A propósito de um texto escrito por Ana Sá Lopes na revista Pública e em contexto de exibição do filme de José Carlos de Oliveira, "Preto e Branco", escreveu no jornal Público de ontem o Major Mário Tomé, relativamente à Guerra Colonial o seguinte:
"(...) Grosso modo, Portugal, com 10 milhões de habitantes, fez um esforço de guerra em África cerca de nove vezes superior ao dos EUA, no Vietnam, com os seus 250 milhões de habitantes. Portugal mobilizou para a guerra colonial mais de 800 mil jovens, teve 8 mil mortos, 112.205 feridos e doentes, 4 mil deficientes físicos e estima-se que cerca de 100 mil doentes de stress de guerra. 40% do OE destinava-se à Defesa. A isto há que acrescentar a sangria de milhão e meio de emigrantes entre 60 e 74.
A Guiné estava perdida (...). Em Angola foi possível dividir o movimento independentista pelo que as tropas coloniais estavam em condições menos precárias. Mas não poderiam deixar de ser envolvidas pelo colapso geral, como foram.
Em Moçambique, nos meses que antecederam o 25 de Abril, os relatórios oficiais constatam recrudescimento das acções militares da Frelimo; alastramento impetuoso das acções de guerrilha às reservas de brancos e de caça. Beira, Vila Pery e Gorongosa; utilização de maios sofisticados (Strella e Foguetão de 122 mm) que, associados aos já melhores armamentos ligeiros (Kalashikov e RPG) conferem à Frelimo superioridade operacional e material cada vez mais evidente; fixação das nossas tropas na defesa de Cabora Bassa cuja inexpugnabilidade técnica é garantida pelo sorvedoiro mortal de efectivos e do esforço principal de guerra; deteriorização sem precedentes do moral das tropas coloniais e perda geral da vontade de combater; corte radical entre os colonos brancos do centro de Moçambique (zona estratégica vital) e o exército colonial. (...)
Os capitães não foram anjos justiceiros. Eram militares honestos, empenhados em cumprir a missão: ganhar a guerra, manter Portugal uno e indivisível do Minho a Timor. A deterioração alarmante da situação ao longo dos últimos anos obrigou-os a recorrer a outros manuais! ... Quando a brigada do reumático meteu a cabeça na areia face à derrota iminente e ao desastre anunciado, pior que o da Índia, viu os capitães à frente dos soldados rebelarem-se, abrirem as portas da desagregação de um exército já subvertido, sem meios, sem ânimo e sem iniciativa operacional, sem comando digno do nome, fustigado violentamente, à beira do colapso, derrotado; e proclamarem a vitória da liberdade e da independência. (...)
Finalmente: qual a condição de um exército em guerra, cujos capitães, as pedras fundamentais de comando em combate, e a generalidade dos soldados, se levantam contra a hierarquia e se recusam a combater?
O velho Clausewitz dizia que os objectivos da guerra são: colocar as forças militares inimigas incapazes de continuar o combate, garantir a ocupação do território e retirar ao inimigo a vontade de combater! Quem atingiu tais objectivos na guerra colonial?"
(Este artigo pode ser lido na íntegra em:
http://www.jornal.publico.pt/2003/09/29/EspacoPublico/O03.html)
Dando sequência a posts onde a abordagem sobre globalização (ela própria um processo) no âmbito do processo histórico tem sido tratada, apresentamos agora, para ainda maior complemento, três ideias desenvolvidas pelo historiador inglês Eric Hobsbawm numa entrevista conduzida por Antonio Polito:
- "A globalização não é o produto de uma única acção (...). É um processo histórico que sem dúvida acelerou muito nos últimos dez anos, mas que consiste numa permanente transformação. Não está claro quando poderemos dizer que chegámos a um ponto de chegada definitivo, ou qual vai ser o momento em que o processo estará completo. Sobretudo porque a essência deste processo é uma extensão da actividade através de um planeta que é, pela sua própria natureza, vário: do ponto de vista geográfico, histórico, climático. Esta realidade impõe certos limites à unificação de todo o planeta. Além disso, a globalização não opera em todos os campos da acção humana da mesma forma. (...) Por isso, seria um erro dizer que é um fenómeno sem obstáculos. (...)".
A reter: a Globalização como um processo com formas de aplicação e ritmos diferenciados.
- "Antes de mais, penso que não se pode identificar a globalização só com a criação de uma economia global, ainda que esta seja o seu centro e o seu aspecto mais evidente. Temos de olhar além da economia. A globalização baseia-se em primeiro lugar na eliminação de aspectos técnicos, mais do que económicos, que constituem o seu pressuposto: a distância e o tempo. (...)"
A reter: Relação entre a Globalização, a concepção e vivências do Tempo e do Espaço.
- "(...) O processo de globalização é sem dúvida irreversível e, em alguns aspectos, independente daquilo que os Governos fazem. Mas outra coisa é a ideologia baseada na globalização, a ideologia do free market, o neoliberalismo, o que também foi chamado "fundamentalismo do livre mercado".Esta ideologia baseia-se na convicção de que o livre mercado maximiza o crescimento e a riqueza do mundo e produz uma distribuição optimal do aumento. Todas as tentativas de regular e de controlar o mercado devem dar resultados negativos, pois reduzem a acumulação do lucro capitalista, e logo impedem a maximização da taxa de crescimento. (...)"
A reter: Globalização e Liberalismo Económico (Liberalismo e Neo-Liberalismo).
(HOBSBAWM, Eric- O século XXI. Reflexões sobre o futuro. Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 58-65. Sublinhado nosso.).
A propósito da dificuldade em conhecer o que foi ou tem sido realmente a evolução do processo histórico, logo, o conhecimento de objectos mais ou menos longínquos (e aqui estamos perante as questões da Objectividade e do Relativismo em História), escreveu António Manuel Hespanha a seguinte crónica na revista História de Fevereiro de 2002:
"PRÉ-COMPREENSÕES E ESPERTALHÕES
Desde Hans-Georg Gadamer e ao longo de toda a tradição da hermenêutica filosófica (M. Heidegger, E. Betti ou mesmo J. Habermas), tem sido dito e repetido que conhecer- e, em particular, conhecer objectos longínquos (...), não é tarefa nem trivial, nem garantida.
Sabe-se que o conhecimento é enquadrado (deformado, constituído; para, de degrau em degrau, ir dizendo coisas mais radicais) por concepções culturais (ou pessoais) muito profundas e razoavelmente inconscientes. É a isto que a literatura mais especializada chama pré-compreensão (...). Esta, sendo inevitável, pode ser controlada, no sentido de tornada consciente. E, neste sentido, ficamos pelo menos a saber (e damos disso notícia aos outros) que falamos a partir de convicções próprias (tanto no sentido pessoal, como no sentido cultural). Falamos a partir de nós, da nossa cultura, da nossa época.
Neste sentido, o conhecimento é sempre uma certa espécie de interpretação, um acto de atribuição de sentido à realidade (se tal coisa existe...). Sempre que o acto de conhecer tem como objecto outros actos de conhecer (ou de avaliar), os problemas redobram-se. Pois, neste momento, o que estamos a fazer é a interpretar interpretações. E, então, a questão não é apenas a de controlar a nossa pré-compreensão, mas ainda a de controlar (no sentido de torná-la explícita) as pré-compreensões das pessoas que estamos a estudar. (...)
Alguns dizem que qualquer destas tarefas é impossível de realizar e que, portanto, a história (e, em geral, o resto das ciências sociais) são discursos de tipo quase literário, que não pretendem a verdade, mas apenas a persuasão ou, simplesmente, o divertimento.
Confesso que tendo a pensar assim.
Mas nada disso autoriza que cada um se dispense de tentar distinguir, o mais claramente possível, o seu inevitável contributo pessoal (a sua visão do mundo) para os dados "objectivos estudados". (...)
Muito menos legítimo é, ainda, impingir as nossas convicções pessoais no discurso histórico (...) com a desculpa de que essas são as nossas convicções e de que delas não estamos dispostos a abdicar. Tal atitude é, pura e simplesmente, anti-científica e dogmática, excluindo os seus portadores do campo do discurso científico. (...)".
(HESPANHA, António Manuel- "Pré-compreensões e espertalhões". In: História. Nº 42. Fevereiro 2002, p. 14-15. Sublinhado nosso).
Inicia-se, seguidamente, a apresentação de alguns autores e títulos situados no século XX, tendo-se como tempo limite o ano de 1998. No entanto, e para não alongar demasiado a cronologia, consideramos, em primeiro lugar, a 1ª metade do século, ficando o tempo posterior para um outro post.
Evidentemente que a produção do denominado "romance histórico" continuou para além do ano que registamos como terminal. De qualquer forma tínhamos que optar por uma data para fazermos o balizamento e foi o que aconteceu.
Todos os acrescentos que possam ser dados através dos "Comentários" serão, obviamente, muito bem vindos, o mesmo se verificando para o período que agora atendemos.
Registamos, então, o seguinte:
1901
- Faustino da Fonseca: Inês de Castro (1901-1902).
- Campos Júnior: Luís de Camões.
- Faustino da Fonseca: A Padeira de Aljubarrota.
1902
- Malheiro Dias: Paixão de Maria do Céu.
- Faustino da Fonseca: As mulheres portuguesas na restauração de Portugal.
- Rocha Martins: Maria da Fonte.
1903
- D. João da Câmara: O conde de Castelo Melhor.
- Campos Júnior: A filha do polaco.
1904
- Alberto Pimentel: O lobo da Madragoa.
- Lobo d'Ávila: Os amores do Príncipe Perfeito.
- Eduardo de Noronha: A ambição de um rei.
1905
- Malheiro Dias: O grande Cagliostro.
- Campos Júnior: Ala dos namorados.
- Faustino da Fonseca: El-Rei D. Miguel.
- Eduardo Noronha: No Brasil.
- A.F. Barata: Um duelo nas sombras.
- Alberto de Castro: Dramas da corte.
- Faustino da Fonseca: Os filhos de Inês de Castro.
- Campos Júnior: Rainha Madrasta.
1906
- Faustino da Fonseca: A arraia miúda.
- Faustino da Fonseca: Os bravos do Mindelo.
- Faustino da Fonseca: Beijos por lágrimas.
- Eduardo de Noronha: O herói de Chaimite Mouzinho de Albuquerque.
1907
- Eduardo de Noronha: O marquês de Nisa.
- Campos Júnior: A estrela de Nagasaqui.
- César da Silva: Amores de uma rainha.
1908
- Marcelino Mesquita: Os quatro reis impostores.
1909
- J.R. Gomes: A filha de Tristão das Damas.
1910
- Campos Júnior: O pagem da duquesa.
- Campos Júnior: A Senhora Infanta.
- Eduardo de Noronha: O Conde de Farrobo e a sua época.
- César da Silva: O Prior do Crato e a sua época.
1911
- Lobo d'Ávila: O rei magnífico.
1913
- Antero de Figueiredo: D. Pedro e D. Inês.
1914
- Sousa Costa: Ressurreição dos mortos.
- Júlio Dantas: Pátria Portuguesa.
- Marques Rosa: D. Mécia.
1915
- Rui Chianca: Ressurreição.
1916
- Antero de Figueiredo: Leonor Teles.
- Rui Chianca: Desventurado amor.
- Alberto Pimentel: Arco de Vandoma.
1918
- Alberto Pimentel: Terra Prometida.
- César da Silva: Os Patuleias.
1919
- Alberto Pimentel: A princesa de Boivão.
1920
- Henrique Lopes de Mendonça: Cenas da vida heróica.
1921
- Marques Rosa: Três mulheres.
- João Grave: Paixão e morte da Infanta.
- D. João de Castro: O pecado de el-rei D. Afonso Henriques.
1922
- Maria Paula Azevedo: Brianda
- Rocha Martins: Bocage.
- César da Silva: O Conde de Castelo Melhor.
1923
- João Grave: Reinado trágico.
- Eduardo de Noronha: José do Telhado.
1924
- Eduardo de Noronha: José do Telhado em África.
- Antero de Figueiredo: D. Sebastião.
- Eduardo de Noronha: Com os olhos da pátria.
1925
- Eduardo de Noronha: Os salteadores do norte.
1926
- Lobo d'Ávila e Fernando Mendes: A verdadeira paixão de Bocage.
- Eduardo de Noronha: Afonso de Albuquerque.
1927
- Marques Rosa: Princesa Joana.
- Eduardo de Noronha: O missionário.
1928
- Rocha Martins: Madre Paula.
- Rocha Martins: Bichinho da conta.
1930
- César da Silva: O marechal Saldanha.
1931
- César da Silva: A execução dos Távoras.
1936
- Aquilino Ribeiro: Aventura maravilhosa.
- Vitorino Nemésio: Isabel de Aragão Rainha Santa.
1937
- Eduardo de Noronha: Berta van Dorth.
- Eduardo de Noronha: As mulheres de Pernambuco.
1940
- Samuel Maia: História maravilhosa de D. Sebastião.
- Carlos Pinto de Almeida: O Mestre de Avis.
1943
- Afonso Lopes Vieira: A paixão de Pedro o Cru.
- Rocha Martins: Batalha de sombras.
1946
- Rocha Martins: Coração português.
1947
- Gentil Marques: Rainha Santa.
1948
- Mário Domingues: O cavaleiro, o monge e o outro.
Cada vez mais nos tempos que correm se apresenta um imperativo falar em Direitos Humanos.
Conhecê-los, considerá-los, interpretá-los e fazê-los aplicar perante as mais diversas situações e perante os mais diversos cenários, é de uma necessidade extrema.
Direitos de cariz político, económico, social, cultural e mesmo relacionados com a ecologia, são importantes. E por isso existem. Estão escritos. Estão teoricamente aceites pela generalidade dos Estados. Mas há resistências. E os argumentos a favor da sua não total aplicação são um facto. Desta forma, e por isso, há sempre vítimas: homens, mulheres e crianças.
A questão do carácter absoluto ou da relatividade da aplicação dos Direitos Humano tem estado e continua a estar na ordem do dia. E aqui os motivos culturais e religiosos apresentam-se como predominantes para as reticências levantadas. Mas também a questão da "ocidentalização" dos Direitos Humanos continua em cima da mesa e encontra-se fortemente relacionada com a anterior.
A consideração e debate em torno da problemática dos Direitos Humanos não é de hoje. A sua evocação pode sempre predominar mais numas alturas do que noutras, conforme também as características da evolução do processo histórico, mas o atendimento à questão é antigo. O século XX deu-lhe um novo impulso, mas as raizes são anteriores.
É, pois esta abordagem que nos propomos, sinteticamente, fazer. Sendo que na História os Direitos Humanos se têm vindo progressivamente a afirmar e a materializar em instrumentos legislativos específicos, impõe-se uma abordagem introdutória, mas simultaneamente, ilustrativa.
É isso que deixamos desde já registado como mais um propósito.
Na sequência do post ontem editado introduzindo a problemática do Romance Histórico em Portugal, apresentamos agora uma cronologia em torno de autores e publicações do século XIX.
Assim:
1842-43
- Rebelo da Silva: Rausso por Homízio.
1843
- Alexandre Herculano: O Bobo (no Panorama. Em livro, mais tarde)
1844
- Alexandre Herculano: Eurico, o Presbítero.
- Oliveira Marreca: O conde soberano de Castela.
1845
- Vicente Pereira de Carvalho Guimarães: Jerónimo Bordalo Bezerra
1846
- Vicente Guimarães- A Guerra dos Emboabas.
- Vicente Guimarães- Os jesuítas na América.
1845-1850
- Almeida Garrett- O Arco de Santana.
1847
- António Pereira de Aragão: A órfã portuguesa e o seu tutor, ou as duas últimas venerandas vítimas da usurpação dos Filipes.
1848
- Alexandre Herculano: O monge de Cister.
- Rebelo da Silva: Ódio velho não cansa.
- Aires Pinto de Sousa de Mendonça e Meneses: O Mestre de Calatrava.
1849
- Aires Pinto de Sousa de Mendonça e Meneses: Rui de Miranda.
1850-51
- Andrade Corvo: Um ano na corte.
1852-53
- Rebelo da Silva: A mocidade de D. João V.
1855
- Camilo Castelo Branco: Livro negro do padre Dinis.
- Rebelo da Silva: A pena de talião.
1856
- Coelho Lousada: A rua escura.
1857
- Coelho Lousada: Os tripeiros.
- Marilde de Santa Ana e Vasconcelos: O soldado de Aljubarrota.
1858
- Luís Joaquim de Oliveira e Castro: A filha de Afonso III ou a conquista do Algarve.
1861
- Arnaldo Gama: Um motim há cem anos.
1862
- Teixeira de Vasconcelos: O prato de arroz-doce.
- Bernardino Pereira Pinheiro: Arzila.
1863
- Arnaldo Gama: O sargento-mor de Vilar.
- Luís Ribeiro de Sotto Maior: Esposa na Lide.
- Bernardino P. Pinheiro: Sombras e luz.
- Rebelo da Silva: Lágrimas e tesouros.
- António Avelino Amaro da Silva: O caramujo.
1864
- Arnaldo Gama: O segredo do abade.
- Arnaldo Gama: A última dona de S. Nicolau.
- António F. Barata: O rancho de Carqueja.
1865
- Arnaldo Gama: O filho do Baldaia.
- Camilo Castelo Branco: A enjeitada.
- Camilo Castelo Branco: Luta de gigantes.
- Rebelo da Silva: A casa dos fantasmas.
- Mendes Leal: Crónicas do século XVII./ Os mosqueteiros de África.
1866
- Camilo Castelo Branco: O olho de vidro.
- Camilo Castelo Branco: O judeu.
- Camilo Castelo Branco: O santo da montanha.
- Arnaldo Gama: A caldeira de Pero Botelho.
- Luís Guedes Coutinho Garrido: Dois aniversários.
1867
- Oliveira Martins: Febo Moniz.
- Camilo Castelo Branco: O Senhor do Paço de Ninães.
- Pinheiro Chagas: A corte de D. João V.
1868
- Silva Gaio: Mário.
- Camilo Castelo Branco: O retrato de Ricardina.
- Camilo Castelo Branco: O santo da montanha.
1871
- Arnaldo Gama: O Balio de Leça.
- A.F. Barata: O Manuelinho de Évora.
- Rebelo da Silva: De noite todos os gatos são pardos.
1872
- Pinheiro Chagas: Os guerrilheiros da morte.
- Pereira Lobato: Os fidalgos do coração de ouro.
1873
- Pinheiro Chagas: A máscara vermelha.
- Pinheiro Chagas: O juramento da duquesa.
- Alberto Pimentel: O anel misterioso.
- Alberto Pimentel: O testamento de sangue.
1874
- Camilo Castelo Branco: O regicida.
- Guiomar Torresão: A família Albergaria.
- Pinheiro Chagas: O terramoto de Lisboa.
- Luís Guedes Coutinho Garrido: Aureliano.
- Bernardino Pereira Pinheiro: Os amores de um visionário.
1875
- Camilo Castelo Branco: A filha do regicida.
- Camilo Castelo Branco: A caveira da mártir.
- Pinheiro Chagas: As duas flores de sangue.
- Manuel Pereira Lobato: A queda de um gigante.
- Pereira Lobato: A baronesa de la Puebla.
1876
- Diogo de Macedo: O cristão novo.
- Manuel P. Lobato: Estandarte Real.
- Alberto Pimentel: Um conflito na corte.
1877
- A.F. Barata: Os jesuítas na corte.
1878
- Pinheiro Chagas: A mantilha de Beatriz.
1879
- Guilhermino Algusto de Barros: O castelo de Monsanto.
1886
- José de Sousa Monteiro: Os amores de Júlia.
1890
- Pinheiro Chagas: A jóia do vice-rei.
- Pinheiro Chagas: A marquesa das Índias.
