janeiro 25, 2004

ÓSCAR CARDOSO: inspector da PIDE/DGS criador dos Flechas (9)

Com este post terminamos a edição do testemunho do ex-inspector da PIDE/DGS, Óscar Cardoso.
No restante excerto que apresentamos, Óscar Cardoso faz referência ao período em que esteve em Moçambique- anos de 1971 e 1972- e os serviços lá desenvolvidos. Salienta a colaboração da PIDE com entidades sul-africanas e os interesses mútuos a esse nível existentes.
Volta a referir Angola: colaborações e existência de postos da PIDE em Cuando-Cubango.

ÓSCAR CARDOSO- CRIADOR DOS FLECHAS

"Estive em Moçambique em 1971 e 1972. Fui chamado pelo director Silva Pais e fui levado à presença do ministro Silva Cunha. Disseram-me para ir organizar os Flechas em Moçambique. Da nossa parte isso foi talvez um pouco precipitado, porque em Moçambique já existiam os Grupos Especiais (GE) e os Grupos Especiais Pára-Quedistas (GEP), que eram muito bons. Em Moçambique verifiquei não ser premente a necessidade de organizar Flechas. Tanto que a minha actividade em Moçambique acabou por ser basicamente a de detectar a penetração de guerrilheiros da Frelimo feita a partir do Malawi, sobre a linha Beira-Tete, onde eles iam destruir a linha de caminho-de-ferro. Montei a informação em Caldas Xavier, com incidência no Malawi, e um sistema de informação no Malawi. Sabíamos quase sempre quando eles punham as minas no caminho-de-ferro. A PIDE em Lourenço Marques e em Luanda tinha uma colaboração estreita com o Bureau of State Securuty (BOSS), que hoje é o National Intelligence Service (NIS). Tínhamos também uma colaboração muito grande com a South African Police (SAP), porque a polícia sul-africana estava dispersa em vários postos ao longo da fronteira para evitar a penetração da SWAPO. Havia uma colaboração quase diária com eles, inclusivamente através de rádios. Entre a Rodésia e a nossa delegação na Beira havia colaboração total, era quase como que uma irmandade. Deslocávamo-nos para Salisbúria e vice-versa, e tínhamos colaboração total com o Kenneth Flower, o chefe da CIO. Chegaram a ir até Angola. A PIDE em Lourenço Marques funcionava mais com o BOO e com a SAP.
A partir de 1968 existiu mesmo no Cuito Cuanavale uma organização, chamada Centro Conjunto de Apoio Aéreo (CCAA), constituída por oficiais do Exército português e da Força Aérea, oficiais sul-africanos e elementos da PIDE. As Forças Armadas sul-africanas forneciam-nos helicópteros e meios aéreos, forneciam-nos o que era preciso. Os sul-africanos estavam interessados na UNITA, na medida em que a UNITA e a SWAPO trabalhavam em conjunto e nós fazíamos uma espécie de tampão à SWAPO, que tinha de atravessar o Cuando-Cubango, e várias vezes tivemos contactos com os guerrilheiros namibianos. Uma das vezes que fui ferido, foi pela SWAPO: apanhei um estilhaço na mão. Foi uma operação que fizemos em colaboração com os sul-africanos. No Cuando-Cubango, tínhamos postos da PIDE em Serpa Pinto (sede), em Caiundo, Cuangar, Calai, Dirico, Mucusso, Rivungo, Cuito Cuanavale e Mavinga. Tínhamos a colaboração dos caçadores das três coutadas: Kirongozi, Luenge e Mucusso, em que os nossos funcionários e os caçadores-guias viviam juntos. Tudo isto em conjunto com a tropa. Tínhamos em Serpa Pinto um batalhão, na Neriquinha, uma companhia comandada pelo Vítor Alves, um pelotão reforçado na Luiana e meia-dúzia de gatos-pingados em Mavinga. Mas os comerciantes, os elementos da PSP, etc, também faziam operações conjuntas com os Flechas. E, sempre que havia operações militares, lá iam os Flechas, ou ia um agente da PIDE com um flecha, que às vezes servia de intérprete, e esse flecha colaborava".

(p. 412)

Publicado por sandra em janeiro 25, 2004 12:54 PM
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