
"O ex-líder do PSD Marcelo Rebelo de Sousa considerou ontem que o general Kaúlza de Arriaga, falecido segunda-feira, se destacou mais como um teórico da estratégia, do que pelos seus êxitos no terreno como comandante militar. "Em geral foi um grande organizador e geo-estratego teórico, mais do que um comandante com os correspondentes êxitos no terreno", disse Marcelo Rebelo de Sousa à agência Lusa.
Marcelo Rebelo de Sousa - cujo pai, Baltazar Rebelo de Sousa, foi governador de Moçambique entre 1968 e 1970, tendo acompanhado a parte inicial da carreira militar de Kaúlza de Arriaga naquela antiga colónia portuguesa - adiantou à Lusa que o general "teve um papel político muito significativo em três momentos da vida da ditadura terminada a 25 de Abril de 1974".
O primeiro momento, precisou, foi "enquanto sub-secretário e depois secretário de Estado da Aeronaútica, criando um novo ramo das Forças Armadas portuguesas e desempenhando um protagonismo muito especial ao contribuir para o fracasso do golpe de Estado de Botelho Moniz, em 1961, o que prolongou por mais alguns anos a chefia do Governo por Salazar".
Para Marcelo Rebelo de Sousa, o segundo momento do general Kaúlza de Arriaga correspondeu à data em que foi "um dos delfins de Salazar, em 1968, abdicando na altura de confrontar Marcelo Caetano por considerar que, sendo muito mais novo, tinha ainda hipóteses de lhe suceder no futuro".
O último momento político do general Kaúlza de Arriaga foi "já perto do 25 de Abril, quando regressado do comando militar de Moçambique, passou a encabeçar uma linha de contestação a Marcelo Caetano e de preparação de uma possível sucessão ainda no quadro da ditadura, o que viria a ser ultrapassado pelo processo que conduziria ao 25 de Abril", acrescentou.
Para além de Marcelo, poucas mais foram as reacções à morte deste general. O presidente da Associação de Combatentes de Ultramar, José Nunes, disse à agência Lusa lamentar a morte de Kaúlza de Arriaga como a de qualquer outro combatente nas ex-colónias portuguesas. "Lamento a morte de mais um combatente de Ultramar, como a de muitos outros que todos os dias desaparecem", afirmou.
Semelhante foi a reacção do tenente-coronel Vasco Lourenço. "Lamento a morte [de Kaúlza de Arriaga], porque lamento a morte de uma pessoa. Prefiro não comentar", disse o presidente da Associação 25 Abril."
(Público, 4 de Fevereiro de 2004)
Publicado por sandra em fevereiro 10, 2004 06:11 PM