agosto 31, 2003

O HOMEM E O AVANÇO DA CIVILIZAÇÃO: perspectiva de Ortega y Gasset

Ortega e Gasset (1883-1955) é um daqueles filósofos que aquando da entrada no século XX, valoriza o concreto individual e circunstancial da vida, entrando na linha de Kierkegaard, Nietzsche, Bergson e dos Existencialistas, em geral.
A sua concepção da História encontra-se expressa em vários trabalhos, destacando-se História como Sistema, datada de 1936 e Uma interpretação da história universal, publicada póstumamente.
Apresentam-se como sendo as principais ideias nestas obras, as seguintes:

1. A realidade primeira e radical é a vida.

2. A vida humana é tempo e, por isso, história.

3. Eu sou a minha circunstância.

4. Viver é conviver.

5. A razão não é universal e absoluta, antes histórica e vital.

6. A História como ciência permite a previsão do futuro.

Por outro lado, na obra intitulada A rebelião das massas (cuja primeira edição surgiu em 1930), Ortega e Gasset tece um conjunto de considerações relativas à relação entre o Homem e a Civilização, culminando na ideia da incapacidade daquele em tomar as medidas e caminhos mais correctos, traduzindo-se isso, no início do século XX, nas respostas ideológicas e políticas encontradas com o "bolchevismo" e como o "fascismo". Diz, pois, a este propósito, o seguinte:

"A civilização , quanto mais avança, mais se torna complexa e mais difícil. Os problemas que hoje levanta são mais do que intrincados. Cada vez é menor o número de pessoas cuja mente está à altura desses problemas. O pós-guerra ofereceu-nos um exemplo bem claro disso. A reconstituição da Europa- como se pode ver- é um assunto demasiado algébrico, e o europeu vulgar revela-se inferior a tão subtil empreendimento. Não é que faltem meios para a solução. Faltam cabeças. (...)
Este desequilíbrio entre a subtileza complicada dos problemas e a das mentes será cada vez maior se não o solucionarmos, e constitui a mais elementar tragédia da civilização. (...)
Mas agora é o homem que fracassa por não poder seguir emparelhado com o progresso da sua mesma civilização. (...)
Civilização avançada é exactamente a mesma coisa que problemas árduos. Daí que, quanto maior for o progresso, mais em perigo está. A vida é cada vez melhor; mas, bem entendido, cada vez mais complicada. É claro que ao complicarem-se os problemas também se vão aperfeiçoando os meios para resolvê-los. Mas é necessário que cada nova geração se apodere desses meios adiantados."

Neste contexto, e para que tal propósito seja conseguido pelo Homem, Ortega e Gasset valoriza aquele que é o conhecimento da História. Se este existisse por parte dos indivíduos, nomeadamente dos governantes, a construção do futuro seria certamente melhor pela capacidade acrescida de não se cometerem erros verificados no passado. Vejamos, então:

"Entre estes [os meios avançados]- para concretizar um pouco- há um lapalicianamente unido ao avanço de uma civilização, que é ter muito passado atrás de si, muita experiência; em suma: história. O saber histórico é uma técnica de primeira ordem para conservar e continuar uma civilização antigas. Não porque dê soluções positivas ao novo cariz dos conflitos vitais- a vida é sempre diferente do que foi-, mas porque evita cometer os erros ingénuos de outros tempos. (...) Pois eu creio que é esta a situação da Europa. As pessoas mais "cultas" de hoje padecem de uma ignorância histórica incrível. (...) Por isso são bolchevismo e fascismo, os dois intentos "novos" de política que se estão a fazer na Europa e seus arredores, dois claros exemplos de regressão substancial. (...)".

Sendo que o que está em causa é a capacidade do Homem conceber e aplicar determinado tipo de ideologia, política ou medidas, no tempo certo e em versões correctas, o conhecimento do que tem sido o processo histórico é absolutamente fundamental. Se tal não se verificar, por exemplo, "...bolchevismo e fascismo- são duas pseudo-alvoradas; não trazem a manhã de amanhã, mas a de um dia arcaico, já usado uma ou muitas vezes; são primitivismo". E assim, com toda a certeza, a Civilização não avançará.
No caso específico da Europa, pós 1ª Guerra Mundial, esta "... não tem remissão se o seu destino não for posto nas mãos de pessoas verdadeiramente "contemporâneas" que sintam palpitar debaixo delas todo o subsolo histórico, que conheçam a altitude presente da vida e repugnem todo o gesto arcaico e silvestre. Precisamos da história íntegra para ver se logramos escapar dela, não recair nela".

Evidentemente que todas estas afirmações, continuam a aplicar-se aos/nos dias de hoje...

(Excertos extraidos de: ORTEGA Y GASSET- A rebelião das massas. Lisboa: Relógio d'Água, s.d, p. 97-102).

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agosto 30, 2003

A IMPORTÂNCIA DO SOCIALISMO DEMOCRÁTICO NO ÂMBITO DA HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA: opinião de Mário Soares

Nos dias 13 e 14 de Novembro de 2002 foi publicada no Diário de Notícias uma entrevista de Mário Bettencourt Resendes a Mário Soares. Nos inícios de 2003 esta mesma entrevista sai publicada em livro, cujo título é A incerteza dos tempos.
Da totalidade das respostas nele apresentadas, transcrevemos algumas em que o ex-Presidente da República e fundador do Partido Socialista, faz um balanço do que tem sido a posta em prática do "Socialismo democrático", assim como quais os resultados por este trazidos para o bem estar, desenvolvimento e progresso das sociedades contemporâneas, logo, para um enquadramento específico e determinado do processo histórico. Aponta, por outro lado, e nesta sequência, caminhos que devem sem seguidos para que este mesmo Socialismo garanta, de forma adaptada aos tempos, cenários de desenvolvimento num presente e futuro caracterizados pela incerteza e imprevisibilidade:

"(...) Desde o fim da guerra fria que se vem a acentuar uma crise do socialismo democrático ou da social-democracia. O fenómeno mimético de certo socialismo com o neoliberalismo foi trágico e poderá explicar algumas derrotas socialistas recentes. (...)"

"A seguir, com o colapso do comunismo e o fim da guerra fria, o neoliberalismo avançou sem freios, dando lugar a uma forma nova e perversa do capitalismo, o capitalismo especulativo do nosso tempo, o "império" do dinheiro sem pátria, que, através das multinacionais, procura comandar o mundo, sem que para isso tenha qualquer legitimidade democrática.
O socialismo democrático sempre se caracterizou por associar a liberdade política à economia de mercado, com regras, manifestando-se contrário à estatização das economias, mas nacionalizando os sectores considerados estratégicos da economia ou entregando-os a empresas com maioria de capital público e desistindo de um tipo de planificação económica rígida, em moda no final da guerra. O mercado é o grande dinamizador da economia, mas gera enormes desigualdades sociais que cumpre ao Estado corrigir em defesa dos mais fracos. Nisto consiste o modelo social europeu, a segurança para todos, na doença, no desemprego e na velhice. A concertação social e o pleno emprego."

"(...) A verdade é que o socialismo democrático é responsável por trinta ou quarenta anos de grande bem-estar para as populações europeias ocidentais, dando lugar a um grande desenvolvimento das classes médias e trazendo importantes benefícios para os trabalhadores em geral, incluindo o meio rural. Entramos agora num outro período da História, dada a revolução tecnológica e os imensos progressos da informática, que, nas sociedades democráticas ocidentais, reduziram grandemente o peso do operariado e do campesinato, alargando a importância dos serviços. O capitalismo, como disse, mudou de natureza. Entrou na fase especulativa, a chamada "nova economia", recorrendo sem freios à "engenharia financeira", abandonou os princípios éticos de que falava Max Weber no seu famoso artigo "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo" e tornou-se numa selva, na qual o que conta é a força do dinheiro e do poder militar. Surgiram os chamados "novos pobres" e aumentou exponencialmente o número dos excluídos. Mas as aspirações dos pobres a uma vida melhor e mais humana não mudaram. Apareceu, em tempo de globalização, o fenómeno da cidadania global. O socialismo democrático para se impor, tem de voltar ao terreno das lutas sociais (por onde começou) e saber dar resposta aos problemas novos do tempo de hoje, recusando intransigentemente as receitas do neoliberalismo, principal responsável pelo alargamento do fosso entre ricos e pobres e pelas chamadas "economias de casino".

(SOARES, Mário- A incerteza dos tempos. Entrevista de Mário Bettencourt Resendes. Lisboa: Editorial Notícias, 2003, p. 59-62. Sublinhado nosso).

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SENTIDO(S) DA HISTÓRIA: de novo em torno de Popper (1)

Porque as abordagens sobre a História são uma constante nas intervenções e obras de Karl Popper, deixamos aqui mais alguns excertos, desta fez extraídos da conferência intitulada "A autolibertação pelo saber", proferida na Rádio da Baviera em 1961, no âmbito de conferências subordinadas ao tema "O Sentido da História", os quais permitem, igualmente, reforçar o conteúdo do post anterior:

"(...) O mesmo acontece com a expressão "o sentido da história". Também aqui se concebeu, frequentemente, um sentido secreto e oculto para o devir da história universal. Ou uma tendência evolucionista oculta inerente à história. Ou um objectivo perseguido pela história política universal. Creio que, neste caso, a nossa resposta deve ser idêntica à da interrogação sobre o sentido da vida. Em lugar de nos interrogarmos sobre o sentido oculto da história, devemos dar à história um sentido. Devemos impor uma missão à história política e também a nós próprios. Em lugar de procurarmos um sentido profundo e oculto ou uma meta a atingir pela história política universal, devemos interrogar-nos a nós próprios sobre os objectivos possíveis da história política universal, tanto humana como politicamente."

Para tornar possível o alcance destes objectivos, Popper apresenta três teses, tradutoras do seu pensamento:

"Assim, a minha primeira tese é a de que deveríamos renunciar a falar do sentido da história, quando com isso pretendemos significar algo oculto na trama da história, ou quando o interpretamos como tendências ou leis evolucionistas que se dissimulam na história política universal e que talvez possam vir a ser descobertas pelos historiadores ou pelos filósofos.
A minha primeira tese é, por conseguinte, negativa. Ela afirma a inexistência de um sentido oculto da história e assevera que todo o historiador ou filósofo que julgue tê-lo descoberto, labora numa terrível ilusão.
A minha segunda tese é, pelo contrário, muito positiva. Afirma a possibilidade de nós próprios darmos um sentido à história política, um sentido viável e humano. (...) Assim, a minha terceira tese é a de que podemos aprender com a história que a determinação de um sentido ético ou a fixação de um objectivo não tem, de modo algum, de ser em vão. Em contrapartida, nunca compreendemos a história se subestimarmos a força histórica dos objectivos éticos fixados. Sem dúvida que conduzem muitas vezes a resultados assustadores."

