No excerto de texto em anexo, editado na sequência do apresentado anteriormente, Irene Flunser Pimentel concretiza, tendo como base publicações da MPF, em que consistia o "nacionalismo equilibrado" referenciado, assim como explicita as heroinas femininas dadas a conhecer e colocadas, como modelos, às filiadas.
Quer através da caricatura, quer através da manipulação da História, eram transmitidas ideias, cuja eficácia se desejava acima de tudo, para efeitos de doutrinação.
DA FORMAÇÃO NACIONALISTA À FORMAÇÃO MORAL E SOCIAL
"Um nacionalismo equilibrado"
"Num texto ficcional, intitulado "Três Mocidades", que tentava mostrar as diferenças entre os nacionalismos alemão e italiano, por um lado, e o português, por outro lado, duas jovens, Joaninha- de "tipo português", "robusta e graciosa na sua farda da MP"- e Albertina- "sem graça feminina e masculinizada"- travam o seguinte diálogo, paradigmático da forma como a MPF encarava o "nacionalismo equilibrado" português:
"Albertina- O que me interessa a mim é o desporto, e se entrei para a "Mocidade" foi porque imaginei que lá quisessem fazer mulheres militarizadas. Afinal temos puericultura, cozinha, enfim, o que já faziam as nossas mães! Como eu gostava de ser alemã!
Joaninha (furibunda)- Fora! Fora! nem hitleriana nem balila. Portuguesa, portuguesa! Deus me livre de ser uma autocrata (...) alemã ou uma comunista! Hei-de ser em tudo cristã e mulher. Viva o século XX! Mas com o desembaraço, a vida intensa e o entusiasmo das raparigas de agora guardemos as virtudes das nossas mães e das nossas avós (...).
Albertina- (...) Tanto me importa que os homens me achem bonita como feia. Não preciso deles para nada e vivo muito bem sem eles.
Joaninha- Não digas "desta água não beberei". Com a tua mania de feminismos exagerados, falas mal dos homens e... queres ser como eles!"
Como se vê, são inumerados, neste texto caricatural, onde surgem uma heroína "positiva" e outra "negativa", quase todos os receios e desejos da MPF relativamente à educação das raparigas. Apontando, por um lado, os perigos do feminismo e os desvios das organizações fascista e nazi, que militarizavam e masculinizavam as jovens, a MPF transmitia, por outro lado, a necessidade de ministrar às jovens uma educação tradicional e especificamente feminina para as manter portuguesas e cristãs.
As heroinas femininas históricas
O Estado Novo, como apontou António Nova, reiventou ideologicamente a História de Portugal construindo uma tradição que fazia de "figuras míticas e religiosas" heróis educativos e que servia de ponte entre um passado mitificado e um presente concreto. Da mesma forma, a MPF transformou as terrenas Dona Leonor e Dona Filipa de Lencastre e a celestial Virgem Maria em heroínas educativas e fez, de datas históricas paradigmáticas, momentos passados de "nascimento" e "renascimento", que desembocavam na "restauração" salazarista: por exemplo, a formação de Portugal, a Restauração de 1640 e o 28 de Maio de 1926 eram todos eles momentos altos de "regeneração", que tinham conduzido ao Estado Novo de Salazar.
Em Junho de 1940, um número especial do Boletim da MPF, dedicado à comemoração do duplo centenário, apresentou esse ano como uma repetição da Restauração de 1640, no qual Portugal estaria a reviver, como no passado, um novo momento de glória. Através do mito cíclico da regeneração e da comparação com a natureza- identificação das épocas históricas com as estações do ano, dando assim a ideia da necessidade "natural" da evolução de Portugal-, era alegoricamente promovido o culto dos dois chefes, Carmona e Salazar:
"As nações, como a terra, têm as suas estações; 1940 é a plena primavera duma época nova (...) Portugal foi grande no passado porque teve grandes valores morais. São os homens que levantam as nações ou as deixam cair (...). A Mocidade Portuguesa Feminina (...) evocando estes oito séculos (...) aponta às suas filiadas como exemplo vivo de bem servir a nação: Carmona e Salazar."
(...)
Outra das facetas da actividade de Formação Moral e Nacionalista da MPF foi o recursao a exemplos femininos da História de Portugal. Essa tarefa coube particularmente a Maria Teresa Leitão de Barros, que, em artigos do Boletim da MPF, erigiu em modelos educativos rainhas e princesas portuguesas, por vezes glorificadas, curiosamente, pelas suas atitudes políticas enquanto governantes, em contradição com as virtudes recatadas das mulheres exclusivamente dedicadas ao lar apregoadas pela MPF. Dona Luísa de Gusmão foi, por exemplo, exaltada pela sua capacidade diplomática e sentido político, pela forma como exerceu o cargo de regente e mesmo por ter sacrificado o seu papel de mãe para defender a nação.
Entre as principais qualidades apontadas na rainha Dona Leonor, contaram-se, por seu turno, o sacrifício pela pátria e pela fé cristã, a inteligência, e, sobretudo, o facto de ter sido a responsável pela "assombrosa realização de assistência social que seriam as Misericórdias".
(...)
As rainhas e princesas não eram, porém, as únicas a ser convocadas para modelos a seguir; também aquelas que escolheram seguir a vida religiosa eram enaltecidas pela MPF. A beata Dona Teresa, filha de D. Sancho I e esposa de Afonso IX, que optou por entrar num mosteiro, foi, por exemplo, elogiada, nas páginas do Boletim da MPF, por Bertha Leite, que não hesitou em defender a via de celibato, ou seja, o caminho do sacrifício do matrimónio e da maternidade, em nome da opção religiosa. (...)
(Cont.)
(p. 301-303)
Publicado por sandra em fevereiro 24, 2004 02:05 PM