dezembro 24, 2003

O "FENÓMENO FÁTIMA": alguns protagonistas

Dando continuidade à edição do texto de Bruno Cardoso Reis intitulado "Os primeiros cinquenta anos de Fátima", cuja última das partes por nós apresentada se verificou no passado dia 6, trazemos aqui hoje o conteúdo inerente à "caixa" "Alguns protagonistas". Nesta, é avançada informação mais detalhada sobre as crianças videntes: Jacinta, Francisco e Lúcia.

ALGUNS PROTAGONISTAS

Os videntes Jacinta (11.3.1910-20.2.1920) e Francisco (11.6.1908-4.4.1919)

São irmãos, e primos de Lúcia. Vivem no lugar de Aljustrel, freguesia de Fátima, concelho de Ourém. Dos relatos contemporâneos surge uma dupla imagem, de crianças normais do seu meio que gostam de brincar com as demais, mas muito marcadas pela educação religiosa, a única que receberam. Pertencem a famílias de pequenos proprietários remediados, o que nas terras pobres daquela zona significa algo acima do limiar da sobrevivência, eventualmente ricas em terras, animais e frutos, mas não em dinheiro. Os jovens trabalhavam já para os pais no pastoreio, o grande recurso face aos solos pobres e agrestes da região. Só o rapaz tem uns rudimentos de alfabetização; as raparigas não têm escola na freguesia. Ouviram relatos dos milagres bíblicos nos serões familiares, assim como de aparições mais recentes, têm na devoção pelo terço o elemento central da sua piedade, e nas procissões, o grande momento da vida religiosa local. Durante as aparições revela-se a liderança natural de Lúcia, e afirma-se a determinação dos jovens em defender a sua visão face a todo o tipo de pressões. Os dois mais novos morrem poucos anos após o fim das aparições.

A vidente Lúcia (28.3.1907)

A mais velha dos três videntes, Lúcia, aos 14 anos decide ingressar no Asilo do Vilar, das Doroteias, indo depois iniciar o noviciado em Tui. Por decisão sua? Bem mais jovem mostrou-se bastante determinada e, sem o apoio da família, que temia o escândalo, e do seu pároco, que não queria comprometer-se, enfrentou as autoridades e as penalidades que lhe eram prometidas. Não custa a crer, tendo em conta o seu percurso- e desde logo o facto de ter ouvido a Senhora a mandar-lhes aprender a ler-, que aconselhada por figuras do clero com que entretanto passou a contactar, o passo tenha sido desejado como a concretização de uma vocação, de um sonho de uma miúda do campo profundamente devota e desejosa de educação. Só em 1935, já retirada no Carmelo de Coimbra (onde ainda hoje reside), ela retoma algum protagonismo no processo de Fátima ao começar a escrever, por ordem do prelado leiriense, novos relatos das aparições. Talvez tomada pelo gosto da escrita, ou porque acreditava ver agora mais claramente o que em 1917 lhe parecia confuso, desenvolve o que então contou e regista por escrito. Estes factos criam do ponto de vista da análise histórica o problema da coerência do relato. Os diálogos entre os videntes e a Senhora registados nos inquéritos originais passam a aparecer intercalados com falas que não constam inicialmente e que contrariam inclusive o que então ficou dito (...)".

(História. Nº 29. Ano XXII (III Série). Outubro 2000, p, 21)

Publicado por sandra em dezembro 24, 2003 03:04 PM
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