janeiro 18, 2004

NOVAMENTE EM TORNO DA "QUESTÃO DELGADO": contributo de José António Barreiros (4)

Retomando o texto de José António Barreiros, "Ainda as causas da morte do general Humberto Delgado. Algumas perplexidades de um criminalista", cujo último excerto editámos no passado dia 10, salientamos na parte que se segue, a convicção do autor em como as autoridades espanholas, nomeadamente a Direcção Geral de Segurança, tinham conhecimento do ocorrido, tudo parecendo fazer para proteger o envolvimento da PIDE.

AINDA AS CAUSAS DA MORTE DO GENERAL HUMBERTO DELGADO. ALGUMAS PERPLEXIDADES DE UM CRIMINALISTA

"2. As investigações conhecidas e as ocultas

A morte do general Humberto Delgado e da secretária Arajaryr Campos, já deu azo a uma multidão de livros, artigos de imprensa, documentários para a televisão e intervenções radiofónicas.
A causa dessa morte foi, além disso, objecto de uma investigação oficial espanhola, dirigida pelo juiz de instrução especial José Maria Crespo Marquez, efectuada logo no ano do óbito, e de uma investigação efectivada pelas autoridades portuguesas dezoito anos após aquele evento.
A investigação espanhola, de que se conhecem agora mais elementos, sob a forma de cópia do processo policial e judicial teria uma evolução e um termo assaz curiosos.
Na verdade, logo a seguir ao aparecimento dos corpos, afinal e até mais ver apenas dois corpos sem identificação- uma rotina como qualquer outra- já as autoridades policiais espanholas se movem com um ritmo e um cuidado que só se compreendem ante uma certeza de que estariam a lidar com um caso absolutamente fora do normal.
Podemos suspeitar, ante os elementos disponíveis que as autoridades espanholas, logo deste o início das suas averiguações sobre a morte do general Delgado, tinha a percepção do que se tratava.
É, assim, muito interessante que os dois técnicos da secção de identificação central da Direcção Geral de Segurança espanhola, que foram chamados telefonicamente de urgência ao local, por ordem do próprio director-geral, hajam consignado no seu relatório que tal viagem imediata ocorreu porque o julgado de primeira instância e instrução estava "extraordinariamente interessado em tal identificação" antes do enterro dos corpos e que "dada a extraordinária importância do caso" urgia a sua identificação.
E importante é que as mesmas entidades hajam consignado que a investigação policial antecedente haja conseguido "documentalmente" fixar a data da morte em "treze de Fevereiro último".
Todos estes elementos só são congruentes (i) com o facto de a Direcção-Geral de Segurança espanhola estar ao corrente da possível identidade das vítimas e eventualmente (ii) e deter pormenores suficientes sobre o caso, incluindo o necessário para ter conseguido fixar o próprio dia- 13 de Fevereiro- como o da morte respectiva.
Igualmente interessante é a posição consignada no relatório do Laboratório de Técnica Policial do Gabinete Central do Comissariado Geral de Identificação Espanhol, realizado em 26 de Maio de 1965, com deslocação expressa de peritos ao local, no caso de António Gomes Vacarel e Miguel Otero Cañas.
Tais peritos procederam à amputação dos dedos dos corpos- nove no total- para efeitos de concretizar a sua identificação lofoscópica, o que passaria necessariamente pela obtenção da resenha decadactilar dos referidos corpos, para se consumar a identificação.
Ora tal resenha só poderia ser enviada pelas autoridades portuguesas, no caso as autoridades judiciais ou a PIDE.
Sintomaticamente, estes dois peritos, os mesmos que haviam acentuado a extraordinária importância do caso de que estavam incumbidos, escreveriam esta estranha asserção: "na previsão de que as investigações que pensávamos fazer em laboratório com os dedos amputados, dessem resultado negativo ou que não houvesse possibilidade de conseguir resenhas lofoscópicas obtidas das vítimas, com os quais fazer um estudo comparativo orientado a estabelecer a identificação dos cadáveres" (itálico nosso).
A frase é fantástica.
E é-o, em primeiro lugar, porque os técnicos em causa haviam consignado no seu relatório que a identificação do corpo masculino como sendo a do general Delgado logrou conseguir-se directamente sem recurso a tais elementos lofoscópicos e apenas pela ponderação de outros achados obtidos no local, o que quer dizer, em suma, que a DGS soube desde logo- um mês após os achados- de quem se tratava a vítima.
Além disso, sabendo quem era a vítima, e ao não dar como possível a obtenção da resenha decadactilar- que necessariamente seria enviada pela sua congénere, a PIDE- tal só poderia significar que tais peritos estariam já convencidos do envolvimento desta corporação policial no caso e da necessidade em que esta se encontrava em proteger o seu envolvimento, não facilitando a investigação.
Daqui é possível concluir que a investigação espanhola é, logo desde uma fase muito adiantada uma investigação que sabe demais e que, seguramente, não ignoraria, a nível pelo menos da DGS, o envolvimento da PIDE em toda a trama. "

(p. 60-62)

(Cont.)

Publicado por sandra em janeiro 18, 2004 06:55 PM
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