(POPPER, Karl- "A autolibertação pelo saber". In: POPPER, Karl- Em busca de um mundo melhor. 3ª ed. Lisboa: Fragmentos, 1992, p. 127).

Chamamos a atenção para o facto de um maior desenvolvimento sobre cada uma destas teses vir a ser alvo de apresentação posterior, onde se fará igualmente referência a pensadores que o filósofo austríaco enquadrou em cada uma delas, por forma a melhor as poder explicitar.

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POSICIONAMENTOS FACE AO PROCESSO HISTÓRICO: o optimismo de Karl Popper

Na sequência do que temos vindo a escrever sobre a existência de leis em História, a ideia de progresso e os posicionamentos que tal significa perante o processo histórico por parte dos seus defensores, deixamos aqui o excerto de uma intervenção proferida por Karl Popper numa palestra dada na Universidade de Eichstatt, em Maio de 1991, intitulada "Contra a interpretação cínica da história", onde o filósofo clarifica aquela que é a sua posição face a um mundo e a um tempo passado, presente e futuro:

" Resumirei do seguinte modo a faceta positiva do meu optimismo. Vivemos num mundo simples e maravilhoso e no Ocidente criámos o melhor sistema social que jamais existiu. Estamos constantemente a tentar melhorá-lo, a reformá-lo- o que está longe de ser fácil. Muitas reformas que parecem promissoras acabam por revelar-se erradas. Pois é de importância crucial entender que as consequências dos nossos actos sociais e políticos são muitas vezes diferentes do que pretendíamos e fomos capazes de prever. Não obstante, conseguimos muito mais do que aquilo que muitos de nós (entre os quais me incluo) alguma vez esperámos.
A ideologia dominante, que considera que vivemos num mundo moralmente pérfido, é uma mentira descarada. (...) Repito: não sou um optimista no que respeita ao futuro. Pois o futuro está em aberto. Não existe qualquer lei histórica do progresso. Não sabemos como será o amanhã. Existem biliões de possibilidades, boas e más, que ninguém é capaz de prever. Rejeito a profética definição de objectivos das três interpretações da história e defendo que, por razões morais, não devemos substituí-las por coisa alguma. O simples facto de extrapolar da história é errado- por exemplo a partir das tendências do presente o que irá acontecer amanhã. Considerar a história uma corrente previsível, pelo menos em parte, é construir uma teoria a partir de uma imagem ou de uma metáfora."

Face a isto e para Popper:

"O único procedimento correcto consiste em considerar o passado como sendo completamente diferente do futuro. Devemos julgar os factos passados de um ponto de vista histórico e moral, de molde a aprender o que é possível e o que está moralmente correcto. Não deveríamos de modo algum deduzir tendências e caminhos a partir do passado e fazer previsões sobre o futuro."

Assim, e no que respeita à sua posição optimista quanto ao presente:

"...o que o meu optimismo em relação ao presente pode oferecer para o futuro é esperança. Pode dar-nos esperança e incentivo, porque conseguimos fazer muitas coisas melhor e um êxito semelhante não é impossível no futuro. (...)
O futuro está em aberto e temos a responsabilidade de fazer o nosso melhor para o tornar ainda melhor do que o presente. Mas esta responsabilidade pressupõe liberdade. (...)

(POPPER, Karl- "Contra a interpretação cínica da história". In: POPPER, Karl- A vida é aprendizagem. Lisboa: Edições 70, 2001, p. 150-152).

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agosto 29, 2003

CONDORCET: a ideia de progresso e a existência de leis no âmago do processo histórico

Membro da Academia das Ciências, interveniente na Revolução Francesa, presidente da Assembleia Legislativa, para a qual foi eleito em 1791 e posteriormente membro de uma subcomissão de Salvação Pública, Condorcet (1743-1794) foi uma importante figura do seu tempo.
Após ter-se visto forçado a entrar na clandestinidade por discordar da Constituição de carácter jacobino aprovada pela Convenção, Condorcet inicia a sua obra Esboço para um Quadro Histórico do Progresso do Espírito Humano, onde faz referências claras relativamente à concepção que tem da evolução do processo histórico, assim como de leis a este inerente.
O excerto da obra referida que agora apresentamos pretende, pois, deixar salientada esta ideia, reforçando o que já dissemos em post anterior sobre a existência de leis em História, assim como a sua variedade, de acordo com os sistemas filosóficos ou teorias construídos:

"Se o homem pode predizer, com segurança quase completa, os fenómemos cujas leis conhece; se mesmo quando elas lhe são desconhecidas pode, segundo a experiência do passado, prever, com grande probabilidade, os acontecimentos do futuro; por que razão se havia de considerar como empresa quimérica a de traçar, com alguma verosimilhança, o quadro dos futuros destinos da espécie humana, segundo os resultados da sua história? O único fundamento da crença nas ciências naturais é a ideia de que as leis gerais, conhecidas ou ignoradas, que regem os fenómenos do universo, são necessárias e constantes; e por que razão este princípio havia de ser menos verdadeiro para o desenvolvimento das faculdades intelectuais e morais do homem do que para outras operações da natureza? Enfim, visto que as opiniões formadas de acordo com a experiência do passado, sobre os objectos da mesma ordem, são a única regra na conduta dos homens mais sábios, por que razão se havia de proibir o filósofo de apoiar as suas conjecturas sobre esta mesma base, desde que ele não lhe atribua uma certeza superior à que pode nascer do número, da constância e da exactidão das observações?"

Intrinsecamente ligada a esta ideia temos aquela que salienta que o processo histórico traduz o progresso da Humanidade, progresso este verificado ao nível das mais variadas vertentes e ao nível das diferentes dimensões do Homem. Imbuído de uma visão claramente europocentrista/ocidental, Condorcet apresenta da seguinte forma o seu pensamento a este respeito:

"As nossas esperanças quanto à condição futura da espécie humana podem reduzir-se a estes três pontos importantes: a destruição da desigualdade entre as nações, os progressos da igualdade num mesmo povo, e, finalmente, o aperfeiçoamento real do homem. Irão todas as nações aproximar-se um dia do estado de civilização a que chegaram os povos mais esclarecidos, mais livres, menos presos a preconceitos, tal como os franceses e os anglo-americanos? Irá desaparecer, pouco a pouco, a distância imensa que separa estes povos da servidão das nações submetidas aos reis, da barbárie das tribos africanas, da ignorância dos selvagens? Haverá sobre o globo regiões cuja natureza tenha condenado os habitantes a jamais gozarem de liberdade, a jamais exercerem a sua razão? (...)
Por último, deverá a espécie humana melhorar, quer por novas descobertas nas ciências e nas artes e, como consequência necessária, nos meios de bem-estar individual e de prosperidade comum; quer por progressos nos princípios de conduta e de moral prática; quer, enfim, pelo aperfeiçoamento real das faculdades intelectuais morais e físicas que pode ser igualmente o resultado, ou do aperfeiçoamento dos instrumentos que aumentam a intensidade e dirigem o emprego destas faculdades ou mesmo da organização natural do homem?
Respondendo (...) encontraremos, na experiência do passado, na observação dos progressos que as ciências e a civilização fizeram até aqui, na análise da marcha do espírito humano e do desenvolvimento das suas faculdades, os motivos mais fortes para acreditar que a natureza não pôs nenhum limite às nossas esperanças".

(Excertos retirados de: GARDINER, Patrick- Teorias da História. 4ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, p. 69-70. Sublinhado nosso).

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agosto 27, 2003

A EXISTÊNCIA DE LEIS NO PROCESSO HISTÓRICO: algumas indicações

A existência ou não de leis no âmbito do processo histórico é uma daquelas problemáticas centrais que importa aqui referenciar. Para isso, e em jeito de introdução (motivadora para eventuais aprofundamentos), chamamos a atenção para os seguintes pontos:

1- O que quer significar "lei(s)" no processo histórico.

2- Tipologia de leis: lei dinâmica e lei estatística.

3- Exemplo de leis dinâmicas concebidas para a História.


Quanto ao significado de "lei(s)" registamos, tão só, o que se entende por uma relação regular entre os fenómenos.
De entre os tipos de leis, podemos falar em leis dinâmicas, ou seja, aquelas que anunciam uma determinação absolutamente necessária aplicável a todos e a cada um dos indivíduos e fenómenos e em leis estatísticas, isto é, aquelas que anunciam a frequência média com que se verifica algum acontecimento num número razoável de casos semelhantes.

No âmbito específico das leis dinâmicas, registamos aquelas que mais comummente têm sido consideradas, encontrando-se por isso subjacentes às diferentes filosofias ou teorias da História:

- Lei catastrófica: onde a Humanidade e o Universo caminham para uma catástrofe inevitável. Tudo é, pois, conduzido para um fim certo, caracterizado pela destruição absoluta e pela efectivação do monstruoso.

- Lei do ciclo: em que a Humanidade percorre repetidamente o mesmo caminho, se bem que estes sejam alternados por vários ciclos que se sucedem.

- Lei da periodicidade: onde os fenómenos históricos se repetem de forma quase sempre semelhante.

- Lei do progresso: onde a História se apresenta como o caminho para o fim das desigualdades e para o aperfeiçoamento real do Homem, fazendo-o beneficiar cada vez mais de determinado tipo de regalias e possibilidades.

- Lei dos três estádios: aquela apresentada por Comte que concebe três métodos de filosofia: o primeiro, o método teológico, o segundo, o método metafísico, o terceiro, o método positivo.

- Lei da evolução dialéctica: onde a História é entendida como a realização progressiva da ideia de Liberdade, num esquema triplo: tese, antítese e síntese.

- Lei da trajectória da civilização: o percurso da História faz-se do Oriente para o Ocidente, apresentando-se a Europa como o fim da História Universal.

- Lei do advento do Comunismo: a História representa as transformações verificadas na sociedade condutoras ao Comunismo, concebido em toda a sua necessidade.

- Lei da evolução biológica: a História é entendida num contexto em que as culturas são vistas como organismos.