1891
- Pinheiro Chagas: A descoberta da Índia contada por um marinheiro.
1894
- Henrique Lopes de Mendonça: Os órfãos de Calecut.
- Dom João da Câmara: El-Rei.
1895
- Guilherme Read Cabral: Ângela de Santa Clara.
- Alberto Pimentel: A guerrilha de Frei Simão.
- Alberto Pimentel: O descobrimento do Brasil.
1898
- Campos Júnior: Guerreiro e monge.
- Lobo d'Ávila: A descoberta e conquista da Índia.
- Lourenço Cayolla: O despertar de um sonho.
1899
- Campos Júnior: O Marquês de Pombal.
1900
- Eça de Queirós: A ilustre Casa de Ramires
- Eduardo de Noronha: O agonisar de uma dinastia.
- Lobo d'Ávila: Os caramurús.
- César da Silva: Inês de Castro.
Tendo como ponto de partida a ideia de que desde o início do século XIX o romance histórico adquiriu um papel de crescente relevo no panorama literário português, impõe-se que sobre si seja dada alguma atenção. E tal atenção ainda mais se impõe quando já no século XX se verificam alterações em termos de conteúdo da sua produção, permitindo falar de um estilo diferente daquele apresentado no período anterior. Aspecto fundamental a reter, desde já, neste contexto diferenciador: a inexistência (ou o cair significativo) do valor absoluto do facto histórico. Porque a liberdade interpretativa é maior e porque essa maior liberdade é altamente condicionadora dos conteúdos finais que são apresentados. A apropriação do passado é vista de outra forma. A reinterpretação é uma evidência condutora das modificações mais efectivas, com um maior grau de radicalidade.
Assim sendo, e neste âmbito, serão considerados os seguintes autores (e neles, as suas obras):
SÉCULO XIX:
- Alexandre Herculano
- Almeida Garrett
- Rebelo da Silva
- Camilo Castelo Branco
- Arnaldo Gama
- Pinheiro Chagas
- Alberto Pimentel
(entre outros)
SÉCULO XX
- José Saramago
- Álvaro Guerra
- Mário Cláudio
- Helena Marques
- Maria Isabel Barreno
- Luísa Beltrão
- Baptista Bastos
- Agostina Bessa Luís
- João Aguiar
- António Cândido Franco
- Luisa Costa Gomes
- António Rebordão Navarro
- D. Luiz de Lencastre e Távora
- Seomara da Veiga Ferreira
- Fernando Campos
- Alberto Oliveira Pinto
- Teresa Bernardino
- Miguel Medina
- Mário de Carvalho
- Mário Cláudio
- João Riço Direitinho
- Augusto Abelaria
- Vasco Pereira da Costa
- António Silva Graça
- Ruben A.
- Teolinda Gersão
- António Lobo Antunes
- Fernando Dacosta
Em próximos posts começaremos por apresentar uma cronologia dividida em duas partes, abarcando uma, o século XIX, e outra, o século XX. Nelas será feita a relação entre os escritores e as obras produzidas.
Dando sequência à abordagem que fizemos em torno desta temática no passado dia 21, acrescentamos agora um excerto da apresentação à obra traduzida em português, em particular, relativo à participação do Partido Comunista Português na estratégia de intervenção soviética, escrito por José Pacheco Pereira.
Aponta, então, sobre esta matéria:
"As escassas informações sobre Portugal revelam o papel central do PCP como intermediário activo nas operações soviéticas de 1974-5. Tal não deve surpreender ninguém, dado não só as posições políticas do partido como a formação e mentalidade dos seus dirigentes na longa clandestinidade, como igualmente na dependência do PCP do apoio soviético. Embora com diferenças que vêm da sua história nacional, a própria formação, crescimento e identidade do PCP não é diferente nesta matéria dos partidos comunistas de modelo cominterniano.
Do ponto de vista simbólico, o relato que Mitrokhin dá do primeiro encontro de Álvaro Cunhal depois do 25 de Abril com o residente do KGB em Lisboa, Kuznetsov/ORLOV, é um retrato de qualidade cinematográfica. Não custa a imaginar Cunhal com medo das escutas, obcecado como sempre foi pela segurança, e imbuído até à medula por longos anos de clandestinidade e hábitos de segredo, sentado diante de uma mesa a escrever num papel (...) as perguntas e respostas de um diálogo por escrito, mais tenso do que se fosse falado, com o responsável lisboeta do KGB. (...)
Segundo Mitrokhin a conversa entre Cunhal e Kuznetsov teria sido essencialmente operacional. (...) Cunhal sabia que o que se passava em Portugal em 1974-5 já não era um evento periférico num país menor, com um partido ignorado e muitas vezes ofendido por comparação com os seus camaradas espanhóis. Agora, por um momento, a "revolução" portuguesa era a chave do movimento comunista internacional, substituindo e compensando a tragédia chilena.
Portugal, com o seu império colonial, é uma peça crucial para o espansionismo soviético que conhece nesses anos uma séria impulsão. Quer em África quer no "elo mais fraco da OTAN", Portugal está agora no centro do "grande jogo" e ele sabe que o PCP precisa rapidamente do know how soviético para garantir a "revolução" em Portugal e nas colónias. E quem detém esse conhecimento é os descendentes dos chekistas, o KGB. É o que ele está ali a fazer: a pedir a formação pelo KGB de especialistas em contra-espionagem que o PCP precisa, a pedir material de detecção das escutas e, naturalmente, a retribuir, em nome da solidariedade internacionalista com a pátria do socialismo, com as informações que podiam ser importantes para a URSS. O que é que se esperava de Cunhal, como aliás de outros membros da direcção como um PATRICK tão facilmente identificável, que sempre consideraram essa actividade como uma parte decisiva da luta de classes mundial? (...)".
(Ver: Arquivos de Mitrokhin. Lisboa: Dom Quixote, 2000. Sublinhado nosso.).
Para além das obras e dos artigos referidos e apresentados versando a problemática do Terrorismo nas sociedades contemporâneas, acrescentamos mais um título, em nosso entender, com significativa importância para uma maior exploração e compreensão do fenómeno:
- MARCHUETA, Maria Regina- Reflexões sobre o terrorismo internacional. Lisboa. Edições Duarte Reis, 2003.
Escreve a autora em "Nota prévia"- e nesta chamamos a atenção para as tipologias de Terrorismo e para os dilemas levantados-:
"(...) Os acontecimentos de 11 de Setembro situam-se na ordem do dia, não apenas da agenda política dos governantes, mas também da vivência quotidiana de todas as pessoas, independentemente do lugar onde vivam, para onde se desloquem ou daquele que, por simples desfrute onírico, se situa no horizonte das suas possibilidades ou sonhos.
Mais do que catástrofes naturais, do que as guerras e do que os simples acidentes ocasionais, o fenómeno do terrorismo provoca um temor público generalizado, que excede, na maior parte das vezes, a própria ameaça objectiva. A sua imprevisibilidade, a ausência ou incapacidade de controlo, a gravidade das suas consequências, a vulnerabilidade das estruturas essenciais da sociedade e sua centralização, e a interdependência dos sistemas necessários para a vida moderna, fazem de cada um uma vítima potencial. A combinação destes factores resulta particularmente intimidatória, socialmente inibidora e politicamente frustrante. (...)
Todo o terrorismo secular, seja ele de natureza nacionalista ou simplesmente de oposição política, tem podido ser claramente identificado e nitidamente localizado. Também o terrorismo religioso ou "sagrado", mais recente, tem tido uma área geográfica de actuação preferente, porque limitada a um espaço físico onde estão em causa os valores de uma determinada comunidade de crentes. (...)
Face aos problemas suscitados pelo terrorismo e à necessidade de o combater e erradicar, as sociedades defrontam-se com vários delimas. Um primeiro dilema diz respeito à definição do próprio conceito de terrorismo e à ausência de consenso sobre a abrangência desse mesmo conceito, tendo, nomeadamente, em consideração as diferentes interpretações e interesses políticos, em presença, e a existência de países que colaboram e apoiam o terrorismo. Um segundo dilema prende-se com a eficácia da represália, sendo certo que essa represália pode constituir uma ajuda indirecta à causa terrorista, e que o emprego da violência tende, não só a gerar mais violência, como, também, a ministrar novas justificações para novos actos de violência. Outro dilema tem a ver com o efeito em cadeia da redução da vulnerabilidade social mediante o emprego de uma tecnologia antiterrorista mais avançada, geradora de melhores tácticas e meios terroristas. Ainda, um outro está ligado à adopção de práticas e medidas repressivas que, ao reduzirem as liberdades individuais, podem provocar o descontentamento social, favorecendo, de forma indirecta, também o mundo terrorista.
Por último, refira-se a actual conjuntura política internacional, em que na luta pelo poder mundial e por uma nova hierarquia das potências, a campanha internacional contra o terrorismo pode contribuir para uma nova ordem mundial que, sem atender prioritariamente aos problemas do subdesenvolvimento, não contribua para uma paz duradoura, pondo em risco muitos dos valores e liberdades humanas já consignadas".
Ao longo deste seu trabalho (87 páginas), a autora, sob a forma de capítulos, aborda as seguintes questões:
1. Enquadramento geral da problemática do terrorismo.
2. A problemática do terrorismo e o mundo árabe-islâmico.
3. Os atentados de 11 de Setembro.
4. O ressuscitar das ideologias.
5. O terrorismo internacional da actualidade.
6. A conjuntura mundial do pós-11 de Setembro.
Disponível no mercado uma obra que entendemos de referência para uma melhor compreensão do processo histórico na sua fase mais recente e mesmo em termos de tempo futuro: O mundo depois da guerra no Iraque, publicada pela editora Relógio D'Água.
Contém esta obra textos ou entrevistas dadas de/por várias personalidades nacionais e estrangeiras, os quais incidem sobre questões em torno das seguintes realidades:
- O Estado do Mundo
- Perspectivas sobre o Iraque e o Médio Oriente
- Para onde vai a América de Bush?
- Visões do Terrorismo em 2003
- Os EUA e a Cultura Europeia
- A Guerra como Estratégia
Passamos a especificar:
O ESTADO DO MUNDO
- "O problema dos americanos é que não têm consciência das suas limitações" (Eric Hobsbawm)
- "O resto do mundo" (Adriano Moreira)
- "O risco das arrogâncias" (Adriano Moreira)
- "A frustração orientar-se-á para o terrorismo islâmico" (Abdelwahab Meddeb)
PERSPECTIVAS SOBRE O IRAQUE E O MÉDIO ORIENTE
- "Paz, Segurança e Democracia- I/II/III (José Pacheco Pereira)
- "A intervenção no Iraque: democracia e liberalismo" (Maria Filomena Mónica)
- "Belicismo" (Maria Fátima Bonifácio)
PARA ONDE VAI A AMÉRICA DE BUSH?
- "A nação não está unida. A outra América" (Edward Said)
- "Bush é o presidente mais estúpido que tivemos e serve-se da estupidez como estratégia" (Norman Mailer)
- "Liberdade das pessoas ou do comércio. Fundamentos económicos da diplomacia americana (Raymond Aron)
- "É a altura de entrar em acção contra as nossas guerras no resto do mundo" (Gore Vidal)
VISÕES DO TERRORISMO EM 2003
- "Do terror e dos genes. Para uma deshisterização de duas campanhas de auto-agitação" (Peter Sloterdijk)
- "O niilismo é um problema mundial" (André Glucksmann)
- "A resposta dos EUA" (Noam Chomsky)
OS EUA E A CULTURA EUROPEIA
- "Os arquivos do Éden" (George Steiner)
A GUERRA COMO ESTRATÉGIA
- "Objectivo nacional e objectivo militar" (Liddell Hart)
Referência bibliográfica: AAVV- O mundo depois da guerra no Iraque. Lisboa: Relógio D'Água, 2003).
A propósito dos acontecimentos verificados a 11 de Setembro de 2001 nos EUA (logo, relacionados com a proliferação do Terrorismo) e no âmbito de uma entrevista feita por Joseph Mace-Scaron e Alexis Lacroix, publicada no jornal francês Le Figaro, a 02 de Fevereiro de 2002, André Glucksmann, filósofo francês e estudioso da guerra faz, entre outras, as seguintes observações:
- "(...) A "guerra" de Bin Laden com o seu estilo particular tem de ser colocada na longa duração da guerra contemporânea.
Uma longa duração sob a luz crua de uma estatística: em 1914-18, houve 80 por cento de mortos em uniforme. Entre 1939 e 1945, apenas 50 por cento.
E desde o início da guerra fria até aos ataques de Bin Laden, há 30 milhões de mortos, unicamente em conflitos que não são confrontações de exércitos mas ataques armados contra populações desprotegidas (...).
Há quarenta e sete anos que se contam, portanto, 10 por cento de mortes em uniforme e 90 por cento de civis!
Quando Bin Laden diz: "É um acto de guerra", temos de lhe dar razão: o massacre dos inocentes, e já não a grande batalha entre exércitos, tornou-se a forma dominante de agressão guerreira".
- "A nossa paz é agora tão pouco perpétua que permanece sempre vulnerável a um homem com um cutter, a um atentado a uma central nuclear, etc.
A Europa desde dois últimos séculos cultivava a propensão para negar a morte, uma tendência um pouco louca, irresponsável, dominada pela obsessão da grande saúde, por esse dispositivo que Michel Foucault nomeou de "biopoder", a ideia de que uma ciência social poderia ajudar-nos a triunfar sobre a mortalidade.
A prova de Nova Iorque: o horizonte da nossa vulnerabilidade é inultrapassável. Vivemos a hora do niilismo, do face a face com um mal colectivo sempre a surgir".
- "Resumir o atentado de 11 de Setembro a um fanatismo religioso e afirmar que "é mesmo preciso acreditar em Deus para fazer semelhante coisa", é ter falta de sentido histórico, assim como de conhecimentos literários. (...)
Demasiados comentadores reduziram Dostoievsky a um "se Deus morreu, tudo é permitido", não viram que o furor niilista habita tanto aquele que acredita no Céu como o que não acredita nesse Céu. Dostoievsky mostra, pelo contrário, que o niilismo parte de "tudo é permitido" e que esse axioma governa o seu terrorismo. Com ou sem Deus, por ou contra o Estado, pensa-se que tudo é permitido".
- "O terrorismo niilista não é uma especificidade muçulmana. (...). O niilismo é o denominador comum das grandes ideologias exterminadoras que temos conhecido e conhecemos. Nazismo, comunismo e islamismo vestem diferentemente a mesma pulsão de aniquilamento, que permite também iniciativas mais individuais e locais".
- "O niilismo religioso reclama-se de um deus mais aniquilador do que criador; os niilistas sem Deus alinham com outros pretextos como a raça, a história, para se dedicarem do mesmo modo a fazer tábua rasa. As crenças variam, mas não o furor que as instrumentaliza".
- "O niilismo á agora um problema, não local mas mundial".
- "O niilismo triunfa quando perdemos o conhecimento do mal (...). [O niilismo] não manifesta apenas o gosto de fazer o mal, procede de uma complacência cúmplice. O niilismo é o mal tornado visível pelas consolações da ideologia ou as ilusões de uma miopia egoísta, ou o simples desejo de dormir sossegado (até ao estrondoso despertar)".
(AAVV- O mundo depois da guerra no Iraque. Lisboa: Relógio D'Água, 2003, p. 127-134. Sublinhado nosso).
Na sequência do post por nós apresentado no dia 10 de Setembro intitulado "30º aniversário do golpe de estado chileno: indicações bibliográficas", um leitor do Brasil- Cau-, fez-nos chegar ao espaço "Comentários" dois importantes artigos cuja leitura recomendamos:
a) pela forma como os acontecimentos verificados em 1973 são vistos e interpretados;
b) pelo facto de se arriscarem a ser considerados "politicamente incorrectos" e assim geradores de discussão adicional.
São esses textos os seguintes:
- "Pinochet: ditador assassino ou salvador da pátria?" (Mídia sem Máscara, 9 de Setembro de 2003)
- "Essa ideia de que Allende sofreu um golpe de estado não é tão verdadeira assim. A injustificada canonização de Allende" (Mídia sem Máscara, 17 de Setembro de 2003).
Em post editado no passado dia 11 introduzimos a abordagem do tema Terrorismo na História, na medida em que entendemos ser este uma marca indiscutível naquela que é a sociedade contemporânea (ou, dito de outra forma, nas sociedades contemporâneas). Preenchemos essa introdução com um texto saido no jornal Público da autoria de Pacheco Pereira pelo entendimento (seu) que registava sobre o assunto. Hoje voltou a sair um outro escrito do mesmo pensador que, pela importância inerente, e por complementar o anterior, decidimos apresentar a sua reprodução.
O conteúdo é, então, o seguinte:
" (...) Há razões de fundo para considerar o terrorismo a mais importante ameaça que a humanidade defronta no plano político e internacional dos nossos dias. O terrorismo, que está a crescer no princípio do século XXI, não me canso nem me cansarei de dizer, é uma ameaça, nova na sua forma e conteúdo, e tem um imenso mundo de possibilidades e potencialidades de destruição à sua frente. O seu carácter apocalíptico explorará certamente todas estas possibilidades. Tentará encontrar os meios para matar o maior número de pessoas e perturbar pelo medo, levando à degradação das sociedades democráticas. Uma característica deste terrorismo é exactamente centrar-se ou nas democracias ou nas sociedades que vivem uma difícil transição para a democracia (...). Pode parecer essencialmente antiamericano, mas é mais anti-democrático, é contra os fundamentos e valores da nossa civilização.
O problema do terrorismo apocalíptico está muito para além da conjuntura actual (...).O seu risco maior é a conjugação da vontade destrutiva com os meios ao seu dispor. Tudo joga a favor da eficácia da sua acção, e a sua potencial perigosidade ainda está no começo, ainda está na infância. As armas ao seu dispor dar-lhe-ão os meios para passar a uma fase adulta de todo o tecido internacional. Mesmo ainda antes de falarmos em armas de destruição maciça, é preciso compreender que o 11 de Setembro se revelou que as formas de organização da sociedade contemporânea são propícias a que a acção terrorista se torne altamente eficaz. Meios de transporte de massas, rápidos e "pesados", grandes concentrações humanas nas cidades, efeitos em cadeia. Tudo favorece um alto grau de destruição. As armas químicas, biológicas e nucleares são o meio exponencial, mas, mesmo sem elas, o terrorismo já pode ser altamente mortífero.O modo desta guerra está muito longe quer do conflito militar clássico, quer da guerra de guerrilhas. É um conflito que envolve Estados, grupos, organizações criminosas, tudo numa base internacional. (...)
As redes terroristas modernas são hoje transnacionais, associam-se menos formalmente aos serviços secretos dos Estados, convivem bem com redes criminosas internacionais e andam no mercado de tudo o que sirva para infundir o terror. São tecnologicamente literatas e usam por isso todas as informações e meis técnicos para potenciar a destruição. (...)".
(PEREIRA, José Pacheco- "Terrorismo e sida não são comparáveis". In: Público. 25 de Setembro de 2003, p. 8. Sublinhado nosso).
Pela importância crescente que este tema tem no âmbito da História Geral Contemporânea apresentaremos em post futuro referências bibliográficas relevante para a sua maior compreensão.
Com as produções que se seguem completamos o objectivo traçado com este conjunto de posts. Sempre que entendermos justificar-se, traremos o tema a este blog, por forma a enriquecer o que até agora já ficou registado, assim como o que isso significa em termos de consubstanciamento reforçado da História.
Segue-se:
Papiniano Carlos
"Canção"
Na fome verde das searas roxas/passeava sorrindo Catarina./Na fome verde das searas roxas/ai a papoula cresce na campina!
Na fome roxa das searas negras/que levas, Catarina, em tua fronte?/Na fome roxa das searas negras/ai devoravam os corvos o horizonte!
