Noticiada ontem no jornal Público, a morte de Maria Ângela Vidal, uma opositora/resistente, desde os 17 anos de idade, ao regime de Salazar. Nascida no Porto no dia 5 de Setembro de 1926, Ângela Vidal, faleceu no Hospital do Desterro, vítima de uma septicémia.
Apresentamos, em anexo, o texto da autoria de António Melo onde é sintetizada a vida desta mulher que, sem dúvida, vai ficar para a História como alguém que lutou por aquilo em que acreditou.
Texto incluído na secção "Nacional". 15/03/2004.
"Maria Angela Vidal, uma referência da resistência antifascista portuguesa, morreu ontem em Lisboa, no Hospital do Desterro, vítima de uma septicemia. Fora internada no passado dia 25 de Fevereiro, já em estado muito grave, tendo entrado em coma três dias depois, não tendo recuperado. O corpo fica em câmara ardente na Igreja de São Mamede (à Rua da Escola Politécnica) a partir das 16 h. de hoje e o funeral realiza-se amanhã, em hora a anunciar. Nasceu no Porto, a 5 de Setembro de 1926, e deixa um filho, António Vidal, nascido em 1951, num período de clandestinidade política de Angela Vidal.
"A minha vida foi toda rebeldia", disse numa noite de Fevereiro de 2001, em que acedeu a falar de si, na livraria Ler Devagar - um depoimento que passou a livro e foi editado pelo PÚBLICO ("Vozes da Resistência").
Recordou nessa noite o que levou uma jovem de 17 anos, filha de um influente comerciante do Porto, com porta aberta na Rua de Santa Catarina, a tomar o compromisso de derrubar o regime do Estado Novo, através de acção política no Partido Comunista Português: "Entrei no trabalho político por revolta social e não por razões de ordem filosófica ou ideológica". Esse "trabalho" iniciou-o no MUNAF (Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista) no ano de 1943, quando as notícias da Emissora Nacional e dos jornais da censura prévia davam grande relevo à ofensiva a Leste do III Reich, que se ocupava Paris, como quase toda a Europa ocidental. Mas, embora o Portugal salazarista o não quisesse saber, Hitler começara a perder a II Guerra Mundial, com os seus exércitos presos no frio de Estalinegrado, incapazes de se soltarem da pressão aliada, a Leste e no Norte de África. A entrada no MUNAF dá-se em companhia da grande amiga da altura, Maria Natália Maia, mais tarde casada com o jornalista e animador cineclubista Manuel de Azevedo. É com ela que dois anos depois vai integrar o PCP.
Franzina, mas determinada para lá de todas as expectativas, aceita entrar na clandestinidade para, em trabalho de apoio ao secretariado comunista, apressar a queda do regime. A tarefa revelou-se bem mais difícil do que supusera e a vitória aliada em 1945 não significou o fim do fascismo em Portugal. Pelo contrário, com a "guerra fria", a política do regime endureceu e a PIDE (a polícia política do regime), refinou os interrogatórios aos detidos, introduzindo os métodos da tortura do sono e da "estátua", ou seja, obrigar o preso a ficar de pé, dias a fio.
Maria Angela correu praticamente o país de Norte a Sul, nesse trabalho incansável e discreto de apoio ao secretariado do PCP clandestino. Do Porto veio para Sintra, onde tomou conta da casa do pinhal perto da Lagoa Azul, e aí nasceu o filho, a 30 de Junho de 1951.
"Eu tinha 20 dias de parto e tive que andar cinco ou seis quilómetros para pôr um sinal na zona de Ranholas. Tinha que o fazer, mesmo se isso implicasse deixar o bebé sozinho" -era o sinal combinado para que o companheiro clandestino soubesse que tinha a passagem livre.
Daqui desceu até a Albufeira e foi aí, numa vila que nesse tempo ainda não era de vilegiatura, antes tinha fama de ser coito de contrabandistas, que a prenderam num fim de tarde de Setembro de 1953.
Foi condenada a quatro anos de prisão por atentar contra a segurança do Estado, mas acabou por sofrer mais do dobro, devido às famigeradas "medidas de segurança", ou seja, uma decisão tomada em função da "periculosidade" do detido, numa avaliação feita pela própria PIDE.
Quando foi restituída à liberdade - condicionada e com termo de residência - era uma sombra ambulante e foi o receio de que viesse a morrer na cadeia que levou a polícia a não renovar por mais três anos as "medidas de segurança".
Esse ano foi o da grande crise académica e ela não deixou de lá ir ver como continuavam as novas gerações uma luta que ela encabeçara vinte anos antes.
Em 1964, abandonou o PCP, inconformada com a linha política, que qualificou de demasiado seguidista em relação ao modelo soviético.
Sem outros apoios que não fosse o da força de vontade para participar na criação de um mundo mais solidário, passou a trabalhar na clínica de Santa Cruz, em Carnaxide, ajudando a que depois do 25 de Abril se transformasse na unidade pioneira da transplantes cardíacos que é hoje".
(p. 21)
ESTA SIM É UMA REBELDE COM CAUSA ,E, NÃO UMA REBELDE QUE NÃO TEM NADA QUE FAZER COMO A TÃO AGORA FALADA ANNIE SILVA PAIS.
MORREU UMA GRANDE MULHER.