março 14, 2004

PAÍS BASCO: contributo para o conhecimento da sua História

Igualmente da autoria de João Carlos Silva (e editado na sequência do post anterior), o texto "País Basco: a resistência de uma língua, a sobrevivência de uma ideia", que apresentamos em anexo.
Tendo sido a sua edição original feita na secção "Destaque" do jornal Público de 12 de Março, pelo que tem de sinteticamente significativo, não poderíamos deixar de aqui fazer a sua reprodução.

NOTA: evidentemente que este texto não exclui outras leituras que podem/possam ser feitas, por forma a aprofundar conhecimentos.

"Os mais acérrimos defensores da independência basca gostam de afirmar que se encontra "cientificamente provado" que a sua nação vive no mesmo território, a Euskal Herria, há 18 mil anos e que a sua é uma história de sobrevivência e resistência colectiva contra tudo e todos. O linguista Luís Michelena não vai tão longe, mas defende ser possível afirmar que a língua basca é falada desde o ano 6000 a.C. e que foi a única de todas as línguas pré-indo-europeias a sobreviver à avalancha da cultura indo-europeia; o basco não tem hoje uma família à qual se possa acolher.

Resistentes a cartagineses, romanos, godos e muçulmanos, pela guerra ou pelas alianças, os bascos estabelecem-se pela primeira vez como unidade política com o ducado da Vasconia, no início do século VII. Dois séculos depois, o Reino de Pamplona (depois Reino de Navarra) era a sua primeira entidade independente, numa área sensivelmente semelhante ao País Basco de hoje. No início do século XI foram mesmo traçadas fronteiras entre Navarra e Castela, mas em 1200 Alava, Guipuzcoa e Biscaia abandonaram o reino e integraram-se em Castela.

Os tempos de independência de Navarra acabariam por chegar ao fim no início do século XVI, por força de uma invasão castelhana, mas Madrid comprometeu-se a respeitar a soberania dos conquistados, através de Estatutos especiais para as regiões bascas. São estes estatutos que ainda hoje são invocados pelos independentistas como uma das justificações para a sua luta.

Nas guerras de secessão carlistas de 1839 e 1876, os bascos estiveram ao lado dos secessionistas. Não só perderam os conflitos, como privilégios. Depois da primeira, os Estatutos especiais foram confirmados mas com uma ressalva essencial: "sem prejuízo da unidade constitucional". Depois da segunda, foi pior, com a proclamação da Lei da Abolição dos Estatutos, significando isso a abolição dos "fueros", leis e privilégios tradicionais, o pagamento de impostos a Madrid e a obrigatoriedade de cumprir o serviço militar sob a bandeira de Espanha.

É neste momento, e por oposição a estas disposições, que nasce a ideia moderna de nacionalismo basco, sob a inspiração de Sabino Arana y Goii, fundador do Partido Nacionalista Basco. É Arana que cria o neologismo "Euskadi" para designar o conjunto dos bascos e fala da Euskeria, uma confederação dos povos bascos de Espanha e de França. Funda um nacionalismo fundado na ideia de "raça" e "pureza de sangue".

Com a II República, fundada em 1931, há um avanço da autonomia e do nacionalismo basco, mas com divisões na região.

A guerra civil de 1936-39 viu a maior parte dos bascos do lado republicano (o tapete de bombas sobre Guernica é um símbolo basco e unievrsal), mas a vitória de Franco resultou no fim da maior parte dos privilégios bascos. A repressão começou também quase imediatamente - não apenas a repressão violenta e policial da oposição política, mas também, por exemplo, através da proibição do ensino do basco nas escolas.

A ETA nasceu em 1959 e até à morte de Franco, em 1975, travou contra Madrid uma luta sem quartel. E não desistiu nem depois de, com a transição para a democracia, os bascos terem recuperado os instrumentos de autonomia e a possibilidade de falarem a sua língua. Em 1979, um inquérito indicava que 38 por cento dos residentes se consideravam apenas bascos, 14 por cento apenas espanhóis, 26 por cento bascos e espanhóis, 12 por cento mais bascos que espanhóis, 6 por cento mais espanhóis que bascos; e quatro por cento não sabiam.

