Dando por terminada (para já) a informação aqui disponibilizada sobre as publicações da MPF, editamos neste post, uma síntese relativa aos valores e comportamentos transmitidos às filiadas, mas também às raparigas em geral (nomeadamente, no âmbito da classe média).
Assim, e neste sentido, registam-se os seguintes tópicos enquadradores, extraídos da leitura do Boletim da MPFe M&M:
1- O que as raparigas deviam ser
2-Um período difícil- as férias
3- Relações sociais: servir de modelo aos pobres e praticar a caridade
4- As relações com os pais e com os jovens do outro sexo
5- Influências "desnacionalizadoras" e "tempos modernos"
6- Profissionalização e promoção femininas
Tal como os textos apresentados anteriormente, aquele em anexo é, igualmente, da autoria da investigadora Irene Flunser Pimentel.
VALORES E COMPORTAMENTOS TRANSMITIDOS
1- O que as raparigas deviam ser
"(...) no campo social, onde a MPF e o Boletim actuavam, tratava-se sobretudo de fazer da jovem uma futura esposa que soubesse cozinhar requintadamente e gerir o trabalho doméstico a cargo das criadas, assim como conseguir que tivesse uma cultura geral suficiente para acompanhar o futuro marido da mesma classe social. Era esse o seu lugar na nação, que raramente passava pelo exercício de uma profissão ou pela actividade política, em vez da qual se admitia um envolvimento do serviço social e educativo. No Boletim da MPF recusava-se, por um lado, o universalismo- no sentido da igualdade de acesso universal aos mesmos direitos- e promovia-se, por outro lado, o elitismo, dois conceitos que não se contradiziam mas se complementavam.
De um lado estava o futuro escol feminino, e do outro as raparigas de meios cuja miséria e potencial conflitualidade com a MPF tentava atenuar através da caridade cristã e da ideologia corporativa. O exemplo da roupa era paradigmático. Por um lado defendia-se, na escola, a ocultação das diferenças sociais através de uniformes e de batas:
"uma bata branca iguala pobres e ricas, e como toda a vaidade humana marca distâncias entre um vestido de chita e um vestido de seda, a bata que esconde o vestido barato e velhinho dumas e cobre o vestido caro e novo doutras realiza dentro da escola o que o espírito cristão procura realizar no mundo. A aproximação fraternal dos Homens, na simplicidade e no amor".
Por outro lado, propunha-se, na rua, um vestuário modesto e austero mas adaptado aos diversos meios sociais, pois nenhuma filiada deveria usar roupa imprópria para a sua "condição":
"Deveis sempre mostrar aos pobres, pelo vosso próprio exemplo, como se veste de um modo correcto e com uma graça modesta, e ajudá-los a escolher o mais bonito e o mais apropriado para a sua condição. Se eles vêem que vós próprias não procureis vestir-vos dum modo superior à vossa condição, não serão tentados a vestir-se acima da sua".
Muitos artigos tentavam também quebrar preconceitos e arrogância excessivos impelindo as jovens à simplicidade e à caridade para com as mais pobres:
"Pobres Florinhas dos Salões [...] Quereis subir... e ninguém vos mostra o céu nesta sociedade mesquinha, corrompida e egoísta. Quereis descer até às Florinhas da Rua [...] e estais manietadas pelos preconceitos dos grandes [...] A missão do rico é curvar-se sobre o pobre que sofre e aliviá-lo. Nobre e sublime exemplo tem dado a Mocidade Portuguesa Feminina [...] preparando berços para as crianças de Portugal".
A filiada não devia ser como "as bem" que desprezavam os pobres e pensavam só em divertir-se, nem se devia importar com a troça das que seguiam as "doutrinas modernistas". Um dos responsáveis pelo figurino da nova rapariga da MPF foi sem dúvida o padre Gustavo de Almeida, que, nos seus apelos em favor da "heroicidade" e contra a "mediocridade" e a "cobardia", criticou particularmente os "gozadores da vida, parasitas da sociedade- os comilões, os dândis, os endinheirados, as "sécias", que "não vivem, vegetam". Segundo ele, a rapariga devia trabalhar para não ser "fútil, leviana, medíocre, egoísta, boneca de vaidades, bibelô de praia ou menina parasita". Nos seus editoriais do Boletim da MPF, Gustavo de Almeida apontou os "inimigos traiçoeiros" das jovens: "a revista lindamente apresentada, o jornal "sério", o filme "inocente", o senhor e o menino "bem", as meninas "possidónias". Duas décadas depois, em 1964, alertou de novo, na M&M, contra "certas camaradagens mais que suspeitas!, a "influência maldita da literatura francesa ou de figurino francês" e o "ensino universitário criminoso".