- Lei do desafio-e-da-resposta: as diferentes civilizações são entendidas como resultado de desafios às diversidades, crescendo e evoluindo por meio de uma série de respostas que vão dando a desafios sucessivos, emergindo estes, de respostas anteriores. Justifica-se a sua decadência pela incapacidade de respostas satisfatórias aos desafios sempre constantes.

No que concerne às leis estatísticas, podemos considerá-las no âmbito das teorias que referenciam a existência de determinado tipo de tendências no que tem a ver com resultados derivados de factos e/ou acontecimentos

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agosto 26, 2003

O SENTIDO E O SIGNIFICADO DA HISTÓRIA: opinião de Pacheco Pereira

No "Abrupto" (http://www.abrupto.blogspot.com), em post de dia 25.08, Pacheco Pereira conclui da seguinte forma a opinião formulada em torno de um texto apresentado por Paulo Varela Gomes no seu blog "Cristóvão de Moura", relativo aos ataques terroristas verificados ultimamente:

"DECISÕES TERRORISTAS"- Conclusões

"Interpretar a história como uma sucessão de actos únicos, sujeitos apenas à vontade dos seus agentes, feitos para "além do bem e do mal", é bastante atractivo. O actual terrorismo apocalíptico vai aí buscar uma das suas fontes, por via do "excesso" religioso, da ideia de "martírio", não por acreditar na irracionalidade da história, mas por acreditar na racionalidade do terror. É contraditório, mas muitas vezes é assim.
Eu não tenho a certeza que a história não seja fundamentalmente irracional, até por outras razões. Basta que se abandone qualquer transcendência, qualquer destino manifesto, qualquer variante hegeliana da História com H grande, seja marxista, seja cristã (como em Teilhard de Chardin). Tira-se a teleologia e ficam os humanos com o ónus de fazerem a história, ficando os humanos é o que se vê.
Basta que se considere que o homem não tem qualquer garantia divina para a sua sobrevivência, para se perceber que, desde que possui armas termo-nucleares, tem elevadas probabilidades de se estourar a si próprio- é só uma questão de tempo. Este é, aliás o único problema filosófico radicalmente novo que penso não estar presente na tradição clássica grega. (Penso também, mas isto é um desvio, que foi a Bomba, como se escrevia nos anos cinquenta, que dissolveu interiormente todas as teorias da história triunfante com H grande). Se nos podemos matar a todos, numa esquina da história, toda a história fica, retrospectivamente sem sentido, e é um gigantesco delírio do acaso, uma absoluta irracionalidade face ao domínio da morte, da entropia.
Repito agora a frase anterior, com um acrescento para mim fundamental: eu não tenho a certeza que a história não seja fundamentalmente irracional, mas quero viver e actuar como se não fosse. Não me interessa, a não ser do ponto de vista científico, o que a história é ou pode ser, au grand complet, porque não pretendo ter como programa de vida qualquer vazio, mas um mais humilde programa de sobrevivência. Digamos que sou agnóstico quanto aos fins da história, mas crente na sua racionalidade possível e fragmentária. Dito de forma abrupta: eu não acredito que haja progresso, mas entre um mundo sem anestesia e outro com anestesia, há para mim uma diferença abismal.
Isso talvez me torne uma espécie mais complicada do que os voluntaristas brutos de PVG, num voluntarista cultural ou simbólico, que actua perante as coisas por via de um teatro, de uma ficção, que resulta tanto mais quanto o maior número de pessoas aceite representá-la, sempre sem qualquer garantia de sucesso final. Mas há uma razão para que eu queira viver assim: é que se houver um número significativo de pessoas a fazerem o mesmo, criam à sua volta uma ecologia mais saudável, menos violenta, mais vivível e já não é mau que o consigam em determinados espaços e durante determinados períodos de tempo. Talvez haja uma massa crítica nestas coisas e se consiga tornar o mundo melhor por pequenos períodos de tempo, para um cada vez maior número de pessoas. Talvez.
É por isso que, do meu ponto de vista, posso decidir com a mesma firmeza que PVG atribui ás suas personagens nietzschianas, apenas fundado numa filosofia pragmática, para tempos difíceis, sem pretensões sistemáticas. Não preciso de grandes certezas, nem de especiais "músculos da vontade", mas apenas de um discernimento quase de bom senso, uma filosofia mais do lado humilde da anestesia, pela anestesia, por mil e uma pequenas anestesias, incluindo o bem-estar, a liberdade, a democracia, a felicidade. Pode ser tudo precário, pode ser um esbracejar ilusório, mas não troco e luto, se for preciso, para que não me obriguem a trocar.
E isso diz-me que há "decisões" que, mesmo implicando em última ratio a violência, não são "terroristas" porque são contra o mundo do sistema da morte, contra o apocalipse now, a favor do império da anestesia e contra o da kalashnikov."

Fica, pois, o registo.

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PLEKHANOV E O PAPEL DO INDIVÍDUO NA HISTÓRIA: registos de pensamento

Georgi Plekhanov (1856-1918), importante figura do movimento trabalhista russo anterior à Revolução e um dos teorizadores de maior destaque do Marxismo ortodoxo, escreveu o seguinte no seu ensaio O Papel do Indivíduo na História, cuja publicação se verificou no ano de 1898:

"(...)Bismarck dizia que nós não podemos fazer história e que temos de esperar enquanto ela se vai fazendo. Mas quem faz história? Fá-la o homem social, que é o seu único "factor". O homem social cria as suas próprias relações sociais. Mas se num dado período ele cria certas relações e não outras é evidente que tem de haver para isso uma razão, que é determinada pelo estado das suas forças produtivas. Nenhum grande homem pode impor à sociedade relações que já não se coadunam com o estado destas forças, ou que ainda não se coadunam com elas. Neste sentido, evidentemente, ele não pode fazer história, e neste sentido ele adiantaria em vão os ponteiros do relógio; não apressaria a passagem do tempo, nem o faria voltar atrás. (...) As relações sociais têm a sua lógica inerente: enquanto viverem pensarão e agirão de determinada maneira e não de outra. Todas as tentativas por parte dos homens públicos para combater esta lógica resultariam de infrutíferas; o curso natural das coisas (esta lógica de relações sociais) anularia todos os seus esforços. Mas se eu souber em que direcção se movem as relações sociais devido a determinadas alterações no processo de produção económico-social, saberei também em que direcção se move a mentalidade social; consequentemente estarei apto a influenciá-la. Influenciar a mentalidade social significa influenciar eventos históricos. Por isso, em certo sentido, eu posso fazer história, e não preciso esperar enquanto "ela se vai fazendo".
(In: GARDINER, Patrick- Teorias da história. 4ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1995, p. 202).

De registo absolutamente fundamental neste excerto:

- é o Homem quem faz a História;

- o Homem assume papel reforçado através daquilo que de social tem imanente;

- mesmo os denominados grandes homens não podem contrariar tendências. Devem sim, entendê-las e conduzi-las da melhor forma;

- importância dada ao processo produtivo e à mentalidade social. Conhecê-los e compreendê-los é fundamental para fazer evoluir (num certo sentido) a História.


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EM TORNO DO PAPEL DO INDIVÍDUO NA HISTÓRIA: notas introdutórias

Qualquer que seja a corrente a que nos reportemos (e sobre a sua variedade já apresentámos post neste blog) ou o autor que salientemos, no âmago das teorias ou pensamento desenvolvidos, está sempre presente a questão relativa ao papel do indivíduo na História.
Com maior ou menor grau de intervenção no processo histórico, posicionado de uma ou outra forma face ao que quer que seja, esse papel é sempre uma realidade, independentemente das diferentes concepções, mentalidades e condicionalismos das épocas.
A abordagem a fazer da problemática pode levar-nos para vertentes de vária ordem. De entre estas destacamos as relativas:

- ao papel que os considerados e denominados grandes homens tiveram na História, assim como o papel do homem dito comum ;

- ao papel histórico da consciência humana face a forças objectivas identificadas;

- ao papel do homem entendido individualmente ou entendido em colectivo.

No que respeita especificamente ao papel do indivíduo na História (seja a título individual ou colectivo), podem ser descortinadas três realidades interpretativas, que ao longo dos séculos têm consubstânciado teorias e sistemas filosóficos :

1- O subjectivismo individualista, que entende o indivíduo como o verdadeiro agente da História, sendo da sua acção que resulta o processo histórico.

2- O objectivismo colectivista, que entende o indivíduo não como causa mas como efeito da evolução histórica, resultando esta, por seu lado, da interferência de forças objectivas.

3- O Personalismo, que entende o indivíduo, simultaneamente, como criador e produto da História.

No âmbito da primeira realidade interpretativa, chamamos a atenção para pensadores como Thomas Carlyle (1795-1881), Max Stirner (1805-1856) e Nietzsche (1844-1900); no que concerne à segunda, temos como exemplo marcante, Hegel (1770-1831); na terceira, Jacques Maritain.

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agosto 25, 2003

RECUPERAÇÕES DO MATERIALISMO HISTÓRICO

Após a morte de Marx (1883) e Engels (1895), foram várias as personalidades que procuraram recuperar o sistema filosófico por eles construído, objectivando dar resposta, entre outros, aos seguintes problemas:

1. Fatalidade ou contingência do advento do Socialismo.

2. O lugar do Homem na construção da História.

3. A evolução da História na sociedade socialista.

Registamos, neste âmbito, os nomes dos seguintes pensadores/actores políticos:

- E. Bernstein

- K. Kautsky

- Rosa Luxemburgo

- V. Lenine

- A. Gramsci

- G. Lukacs

- C.H Marcuse

- H. Lefebvre

- Louis Althusser

- Mao Tsé Tung

Relativamente a cada um deles (não necessariamente de acordo com a ordem em que são apresentados), contamos apresentar uma nota no que concerne ao seu pensamento.

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agosto 24, 2003

A LUTA DE CLASSES COMO MOTOR DA HISTÓRIA

A apresentação de um pequeno excerto do Manifesto Comunista escrito por Marx e Engels (1848), apresenta-se neste post como o arranque para a abordagem que iremos fazer em torno do Materialismo Histórico, entendido este como concepção do processo histórico oposta à do Idealismo, que teve como representante máximo, Hegel.
As questões que consubstanciam esta teoria (ou corrente socio-económica), assim como as consequências sociais de si resultantes e as discussões que ainda hoje suscita justificam, por si só, que lhe seja dada uma atenção particular, na senda da sua efectiva compreensão.
É nossa intensão documentar, o mais possível, as sínteses que iremos apresentar, assim como os protagonistas envolvidos, factos ou acontecimentos destacados.
Para já, o Manifesto é o nosso ponto de arranque. A partir dele, desenvolveremos raciocínios que visam registar vertentes que importam atender para melhor compreender uma visão específica da evolução da História, onde o elemento "classe" é absolutamente essencial para a sua justificação.

