Retomamos, hoje, a edição do testemunho da Presidente do Movimento Nacional Feminino- Cecília Supico Pinto.
Nele constam as circunstâncias do assumir da Presidência (6 meses após a fundação do Movimento), assim como o trabalho desenvolvido junto dos militares. Cecília Supico Pinto especifica as suas visitas às colónias e como estas evoluiram. Refere, também, as iniciativas que foram sendo tomadas, as necessidades detectadas e os pedidos de apoio/ajuda feitos aos portugueses.
O período abrangido nesta parte do testemunho são os anos de 1961, 1962 e 1963. No âmbito de uma iniciativa concreta, temos referência ao ano de 1971.
O MOVIMENTO NACIONAL FEMININO (MNF)
Testemunho de Cecília Supico Pinto
"Recebíamos apoio das vicentinas, foi a estrutura das vicentinas que nos permitiu ter comissões do MNF em muitas terrinhas. Contactávamos as pessoas pelo telefone. Fazíamos reuniões de recrutamento ou, então, as pessoas simpatizavam com mulheres que já trabalhavam connosco. No início, o MNF era uma coisa pequena e tínhamos de explicar pormenorizadamente os objectivos que nos moviam. Mas seis meses depois de começar o MNF comecei a receber inúmeras cartas hostis. E as mulheres da comissão central recebiam ameaças. Na Rádio Argel havia ameaças contra nós quase todos os dias. Os comunistas odiavam o MNF. A mim chamavam-me "Dona Lucília" e faziam circular toda a espécie de calúnias sobre a minha vida pessoal. Identificavam-me como líder do MNF. Decidi então que não queria que nenhuma outra mulher fosse prejudicada e ameaçada por minha causa. Se tinham de ameaçar alguém, que me ameacassem a mim. E assumi a presidência, seis meses depois da fundação do MNF. Havia pessoas que reduziam o MNF a um puro exibicionismo meu e diziam coisas do género "lá está ela convencida de que é a heroína". É sempre fácil dizer mal.
Fui em 1962, com a Ana Arnaut, organizar comissões locais à Guiné. Começámos pela questão das leis por que se regiam os militares. Na Guiné não havia, por exemplo, subsídio de isolamento, que se aplicava às unidades em zonas de intervenção e de isolamento. Achávamos que não era justo, porque eles estavam tão isolados ou mais do que os outros, tinham os mesmos problemas. Conseguimos o subsídio de isolamento para os militares da Guiné. Andámos por quase todas as unidades. Chegava às unidades e dizia mais ou menos isto: "Olá rapazes. Como não é possível trazer até vós as vossas famílias, é em nome delas que o MNF vos traz abraços e saudades." A primeira unidade que visitei foi Mansoa, perto de Bissau. Os comandantes eram avisados da nossa chegada, reuniam a unidade e eu falava. Cometi erros no início, por falta de prática. Ficava muito pouco tempo em cada unidade, fazia uma visita como a dos ministros ou dos jornalistas e ia-me embora. Depois fiquei mais à vontade e passei a demorar-me mais. Dizia aos soldados: "Venho ver o que é que gostariam de ter aqui. Aposto que gostam de futebol e de equipamentos. Quem é que é do Benfica e quem é que é do Sporting?" Eram contactos simples, como se fosse da família deles. Levava bolas de futebol, que comprávamos com os donativos que recebíamos. Outras vezes eram os próprios clubes que nos davam as bolas. Depois arranjávamos um subsídio do Ministério da Defesa e tivemos mais ajudas em equipamentos e em livros. Os livros que eles mais gostavam eram policiais e romances, sobretudo o Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, e também os livros de Eça de Queirós. O jogo preferido era o monopólio. Mandávamos material didáctico, para eles ensinarem as gentes das aldeias. E medicamentos. Havia sempre um médico da unidade para ministrar os medicamentos nas tabancas. Tive a vida muito facilitada pela grande compreensão do Adriano Moreira, com quem mantinha as melhores relações. Descobrimos que na ilha do Sal, em Cabo Verde, não havia água destilada. Bebia-se apenas água de garrafa, cara e de má qualidade. Conseguimos um destilador, pago pelo Ministério do Ultramar, e o Adriano enviou-nos de Cabo Verde um telegrama a dizer: "Cheguei Sal. Bebi água do destilador. Obrigado MNF."