Na fome negra das searas rubras/ai da papoula, ai de Catarina!/Na fome negra das searas rubras/trinta balas gritaram na campina.
Trinta balas/te mataram a fome, Catarina.
Sophia de Mello Breyner Andresen
"Catarina Eufémia"
O primeiro tema da reflexão grega é a justiça/E eu penso nesse instante em que ficaste exposta/Estavas grávida porém não recuaste/Porque a tua lição é esta: fazer frente
Pois não deste homem por ti/E não ficaste em casa a cozinhar intrigas/Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres/Nem usaste de manobra ou de calúnia/E não serviste apenas para chorar os mortos
Tinha chegado o tempo/Em que era preciso que alguém não recuasse/E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea/Eras a inocência frontal que não recua/Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante/em que morreste
E a busca da Justiça continua
José Carlos Ary dos Santos
"Não passam mais"
Em nome dos nossos braços/em nome das nossas mãos/em nome de quantos passos/deram os nossos irmãos./Em nome das ferramentas/que nos magoaram os dedos/das torturas, das tormentas/das sevícias dos degredos./Em nome daquele nome/que herdámos dos nossos pais/em nome da sua fome/dizemos: Não passam mais!
E em nome dos milénios/de prisão adicionada/em nome de tantos génios/com a voz amordaçada/em nome dos camponeses/com a terra confiscada/em nome dos Portugueses/com a carne estilhaçada/em nome daqueles nomes/escarrados nos Tribunais/dizemos que há outros nomes/que não passam nunca mais.
Em nome do que nós temos/em nome do que nós fomos/revolução que fizemos/democracia que somos/em nome da unidade/linda flor da classe operária/em nome da liberdade/flor imensa e proletária/em nome dessa vontade/de sermos todos iguais/vamos dizer a verdade/dizendo: não passam mais!
Em nome de quantos corpos/nossos filhos foram feitos./Em nome de quantos mortos/vivem nos nossos direitos./Em nome de quantos vivos/dão mais vida à nossa voz/não mais seremos cativos:/O trabalho somos nós.
Por isso tornos enxadas/canetas frezas dedais/são as nossas barricadas/que dizem: não passam mais!
E em nome das conquistas/vindas dos ventos de Abril/reforma agrária controlo/operário no meio fabril/empresas que são do Estado/porque o seu dono é o povo
em nome de lado a lado/termos feito um país novo./Em nome da nossa frente/e dos nossos ideais/diante de toda a gente/dizemos: não passam mais!
Em nome do que passámos/não deixaremos passar/o patrão que ultrapassámos/e que nos quer trespassar./E por onde a gente passa/nós passamos a palavra./Cada rua cada praça/é o chão que o povo lavra/passaremos adiante/com passo firme e seguro./O passado é já bastante/vamos passar no futuro.
José Gomes Ferreira
"Não traio"
Não traio/Porque insistes?/Não traio.
Desde criança que meu Pai me ensinou/não haver tempestade/na terra ou nos céus/que não traga/a praga/de um falso herói/salvador da Cidade./Ou a esperança de um semideus/com um raio/na Mão/que tudo destrói/para pintar depois o sol e o Chão/de outra realidade./Mas nunca encontrarás traidores/entre os que sempre como eu sonhámos combustões/de novas flores/com pétalas de asas de liberdade/que só nascem e crescem regadas pelos gritos e lágrimas/das multidões.
Povo, continua!Não páres a tua tempestade.
Continuando a apresentação supra-referenciada:
José Carlos Ary dos Santos
"Soneto escrito na morte de todos os
antifascistas assassinados pela PIDE"
Vararam-te no corpo e não na força/E não importa o nome de quem eras/naquela tarde foste apenas corça/indefesa morrendo às mãos das feras
Mas feras é demais. Apenas hienas/
tão pútridas tão fétidas tão cães/que na sombra farejam as algemas/do nome agora morto que tu tens.
Morreste às mãos da tarde mas foi cedo/Morreste por que não às mãos do medo/que a todos pôs calados e cativos
Por essa tarde havemos de vingar-te/por essa morte havemos de cantar-te:/Para nós não há mortos. Só há vivos.
Mário Dionísio
"Elegia ao companheiro morto"
Meu companheiro morreu às cinco da manhã/ Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã
Ah antes fosse noite noite apenas noite/sem a promessa da manhã
Ah antes fosse noite noite apenas noite/e não houvesse em tudo a promessa risonha da manhã
Deitado para sempre às cinco da manhã
Agora que sabia olhar os homens com força/e ver nas sombras que até aí não via a promessa risonha da manhã
Mas quem se vai interessar amigos quem
por quem só tem o sonho da manhã?
E uma vez de noite ao fim da noite mesmo ao cabo da noite/meu companheiro ficou deitado para sempre/e com a boca cerrada para sempre/e com os olhos fechados para sempre/e com as mãos cruzadas para sempre/imóvel e calado para sempre
E era quase manhã E era quase manhã
Jorge de Sena
"A cor da liberdade"
Não hei-de morrer sem saber/qual a cor da liberdade.
Eu não posso senão ser/desta terra em que nasci./Embora ao mundo pertença/e sempre a verdade vença,/qual será ser livre aqui,/não hei-de morrer sem saber.
Trocaram tudo em maldade,/é quase um crime viver./Mas, embora escondam tudo/e me queiram cego e mudo,/não hei-de morrer sem saber/qual a cor da liberdade.
Miguel Torga
"Não passarão"
Não desesperes, Mãe!/O último triunfo é interdito/Aos heróis que o não são./Lembra-te do teu grito:/Não passarão!
Não passarão!/Só mesmo se parasse o coração/Que te bate no peito./Só mesmo se pudesse haver sentido/Entre o sangue vertido/E o sonho desfeito.
Só mesmo se a raiz bebesse em logo/De traição e de crime./Só mesmo se não fosse o mundo todo/Que na tua tragédia se redime.
Não passarão!/Arde a seara, mas dum simples grão/ Nasce o trigal de novo./Morrem filhos e filhas da nação./Não morre um Povo!
Maria Teresa Horta
"Mulher-resistente"
Eram tantas as torturas.../O Chicote sobre a carne/Que o corpo te inchava/inchava/pelas vergastas cortado
Eram dias sobre noites/em que os olhos te queimaram/em que as veias te romperam/e os ouvidos te rasgaram
Eram meses sobre meses/na cela/só/isolada
Torturas quantas sofreste/minha irmã/sempre calada
Que à polícia não se fala/nem que se morra à pancada!
(Poema dedicado a Mariana Janeiro em nome de todas as mulheres que lutaram contra o fascismo).
Na obra O século XXI. Reflexões sobre o futuro, resultante de uma entrevista concedida pelo historiador a António Polito, considera o primeiro relativamente à percepção de tendências e de caminhos para o futuro por parte do historiador:
"Todos nós prevemos ou tentamos prever o futuro. Faz parte da vida e dos negócios tentar perceber o caminho que o futuro vai percorrer, enquanto nos for possível. Mas o processo de previsão do futuro deve necessariamente apoiar-se no conhecimento do passado. O que irá acontecer tem de estar ligado com o que já aconteceu, e é neste ponto que o historiador entra em cena. Sem procurar ganhar nada com isso, pois o seu trabalho não é explorar o seu conhecimento para obter algum lucro. O que o historiador pode fazer é tentar analisar que partes do passado são importantes, quais são as tendências e os problemas. Devemos então, dentro de certos limites, fazer uma tentativa de previsão, mas com a consciência de poder cair na imitação do vidente. Isto é, temos de saber que grande parte do futuro, na prática e por princípio, é totalmente imprevisível. Parece no entanto que os factos realmente imprevisíveis são os acontecimentos individuais, específicos, e que o verdadeiro problema para os historiadores é perceber a importância que estes podem vir a ter. Por vezes, a análise poderá revelá-los significativos, outras vezes, não. (...) Vemos então que os acontecimentos por vezes não têm importância para a previsão do historiador, outras vezes assumem um significado fundamental. É aqui que está o limite do esforço de previsão. (...)"
(HOBSBAWM, Eric J. - O século XXI. Reflexos sobre o futuro. Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 11-12)
Em sequência do já dito em posts anteriores sobre a por nós denominada "Poesia de Intervenção", apresentamos então, o primeiro grupo de poemas:
António Gedeão
"Enquanto"
Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio/e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé/para ver como é;/enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas/e correr pelos interstícios das pedras,/pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;/enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,/órfãs de pais e de mães,/
andarem acossadas pelas ruas/como matilhas de cães;/enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto/com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,/num silêncio de espanto/rasgado pelo grito da sereia estridente;/enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio/cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas/amassando na mesma lama de extermínio/os ossos dos homens e as treves das suas casas;/enquanto tudo isso acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,/enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,/o poeta escreverá nos muros da cidade:/ ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA.
Sidónio Muralha
"Soneto Imperfeito da caminhada perfeita"
Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas,/que possam perturbar a nossa caminhada,/em que os poetas são os próprios versos dos poemas/e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.
Ninguém fala em parar ou regressar./Ninguém teme as mordaças ou algemas./- O braço que bater há-de cansar/e os poetas são os próprios versos dos poemas.
Versos brandos...Ninguém mos peça agora./Eu já não me pertenço: Sou da hora./E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,/onde cada poema é uma bandeira desfraldada/e os poetas são os próprios versos dos poemas.
João Apolinário
"É preciso avisar..."
É preciso avisar toda a gente/dar notícias informar prevenir/que por cada flor estrangulada/há milhões de sementes a florir.
É preciso avisar toda a gente/segredar a palavra e a senha/engrossando a verdade corrente/duma força que nada detenha.
É preciso avisar toda a gente/que há fogo no meio da floresta/e que os mortos apontam em frente/o caminho da esperança que resta.
É preciso avisar toda a gente/transmitindo este morse de dores./É preciso imperioso e urgente/mais flores mais flores mais flores
A poesia foi em Portugal, como em muitos outros sítios, uma arma inequívoca e poderosíssima de actuação ou de pronunciação contra o regime ditatorial. Como o foi também a prosa, donde se destaca aquela inserida na denominada "Literatura Neo-Realista".
Por agora falemos só de poesia, chamando a atenção, em estilo de introdução, para aquela que foi alguma da produção de alguns dos nossos poetas.
O Estado Novo foi o visado. As políticas repressivas e os seus agentes, foram os alvos particulares. As condições de vida, a falta de liberdade e a luta do povo, os referenciados. O desejo de mudança, uma constante.
Porque no âmbito da História, a vertente da Cultura, reveste especial importância para a compreensão de uma totalidade mais alargada, sendo também o seu reflexo, deixamos então umas breves referências, susceptíveis de permanente complementar e enriquecimento.
Poetas e suas produções:
António Gedeão
- "Enquanto"
Sidónio Muralha
- "Soneto imperfeito da caminhada perfeita"
João Apolinário
- "É preciso avisar..."
José Carlos Ary dos Santos
- "Soneto escrito na morte de todos os antifascistas assassinados pela PIDE"
- "Não passam mais"
Mário Dionísio
- "Elegia ao companheiro morto"
Jorge de Sena
- "A cor da liberdade"
Miguel Torga
- "Não passarão"
Maria Teresa Horta
- "Mulher resistente"
Papiniano Carlos
- "Canção"
Sophia de Mello Breyner Andresen
- "Catarina Eufémia"
José Gomes Ferreira
- "Não trairei"
De todos estes poemas faremos reprodução em post posterior.
Olavo de Carvalho, pensador brasileiro, escreveu a 16 de Agosto deste ano um artigo para o jornal Globo intitulado "A História segundo Godot". Neste texto, apresenta a sua ideia relativamente à forma como os intelectuais com formação marxista analisam a realidade, logo, o processo histórico que se constrói diariamente, incidindo particularmente, e a este propósito, na questão da vivência e interpretação do Tempo.
Deste artigo apresentamos aqui o seguinte excerto:
"Entre intelectuais de formação marxista, é endêmica a dificuldade de raciocinar desde os fatos, desde a experiência direta, sem o apelo a todo um esquadrão de premissas dogmáticas, de pressupostos indeclarados, cujo poder de validar conclusões depende por inteiro da cumplicidade de um público linguisticamente intoxicado. A fé comum, a rede de crenças semiconscientes cristalizada num extenso rol de cacoetes verbais coletivos, tem o dom de infundir credibilidade em afirmativas que, examinadas com um pouquinho, só um pouquinho de senso crítico, se revelam absolutamente insustentáveis.
A expressão "capitalismo tardio", por exemplo, é usada a torto e a direito para dar a entender algo que se toma por abundantemente conhecido e demonstrado. Acabo de relê-la, pela milionésima vez, na entrevista de Roberto Schwarz à revista Cult, onde ele a repete com a mesma candura bisonha de gerações e gerações de marxistas. A referência cronológica do adjectivo é claramente absurda. Ela dá a entender que o capitalismo tem um prazo fixo de existência histórica, já vencido, sendo toda a existência posterior desse sistema um acidente protelatório que, no fundo, não altera em nada o cronograma infalível da profecia socialista. Em quase metade do planeta, o que acabou foi o socialismo, enquanto o capitalismo continua se expandindo, indiferente às profecias. Mas basta pronunciar a jaculatória "capitalismo tardio", e num instante as doses respectivas de realidade e fantasia se invertem: os fatos tornam-se evanescentes, a hipótese messiânica adquire a presença real, física, de um fato consumado. É um ritual de magia teúrgica, a evocação de uma miragem que, pelo poder da fé, se torna mais real do que o mundo presente. (...).
Mais que um ato de fé, é um distúrbio psicótico da percepção de tempo. (...) Na historiografia marxista (...) [é a] época do socialismo, que, encarregada de personificar a meta a que conduzem as épocas anteriores, se investe, por impregnação semântica, dos outros dois atributos da eternidade: torna-se a chave da cronologia e o ponto fixo por cima de todos os tempos, o supra-fato permanente do qual os fatos da História são meras aparências ou camuflagens provisórias.
A psicose marxista faz de um futuro conjetural a suprema realidade incumbida não só de medir o avanço dos tempos, mas de conferir ou negar realidade a cada um conforme se aproxime ou se afaste da expectativa projetada para além deles. O futuro deixa de ser contingente, tornando-se necessário, enquanto o passado deixa de ser fato irreversível para tornar-se hipótese contingente que o futuro há de validar ou impugnar, não quando e se esse futuro vier a se realizar, mas desde já. Embora nenhum teórico socialista possa dizer quando o tal socialismo virá a imperar no mundo, a duração maior ou menor do capitalismo é antecipadamente medida na escala do esperado advento do seu sucessor, o Godot da cronologia histórica, transfigurado em papel-título do "Exterminador do Futuro" (...)".
O artigo completo pode ser lido em:
Só um pequeno apontamento para chamar a atenção que nos encontramos em fase de pesquisa e recolha de alguns poemas "de intervenção" onde os seus autores procuram expressar as consequências da vivência da Ditadura nos indivíduos (em Portugal).
Na sequência deste nosso trabalho serão divulgados alguns nomes e títulos dos poemas respectivos.
Se eventualmente tiverem contributos a dar sobre esta matéria o espaço "Comentários" está à disposição.
Já agora: como tenho sido contactada por amigos do Brasil, que dêem também o seu contributo referenciando a realidade do seu país nesta área.
No âmbito de um Seminário intitulado "Para a história da oposição ao Estado Novo", realizado na Universidade Nova de Lisboa a 9 de Abril de 1992, apresenta Álvaro Cunhal, as seguintes ideias referentes à actuação do PCP nos tempos de Ditadura:
"Não é exacta a ideia por vezes avançada de que o PCP nos anos sombrios de clandestinidade se caracterizava por ser um núcleo político fechado, mergulhado numa existência conspirativa e secreta, afastado da vida, do povo, das massas. Tal ideia não corresponde à realidade.
Sem dúvida que, durante os 48 anos de ditadura, o PCP foi a força política que, pelos métodos de organização e acção adoptados, se revelou mais capaz de actuar nas condições de uma severa clandestinidade. Mas, ao mesmo tempo, mais que nenhuma outra força política estabeleceu, manteve e aprofundou nesses anos a ligação com a classe operária, com o povo, com a vida social, política e cultural do país. Quem esteja interessado em investigar esta matéria, encontra valiosos elementos informativos nos jornais clandestinos publicados regularmente (nomeadamente o "Avante!", "O Militante", "O Têxtil", "O Corticeiro", "O Camponês", "A Terra" e outros) e poderá tomar contacto com uma informação viva de situações, de problemas e de lutas mostrando essa profunda ligação. Ligação diária, ligação constante. (...)
O PCP (...), como meio indispensável para chegar às massas, informá-las, influenciá-las, esclarece-las, estimulá-las, organizá-las para a luta, não só aproveitava as possibilidades de acção legal e semi-legal que se pudessem oferecer, como tomava a iniciativa de criá-las. (...). De sublinhar, em relação com este aspecto específico da luta antifascista, o papel dos intelectuais (escritores, artistas plásticos, músicos, cantores, actores, professores) não só participando nas formas gerais de luta antifascista, mas dando também uma ímpar contribuição para a cultura e a defesa de valores democráticos com a sua obra específica.
A íntima ligação com a classe operária, os trabalhadores em geral, os intelectuais, a juventude, e o aproveitamento ou criação de formas de organização legal e semi-legal, eram indissociáveis de uma concepção fundamental do PCP: que a luta popular de massas constituia uma frente de luta determinante e um motor do desenvolvimento do processo que conduziria à revolução antifascista.
A luta do PCP contra a ditadura não se resumia ao desmascaramento da política fascista e ao protesto contra ela. A luta foi conduzida de forma a suscitar, promover e organizar a luta popular com objectivos concretos e imediatos. (...)
Será uma inadvertência de qualquer estudioso da resistência antifascista dar menos atenção e menosprezar o que foram e o que significaram as lutas de massas no tempo da ditadura. Apesar das perseguições e da repressão fascista, a história da resistência é uma história de greves, de manifestações, de concentrações, de campanhas políticas, em muitos casos de extraordinária amplitude, grandeza, nível de organização e heroísmo, que não só constituiram uma demonstração de elevada consciência e combatividade do povo português (com particular relevo da classe operária, dos intelectuais e da juventude), não só incapacitaram o fascismo de criar uma verdadeira base de massas, como constituiram uma valiosíssima escola que acabou por conduzir o regime ao progressivo isolamento e o povo a objectivos gerais de liberdade que vieram a ter exaltante expressão no levantamento popular que se seguiu imediatamente ao levantamento militar do 25 de Abril e ao derrubamento do governo fascista e que, em aliança com os militares do MFA, acabou por determinar as grandes transformações democráticas então verificadas e a instauração e institucionalização do regime democrático. (...)".
(CUNHAL, Álvaro- "O Partido Comunista da "reorganização" dos anos 40 ao 25 de Abril". In: Alguns textos para a história do Partido Comunista Português. Para furar o bloqueio do pensamento único. Amadora: Edição da Comissão Concelhia da Amadora do PCP, 2003, p. 41-44. Sublinhado nosso).
Pelo facto da comunicação proferida pelo ex-Secretário Geral do PCP se revestir de elevado nível de interesse na abordagem que faz a questões diversificadas no âmbito daquele que é o tema global em análise, outros excertos serão aqui apresentados, não necessariamente de acordo com a ordem do discurso- porque isso não é relevante para os objectivos que pretendemos atingir-, mas conforme nos parecer mais conveniente para o que entendermos chamar a atenção.