MANIFESTO COMUNISTA (1848)

"(...) A história de toda a sociedade até hoje é a história da luta de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, burguês da corporação e oficial, em suma, opressores e oprimidos, estiveram em constante antagonismo entre si, travaram uma luta ininterrupta, umas vezes oculta, aberta outras, uma luta que acabou sempre com uma transformação revolucionária de toda a sociedade ou com o declínio comum das classes em luta."

A partir desta ideia, toda uma teorização com grau razoável de complexidade se desenvolve. Importa, no entanto, referir, que o Materialismo Histórico e as ideias a si inerentes estão presentes em muitos outros escritos de Marx, Engels ou de ambos, sendo que é através desses textos que a afirmação de um pensamento com uma determinada linha e com um objectivo específico evolui, amadurece e se vai espalhando em termos de divulgação pública e com um alcance geográfico cada vez maior.


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ERNST CASSIRER E O SIGNIFICADO ATRIBUIDO À HISTÓRIA (2)

Dando continuidade ao post disponibilizado no dia 09 deste mês de Agosto, segue-se mais um excerto do Ensaio sobre o homem. Introdução a uma filosofia da cultura humana, de Ernst Cassirer, onde é salientada a importância da História, sendo esta apresentada como "um sistema do nosso autoconhecimento":

"No sentido tradicional do termo, uma filosofia da história é uma teoria especulativa e construtiva do próprio processo histórico. Uma análise da cultura humana não precisa entrar nessa questão especulativa. A tarefa que ela propõe a si mesma é bem mais simples e modesta. Procura determinar o lugar do conhecimento histórico no organismo da civilização humana. Não podemos duvidar de que, sem a história, perderíamos um elo essencial na evolução desse organismo. A arte e a história são os mais poderosos instrumentos da nossa indagação sobre a natureza humana. Que saberíamos sobre o homem sem essas suas fontes de informação? Ficaríamos dependentes dos dados da nossa vida pessoal, que só nos podem proporcionar uma visão subjectiva e que, na melhor das hipóteses, não passam de fragmentos dispersos do espelho partido da humanidade. É claro que, se quiséssemos completar a imagem sugerida por esses dados introspectivos, poderíamos apelar para métodos mais objectivos. Poderíamos fazer experiências psicológicas e colher dados estatísticos. Mas, a despeito disso, nossa imagem do homem continuaria sendo inerte e sem cor. Só descobriríamos o homem "médio"- o homem das nossas relações cotidianas práticas e sociais. Nas grandes obras da história e da arte começamos a distinguir, por trás dessa máscara do homem convencional, os traços do homem real, individual. Para podermos encontrá-lo, devemos procurar os grandes historiadores ou os grandes poetas (...). A poesia não é uma simples imitação da natureza; a história não é uma narrativa de factos e acontecimentos mortos. A história, assim como a poesia, é um sistema do nosso autoconhecimento indispensável para construir nosso universo humano."
(In: CASSIRER, Ernst- Ensaio sobre o homem. Introdução a uma filosofia da cultura humana. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 334-335).

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agosto 23, 2003

AS CARACTERÍSTICAS DOS MOVIMENTOS MILENARISTAS E A SUA RELAÇÃO COM A CONCEPÇÃO DA EVOLUÇÃO DO PROCESSO HISTÓRICO

Foram vários os movimentos milenarista registados durante o período medieval. No entanto, apesar dessa variedade, pode vislumbrar-se o paralelismo de traços, absolutamente decisivo para a criação de um "estado psicológico comum", donde resulta uma forma de conceber a evolução do processo histórico.
Salientam-se como sendo as seguintes as características aqui em causa, resultantes da ideia primordial de Salvação. Esta era, então, concebida como:

- Colectiva: uma vez que seria alcançada pela globalidade dos fiéis e não individualmente.

- Terrena: dado que se realizaria neste mundo.

- Iminente: na medida em que deveria acontecer a qualquer momento.

- Total: porque transformaria por completo a vida na Terra, tornando-a perfeita.

- Miraculosa: seria efectivada através de agentes sobrenaturais, como profecias e sinais divinos.

De entre os movimentos existentes vamos dar destaque a um deles: o denominado movimento dos Pseudo-Apóstolos. No seu âmbito faremos referência a Giachomo de Fiore (ou Joaquim de Fiore), abade cisterciense cujo período de vida se situa entre 1135 e 1202, em particular pela obra A Unidade da Trindade, de extrema importância para o entendimento das idades do mundo em si consideradas e pelas consequências, quer de âmbito religioso (onde a Ordem dos Franciscanos vai ter um papel primordial), quer de âmbito social, designadamente na activação das tensões escatológicas (sendo que aqui nomes como Geraldo Sagarelli e Dolcino, assumem grande significado).
Neste contexto, também, apresentaremos alguns excertos do livro de Umberto Eco, O Nome da Rosa, pela forma exemplar como ilustra as consequências aqui referenciadas.

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agosto 22, 2003

O APOCALIPSE DE JOÃO E O SEU CONTRIBUTO PARA AS CONCEPÇÕES MILENARISTAS DA HISTÓRIA

Surgindo como o autor do último livro da Bíblia, João apresenta-se como alguém que sofre as consequências das perseguições efectuadas aos cristãos pelos romanos, encontrando-se por isso exilado na ilha de Patmos, situada no mar Egeu.
Dirige o Apocalipse às sete igrejas da Ásia Menor, ficando estas situadas na actual Turquia.
"Apocalipse" significa revelação e revelação é o acto de tirar o véu. Assim, o autor tem como objectivo pôr a descoberto o plano de Deus em pleno ambiente de perseguições. À aflição das comunidades cristãs, que se questionavam sobre a duração dos actos que sobre si recaiam, o Apocalipse respondia que o tempo da libertação estava próximo. Deus iria mudar a situação, na medida em que só ele e não o Imperador, era senhor da História.
João apresenta a sua mensagem em forma de apocalipse, maneira muito própria de anunciar a Boa Nova em épocas de perseguições. Qualquer apocalipse caracteriza-se como sendo composto por imagens relativas a sonhos e visões, carregados de símbolos e cor que necessitam, para o entendimento da mensagem, ser decifrados.
A história do passado é vista numa perspectiva de profecia e a do presente, imbuída de dificuldades, recebe a luz da profecia do passado em função da libertação futura e próxima. Deus entregou o seu poder a Jesus e este levará o seu povo à vitória final.
O Apocalipse tem, pois, como fim, incutir confiança aos cristãos em tempo de perseguição. No entanto, e indo para além do seu tempo, teve reflexos poderosíssimos em tempos posteriores, influenciando profundamente a religiosidade popular medieval, mas também indivíduos pertencentes à Igreja e outros que se dedicavam ao registo de factos e acontecimentos, através de crónicas, anais, entre outros. Importa aqui registar, para que fique claro, que à medida que a Igreja se foi organizando, as autoridades eclesiásticas empenharam-se em reduzir o milenarismo a uma expressão simbólica, tendo adoptado como seu representante Santo Agostinho (354-430), na medida em que a doutrina deste sobre a matéria foi transformada em doutrina oficial.
No entanto, apesar dos esforços da Igreja e da teoria agostiniana, a continuidade das especulações sobre o caminho da História para o "fim dos tempos", foi um constatação. Os anos de 1000, 1033, 1186, 1229, 1250, 1260, 1290, 1300, 1310, 1325, 1335, 1345, 1360, 1367, 1375, 1348, 1360, 1367, 1375, 1378, 1387, 1395, 1396, 1400, 1417, 1429 e 1490 foram anunciados como sendo os da concretização do fim do mundo. Sendo que a eles coincidem situações como fomes, pestes, inundações ou outros fenómenos tidos como sobrenaturais, caso de eclipses ou cometas, então percebe-se que tudo isto era interpretado como sinais apocalípticos.
Antes de avançarmos com mais com conjunto de registos atentemos, então, em alguns excertos do Apocalipse:

"Introdução
1. Este livro contém a revelação que Jesus Cristo recebeu de Deus, para a dar a conhecer àqueles que o seguem. Trata-se de coisas que hão-de acontecer brevemente e que Cristo deu a conhecer ao seu discípulo João, por um anjo que lhe enviou.
João é testemunha daquilo que Deus disse e que Jesus Cristo confirmou. Foi isto que ele viu. Feliz daquele que lê este livro, e felizes os que ouvem estas palavras proféticas e as guardam no seu coração. Pois tudo há-de acontecer em breve.

(...)
A grande prostituta e a fera [corresponde à destruição da cidade de Roma- a Grande Prostituta-]
Aproximou-se depois um dos sete anjos que tinham as sete taças e falou-me assim: "Vem cá! Vou mostrar-te a sentença de condenação da grande prostituta que vive junto das águas abundantes. Os reis da terra cometeram pecado com ela e os habitantes da terra embriagaram-se com o vinho da sua imortalidade. (...)
Depois o anjo continuou a explicar-me: "As águas que viste, onde vive a prostituta, são povos, multidões, nações e línguas. Os dez chifres e a outra fera que viste vão odiar a prostituta. Vão despojá-la de tudo e deixá-la nua. Vão comer-lhe as carnes e queimá-la no fogo. Foi Deus quem lhes meteu isto na cabeça, para assim realizarem o seu plano. (...)
A queda da grande cidade
Depois disto, vi outro anjo que descia do céu, com grande poder. E o seu esplendor iluminou a terra. Gritou com voz forte:
A grande Babilónia caiu por terra!
Tornou-se habitação dos demónios, refúgio de todos os espíritos maus, e de todas as aves selvagens e repelentes.
É que ela embriagou todas as nações com o vinho da sua imoralidade desenfreada.
Os reis da terra cometeram imoralidades com ela,
e os comerciantes da terra
tornaram-se ricos com o seu luxo desmedido.
(...)
As bodas do Cordeiro [=Jesus]
E do trono saiu uma voz que dizia.
"Louvem o nosso Deus
todos os que o servem,
todos os seus fiéis,
pequenos e grandes!"
Depois ouvi como que a voz duma grande multidão semelhante ao ruído duma grande cascata e de fortes trovões que dizia:
"Aleluia!
Quem reina é o Senhor,
o nosso Deus, todo-poderoso!
Alegremo-nos, regozijemo-nos
e dêmos-lhe glória.
Chegou o tempo das bodas do
Cordeiro
A sua noiva já se preparou.
Foi-lhe dado um vestido de linho
fino e resplandecente."
(...)
Os mil anos
A seguir vi um anjo que descia do céu e na sua mão tinha a chave do abismo e uma grande corrente. Agarrou o dragão, a antiga serpente, que é o Diabo ou Satanás, e prendeu-o por mil anos. Lançou-o pelo abismo, fechou a porta á chave e selou-a para que não enganasse mais as nações, até que se cumpram os mil anos. Depois deste período, deve ser solto durante algum tempo.
Vi também alguns tronos. Os que se sentaram neles receberam o poder de julgar. Vi ainda as almas daqueles a quem tinham cortado a cabeça por terem dado testemunho de Jesus e proclamado a mensagem de Deus. São os que não adoraram a fera, nem a sua estátua, nem trouxeram na fronte ou na mão a sua marca. Estes vivem novamente com Jesus e reinam com ele durante mil anos. Os outros mortos não voltaram à vida a não ser depois dos mil anos. Esta é a primeira ressureição. Ditosos e santos os que tomam parte na primeira ressureição. Sobre eles a segunda morte não tem qualquer poder. Eles serão sacerdotes de Deus e de Cristo e hão-de reinar com ele durante mil anos.

