março 14, 2004

O QUE É A ETA?

No jornal Público, da passada Sexta-feira (12/03/04) foram editados um conjunto de textos relacionados com a ETA e o País Basco. Atendendo ao momento que estamos a viver, devido aos acontecimentos em Madrid (11/03), a edição de tais textos parece-nos importante, inclusive, pelas referências históricas inerentes.
O texto em anexo intitula-se "ETA, o que é?", da autoria de João Carlos Silva (Secção: "Destaque").

ETA, O QUE É?

"(...) A violência, ainda que de forma teórica, esteve sempre presente desde 1959, aquando da formação da ETA, Euskadi Ta Askatasuna (País Basco e Liberdade). Princípios enunciados então: "Independentismo inegociável, posições radicais na estratégia política, recurso às armas se for preciso para expulsar o invasor". A ETA nasce de estudantes e intelectuais dissidentes do Partido Nacionalista Basco (PNV) numa reacção à "inoperância e colaboracionismo" dos dirigentes deste, na maior parte exilados desde o fim da guerra civil, em 1939.

Com referências ideológicas socialistas e próximas das dos movimentos de libertação do Terceiro Mundo, o nacionalismo radical da ETA prospera nas simpatias que colhe entre uma população reprimida, mas as suas acções de violência são apenas esporádicas, nas ruas, e um ou outro assalto à mão armada.

O primeiro de mil assassínios

A radicalização acontece na chamada V Assembleia, em 1967, de onde saem decisões concretas para passar à prática a teorização da luta armada, uma "guerra revolucionária" contra a ocupação de Madrid, sob a forma de guerrilha urbana.

Embora alguns registos mencionem duas vítimas anteriores (uma menina morta acidentalmente por uma bomba e um guarda civil baleado), o dia 7 de Junho de 1968 é geralmente considerado como aquele em que a ETA comete o seu primeiro assassínio. Selectivo, a merecer até benevolência de alguns sectores da oposição espanhola: a vítima chama-se Melitón Manzanas, era um polícia conhecido como "o torturador de Irún".

Até à morte de Francisco Franco, o movimento ganha notoriedade internacional em três etapas. Em 1970, com o processo de Burgos, em que seis dos seus 16 militantes (dois padres estavam entre eles) são condenados à morte (penas comutadas); em 20 de Dezembro de 1973, com o espectacular atentado, a "operação Ogro", que mata o primeiro-ministro Carrero Blanco, atirando o carro em que ele regressava da missa até à altura de um quinto andar; e com a execução, no estertor da ditadura, dos "mártires" Garmendia e Otaegui (que em Lisboa, em 1975, foram o pretexto para assaltos e saques à embaixada e ao consulado de Espanha).

Em 1970, a ETA sofreu uma cisão importante, quando, na VI Assembleia, uma maioria formou a ETA VI, vindo a abandonar depois a luta armada e deixando à ETA V a reorganização do movimento, sob controlo dos "militares". O ano de 1974 é o de nova cisão, primeiro com o abandono de militantes operários contra a luta armada, depois com a divisão entre ETA político-militar e ETA militar. O que os separa? Os primeiros admitem abandonar a luta armada se a democracia chegar; os segundos só consideram essa hipótese em caso de independência.

A monarquia parlamentar democrática chega com a morte de Franco, em Novembro de 1975, e encontra uma ETA (p.m.) severamente dizimada pela repressão que se seguiu ao atentado de Carrero Blanco, com 500 militantes presos no espaço de meses. Está também sem dinheiro: raptam dois industriais, um deles acaba por ser assassinado porque o resgate demora e, num sinal de antagonismos irresolúveis dentro do movimento, até um dos seus dirigentes e ideólogos, Pertur, acaba por ser raptado e morto por elementos da sua ala militar. Pertur fora contra o primeiro ataque indiscriminado da ETA, no Bar Correo, em Madrid, que deixou 12 mortos.

