dezembro 27, 2003

ÓSCAR CARDOSO: inspector da PIDE/DGS criador dos Flechas (3)

Continuando a edição do testemunho do ex-inspector da PIDE/DGS, Óscar Cardoso, cuja última parte apresentámos no passado dia 01, registamos hoje o conteúdo relativo à formação dos Flechas, propriamente dito. Óscar Cardoso faz referência à sua ida às "terras do fim do mundo" e ao contacto directo com os bushmen, indivíduos locais que iriam ser treinados para formação da tal "milícia". De destacar, nesta parte do testemunho, a explicitação do ex-inspector sobre o apoio dado pelas Forças Armadas para o treino daqueles indígenas, naquele que era o aproveitamento máximo das suas potencialidades/capacidades.

ÓSCAR CARDOSO- CRIADOR DOS FLECHAS

"O meu director, São José Lopes, uma pessoa inteligentíssima, com quem tive alguns conflitos mas a quem hoje reconheço razão, autorizou-me a tentar a experiência. Disse-me: "Sim, senhor. Você pega no administrador, damos-lhe uma compensação monetária, e você vai para as terras do fim do mundo fazer uma prospecção sobre o que esses bushmen poderão dar, qual será o rendimento que eles poderão ter em operações de guerrilha.
O administrador Manuel Pontes, a minha mulher e eu lá fomos para as terras do fim do mundo. Deram-nos um Land-Rover decrépito e metemo-nos no mato. E começámos a contactar com os bushmen. Eram indivíduos que viviam muito primitivamente, faziam ainda o fogo por fricção, eram muito magros e pequenos, mas excelentes caçadores. Na região do Cuando-Cubango, este povo era trocado e vendido como se de gado se tratasse. Muitos eram forçadamente nómadas e outros estavam em regime de escravidão autêntica nos sobados dos chefes pretos bantos. Se o amor é uma motivação para se fazer a guerra, o ódio também é; e não havia dúvida nenhuma que eles odiavam os seus antigos donos. A nossa guerra em Angola não era contra os pretos mas contra quem fosse terrorista, contra quem pusesse minas na picada, e contra quem quisesse destruir o nosso Governo. Começámos por isso a angariar os fulanos, com dificuldade, porque eles tinham medo. Só que o Manuel Pontes tinha vivido muito tempo com os bushmen e conhecia aquela terra muito bem. Vivera numa jangada no rio Cuando, que fixa a fronteira com a Zâmbia, o rio Cuando que é um mundo, ora atinge vários quilómetros de largura ora estreita. Muitas vezes não se faz a devida justiça àqueles homens dos postos administrativos, mas Manuel Pontes era bem um exemplo. Os bushmen respeitavam-no muito e chamavam-lhe Tata K'Hum, que significava "o pai dos K'Hum", que eram eles. Quando eles viam o Tata K'Hum, com as suas barbas brancas, aproximavam-se. E por intermédio de alguns pretos que nós tínhamos connosco, conseguíamos falar com eles. Estavam subalimentados, eram esqueletos autênticos.
Mas acreditei na palavra do administrador, que me tinha dito: "Se vocês os treinarem, se os alimentarem bem, esses indivíduos podem ser de uma grande utilidade." E eu, por tudo o que lera, também pensei que sim. Então, começámos a dar-lhes treino de tiro. Comecei em 1967 com oito e, no fim, já tinha os que queria e sobravam-me. No Cuando-Cubango, um território duas vezes e meia maior que Portugal, tinha vários postos chefiados por agentes de 1ª classe, agentes de 2ª classe e algumas vezes chefes de brigada, e tinha também as coutadas de caça. Usávamos esses indivíduos, os bushmen, como pisteiros. Eram pisteiros extraordinários, olhavam para o terreno e sabiam ler tudo; se tinha sido uma mulher grávida que tinha passado, se tinha sido um preto, se ia carregado ou não. Nós aproveitávamos essa capacidade singular deles. No princípio utilizámo-los para obter informação num território muitíssimo pouco habitado, o menos habitado de Angola. Tínhamos que lá ir para ver, por isso mandava estes grupos. Estes grupos, inicialmente, iam armados de arco e flecha, mas de flechas envenenadas, em que eles eram exímios. A ideia era obter informação e, no caso de haver contacto ou de eles se sentirem capazes de dominar a situação, é claro que não traziam ninguém vivo, mas traziam documentos e armas. Começámos a ter resultados com isso, tanto assim que, normalmente, nós é que dizíamos onde é que havia um objectivo.
Dizíamos como é que era o dispositivo do acampamento, onde é que era a casa do chefe, quantos eram, os hábitos deles, nós é que dávamos as operações aos militares. Como era um terreno muito plano, era muito difícil darmos um ponto de referência. O que se diz em relação ao apoio que a população dava é teórico, a população dava muito pouco apoio aos terroristas. A população, ao fim e ao cabo, era uma bola de pingue-pongue no meio daquela coisa. A população que dava apoio aos terroristas era forçada, a maior parte do apoio logístico aos terroristas vinha da Zâmbia. Então, para eles saberem, os acampamentos ou ficavam no início do rio ou na confluência de um rio com outro. Na confluência por uma questão de definição geográfica e também porque eles podiam passar sem tudo menos água. Nós mandávamos lá os bushmen e depois eles diziam-nos. Alguns dos bushmen chegavam lá e levavam uma saraivada de tiros. E nós, com total apoio das Forças Armadas, começámos a treinar esses bushmen no Cuando-Cubango, no campo de trabalho do Missombo, que era um campo de recuperação de terroristas, se quiser, um campo de concentração, que nada tinha a ver com a PIDE. Foi assim o início dos Flechas".

(p. 403-405)

(Cont.)

Publicado por sandra em dezembro 27, 2003 01:41 PM
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