Desenvolvendo uma análise dos tempos que estamos a viver, e que fazem parte de um percurso histórico que está (tem estado) a decorrer, Mário Soares escreve o seguinte no "Prefácio" à obra A incerteza dos tempos, resultante de uma entrevista conduzida por Mário Bettencout Resendes (e já neste blog referenciada):
" (...) A luta contra o terrorismo global- para ser ganha, como é necessário- não pode ser dissociada da luta contra a pobreza, em favor da Justiça, dos Direitos Humanos e da Paz. A violência, em todos os seus aspectos, alimenta o terrorismo. Como a "globalização depredadora", uma vez que o chamado "dinheiro sujo" necessita das especulações financeiras e das "economias de casino", para que grupos suspeitíssimos possam "lavar o dinheiro" e depois o remetam nos circuitos normais. O terrorismo islâmico, como parece estar provado, também aproveita desse tipo de situação. Haverá alguém com a vontade e a coragem para investigar tudo isso a sério? Mais tarde ou mais cedo, terá que acontecer, sob pena de a perversão especulativa do capitalismo se agravar, descredibilizando em absoluto o sistema.
Uma das consequências da globalização sem ética em que nos encontramos é a lenta deteriorização dos sistemas democráticos a que também estamos a assistir. (...)
Depois do colapso do comunismo, no Ocidente tornou-se moda pensar que as revoluções sociais são fenómenos do passado. Mas nada nos prova que seja assim. As gritantes injustiças do mundo alimentam necessariamente sentimentos de revolta, que começam a manifestar-se por toda a parte. Espontânea e desordenadamente. É um fenómeno novo, característico do novo século, que a Internet, por enquanto, estimula: o sentimento da cidadania global.
É preciso, por isso, ter a coragem intelectual de afirmar que é possível construir um Mundo diferente e reclamar uma globalização alternativa, baseada em regras éticas e regulamentada no plano internacional. Por outro lado, há que compreender que a violência não serve a causa generosa da luta por um Mundo melhor e mais humano: compromete-a. Contra sociedades abertas e, por enquanto, democráticas nos seus fundamentos jurídicos- e nas mentalidades- as armas da razão, da denúncia da injustiça e da persuação- pela palavra, pela escrita e pela manifestação pacífica, no caminho que nos foi mostrado por homens como Gandhi e Martin Luther King- são as mais eficazes, desde que utilizadas com inteligência e sentido de responsabilidade. (...)".
(SOARES, Mário- A incerteza dos tempos. Entrevista de Mário Bettencourt Resendes. Lisboa: Notícias Editorial, 2003, p. 22-24).
Após a leitura deste excerto chamamos a atenção para a retenção dos seguintes conceitos, fundamentais em História Contemporânea:
- Terrorismo (Islâmico)
- Globalização
- Democracia
- Direitos Humanos
- Cidadania Global
- Regulamentação Internacional
No passado dia 10 deste mês editamos um post referindo (ou fazendo lembrança) do 30º aniversário do Golpe de Estado Chileno.
Saido recentemente para o mercado, através das Edições Asa, mais um livro de Luis Sepúlveda. Desta vez, O general e o juíz, precisamente a propósito do aniversário salientado.
Com esta obra (92 páginas) encontramo-nos perante um conjunto de textos escritos entre 1998 e 2000, para diversos jornais da Europa e da América Latina, que permitem precisamente recordar acontecimentos, interpretar e reler a História. Permitem também, e nessa sequência, problematizar bastante, em particular, o papel dos EUA neste mesmo processo histórico.
Recorde-se que no ido ano de 1998 Augusto Pinochet, por ordem do juiz espanhol Baltazar Garzón, foi preso em Inglaterra. Todo o processo terminou com a conclusão relativa ao estado de loucura do antigo ditador e com a sua entrega às autoridades chilenas.
Por entendermos valer a pena, deixamos aqui algumas ideias registadas por Luis Sepúlveda no capítulo da obra em referência, intitulado "Jornadas de luta":
" (...) Pinochet, a direita chilena e o Departamento de Estado norte-americano dirigido por Henry Kissinger forneceram a maldade, a tortura, os desaparecimentos, o exílio, a morte. Nós fornecemos a coragem e as vítimas.
Foi longa a luta no Chile e no exílio. Os camaradas da resistência interna não lhes deram um único dia de descanso. Enquanto os pusilânimes dirigentes negociavam uma espécie de novo modelo inspirado no Leopardo, onde tudo devia mudar para que tudo continuasse na mesma, os resistentes socialistas, comunistas, do MIR, da Frente Patriótica Manuel Rodríguez, os cristãos pelo socialismo encarregaram-se de recordar ao ditador, durante dezasseis anos, que enfrentava uma dignidade inspirada no Conde de Monte Cristo e cujo lema "Nem esquecimento nem perdão" seria seguido e mantido, não obstante os esforços claudicantes daqueles que negociavam um possível regresso à normalidade democrática, regresso que o ditador só aceitou quando, apesar dos assassinatos e desaparecimentos sistemáticos, se encontrou num estado de debilidade face a um povo que resistia. (...)"
Por considerar o papel interveniente que o escritor deve ter, Sepúlveda dá mais um contributo através da sua escrita, para o não esquecimento ou para o não desprezo pela memória e branqueamento da História.
Por isso e só por isso, deve ser incluido na galeria de todos aqueles que utilizam a Literatura como arma, como tradução do inconformismo e como impulso para a mudança.
Disto precisa bastante a História para poder continuar a fazer o seu percurso e para alcançar efectivo sentido.
Não poderia por nós deixar de ser referida esta publicação, pela importância que o conteúdo da mesma permite acrescentar à História Contemporânea de Portugal, assim como pelo que possibilita esclarecer relativamente ao papel crucial dos arquivos e, consequente manuseamento da documentação:
Arquivos de Mitrokhin. Lisboa: Dom Quixote, 2000.
Com prefácio à edição portuguesa feito por Pacheco Pereira, retiremos alguns excertos relativos especificamente a Portugal, naquilo que teve a ver com os arquivos da PIDE/DGS :
"Portugal ocupa uma pequena parte no arquivo de Mitrokhin e quase toda centrada nos acontecimentos de 1974-5. (...)
[No âmbito de operações soviéticas verificadas em Portugal]... avulta o envio, em 1975, para Moscovo de uma parte significativa do arquivo da PIDE/DGS. (...) Para compreendermos a importância deste envio de documentos (...) temos de ter em conta que o âmbito de acção da PIDE/DGS era incomum nas polícias dos países fora da esfera soviética e muito semelhante ao do próprio KGB. A PIDE era uma polícia com funções instrutórias, com controlo de fronteiras, com controlo de actividades paramilitares. Era a interlocutora portuguesa de muitas outras polícias diferenciadas e serviços de informação estrangeiros. Era igualmente uma polícia política de um pais da OTAN (...)
Entre o material que receberam conta-se, sem dúvida, tudo o que diz respeito às relações da PIDE com os serviços de informação ocidentais, em particular a CIA, o FBI, os serviços ingleses e espanhóis, sul-africanos, rodesianos. Embora a PIDE/DGS não recebesse informação do mais alto grau, a não ser numa estrita "necessidade de saber", e mesmo assim muitas vezes na base de contactos pessoais com agentes determinados, recebia relatórios de síntese e pedidos de informação que revelavam os conhecimentos e os interesses dos serviços ocidentais. Para o KGB iria ser precioso.
É preciso não esquecer que em 1975 os arquivos da PIDE não eram arquivos "mortos" com interesse apenas para os historiadores, mas sim arquivos com grande potencial operacional que permitiam tudo: desmascarar informadores, identificar infiltrações, fazer chantagem, etc, etc. (...)".
O próximo post incidirá sobre o papel do Partido Comunista Português, de acordo com o prefaciador, em todo este cenário de operações soviéticas nos anos de 1974-1975.
Dando sequência ao primeiro posts com este título apresentado, registamos agora, como estipulado, as obras salientadas por António Ventura, e das quais acrescenta excerto, para cada um dos individuos recordados ou referenciados:
Acácio Tomás de Aquino
Obra: O segredo das prisões atlânticas. Lisboa: A Regra do Jogo, 1978
Adelino da Palma Carlos
Obra: Um só rosto. Uma só fé. Conversas com Adelino da Palma Carlos (Autoria de Helena Sanches Osório). Lisboa: Edições Referendo, 1988.
Aida Paula
Obra: Com a certeza de quem quer vencer. Lisboa: Edições Sociais. Col. Episódios da Resistência Antifascista contados por quantos a viveram. Nº 4, 1974.
Alberto Vilaça
Obra: De memória em punho. Histórias que Abril soltou. Coimbra: Minerva, 1992.
Alexandre Babo
Obra: Recordações de um caminheiro. Fundão: Jornal do Fundão, 1984.
Alexandre Cabral
Obra: Memórias de um resistente. Porto: Editorial Inova, 1970.
Alexandre Fernandes Vieira
Obra: Em volta da minha profissão. Subsídios para a história do movimento operário no Portugal continental. Lisboa: Edições do Autor, 1950.
Álvaro Cunhal
Obra: O caminho para o derrubamento do fascismo. Lisboa: Edições Avante! Cadernos de História do PCP, 1997.
António Alçada Baptista
Obra: A pesca à linha. Algumas memórias. Lisboa: Editorial Presença, 1998.
António Alexandre Tereso
Obra: Fuga de Caxias no carro blindado do Salazar. Lisboa: Edições Sociais. Col. Episódios da Resistência Antifascista contados por quantos os viveram. Nº 3, s.d.
António Macedo
Obra: Na outra margem de Abril. Pequenas histórias de grandes homens. Lisboa: Cadernos O Jornal, 1988.
António Modesto Navarro
Obra: Prisão e isolamento em Caxias. Uma breve experiência. Lisboa: Ed. N.A, 1974.
António Neves Anacleto
Obra: A longa luta. Preso, algemado e deportado. Lisboa: Ed. do Autor, s.d.
António Simões de Abreu
Obra: A raiva de Salazar contra a unidade democrática representada por Humberto Delgado e outros episódios por mim vividos em 32 anos de luta antifascista. Lisboa: Edições Sociais, Episódios da Resistência Antifascista Vividos por Quantos a Viveram. Nº 6, 1975.
Armindo Rodrigues
Obra: Um poeta recorda-se. Memórias de uma vida. Lisboa: Cosmos, 1998.
Bento Gonçalves
Obra: Duas Palavras. Edições Cinquentenário do PCP, 1971.
Cândida Margarida Ventura
Obra: O socialismo que eu vivi. Testemunho de uma ex-dirigente do PCP. Lisboa: O Jornal, 1984.
Cândido de Oliveira
Obra: Tarrafal, o pântano da morte. Lisboa: Editorial República, 1974.
Carlos Brito
Obra: Tempo de subversão. Páginas vividas da resistência. Lisboa: Edições Avante!. Col. Resistência, 1998.
Carlos de Almeida
Obra: Nos cáceres do fascismo. Notas. Escritos. Reflexões. Coimbra: Atlântida Editora, 1974.
Celso Cruzeiro
Obra: Coimbra, 1969. Porto: Edições Afrontamento, 1989.
César Oliveira
Obra: Os anos decisivos. Portugal 1962-1985. Um testemunho. Lisboa: Editorial Presença, 1993.
Correia Pires
Obra: Memórias de um prisioneiro do Tarrafal. Lisboa: Edições déagá, 1975.
Cunha Leal
Obra: Coisas dos tempos idos. As minhas memórias. Arrastado pelo tufão. De 28 de Maio de 1926 a 4 de Dezembro de 1930. Lisboa: Edição do Autor, 1968.
Domingos Fernandes de Carvalho
Obra: Luta de corticeiros. Lisboa: Edições Sociais. Col. Episódios da Resistência Antifascista contados por quantos a viveram, 1975.
Edmundo Pedro
Obra: 45 anos de luta pela democracia sindical. Reflexões de um militante. Lisboa: Fundação José Fontana, 1979.
Emídio Santana
Obra: Tempos de luta, de adversidade e de esperança. Memórias de um militante anarco-sindicalista. Lisboa: P&R, s.d.
Fernando de Brito Mateus
Obra: Há sempre alguém que resiste... Cova da Piedade. Edição da Junta de Freguesia da Cova da Piedade, 2001.
Fernando Gusmão
Obra: A fala da memória. Lisboa: Escritor. 1993.
Fernando Miguel Bernardes
Obra: Escrito na cela. Lisboa: Edições Avante!. Col. Resistência. Nº 13, 1982.
Fernando Mouga
Obra: Janela da Memória (gente, bichos, factos e outras coisas que tecem a vida e á vida chegaram nas voltas do mundo). V.N Famalicão: Ed. do Autor, 1996.
Fernando Queiroga
Obra: Portugal oprimido. Subsídios para a história do fascismo em Portugal. Lisboa: Editorial O Século, 1974.
Francisco Ferreira
Obra: 26 amos na União Soviética. Notas de exílio do Chico da CUF. Lisboa: Fernando Ribeiro de Mello/Edições Afrodite, 1976.
Francisco Horta Catarino
Obra: Falando do reviralho. Lisboa: Edições do Autor, 1978.
Francisco Miguel
Obra: Uma vida na revolução. Porto: A Opinião, 1977.
Garcez da Silva
Obra: Alves Redol e o grupo neo-realista de Vila Franca. Lisboa: Ed. Caminho, 1990.
Gilberto de Oliveira
Obra: Memória viva do Tarrafal. Lisboa: Edições Avante!, 1987.
Henrique de Barros
Obra: Quase um século... memórias sintéticas. Lisboa: Gradiva, 1991.
Henrique Galvão
Obra: Crónica das horas vazias. Lisboa: Livraria Popular de Francisco Franco, s.d.
Hipólito Raposo
Obra: Folhas do meu cadastro (1926-1952). Lisboa: Comissão do Centenário de Hipólito Raposo, 1986.
Humberto Delgado
Obra: Memórias. Lisboa: Edições Delfos. Col. Compasso do Tempo, Nº 18, 1974.
Jacinto Baptista
Obra: Caminhos para uma revolução. Lisboa: Bertrand, 1975.
Jaime Serra
Obra: Eles têm o direito de saber. Páginas da luta clandestina. Lisboa: Edições Avante!. Col. Resistência, 1997.
João Faria Borda
Obra: A revolta dos marinheiros. Lisboa: Edições Sociais. Col. Episódios da Resistência Antifascista Contados por Quantos a Viveram, 1974.
João Honrado
Obra: Falando Alentejo. Beja. Ed. da AMDB, 1999.
João Medina
Artigo: "O meu 25 de Abril". In: História de Portugal. Vol. XIV (dir. João Medina). Lisboa: Ediclube, 1993.
João Sarmento Pimentel
Obra: Memórias do capitão. Porto: Editorial Inova, 1974.
João Varela Gomes
Obra: Tempo de resistência. Lisboa: Ler Editora, 1980.
Joaquim Campino
Obra: Histórias clandestinas. Lisboa: Col. Resistência, 1990.
Joaquim Gomes
Obra: Estórias e emoções de uma vida de luta. Edições Avante!. Col. Resistência, 2001.
Joaquim Pires Jorge
Obra: Com uma imensa alegria. Notas autobiográficas. Lisboa: Edições avante!. Col. Resistência, 1984.
Joaquim Ribeiro
Obra: No tarrafal prisioneiro. Porto: A Opinião. Col. Depoimentos. Nº 2, 1976.
João Augusto França
Obra: Memórias para o ano 2000. Lisboa: Livros Horizonte, 2000.
José Francisco
Obra: Episódios da minha vida familiar e de militante confederal. Lisboa: Edições Sementeira, 1982.
José Gomes Ferreira
Obra: Revolução necessária. Lisboa: Diabril, 1975.
José Jorge Letria
Obra: Uma noite fez-se Abril. Lisboa: Hugin Editores, 1999.
José Magalhães Godinho
Obra: Pela liberdade. Lisboa: Alfa. Col. Testemunhos Contemporâneos, 1990.
José Magro
Obra: Cartas da prisão. Vida prisional. Lisboa: Edições Avante!. Col. Resistência, 1975.
José Manuel Tengarrinha
Obra: Combates pela democracia. Lisboa: Seara Nova. Col. Que País? Nº 9, 1976.
José Régio
Obra: Páginas do diário íntimo. Lisboa: Círculo de Leitores, 1994.
José dos Reis Sequeira
Obra: Relembrando e comentando (memórias de um operário corticeiro) 1914-1938. Lisboa: A Regra do Jogo, 1978.
José Ribeiro dos Santos
Obra: Memórias da memória. Lisboa: Edições Rolim, 1986.
José Rodrigues Miguéis
Obra: Aforismos e desaforismos de Aparício. Lisboa: Editorial Estampa, 1996.
José Silva
Obra: Memórias de um operário. 2º vol. Porto, 1971.
Kalidás Barreto
Obra: Subsídios para a história do movimento operário em Castalheira de Pêra. Porto: Umbertipo, 1983.
Lino de Carvalho
Obra: 1969. Um marco no caminho para a liberdade. Lisboa: Edições Avante!. Col. Resistência, 2000.
Lino Lima
Obra: Romanceiro do povo miúdo. Memórias e confissões. Lisboa: Edições Avante!. Col. Resistência, 1991.
Lino Santos Coelho
Obra: Memórias de um rebelde. Testemunhos do terror fascista. Lisboa: Editor em Marcha, 1981.
Luís Calafate
Obra: A liberdade tem um preço. Póvoa do Varzim: Edição do Autor, 1975.
Manuel Barbosa
Obra: Luta pela democracia nos Açores. Coimbra: Centelha, 1978.
Manuel da Costa e Melo
Obra: Memórias Cívicas 1913-1983. Coimbra: Almedina, 1988.
Manuel Firmo
Obra: Nas trevas da longa noite. Da Guerra Civil de Espanha ao Campo do Tarrafal. Lisboa: Publicações Europa-América, 1978.
Manuel Francisco Rodrigues
Obra: Tarrafal, aldeia da morte. O diário da B5. Porto: Brasília Editora, s.d.
Manuel Guedes
Obra: El paseo. Memórias dum preso político português na cadeia de Cáceres, durante a Guerra Civil de Espanha. Lisboa: Edições Sociais. Col. Episódios da Resistência Antifascista Contados por Quantos a Viveram. Nº 7, s.d.
Manuel Joaquim de Sousa
Obra: Últimos tempos de acção sindical livre e do anarquismo militante. Lisboa: Antígona, 1989.
Manuel da Silva
Obra: 30 anos de vida e de luta na clandestinidade. Lisboa: Edições Avante!. Col. Resistência, 1996.
Manuel Rodrigues Lapa
Obra: As minhas razões. Memórias de um idealista que quis endireitar o mundo. Coimbra: Coimbra Editora, 1983.
Manuela Câncio Reis
Obra: Eles vieram de madrugada. Cartas para a clandestinidade a Soeiro Pereira Gomes. Lisboa: Editorial Caminho, 1981.
Mário Dionísio
Obra: Autobiografia. Lisboa: O Jornal, 1987.
Mário Pais de Oliveira
Obra: Cartas da prisão. Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1975.
Mário Sacramento
Obra: Diário. Porto: Editorial Limiar, Obras de Mário Sacramento 1, 1975.
Mário Soares
Obra: Portugal amordaçado. Lisboa: Arcádia, 1974.
Mateus da Silva Gregório
Obra: Caderno dum resistente. Portimão: Edição do Autor, 1992.
Miguel Wager Russell
Obra: Recordações dos anos difíceis. Lisboa: Edições Avante!, 1976.
Miguel Torga
Obra: Diário XI. Coimbra: Edição do Autor, 1973.
Norton de Matos
Obra: Mais quatro meses da minha candidatura à presidência da república. Porto: Edição do Autor, 1949.
Orlando Gonçalves
Obra: Diário de um encarcerado. Os últimos dias do fascismo. Amadora: NA- Orion, 1974.
Pedro Rocha
Obra: Escrito com paixão. Lisboa: Editorial Caminho. Col. Nosso Mundo, 1991.