Derrota de Satanás
Passados mil anos, Satanás será solto da prisão. (...)
Juizo final
(...)
A morte e o abismo foram lançados no lago do fogo. Este lago de fogo é a segunda morte. E quem não tinha o seu nome escrito no livro da vida foi lançado no lago do fogo.
Novos céus e nova terra

Vi, então, um novo céu e uma nova terra. O primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido e o mar desapareceu.
E vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade Santa, a nova Jerusalém.
(...)
E o que estava sentado no trono disse:
"Agora faço tudo de novo" (...) E disse-me ainda: "É um facto. Eu sou o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim. (...)

A nova Jerusalém

(...)
A cidade não tinha qualquer templo. O Senhor Deus todo-poderoso e o Cordeiro é que são o seu templo. (...) As nações hão-de caminhar à luz daquela cidade. Os reis da terra hão-de levar-lhe as suas riquezas (...) E na cidade,estará o trono de Deus e do Cordeiro, e os seus servos hão-de adorá-lo (...). O Senhor Deus será a sua luz e hão-de reinar para todo o sempre. (...)".

Para além do Apocalipse existiram outros 4 textos que contribuiram igualmente para a difusão das ideias milenaristas. Foram eles os apócalipses apócrifos de:

- Baruc: relacionava a vinda de Cristo a uma fartura nunca vista, ao termo das doenças e à instalação da paz;

- Edras: descrevia as várias catástrofes que anunciariam o fim dos tempos, até que o Messias retornaria revelando a Jerusalém Celeste e o Paraíso;

- Henoc: afirmava que os seriam recompensados com paz, fartura e justiça.

Temos ainda os Oráculos Sibilinos, um conjunto de textos gregos escritos entre os séculos II a.c e IV d.c, profetizando a instalação de uma era de abundância e de justiça, cujo governo seria levado a cabo pelo denominado Último Imperador do Mundo.

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agosto 21, 2003

KARL POPPER E A IDEIA DA CONCRETIZAÇÃO DA LIBERDADE HUMANA. Justificação para a realização da História

Tendo sido já alvo de atenção neste blog, o filósofo austríaco Karl Popper é por nós novamente recuperado, para apresentarmos a ideia que tem relativamente ao conceito de sociedade aberta, o que a mesma permite ou resulta como consequência em termos de desenvolvimento ou reforço da liberdade humana, assim como da relação que ambas têm com a evolução histórica.
Começaremos, desta forma, por fazer uma introdução ao tema apresentando um excerto do "Posfácio", datado de Dezembro de 1984, incluido na obra O futuro está aberto:
"(...) Com a expressão "sociedade aberta" designo não tanto uma forma de Estado ou uma forma de governo, mas antes uma espécie de vida em comum dos homens, em que a liberdade dos indivíduos, a não-violência, a protecção das minorias, a protecção dos fracos, são valores importantes.(...)
(...) Mas falemos antes da ideia de sociedade aberta e do seu valor fundamental, a liberdade humana. O caminho percorrido é longo. (...)
A história da Europa e da república americana é, poder-se-á dizer, a história da luta pela liberdade. (...)
(...) a luta pela liberdade e pelo respeito pelo homem, pela vida humana e pela liberdade do indivíduo continua. Porque não existem soluções simples. (...)
(...) E deste modo a ideia de liberdade conduz inexoravelmente à ideia de igualdade. Todavia, a ideia de igualdade encerra perigos face à ideia de liberdade. (...)
(...) Enquanto houver homens ambiciosos e sedentos de poder, eles lançarão na desgraça uma forma social demasiadamente feliz (...). Não pode existir uma sociedade perfeita.
Existem ainda muitas outras razões que levam a que uma ordem social perfeita se precipite na falta de liberdade ou que a tornam inviável.
(...) Gostava de resumir todos estes aspectos numa frase: as nossas democracias ocidentais representam as ordens sociais mais justas que até à data existiram na história: e são as melhores, porque as mais predispostas a realizarem reformas e a autocriticarem-se. Todos nós devemos, naturalmente, continuar a aperfeiçoá-las. (...)
Um Estado democrático não pode ser melhor do que os seus cidadãos. Esperemos, pois, que os grandes valores de uma sociedade aberta- liberdade, entreajuda, procura da verdade, responsabilidade intelectual, tolerância- também sejam reconhecidos como tal no futuro. Para isso teremos de fazer o nosso melhor."

(In: POPPER, Karl R; LORENZ, Konrad- O futuro está aberto. 2ª ed. Lisboa: Fragmentos, s.d, p. 111-115).

Constata-se, pois, que Popper faz uma relação muito directa entre o conceito de sociedade aberta e aquilo que ela implica face às características de desenvolvimento particular das sociedades ocidentais, nomeadamente Europa e América do Norte.
Salienta, por outro lado, que a ideia global norteadora deste tipo de sociedades, facilmente pode ser posta em causa, se interferências específicas se verificarem (nomeadamente através da efectivação de determinado tipo de conduta humana), podendo conduzi-las, precisamente, para sociedades do tipo fechado, ou seja, onde não imperem os valores democráticos.
Chama a atenção, ainda, para o facto das sociedades democráticas não serem perfeitas- pelo que importa trabalhar pela sua melhoria ou aperfeiçoamento constante-, mas têm inerente a si uma vertente imprescindível que consubstancia a sua evolução histórica e que é a auto-análise, a detecção de erros e problemas e o que isso implica de capacidade para os ultrapassar, ou pelo menos atenuar.
A evolução histórica que conduz à liberdade e à igualdade é, neste sentido, construida diariamente através da vivência de situações, de constatações dai decorrentes e da procura da resolução de problemas.

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agosto 20, 2003

O ANO MIL

Na introdução ao capítulo II da Primeira Parte do seu livro O ano mil, o historiador francês Georges Duby escreve o seguinte:
"Para o cristianismo, a História possui uma orientação. O mundo tem uma idade. Foi criado por Deus numa certa época. Então ele escolheu para si um povo cuja marcha guia. Num certo ano, num dia certo, tornou-se Homem entre os homens. Alguns textos, os da Sagrada Escritura, permitem o cálculo das datas, a da criação, a da encarnação, logo o discernimento dos ritmos da História. Estes mesmos tempos- os que utiliza Abbon-, os Evangelhos, o Apocalipse anunciam que um dia virá o fim do mundo. Ver-se-á surgir o Anticristo que seduzirá os povos da terra. Depois o céu abrir-se-á para o regresso do Cristo em glória, vindo julgar os vivos e os mortos. No Reino, na Jerusalém Celeste terminará a longa caminhada do povo de Deus. Convém estar-se preparado para enfrentar o dia da cólera. Os monges dão o exemplo: cobriram-se com as vestes da abstinência e postaram-se na vanguarda da marcha colectiva. O seu sacrifício só tem sentido em função da espera. Mantêm-na. Exortam cada um a prescrutar os preliminares da Parúsia."
(In: DUBY, Georges- O ano mil. Lisboa: Edições 70, s.d, p. 37).

De facto, a problemática levantada em torno do ano mil após o nascimento de Cristo foi uma realidade entre os pensadores cristãos medievais. As repercussões em termos de mentalidades e comportamentos foram enormes. Na medida em que o conhecimento de tal problemática permite um enriquecimento da compreensão do tema global "Cristianismo e História", registamos o facto de nos encontrarmos a preparar um post onde o assunto será tratado.
Uma vez que a abordagem a fazer será necessáriamente de carácter introdutório, procuraremos fornecer pistas para um estudo mais aprofundado por parte de quem, pelo tema, se interessar.

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agosto 19, 2003

A HISTORIOGRAFIA MEDIEVAL: linhas caracterizadoras

Evidentemente que tudo o que temos vindo a apresentar nos dois últimos posts teria que nos conduzir à explicitação das principais linhas caracterizadoras da historiografia produzida no período medieval.
Sendo que posteriormente daremos conta, com maior pormenor, da nova cronosofia que foi sendo construida, onde novamente se destaca o contributo de Santo Agostinho, registemos para já pontos de referência da maneira de escrever a História na Idade Média:

1. A periodização do tempo histórico era feita de acordo com o modelo cristológico (o que estava antes e o que estava depois do nascimento de Cristo ou, mais profundamente, da "Encarnação").

2. Os conteúdos assumem uma função catequética.

3. Pendor apocalíptico-escatológico, justificado pela existência de três períodos ou momentos no âmbito da linearalidade
temporal: "Criação", "Redenção", "Juízo Final".

4. Perspectiva universalista da Humanidade, ultrapassando-se o que tinha a ver com particularismos. Objectivo: narrar a gesta divina, ou seja, a gesta Dei.

5. Trabalho geracionalmente continuado.

6. Verificação da inexistência de uma consciência autoral.

7. Ordenação das ideias e acontecimentos de acordo com a justificação providencialista.

Ideia a reter: para os pensadores e historiadores medievais a História não era nem uma decadência contínua (apesar do "Pecado Original") nem um progresso indefinido. Era sim, um progresso orientado para um certo fim: a salvação da humanidade, significando a vitória da "Cidade de Deus" agostiniana.