A partir de Maio de 1941, iniciou-se no Boletim da MPF, a cargo de Ilda Correia de Barros, delegada provincial do Douro Litoral, uma nova rubrica, com o título "O que nós queremos que as nossas raparigas sejam", que não tinha "só por fim uniformizar as raparigas" nem "só ensinar-lhes a parte técnica do governo da casa e dos cuidados das crianças", mas pretendia sobretudo "educar as raparigas- não de fora para dentro mas de dentro para fora". Em 1944, uma nova série de artigos intitulada "Raparigas sérias", assinada por Coccinelle, a habitual colaboradora dos artigos sobre difusão de comportamentos, apelou às leitoras para que fossem rectas, honestas, com bons princípios, simples, verdadeiras, cumpridoras dos seus deveres, elegantes, asseadas e ordenadas. Deviam, em suma, ter essa "elegância que as raparigas frívolas descuram tanto", e, ao contrário destas, que gastavam o seu tempo "em chás e majongues", mostrar-se espiritualmente superiores, amar os pobres e colaborar em obras sociais e religiosas.
Na M&M, foi a colaboradora Maria Mercier que deu às leitoras os mais variados conselhos sobre comportamentos: cabia-lhes irradiar bondade e praticar a caridade e saber comportar-se nas mais variadas situações. Entre as qualidades que as leitoras deviam possuir e os defeitos a combater contavam-se, no primeiro caso, a simplicidade, a elegância, a boa educação e a cultura, e, no segundo caso, a má-língua, a vaidade, o desleixo, a cólera, a curiosidade, a tagarelice, a indolência e a arrogância.
2- Um período difícil- as férias
Ao longo dos anos, estes conselhos foram sendo exaustiva e ininterruptamente difundidos nas duas revistas da MPF como se a constância das regras pudesse compensar as influências nefastas. Quando as férias se aproximavam, esse propósito era particularmente enfatizado nos números de Junho a Setembro do Boletim. As dirigentes temiam as mudanças que pudessem ocorrer durante um longo período de três meses em que a sua influência sobre as raparigas era substituída pela das famílias e de amigos potencialmente desviantes e, antes da partida, transmitiam inúmeros conselhos sobre o que as jovens deviam ler e a forma como se deviam comportar.
O Boletim tentou também atingir outros meios sociais, através de artigos dirigidos às "que não têm férias" e de consolo às que, por razões familiares, as passavam no campo:
"A tua casa fica talvez paredes-meias com as casas dos pobres. Não há palácios. Mas vê como é lindo o "cenário rústico" dessa casa de aldeia [...] E olha, os casinos, por que suspiras talvez, não te fazem falta! É bem melhor gozares as manhãs a passear do que perderes as noites a dançar. Aproveita bem as tuas manhãs de férias. Passa pela casa de Deus."
No Verão de 1939, a revista faz apelo à colaboração das filiadas, na rubrica "Como deve uma filiada da MPF preencher o tempo de férias. Embora as respostas não possam ser tomadas à letra dado que revelam uma tentativa de agradar ás dirigentes da MPF, são interessantes por reflectirem os valores inculcados. No Boletim de Junho de 1942, uma delas respondeu assim:
"Se não temos manos, vamos até casa dos quinteiros, conversemos com eles, ensinemos-lhes alguma coisa útil com jeitinho para os não melindrar, tratemos bem os filhos deles (mesmo que sejam muito feios e malcriados!), procuremos incutir a ideia de Deus naquelas almitas rudes mas boas, e ensinemos-lhes o catecismo diante dos pais para que eles aproveitem também. Feito isto chegaremos à noite contentes do nosso dia."
