dezembro 26, 2003

A PROPÓSITO DO GÉNERO BIOGRÁFICO: considerações de António Manuel Hespanha

Editamos hoje, conforme compromisso assumido pela nossa parte, o texto do historiador António Manuel Hespanha intitulado, "O género biográfico em curso". Este texto foi publicado na revista História de Janeiro de 2002, sendo agora por nós recuperado, atendendo à sua importância para todos aqueles que, sobretudo, desenvolvem pesquisa e investigação no âmbito da História.
Destacamos, no seu conteúdo, as características apontadas ao género, assim como a "contra-argumentação" do historiador perante as mesmas. E atendendo a possíveis limitações, as propostas avançadas para o seu colmatar.

(HESPANHA, António Manuel- "0 género biográfico em curso". In: História. Nº 41. Ano XXIV (III Série). Janeiro 2002, p. 16-17).

O GÉNERO BIOGRÁFICO EM CURSO

"Nos últimos tempos, a biografia ficou de moda em Portugal. Os méritos da novidade vão para um grupo de companheiros de ofício, de inspiração relativamente consistente, com referências culturais também bastante partilhadas e todos eles comungando, se não me engano, de um certo desfastio pela história chamada estrutural. Em comum têm também a escrita sedutora e um bom conhecimento, pelo menos ao nível que lhes interessa, do período sobre que trabalham. Vasco Pulido Valente (...) talvez tenha sido o detonador da corrente. A "teorizadora" tem sido Fátima Bonifácio. Os "operacionais" são vários (...).
Na teorização desta história biográfica, a que também chamam "política", ressaltam sobretudo duas ideias-chave. Uma delas é a recusa de esquemas interpretativos "fortes", daqueles usados pelos cientistas sociais dos vários matizes, substituíndo-os por uma interpretação "evidente" (pelo menos, de "senso comum"), do género daquela que nós usamos para nos orientarmos na vida. O que, sendo pacífico para nós interpretarmos a vida de hoje, é bastante mais problemático para interpretarmos a vida de há muitos anos. Os nossos filhos sabem disso quando procuram entender os pais; e nós próprios o sabemos também quando temos a sorte de ainda tentar entender os nossos. Na minha opinião, por detrás da "evidência" de alguns enredos, podem esconder-se retroprojecções da sensibilidade de hoje. E isto, já se vê, tem perigos graves.
A outra ideia-chave do nóvel biografismo é a de que são os homens concretos- e não os desenvolvimentos anónimos das "estruturas"- que modelam a história. Mas como não são muitos os homens que estão em condições de modelar a história- pelo menos, a história de um país-, quem acaba por interessar a esta corrente historiográfica são os "grandes homens", nomeadamente os "grandes políticos". A teorização disto foi explicitamente feita, se não me engano, por Fátima Bonifácio.
A "grande biografia" exige, em princípio, um "grande biografado" (pressupondo, naturalmente, que é escrita por um grande biógrafo). Na sua falta, a biografia transforma-se num acto de cruel assassinato de um personagem, sempre confrontado com o personagem ideal que nunca foi, que nas condições não poderia ter sido e que porventura nem sequer quis ser. (...)
Não quero com isto dizer que a história tenha que ser épica, sobretudo se não há conspícuos heróis a celebrar. Mas também não tem que cultivar um sobranceiro desprezo, quando não pode lidar senão com miúda gentinha afadigada com a sua caseira gestinha. Sobretudo porque glorificar ou desprezar são atitudes moralistas que me parece não caberem bem na deontologia do historiador. Para além de que, no mínimo, implicam um confronto sem sentido entre países modelos (a Inglaterra, a Prússia, a França) e países medíocres (designadamente Portugal).
Daí que- voltando um pouco atrás- se não se encontra matéria prima para biografias de grandes homens, talvez se deva repensar na hipótese mais tradicional de investigar a vida dos outros homens, traçando os tais grandes frescos sociais- que, necessariamente, haverão de ser informados por algum modelo interpretativo geral-, de onde resultem os grandes cenários (económicos, culturais, institucionais, jurídicos) em que os homens- pequenos e grandes- se movem. A política também deve fazer parte disto. Mas reduzida à sua dimensão de peça de um políptico, e não alcandorada à dignidade de única disciplina histórica válida, como tem sido variamente proposto.
Voltemos aos dias de hoje e à história que deles pode vir a ser feita. Imaginem, por um momento, que a história dos dias de hoje vinha a ser a história (política) dos nossos políticos. Demos de barato que, pelo menos os mais evidentes, sejam todos eles heróis dos tais a quem uma grande biografia não fica folgada. Essa colecção de grandes biografias- ou a história do enredo das suas relações- esgotaria a história das nossas vidas? Ou seria sequer uma minimamente adequada introdução ao nosso tempo? Diria alguma coisa sobre a vida real das pessoas reais no nosso país? Neste sentido, não me parece que os tão citados ditos de Brecht sobre os actores da história tenham caído com o muro de Berlim".

(Sublinhado nosso)

Publicado por sandra em dezembro 26, 2003 11:40 AM
Comentários

Esforço-me por não estar sempre de acordo com o que este Senhor Hespanha diz mas confesso que não é fácil!
RN

Afixado por: Raimundo Narciso em dezembro 29, 2003 11:14 PM