janeiro 22, 2004

O 25 DE ABRIL VISTO POR ROSA CASACO: saída de Portugal (2)

Com este post concluímos o texto anteriormente apresentado e aquele que é o conjunto de textos de Rosa Casaco, divulgados para edição.
No excerto em anexo, o ex-inspector da PIDE/DGS refere a sua saida de Portugal para Espanha, assim como as ajudas que neste país teve e por quem. Salienta a chegada de outros elementos da PIDE a Madrid. Refere as pressões feitas pelas autoridades espanholas para sublinhar às autoridades portuguesas que aquelas nada tinham a ver com a morte do general Humberto Delgado e de Arajarir Campos, ao que acrescenta, sequencialmente, as declarações que prestou em território espanhol.
Regista a sua saída (futura) de Espanha para as Caraíbas, tal como as pressões, perseguições e mesmo detenções de elementos da sua família após o dia 25 de Abril.

O "25 DE ABRIL" E A MINHA SAÍDA DE PORTUGAL

"Um amigo que ali encontrei queria transportar-me a Espanha, de "salto", através do rio Minho, o que recusei. No dia seguinte, 27 de Abril, dirigi-me a Chaves e passei tranquila e legalmente a fronteira de Vila Verde da Raia, tendo indicado uma ficha de saída, na alínea destinada à profissão: "Retirado". Não houve o mais pequeno problema.
Dormi em Léon e no dia seguinte encontrava-me, já, na capital espanhola. Em Madrid, procurei imediatamente o chefe dos Serviços Secretos da Polícia Espanhola, D. Vicente Reguengo, já falecido, de quem era íntimo amigo, que me prestou todo o auxílio necessário, coadjuvado pelo chefe dos Serviços Secretos do Exército, um coronel, também bastante amigo, cujo nome não desejo referir.
Foi-me indicada uma residência onde fiquei instalado com a minha mulher. Entretanto, oriundos de Bruxelas, chegavam a Madrid, o meu superior, o subdirector-geral, Agostinho Barbieri Cardoso, acompanhado do inspector Passo e das respectivas esposas. Alguns agentes da DGS integravam também a comitiva daqueles senhores. Imediatamente, fui avisado que este grupo se tinha instalado no Hotel Liz, no centro da cidade. Contactei o subdirector-geral, oferecendo-lhe o meu auxílio que foi concretizado com ajuda financeira dos Serviços Secretos espanhóis.
Porém, para que esta protecção fosse efectiva e duradoura, no que se refere à minha pessoa, foi-me exigido que contactasse imediatamente as autoridades judiciais portuguesas com a finalidade de se esclarecer, peremptoriamente, que a polícia espanhola nada tinha a ver com a morte do general Humberto Delgado.
Com grande relutância- não tinha outra solução-, fiz chegar ao conhecimento da Polícia Judiciária de Lisboa, onde também tinha amigos, que desejava fazer uma declaração esclarecedora sobre o desaparecimento do general Delgado e da sua amante brasileira, Arajarir Campos, uma ex-prostituta da Praça Mauá do Rio de Janeiro.
Assim aconteceu. Passado algum tempo, recordo que, na primeira semana de Junho de 1974, deslocou-se a Madrid uma missão, ao que creio, com o beneplácito do Movimento das Forças Armadas, da qual faziam parte o inspector Santos Carvalho, Fernando Oneto e um tal tenente do corpo de fuzileiros navais da Marinha de Guerra Portuguesa de apelido Peres- comunista activo- e um escrivão civil. Este encontro ocorreu num apartamento cedido pelos serviços secretos espanhóis onde existia um forte sistema de escutas. Sei que todo o encontro foi gravado, como o foram, igualmente, as declarações que prestei, durante a tarde, no hotel onde estava hospedado o grupo, na tarde de 6 de Junho de 1974. Aliás, registe-se que todos os movimentos dos supracitados em Madrid foram controlados pela "Seguridad", o serviço espanhol.
A declaração foi feita um pouco à la diable, não só porque notei no grupo investigador um medo atroz por saberem que estavam cometendo uma ilegalidade em país estrangeiro e, também, porque eu seguia nessa mesma noite para as Caraibas. O fundamental dessa declaração consistiu em eximir responsabilidades que poderiam ser atribuídas às autoridades espanholas e ao Governo Português. Habilidosamente, o inspector Santos Carvalho não referiu estes dois factos na declaração, o que me escapou também a mim, por estar sob pressão nervosa e por ter de embarcar no Aeroporto de Barajas, daí a pouco tempo.
Acresce que, além da imposição espanhola, existia uma pressão e perseguição aos membros da minha família que residiam em Lisboa, em Portimão e em Abrantes. Esta ilegal e violenta pressão sobre os meus comprova-se, não só na detenção abusiva de um dos seus elementos em Caxias, ainda que temporária, na tentativa de assalto, com intuitos criminosos, à minha casa do Restelo, por militares, filiados no M.R.P.P, na busca realizada em casa da minha irmã no Rossio ao Sul do Tejo, inclusive, com procuras ridículas debaixo das camas... e de pistola em punho, e, ainda, na posterior fuga precipitada dos meus dois filhos para o Brasil".

(p. 96-97)

Publicado por sandra em janeiro 22, 2004 08:03 PM
Comentários

eu n tenho komentarios porque foi muito emocionante...eu nao gostava paxar pelo 25 de abril...eu gostava de saber mais informasoes sobre o 25 de abril......

Afixado por: sara em abril 2, 2004 09:08 PM