O local onde as jovens das classes média e alta passavam habitualmente as suas férias era evidentemente a praia; ora, quem diz praia diz fato de banho, uma das maiores preocupações da MPF. Diga-se, aliás, que a campanha pela "moralização das praias" tinha sido iniciada, em 1936, pela OMEN (Obra das Mães pela Educação Nacional) e pelas organizações católicas femininas, às quais se juntou a imprensa católica, que acusou a "judiaria" e o protestantismo pela difusão da "pornografia, nudismo e satã sensualidade".
A recorrência dos artigos sobre o "pudor" nas praias e expressões para afugentar as troças que recaíam sobre as filiadas que usavam o fato de banho regulamentar da Mocidade são reveladoras de que a austeridade e o moralismo da MPF não encontrava, no entanto, grande adesão entre as jovens das classes médias e alta. Num artigo sobre a praia do Estoril, a articulista elogiou o fato de banho da MPF e apelou às leitoras para abandonarem o "maillot feio e impróprio":
"Tende personalidade e coragem para afirmar essa personalidade não vos acanhando de aparecer correctas, mas sabendo dar alegremente o exemplo. A vossa influência pelo exemplo pode ser enorme. [...] Raparigas da Mocidade, o vosso dever é reagir contra tudo o que é mau. Se vos criticarem, que importa? [...] Vesti com orgulho o fato de banho da Mocidade: ele fala por vós e diz aos que vos vêem quem vós sois: verdadeiras raparigas alegres e saudáveis- mas puras."
Em Agosto de 1940, Maria Joana Mendes Leal dirigiu-se, no Boletim da MPF, às filiadas exortando-as a usar o fato de banho da MPF porque "os maillots dos fatos de banho excessivamente curtos e decotados, de fazendas leves e cores muito claras", lhes eram "proibidos pela moral cristã". No mês seguinte, a mesma dirigente queixou-se de que, na praia da Figueira da Foz, as jovens portuguesas não se distinguiam das estrangeiras de "ar desavergonhado"- provavelmente as refugiadas de guerra- e que nunca tinha visto "um único fato de banho que obedecesse às regras da moral" até vislumbrar, com alegria, três "queridas raparigas" com os fatos de banho da MPF. O grande argumento para demover as filiadas de imitar a moda usada pela maioria das raparigas era o de que não deviam "igualar a massa medíocre e grosseira". Em Junho de 1949 e em 1953, o tema continuou a ser abordado na M&M, num apelo às filiadas da MPF e às associadas da ACP para que não transigissem com "maillots indecentes", nem andassem "a passear em inconvenientes exibições" e usassem, pelo contrário, um fato de banho "com uma saia não muito curta e sem excessivo decote".
3- Relações sociais: servir de modelo aos pobres e praticar a caridade
Além de incitar as jovens do "escol" a servir de exemplo, nas aldeias onde passavam as férias, a interessar-se pela vida rural e a conhecer o povo português, a MPF preocupou-se sobretudo com as relações das jovens com pessoas de outros meios sociais, com as famílias, com as companheiras de escola e com os jovens. As leitoras do Boletim da MPF só se relacionavam de facto com pessoas de outras classes sociais através dos "subalternos" que prestavam serviço nas famílias.
Em Setembro de 1943, um artigo de "Mamia" (Roque Gameiro) dava às leitoras conselhos sobre como lidar com as criadas, termo que começava, segundo ela, a ser depreciativo em Portugal, "mercê da falta de generosidade" com que eram tratadas. Contra essa situação, havia que "olhar caridosamente" para quem "servia, não troçar da sua ignorância", ter a noção que se tratava de "uma pobre rapariga às vezes vinda de outra terra cheia de saudades dos seus", e "tender a fazer da criada uma pessoa amiga". Uma "boa filiada da MPF" devia abster-se de tocar à campainha para pedir tudo, um direito reservado só aos pais devido à sua idade e à sua posição social e dispensar bom tratamento às "criadas".
Em 1957, a M&M mantinha a mesma postura paternalista e elitista, nomeadamente na novela "Camaradagem", da autoria de Maria Amália Fonseca, que abordava as relações entre uma menina rica urbana e uma menina pobre do campo. Tal como outros artigos, este contribuía para a manutenção da situação social transmitindo nomeadamente a ideia de que os ricos não eram mais felizes do que os pobres, mesmo que estes fossem "selvagenzinhos e feios" e tivessem fome e frio. No final da década de cinquenta, a revista começou, porém, a preocupar-se com dar a conhecer às leitoras jovens de classes sociais diversas, através de entrevistas com "raparigas como nós mas com um género de vida tão diferente da facilidade, da futilidade, do comodismo que tantas vezes constitui a nossa vida".
