"Cercados" é a parte que se segue do texto de Serafim Lobato. Nela, informação respeitante a ataques a Guileje.
"ESTAMOS CERCADOS POR TODOS OS LADOS"
Cercados
"O major Coutinho Lima pede para expor directamente o assunto ao general Spínola. Reticente, este aceita recebê-lo em Bissau ao fim da tarde do dia 20. "Não foi satisfeito o seu pedido de [apoio] de uma companhia, tendo-lhe sido determinado que regressasse ao COP 5, onde seria substituído no comando", acrescenta o relatório.
Coutinho Lima envia uma mensagem às companhias de Cacine, Gadamael e Guileje", "preparando a sua ida de Cacine para Guileje".
"Em 21 07h40, a Companhia de Cavalaria 8350 [Guileje] respondeu [ser] impossível cumprir o determinado no que se referia à sua colaboração no transporte do major Coutinho e Lima de Cacine para Guileje. Foi-lhe dito em 21 10h26 que o comandante da companhia seria responsabilizado pelo não cumprimento dessa ordem", pode ler-se no relatório do comando chefe. Igualmente a Companhia de Gadamael se opõe a destacar homens para levar o comandante de COP 5 para Guileje.
Às 14h15 do dia 21, é recebida, em Gadamael, a última mensagem de Guileje: "Estamos cercados de todos os lados." Seguiu-se o silenciamento das comunicações de e com o quartel. Às 05h30 do dia 22, Guileje foi evacuada.
Uma mensagem, enviada dois dias depois de Gadamael, informava que de Guileje não foi "recolhida qualquer viatura", e especificou: um camião Mercedes, quatro Berliet, três Unimog 404, 1 Unimog 411, 1 jipe, um veículo de cavalaria Fox, dois White, que teriam sido "destruídos parcialmente". Ficaram ainda no terreno, segundo a mensagem, três morteiros 81, um morteiro 10,7 cm, bem como duas bazucas de 8,9, dois morteiros de 60, três metralhadoras Breda e sete G3, que foram danificadas ou destruídas, mas sete pistolas-metralhadoras FBP ficaram para trás "não destruídas" e pelo menos quatro G3 desaparecidas.
Uma mensagem-relâmpago do comando chefe dirigida à Companhia 4734, com data do dia 22, ressaltava o seguinte: "Solicito que informe comandante CAOP 3, o coronel Ferreira Durão, que sua excelência o general comandante-chefe determinou que seja retirado imediatamente do comando do COP 5 o major de artilharia Alexandre da Costa Coutinho e Lima e mandado apresentar QG/CCFAG para efeito de auto de corpo de delito."
Entre 18 e 22 de Maio, Guileje foi bombardeada 36 vezes.
Uma mensagem de 21 de Maio descreve que o interior do aquartelamento tinha sido atingido durante uma flagelação com 200 impactos de granadas, que causaram "grandes danos materiais". Indica, nomeadamente, que foram destruídos todas as antenas de transmissões, dois depósitos de géneros, o forno da cozinha, tabancas, celeiros, arroz da população, havendo abrigos atingidos e danificados, bem como a secretaria, depósitos de artigos de cantina. Impactos houve que acertaram mesmo em valas-abrigos".
(Cont.)
Publicado por sandra em dezembro 31, 2003 06:37 PMNão li o texto de Serafim Lobato no "Público", de 28 de Dezembro. Mas acho oportuna e meritória a iniciativa da Sandra de o retomar no seu blogue. Estive na Guiné, entre 1969 e 1971, e já nessa altura Guileje e Gadamael, no sul, eram nomes míticos, a par de Madina do Boé, entretanto evacuada uns dias antes de eu chegar ao território... A nossa memória colectiva também passa por aqui, por estes lugares onde todos morremos um pouco, tugas e turras. Um dia os historiadores poderão finalmente ter acesso aos arquivos militares da guerra colonial, mas até lá muitos dos que por lá passaram já terão morrido... É sempre boa altura para exorcizarmos os fabtasmas da guerra colonial, disse eu uma vez ao Afonso Praça, que já morreu e a que se deve o meu primeira grande recolha, no início dos anos 80, no "Jornal", de testemunhos e documentos sobre estes anos trágicos... Parabéns à Sandra. O Blogador
Afixado por: O Blogador em dezembro 31, 2003 07:12 PMBoas Saídas!
Melhores Entradas!
Um Óptimo 2004!
Blogador:
agradeço as suas palavras, como imagina, muitíssimo estimulantes para quem, como eu, se encontra a fazer um esforço para possibilitar o acesso tão alargado quanto possível a informação relacionada com o Portugal/Guerra Colonial. O estímulo é ainda maior quando vem de alguém que esteve presente, neste período, nos territórios africanos.
Assim sendo, volte mais vezes e, sempre que possível, deixe aqui o seu contributo, sem dúvida, de especial importância.
vmar:
boas entradas e felicidades para ti também.
:))