março 31, 2004

CONTRIBUTO PARA A INTERPRETAÇÃO DO TERRORISMO CONTEMPORÂNEO: opinião de Carlos Vale Ferraz

Editado hoje, no jornal Público (Espaço Público/Opinião), um artigo do escritor Carlos Vale Ferraz, onde este apresenta uma proposta de análise (a sua) sobre o fenómeno do Terrorismo contemporâneo. Neste texto o autor parte dos acontecimentos verificados a 11 de Setembro de 2001 e 11 de Março deste ano, para tecer um conjunto de considerações em torno da problemática Ocidente-Islão, naquilo que se pode especificar em torno da questão dos confrontos verificados. Neste contexto, o debruçar da reflexão sobre a actuação da Al-Qaeda e das intenções do seu líder, Osama Bin-Laden.
Intitula-se o artigo: "As nossas dores e as guerras dos outros" e é mais uma referência para o que neste blog temos editado sobre o assunto.

"AS NOSSAS DORES E AS GUERRAS DOS OUTROS

Os acontecimentos do 11 de Março de 2004 em Madrid e os do 11 de Setembro em Nova Iorque geraram um pensamento dominante: estamos numa guerra de civilizações entre o mundo islâmico, por natureza fundamentalista e totalitário e as democracias ocidentais, por natureza, liberais e tolerantes.

Agora, ou pertencemos a um lado ou ao outro e a nenhum dos elementos de uma parte é permitido discutir os seus fundamentos e duvidar da sensatez, da bondade ou até da eficácia das operações que foram ou que venham a ser decididas.

Estes pressupostos conduzem aos resultados actuais, transformam conflitos de civilizações, que é o que ainda hoje existe entre o mundo islâmico e o Ocidente de matriz cristã, numa verdadeira guerra de civilizações. É para esta guerra que as assassinas acções de Osama Bin Laden e as desastradas respostas de George Bush nos estão a conduzir.

De facto, tem sido Osama Bin Laden e aquilo que se designa por Al-Qaeda, os mestres do jogo de morte em que todo este processo de terrorismo islâmico nos tem envolvido e em que nós, os ocidentais, nos temos deixado envolver.

Se a primeira regra de qualquer manual de guerra é conhecer o inimigo, perceber as suas intenções e os seus objectivos, qual é o objectivo de Bin Laden e da Al-Qaeda com as suas acções de terrorismo e propaganda?

Ao contrário do pensamento dominante, parece-me ser a de, numa primeira fase, se transformarem no movimento de referência de todo o mundo islâmico. É a acção clássica de uma minoria activa, voluntarista, determinada, militante para ocupar o poder e exercê-lo sobre uma maioria resignada. O objectivo de Bin Laden e da Al-Qaeda não é, para já, vencer o Ocidente, mas ganhar nele os troféus que lhe permitam apresentar-se diante do seu povo como os seus heróis e salvadores. É nesta fase, de conquista de louros para garantir adesões e impedir contestações, que a Al-Qaeda se encontra.

A pior maneira do Ocidente impedir que Bin Laden e a Al-Qaeda consigam ultrapassar esta fase é assumir-se como o seu inimigo agora, dizer-lhes: aqui estamos à vossa disposição para que vocês ganhem os louros que mais tarde vos servirão para justificarem o domínio sobre os vossos povos! Foi isto que as intervenções no Afeganistão e no Iraque fizeram, é isto que a nossa cumplicidade activa com Israel na humilhação e na mortandade dos palestinianos faz diariamente. É isto que Bin Laden quer e é isto que está a conseguir.

Se Nova Iorque e Madrid foram exibições, terríveis exibições, para consumo interno no mundo islâmico, a melhor estratégia do Ocidente deve e deveria ter sido, colocar a resposta ao terror onde ela deve ser colocada: no interior do mundo islâmico.

Se a maioria do mundo islâmico pretende ter com o Ocidente um convívio civilizacional, a resposta ao pretendido domínio da Al-Qaeda tem de assentar nas forças que, revendo-se no Islão, recusam a sua estratégia terrorista.

O Islão tem de travar entre si as suas guerras de reforma e contra-reforma e, não sendo elas um problema do qual o Ocidente possa ou venha a poder alhear-se, não é no Ocidente que devem travar-se as batalhas principais, nem contra o Ocidente, mas no mundo islâmico e entre facções islâmicas.