Em 1960, um artigo de Maria Mercier elaborado em forma de teste, intitulado "Diz-me onde habitas, dir-te-ei quem tu és", descrevia jovens de um espectro social já mais diversificado, embora a forma caricatural e estanque sob a qual as classes sociais surgiam continuasse a revelar relacionamento e mobilidade sociais fracos. Eram retratadas duas "snobes" conservadoras das classes alta e média, uma "intelectual" e uma rapariga da pequena burguesia com um gosto medíocre e a veleidade de ascender socialmente. Seis anos depois, a mesma colaboradora da revista fez de novo o perfil de jovens de várias classes sociais, onde era particularmente criticado o "zé-ninguém que quer armar, que não desce a cumprimentar os jornaleiros".
Finalmente, em 1967, outro artigo, revelador de maior mobilidade social nas escolas, propunha às leitoras uma postura mais "igualitária", já que a realidade se encarregaria mais tarde de diferenciar socialmente as jovens:
"portas adentro da escola, do colégio, da faculdade, lá dentro és igual a todas as outras colegas, seja o pai ministro ou contínuo, nada de vassalagem das que vão de carro até ao portão, um dia uma será empregada dos correios, outra professora, sê amável, simples, camarada, igual a outras, não andes só num grupo "bem" nem te limites à convivência das modestas. Esses compartimentos exagerados acabam sempre por ser artificiais. [...] Deixa lá as diferenças que elas bem acabam por vir um dia mais tarde [...] e nem sempre como tu pensas...".
4- As relações com os pais e com os jovens do outro sexo
A mesma Maria Mercier tinha elaborado, em 1948, outro teste, subordinado à pergunta "serás tu uma boa filha?". Consoante as respostas às perguntas, a boa filha era aquela que preferia um serão em casa com a família, ajudava a mãe nos afazeres domésticos, lhe confiava tudo, conhecia as suas preocupações, não proclamava a sua independência, fazia companhia à avó, não "implicava" com os irmãos e consultava sempre os pais, porque a sua opinião "nem sempre é parcial e antiquada".
Se, na vida familiar, a filiada devia aceitar a autoridade paterna, encarando-a como uma emanação da autoridade de Deus, nas relações com os jovens, devia ver a liberdade como "um bem que o abuso transforma[va] em mal", um conselho particularmente repetido nas férias. A jovem "séria" devia, por isso, ser prudente, vigiar os seus próprios sentimentos e fazer-se respeitar; o epílogo seria, nesse caso, o casamento, "o mais sério acto e o mais lindo sonho" a que ela podia aspirar.
Em Maio de 1943, Maria Teresa Navarro, professora de Moral do Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho e directora do centro universitário de Lisboa da MPF, queixou-se da influência perniciosa de Hollywood e exortou as raparigas a ter cautela "com camaradagens", a não "fechar os olhos aos perigos e não aceitar servilmente os figurinos estrangeiros... só porque são estrangeiros". O cuidado devia ser sobretudo maior porquanto as relações com o outro sexo serviam um só fim- o casamento. Em Março de 1948, a colaboradora Coccinelle perguntou às leitoras qual a ideia que tinham do casamento, e, dez anos depois, Maria Franco escrevia na M&M uma "Carta a uma rapariga" a propósito de um casal de jovens que encontrara no cinema:
"não gostei do modo como quase te abandonaste sobre o ombro. Fiquei com a impressão que se ele te pedisse um beijo lho darias. [...] pensas que te vais casar com ele mas talvez isso não aconteça [...] Não estou a chamar-te estúpida, mas é que as teorias modernas têm o condão de tornar as raparigas inconscientes do bem e do mal. Precisas de alguém que te tire dessa onda de modernismo e inconsciência. Confia tudo à tua mãe. Quem melhor que ela te poderá guiar?"
