atirar para o lixo milhares ou milhões de pessoas e de povos, está a alimentar o Islão na sua faceta de protesto, de porto de abrigo, de defesa contra uma agressão cada vez mais violenta. Um Islão que era um imenso mosaico de povos, de culturas, de formas de ser, mesmo de micro-religiões, está a ser empurrado pelo autismo desta nossa civivilização todo-poderosa para uma agressiva resistência, como única de forma a manter alguma identidade.
18. Só que diante desse ataque há muita coisa que se vai perdendo. Por exemplo, o velho conceito da cidade-mosaico mediterrânica está praticamente destruído...
Pois está. Mas aí entra um outro fenómeno dramático que aconteceu já há 50 anos, que foi a criação de Israel. Não podemos acusar os judeus ou o judaísmo. Foram os grandes interesses financeiros já ligados ao petróleo que criaram o Estado de Israel. Os judeus das cidades mediterrânicas que tinham os seus bairros, os velhos melahs (que eram zonas originalmente dedicadas ao comércio do sal), foram obrigados a abandonar as suas casas e a emigrar para Israel com promessas miríficas.
Esta deslocação artificial de populações e a crescente e falsa tensão religiosa alimentada de fora do Mediterrâneo é infelizmente hoje o modelo que domina toda a região. Esta luta feroz entre as populações autóctones e os recém-chegados, oriundos da América do Norte ou de países eslavos, nascidos e criados em culturas que nada têm a ver com os antigos equilíbrios locais, é hoje, infelizmente, dominante em todo o Próximo Oriente. Estamos num impasse sem solução à vista. Precisamente porque foi quebrada a velha civilização mediterrânica, onde as várias religiões e culturas sempre conviveram mais ou menos pacificamente.
19. A queixa permanente que se ouve um pouco por todo o lado é que os árabes não se unem. E a verdade é que olhando a história, vemos sempre os mesmos conflitos.
O problema é que nós misturamos tudo de uma forma muitas vezes inconsciente. Não se trata de árabes, mas de muçulmanos. Falar assim da união de árabes é a mesma coisa que estarmos a perguntar porque é que os franceses, os ingleses e os espanhóis não se uniram na história, se eram todos cristãos. É completamente impossível: são civilizações diferentes. Cada cidade tinha a sua própria história. O que é que tem a ver um egípcio com um libanês? Muito pouco. E um egípcio com um marroquino? Nada, absolutamente nada, a não ser a mesma religião. São povos e culturas diferentes. O que hoje os une é apenas a religião, o que a está a transformar no único cimento unificador. Não nos podemos esquecer que o árabe falado em Marrocos era incompreensível no Egipto, não se entendiam porque falavam árabes dialectais. Era como aqui na Europa. Porque é que um português e um francês não se entendem? A origem é o latim, mas depois evoluíram de forma diferente. A mesma coisa sucedeu no Norte de África.
Mais tarde e com objectivos políticos, começou a ser imposto o árabe clássico. Era a mesma coisa se nós na Europa tivéssemos o latim obrigatório. Teria toda a gente de aprender latim para comunicar entre si. Foi o que fez este movimento unificador religioso do árabe, que está a aumentar exponencialmente. Neste momento, toda a gente fala árabe clássico, pelo menos na classe média alta. A escolarização é feita em árabe clássico, corânico.
havia de ser mais pequeno e mais concreto para eu preceber. gostava que me ajudasem mais.
obrigada