No primeiro excerto do texto "O "25 de Abril" e a minha saída de Portugal", por nós apresentado, Rosa Casaco recorda onde se encontrava aquando do dia 25 de Abril de 1974, como foi detido no dia 26 e os passos que deu para conseguir sair do país.
O "25 DE ABRIL" E A MINHA SAÍDA DE PORTUGAL
"No dia 25 de Abril de 1974, encontrava-me na directoria da direcção-geral de Segurança, na Rua do Heroísmo, no Porto, onde prestava serviço na qualidade de subdirector. Rodeavam-me cerca de quarenta funcionários, fortemente armados e o meu desejo imediato consistiu em assaltar, em acto contra-revolucionário, o quartel-general da Região Militar Norte, o que, aparentemente, teria sido exequível, pela desorganização das forças revolucionárias, pelo facto destas serem em número muito limitado e pela circunstância das operações militares estarem concentradas na região de Lisboa. Porém, não o fiz porque teria de abrir à força caminho entre a multidão que já então rodeava o edifício da subdirectoria. E também porque o respectivo director, um tal Manuel da Cunha, estar disposto a render-se incondicionalmente. Ponderadamente, não aceitei as ordens emanadas dos meus superiores da António Maria Cardoso, em Lisboa, por via telefónica, ao princípio da tarde de 25 de Abril, de abrir fogo sobre os indivíduos que tentavam deitar abaixo as portas do edifício.
Fui detido no dia 26, por um tenente-coronel e outros militares acompanhados de elementos civis, nitidamente hostis à corporação a que pertencia. Após longos conciliábulos, consegui convencer o tenente-coronel que nos devia libertar, não na cidade do Porto, mas nos seus arrabaldes, longe da perseguição de elementos comunistas que a todo o transe desejavam linchar-nos, pois vociferavam contra nós ameaças de morte imediata. Fomos metidos em dois camiões militares custodiados por um "Chaimite" que seguiram por uma estrada secundária em direcção a Braga, procurando, de algum modo, despistar os perseguidores, que iam engrossando o cortejo em carros civis. Temendo o pior, corriam-se sérios riscos dos meus funcionários poderem cair na mão dos desordeiros, solicitei ao oficial subalterno, que comandava a coluna, que mandasse atravessasse (?) o "Chaimite" na estrada, bloqueando, assim, os movimentos das viaturas civis. Mais adiante, em ambiente mais tranquilo, os revolucionários foram saltando dos camiões em andamento, infiltrando-se pelos pinhais circunvizinhos. Fui o último a saltar, acompanhado do meu secretário.
De 25 para 26, pelo telefone, avisei minha mulher que devia pôr no nosso carro o máximo de bagagem que lhe fosse possível, e que ficasse a aguardar o meu próximo aviso. No pinhal por onde eu divagava, consegui, de uma pequena fábrica, telefonar-lhe para se dirigir com o carro à Póvoa do Varzim, a determinado lugar. Dali, deslocámo-nos a Viana do Castelo onde passámos a noite num hotel.
(p. 95-96)
(Cont.)
Publicado por sandra em janeiro 22, 2004 06:25 PMz
Afixado por: Agostinho Matos em fevereiro 18, 2004 05:07 PM