O ano de 1958 foi profícuo em conselhos sobre flirt e namoro, e em alertas às jovens para que não vissem em cada rapaz um pretendente, tivessem consciência de que muitos queriam "namorar por vezes e não casar". As raparigas deviam abster-se de ostentar êxitos amorosos, leviandades e frivolidades, pois só as "provocadoras" eram responsáveis pelos atrevimentos dos rapazes. Dois anos depois, outro artigo aconselhava as jovens a não andar à procura do "homem ideal" e a "não arranjar um namorado para passar o Verão". Como o casamento era "para toda a vida", com a finalidade de ter filhos, elas deviam ter cuidado com "os rapazes que gostam de se divertir" mas só "querem para casar raparigas moralmente intactas". Em suma, além de desconfiar das intenções dos jovens, as jovens tinham de aprender a dizer "sim com os olhos e não com a boca".
Ao longo dos anos, foi também transmitida nas páginas da M&M uma imagem da "mulher ideal, segundo eles". Descrita como se fosse um jovem a falar, a rapariga ideal deveria ser "boa dona de casa mas sem maçar os outros com acontecimentos caseiros, compreensiva dos gostos e necessidades alheias, afectuosa para a família do marido, pontual, discreta [...] económica, sincera, com bom génio, dócil, séria, confiante, pouco tagarela e não usar bâton". Outros artigos enumeraram os defeitos de "que eles não gosta[va]m (1954) e "as qualidades que eles mais aprecia[va]m nas raparigas (1961).
5- Influências "desnacionalizadoras" e "tempos modernos"
A partir do final da Segunda Guerra Mundial, a MPF tentou, como se viu no artigo de Maria Teresa Navarro contra as influências estrangeiras, contrabalançar as modas vindas de uma Europa em construção onde se desejava, através de novos hábitos, esquecer os anos de guerra. A juventude portuguesa, especialmente aquela com maior acesso às novidades, também se distanciava dos comportamentos conservadores que o salazarismo autárcico tentava continuar a impor. O caminho da modernidade era, contudo, imparável, como se pode ver nos conselhos que a MPF dava às suas filiadas, incentivando-as a reagir a remoques e troças das colegas que, apesar de obrigadas a seguir nas escolas as actividades da organização, não usavam o uniforme nem aderiam aos princípios austeros e tradicionalistas por ela difundidos e seguiam as modas vislumbradas nas revistas femininas.
Em Setembro de 1945, a colaboradora Maria Benedita regozijou-se, no Boletim da MPF, por já não existirem “o horror do cabelo à Joãozinho de quando éramos pequenas” e a “moda do cabelo curto que empolgou e foi usada por todas as classes”. Ao mesmo tempo ridicularizava a jovem que queria “ser Marlene, a oleosa que quer ser Joan Crawford” e as que imitavam “Garbo e aquela sereia da qual só se vê metade da cara”, além de criticar a “permanente” por eliminar, na aparência, as diferenças sociais entre as jovens: “a menina do liceu, a criada, a mulher da hortaliça, a varina tudo usa permanente [...] parecem angolanas”.
Em Abril de 1947, o Boletim da MPF fustigava o swing, em Junho, um artigo da M&M considerou que as “saias mais compridas dão mais dignidade, e, em Fevereiro de 1951, outro texto defendia que a moda devia “seguir a moral cristã e a dignidade humana”. “Chapéus fantásticos”, “unhas de garras ensanguentadas”, decotes, cosméticos e extravagâncias eram totalmente desaconselhados, assim como o eram as “danças americanas, apesar de não pretendermos que dances só pavanas e gavotas”. A dirigente Maria Margarida Craveiro Lopes dos Reis exortou, por seu turno, as jovens a não se deixarem “envolver pelo barulho do século XX” e criticou aquela que “rodava o botão da telefonia e implora[va] do batuque frenático de qualquer music-hall o barulho” ou a outra que passava o tempo no cinema, “já neura e desiludida”.
Não havia, porém, como já se viu, pior exemplo de modernidade para a MPF que a vida nos Estados Unidos, país com uma influência e poder de atracção entre as jovens que eram particularmente temidos. Vários artigos descreveram a “vida diferente da América” e como, por trás de pretensas qualidades, se esconderiam insidiosamente tremendos defeitos: os homens “ajudavam”, mas a família não tinha “estabilidade” e o divórcio grassava. Mesmo as raparigas “sérias”, se “metidas na engrenagem do mundo moderno”, corriam o risco de soçobrarem ao “egoísmo” e ao “materialismo”.