Pedro Soares
Obra: Tarrafal, campo da morte lenta. Lisboa: Edições Avante!. Col. Resistência, 1975.
Policarpo Marcelino Gonçalves
Obra: Alguns apontamentos sobre as recordações da minha vida. Pernes: Edição do Autor, 1997.
Raimundo Pedro
Obra: ARA. Acção revolucionária armada. história secreta do braço arnado do PCP. Lisboa: Publicações D. Quixote. Col. Caminhos da Memória, 2000.
Raul Rego
Obra: Diário político. Lisboa: Edição do Autor, s.d.
Rui Perdigão
Obra: O PCP visto por dentro e por fora. Lisboa: Fragmentos, 1988.
Sá Cardoso
Obra: Memórias duma época e apontamentos políticos. Lisboa: Edição do Autor, 1973.
Sérgio Ribeiro
Obra: ... Porque vivi e quero contar. Lisboa: Prelo Editora/Editorial Estampa, 1983.
Silva Marques
Obra: Relatos da clandestinidade- o PCP visto por dentro. Lisboa: Edições Jornal Expresso, 1976.
Sottomayor Cardia
Obra: O dilema da política portuguesa. Lisboa: Prelo, 1971.
Vasco da Gama Fernandes
Obra: Depoimento inacabado. Lisboa: Edições Europa-América, 1975.
Vergílio Ferreira
Obra: Contra-Corrente 1 (1969-1976). Lisboa: Livraria Bertrand, 1980.
Virgínia Moura
Obra: Mulher de Abril. Álbum de memórias. Lisboa: Edições Avante!, 1966.
Extraída dos Estudos sobre o Comunismo , de José Pacheco Pereira, a informação relativa à realização de um colóquio nos próximos dias 21 e 22 de Novembro de 2003 no Anfiteatro III da Faculdade de Letras de Lisboa , subordinado ao tema "Estaline em Portugal":
Nota introdutória
"Quem poderia supor que aquele georgiano, nascido a 21 de Dezembro de 1879 em Gori, filho de um sapateiro, que entrou em 1888 para o seminário de Tiflis- expulso no ano seguinte- seria uma das figuras mais controversas do século XX? Joseph Vissarionovitch Djugashvilli era este o seu nome verdadeiro [mas] tornar-se-á conhecido com o nome de guerra de Estaline.
Sucessor de Lenine, dirigirá a URSS até à sua morte, a 5 de Março de 1953. Com o seu desaparecimento terminou uma época para a URSS e para o mundo. Raros políticos terão suscitado sentimentos tão desencontrados. Idolatrado por milhões, chamaram-lhe "pai dos povos" e "guia dos trabalhadores de todo o mundo".
Construiu, sem olhar a meios, uma grande potência á escala mundial. Poetas, escritores e pintores dedicaram-lhe obras que ficaram célebres. Para outros, Estaline foi um homem ambicioso que não olhou a meios para atingir os fins, eliminando impiedosamente os adversários, aliando-se com Hitler, numa espiral de crueldade que só foi denunciada publicamente durante o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Libertador dos oprimidos. Czar vermelho. Homem de aço. Monstro. Amado. Odiado. É, certamente, uma figura aliciante para o historiador...
O Centro de História da Universidade de Lisboa vai realizar um colóquio, nos próximos dias 21 e 22 de Novembro do corrente ano de 2003, quando se assinalam os 50 anos da morte de José Estaline. Nele participarão especialistas de diversas áreas e formações, constituindo um leque plural, com o objectivo de reflectir sobre as repercussões em Portugal de José Estaline o homem, o mito, o político nos mais diversos campos".
Informações
Centro de História da Universidade de Lisboa
Alameda da Universidade, 1600-214 Lisboa
centro.historia@mail.fl.ul.pt
antonioventura@mail.telepac.pt
A entrada é livre
Programa
21 de Novembro de 2003
9.15
Intervenções iniciais
João Medina, Director do Centro de História da Universidade de Lisboa
António Ventura, responsável pelo colóquio
9.30- Estaline- "mais que Deus!"
(culto e influência de Estaline em Portugal)
José Pacheco Pereira
Historiador, Deputado ao Parlamento Europeu
10.15- A argumentação anarquista contra o estalinismo
João Freire
Instituto Superior do Trabalho e da Empresa
11.00-11.15- Pausa
11.15- A matriz de Estaline nas organizações do PCP
João Madeira
Doutorando da FCSH/UNL
12.00- Debate
15.00- Estaline e o estalinismo no movimento comunista em Portugal após o XX Congresso do PCUS (1956-1974): uma visão de conjunto
Fernando Rosas
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa
15.45- A pedra de toque: Estaline no pós-25 de Abril
António Ventura
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
16.30-16.45- Pausa
16.45- Os operários não têm Pátria. A Nação de Estaline a Cunhal
José Neves
Doutorando do ISCTE
17.30- Debate
22 de Novembro de 2003
9.30- Reflexos do estalinismo nas Artes Plásticas em Portugal
Rui Mário Gonçalves
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
10.15- Um estalinismo de sinal menos
Alberto Vilaça
Advogado e Investigador
11.30-11.45- Pausa
11.45- A Arte como Cultura: a "engenharia de almas"
António Pedro Pita
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
12.30- Debate
12.45- Sessão de encerramento
No âmbito da sua colaboração na revista História, António Ventura, professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tem apresentado várias sínteses incidindo sobre figuras que, por um ou outro motivo, se destacaram na História de Portugal. De alguns desses trabalhos deixamos aqui registo, assim como o número e data da publicação a que correspondem. Para além disso as pequenas introduções elaboradas pelo próprio autor:
- "As viagens de Humberto da Cruz". História. Nº 45, Maio 2002, p. 66-67.
"Nas dácadas de dez e de vinte do século passado tiveram lugar algumas viagens aéreas que proporcionaram o aparecimento de um novo tipo de herói. Depois dos grandes descobridores, depois dos exploradores do século XIX, era agora o tempo dos aviadores, que percorriam com as suas máquinas distâncias nunca antes imaginadas".
- "Cunha Belém: Quinze dias na Holanda". História. Nº 46, Junho 2002, p. 66-67.
"Os livros de viagens podem ser, simultaneamente, excelentes livros de memórias, só que o tempo aqui é curto, por vezes muito curto. É o caso de Quinze Dias na Holanda, publicado em 1884 por Cunha Belém".
- "No II centenário do nascimento de Luz Soriano". História. Nº 49, Outubro 2002, p. 66-67.
"Comemorou-se- discretamente, para não dizer no mais completo silêncio...- no passado dia 8 de Setembro, o segundo centenário do nascimento de Simão José da Luz Soriano, referência obrigatória para quem queira estudar a primeira metade do nosso século XIX".
- "Tomás da Fonseca um Apóstolo Laico". História. Nº 51, Dezembro 2002, p. 66-67.
"Fazia lembrar Tolstoi. As longas barbas brancas, o amor pela terra e pelas coisas simples. Natural de Laceiras, Mortágua, onde nasceu a 10 de Março de 1877, José Tomás da Fonseca manteve sempre uma grande e profunda ligação à sua terra: "farto de conhecer homens e coisas, resolvi regressar à pequenina aldeia montesinha, onde encontrei ainda o lar que me viu nascer" (Agiologio Rústico, 1957)".
- "Evocação de Brito Aranha". História. Nº 53, Fevereiro 2003, p. 68-69.
"Evocação de um jornalista autodidacta, que obteve com o esforço próprio aquilo que não conseguiu aprender na escola. À data da sua morte, em 1914, era o decano dos jornalistas portugueses e redactor principal do Diário de Notícias".
- "As memórias de Brito Aranha". História. Nº 54, Março 2003, p. 66-67.
"Prosseguindo a evocação do jornalista Brito Aranha, falamos este mês sobre o seu livro de memórias Factos e homens do meu tempo, publicado em 1907 e 1908, uma obra de grande utilidade para quem pretender estudar o ambiente cultural português naquela época".
- "Um integralista da primeira geração". História. Nº 55, Abril 2003, p. 66-67.
"Pires de Lima da Fonseca testemunhou o processo de gestação e de lançamento do Integralismo Lusitano".
- "Jorge de Abreu nas fileiras jornalísticas". História. Nº 57, Junho 2003, p. 66-67.
"A vida nas redacções, os personagens peculiares que as frequentavam, a capacidade "inventiva" dos jornalistas... As memórias de um profissional com "30 anos de serviço nas fileiras".
- "Júlio Brandão ou as sombras que desfilam". História. Nº 58, Julho/Agosto 2003, p. 68-69.
"O nome de Júlio Brandão pouco ou nada dirá ao leitor de hoje. No entanto, ele teve, no seu tempo, uma grande popularidade como poeta e como prosador".
- "Júlio Brandão, narrador da pequena história". História. Nº 59, Setembro 2003, p. 66-67.
"Nesta segunda parte do artigo sobre Júlio Brandão, passamos em revista as pequenas histórias e apontamentos sobre autores e locais lembrados em Recordações dum velho Poeta".
Salientamos que dos textos futuramente publicados pelo historiador fazemos aqui registo.
Sob a direcção de Guy Richard com as autorias de Jean-Jacques Cleyet-Mercle (Conservador do Museu Nacional de Pré-História de Eyzies), Zakari Dramani-Issifou (Doutor em História), Jean-Pierre Fichou (Catedrático em Línguas Vivas estrangeiras na Universidade de Caen), Bernard Fouques (Catedrático de Espanhol, na Universidade de Caen), Jean Labesse (Professor agregado), Henry Laurens (Director adjunto no Centro de História do Islão contemporâneo da Universidade de Paris-Sornone), Jean-Louis Margolin (Catedrático de História Contemporânea na Universidade de Estrasburgo II) e novamente de Guy Richard (Catedrático na Universidade de Cen, entre 1967 e 1990), a obra A história inumana. Massacres e genocídios das origens aos nossos dias, editada pelo Instituto Piaget, no âmbito da Colecção "História e Biografias", dá-nos uma perspectiva por demais ampla da concretização daquele tipo de actuações desde os tempos pré-históricos.
Chamando a atenção para o facto da palavra "genocídio" ter sido inventada pelo professor Raphaël Lemkin no ano de 1945, como consequência dos grandes extermínios nazis durante a Segunda Guerra Mundial, sublinha-se que, independentemente de uma "cientificidade" inerente, tal prática fora uma constante da História desde tempos mais recuados.
Definido pelo ONU em 1948, o genocídio corresponde à recusa do direito à existência de um povo ou de uma etnia. Quanto ao termo "massacre", a sua origem deriva do latim macecre, correspondente a matadouro. Já no século XIII o termo é aplicado para significar matar com selvajaria pessoas que não estão em condições para se defender, tendo também como sinónimos assassinato, matança, carnificina, hecatombe, morticínio.
No que respeita à abordagem feita temos a divisão em 16 capítulos, sendo eles:
CAPÍTULO 1- A PRÉ-HISTÓRIA (Jean-Jacques Cleyet-Merle)
CAPÍTULO 2- A ANTIGUIDADE (Jean Labesse)
CAPÍTULO 3- AS GRANDES INVASÕES (Guy Richard)
CAPÍTULO 4- O ALIBI DA FÉ (Guy Richard)
CAPÍTULO 5- AMOR SAGRADO DA PÁTRIA (Guy Richard)
CAPÍTULO 6- A EUROPA ROMÂNTICA (Guy Richard)
CAPÍTULO 7- OS ÚLTIMOS SOBRESSALTOS DO "HOMEM DOENTE" (Guy Richard)
CAPÍTULO 8- OS EXTERMÍNIOS SOVIÉTICOS (Guy Richard)
CAPÍTULO 9- A INDÚSTRIA DA MORTE COLECTIVA: HITLER E O III REICH (Guy Richard)
CAPÍTULO 10- A VIOLÊNCIA NO ORIENTE ÁRABE (Henry Laurens)
CAPÍTULO 11- "MADEIRA DE ÉBANO": O TRÁFICO NEGREIRO E A ESCRAVATURA NA AMÉRICA (Jean-Pierre Fichou, Bernard Fouques e Guy Richard)
CAPÍTULO 12- O GENOCÍDIO DE MÃOS LIMPAS (Jean-Pierre Fichou)
CAPÍTULO 13- MASSACRES ASIÁTICOS (Jean-Louis Margolin)
CAPÍTULO 14- O CONTINENTE AFRICANO (Zakari Dramani-Issifou)
CAPÍTULO 15- O ÍNDIO DA AMÉRICA LATINA OU A PARTE MALDITA (Bernard Fouques)
CAPÍTULO 16- AS ILHAS DO PACÍFICO. SONHO E REALIDADES (Guy Richard)
Pelo que é permitido ver pela apresentação dos diversos capítulos, o conteúdo da obra reveste-se de especial importância e inequívoco interesse em termos de análise. Por isso mesmo comprometemo-nos, desde já, a apresentar uma pequena síntese, nota ou excerto de cada uma destas partes constituintes, por forma a dar uma ideia um pouco mais aprofundada da totalidade do conteúdo.
Referência bibliográfica:
RICHARD, Guy (dir.)- A história inumana. Massacres e genocídios das origens aos nossos dias. Lisboa: Instituto Piaget, s.d (Col. História e Biografias, 9).
Dando sequência à cronologia já apresentada relativamente à 1ª metade do século XX, avancemos agora no tempo:
1962
Encerramento das casas toleradas e proibição da prostituição.
1966
Aprovada a aplicação a Portugal da convenção da OIT sobre igualdade de remuneração.
1968
Instituída formalmente a igualdade de direitos políticos entre homens e mulheres.
1969
Revogada a necessidade de autorização do marido para a saída do País das mulheres casadas.
1971
Primeira mulher a integrar um governo de Portugal: Maria Teresa Lobo, na qualidade de secretária de Estado da Assistência Social.
Alterado o artigo 5º da Constituição que definia- "salvas quanto às mulheres, as diferenças resultantes da sua natureza e do bem da família".
1974
Golpe militar que derruba o governo de Marcelo Caetano (25 de Abril).
Maria de Lourdes Pintasilgo torna-se a primeira mulher a ter um cargo ministerial, assumindo a pasta dos Assuntos Sociais.
São abertas às mulheres carreiras ao nível da administração local, da carreira diplomática e da magistratura judicial.
1975
Um total de 19 mulheres integram a Assembleia Constituinte.
É alterado o artigo XXIV da Concordata, que proibia o divórcio a todos aqueles casados pela Igreja Católica.
1976
A Assembleia da República passa a ter 13 deputadas.
É instituida a licença de maternidade por 90 dias.
Entra em vigor a nova Constituição que estabelece a igualdade plena entre homens e mulheres em todos os domínios.
1977
Revisão do Código Civil que faz desaparecer a figura de "chefe de família" e atribui às mulheres, no âmbito do direito de família, um estatuto de igualdade com o homem.
1979
Maria de Lourdes Pintasilgo torna-se a primeira mulher a ocupar o cargo de "Primeiro-Ministro".
É reconhecido às mulheres igualdade de oportunidades e de tratamento no local de trabalho.
1982
Introdução de alterações no Código Penal relativamente a maus tratos entre cônjuges e despenaliza a prostituição.
1984
A lei exclui da ilicitude alguns casos de interrupção voluntária da gravidez.
1991
As mulheres passam a poder candidatar-se ao Exército.
1992
As mulheres passam a poder candidatar-se à Força Aérea.
1993
As mulheres passam a poder candidatar-se à Marinha
ASSOCIAÇÕES DE MULHERES CRIADAS NOS ANOS 80 (SÉCULO XX)
- Associação das Mulheres dos Diplomatas Portugueses (1982)
- Associação Portuguesa de Ciências Domésticas, designada posteriormente por Associação Portuguesa de Cultura e Desenvolvimento (1983)
- Associação Mátria (1985)
- Associação Portuguesa de Mulheres Empresárias (1985)
- Soroptimistas Internacional- Clube de Lisboa (1986)
- Liga dos Direitos das Mulheres (1986)
- Clube Começar de Novo (1986)
- Intervenção Feminina (1986)
- Associação de Mulheres Socialistas (1987)
- Associação Portuguesa das Mulheres Agricultoras (1987)
- Associação Portuguesa de Mulheres Juristas (1989)
- Federação de Mulheres Empresárias e Profissionais de Portugal (1989)
- Associação das Mulheres que trabalham em casa (1989)
Na sequência de indicações bibliográficas já dadas relativas à divulgação e registo de experiências tidas por várias personalidades opositoras e resistentes ao Estado Novo, apresentamos um outro trabalho que entendemos da maior pertinência e avaliamos como de grande qualidade.
Da autoria de Miguel Medina, ilustrações de Luís Rodrigues e edição da Câmara Municipal de Lisboa, a obra em dois volumes, Esboços. Antifascistas relatam as suas experiências nas prisões do fascismo, surge como imperativa para um diálogo aprofundado e esclarecido com os indivíduos referenciados, sendo tal possível através da leitura das entrevistas conduzidas pelo autor.
Para o enquadramento do conteúdo, escreve sobre a forma de "Prefácio", Miguel Medina:
"Estendeu-se uma obscuridade latente sobre Portugal. Os tempos eram outros, apesar de, hoje em dia, ainda sentirmos parte dos seus- por vezes- medievos efeitos.
Foram tempos de luta e de sofrimento, de combates ganhos e batalhas perdidas, de suor e sangue; de torturas, perseguições, clandestinidades, tiros dados em estradas desertas, abatendo aqueles que combatiam, ou nos poderosos movimentos de massas-maiores ou menores- que demonstravam a vontade do povo. De partidas e exílios; de saudade.
Foram tempos de cumplicidades, de disfarces, de sinais, de senhas e contra-senhas, de tipografias e rádios clandestinos. Tempos de fortes laços de solidariedade e traições. Tempos em que jovens, homens e mulheres decidiram entrar num combate desigual, mas nobre e compensador. Tempo de bombas contra o aparelho militar colonial-fascista.
Foram tempos de "aberturas", de branquamento de pulhices, de arrogância, de desprezo pelos fracos. Tempos de canalhices, de desrespeito pelos direitos dos homens consagrados há muitos séculos pela coragem dos povos. Tempos de separações de famílias, de cartas escritas que muitas vezes não chegavam ao seu destinatário, apreendidas nos meandros do aparelho repressivo do chamado "Estado Novo".
Foram tempos de exploração desenfreada, de ritmos de trabalho alucinantes, de doenças de trabalho, de racionamento de géneros que só afectavam as classes mais humildes, da Guerra Civil Espanhola e da II Guerra Mundial, da Guerra Fria, do confronto de blocos, de peõs em grandes jogadas; e no campo, o trabalho sol-a-sol, e a repressão, mesmo até à morte, dos que queriam mais tempo e dinheiro para criar a sua família. Tempos de guerras, de mortos e de estropiados- física e moralmente- de combates em terras de continentes distantes- 13 anos na última Guerra Colonial- até ao momento dos seus povos- mais uma vez- enfrentarem quem a eles se opunham, de armas na mão, acabando por vencer, o que foi também a nossa vitória.
Tempos de deserções e exílios pelos meandros do mundo. Tempos de desigualdades, mas também de esperanças, de lutas e de gestos de infinita coragem. Tempos onde nascem heróis e heroinas, modestos no trato, firmes nas convicções, por vezes exuberantes, por vezes calados, prontos a tudo: até à morte.
Tempos de filhos que ficaram sem pais, de avós que ficaram sem netos, de namorados que ficaram sem companheiras. Tempos de fugas e de desencontros, de fome mitigada com um pouco de pão, do rodar da bicicleta, de coberturas para disfarçar situações que o regime perseguia.
Foram tempos de ódio e de amor, de afagos e pancadas, de torturas cada vez mais sofisticadas, de gritos perdidos na noite escura. Tempos em que houve muitos que não se vergaram, que não se corromperam pelos cântigos de sereia do poder, por uns escudos para pagar uma informação que permitisse aos esbirros do "estado" chegar a quem ousava lutar contra a "situação".