Foi no último quartel do século XIX que a rica burguesia basca se lançou na industrialização, que levou ao começo do abandono dos campos e, sobretudo, à imigração em massa de espanhóis de outras regiões para o País Basco, fenómeno que Sabino Arana interpretou com uma "invasão espanhola". A segunda industrialização, nos anos 1950-60, acentuou esta tendência.

Hoje, as três províncias bascas constituem a zona mais industrializada de Espanha e uma das mais desenvolvidas, beneficiando da sua situação geográfica, de uma poderosa infra-estrutura de comunicações e de uma força de trabalho das mais educadas.

Em termos estatísticos, o rendimento per capita do País Basco está, em toda a Espanha, apenas atrás do de Madrid e, na Europa, situa-se no primeiro pelotão, à frente por exemplo da Dinamarca, da França, da Finlândia ou da Suécia".

Publicado por sandra em março 14, 2004 02:35 PM
Comentários

Es evidente que quien escribe este texto no utiliza las herramientas de la historia, sino las de la política y el periodismo. Es completamente ahistórico hablar de las guerras carlistas como "guerras de secesión". Por otra parte, la incorporación de Navarra a la corona de Castilla, como todo proceso constitucional de la época, tampoco se entiende bien como "conquista" ni "invasión".
Los procesos históricos que han llevado a la actual realidad del País Vasco, Navarra e Iparralde son complejos e interesantísimos. No creo que ganemos nada con análisis anacrónicos.
Un saludo.

Afixado por: Diego Palacios Cerezales em março 15, 2004 09:56 AM

Diego:
este teu contributo foi/é preciosíssimo. É evidente que quando edito aqui textos, eles não devem ser lidos sem qualquer espírito crítico. Se poderes e quiseres, envia-me informação sobre o assunto para aqui poder ser editada.
Um abraço.

Afixado por: Sandra em março 15, 2004 06:33 PM

Sandra, siempre es mejor tener un texto de base para discutir, aprender y formular preguntas que no tener nada.
No soy experto en ninguna de las cuestiones, pero un texto clásico como el de Raymond Carr "Spain 1808-1975" presenta el carácter del carlismo de una manera que parece sólida.
Hoy en día hay una renovación historiográfica que intenta saber qué significaba exactamente "Dios, Patria y Rey", el lema carlista, pero en ningún caso parece que la historiografía encuentre un sentido "secesionista" en la idea de "patria". Está claro que el centralismo y unificación jurídica que llevó a cabo el liberalismo en el siglo XIX fue combatido por el carlismo, pero eso no los convierte en "secesionistas".
Lo que sí ha habido es una política de recuperación histórica del carlismo por parte del nacionalismo vasco, con el que en sus orígenes compartía el clericalismo y el antiliberalismo.
Sin embargo, en la guerra civil española, los carlistas, fuertes sobre todo en Navarra y Álava, pusieron sus milicias al lado de Franco, contra el gobierno nacionalista del País Vasco.

Si hay algún lector de esta página que conozca bien el miguelismo portugués, seguramente cuente con una bibliografía actualizada sobre el carlismo.
un saludo cordial.

Afixado por: Diego Palacios Cerezales em março 16, 2004 06:57 PM

Diego:
muitíssimo obrigada.

:)))

Afixado por: Sandra em março 16, 2004 07:00 PM

Sou descendente de bascos que imigraram para o Brasil ao término das guerras de secessão carlistas de 1839 e 1876 e gostaria de ter maiores informações sobre este fato histórico, eis que parte da história familiar ficou perdida em algum lugar do País Basco, e tenho interesse em recupera-la.

Afixado por: André em março 18, 2004 05:31 PM

Leiam também o www.kuentro.weblog.com.pt.
Como disse atrás, em QUESTÕES IBÉRICAS, contribuo um bocadito para esta discussão e não só...

Afixado por: Jorge Machado-Dias em março 18, 2004 08:47 PM

Valeu, acho que me ahudou no meu trabalho< continue assim rs

Afixado por: Stephanie em abril 13, 2004 05:04 AM

Olá, gostaria de saber sobre informacoes bibliográficas sobre o País Basco e a busca pelac sua independencia...estou fazendo uma monografia sobre esse tema e gostaria de saber sobre mais referências sobre essa questão tão marcante para as questões Ibéricas. Grato desde já!