Mas foi a partir de 1958- uma data paradigmática que surge sempre quando se fala em mudanças- que os novos tempos surgiram de forma recorrente na revista. Um artigo da M&M de Janeiro desse ano abordou o tema dos “bandos” de jovens e outro apresentou o tipo de raparigas que a MPF abominava: “as que dormem vestidas”, a intelectual que usa “roupa em acordeão” ou “a ruiva que usa bailarinas” deixando o pé deformado. No mesmo ano, Maria da Conceição Costa Lobo criticou, por seu turno, a rapariga na moda, que pensava ter “personalidade” por se dar ares de intelectual, vestir camisola largueirona e saia até aos pés, fumar e beber cocktails, só ler Aldous Huxley e ver filmes de tese.
No ano seguinte, surgiu, por seu lado, um novo inimigo: o “existencialismo”. Maria Joana Mendes Leal queixou-se de ter encontrado, numa recente viagem a Paris, um jovem português que se vangloriava de ter visitado “caves existencialistas”, e, noutro artigo, também de 1959, apelava-se às portuguesas para que fossem “modernas” mas “existencialistas-não!”. Por seu turno, Ester de Lemos, num artigo nostalgicamente intitulado “A cor do passado”, retratou horrorizada as “cabeças desgrenhadas”, a mania do disco e do filme, o mobiliário geométrico e o snack-bar.
Surgira entratanto um novo factor de modernidade, a televsão, “uma janela aberta para o mundo” que “mete o mundo no lar” e que, por isso, nunca devia ser ligada durante as refeições, para se “respeitar esses momentos de intimidade familiar”. Mais tarde, em Janeiro de 1962, a televisão continuou a ser considerada uma “manifestação ostensiva de individualismo face à família”, um “poderoso meio de cultura mas também de dissipação, recreativo mas destrutivo do ambiente familiar, com possibilidade de educar mas com nefastas influências nas mentalidades e nos costumes”.
Chegara também o tempo de se condenar a “nova vaga”, “vaga desgrenhada, arrastada para o mal e mediocridade” e de se fazer apelo à leitora para que não se transformasse numa “rapariga boneca”. No final da década, a MPF tentava desesperadamente manter, num “mundo moderno”, os seus valores e a defesa da “civilização cristã”, por contraponto à “civilização moderna”. Ao mesmo tempo que erigia como inimigas as novas modas que arrastavam a juventude- os “modes e rockers” que se tinham substituído aos “blousons noirs e teddy-boys” e os que só falavam de “Vietnames”-a MPF enaltecia a “verdadeira juventude”, aquela que honrava “a sua geração” e frequentava as actvidades da organização.
6- Profissionalização e promoção feminina
O tema do exercício de uma profissão quase não foi abordado pelo Boletim da MPF, como se o facto de ocultar uma realidade, embora ténue, afastasse milagrosamente o que a organização feminina mais temia: a atracção das raparigas, às quais se dirigia, pelo trabalho fora do lar. Mas, nos anos cinquenta, essa realidade era incontornável, e começaram a surgir, na M&M, artigos sobre o assunto quase sempre da autoria da mesma colaboradora, Ana Maria. Embora repetindo as palavras de Salazar sobre a falta que a mulher trabalhadora fazia aos filhos e ao lar, esclareceu, porém, que as jovens não deviam "desdenhar da profissão", dado que algumas talvez nunca se casassem e que outras podiam ter de vir a enfrentar a viuvez. Mas, como, segundo ela, as jovens não deviam, ao escolher uma profissão, olhar "demasiado alto", limitou-se a dar algumas informações sobre escolas de aprendizagem de profissões "femininas" convenientes: cursos de professorado primário, enfermagem e de educação infantil.
Num artigo de 1959, a mesma colaboradora continuou a defender a escolha de uma profissão feminina pelas que se viam confrontadas com a "dura necessidade" de trabalhar até que o amor as libertasse. A sua posição tinha, no entanto, evoluído, pois já aceitava que a mulher não se dedicasse só a "carreiras tradicionalmente femininas" e recusava o encerramento das raparigas no quadro estreito "da antiga pedagogia alemã Kirche, Kinder: Kleider, Kuche".