Foram os tempos do Tarrafal- Campo da Morte Lenta- da prisão no forte de Angra do Heroísmo, nos Açores, da António Maria Cardoso- sede da PIDE em Lisboa- do Aljube, da Penitenciária de Lisboa ou do forte de Peniche, da sede no Porto da PIDE, na Rua do Heroísmo (ironia histórica...), do forte de Caxias e das prisões espalhadas um pouco por todo o país e colónias. Aí reinava a tortura nos longos corredores de trevas que os presos percorriam, a humilhação dos detidos, o tentar destruir a personalidade dos subjugados momentaneamente, de fazê-los "rachar" das formas mais brutais.
Foram tempos de manifestações gigantescas e combativas reprimidas a jactos de tinta, ou mesmo à espadeirada e ao tiro. Tempos de "eleições" onde sempre se afirmava um poderoso ou, pelo menos significativo, movimento de massas. o húmus das Revoluções. Tempos de pequenos grupos de democratas, de diferentes cores políticas, afirmarem a sua vontade, em acções de agitação, mesmo quando tinham que desaparecer em minutos. Tempos de pichagens. Tempos de imaginação e sonho querendo-se tornar realidade. Tempos de organizar, organizar. Quem? Quem lutava, quem se revoltava, quem ousava desafiar a besta do poder. Quem simplesmente sofria. (...)"
(MEDINA, Miguel- Esboços. Antifascistas relatam as suas experiências nas prisões do fascismo. Lisboa: Câmara Municipal da Lisboa, 1999, p. 5-69).
Quanto aos entrevistados, eles são:
1º volume
- Carlos Aboim Inglez
- Carlos Marques
- Diana Andringa
- Henrique Espírito Santo
- José Morais e Castro
- José Vitoriano
- Margarida Tengarrinha
- Nuno Teotónio Pereira
- Octávio Pato
- Vasco Lourenço
- Veríssima Ramos Rodrigues
2º volume
- Carlos Brito
- Carlos Costa
- Daniel Cabrita
- Domingos Abrantes
- Fernando Blanqui Teixeira
- Jaime Serra
- José Lamego
- Josué Martins Romão
- Ludgero Pinto Basto
- Manuel Antunes da Fonseca (Mário Castrim)
- Maria da Piedade Morgadinho
- Pedro Ramos de Almeida
- Sérgio Vilarigues
- Urbano Tavares Rodrigues
Continuando a apresentação de algumas mulheres ligadas ao Estado Novo e que durante este tiveram um papel de relevo, segue-se uma nota relativa a uma das deputadas da Assembleia Nacional:
"Natural de Travanca da Feira, órfã de pai com um ano de idade, terminou o liceu em 1891 e foi a primeira mulher a frequentar a Universidade de Coimbra, na qual se licenciou em Matemática e Filosofia, respectivamente em 1894 e 1895, e depois em Medicina, em 1904. Trabalhou como médica na Assistência Ncional aos Tuberculosos, exerceu clínica em Lisboa e ingressou como professora efectiva no Liceu de Maria Pia, o primeiro liceu feminino do país, do qual foi reitora desde a sua fundação, em 23 de Fevereiro de 1906, até Novembro de 1912. Até à sua aposentação, continuou a leccionar Matemática no mesmo liceu, que Sidónio Pais elevou a central em 24 de Dezembro de 1917 com o nome de Liceu de Almeida Garrett e que mais tarde veio a adoptar o nome de Maria Amália Vaz de Carvalho. A partir de 1934, e durante duas legislaturas (1934-1937 e 1938-1941), foi uma das três primeiras deputadas portuguesas à AN, juntamente com Maria Guardiola e Cândida Parreira. Monárquica, aderiu desde o início aos princípios político-ideológicos do Estado Novo, tendo, nomeadamente, sido interlocutora entre a ex-rainha D. Amélia, com quem mantinha correspondência, e Salazar. Na qualidade de uma das representantes da elite feminina do Estado Novo, pertenceu ao Conselho Superior da Instrução Pública e foi nomeada vogal da OMEN em 1936, além de ter sido membro da organização dos Médicos Católicos Portugueses e da Academia das Ciências de Lisboa. Preocupada com questões infantis, tendo nomeadamente proferido, em Maio de 1936, uma conferência sobre o "Comunismo contra a infância", na qual defendeu o papel educativo da família e condenou o "fanatismo do Estado colectivista", que, segundo ela, arrancava as crianças aos pais. Na AN, interveio sobre mortalidade infantil e esteve na origem da criação, nos liceus e escolas do ensino secundário femininos, de cursos de frequência obrigatória de higiene geral e de puericultura (...). Participou também na discussão sobre a reforma educativa de Carneiro Pacheco (1936), pronunciando-se a favor do cruxifico nas escolas primárias e contra o ensino laico, responsável, segundo ela, pela desnatalidade que estava a assolar a Europa liberal e a URSS. (...)"
(Cf. PIMENTEL, Irene Flunser- História das organizações femininas do Estado Novo. Lisboa: Temas e Debates, 2001, p. 419).
Sobre a matéria deixamos como registo introdutório para posterior desenvolvimento:
I- A "Nova Ordem" preconizada por Salazar como oportunidade para o idealizado "Fim da História".
II- Ideias norteadoras para uma nova época da história mundial:
a) A necessidade instrumental de uma "Nova Ordem":
- "Revalorização" internacional, "missão histórica" e "expansão".
- Revisionismo internacional, "saneamento da Europa" (versões: "nações verdadeiras" versus "nações artificiais"; "libertação" e salvação").
III- Valores ideológicos da reorganização europeia (ou euroafricana):
- Obsessão da "ordem" e da necessidade de ordenação. Uniformização política, "comunidade" económica, uma "nova moral" social europeia.
- O princípio da hirarquia aplicado à vida internacional da Europa: recepção ambígua de uma inevitabilidade percepcionada.
- Projecto e prática: "confederação"/"comunidade", diversidade nacional e participação versus ocupação e colaboracionismo.
- A lógica dos "grandes espaços continentais": "europeísmo" e "Euro-África" versus "decadência" europeia.
(A partir do artigo de Manuel Loff- "Salazarismo e "Nova Ordem" europeia (1938-1942): a percepção voluntária de um "Fim da História" fascista". In: Vértice. Novembro-Dezembro 1995, p. 69-86).
Da autoria de António Ventura, professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a publicação Memórias da Resistência. Literatura autobiográfica da resistência ao Estado Novo, apresenta-se como sendo de extrema importância para um mais completo conhecimento das vivências clandestinas no tempo da Ditadura em Portugal.
O minucioso levantamento bibliográfico que é dado a conhecer, acompanhado pelas fotografias dos narradores e por excertos das obras referencidas, enriquece a abordagem de uma vertente da história portuguesa contemporânea, ainda não suficientemente estudada.
Aponta o autor como sendo os seus objectivos com esta obra:
"Neste estudo procuramos atingir dois objectivos fundamentais. Em primeiro lugar, elaborar uma biobibliografia do memorialismo português da resistência ao Estado Novo, nas suas múltiplas vertentes, com uma pequena antologia exemplificativa (...). Por outro lado, pretendemos chamar a atenção para a importância da literatura autobiográfica, nas suas diversas vertentes, e mais concretamente para a que foi produzida por opositores ao Estado Novo, como fonte indispensável para o estudo do período da nossa História que decorre do 28 de Maio de 1926 a 25 de Abril de 1974, e que, em rigor, compreende a Ditadura Militar (1926-1933) e depois o Estado Novo propriamente dito."
(VENTURA, António- Memórias da Resistência. Literatura autobiográfica da resistência ao Estado Novo. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 2001, p. 5. Sublinhado nosso).
Neste primeiro post dedicado ao assunto, e para não o alongarmos demasiadamente, indicamos os autores estudados e referenciados; num segundo post faremos a relação entre estes autores, as obras publicadas e os exemplos salientados pelo historiador.
Temos então, a recolha feita relativamente a:
- Acácio Tomás de Aquino
- Adelino da Palma Carlos
- Aida Paula
- Alberto Vilaça
- Alexandre Babo
- Alexandre Cabral
- Alexandre Vieira
- Álvaro Cunhal
- António Alçada Baptista
- António Alexandre Tereso
- António Macedo
- António Modesto Navarro
- António Neves Anacleto
- António Simões de Abreu
- Armindo Rodrigues
- Bento Gonçalves
- Cândida Ventura
- Cândido de Oliveira
- Carlos Brito
- Carlos Eugénio de Almeida
- Celso Cruzeiro
- César Oliveira
- Correia Pires
- Cunha Leal
- Dominfos Fernandes de Carvalho
- Edmundo Pedro
- Emídio Santana
- Fernando de Brito Mateus
- Fernando Gusmão
- Fernando Miguel Bernardes
- Fernando Mouga
- Fernando Queiroga
- Francisco Ferreira
- Francisco Horta Catarino
- Francisco Miguel
- Garcez da Silva
- Gilberto de Oliveira
- Henrique de Barros
- Henrique Galvão
- Hipólito Raposo
- Humberto Delgado
- Jacinto Baptista
- Jaime Serra
- João Faria Borda
- João Honrado
- João Medina
- João Sarmento Pimentel
- João Varela Gomes
- Joaquim Campino
- Joaquim Gomes
- Joaquim Pires Jorge
- Joaquim Ribeiro
- José Augusto França
- José Francisco
- José Gomes Ferreira
- José Jorge Letria
- José Magalhães Godinho
- José Magro
- José Manuel Tengarrinha
- José Régio
- José dos Reis Sequeira
- José Ribeiro Santos
- José Rodrigues Miguéis
- José Silva
- Kalidás Barreto
- Lino de Carvalho
- Lino Lima (José Ricardo)
- Lino Santos Coelho
- Luís Calafate
- Manuel Barbosa
- Manuel da Costa e Melo
- Manuel Firmo
- Manuel Francisco Rodrigues
- Manuel Joaquin de Sousa
- Manuel da Silva
- Manuel Rodrigues Lapa
- Manuela Câncio Reis
- Mário Dionísio
- Mário Pais de Oliveira
- Mário Sarmento
- Mário Soares
- Mateus da Silva Gregório
- Miguel Wager Russel
- Miguel Torga
- Norton de Matos
- Orlando Gonçalves
- Pedro Rocha
- Pedro Soares
- Policarpo Marcelino Gonçalves
- Raimundo Narciso
- Raul Rego
- Rui Perdigão
- Sá Cardoso
- Sérgio Ribeiro
- Silva Marques
- Sottomayor Cardia
- Vasco da Gama Fernandes
- Vergílio Ferreira
- Virgínia de Moura
O período de exercício da governação em Portugal em que a liderança foi levada a cabo por Oliveira Salazar e por Marcelo Cartano, pelas características inerentes ao regime que representavam, tornara-se particularmente propício ao surgimento de uma oposição social, onde assumiu destaque inequívoco a luta e resistência do Partido Comunista Português (PCP), e neste, dos homens e mulheres que clandestinamente o integravam, porque era essa mesma clandestinidade que o enquadrava em termos político-partidários.
As mulheres que durante o período do Estado Novo assumiram a sua oposição ao que vigorava, fizeram-no em vários cenários e perante as situações que consideravam de injustiça social: nas fábricas, nos campos, como trabalhadoras ou entre trabalhadores, na defesa dos interesses comuns (de classe), nas escolas, nas universidades ou no âmbito de várias actividades intelectuais, de defesa da Paz e dos Direitos Humanos.
Para proporcionarmos um mais "vivo"conhecimento sobre o que foi viver na clandestinidade, em situações de risco, sofrendo torturas ou vivênciando a prisão, deixamos aqui 1 exemplo de uma mulher que, para além da sua especificidade como pessoa, tipifica sofrimentos e dramas por muitas outras (comunistas, mas também de outros quadrantes) vivenciadas e face às quais a Polícia Política (e não só) exerceu especial actuação.
Neste contexto de lembrança da luta oposicionista e de resistência efectivada pelas mulheres, para além do caso que a seguir concretizaremos, deixamos como o registo o nome de:
- Adélia Correia Terruta
- Aida da Conceição Paula
- Aida de Freitas Loureiro Magro
- Albina Fernandes
- Alice da Purificação Dias de Azevedo
- Bernardina Antunes Araújo Neves
- Cândida Margarida Ventura
- Casimira da Conceição Silva
- Cesaltina Maria Feliciano
- Clarisse Casaco Tacão
- Colélia Maria Alves ou Maria Augusta
- Dalila Duque Fonseca
- Élia Maria Mecha Mendonça
- Elvira Mendonça
- Felismina da Conceição Figueiredo
- Fernanda da Paiva Tomás
- Georgette de Oliveira Ferreira
- Isaura Conceição da Silva
- Lígia Calapez Gomes
- Luísa Paula
- Maria Albertina Ferreira Diogo
- Maria Alda Barbosa Nogueira
- Maria Ângela Vidal e Campos
- Maria Augusta ou Colélia Maria Alves
- Maria Cecília Ferreira Alves ou Maria Cecília Ferreira Alves Ramos de Almeida
- Maria da Conceição de Sousa
- Maria da Conceição Vassalo e Silva da Cunha Lamas ou Maria Lamas
- Maria Eugénia Bilnstein de Meneses Luís Sequeira Varela Gomes
- Maria Isabel Hahenman Saavedra de Aboim Inglês
- Maria Isabel Leite Oliveira
- Maria José Lopes da Silva
- Maria Julieta Guimarães Gandra
- Maria Lourença Cabecinha
- Maria Matilde Cerejeira Nunes Bento
- Maria da Piedade Gomes dos Santos
- Maria Rosa Pereira Marques Nunes Penim Redondo
- Maria Rosa Viseu
- Mariana Balbina Janeiro
- Mariana Oliveira Franco Trindade Gabinete
- Natália Henriques Soares David
- Olímpia Ribeiro da Silva Braz
- Olívia Maria ou Olívia Maria Sobral
- Sofia Ferreira ou Sofia de Oliveira Ferreira
- Virgínia de Faria Moura
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MARIA DOS SANTOS MACHADO
Alcunha- "A Rubina"
Estado- Divorciada
Profissão- Professora oficial
Naturalidade- Calheta (Açores)
Data de nascimento- 25/02/1890
Processo nº 826/45 enviado ao Tribunal Militar Especial em 19/12/45. Livro 18/Nº 3559
Maria Machado começou a sua vida como professora, nos Açores, de onde era natural. Não era pessoa que se contentasse com o exercício mais ou menos tranquilo de uma profissão que lhe garantia o sustento diário. Espírito aberto e activo, em breve fundava uma biblioteca na sua terra natal, para que, não só os seus alunos, mas também os adultos de quem muito se ocupava, tivessem oportunidade de tomar contacto com a literatura mundial. O ambiente limitado da sua ilha não bastava para que desse vazão a todas as suas aspirações. Veio para o continente e continuou a exercer o professorado. Foi uma professora bastante progressista para o seu tempo, pois nas suas aulas usava o chamado "Método Activo", utilizando, por exemplo, abelhas vivas de que se servia para as suas "Lições de Coisas".
No entanto, Maria Machado acabaria por ser afastada do ensino público, sendo-lhe também encerrada uma escola destinada aos filhos dos ferroviários e por si dirigida. Presa, presencia o espancamento dos seus alunos.
Impossibilitada, pelo Governo, de continuar a ganhar a sua vida como professora oficial que era, fez-se governanta de uma casa de família, enquanto dava lições de graça a adultos, nas horas vagas.
A sua luta pela democracia e pela igualdade nunca diminuiu. Foi-lhe uma vez assaltada a casa onde, com outros elementos pertencentes ao PCP, imprimia um jornal clandestino do Partido. Foi presa pela PIDE, julgada e condenada.
Maria Machado foi uma das fundadoras da Liga Portuguesa para a Paz e a sua actividade política continuaria a valer-lhe prisões. Da última vez que foi presa, deu entrada, de maca, na sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso (Lisboa), pois partira um pé. Os seus amigos tiveram que empreender uma grande luta para que fosse libertada.
Doente do coração, falaceu a 4 de Outubro de 1958.
Hannah Arendt (14/10/1906-04/12/1975), filósofa e politicóloga germano-americana na "Introdução" da sua obra Sobre a revolução, onde aborda a natureza dos sistemas políticos actuais nos EUA e na Europa, analisando quer a Revolução Americana, quer a Revolução Francesa, apresenta as seguintes interpretações relativamente à "Guerra" no percurso histórico:
"(...) Historicamente, as guerras fazem parte dos fenómenos mais antigos do passado (...). o objectivo da guerra só em raros casos se ligava à noção de liberdade; e embora seja verdade que os levantamentos contra um invasor estrangeiro foram frequentemente tidos como sagrados, nunca foram reconhecidos em teoria ou na prática como as únicas guerras justas.
A justificação das guerras, mesmo num nível teórico, é bastante antiga, embora é claro, não tão antiga como a táctica militar organizada. (...)
Temos, portanto, de passar à antiguidade romana para encontrar a primeira justificação da guerra, juntamente com a primeira noção de haver guerras justas e injustas. Todavia, as distinções e justificações romanas não se referiam à liberdade e não distinguiam entre guerra de agressão ou de defesa. "A guerra que é necessária é justa", disse Tito Lívio, e "sagradas são as armas quando só nelas há esperança" (...). A necessidade, desde a época de Tito Lívio e pelos séculos fora, tem significado muitas coisas consideradas hoje por nós suficientes para apelidar uma guerra de injusta de preferência a justa. Conquistas, expansões, defesa de direitos adquiridos, conservação do poder para promover poderes novos e ameaçadores ou sustentar o equilíbrio de determinado poder- todas estas realidades bem conhecidas da política de força não só foram realmente as causas da aclosão de muitas guerras da história, como também reconhecidas como "necessidades", isto é, motivos legítimos para invocar a decisão pelas armas. (...)
É importante recordar que a ideia de liberdade foi introduzida no debate do problema da guerra só depois de se ter tornado evidente que chegámos a um estado de desenvolvimento técnico em que os meios de destruição eram de molde a excluir o seu uso racional. Por outras palavras, a liberdade apareceu neste debate como um deus ex machina para justificar o que em bases racionais se tornou injustificável. (...)
Independentemente da ameaça do aniquilamento total, que possivelmente novas descobertas técnicas tais como uma bomba especial ou um míssil antimíssil poderiam eliminar, há alguna indícios que apontam nesta direcção. (...)
A verdade é que, mesmo antes do horror da guerra nuclear, as guerras se tornaram politicamente, embora não ainda biologicamente, uma questão de vida ou morte. (...)
(...) [temos igualmente] uma mudança radical na própria natureza da guerra pela introdução da intimidação como princípio condutor da corrida ao armamento. Porque é realmente verdade que a estratégia de intimidação "tem por objectivo evitar, de preferência a ganhar, a guerra que pretende estar a preparar. Visa conseguir os seus fins por meio de uma ameaça nunca realizada, de preferência à própria acção". Certamente que a concepção de que a paz é o objectivo da guerra e, portanto, de que uma guerra é a preparação para a paz, é tão antiga como Aristóteles, e a pretensão de que a finalidade de uma corrida ao armamento é a manutenção da paz é ainda mais antiga, isto é, tão velha como a descoberta da falsa propaganda. (...)"
(ARENDT, Hannah- Sobre a revolução. Lisboa: Relógio D'Água, s.d, p. 12-17).
Terminamos chamando a atenção para o facto deste livro ter resultado de um seminário sobre "Os Estados Unidos e o Espírito Revolucionário", organizado na Universidade de Princeton, na Primavera de 1959, de um subsídio da Fundação Rockefeller em 1960, assim como da estadia da autora na Universidade de Wesleyana nos finais de 1961, como membro do Centro de Estudos Superiores.