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agosto 18, 2003

EM TORNO DE SANTO AGOSTINHO

Apresentam-se algumas considerações formuladas por Santo Agostinho, Bispo de Hipona, relativas a um aspecto fundamental da História:

- O Tempo

"Atrevo-me a declarar sem receio de contestação, que, se nada sobreviesse, não haveria tempo futuro e, se agora nada existisse, não teríamos tempo presente".
(In: Confissões)

"Os corpos só se podem mover no tempo (...); é com o tempo que meço a duração desse movimento desde que ele começou até acabar".
(In: Confissões)

"O mundo não foi criado no tempo, mas com o tempo- pois, o que se faz no tempo, faz-se depois de certo tempo"
(In: De Civitate Dei)

"Não imaginaram os filósofos pagãos que podiam ou deviam resolver este problema senão introduzindo um circuito ou revolução dos tempos, afirmando que as coisas se iam reproduzindo e repetindo indefinidamente no mundo e que assim continuará a ser no futuro para todo o sempre".
(In: De Civitate Dei)

"...já no tempo se produz algo de novo que não mais tem fim. E por que não dizer o mesmo acerca do mundo? E por que não igualmente acerca do homem criado no mundo? É que, procedendo com uma doutrina sã e por um caminho recto, evitamos aqueles falsos circuitos e retornos, inventados por enganosos pensadores".
(In: De Civitate Dei)

"Desde que entramos neste corpo mortal, a morte nunca mais deixou de estar a vir (...) O tempo que se vive, é vida que se corta e cada dia que passa, é menos vida que nos fica. O tempo da nossa vida é caminho para a morte onde não está previsto um segundo de atraso (...). Se começarmos a morrer logo qur, em nós, começa a actuação da morte, deve dizer-se que começamos a morrer logo que começamos a viver (...). Consumida a vida, fica terminada a morte que se vinha realizando pouco a pouco. Por isso, o homem nunca está em vida: é mais um morto que um vivo- já que não pode estar simultaneamente morto e vivo".
(In: De Civitate Dei)

"Que é o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir, por palavras, o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido em nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos; compreendemos também o que nos dizem quando nos falam dele. Que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei".
(In: Confissões)

"É impróprio afirmar que os tempos são três: passado, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer: os tempos são três: o presente das coisas passadas (...), o presente das presentes (...) e o presente das futuras (...). Existem, pois, três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras".
(In: Confissões)

A propósito da ideia de "Tempo" construída pelos pensadores cristãos ("iniciais"), onde se integra Santo Agostinho, eis a síntese apresentada por Fernando Catroga, no seu livro Caminhos do fim da história:
"Com efeito, o cristianismo, ainda que no âmbito de uma história da salvação, ordenou as eras e as idades segundo uma lógica em que o passado surgia como preparação, o presente como revelação e o futuro como consumação (...) E é indiscutível que a história, enquanto teofania, pôs em cena uma certa racionalização do trajecto da "cidade dos homens". Daí, o seu cariz providencialista, cujo momento teórico maior se encontra em Santo Agostinho, embora pensadores como Eusébio de Cesareia o houvessem preparado. Posteriormente, Paulo Orósio e uma vasta galeria de continuadores do modelo, durante toda a Idade Média e os primórdios da modernidade, farão dele o Deus ex machina da aparente caoticidade dos acontecimentos históricos, conferindo um sentido religioso e providencialista ao transcurso do tempo (...)".
(In: CATROGA, Fernando- Caminhos do fim da história. Lisboa: Quarteto, 2003, p. 25).

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O CONTRIBUTO DO CRISTIANISMO PARA A EMERGÊNCIA DA FILOSOFIA DA HISTÓRIA

É hoje uma realidade o entendimento do Cristianismo como proporcionador de um conjunto de reflexões em torno do Homem e do seu destino, em particular na relação que este ia estabelecendo com a divindade. A leitura e a interpretação que foi feita da Biblia pelos Padres da Igreja (entramos aqui no domínio da Patrística), permitiu o traçar de um conjunto de linhas consubstanciadoras de uma Filosofia da História com características muito particulares e absolutamente decisiva para a mentalidade dos homens, em geral, e para as construções intelectuais de índole filosófica, em particular.
Considerámos em post anterior a existência de uma Corrente Providencialista explicativa do processo histórico. No contexto que agora falamos, destacamos no âmbito dessa corrente, a figura de Santo Agostinho, que tão importantes contributos deu neste domínio, sendo que dele e do seu pensamento falaremos a seu tempo.
Registemos, então, as grandes linhas caracterizadoras do pensamento cristão (inicial), no que concerne à explicação da evolução da Humanidade:

1. A unidade da espécie humana

2. A irreversibilidade do tempo/o tempo linear/não cíclico

3. A História como efectivando-se em direcção a uma meta

4. A História como um processo único e definido

5. A História como se desenvolvendo no sentido do progresso

6. A história sendo, conjuntamente, obra de Deus e do Homem

7. O reconhecimento da dignidade da pessoa humana

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agosto 17, 2003

NIETZSCHE E A CONCEPÇÃO HERÓICA DA HISTÓRIA: nota introdutória

De acordo com Nietzsche (1844-1900) a História encaminhava-se para a produção do Super-homem, o qual devia assumir duas facetas:

- a besta loira
- um homem distinto

A "Besta Loira" significava aquela que nada temia e para a qual tudo era válido e permitido desde que dai resultasse algo de útil. Devia, por conseguinte, eliminar todos aqueles que parecessem fracos ou doentes. Face a isto a História nada mais era do que a narração dos feitos criminosos daqueles homens que essa mesma história havia canonizado.

O "Homem distinto" era aquele que tinha sangue nobre e se mantinha distante da plebe; aquele que se mostrava viril no sofrimento e por todos se sabia fazer respeitar.

O Super-homem significava pois o reforço absoluto da "morte de Deus", da qual emergiam, com todas as suas potencialidades, seres livres criadores de valores e formas de vida que contêm em si a força, a lucidez e a nobreza cujo princípio base é o "Eu Sou" seguido do "Eu Sou O Que Quero".

Apreciador da cultura clássica grega, Nietzsche procura uma aproximação deste seu Super-homem, possuidor de uma forte consciência heróica, aos herois trágicos, em que a força e a honra eram virtudes morais claramente distintivas.

Para Nietzsche a História era cíclica, na medida em que considerava que o homem a iria viver não uma, mas uma infinidade de vezes.

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KANT E A INTERPRETAÇÃO DO PROCESSO HISTÓRICO

(Post em construção)

Immanuel Kant (1724-1804) dentro daquela que foi a sua produção filosófica especialmente consagrada à fundamentação da Ciência (através da obra Crítica da Razão Pura), da Ética (através da obra Crítica da Razão Prática) ou da Estética (através da obra Crítica do Juízo), apresenta um escrito especialmente dedicado à História, naquela que é a explicação para o seu desenvolvimento. Publicado no ano de 1784, o ensaio A Ideia de uma História Universal de um Ponto de Vista Cosmopolita, faz referência, através de um conjunto de proposições, aos seguintes pontos:

1. O homem possui um certo número de disposições originárias que a Natureza lhe facultou.

2. Tais disposições vão sendo realizadas ao longo do tempo.

3. É através do antagonismo social que se processa a evolução sociopolítica da Humanidade.

4. A história da espécie humana resulta de um plano oculto da Natureza

As preposições em que estas ideias se baseiam são, então, as seguintes:

- Primeira proposição- "Todas as disposições naturais duma criatura estão destinadas a desenvolver-se um dia de maneira plena e adequada ao respectivo fim".

- Segunda proposição- "No homem (única criatura racional existente na terra) aquelas disposições naturais que se destinam ao uso da sua razão só viriam a desenvolver-se plenamente na espécie e não no indivíduo".

- Terceira proposição- "A natureza quis que o homem tire inteiramente de si próprio tudo aquilo que ultrapassa a ordenação mecânica da sua existência animal, e que não participe de qualquer outra felicidade ou perfeição além daquelas que ele possa agenciar independentemente do instinto, através da sua própria razão".

- Quarta proposição- "O meio de que a natureza se serve para levar a cabo o desenvolvimento de todas as suas disposições naturais é o seu antagonismo dentro da sociedade, na medida em que este antagonismo acaba por se tornar a causa de uma ordenação regular dessa mesma sociedade".

- Quinta proposição- "O maior problema da espécie humana, a cuja solução a natureza força o homem, é o estabelecimento duma sociedade civil, que administre universalmente o direito".

- Sexta proposição- "Este problema é simultâneamente o mais difícil e o que mais tardiamente é resolvido pela espécie humana".

- Sétima proposição- "O problema do estabelecimento de uma constituição civil perfeita depende do problema das relações legais externas entre os estados, e não pode ser resolvido sem se encontrar a solução deste segundo".

- Oitava proposição- "A história da espécie humana, no seu conjunto, pode considerar-se como a realização de um plano oculto da natureza, no sentido de estabelecer uma constituição política internamente perfeita- e, em ordem a esse mesmo fim, perfeita também no plano externo, pois esta é a única situação em que a natureza pode desenvolver plenamente na humanidade todas as suas disposições".

- Nona proposição- " Uma tentativa filosófica para tratar a história universal geral, segundo um plano da natureza que tenha por objectivo a perfeita união política da espécie humana, deve ser considerada como possível e até como vantajosa, para atingir essa finalidade da natureza".

(...)

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JEAN-PAUL SARTRE E A CONCEPÇÃO DA EVOLUÇÃO HISTÓRICA: contributos existencialistas

Foi particularmente com a sua obra Critique de la Raison Dialéctique, datada de 1960, que nos deparamos com uma série de contributos para a totalidade da problemática relativa à concepção da história como evolução da humanidade. Se bem que já em L'Être et le Néant (1943) tivessemos tidos reflexões em torno da essência temporal do homem e dos êxtases do tempo, ou seja, do tempo como unidade orgânica, dinâmica do passado, do presente e do futuro, é com a Critique que o grande passo se dá. Assim, e no âmbito deste texto, apresenta Jean-Paul Sartre:

1. Uma reapreciação da dialéctica: esta não é entendida na vertente idealista nem se baseia na natureza, surgindo antes como resultado da existência e experiência humana, relacionando-se por isso profundamente, a este nível, com o devir histórico. A dialéctica assume as seguintes características:

- é ao mesmo tempo sofrida e feita. Sofrida, na medida em que o homem faz e participa na história com base nas condições anteriores, ou seja, com base naquilo que herda; feita, porque a história resulta da acção dos homens;

- nasce a partir da acção do indivíduo em situação, isto é, a partir dos seres concretos, actuando de acordo e conforme projectos diversos, tendo em conta diferentes ideologias, situando-se em diversos grupos ou classes, etc.

