janeiro 16, 2004

AS MULHERES DO MEU PAÍS, DE MARIA LAMAS: a obra e o seu contexto

Editamos, neste post, a apresentação por Maria José Cunha Lamas Metello de Seixas, neta de Maria Lamas, de As mulheres do meu país, grande reportagem sobre as mulheres em Portugal nos inícios dos anos 50.
São registadas as razões conducentes à elaboração de tal trabalho, as metodologias utilizadas e os resultados alcançados. Destaca-se, igualmente, a razão de ser da estrutura da obra.

AS MULHERES DO MEU PAÍS

"AS MULHERES DO MEU PAÍS surgem, na vida de Maria Lamas, no prolongamento directo da sua actividade no Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas. A decisão de o escrever concretizou-se no decorrer da entrevista com o Governador Civil de Lisboa, em Julho de 1947, de este ter mandado encerrar o Conselho Nacional. E é, por isso mesmo, um livro nascido da urgência e da ofensa.
Convém lembrar aqui que todo o trabalho de animação cultural e formação desenvolvido por esta organização de voluntárias repousa na solidariedade e na consciência cívica- palavras e conceitos que são hoje recorrentes na nossa linguagem e no nosso pensamento, mas que eram, nesses tempos portugueses, tão subversivas que se não diziam... As sócias reuniam-se para partilhar os seus saberes nas mais diversas áreas: da dactilografia à puericultura, do teatro à estenografia, da música à enfermagem. Este espaço de comunicação entre mulheres de todas as origens sociais, numa dinâmica de valorização de actividades tradicionalmente consideradas menores, discreta e sistematicamente ocultas, estava aberto ao conhecimento e à educação de pessoas cujas únicas imagens sociais admitidas eram a da dona de casa, confiada ao seu lar, ou a da trabalhadora boçal e ignorante, urbana ou rural, não podia ficar impune. Era dar corpo, voz e visibilidade a uma parcela da população encerrada no anonimato e na fraqueza. Era dizer em voz alta o nome das anónimas, como na exposição dos tapetes de Arraiolos executados pelas reclusas das Mónicas, visitada pelas bordadoras emocionadas. Mais do que chamar a atenção dos portugueses para a situação das mulheres, era dar-lhes a elas consciência da sua energia e do seu poder.
Foi por isso que o Governador Civil paternalmente explicou a minha Avó que não deveria ter tanto trabalho nem preocupar-se tanto com a situação das mulheres portuguesas, a quem o Conselho Nacional não era necessário, uma vez que o Estado Novo confiava à Obra das Mães o encargo de as "educar e orientar". A esta afronta feita à cidadã respondeu a jornalista: iria verificar e depois informaria.
A concretização desta resposta, que se tornava imperativa para a sua dignidade, implicava porém uma logística de base, só possível graças à indefectível rede de amigos e familiares que sempre a apoiou. Foi assim criada a Actualis, Lda-Distribuidores Gerais, empresa editorial fundada por Manuel Fróis de Figueiredo, Orquídea Fróis de Figueiredo, sua filha, e a escritora. Esta empresa custeou as despesas inerentes à investigação planeada- viagens, alojamento, alimentação, documentação- e organizou a recolha de assinaturas para a publicação (cada fascículo valia 15 escudos e a obra completa, paga adiantadamente, 200 escudos).
É interessante verificar que o Plano Geral da Obra, tal como vem anunciado no 1º fascículo, parece frequentemente remeter-nos para uma verificação de informações e convicções pessoais, certamente provenientes dos contactos e experiências ligados ao jornalismo e ao trabalho desenvolvido no Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas. Encontramos, assim, subtítulos tão evocadores do estilo do Modas e Bordados como "Vidas ao sol e à chuva, sem luz espiritual" (in A Camponesa), "Vida animal e mais nada" (in A Mulher da Beira-Mar), "O desenvolvimento intelectual e o encanto feminino" (in A Intelectual), a par de outros, contrastantes na objectividade e crueza como "A percentagem de mulheres, no trabalho da maioria das fábricas portuguesas, é de 80 a 90%, em relação aos homens" (in A Operária) ou ainda "Nas margens dos rios e ribeiros há frisos de lavadeiras, ao sol e à chuva, de joelhos, curvadas o dia inteiro, sobre a parede onde batem a roupa" (in A Mulher da Beira-Rio) que nos fazem adivinhar conhecimentos prévios ou pistas de investigação já delineadas. Os dez grandes capítulos, previamente organizados pelas ocupações femininas- A Camponesa, A Mulher da Beira-Mar, Diversas Ocupações da Mulher do Povo, Indústrias Caseiras, A Intelectual, A Operária, A Mulher de Beira-Rio, Empregadas e Profissionais, A Mulher Doméstica, A Artista- virão depois a ser distribuídos com relevância desigual pelo levantamento geográfico que domina a obra. Esta modificação decorreu não só das revelações trazidas pela investigação no terreno como também da metodologia imposta pelo formato da publicação em fascículos. Com efeito, este sistema implicava uma disciplina exacta na recolha de dados e sua escrita: minha Avó saía de Lisboa com dinheiro para quinze dias, papel, lápis e uma máquina Kodak em direcção aos diferentes pontos do país onde, como jornalista, interrogava, observava, fotografava, não só as mulheres que eram o seu objecto de estudo como as suas famílias, anotando sempre os elementos de geografia física e humana que as enquadravam. Ao fim desses quinze dias, regressava a Lisboa, passava todos os seus apontamentos a limpo, entregava o trabalho na tipografia onde se fazia a primeira impressão e revia as provas desse fascículo. Com ela trabalhava também o meu Tio Fernando Carlos, responsável pelos desenhos e a maquetagem das páginas. Cada fascículo constituía, assim, uma unidade em si, que se articulava em cadeia com os restantes. O resultado final foi a reportagem única que agora se reedita. (...)
As Mulheres do Meu País foi escrito há mais de cinquenta anos. Existe, inevitavelmente, uma distância na língua e no estilo para o leitor de hoje. Mas o fôlego do trabalho, o interesse histórico e antropológico da investigação, depressa a fazem esquecer. Estamos perante o retrato cru da condição feminina portuguesa na primeira metade do século XX. Foi a resposta de minha Avó ao Governador Civil de Lisboa.

Maria José Cunha Lamas Caeiro Metello de Seixas
Oeiras, 24 de Maio de 2002
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Publicado por sandra em janeiro 16, 2004 09:26 PM
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