dezembro 31, 2003

RELATÓRIOS SECRETOS SOBRE A GUINÉ COLONIAL (1)

Iniciamos, com este post, a edição do texto "Estamos cercados por todos os lados", de Serafim Lobato.
Na sua parte introdutória chama-se a atenção para o esforço de combate desenvolvido pelo PAIGC por todo o território da Guiné-Bissau, com especial destaque para as zonas de fronteira, sendo isso feito com dois objectivos muito claros:

- a desmoralização dos soldados portugueses
- a conquista territorial

É dada particular atenção à ofensiva efectuada contra Guidage, unidade situada junto à fronteira com o Senegal.

"ESTAMOS CERCADOS POR TODOS OS LADOS"

"As Forças Armadas (FA) portuguesas começaram, há 30 anos, a sofrer os primeiros efeitos visíveis de desagregação na Guiné-Bissau, quando quartéis de fronteira estiveram cercados em combates prolongados e alguns foram abandonados (definitiva ou temporariamente) por efeito directo de assédios bem sucedidos de unidades guerrilheiras do PAIGC. Pela primeira vez são divulgados relatórios que permitem reconstruir a batalha de Guileje e Gadamael, que antecedeu a saída de Spínola da Guiné e o reconhecimento deste país pela ONU.
Em Maio de 1973, a guerrilha guineense efectuou 220 acções militares em todo o território da Guiné-Bissau e concentrou os seus esforços em quartéis de fronteira, visando, em primeiro lugar, a desmoralização dos soldados e, em paralelo ou posteriormente, a conquista territorial.
A 8 de Maio, o PAIGC lançou uma ofensiva concentrada de envergadura contra Guidage, unidade situada mesmo junto à linha de fronteira com o Senegal, fazendo parte de uma quadrícula militar de vários agrupamentos a norte do rio Cacheu que ia, a oeste, até Barro, sob um comando operacional único (COP 3) com sede em Bijene. Comportava unidades do Exército e da Marinha, estas estabelecidas na base fluvial de Ganturé.
Na defesa de Guidage, o comando chefe da Guiné enviou para a zona um conjunto elevado de grupos e destacamentos de tropas especiais, comandos, pára-quedistas e fuzileiros, bem como unidades de artilharia e mesmo de cavalaria. A guarnição local, quando começou o cerco, era constituída por uma companhia de Caçadores e por um pelotão de artilharia, equipado com obuses de 10,5mm- cerca de 200 homens.
Na operação de auxílio, reabastecimento e contra-ofensiva, que durou de 8 de Maio a 8 de Junho de 1973, estiveram envolvidos mais de mil homens (na maioria tropas especiais) das FA portuguesas, em terra, mar e ar, conforme assinalam os coronéis Aniceto e Carlos de Matos Gomes, no seu livro "Guerra Colonial".
As forças portuguesas tiveram 39 mortos e 122 feridos. Pelo menos seis viaturas militares de vários tipos foram destruídas e foram abatidos três aviões (um T6 e dois DO27). Só a unidade de Guidage contabilizou sete mortos e 30 feridos, todos militares. Nos cerca de 20 dias que ficou cercada, Guidage esteve sujeita a 43 ataques com foguetões de 122m/m, artilharia e morteiros. Todos os edifícios do quartel foram danificados. A unidade, que, no conjunto, teve mais mortos foi o Batalhão de Comandos: dez. Sofreu ainda 22 feridos, quase todos graves, e três desaparecidos".

(Cont.)

Publicado por sandra em dezembro 31, 2003 10:00 AM
Comentários

Sou, estudante Guineense e me interassa muito as histórias do meu País, por isso gostaria de manter contactos com o Sr. e com mais pessoas que poderás me indicar, trocar idéias e informações sobre essas histórias e outros assuntos ainda, relacionados com os Países da CPLP...

Afixado por: Noel Vieira em janeiro 22, 2004 12:32 AM

Gostaria de saber se possui mais informações sobre as personalidades guineenses que se destacaram na luta pela libertação, nomeadamente sobre Ernestina (Titina) Sila e Osvaldo Vieira.
Um abraço.

Afixado por: joacine moreira em março 28, 2004 03:00 PM