2. O homem como construtor da história: o motor da História situa-se nas relações do homem com o mundo, emergindo deste relacionamento três espécies de contradições:

- a rareza e a violência que a acompanha;
- o prático-inerte;
- a necessidade-projecto.

Ou seja, com a "rareza" Jean-Paul Sartre pretende significar a escolha que toda a sociedade faz dos seus mortos, com o "prático-inerte" que toda a acção se volta para si mesma e se perde na serialidade, com a "necessidade-projecto" a ideia de que toda a acção se transforma na reinteriorização de uma estrutura já presente- a do ser de classe.

Ao apresentar o homem (em situação) como elemento decisivo para a efectivação da História, Sartre defende que o conhecimento próprio da História deve incluir uma boa dose de compreensão. Por outro lado deve também atender à inteligibilidade, na medida em que os fenómenos históricos incluem tanto a imprevisibilidade dos acontecimentos como o peso das instituições e das estruturas.


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agosto 16, 2003

NOVA PROBLEMATIZAÇÃO EM TORNO DO CONCEITO DE "FILOSOFIA DA HISTÓRIA": ideias de Patrick Gardiner

Patrick Gardiner nasceu em Inglaterra no século passado decorria o ano de 1922. Estudou na Westminster School em Londres, tirou o curso de História em Oxford e, em 1947 licenciou-se em Filosofia, Política e Economia. A partir de 1948 iniciou a sua carreira universitária, ocupando em Oxford os cargos de Lecturer em Filosofia, no Wadham College (1949-1952), o de Fellow em Filosofia, em St. Anthony's College (1953-1958), o de Visiting Professor em Filosofia, na Universidade de Columbia nos EUA (1955-1956), regressando depois a Inglaterra, encontrando-se já em 1958 a leccionar em Oxford.
A propósito das questões colocadas em torno do conceito de "Filosofia da História", escreve o seguinte na Introdução da sua antologia, Teorias da História:
"(...) O que os projectos habitualmente designados por "filosofias da história" têm muitas vezes de comum é o propósito de oferecer uma exposição completa do processo histórico de forma a poder ver-se que "faz sentido". Todavia, a noção de "dar sentido" ao passado é, ela própria, obscura e susceptível de uma série de interpretações diferentes. Usando uma distinção óbvia, podemos dizer que uma coisa é supor que a história tem um significado no sentido em que tudo o que aconteceu ou vai acontecer foi (ou é) preordenado ou "intencionado" por qualquer "mão oculta"- seja ela a da Providência ou a da "astúcia da Razão", de Hegel; e outra coisa bem diferente é sugerir apenas que o seu curso até à actualidade manifestou uma tendência em dada direcção e (talvez) profetizar, com base nessa tendência observada, o que será o seu futuro desenvolvimento; e é ainda outra coisa pretender que os acontecimentos históricos se ajustem a leis causais particulares, em função das quais se podem explicar as ocorrências pretéritas e prever as modificações futuras. Além disso, enquanto algumas teorias do processo histórico foram propostas, por assim dizer, "isoladamente", outras só podem ser compreendidas como parte de uma estrutura mais ampla, na qual têm um lugar definido: a teoria hegeliana, por exemplo, entra na última categoria.
Em consequência de ambiguidades como estas, as fronteiras entre o que é conhecido como "filosofia da história" e outros domínios de especulação e de investigação são extremamente difíceis de traçar: em certos pontos, parecem esbater-se no domínio da sociologia, noutros, no da metodologia histórica e em outros ainda no da história propriamente dita. É, de facto, enganador falar como se existisse um único ramo de estudo chamado "A Filosofia da História", ao qual vários pensadores, em épocas diferentes, tivessem dado a sua contribuição (...).
Assim, ao dealbar do século actual [século XX], pode dizer-se que a "filosofia da história" se cindira em duas metades. A especulação e a sistematização continuaram a encontrar-se na obra de autores como Spengler e Toynbee; mas, a par disso, uma forma bem distinta de investigação se havia desenvolvido, virada, entre outras coisas, para a análise das formas de operar, das categorias e da termonologia históricas [por exemplo, através de Dilthey, Croce ou Collingwood]."

(In: GARDINER, Patrick- Teorias da História. 4ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1995, p. 7-9).

Chamamos, para terminar, a atenção, que na época em que esta obra foi escrita (anos 50, sendo publicada pela primeira vez nos EUA e na Grã-Bretanha em 1959) verificava-se em Inglaterra, e também nos EUA, o retomar do interesse pela discussão epistemológica ou metodológica em torno da História. Terminava, efectivamente, um período em que as ciências naturais eram entendidas como a fonte de toda a compreensão e de todo o conhecimento verdadeiro. De acordo com informação dada pelo próprio Gardiner no "Prefácio do Antologista para a Edição Portuguesa", em Outubro de 1966, "Para alguns deles [autores anglo-saxónicos], a noção de "filosofia da história" estava associada à construção de grandes sistemas e de esquemas teóricos empenhados em explicar ou interpretar a totalidade do processo histórico. A perspectiva de se aventurarem numa actividade intelectual desta natureza despertou pouco entusiasmo na Inglaterra e na América, onde o ambiente filosófico tem sido de carácter predominantemente frio e céptico, e onde um cauteloso empirismo tornou os teorizadores reservados em face das pretensões de uma especulação ambiciosa".
(In: Idem, Ibidem, p. XXXVIII).

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COLLINGWOOD E A FILOSOFIA DA HISTÓRIA: registos de uma posição

Robin George Collingwood foi um historiador arqueólogo activo cujo período de vida se situou entre 1889 e 1943. De entre as obras escritas analisaremos e apresentaremos excertos da intitulada A ideia de história (publicação póstuma em 1946), na medida em que esta permite conhecer o pensamento do autor em torno do conceito de "Filosofia da História".
Em jeito de introdução referimos que o texto reivindica a História como disciplina autónoma, com métodos e categorias próprias, assumindo o historiador características específicas para a compreensão e conhecimento do seu objecto de estudo. Collingwood apresenta posição contrária àquela defendida pelos positivistas do século XIX, na medida em que entende que o papel do historiador não se podia comparar ao do cientista da natureza, uma vez que os acontecimentos históricos não podiam ser entendidos como os fenómenos naturais (acessíveis a partir do exterior), logo, serem possíveis de agrupar mediante leis universais. A História devia e tinha que ser liberta da tutela das ciências naturais.
Defende, assim, o fim da ideia positivista da História, avançando com aquela que entende o "pensamento" como conceito fundamental da investigação histórica, significando isto a imprescindibilidade de penetração no interior dos acontecimentos por forma a interpretar os pensamentos dos agentes históricos neles envolvidos. Neste sentido, a função do historiador é repensar esses pensamentos, significando isto uma construção pessoal da situação em que os agentes estudados se encontravam, assim como a forma como esta era encarada.
Directamente relacionado com tudo isto temos a forma de entender a denominada Filosofia da História. Na obra citada, diz a este propósito o autor:
"A filosofia é reflexiva. O espírito filosofante nunca pensa simplesmente acerca de um objecto, pensa também no seu próprio pensamento acerca desse objecto. A filosofia pode ser chamada assim, um pensamento de segundo grau, pensamento acerca do pensamento. (...)
Se este é o carácter genérico do pensamento filosófico, o que é que pretendo dizer quando qualifico o termo "filosofia" acrescentando-lhe "da história"? Em que sentido há uma filosofia especificamente da história diferente da filosofia em geral e da filosofia de qualquer outra coisa? (...) Temos então de perguntar por que é que a filosofia da história deve ser objecto de um estudo especial, em lugar de ser incluída numa teoria geral do conhecimento. (...) Assim o objecto da filosofia, tal como o desenvolvimento organizado e científico da autoconsciência, depende, muitas vezes, dos problemas específicos em que, num dado momento, os homens encontram dificuldades específicas. Olhar para os tópicos mais evidentes da filosofia dem determinado povo em determinado período da sua história, é encontrar um indício dos problemas específicos que exigem a esse povo a aplicação de todas as energias do seu espírito. (...) O pensamento histórico tem um objecto com particularidades próprias. O passado, consistindo em acontecimentos particulares no espaço e no tempo que já não se verificam, não pode ser apreendido pelo pensamento matemático porque este apreende objectos que não têm situação específica no espaço e no tempo, e é precisamente essa falta de situação espacio-temporal que os torna cognoscíveis. Nem pode ser apreendido o passado pelo pensamento teológico porque o objecto deste tipo de conhecimento é um objecto singular e infinito, e os acontecimentos históricos são finitos e plurais. Nem pelo conhecimento científico, porque as verdades que a ciência descobre são reconhecíveis como verdadeiras ao serem atingidas através da observação e da experimentação exemplificadas naquilo que realmente percebemos, tendo o passado desaparecido e não podendo as nossas ideias acerca dele serem nunca verificadas como verificamos as nossas hipóteses científicas. (...)
Era necessário, portanto, um inquérito especial, cujo objecto devia ser o estudo deste novo grupo de problemas- os problemas filosóficos criados pela existência duma investigação histórica organizada e sistematizada. Este novo inquérito podia invocar o título de filosofia da história (...)
São necessários dois estádios para a realização desse inquérito. Em primeiro lugar, a filosofia da história terá de ser tratada, sem dúvida, não de um compartimento estanque, pois tal não existe em filosofia, mas sim em condições relativamente isoladas, considerada como um estudo específico dum problema específico.
(...). O segundo estádio consistirá em realizar as conexões entre este novo ramo da filosofia e as velhas doutrinas tradicionais. Qualquer aditamento ao corpo de ideias filosóficas altera, razoavelmente, tudo o que nele já existia, tornando-se necessária, ao estabelecimento duma nova ciência filosófica, uma revisão de todas as velhas ciências."
(In: COLLINGWOOD, R.G- A ideia de história. 6ª ed. Lisboa: Editorial Presença, [1986], p. 8-13.