Outra colaboradora da M&M, Maria Margarida Craveiro Lopes dos Reis, uma dirigente da MPF que viria, aliás, a ser deputada na segunda metade da década de cinquenta, considerou, por seu turno, que o estudo e trabalho constituíam motivos de enriquecimento para a rapariga que, depois de exercer uma profissão, podia sempre vir mais tarde "a ser esposa e mãe". Uma opinião diferente da defendida por Christine Garnier que, numa entrevista concedida à M&M, no mesmo ano, a propósito da recente edição do seu livro Vacances avec Salazar, respondeu- aliás de forma inconsequente- como a MPF desejava que o fizesse:
"Que pena da mulher que trabalha! Falo contra mim, mas sinceramente julgo que a mulher perde quando se entrega a ocupações fora do lar muito do seu encanto e graça feminina. Ela não foi realmente feita para competir com o homem. Ele tem sobretudo um passo de milhões de anos de luta pela vida que o torna sempre muito superior à sua companheira."
Em Janeiro de 1960, a colaboradora da revista Maria Mercier já não perdeu tempo em defender ou condenar o trabalho feminina extradoméstico. Tratava-se então, num período em que já havia nos liceus tantas raparigas como rapazes e em que elas ingressavam crescentemente nas universidades, de difundir entre as jovens, nomeadamente da classe média-baixa, um determinado comportamento no futuro local de trabalho. Noutro artigo, de 1966, as raparigas eram aconselhadas a escolher uma profissão segundo as suas vocação e aptidão, e a consultar o Instituto de Orientação Profissional, embora as carreiras que serviam de exemplo continuassem a ser as "femininas": "Se detestas ensinar, não escolhas um curso sem outra saída [...] se não te interessas pelos problemas dos outros, não serves para assistente social."
A mesma visão essencialista da mulher portuguesa, possuidora de determinadas características e funções ligadas à assistência, ao ensino e à vida no lar, foi transmitida ao longo dos anos pela MPF. No final da década de sessenta, o ministro da Educação Nacional, Francisco Leite Pinto, escreveu uma nota onde considerou como principais características femininas a "dedicação por um lar, com marido e filhos" e a caridade, enquanto o centro da vida masculina era constituído pela profissão:
"As capacidades intelectuais e artísticas não são decerto monopólio do cérebro masculino [...] mas em breve verificamos que as actividades profissionais raramente absorvem a mulher como o homem. O "fim" da vida de uma mulher ultrapassa a profissão, a não ser que esta se identifique com a dedicação feita caridade."
Apesar de tudo, esta visão estereotipada da "essência" feminina não foi sempre difundida com a mesma radicalidade pela M&M. Um ano antes, um texto intitulado "A mulher no mundo de hoje" introduziu a ideia de "promoção feminina", dando conta, a seu modo, do caminho percorrido pelas mulheres em Portugal, num momento em que havia quatro mulheres na AN (Assembleia Nacional)- entre elas Ester de Lemos, colaboradora da M&M- e uma na Câmara Corporativa. Segundo a articulista, a mulher devia, porém, sobretudo "votar mesmo sem fazer política", cooperar na "defesa da família", nos bens económicos, na educação e cultura, "servir a Pátria e como cristã estabelecer o reino de Deus". O mesmo artigo esclarecia ainda que, embora a "ideia justa de promoção da mulher" supusesse "a igualdade de direitos com o homem, no trabalho, estudo, comunidade e família", essa igualdade trazia à mulher "responsabilidades inerentes à sua personalidade feminina" e fazia dela "um elemento de paz, uma força de bem, obreira do progresso humano orientado para o eterno ideal: Deus, Pátria, Família".
(p. 343-357)
Adorei este texto e axo q o vou resumir e postar sobre ele!
Uma das vergonhas da minha vida foi o fato de banho preto enorme q usei nas aulas de piscinas no ciclo, herdeiro desses tempos negros (negros no sentido de roupa preta..:-))
Bom dia! desde já os meus parabéns e o meu obrigado pela informação disponível!gostaria de saber se existe informação especifica sobre o papel da mulher nos movimentos estudantis durante o Estado Novo, mais propriamente na AAC de Coimbra,
obrigado e bem haja!
Afixado por: patricia guimbra em julho 2, 2004 11:13 AM