Daí ser salutar que no Ocidente os governos e os povos ponham em causa as opções de invasão e ocupação militar para fazer face a uma disputa interna de poder, mesmo que conduzida através de acções terroristas que o afectam tão dramaticamente, pois elas constituem parte de uma guerra onde o Ocidente é, para já, um pretexto e para o qual estes métodos são reconhecidamente inadequados, como as guerras de libertação anti-coloniais dos anos 60 e 70 provaram na Ásia e em África.

Escusar-se a fazer de inimigo num combate que não é o seu, não é sinal de cobardia nem de fraqueza, mas sim a recusa de favorecer os principais inimigos daqueles que podem e devem ser nossos aliados: a grande maioria dos povos islâmicos que não se revêem nem nos métodos nem nos objectivos da Al-Qaeda. Lutar contra o fundamentalismo islâmico, contra o terrorismo, exercer o direito de defendermos as nossas vidas, os nosso valores materiais e espirituais, evitar novos 11 de Setembro e 11 de Março, obriga-nos, isso sim, a procurar as melhores respostas e essas podem passar pela recusa de correr de olhos fechados, em fileiras cerradas contra os vespeiros que aqueles que agora tocam os sinos a rebate arrogantemente rebentaram a tiro de zagalote".

Publicado por sandra em março 31, 2004 08:44 AM
Comentários

O terrorismo global, como hoje o conhecemos - sem rosto - tornou-se uma ameaça depois dos ataques injustificados pela admnistração Bush no Afeganistão e Iraque.
Defendem hoje em dia que não deve existir diálogo com os apelidados terroristas, quaisquer que sejam, retirando da mesa uma das ferramentas que permitiram a evolução para a independência e democracia de muitos (alguns novos) estados nos anos 50, 60 e 70, principalmente.
O final da história? Sem qualquer diálogo, provavelmente só se ouvirão no futuro bombas e metralhadoras, a única linguagem percebida agora (ao que parece), pelas partes envolvidas nos conflitos. Infelizmente.

Afixado por: Miguel Rodrigues em abril 5, 2004 05:38 PM

Tomava este blog como sério, mas vejo que se dedica a publicar também artigos de propaganda (e de auto-propaganda), que falam muito etereamente sobre os factos ao mesmo tempo que os pisam.

De facto, torna-se complicado sequer comentar algo de teor puramente linguístico, que tem uma ânsia brutal em mostrar a sua veia criadora...

Afixado por: Mário em abril 16, 2004 04:12 PM

Mário:
o objectivo deste blog é também deixar registadas opiniões/posições sobre problemas/situações/acontecimentos da mais variada ordem. Da junção/conhecimento de posições tão diversificadas quanto possível é possível (passe-se a repetição) elaborar sínteses muito interessantes e reveladoras de correntes de opinião/posicionamentos políticos, etc...
Registo este teu comentário como um importante contributo. Porque deixa opinião.
Obrigada.

Afixado por: Sandra em abril 16, 2004 06:12 PM

Mais uma vez, só li questões pontuais.. porque não falar da bomba de Iroshima, dos milhares de palestinos que forma expulsos por israelenses de suas terras, porque não mencionar o fato de que não existem provas cabais de que foi a temida rede Al Qaeda quem atacou o WTC etc.. terrorismo? de quem??

Afixado por: Fábio Dias Ribeiro em abril 23, 2004 05:42 AM

Estou terminando minha monografia sobre o COnceito de Terrorismo no Legislação Brasileira e no DIreito Internacional e percebi ao longo do estudo que essa é uma questão muito delicada. Principalmente porque não podemos identificar ao longo da história uma característica comum entre os praticantes dos atos terroristas. Ora foi fomentado pelo próprio Estado em busca de um inimigo comum entre seus cidadãos, ora foram grupos organizados com objetivos de tomar o poder e hoje vemos grupos que atravessam as fronteiras de suas crenças e ideologias para praticar o terror na casa longincua do inimigo. Acredito que devemos nos atentar para os motivos que levam essas criaturas a querer essa dissiminação do pânico, pois podemos estar auxiliando-os com nossas políticas míopes.

Afixado por: Fernanda Lohn em junho 29, 2004 02:58 PM

Quero agradecer ao Sr. Carlos Vale Ferraz pelo brilhante artigo de opinião no Publico de 29-10-2004, sobre "O Iraque e o cerco dos EUA à Europa".
Tal e qual. A minha revolta encontrou eco.

Afixado por: julio dinis sousa em outubro 29, 2004 08:33 PM