Na mata, eles abriam as latas de atum e de salsicha à pancada, com a G-3 e com pedras, e muitas vezes eram detectados por causa desse barulho e sofriam emboscadas. Começámos então a enviar abre-latas. Também oferecíamos taças para os campeonatos de futebol interunidades. Passámos a trabalhar com as rádios: mandávamos cassetes para eles, eles mandavam cassetes para nós. Tivemos o programa "Espaço", a fábrica de discos, copiadoras para as unidades. Eram muitas as unidades e rádios a quem nós mandávamos programas gravados do MNF. Houve um que teve especial sucesso: um Sporting-Benfica em matraquilhos, com o Eusébio, o Simões, o Damas e o Artur Agostinho a fazer o relato. Gravávamos em bobinas ou cassetes e mandávamos para as unidades e para as rádios locais. Eles divertiam-se imenso. Às vezes eram as mulheres que gravavam mensagens. Bebés que ainda não falavam quando os pais partiram e que diziam "olá, pai". Coisas simples mas importantes para quem luta no mato e sofre a ausência da família. Havia um grupo da Madeira, o Conjunto João Paulo, cujos membros foram mobilizados. Conseguimos que fossem juntos para a Guiné, Angola e Moçambique, e andaram no mato a tocar para os militares. Eu própria cantava fados que me fartava. Havia sempre um que tinha guitarra e que me acompanhava. Vinha sempre das viagens a África com o sentimento de que era preciso fazer muito mais, com mais dinheiro, com mais organização. Nunca me senti satisfeita. Havia uma frase que repetíamos no MNF: "Nós não estamos a trabalhar para recompensas, mas sim para resultados." Ficava furiosa de não fazer mais. Muitas vezes não dependia só de mim, dependia do dinheiro que pedíamos e não vinha. Alguns embirravam comigo, mas no geral era muito bem recebida nas unidades. Muitas vezes ia com o camuflado por cima, ou então levava só uma saia e uma blusa porque fartos de camuflados estavam eles, e com uns sapatos normalíssimos, nada de botas. Chegava às unidades e perguntava "Quem é do Benfica?" Era metade. "Quem é do Sporting?" Era a outra metade. "Quem é do Belenenses?" Era só um, que era do meu clube. E eu dava um grande abraço a esse. Isso pegou, "telégrafo de mato" era muito rápido, e então eu chegava e perguntava: "Quem é do Porto? Quem é do Boavista?". Nada. "Quem é do Belenenses?" E todos diziam que eram do Belenenses e lá iam abraços.
Em Julho de 1963, 1500 famílias de soldados combatentes receberam assistência através da comissão distrital de Lisboa do MNF. Lançámos também em 1963 um apelo para a obtenção de 4000 cobertores para as famílias dos militares no Ultramar. Foi a Maria do Carmo Figueiredo, presidente da comissão distrital de Lisboa, que organizou isso. A Companhia dos Diamantes de Angola deu-nos um donativo. Ainda em 1963 começou a campanha para as ceis de Natal das famílias dos militares. Pedimos também uma hora de trabalho voluntário a todos os trabalhadores. Cada trabalhador dava uma hora do seu salário, ou dava menos se não pudesse dar uma hora. Fui algumas vezes à televisão para promover os ideais do MNF. Sempre que partia para o Ultramar ia à televisão e também quando se iniciava uma campanha e era preciso agarrar as pessoas. Os contributos para a hora de trabalho eram facultativos, mas a generosidade portuguesa era muito grande. Fomos muito bem correspondidas.
Na mesma altura distribuíamos agasalhos e lembranças a 3460 famílias de militares que estavam no Ultramar. Promovemos um festival aeronáutico em Alverca, que se chamou Paz na Guerra. Foi um festival formidável pela Força Aérea, com pára-quedistas, vários números de acrobacia, tudo isso correu muito bem e ganhámos algum dinheiro. Editávamos discos, que enviávamos para as unidades, por altura do Natal. No LP de 71, chamado "Natal de 71", participaram Amália Rodrigues, Eusébio, Joaquim Agostinho, Maria de Lurdes Modesto, Florbela Queirós, Armando Cortez, Francisco Nicholson, Paulo Machado, o inspector Artur Varatojo, os Parodiantes de Lisboa, Hermínia Silva, Elsa Gomes, etc. Esse LP teve uma tiragem de 300 000 exemplares".
(p. 425-428)
Publicado por sandra em dezembro 26, 2003 02:01 PMEsta senhora dos Cházinhos da Caridade...ai...ai... que cheiro a bafio!
Um abração do
Zecatelhado
Não me posiciono assim perante a História nem perante os seus protagonistas. Por outro lado tb discordo, em absoluto, de discursos apologéticos. Ainda mais por parte daqueles que escrevem, de facto, a História.
Abraço para ti também :)
Afixado por: Sandra em dezembro 27, 2003 12:19 PMHistória é história.
Ciência é ciência.
É preciso ciência para fazer a história.
Como em tudo na vida há positivo e negativo.
Supico Pinto entrou na história pela negativa.
E não se trata de uma interpretação da história.
O MNF teve a coragem de não se atrever a entrar em determinados sítios do Leste de Angola (por exemplo) o que ainda hoje os portugueses agradecem.
E, tal como agora, a política já andava de braço dado com o futebol...
Não posso deixar de complementar o que diz "Dizer Bem", considerando que houve quem, tendo pertencido ao MNF, entrasse na História pela positiva. Veja-se, por exemplo, o trabalho desenvolvido por Maria Estefânia Anachoreta, que foi Presidente da Delegação de Santarém. Esta senhora esteve, entre muitos outros sítios, no Leste de Angola- "a zona que me custou mais", lembra(editei vários posts consigo relacionados).
Apesar dos pesares houve muitos portugueses que por um ou outro motivo ficaram agradecidos às "senhoras do MNF".
Note-se: não estou a ser parcial, estou a ser historicamente rigorosa. Como historicamente rigorosa estarei a ser se disser que o MNF não foi bem visto por muita gente.
Obrigada pela tua participação.
Afixado por: Sandra em dezembro 27, 2003 03:48 PMexcelentes posts.
não é necessário que "concordemos" ou "simpatizemos" com os personagens para podermos ler os testemunhos dos protagonistas das histórias.
tens algum "plano" mais vasto de posts relativamente à guerra colonial?
Apenas venho aqui para dizer que sei o que muitas pessoas passaram na guerra de 1963 e sei quais os seus principais sofrimentos pois o meu pai foi um deles e por isso sabe por experiência própria o que passou por lá.
Nunca gozem com o que aconteceu e saibam dar valor á amizade pois ela é preciosa e por vezes só ela nos pode ajudar. Beijos para todos da Fabiana Alexandra Neves