No jornal Público de dia 06 de Fevereiro, na secção "Espaço Público" (p. 8), foi editado um artigo de Esther Mucznik, que aborda a problemática dos genocídios, a sua relação com o conhecimento, interpretação e memória dos povos.
Intitulado "Memória e ideologia", o texto é apresentado da seguinte forma:
"A guerra dos números é indecente. Mas tem um mérito: é o de mostrar como a ideologia pode mascarar os factos. Do mesmo modo, a memória e a sua transmissão estão indissoluvelmente ligadas à política e à ideologia".
Porque entendemos ser um importante ponto de partida e/ou complemento para a reflexão, fazemos aqui a sua reprodução.
"Não pode haver questão mais importante, nem obrigação mais imperiosa do que a prevenção de genocídios." Esta é uma afirmação de Kofi Annan em Estocolmo, na conferência internacional dedicada a este tema, encerrando um ciclo de encontros anuais iniciados no ano 2000 sobre o Holocausto. Tal como as outras, esta conferência realizou-se de forma a coincidir com o aniversário da libertação do campo de extermínio de Auschwitz, a 27 de Janeiro de 1945, pelas tropas soviéticas.
Na verdade, a questão dos genocídios é, infelizmente, sempre actual. Como prevenir e impedir a execução de planos mais ou menos elaborados de extermínio de um povo ou de uma etnia? Como fazer com que acabem, de uma vez por todas, as guerras com o objectivo de fazer desaparecer da face da terra um grupo humano considerado indesejável?
Kofi Annan sugeriu a criação de um comité de prevenção dos genocídios para reflectir sobre os instrumentos necessários para impedir esses acontecimentos.
Penso que é uma ideia generosa, mas duvido da sua eficácia. Porque na realidade esses organismos estão sempre perante uma encruzilhada: ou se situam fora da esfera política de decisão e então a sua eficácia é nula; alimentam-se de declarações e condenações tão retóricas quanto inúteis; elaboram relatórios e recomendações que permanecerão, normalmente, letra morta. Ou se situam na esfera política, com algum impacto e imediatamente estaremos perante um cenário de genocídios "bons" e genocídios "maus", genocídios que o são, outros que parecem, mas não são.
Se algumas dúvidas houvesse, bastaria um rápido olhar sobre a cena internacional: que nome tem a liquidação silenciosa, pelo exército russo de Putin, de mais de 100.000 mil tchetchenos, numa população total de um milhão, o mesmo Putin recebido e festejado nalguns países do Ocidente europeu como "um pilar fundamental da nova ordem internacional"? Alguém considera a guerra da Tchetchénia uma guerra de extermínio?
Em contrapartida, os 800 palestinianos mortos desde o início da Intifada de El Aqsa são ruidosamente considerados como vítimas da política "genocida" de Ariel Sharon por esses mesmos que estranhamente nunca se manifestaram contra a guerra da Tchetchénia.
A guerra dos números é indecente. Mas tem um mérito: é o de mostrar como a ideologia pode mascarar os factos. Como disse o ministro alemão Joschka Fischer, "Israel é o único Estado cuja existência é perpetuamente questionada". Alguém questiona o direito da Rússia à existência?
Da mesma forma, poucas são as vozes que se levantam, quando Jacques Chirac, o grande defensor dessa "nova ordem internacional", recebe com honras de Estado o seu homólogo chinês, "esquecendo" o milhão de vítimas de violações dos direitos humanos na China de hoje e fazendo arrogantemente tábua rasa das aspirações da formiguinha Taiwan.
Sei que cada país defende os seus interesses acima de tudo. É normal e legítimo. Mas também acredito em valores, especialmente no valor da vida humana e no valor da liberdade. E acredito nos regimes que, apesar de tudo, melhor defendem esses valores e que, até prova do contrário, são os regimes democráticos, "os menos maus dos maus regimes", numa versão aproximada das palavras de Churchill.
Mas acredito também na pedagogia da verdade por ser aquela que melhor favorece o desenvolvimento do ser humano, a sua consciência e o seu espírito crítico. A este propósito, o jornal "Libération" relatava recentemente um facto interessante: umas horas antes da difusão na televisão francesa do filme "Hitler, o Nascimento do Mal", um representante da cadeia privada tranquilizava os seus espectadores assegurando que não havia no filme comentários anti-semitas porque... tinham sido censurados para não se correr o risco de influenciar alguns espíritos mais vulneráveis. Certamente com a melhor das intenções, a consequência desta preocupação foi a de mostrar um Hitler que afinal até nem era assim tão anti-semita!
Este episódio absurdo confronta-nos com o problema nunca verdadeiramente resolvido da transmissão da memória, questão central na prevenção dos genocídios. Pode-se discutir se a história dos genocídios deve ou não constar nos programas escolares e nos grandes meios de difusão; se essa transmissão pode ser algo mais do que um saber desestruturante sobre a virtualidade do mal no ser humano. Ou se, pelo contrário, se deve banir o discurso da verdade e utilizar um discurso "light" como forma de "protecção" das pessoas e evitar a banalização...
Mas acima de tudo há que entender que a memória e a sua transmissão estão indissoluvelmente ligadas à política e à ideologia e que esses são os factores que determinam a capacidade de absorção dessa mesma memória.
O exemplo do Holocausto é altamente significativo: segundo uma recente sondagem realizada em nove países da Europa ocidental e do Norte, 36 por cento dos inquiridos consideram que os judeus "deviam parar de fazer o papel de vítimas" do Holocausto. O que significa esta resposta? Simplesmente que na imagem, hoje tornada quase consensual, do judeu carrasco do povo palestiniano essas pessoas não reconhecem ou não querem reconhecer o judeu vítima do Holocausto. Por isso o discurso sobre o Holocausto deixou de ser ouvido: provoca cansaço e impaciência. Na realidade, está a deixar de ser consensual e "politicamente correcto" e a ser suplantado pelo discurso das actuais vítimas com estatuto adquirido: as vítimas do "complot" americano-sionista.
Guerras e genocídios não acabarão tão cedo. Infelizmente ainda fazem parte dos meios a que recorre a política. Contra eles o discurso consensual, cheio de boas intenções, não pode nada. Não há outro caminho que não seja o da responsabilidade e da responsabilização colectiva e individual de cada ser humano. E só pode ser responsável quem é livre. Livre, na acção, livre no pensamento, livre na consciência: capaz de distinguir o bem do mal".
a história do Putin há-de fazer-se sem dúvida quando for possível fazer o rescaldo da queda do império soviético e da forma como o seu cadáver podre foi devorado pelo neoliberalismo sob a forma do mais descarado banditismo. Enquanto os seus "opositores" forem bandidos do calibre do putin, como o agora exilado e ex-homem de mão do Ieltsin e o "oligarca" do´petróleo que está na cadeia, pouco há a fazer que não seja indignarmo-nos.
Igualmente inaceitável é a duplicidade da sra Mucznik relativamente à situação dos palestinianos.