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agosto 15, 2003

ALEXANDRE HERCULANO E A HISTÓRIA COMO RESULTADO DA ACÇÃO DO POVO, EM EXERCÍCIO DA LIBERDADE: ideias introdutórias

De acordo com Alexandre Herculano (1810-1877), na senda, aliás, do que se verificou com autores como Thierry, fortemente influenciados com o significado e resultados da Revolução Francesa (iniciada em 1789) e inseridos na corrente romântica liberal, a História é fruto não da acção de grandes homens, mas da sociedade, ou seja, dos homens socialmente organizados, em particular do Povo.
Diferentemente do que acontecerá com Oliveira Martins, Herculano valoriza no processo histórico a formação dos concelhos e a importância que tiveram na constituição e desenvolvimento do Reino de Portugal, assim como as potencialidades do povo para, em clima de liberdade se poder manifestar, caracterizando-se tal liberdade, sobretudo, pela autonomia do poder local (pelo Municipalismo e não pelo Centralismo Político), propiciadora da defesa da identidade.
No âmbito de um tipo de história diferente daquele valorizador dos chamados grandes homens, escreveu em Opúsculos, o seguinte:
"É uma daquelas falsidades históricas que nascem do curto pensar. Nunca um ou alguns homens puderam assim mudar nem a mínima das fórmulas sociais, em cujo número a arte, decerto, não é a última. São as gerações arrastadas e agitadas por ideias que nasceram e se derramaram insensivelmente que fizeram semelhantes transformações. Essas cabeças de escola são o verbo da ideia, são os intérpretes do género humano e- mais nada."
(Vol. V- "Cartas sobre a história de Portugal". Carta V.)

A propósito também do que considerou ser o atrofiamento da cultura nacional causada pela imposição (de carácter renascentista) das culturas grega e romana clássicas, escreve o seguinte em Elogio Histórico de Sebastião Xavier Botelho, Memórias do Conservatório (citado por Teófilo Braga em Garret e o Romantismo. Livraria Chardron: Porto, 1903, p. 18-20):
"As sociedades feudais e municipais, estas no seu crescer, aquelas na sua declinação, deram o último arranco aos pés da sociedade monárquica. Toda a vida anterior das nações do Ocidente desabou após elas. Entre nós, mudou tudo: socialismo, ciência, arte, carácter religioso. Compuseram-se então todos os aspectos da sociedade a exemplo da unidade monárquica: o senhorio feudal tornou-se dependência completa; o município, delegação; os parlamentos, letra morta. A crónica, essa forma tão viva, tão dramática, tão nacional da história, cedeu o campo aos Tucídides e Lívios modernos; o platonismo cristão e espiritual fugiu, combatendo, como os Partos, ante o aristotelismo argumentador e materialista, as artes plásticas seguiram de longe os destinos de suas irmãs de Itália, onde as iluminuras aéreas e incorrectas dos missais e horas desapareciam diante do pincel terreno e correcto de Rafael, e as catedrais misteriosas e simbólicas se desmoronavam ao altar do templo de S.Pedro... Todas as artes se confessavam vencidas, na sua imperfeição e rudeza sublimes, pelos monumentos da arte antiga. O próprio cristianismo se fez intolerante e sanguinário como o politeismo romano, o perseguidor dos mártires, - e a Inquisição restaurou o Pretório. Finalmente, a poesia nacional, balbuciante ainda, retraiu-se ante o fulgor da literatura latina. As instituições de Roma, a Roma dos imperadores, anularam as nossas instituições primitivas, e a poesia romana mudou o carácter da poesia moderna. A sociedade, reconstruindo-se em todas as suas partes, vasava-se no molde antigo, e a arte reproduzia o pensamento que guiava o século. Deixou de ser cristã e nacional para ser pagã e peregrina. Netos dos celtas, dos godos e dos árabes, esquecemo-nos de todas as tradições de avós para pedirmos às cinzas de um império, morto e estranho, até o génio da própria língua!".
É, pois notória, a consideração de uma evolução negativa na História e nas instituições em Portugal, situação que se pretendia alterar com o novo clima propiciado pela Revolução Liberal de 1820.
O que acrescenta o historiador a este respeito? Como o procura fazer e consubstanciar?
Pela importância de uma figura como a de Alexandre Herculano, assim como pelo que pretendeu acima de tudo representar com os seus escritos de carácter histórico, voltaremos a falar sobre si, assim como da corrente romântica na qual se integrava, enquadradora de uma forma específica de pensar e registar a História, logo, de entender os caminhos percorridos e a percorrer pela Humanidade.

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CONCEPÇÕES RACISTAS DO PROCESSO HISTÓRICO EM PORTUGAL. O exemplo de Oliveira Martins

Considerámos anteriormente, no âmbito da corrente naturalista explicativa do processo histórico, o exemplo do pensamento de Gobineau e a sua influência na construção da teoria racista defendida por Adolf Hitler.
Pela importância e sempre pertinência revestida pelas questões envolvidas, assim como pelos comentários suscitados (onde a qualidade os caracteriza, de forma inequívoca), entendemos ser importante apresentar um post onde fosse atendida a abordagem da problemática feita em Portugal, fazendo realçar as reflexões desenvolvidas por um historiador português do século XIX, Oliveira Martins.

É inequívoco o registo em como Oliveira Martins pressupunha que qualquer civilização se encontrava imbuída de dois elementos essenciais:

- uma raça possuidora de uma determinada capacidade constitucional;

- um meio geográfico propício para o seu desenvolvimento.

Assim sendo, uma civilização era considerada como o produto quer do génio da raça (de determinada raça), quer do meio natural de que essa raça fazia parte, portanto, do meio em que se encontrava inserida.
Na medida em que as raças variavam entre si, tendo também diferentes níveis de "qualidade", daqui resultavam diferentes civilizações. Logo, e como consequência disto, não se pode falar duma história mas de várias histórias, cada uma delas significando a história de uma raça.
Ao falar-se em História Universal apenas se podia entender que esta era a história dos Arianos, na medida em que estes se destacavam pelas suas vitórias e pela sua expansão.

Aplicando esta teoria ao povo português, vejamos o que nos diz Oliveira Martins na sua História de Portugal (1879):

"A serra da Estrela é a mais elevada das cordilheiras portuguesas; é o prolongamento da espinha dorsal da Península; é a divisória das duas metades de Portugal, tão diversas de fisionomia e temperamento; é, finalmente, como que o coração do País- e acaso nas suas quebradas e declives, pelos seus vales e encostas, demora ainda o genuíno representante do Lusitano antigo. Se há um tipo propriamente português, se através dos acasos da história permaneceu puro algum exemplar de uma raça ante-histórica onde possamos filiar-nos, é aí que o havemos de procurar (...).
O pastor quase bárbaro dessas cumeadas da serra a topetar com as nuvens, abordoado ao seu cajado, vestido de peles, seguindo o rebanho das ovelhas louras, é talvez o descendente dos companheiros de Viriato."

Tal como outros pensadores do seu tempo, Oliveira Martins dava grande importância às diferenças caracterizadoras das raças como a cor da pele, a cor dos olhos, a forma e as medidas do crânio, assim como a tudo o resto que faziam com que umas fossem superiores a outras. Considerava, no entanto que a concretização das superioridades se devia, da mesma forma, a factores como a organização política valorizada e adoptada pelo que, a este nível, aquela que apresentava maiores potencialidades era a revestida de altos níveis de centralização do poder. Exemplos concretizados foram vários verificados ao longo dos tempos no espaço europeu, pelo que Oliveira Martins completava as suas concepções historiográficas com a valorização da vertente eurocentrista.

Para um maior e melhor conhecimento do pensamento do historiador sobre estas matérias atente-se na sua obra As raças humanas, datada de 1888.
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Bibliografia deixada por Oliveira Martins:

- 1867: Febo Moniz
- 1872: Teoria do socialismo, evolução política e económica das sociedades, na Europa
- 1873: Exame constitucional da sociedade portuguesa e sua reorganização pelo socialismo
- 1877: A reorganização do Banco de Portugal
- 1878: As eleições
- 1878: O helenismo e a civilização cristã
- 1878: Memória sobre a circulação fiduciária
- 1879: História da Civilização Ibérica
- 1879: História de Portugal
- 1880: O Brasil e as colónias portuguesas
- 1880: Elementos de Antropologia
- 1881: Portugal Contemporâneo
- 1881: As raças humanas
- 1882: Sistema dos mitos religiosos
- 1883: Quadro das instituições primitivas
- 1883: O Regime das Riquezas
- 1884: Tábuas de Cronologia
- 1884: O Empréstimo Real Português de 1832
- 1885: Política e Economia Nacional
- 1885: História da República Romana
- 1887: Projecto de lei de Fomento rural
- 1889: Portugal nos mares
- 1891: Portugal em África
- 1891: Os filhos de D. João I
- 1892: A vida de Nu'Álvares
- 1893: A Inglaterra de hoje
- 1895: Cartas Peninsulares
- 1895: O Príncipe Perfeito

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agosto 14, 2003

A IMPORTÂNCIA DA CRIATIVIDADE NO PROCESSO HISTÓRICO. Palavras de Mikhail Gorbatchov

Em contexto de abertura da ex-URSS o então presidente Mikhail Gorbatchov, na sua obra nuclear, Perestroika, aponta as conquista conseguidas pelo seu país desde a Revolução Socialista de Outubro (1917). No entanto, e nessa sequência, salienta também alguns factores que deram origem a bloqueios, sendo a impossibilidade de desenvolvimento pleno da criatividade uma delas, pelo que segundo ele a livre criatividade do Homem é absolutamente essencial para o desenrolar do processo histórico. São, pois as seguintes as suas palavras:
"(...) A nossa sociedade garantiu o trabalho para todos e forneceu as garantias sociais fundamentais. Ao mesmo tempo, falhámos no que respeita à utilização de todas as potencialidades do socialismo para responder às crescentes necessidades de habitação, qualidade e por vezes quantidade dos produtos alimentares, na devida organização dos transportes, nos serviços de saúde, na educação e na resolução de outros problemas que, muito naturalmente, surgem no decurso do desenvolvimento da sociedade. (...)
Os penegíricos e o servilismo eram encorajados. (...) O pensamento criador fora expulso das ciências sociais, enquanto opiniões e declarações peremptórias, supérfluas e voluntaristas, eram declaradas verdades indiscutíveis. (...) A penetração dos estereótipos de uma cultura de massas alheia à nossa deu lugar à vulgaridade, ao mau gosto e à aridez ideológica. (...) As pessoas, seres humanos com toda a sua criativa diversidade são os construtores da história."

(In: GORBATCHOV, Mikhail- Perestroika. Lisboa: Publicações Europa-América, 1987, p. 28-38).

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