Apresentamos o texto de Rosa Casaco intitulado: "Ainda o "25 de Abril". Nele, o ex-inspector da PIDE/DGS expõe um conjunto de ideias relativas ao Portugal pós-25 de Abril desenvolvidas, por si, na imprensa brasileira.
Reporta-se ao ano de 1983 e faz um balanço do país até essa data.
AINDA O "25 DE ABRIL"
"Quando eu escrevia para os jornais no Rio de Janeiro, nos anos 70/80, vários leitores me perguntavam das razões por que eu poucas vezes me referia ao que se passava em Portugal. Respondi, publicamente, com o seguinte artigo, publicado em 1983:
"Fugi das terras portuguesas quando da revolução que considero como fatal para a minha Pátria, daquela pátria que foi d'aquém e d'além mar.- Não desejo servir-me da minha pena para denegrir a Antiga Metrópole, que passou a estar a saque, nem as antigas províncias ultramarinas que deixámos progressivas e que os nossos políticos actuais entregaram aos países do Leste.-Estou numa terra que me acolheu, onde se fala a mesma língua de que se serviram Camões e Fernando Pessoa, Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós.
"A experiência comunista do PREC (Processo Revolucionário em curso, como lhe chamava o general Vasco Gonçalves e os seus apaniguados) foi um desmanchar de feira. Tudo se perdeu: a propriedade privada (investida em bancos, empresas industriais, seguros, transportes, electricidade, gás); o crédito internacional, a aceitação do escudo como moeda de confiança, o respeito pelo Estado e suas instituições. Perdeu-se também a vergonha!"
"Nas províncias do Ultramar tudo era roubado aos portugueses: terras, casas, bancos, seguros, empresas. Aos estrangeiros nada roubavam! Os que fugiram à onda selvática, nas províncias, perderam, até, os depósitos bancários!"
"Isto já tinha acontecido na Rússia, na China e em Cuba. Nos séculos passados aconteceu sempre que um escol foi substituído por uma classe que aspirava chegar a ser uma elite nos tempos dos netos."
"No que respeita à antiga Metrópole fugiram aqueles que eram do escol e capazes de governar. Improvisaram-se gestores de empresas e chamaram-se à governação ou estudantes das coisas políticas, ou gente que aposta nas utopias "aplicáveis a qualquer país", ou agentes de potências estrangeiras que têm o descaramento de falar em democracia e em pátria."
"Só membros do professorado universitário foram saneados 200. Isto é uma sangria em qualquer país, quanto mais num país que ficou reduzido ao pequeno rectangulo europeu com menos de 100.000 quilómetros quadrados. Os tempos dos horrores passados nas Áfricas civilizadas por Portugal e agora nas mãos dos Russos (por intermédio dos Cubanos) deixaram-me lembranças muito tristes. Eu e os meus amigos (centenas morreram já!) podíamos escrever páginas de angústia. Para quê entrevistar todas essas vítimas? Eu sei que a História não pode ser objectiva. Cada historiador não se pode desligar da sua ideologia, especialmente os comunistas os da "Intelligentsia", por serem os mais comprometidos com o seu Partido, não podendo fugir da linha que lhe é imposta. É difícil a um hindu praticante compreender as atitudes de um São Francisco Xavier. É claro que um comunista praticante só pode dizer mal de Salazar, mesmo que não tenha motivos para isso!"
"É impossível, quanto a mim, que um homem que tenha visto destruido pelo fogo e pela devastação sistemática a casa que construiu, a fazenda que formou, as plantações que cuidou, hora a hora, durante anos, possa justificar o que se passou em Angola."
"É evidente que eu poderei descrever os horrores registados por milhares de portugueses. Mas temo que as minhas descrições sejam eivadas com os meus rancores. Sei bem que aqueles que não sofreram na sua pele e na sua alma os choques físicos e psicológicos da chamada descolonização exemplar se sintam mais à vontade lendo um romance humorístico. A vida não está para tristezas!"
"Com o que se sabe ter-se passado em Angola escrevia-se uma Enciclopédia da "Descolonização Exemplar".
