dezembro 27, 2003

ENFERMEIRAS PÁRA-QUEDISTAS EM ACÇÃO NO PORTUGAL COLONIAL: testemunhos- 2

Retomamos a edição de posts respeitantes às enfermeiras pára-quedistas. Na sequência do editado a 30 de Novembro, apresentamos mais um excerto de testemunho de Maria Ivone Quintino Reis. Nele, recorda-se trabalho desenvolvido quer no contexto de acontecimentos na Índia Portuguesa, quer nas colónias africanas. Maria Ivone sublinha as condições de trabalho por que passou, extensíveis, também, às suas companheiras.

ENFERMEIRAS PÁRA-QUEDISTAS

Maria Ivone Quintino Reis (2ª Parte)

"Houve depois a visita a África do ministro do Ultramar, Adriano Moreira, e nomearam-me para ir na comitiva, como forma de motivar raparigas enfermeiras a tornarem-se pára-quedistas. Fui para o Ultramar em Setembro e voltei em Novembro. Meses depois, a Maria do Céu, uma colega nossa, foi com o general Kaúlza de Arriaga, secretário de Estado da Aeronáutica, às diferentes províncias. Quando cheguei da visita do ministro do Ultramar surgiu a questão da Índia e fomos quatro para Carachi, em 13 de Dezembro, para dar apoio às famílias que eram repatriadas da Índia, porque os militares ficaram em campos de concentração. Estávamos as quatro em Carachi quando Goa foi invadida, no dia 18 de Dezembro. A missão era para dar apoio ao transbordo dos militares que vinham na companhia aérea francesa contratada para ir buscá-los a Goa- porque não podiam ir aviões portugueses a Goa, nem sequer a Carachi. Depois, os militares iam em jipes para os barcos que estavam atracados em Carachi: o Vera Cruz, o Pátria e o Moçambique. Nós dávamos apoio à chegada dos militares, que estavam com seis meses de cativeiro. Eles chegavam ao Vera Cruz, que era fresquinho e onde se ouvia cantar o fado. Eu e a Zulmira estávamos lá mais por uma questão de equipa, com o comandante Solano de Almeida e o jornalista Urbano Carrasco. Estávamos numa ligação de comunicação com Lisboa- foi essa a causa maior que nos levou lá, porque não havia muito tempo no transbordo entre o avisão e os barcos. Voltámos de Carachi no Natal. A experiência lá foi dolorosa, a nível humano. Os aviões dos Transportes Aéreos da Índia Portuguesa (TAIP) vinham pôr as famílias em Carachi para as acomodarmos nos aviões da TAP, que estavam no Paquistão, porque não podiam ir à Índia, devido à expectativa de invasão. Acomodávamos aquelas mães, aquelas crianças, as bonecas, apinhadas dentro de um avião. Eram as famílias de três mil militares que ficaram lá presos. Houve uma que ficou internada na maternidade de Carachi porque estava à espera de bebé. A criança nasceu e nós fomos visitá-la. Ela veio connosco no último avião da TAIP, pilotado pelo comandante Solano de Almeida. Viemos no último avião que saiu de Goa, já depois da invasão, em voo baixo para não ser visto nem atingido pelos bombardeiros, em condições precárias, com destino a Carachi. Para lá tínhamos ido num avião da TAP.
O que estava a aconteccer no Ultramar despertou muito as mulheres. Houve cerca de 150 concorrentes, no total dos nove cursos, mas foram brevetadas 46, e das onze concorrentes do primeiro grupo foram brevetadas seis. A nossa vida era muito dura. Nunca sabíamos onde acordávamos, nem quando é que íamos dormir, nem onde estávamos. Durante o último ano que passei em Moçambique, o máximo de noites seguidas que dormi foram cinco. O nosso quadro era de vinte e uma enfermeiras- nove oficiais e nove sargentos- mas nunca esteve completo. O máximo de efectivos que existiu foram catorze. Éramos sempre escassas para cobrir as três províncias. Umas não aguentavam o curso, que era um teste de resistência, capacidade, audácia e coragem, e outras, ao fim de um ano, desistiam porque aquilo não dava para se fazerem projectos de vida; fazíamos directas, não havia folgas, nem fins-de-semana. Depois, eles confessaram que, no princípio, tinham achado muito mal que nós fôssemos para África, até porque não éramos especialmente elegantes, diziam que parecíamos assistentes sociais. Mas, por exemplo, uma vez, na Guiné, no fim da parada de uma cerimónia oficial, eu estava fardada e apareceu um soldado do Exército que se perfilou diante de mim, fez-me a continência com enorme rigor e afastou-se. Depois, disse-me: "Minha senhora, eu senti necessidade de ir bater a pala a uma mulher portuguesa." Naquele tempo havia a ideia da coragem e da audácia de nos destinarmos para os outros, e isso reflectia-se no acolhimento que tínhamos. As nossas directivas eram só para evacuação. Não podíamos sair do helicóptero, até por normas de segurança. Era um fiasco muito grande se fôssemos apanhadas. E toda a tropa ficava preocupada com uma mulher no meio dos combates".

(p. 664-665)

(Cont.)

Publicado por sandra em dezembro 27, 2003 05:10 PM
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