Na sua obra História das organizações femininas do Estado Novo, Irene Flunser Pimentel, apresenta-nos da seguinte forma Maria Baptista dos Santos Guardiola (13.1.1895-27.9.1987):
"Natural de Bragança, começou por tirar o curso do Magistério Primário e depois licenciou-se em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra, tendo sido, entre 1920 e 1941, professora liceal nos liceus femininos da Infanta Dona Maria, de Coimbra (1921, professora agregada); Almeida Garrett, de Lisboa; Carolina Michaëlis, do Porto (1926, professora efectiva), e Maria Amália Vaz de Carvalho, de Lisboa (1925), onde desempenhou, de 1928 a 11 de Janeiro de 1946, o cargo de reitora. Em 1930, foi nomeada vogal do Conselho Superior de Instrução Pública e, entre 1936 e 1940, vice-presidente da 3ª Secção da Junta Nacional de Educação. Foi também inspectora do ensino liceal, de 1947 a 1957, e inspectora superior de 1956 a 1963. Nesse ano, aposentou-se, sendo indigitada para a comissão permanente das Obras Circum-Escolares e Sociais do Ensino Superior. Entre Maio e Setembro de 1949, foi ainda reitora e presidente do conselho administrativo do Liceu Rainha D. Leonor (...).Foi uma das três primeiras deputadas- (...)- à AN, desde a I Legislatura (1935-1936). Quando a OMEN foi criada por Carneiro Pacheco, em 1936, pertenceu desde logo como vogal à sua junta central e exerceu o cargo de vice-presidente desde então até à extinção da organização em 1974. Em Dezembro de 1937 (...), foi indigitada, pelo MEN, comissária nacional da MPF (em 1941 foi dispensada de dar aulas), organização que dirigiu (...) até 21 de Dezembro de 1968, quando foi exonerada a seu pedido. No seio do regime, defendeu sempre o carácter educativo da OMEN- "reeducar" as mulheres- e da MPF- "educar" as raparigas, "futuras mães". À frente da MPF, defendeu ao longo dos anos os designídios estatutários iniciais: a "educação integral", moral, cristã e nacionalista das "jovens portuguesas" para "a formação do carácter, o desenvolvimento da capacidade física, a cultura do espírito e a devoção ao serviço social, no amor de Deus, da Pátria e da Família" e "para o cabal desempenho da missão da mulher na família, no seu meio e na vida do Estado". Na qualidade de deputada, Maria Guardiola participou no debate da reforma educativa encetado em 1936 por Carneiro Pacheco, no qual defendeu, nomeadamente, o fim das provas orais, a nova denominação do MEN e as atribuições da Junta Nacional de Educação. (...) apoiou a imposição do livro único de Leitura, de História e de Formação Moral e Cívica, tendo também proposto o compêndio único de Filosofia. Defendeu a orientação do ensino estatal pelos "princípios da doutrina moral e cristã tradicional do país" e, na discussão sobre o ensino infantil e a reforma do ensino primário, em 1938, pugnou pela limitação do poder do Estado a favor do "fortalecimento do poder dos pais" e do restabelecimento da "tradicional família portuguesa". (...) Em 1952, interveio ainda na AN sobre o analfabetismo, no debate sobre o Plano de Educação Popular e a Campanha Nacional de Educação de Adultos.
Maria Guardiola foi condecorada pelo regime salazarista, com o grau de comendador (1931) e a ordem de grande oficial da Instrução da Função Pública (1939) e, pelo papa Pio XII, com a cruz Pro Ecclesia et Pontifice (1957). Em 1966 foi eleita membro honorário da Ordem da Instrução Pública e recebeu a grã-cruz da Ordem da Instrução Pública. (...)"
(PIMENTEL, Irene Flunser- História das organizações femininas do Estado Novo. Lisboa: Temas e Debates, 2001, p. 421-422).
Para introduzir a abordagem da problemática apresentada supra, registamos a seguinte cronologia:
1907
Fundação do Grupo Português de Estudos Feministas, por Ana de Castro Osório.
1909
Fundação da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas.
1910 (5 de Outubro: instauração da República)
Leis do Divórcio e da Família
1911
Primeiras mulheres funcionárias públicas.
Criação da Associação de Propaganda Feminista, presidida por Carolina Beatriz Ângelo, a primeira mulher a exercer o direito de voto.
(É concedido o direito de voto aos portugueses com mais de 21 anos que soubessem ler e escrever, assim como aos chefes de família)
1914
Criação do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP), por Adelaide Cadete
1916
Criação da Comissão Feminina pela Pátria, da Cruzada das Mulheres Portuguesas e da Associação Feminista de Propaganda Democrática
1931
Os "chefes de família viúvas, divorciadas ou separadas" e "as mulheres casadas cujo marido está ausente nas colónias ou no estrangeiro" podem pertencer às juntas de freguesia
1933
Estendido o direito de voto às mulheres "maiores e emancipadas com família própria" para as Câmaras Municipais
1934
Direito ao voto e à elegibilidade para a Assembleia Nacional e para a Câmara Corporativa a algumas mulheres.
Têm lugar na Assembleia Nacional as primeiras deputadas, sendo estas Cândida Parreira, Maria Guardiola e Domitília de Carvalho
1936
Criação da Obra das Mães pela Educação Nacional (OMEN)
Criação da Associação Feminina Portuguesa para a Paz (AFPP), enquadradora de mulheres opositoras ao regime
1937
Criação da Mocidade Portuguesa Feminina (MPF)
Instituida a Licença de Parto
Na sequência do que já escrevemos sobre Hegel e de excertos dos seus escritos igualmente apresentados, acrescentamos agora nova informação, desta vez relativa ao princípio do desenvolvimento do Espírito no âmbito da História Universal.
Considerava o filósofo:
"(...) Além disso, os povos, como configurações espirituais, são também, em certo sentido, seres naturais. Por isso, os distintos produtos revelam-se também como coexistindo e perdurando no espaço, indiferentes uns aos outros. Se lançarmos um olhar sobre o mundo, descobrimos nas suas partes antigas três configurações principais: o princípio asiático interior, que é também na história o primeiro (o mongólico, o chinês e o indiano); o mundo maometano, em que existe o princípio do Espírito abstracto, do Deus único, mas a que se contrapõe o arbítrio desenfreado; e o mundo cristão, europeu-ocidental; aqui se alcançou o princípio supremo, o conhecimento pelo Espírito de si mesmo e da sua profundidade. (...)
A progressão determina-se em geral de modo a constituir a série de fases da consciência. O homem começa por ser uma criança com uma abafada consciência do mundo e de si mesmo; sabemos que, desde a consciência empírica, ele tem de percorrer vários estádios até chegar a saber o que é em si e para si. A criança começa com a sensação; dai passa o homem ao estado das representações gerais, em seguida, ao estado do conceito e chega então a conhecer a alma das coisas, a sua verdadeira natureza. (...)
A progressão é, desde modo, uma formação da consciência, e não é simplesmente quantitativa, mas uma série de fases de diferentes referências ao que é essencial.
Ora a história universal representa a gradação do desenvolvimento do princípio cujo conteúdo é a consciência da liberdade. (...)
A primeira época em que consideramos o espírito é comparável, portanto, ao espírito infantil. Reina aqui a chamada unidade do espírito com a natureza, que encontramos no mundo oriental. Este espírito natural é o que ainda se encontra na natureza, e não junto de si mesmo; por isso, ainda não é livre, não saiu vitorioso do processo da liberdade. Também nesta situação do espírito encontramos Estados, artes, começos das ciências; mas todos eles se encontram no terreno da natureza. Neste primeiro mundo patriarcal, o espiritual é algo de substancial a que se acrescenta o indivíduo somente como acidente. À vontade de um pertencem os outros como crianças, como subordinados.
A segunda condição do espírito é a da separação, da reflexão do espírito em si, a saída da simples obediência e confiança. Tal situação divide-se em duas. A primeira é a juventude do espírito; este tem uma liberdade por si, mas ainda conexa à substancialidade. A liberdade não renasceu ainda da profundidade do espírito. Tal é o mundo grego. A outra situação é a da idade viril do espírito, em que o indivíduo tem os seus fins para si, mas só os alcança ao serviço de um universal, do Estado. Eis o mundo romano. Aqui se encontra a oposição entre a personalidade do indivíduo e o serviço perante o universal.
Em quarto lugar, segue-se então a época germânica, o mundo cristão. Se aqui se pudesse comparar também o espírito com o indivíduo deveria chamar-se a esta época a senectude do espírito. O peculiar da velhice é viver apenas da recordação, do passado, e não no presente; e, por isso, a comparação é aqui impossível. O indivíduo, segundo a sua negatividade, pertence ao elemento e desvanece-se. Mas o espírito retorna aos seus conceitos. Na época cristã, o Espírito divino veio ao mundo, pôs a sua sede no indivíduo, que agora é perfeitamente livre, tem em si uma liberdade substancial. Tal é a reconciliação do espírito subjectivo com o objectivo. O espírito reconciliou-se, fez-se um com o seu conceito, no qual se cindira em vista da subjectividade, saindo para tal do estado da natureza.- Ora tudo isto é o a priori da história, a que a experiência deve corresponder.
Estas fases são os princípios fundamentais do processo universal (...)."
Ainda quanto à concepção de História Universal, entende Hegel:
"(...) Ao conceber a história universal, tratamos da história, antes de mais, como de um passado; mas temos também de lidar simplesmente com o presente. O que é verdadeiro é eterno em si e para si, não é nem de ontem nem de amanhã, mas pura e simplesmente presente, "agora", no sentido do presente absoluto. Na Ideia conserva-se eternamente o que também se afigura passado. A Ideia é presente, o Espírito é imortal; não há outrora algum em que ele não existisse ou não existiria; não passou, não pode dizer-se que ainda não é, mas é absolutamente agora. Afirmou-se já assim que o mundo e a figura presentes do espírito, a sua autoconsciência, compreendem em si todos os estádios anteriores da história. Estes desenvolveram-se sucessivamente como autónomos; mas o espírito foi em si sempre o que é e a diferença é somente o desdobramento deste em si. O espírito do mundo actual é o conceito que o espírito de si mesmo elaborou (...). Assim devemos apreender a história universal; nela depara-se-nos o trabalho do espírito, o modo como este chega ao conhecimento do que ele é e o realizou nas distintas esferas por ele condicionadas. (...) O espírito tem ainda em si todos os estádios do passado, e a vida do espírito na história é um ciclo de fases distintas, em parte actuais, em parte surgidas numa configuração passada. (...) Os momentos que o espírito parece ter atrás de si tem-nos também na sua profundidade actual. E assim percorreu os seus momentos na história, assim igualmente os deve percorrer no presente- no conceito de si".
(HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich- A razão na história. Introdução à Filosofia da História Universal. Lisboa: Edições 70, 1995, p. 131-133; 153-154).
Com este post iniciamos a abordagem de uma temática, em nosso entender, de absoluta pertinência. Tem ela a ver com o conhecimento e entendimento daquele que foi o lugar ou o papel das mulheres na História.
Esquecidas durante séculos, as mulheres começam agora, e a um ritmo cada vez mais acelerado, a emergir do/no palco da História, pelo desenvolvimento que nos últimos anos se tem verificado nos estudos em torno da problemática do Género.
No que respeita a Portugal existem projectos em termos universitários que têm permitido fazer avançar a investigação nesta área, sendo que deles nos comprometemos desde já a falar.
Os estudos surgentes no mercado tem sido uma realidade, quer sobre a forma de monografias, quer integrados em publicações periódicas.
Neste primeiro post sobre a matéria deixamos, para ir despertando a atenção de quem nos lê, a referência a dois trabalhos de grande qualidade em torno de organizações de mulheres em Portugal no período do Estado Novo. Para além das indicações agora apresentadas, mais informação será acrescentada no futuro. Chamamos, no entanto a atenção, para o facto de as informações neste blog apresentadas não dispensarem, em absoluto, a leitura integral, ou pelo menos bastante mais completa, de cada uma das obras de per si.
Os títulos e enquadramentos são pois os seguintes:
- FLUNSER PIMENTEL, Irene- História das organizações femininas do Estado Novo. Lisboa: Temas e Debates, 2001.
Informação adicional:
A autora: licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa e Mestre em História Contemporânea (século XX) pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Foi editora da revista História, tendo elaborado vários estudos sobre o Estado Novo, o período correspondente à Segunda Guerra Mundial e as organizações femininas existentes durante o regime instaurado por Salazar.
A obra: compõem-na as seguintes partes:
Introdução
I- O Estado Novo e as mulheres
II- A Obra das Mães pela Educação Nacional (OMEN)
III- A Mocidade Portuguesa Feminina (MPF)
Conclusões
Apêndices
Fontes e Bibliografia
- ESPÍRITO SANTO, Sílvia- Adeus, até ao teu regresso. O Movimento Nacional Feminino na Guerra Colonial (1961-1974). Lisboa: Livros Horizonte, 2003.
Informação adicional:
A autora: licenciada em História pela Universidade de Coimbra e Mestre em Estudos sobre as Mulheres pela Universidade Aberta de Lisboa. Professora no ensino secundário, tem participado em colóquios e conferências com temas versando a Didáctica da História e a participação das mulheres na Guerra Colonial.
A obra: compõem-na as seguintes partes:
(PREFÁCIO)
INTRODUÇÃO
CAPÍTULO I- O Movimento Nacional Feminino (M.N.F)- Última organização de mulheres do Estado Novo
CAPÍTULO II- A razão de ser do Movimento
CAPÍTULO III- As áreas de intervenção do Movimento
CAPÍTULO IV- Iniciativas junto de militares, familiares e opinião pública
CAPÍTULO V- O texto e a palavra do M.N.F
CAPÍTULO VI- A imagem invertida da guerra
CONCLUSÃO
Sendo que há uns dias atrás deixei a referência bibliográfica de uma nova biografia de Fidel de Castro à venda no mercado, complemento-a agora com alguns títulos de publicações em espanhol:
- CHOMSKY, N.- Cuba. Hacia dónde se dirige el socialismo. Hiru, 1997.
- DÍAZ, J.- Dime algo sobre Cuba. Madrid: Espasa Calpe, 1998.
- MORENO FRAGINALS, M.- Cuba-España, España-Cuba. Apuntes para una historia comúm. Barcelona: Crítica, 1995.
- OROZCO, R.- Cuba Roja. Cómo viven los cubanos con Fidel Castro. Madrid: Cambio 16, 1993.
Quase que passados 30 anos sobre o fim da Guerra Colonial Portuguesa, eis que no mercado se encontram já uma série de obras que permitem lançar um olhar mais aprofundado (e mesmo descomplexado) sobre o que foi essa especificidade da História de Portugal, revelando igualmente a evolução da investigação sobre a matéria.
De alguns desses títulos fazemos aqui registo agrupado, chamando a atenção para o não esquecimento de outros trabalhos entretanto publicados ou a publicar em breve.
1. ESTUDOS
- AFONSO, Aniceto; GOMES, Carlos Matos- Guerra Colonial. Lisboa: Ed. Notícias 2002.
- BACELAR, Sérgio Augusto Margarido Lima- A guerra em África. 1961-1974. Estratégias adoptadas pelas Forças Armadas. S.l. Liga dos Amigos do Museu Militar do Porto/Universidade Portucalense Infante D. Henrique, 2000.
- ESPÍRITO SANTO, Sílvia- Adeus, até ao teu regresso. O Movimento Nacional Feminino (1961-1974). Lisboa: Livros Horizonte, 2003.
- GOMES, Carlos Matos- Moçambique. 1970. Operação Nó Górdio. Lisboa: Prefácio, 2002.
- MARTELO, David- 1974. Cessar-fogo em África. Publicações Europa-América, 2001.
- NUNES, António P.- Angola. 1966-74. Vitória militar no leste. Lisboa: Prefácio, 2002.
- PINTO, António Pinto- O fim do Império Português. A cena internacional. A guerra colonial, e a descolonização, 1961-1975. Lisboa: Livros Horizonte, 2001.
- QUINTAIS, Luís- As guerras coloniais portuguesas e a invenção da história. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2000.
- RODRIGUES, Manuel A. Ribeiro- As campanhas ultramarinas 1961/1974. Guiné, Angola e Moçambique: Exército (1). Lisboa: Edições Destarte, 2000.
- TEIXEIRA, Rui de Azevedo- A guerra e a literatura. Lisboa: Vega, 2001.
2. ACTAS
- AAVV- Estudos sobre as Campanhas de África (1961-1974). S. Pedro do Estoril: Edições Atena, 2000.
- ALEXANDRE, Valentim (coord.)- O império africano. Séculos XIX e XX. Lisboa: Edições Colibri- Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2000.
- TEIXEIRA, Rui de Azevedo (org.)- A guerra colonial. Realidade e ficção. Livro de Actas do I Congresso Internacional. Lisboa: Editorial Notícias, 2001.
- TEIXEIRA, Rui de Azevedo (org.)- A guerra colonial. Realidade e ficção. Livro de Actas do II Congresso Internacional. Lisboa: Editorial Notícias, 2002.
3. TESTEMUNHOS
- ARRIAGA, Kaúlza de- Novas sínteses. Contributos para a história contemporânea de Portugal. Lisboa: Prefácio, 2001.
- BATISTA, Etelvino da Silva- Angola 1961-63. Diário de Guerra. Lisboa: Três Sinais Editores, 2000.
- CARDOSO, Silva- Angola, anatomia de uma tragédia. Lisboa: Oficina do Livro, 2000.
- COMISSÃO DOS ANTIGOS COMBATENTES DO ULTRAMAR DE BARROSELAS- Combatentes do Ultramar. Barroselas, s/ed, 2001.
- FERREIRA, Rui A.- Rumo a Fulacunda. Viseu: Palimage Editores, 2000.
- GOMES, Carlos M; FARINHA, Fernando- Guerra Colonial. Um repórter em Angola. Lisboa: Ed. Notícias, 2001.
- MARQUES, Silvino Silvério- Salazar, o Ultramar e o 25 de Abril. Lisboa: Nova Arrancada, 2001.
- MENSURADO, Joaquim M.- Os páras na guerra. 1961-1963. 1968-1972. Lisboa: Prefácio, 2002.
- MOURÃO, Piçarra- Guiné, sempre! Testemunho de uma guerra. Coimbra: Quarteto Editora, 2001.
- REIS, A. do Carmo- Diário do tempo de guerra (1966-1970). S.l. Museu da Guerra Colonial, 2001.
- RIBEIRO, Gonçalves- A vertigem da descolonização. Da agonia do êxodo à cidadania plena. Mem-Martins: Editorial Inquérito, 2002.
No passado mês de Abril, na revista História, António Manuel Hespanha, professor universitário, investigador do Instituto de Ciências Sociais e colaborador nesta mesma publicações, apresenta um texto intitulado "A privatização da história". Pela importância das questões nele abordadas, mas sobretudo pelo estilo e tom com que o faz, vale a pena, em nosso entender, deixar aqui a sua transcrição:
"Esse meu amigo enganou-se redondamente. Não porque todos os dias não haja mais história (e, de facto, mais lixo). Mas porque, segundo as leis do mercado, o que determina a fixação do preço não são os stocks da matéria prima, mas os equilíbrios da oferta e da procura.
Ora é a estes equilíbrios que nos temos que ir habituando. Parece que algum responsável pela investigação já disse que isto das ciências humanas não é o que está a dar. Felizmente, o homem nem pensou na História, o que, a ter acontecido, muito compreensivelmente, lhe teria provocado esgares. De "serviço público" da história, disso sensatamente nem se fala. Embora todos os dias os mesmos responsáveis se arrepelem perante a ignomínia que é o desconhecimento geral da nossa história pelas nossas camadas infanto-juvenis (hic!...)