"Com o que se passa na antiga Metrópole, há oito anos a esta parte, escrevia-se um livro de "Anedotas Negras". Esta, por exemplo: "No ano de 1982 a diferença entre as importações e as exportações cifrou-se em 4.000 milhões de dólares, 3 por cento mais que em 1998. Se o Dr. Salazar tivesse ressuscitado, morreria outra vez, mas desta vez de um colapso instantâneo".
"Não poderemos, no entanto, vir dar aos nossos leitores algumas notícias "vindas do ar".
Primeira: - Portugal não é hoje produtor de petróleo. O que no enclave de Cabinda (ao norte do rio Zaire-Congo mas ligado à província de Angola) era refinado na Metrópole e nele consumido." "Actualmente, o público português só deseja gasolina barata, pois tudo pode sacrificar menos o automóvel... Em Portugal, como em qualquer país do mundo, está hoje dez vezes mais cara do que em 1972. A má administração dos governantes portugueses, após o 25 de Abril, não é responsável pelo aumento do preço dos combustíveis."
"Em Portugal foram nacionalizadas todas as companhias: as de refinação, as hidroeléctricas, as de produção de electricidade e do chamado "gás da cidade".
"Segunda:- A empresa pública (isto é, pertença do Estado, em virtude das nacionalizações) Petrogal é a única que em Portugal refina petróleo bruto e distribui os vários produtos da refinação (gasolina, querosenes, gás, óleos, lubrificantes, parafinas, betumes). Todos os produtos petrolíferos consumidos em Portugal são extraidos de ramas estrangeiras. A maioria do público português só se interessa com o preço da gasolina."
"Terceira: - Durante o ano de 1982 o escudo desvalorizou para baixo das moedas fortes. A mais espectacular da alta dessas moedas fortes foi a do dólar que subiu 36 por cento em relação ao escudo."
"Quarta: - Os técnicos da OCDE, nos relatórios de 1981 e 1982, avisaram que a economia portuguesa esteve-se a degradar. Em seu entender (qualquer que ele fosse) não devia permitir que a inflacção não fosse superior 16 por cento".
"Quinta: - Durante todo o ano de 1982 os Senhores Deputados e o Governo de Portugal preocuparam-se mais com os problemas dos partidos do que com as questões económicas. Desvalorar o escudo não deu o resultado que os governantes esperavam: o aumento do volume das exportações."
"Sexta:- Logo após o golpe de Estado de 1974 os cirifeus, civis e militares, do movimento declararam: que o termo das chamadas guerras coloniais, que custavam à Nação 16.000 de escudos, iria permitir que tão elevada quantia fosse dispendida em favor da educação; que acabaria a desastrada política de emigração pela qual Salazar tinha despovoado o País da força de trabalho do povo; que seriam criados novos postos de trabalho que permitiriam o regresso à Pátria dos emigrantes. Porém, ao fim de cerca de nove anos continuou-se a esperar ansiosamente o envio das remessas dos emigrantes para restabelecer o equilíbrio da balança de capitais."
"Os famigerados capitães de Abril, uns ingénuos sem qualquer competência nos campos da política, da economia, da produção, afirmavam que a frase de Salazar "orgulhosamente sós" reflectia o desprestígio internacional do País. De facto as grandes potências faziam, directa ou indirectamente, pressões sobre o Governo do professor Salazar. Mas este, firme como uma rocha, não cedia em nada que pudesse beliscar o sentido que tinha de Nação histórica. Quando "rebentou" o "25 de Abril" as nações que tinham interesses em África, que Salazar hostilizava, aplaudiram a "Revolução dos Cravos", pois sabiam que iam obter facilmente aquilo que se lhe tinha negado durante três dezenas de anos."
"E todos esses imbecis, uns fardados e com estrelas, outros sem gravata andarão a saltitar pelos salões das embaixadas ou dos grandes hóteis. Falam, falam...se a noção de que perderam uma PÁTRIA..."
(p. 285-287)
Publicado por sandra em janeiro 20, 2004 08:16 PMOu seja?!
Afixado por: Sandra em janeiro 21, 2004 05:41 PMe o homem acha que os comunistas não conseguem escrever de forma objectiva. "diz o crocodilo para o hipopótamo"...
de qualquer modo este conjunto de testemunhos continua fantástico.