É neste ponto, em 1976, que se situa habitualmente o triunfo definitivo dos "militares" dentro da ETA, o fim da fase de luta armada e a deriva para o terrorismo. Mais de 90 por cento dos assassínios da ETA, note-se, foram cometidos depois da morte do ditador Franco, em democracia. A ETA militar torna-se de facto, a partir de 1978, "a única ETA", com um braço político, o Herri Batasuna; os da ETA (p.m.) que abandonaram a luta armada constituíram o Euskadiko Eskerra (Esquerda Basca).

Nas últimas décadas, a história da ETA tem sido a cronologia dos seus atentados, salpicada por mudanças de estratégia que incluíram tréguas temporárias, conforme as conveniências. Aconteceu em 1989, em 1998. A última fase terrorista recomeçou em 2000, após uma trégua de 14 meses.

Mas nunca houve uma admissão da organização de que podia abandonar as armas. Com os anos, a violência foi-se tornando a identidade e a razão de ser da ETA, o seu quase único instrumento político.

As eleições de 2004 em Espanha colhem a organização num momento que todos os analistas consideram ser um dos mais débeis da sua existência. Isto, por si só, poderia explicar uma acção fora do "modus operandi", um atentado em grande escala. Era isso que admitia o documento da Europol mencionado no princípio, que lhe definia até o objectivo: "criar uma comoção pública considerável e cobertura internacional".

Para todos os que olham para o massacre de Madrid, vêm a mão da ETA e, aqui mesmo, o princípio do seu fim, o mesmo documento não faz acalentar grandes esperanças. A ETA - afirma-se - "está interessada em atrair militantes em vários países europeus para dar cobertura legal e criar uma infraestrutura que ofereça apoio aos operacionais". E indicam-se países: Alemanha, Itália, Holanda, Bélgica, e Portugal. Em França, as operações "etarras" tornaram-se nos últimos anos cada vez mais difíceis.

"Apesar dos seus problemas - avisa a Europol - a ETA está a recrutar activamente gente cada vez mais jovem que possa escapar a julgamentos ou procura mesmo incorporar antigos activistas que estão a ser chamados depois de passarem um período na América Latina".

(p. 13)

Publicado por sandra em março 14, 2004 02:21 PM
Comentários

Muito bem.Fiquei a saber muito,muito mais.Só espero que as razões do "intermezzo" apontadas,para um abrandamento de edições,não seja devido a razões menos felizes...

Afixado por: valeria em março 18, 2004 02:03 AM

Convido-vos a ler o que tenho escrito em QUESTÕES IBÉRICAS, no meu blog: www.kuentro.weblog.com.pt.
De resto acho muito bom que se vão esclarecendo estas coisas e o História e Ciência está a dar um bom contributo para isso.

Afixado por: Jorge Machado-Dias em março 18, 2004 08:46 PM

eu tinha q fazer um trabalho..... era um relato sobre o atentado de madri ressaltando a questao do terrorismo basco na espanha...... sera q vcs poderiam me ajudar...??? flavia

Afixado por: Flavia em abril 7, 2004 01:02 AM

Adorei a reporatgem, mas gostaria de saber melhor sobre como é na maioria das vezes os atentados da ETA.
SE for possível responder com urgência, ficarei muito grata.
Obrigada e parabéns.

Afixado por: MANUELA em abril 12, 2004 02:56 AM

estou a escrever uma reportagem sobre emigrantes portugueses no país basco. adaptação, dificuldades, percursos... alguém tem informação ou contactos que me possa ceder?

Afixado por: Luís Filipe em julho 20, 2004 12:51 PM

Oi, eu tive que fazer um seminário sobre os Bascos e a ETa, valeu pela ajuda.Tirei 10

Afixado por: Rafaella em agosto 19, 2004 07:40 PM

interessante mesmo a gente ficar sabendo as orignens do conflito, casos que infelizmente na escola e até em toda nossa vida estudantil não temos um estudo aprofundado do assunto.

Afixado por: Alexandre Leal Cardoso em setembro 12, 2004 01:49 AM

Eu queria saber o q é o ETA e esse flog nao disse nada q eu queria !!
q podre!!

Afixado por: Raiane em novembro 1, 2004 12:49 AM

K MERDA DE SITE FDXXX--- SO ME APETECE CAGAR

Afixado por: ZE MERDA em novembro 15, 2004 03:02 PM