Aprofundando conteúdos relacionados com citações anteriormente apresentadas, editamos um texto da autoria de António Manuel Hespanha, intitulado "Porque é que esta sociedade nos há-de querer", saído na revista História de Abril de 2002.
Neste texto o historiador debruça-se sobre aquela que deve ser a realidade do ensino da História, nomeadamente em termos universitários, assim como qual o lugar que o historiador pode ocupar no âmbito da sociedade contemporânea, designadamente ao nível da sua inserção em empresas (ao nível da indústria portuguesa).
Neste contexto de inserção renovada, especifica aquelas que são (ou devem ser) as competências de indivíduos com formação na área da História.
(HESPANHA, António Manuel- "Porque é que esta sociedade nos há-de querer?". In: História. Nº 44. Ano XXIV (III Série). Abril 2002, p. 16-17)
PORQUE É QUE ESTA SOCIEDADE NOS HÁ-DE QUERER?
"Há um par de semanas, num zapping desesperado-prospectivo, caí sobre uma entrevista do Engº Ludgero Marques, que falava sobre o Estado que era o do país, antes das últimas eleições.
Para além de que gosto de ouvir a sociedade civil, alimento a presunção de que este empresário nortenho (...) sabe o que diz, pela simples razão de que se trata de uma pessoa que julgo ter construído uma sólida fortuna com o seu trabalho. Daí que o ouça com atenção.
Quando o apanhei, ele falava do ensino, que está mal, como toda a gente o sabe (embora não me pareça que toda a gente saiba porque é que está mal e, muito menos, como é que pode ficar bem). O engenheiro dizia, para além de outras coisas correntes, uma coisa que, embora muito me pese é bastante verdade. Que a universidade estava mal porque estava na mão dos "sábios". Com "sábio" queria ele designar uma espécie que todos nós conhecemos (se não é que quase todos nós somos mesmo): pessoas que antepomos a lógica da ciência (ou o que pensamos ser isso) à lógica dos usos sociais da ciência. E que, por isso, desenhamos programas, cursos, pós-graduações, mestrados e doutoramentos (que, agora, vai dar quase tudo ao mesmo) sem ter na menor conta aquilo que a sociedade (disse, a sociedade, não disse o mercado) realmente pede (ou não pede, mas devia pedir, se desculparem o vanguardismo...).
Mas o Engenheiro disse mais. Disse que o mal é que estes sábios se estavam a preparar sofisticadamente para o futuro, quando a nossa sociedade ainda nem era do presente. E que, portanto, se devia fazer um downgrade das pretensões científicas e, em vez de trabalhar sobre semi-condutores, trabalhar sobre correias de transmissão e rodas dentadas (ele não disse isto assim, mas este era o espírito geral da coisa).
Claro que o Engº Ludgero Marques (...) tocou num ponto sério. A indústria portuguesa está antiquada. Parece que ele não crê que se possa modernizar tão depressa (...). E daí que, muito realisticamente, acha que o melhor é pôr as universidades e a investigação no mesmo passo da indústria. Que a primeira proposição é uma injustiça para com muitos empresários (a começar, porventura, por ele próprio), parece-me evidente. Que alguma coisa tem que ser feita para formar gente para uma indústria que é o que é, também é claro. Mas que isso implique que a universidade e ciência (?), no nosso país, devam eleger isso como seu objectivo maior é, para dizer o menos, uma irresponsabilidade.
O que é que isto tem a ver com a história?
Não, por certo, louvar as vantagens da arqueologia industrial, embora muita dessa tal indústria a que Ludgero Marques se refere deve ser preservada apenas para fins museológicos, incluindo no museu as instalações e as relações de trabalho correspondentes.
Mas tem a ver com uma pergunta mais fundamental para nós. Será que a história é um dos tais luxos a sacrificar às necessidades da sociedade? Ou, restringindo mesmo mais (para evitar qualquer espécie de "cultismo"), do mercado?
Não estou, por outras palavras, a falar de historiadores para museus, para arquivos, para dar aulas. Nem estou a falar no enorme campo de trabalho que as ideias de protecção do património trouxeram aos arqueólogos nesta nova maré fontista. Não. Estou a falar, carrément, da utilidade genérica dos historiadores como gestores e prospectores das relações sociais, ao nível dos serviços e das empresas.
Se é alguma coisa, o historiador é um técnico dos homens e dos tempos. Combinando, dos homens nos tempos, nas situações mutáveis das vidas e das sociedades. Disso, viu o historiador muito. E, se não esgotou a sua curiosidade (ou não foi convidado a isso pelos seus formadores) num mero saber passadista e descritivo, deve ter ideias, pressentimentos, sensações, sobre muitos modelos de sociedade, muitos modelos de cultura, muitos modelos de comportamento humano e muitos modelos de relacionamento de todos os anteriores modelos. Como sabe muito sobre o passado dos homens, o historiador tem um material notável para, sobre ele, fazer elaborar a imaginação e a inteligência. Uma imaginação e uma inteligência, ambas prospectivas, voltadas para o futuro, para aquilo que há-de ser, mas que os empresários, frequentemente, não sabem ler nos seus saberes técnicos, da terceira, da segunda ou ainda mesmo da primeira geração industrial.
Numa época de pluralismo sócio-cultural e de mudança imprevisível como a nossa, esse saber é de capital importância para o tecido empresarial, contar com estes técnicos da inteligência e da imaginação sobre o humano pode ser fundamental. Não me refiro apenas às vantagens da sua presença nas equipas de planeamento estratégico. Refiro-me também à importância que podem ter a escalões menos altos, ao nível da gestão corrente das relações humanas (no âmbito da empresa, com o mercado) ou das relações com a sociedade e com o homem.
E a prova provada disto é a tendência verificada, também em Portugal, para o aumento da procura de historiadores para o desempenho de perfis profissionais que nada têm a ver com a história.
Claro que, para isto, algo se tem que fazer na formação dos historiadores. A liquidação do mau positivismo (...), a habituação trans-cultural, a percepção de constantes na evolução, a capacidade de extrapolar com agilidade do passado para o presente- usando o passado, não como um modelo, mas como uma chispa da imaginação prospectiva-, a sensibilidade para as especificidades e constrangimentos das conjunturas, tudo isto são valores a cultivar no ensino da história, dirigido a estas novas funções. Valores que, bem vistas as coisas, são funcionais mesmo em relação às rotas palmilhadas por Clio".
(Sublinhado nosso)
Publicado por sandra em dezembro 23, 2003 03:34 PMgostaria de receber materia sobre sociedade e seus desenvolvimentos
Afixado por: Francisco Manuel em abril 26, 2004 03:19 PM