Afixado por: Carlos em abril 14, 2004 01:52 PM

Gostaria de saber se o texto (artigo) transcrito está na íntegra. De qualquer forma, quando busquei algo do país basco, essa foi uma das referências e não posso deixar de reverenciá-la por ter publicado o citado artigo. Quanto aos questionamentos acerca de "secessão" ou não, isso não vem ao caso, pois cada comentário levará em conta o sentimento político-nacionalista de quem o fez... Criticar o que traz o artigo que a Sandra publicou não vai ajudar em nada... Convém que essas pessoas dêem respaldo (referência bibliográfica completa e de peso) às defesas que fazem... Isso ajudaria muito a formar opiniões e a fazer prevalecer esta ou aquela teoria a respeito do assunto. De mais a mais, o trabalho é histórico-lingüístico e não necessariamente político.

Afixado por: Inez Guedes em abril 14, 2004 03:55 PM

Caro João Carlos Silva:

Como bem diz o Diego, as guerras carlistas não foram guerras de secessão, mas sim guerras de sucessão: os Carlistas diziam-se os verdadeiros herdeiros da coroa espanhola.
Será que tudo isto se deve à confusão entre a palavra secessão (que significa separação, independência, etc...) e sucessão ?

Saudações ibéricas.

Afixado por: João Guerra em abril 15, 2004 06:24 PM

Português/Portugués

Sou brasileiro, e tenho uma curiosidade especial sobre o povo basco. Lembro-me de ter lido algo da sua relação com antigas populações Cro-Magnon, que aportaram na região à 40.000 a.C.. Mas atualmente quero ver há diferenças étnicas entre a população basca e os demais espanhóis. E existe uma semelhança óssea/étnica entre eles e os inigualáveis Cro-Magnon. Uma raça extraordinária, rica em detalhes estruturas que acabou por dizimar os Neandertalianos em seu tempo.

Afixado por: ArchX em maio 23, 2004 02:28 PM

por favor me responda,o q a França tem haver com a questão do Povo Basco?

Afixado por: Felipe em junho 4, 2004 03:41 PM

Porque a Espanha nao concede a independencia ao País Basco?

Qual a influencia da França sobre o País Basco?

Afixado por: Lucas em junho 13, 2004 01:38 AM

Por favor me respondam até o dia 15/06/04 pois necessito das informações com urgência.obrigado.

Afixado por: Lucas em junho 13, 2004 01:42 AM

Gostaria de saber se voces tem algumas informações sobre caracteríticas culturais , localização, estrategias, e objetivos dos povos bascos. Por favor se acharem olgo me envie, agradecerei plenamente. Muitoobnrigado se puderem me envie até dia 30/07/2004. Valeu!

Afixado por: Patrícia Barbosa Reis em julho 29, 2004 08:35 PM

Gostaria de saber se voces tem algumas informações sobre caracteríticas culturais , localização, estrategias, e objetivos dos povos bascos. Por favor se acharem olgo me envie, agradecerei plenamente. Muitoobnrigado se puderem me envie até dia 30/07/2004. Valeu!

Afixado por: Patrícia Barbosa Reis em julho 29, 2004 08:35 PM

Belo trabalho. Tinha curiosidade sobre o tema.

Afixado por: Antônio Anacleto em setembro 6, 2004 02:52 AM

Eu estou a fazer sobre o País Basco. Isto porque me alertaram para o facto do País Basco ser já um país autónomo. Pelas minhas fontes o País Basco é uma região pertencente a España! E a minha pergunta é: O País Basco é ou não uma região de España? Agradecia a resposta o mais rápido possivel. Obrigado pela compreensão e desde já os meus parabéns pelo site!

Afixado por: Ivo em outubro 23, 2004 06:03 PM

Sim, Ivo, o País Basco é uma região de Espanha. Para além do meu post lê todos os comentarios anteriores, pois podem tb a vir a ter interesse para ti.

Obrigada pelas tuas palavras.

Afixado por: Sandra em outubro 23, 2004 08:04 PM