Na sequência dos testemunhos já editados, apresentamos um outro, desta vez de um alferes miliciano de Infantaria, que serviu em Moçambique nos anos de 1971-1972.
Cego, aquando do cumprimento da missão que lhe tinha sido atribuída este indivíduo, que quis manter o anonimato, recorda situações no território de África onde esteve, daquele que era o seu posicionamento perante o conflito, assim como pelo que passou após o ferimento (fatal) de que foi alvo.
MUTILADOS. DOR ETERNA
"Estive como alferes miliciano em Tete, numa fase depois da Operação Nó Górdio, em que houve uma deslocação da guerrilha para sul. Em Tete, nessa altura, o contacto directo com os guerrilheiros da Frelimo não era muito usual. Era a fase das minas: as picadas e os trilhos estavam pulverizados de minas. A primeira acção da guerrilha foi a captação das populações e a segunda foi a colocação de minas. A terceira acção era já de confronto directo, conjuntamente com minas. Eu estive na segunda fase da intervenção da guerrilha no terreno. Por exemplo, no mês de Agosto de 1971, na minha zona, tivemos trinta minas anticarro, fora as antipessoal. Fui ferido com uma mina antipessoal. Estava a fazer um estudo da mina- ainda não a estava a desmontar- e ela rebentou, ainda hoje não sei porquê. Fiquei cego. Fui evacuado para o hospital de Tete, e dali para o hospital de Lourenço Marques, onde fui logo operado à vista, mas sem hipóteses de recuperação. De lá fui para Lisboa. Eu tive uma experiência que fazia parte da estratégia militar em qualquer tipo de guerra de guerrilha, que era o aldeamento das populações. Para além de irmos a zonas onde estavam os guerrilheiros, nós tínhamos missões de aldear populações, isto é, de recolher as populações que estavam dispersas no mato e trazê-las para aldeamentos controlados pelas nossas tropas. Numa missão dessas, cheguei à dita aldeia bastante cedo, por volta das sete da manhã, e tentei falar com o chefe, que tinha fugido quando nos viu aproximar. Perguntei onde é que estava o chefe e fui prendê-lo com uma secção reforçada. O resto do pelotão ficou na aldeia. Queria que o chefe desse ordens para a população abandonar o local. Falei com ele em português, sem intérprete, porque ele percebia. Aliás, ele utilizava roupa europeia, tinha um casaco ocidental, mas não atendeu à ordem militar que eu dera e não disse nada à população.
Ficámos à espera que ele resolvesse a situação. Mas eu tinha que me ir embora porque não podíamos andar no mato a partir das quatro horas. A partir dessa hora não havia evacuações. Quando chegou ao limite da hora que eu podia esperar para irmos para o nosso acampamento, como não tinha havido qualquer movimentação da população para abandonar aquele local, fiz duas linhas de homens: uma linha à frente, com os homens armados em situação de fogo, e uma linha atrás, com homens com archotes para queimarem as palhotas. Era a nossa missão: levar as populações e queimar as palhotas, para que não pudessem servir de abrigo aos guerrilheiros. Ao ver isso, a população entendeu que estávamos ali para cumprir a missão, e começou a sair da aldeia, as mães com os filhos, com coisas à cabeça, com tudo o que puderam apanhar. Passámos toda a linha da aldeia com a população à frente, e deitando fogo às palhotas. Não dei um tiro nesse dia mas podia ter dado muitos tiros se, na altura em que desencadeei a acção de desalojamento, eles tivessem reagido. Mas quando passámos a linha das palhotas e eu olhei para trás e vi a aldeia a arder, e olhei para a frente e vi as mulheres com os filhos ao colo e pela mão, a guerra nunca mais foi igual para mim. Só pensava: "Que guerra é esta?" Tive uma tomada de consciência da monstruosidade que era a guerra. Eu sempre disse que devo estar no meu país nas horas e nas horas más. Aquela era uma hora má. Quando fui para a guerra, já tinha uma consciência política das coisas, de que a guerra colonial teria que ter uma solução política e não militar. Mas também nunca pensei em fugir. A minha geração, a geração de 60, um milhão e tal de homens, foi sacrificada à incapacidade política dessa altura.
Após ter sido ferido, andei um ano e meio aparvalhado, tipo em estado de choque, sonhava todos os dias com a guerra, acordava aos gritos e aos saltos, com pesadelos. Depois, fui estabilizando. E fiz a catarse de tudo isto. É óbvio que as nossas tropas eram mal preparadas, que o material era fraco, e que tínhamos umas tropas especiais com uma instrução melhor. Mas a tropa de quadrícula, normalmente, estava mal preparada porque não tinha cá qualquer instrução que se parecesse com um acto de guerra real. E chegava-se a Angola, a Moçambique ou à Guiné, as pessoas saíam do barco, metiam-lhes uma espigarda na mão e mandavam-nas para o mato. A pessoa só ia aprendendo a defender a sua pele ao longo dos meses em que lá estava. Na fase em que estive lá, o que eu notava, ao fazer muitas colunas e visitar companhias comandadas por milicianos, era que as pessoas não estavam lá movidas por ideais de defesa da Pátria, mas para defenderem o seu corpo. As pessoas não tinham nada a ver com aquilo, estavam ali a ver se aquilo passava o mais rapidamente possível. Eu tive a ideia de que éramos carne para canhão. Quando vim para cá evacuado, encontrei-me no Hospital Militar, na medicina dos oficiais, com mais três pessoas cegas, uma com amputações dos membros superiores e outra dos membros inferiores, e não tive ninguém, nenhum técnico, médico ou assistente social, que viesse ter comigo e me dissesse que a vida não tinha acabado. E a cegueira é uma deficiência pesadíssima. E à noite, eu e os outros dois oficiais juntávamo-nos, e ao que não tinha mãos, eu dava-lhe de fumar e de beber a cerveja à boca. Este era o apoio que nós tínhamos. Aqui se vê como éramos carne para canhão. Depois de termos defendido a Pátria, cada um com aquilo que pôde, no regresso devíamos ter tido um apoio que eu não tive. Estive num centro de reabilitação para cegos, para aprender a andar na rua, etc., mas não foi no hospital militar que me falaram do centro de reabilitação. Não havia uma estrutura para nos encaminhar para a reabilitação. Disto, eu falo com revolta. Na altura, eu nem sabia comer! E vinha uma enfermeira que me punha a comida ao fundo da cama, como se eu fosse um cão! Passado um tempo, fui falar com o médico e disse-lhe: "Eu já estou cego, mas não quero ficar maluco. Eu vou-me embora. Mande-me para a prisão mas eu vou-me embora." Estive um ano e tal sem aparecer no hospital. Quando lá voltei, a enfermeira veio ter comigo: "Ó senhor alferes, o senhor tem que ir fazer de oficial de dia para o DI!" Eu, cego, ia fazer de oficial de dia para o DI! Este era o controlo que eles tinham dos doentes. Compreendo que, num país como o nosso e com frentes de guerra tão grandes, eles não tivessem meios para a rectaguarda. Mas então os políticos deveriam ter resolvido a situação rapidamente, sem massacrarem uma juventude como a nossa."
(p. 963-965)
Publicado por sandra em dezembro 27, 2003 02:57 PM