Mas, sobretudo nesta coluna, a crítica é sempre construtiva. Daí que me tenha ocorrido esta ideia útil de que talvez se pudesse privatizar a história; a sua investigação, pelo menos.
Claro que isto teria que ser feito com método, aquele mesmo que é usado nas outras privatizações. Teríamos que começar por definir áreas rentáveis e não rentáveis da história. As primeiras para privatizar; as segundas para nós pagarmos.
Entre as primeiras, as que vendem, vejo a história do sexo e do corpo (ilustrada, de preferência), a história das mulheres (ilustrada ou não, dependendo), a das casas reais (sobretudo na época contemporânea), a história de Camarate. Para o mercado externo, a história da saudade, do fado e do azulejo; e, especialmente para o mercado espanhol, a história da tauromaquia, e, porventura, a história dos bancos portugueses, até porque já quase todos pertencem à história. Muita história da empresa privada e da livre iniciativa, histórias de famosos, histórias famosas, histórias de famas e famas na história. Tudo isto seria entregue à sociedade civil- desde a Igreja (para a história cultural e das mentalidades) e a maçonaria (para a história política) até ao Belas Country Club (para a história social e para as biografias), ao Casino da Póvoa (para a história industrial) ou ao cobrador do Fraque (para a história económica).
A outra, a que teria que continuar a cargo do estado, poderia ainda ser sub-dividida em duas secções.
A primeira secção seria aquela que, com alguns despedimentos e sujeita a uma gestão moderna e estrangeira, poderia ser recuperada. Por exemplo, a história da Europa (sobeetudo de Leste), a história do integrismo islâmico e do choque das civilizações, a história da democracia (sobretudo se relacionada com a história da informação e com a aldeia global), a história do ambiente, da ajuda ao desenvolvimento, da guerra preventiva, dos peace keeping exploits e, de um modo geral (ou seja, não generalizando o tema a todos os seus particulares), a história portuguesa no mundo.
A segunda secção seria, pura e simplesmente para encerrar, despedindo o pessoal assim ao estilo do Vale do Ave, sem qualquer subsídio e com salários em atraso. Refiro-me, claro está, à história da cultura clássica, medieval e early modern. Sobretudo a que lida com latim ou outra qualquer língua muito morta, que trate de teologia, que adopte uma perspectiva estrutural ou, de algum modo, pouco divertida. Ou seja, em geral, toda a história difícil, indigesta ou caústica em relação aos achievements da civilização ocidental. Todos os historiadores assim libertos para o trabalho produtivo seriam reconvertidos em técnicos auxiliares de laboratório de fábricas de rações ou em brigadas de investigação de white colar criminality. Onde continuariam seguramente a patentear a inanidade do seu trabalho e, por isso, a inutilidade dos seus préstimos. Alguns mais vivaços poderiam ir de inspectores de armas de destruição massiva. Talvez as encontrassem. Aonde, é que não se sabe".
(HESPANHA, António Manuel- "A privatização da história". In: História. Nº 55. Abril de 2003, p. 18-19).
Por tudo isto, e em nosso entender, a opinião/solução apresentada serve para fazer reflectir sobre vários aspectos: os atrasos verificados em certas áreas de tratamento da História, a falta de apoio à pesquisa e à investigação em Portugal, as tendências da oferta e da procura no mercado (que acabam sempre por revelar gostos e modas de momento) , assim como a ignorância - por vezes chocante- da História por certas camadas da população.
Num contexto em que em Portugal o discurso político é dominado pela vertente económica, ao qual a Cultura também não escapa, vale a pena debruçarmo-nos sobre o que se tem feito, qual o ponto da situação, mas sobretudo sobre o que ainda é preciso fazer e ultrapassar, para que, na área específica da História as evoluções possam ser maiores, contribuindo-se dessa forma para evitar ou diminuir, por exemplo, falsificações ou branquamentos, reforçar o estatuto da "Memória", assim salientar e valorizar aquele que é o nosso património cultural. Mas tudo, claro, ao nível do "serviço público da História"!
No número de Julho da revista La aventura de la Historia, no âmbito de um artigo intitulado "Caza de brujas", sintetiza da seguinte forma David Solar o que foi a febre comunista e o maccarthismo nos EUA em finais dos anos 40 e anos 50:
A FEBRE COMUNISTA
"El 14 de octubre de 1949, Joseph MacCarthy, pronunció un discurso sobre "El comunismo dentro del Gobierno" que fue, para muchos, el comienzo verdadero de la persecución, aunque ya para entonces había habido detenciones. Pero MacCarthey creó un sistema de investigación, persecución y procesos por medio del Comité de Actividades Antinorteamericanas del Senado, que encarcelaba, multaba, deportaba o inhabilitaba a los culpables.
La persecución anticomunista fue aceptada e, incluso apoyada, por los presedentes Truman y Eisenhower, a los que les fue útil esa catarsis interior para sacar adelante sus programas armamentísticos, sus servicios secretos- en esos momentos nació la CIA- y su política de bloques.
En abril de 1953, por ejemplo, a causa de una orden presidencial firmada por Eisenhower, fueron expulsados de sus puestos de trabajo centenares de funcionarios federales, sobre todo de la nómina del Departamento de Estado ..., pero, curiosamente, ninguno de ellos fue procesado. (...)
La investigación de ese Comité represor de Actividades Antinorteamericanas afectó, fundamentalmente, al Partido Comunista, a los sindicalistas, a los intelectuales, artistas y profesores. Se investigó a millares de personas relacionadas con el mundo de las industrias estratégicas, armamentísticas y nucleares. El caso más espectacular fue Robert Oppenheimer, el padre de la bomba atómica, al que se prohibió el acesso a la documentación secreta o confidencial, pues resultaba sospechoso porque se había relacionado con científicos comunistas. (...) Las persecuciones y procesos más clamorosos fueron los relacionados con el mundo del arte y la cultura, especialmente el cine, la literatura y la Universidad. (...) Entre los perseguidos estuvieron Chaplin, Arthur Miller, Bertol Brecht, Thomas Mann, Joseph Losey, Gardfield, Orson Welles, Hammett, Dalton Trumbo... (...)".
(In: La aventura de la História, p. 32. Sublinhado nosso).
O MACCARTHISMO
"El Senado de EEUU ha abierto algunos archivos de MacCarthy, el senador que desató la Caza de Brujas. Joseph MacCarthy (14-11-1909 - 2-5-1957) abogado de Winsconsin, juez, capitán durante la II Guerra Mundial, ganó un escaño senatorial a comienzos de 1947, basando su campaña en la defensa de los intereses norteamericanos "amenazados por el comunismo". Ese mismo año se había abierto un proceso contra los líderes comunistas norteamericanos, acusados de poner en peligro los intereses del país y, sobre todo, contra la pretendida subversión que anidaba en Holliwood y difundía ideas comunistas desde la pantalla.
Su beligerancia la valió a MacCarthy, em 1953, la presidencia del Subcomité de Investigaciones del Senado, lo que, definitivamente, créo el clima de la Caza de Brujas. (...)
Los excesos del maccarthismo terminaron por alarmar a la prensa y a buena parte de la sociedad norteamericana, a la par que el Comité de Actividades Antinorteamericanas desbordaba lo que Eisenhower estaba dispuesto a tolerar, cuando el senador por Winsconsin comenzó a atacar a militares y políticos, llevando los casos incluso a sesiones televisadas. (...)
Em 1954, los democrátas ganaron la mayoría en el Senado y suspendieron las funciones del Comité de Actividades Antinorteamericanas, poniendo em marcha uma investigación sobre sus actuaciones. MacCarthy tuvo que abandonar la política y falleció olvidado y con el hígado destrozado, en 1957. (...)".
(In: La aventura de la Historia, p. 30)
Para um melhor entendimento do que foi a febre anti-comunista e o maccarthismo nos EUA, anos após o fim da 2ª Guerra Mundial, e em pleno contexto de Guerra Fria, ler e consultar:
- GUBERN, R- La caza de brujas en Hollywood. Barcelona: Anagrama, 1987.
- PEREIRA, J.C- Los orígenes de la guerra fría. Barcelona: Arco Libros, 1997.
- POWALSKI, R- La Guerra Fría cultural. Barcelona: Debate, 2001.
- VVAA- La paz simulada. Una historia de la Guerra Fría, 1941-1991. Madrid: Alianza, 1997.
NA NET:
http://www.mccarthy.cjb.net/history.freeyellow.com/mccarthy.htm
No ambito de um texto intitulado "Da arte enquanto construção antropológica e histórica", escreve em O Militante, Manuel Gusmão, Professor Universitário e Membro do Comité Central do PCP, relativamente ao pensamento e teorização de Marx (e Engels):
"Vou tentar esboçar uma resposta a um problema que é parte de um problema maior. Este último, que aqui apenas esboçarei, seria o seguinte: que singularidades do pensamento de Marx nos podem ajudar a compreender que ele se mantenha activo, ou que possa ainda hoje ser, quer invocado, apropriado e desenvolvido, por pensadores contemporâneos, quer recalcado, abusivamente reduzido e activamente combatido.
Uma primeira dessas singularidades, que acima referi e de que apenas esboçarei uma lista não fechada, tem a ver com o modo como esse pensamento (que é teórico e crítico, laico e programático) se entrelaçou intensamente com a esfera da acção, o que aliás ajuda a compreender que tenha sido até hoje reivindicado por organizações sociais e políticas, enquanto não há sindicatos ou partidos kantianos nem hegelianos, nem mesmo nietzschianos. Esta unidade entre pensamento e acção foi aliás frequentemente tematizada pelo próprio Marx, nomeadamente, na célebre tese 11 das Teses sobre Feuerbach: "Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes, a questão é transformá-lo".
Esta tese está aliás ligada a um modo novo de compreender o conhecimento que se afasta dos vários modos de o entender como uma relação de adequação entre uma formulação discursiva ou lógica e um estado de coisas, uma situação, etc. Esta unidade entre conhecer, pensar e transformar pressupõe que o mundo não é apenas um dado, algo que condiciona e constrange a nossa acção e as representações que dele temos- "O mundo é [também] a nossa tarefa", segundo a sugestiva formulação de um judeu alemão do século XX que viveu e pensou dramaticamente a ligação entre o materialismo histórico e o messianismo judaico.
Uma segunda singularidade do pensamento de Marx é a de ser um pensamento da história e da acção histórica que se assumiu como radicalmente laico e como sendo ele próprio histórico, não apenas na sua génese, mas enquanto sujeito à transformação ou mudança de forma no tempo. Ou seja, o marxismo pode (deve) pensar a sua própria historicidade e a sua evolução histórica. Por exemplo, tal como nasce no quadro do desenvolvimento do capitalismo, do aparecimento do proletariado e do movimento operário e, nesse sentido, é finito, assim também podemos admitir que numa situação em que o capitalismo deixasse de o ser, e fosse substituído por um sistema socialista ou comunista mundializado, então pelo menos largos aspectos do pensamento de Marx teriam deixado de ser actuais, a sua operatividade e o seu ponto de aplicação ter-se-iam, no mínimo, deslocado. Não é esta obviamente a nossa situação: a fase actual de globalização capitalista mantém se é que não acentua a necessidade do seu desenvolvimento crítico e criador. Este carácter histórico pode ser observado de diferentes pontos de vista: basta por exemplo ler os prefácios às edições do Manifesto do Partido Comunista, para encontrar em acto a consistência estratégica do pensamento de Marx e Engels e as mutações que advém da sua atenção às circunstâncias que vão mudando.
A terceira singularidade podemos enunciá-la recorrendo a Lénine (...), Lenine apresenta a certa altura uma preciosa definição da dialéctica enquanto método: trata-se, diz ele, de "uma análise dupla, dedutiva e indutiva, - lógica e histórica (...)". (...)
Ora, a dialéctica materialista, enquanto aquela "análise dupla" de que fala Lénine, é justamente a tentativa de evitar a unilateridade metafísica dessa como de outras oposições binárias. (...)
Para a quarta singularidade (...), contribuem de uma forma ou de outra, todas as anteriores. Esta singularidade tem agora a ver com o modo como a teoria da história que Marx e Engels decisivamente abrem é, ao mesmo tempo, uma teoria política da revolução social, que não é nem uma fatalidade, nem um acto de vontade. Esta concepção tem o seu núcleo duro num modo de conceber a luta de classes que, por um lado, a enraíza no processo material de produção e reprodução do viver social, na relação dialéctica, ou seja, formal e histórica, entre forças produtivas e relações de produção e, por outro lado, a projecta e coloca no horizonte teórico-prático das forças sociais e humanas como a tarefa possível e a possibilidade real de uma sociedade sem classes. (...)".
(In: O Militante. nº 266, Setembro/Outubro 2003, p. 55-57).
Assumindo inequivocamente o entendimento de que o Terrorismo é uma realidade que faz parte da multiplicidade dos cenários constitutivos do percurso histórico das sociedades contemporâneas (logo, da História Contemporânea), interferindo naqueles que são os seus caminhos e opções em termos políticos, económicos, sociais, culturais e mentais, deixamos registado um excerto de texto da autoria de José Pacheco Pereira, publicado hoje no jornal "Público", intitulado "A nova guerra total", revelador daquele que é o seu entendimento sobre a questão:
"(...) Que tipo de guerra é esta que os EUA estão a travar? A expressão "guerra ao terrorismo" é redutora para precisar o mais vasto alcance do conflito. Não sou capaz de encontrar outra designação, mas penso que é qualquer coisa entre a "guerra contra o terrorismo" e o "conflito de civilizações" de Huntington. Tem elementos de uma coisa e de outra. (...)
O que é que provoca esta guerra? Não é a pobreza, nem a exploração colonial, nem o esmagamento da identidade de nações, nem a globalização, mas a percepção tida, após 1989, da vitória potencial da democracia e do capitalismo no plano global. Contra essa vitória percebida, ergue-se uma combinação trágica, mas não se pode ocultar por motivos "politicamente correctos", de uma deriva religiosa e social que envolve o fundamentalismo islâmico. Este funciona como fronteira de resistência contra a democracia, o Estado laico, a que se associam outros elementos sociais, como seja a existência de sociedades assentes numa relação sexual de dominação total dos homens sobre as mulheres. Bernard Lewis insistiu no papel da vontade por parte dos homens de manter uma pressão social das mulheres como um dos factores de resistência do mundo islâmico a qualquer modernidade. Esta relação é uma relação de poder, societal, mais importante do que se pensa, neste lado do mundo.
Depois do fim da URSS, a expansão de um sistema mundial unipolar assente na democratização, na marginalização dos Estados párias, no isolamento dos ditadores, foi sentida no mundo muçulmano como uma ameaça para a ordem social, que tem na ordem religiosa um elemento decisivo de legitimação. Na recusa do "american way of life", recusa contraditória no plano cultural e dos costumes, está presente mais do que os EUA, mas sim todas as sociedades democráticas e os Estados laicos do Ocidente, e o seu modo de vida. Este é o aspecto civilizacional do conflito".
(In: "Público", p. 17. Sublinhado nosso.)
Recentemente no mercado uma biografia de Fidel de Castro.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
FURIATI, Cláudia- Fidel de Castro. Uma biografia. Tomo I: do menino ao guerrilheiro. Lisboa: Edições Avante, 2003.
Idem- Fidel de Castro. Uma biografia. Tomo II: do subversivo ao estadista. Lisboa: Edições Avante, 2003.
A autora:
Jornalista, escritora, guionista, produtora cinematográfica, investigadora e professora de História e de Fundamentos Científicos da Comunicação. Nascida em 1954 no Rio de Jneiro, formou-se em Comunicação Social e História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e fez o mestrado em História das Mentalidades pela Universidade Federal Fluminense. É autora de pesquisas para argumentos de cinema e televisão e realizadora de documentários. Tem colaborado, com ensaios e artigos, em jornais do Rio de Janeiro e São Paulo, assim como em publicações culturais latino-americanas.
Com base em documentos dos serviços secretos cubanos, escreveu o livro ZR, o Rifle Que Matou Kennedy, sobre o assassínio do presidente norte-americano, editado em 1993.
Quanto à publicação apresentada, a investigação e redacção foi iniciada em 1992, tendo para isso a autora residido em Cuba entre os anos de 1993 e 1998.
Em vésperas do 30º aniversário do Golpe de Estado que derrubou Salvador Allende e levou o general Augusto Pinochet ao poder no Chile (11 de Setembro de 1973), apresentamos algumas referências bibliográficas para quem se queira debruçar sobre o assunto:
- BECKETT, A- Pinochet en Picadilly. La historia secreta de Chile y el Reino Unido. Barcelona: Tusquets, 2003.
- DORFMAN, A- Más allá del miedo: el largo adiós a Pinochet. Madrid: Siglo XXI, 2003.
- ENSALACO, M- Chile bajo Pinochet. La recuperación de la verdad. Madrid: Alianza, 2003.
- QUIROGA, P (ed.)- Salvador Allende. Obras Escogidas (1970-1973). Barcelona: Crítica, 1989.
- ROJAS, P- Páginas en blanco. El 11 de septiembre en La Moneda. Santiago de Chile: Ediciones B, 2001.
- SOTO, O- El último día de Salvador Allende. Madrid: El País Aguilar, 1998.
Encontra-se já no mercado o número de Setembro da revista "História". Destacamos relativamente a esta o dossier dedicado a George Orwell.
Textos e entradas constantes:
- O humanismo reencontrado, Pedro Aires Oliveira
"Autor de uma obra notável nos domínios do ensaio, do jornalismo e da sátira política, George Orwell (1903-1950) marcou profundamente o nosso olhar sobre as perversões totalitárias do século XX e deixou-nos uma reflexão sobre a manipulação da memória e da linguagem que está longe de ter perdido a sua actualidade".
- O labirinto espanhol, Margarida Melo
"Apesar das desilusões e derrotas, a experiência da Guerra Civil Espanhola reforça a crença de Orwell no socialismo: "O que atrai os homens comuns para o socialismo é a ideia de igualdade. As milícias espanholas, enquanto duraram, constituíram uma espécie de microcosmo de uma sociedade sem classes".
- Literatura: ter algo para dizer e dizê-lo, Rui Tavares
"Contra aqueles que querem transformar Orwell num santo ou numa espécie de máquina de previsões políticas, é preciso resgatar alguns aspectos da sua importância como escritor e intelectual".
Adicionamos seguidamente os sites apresentados que versam sobre George Orwell:
- Arquivo
http://www.ucl.ac.uk/UCL-Info/Divisions/Library/special-coll/orwell.htm
- Orwell na Rússia
- O jornalista
- Sítios públicos
http://www.gutenberg.net.au/pages/orwell.html
- Biorwellgrafia
http://www.duplipensar.net/lit/g_orwell/index.html
- Orwell hoje
Na sequência do post "Os "livros negros" interpretativos da história: o percurso do capitalismo", acrescido do comentário afixado por Cau, versando sobre um artigo da autoria de Olavo de Carvalho para a publicação brasileira "O Globo", a 27 de Maio de 2002, cujo título é "História marxista é charlatanismo", registamos os capítulos e respectivos autores que dão corpo à obra, por forma a dar resposta a curiosidades acrescidas sobre o conteúdo da publicação. Temos, então:
- Prólogo: Gilles Perrault
- Nota à edição portuguesa
- Introdução, Maurice Cury (Poeta, romancista, argumentista de cinema e de televisão, autor radiofónico e teatral)
- As origens do capitalismo (séculos XV a XIX), Jean Suret-Canale (Antigo combatente voluntário da Resistência, militante clandestino das juventudes comunistas de 1939 a 1944, antigo membro do comité central do Partido Comunista Francês. Geógrafo e historiador, é autor de uma dezena de obras sobre a África Negra e o Terceiro Mundo).
- Economia servil e capitalismo: um balanço quantificável, Philippe Paraire (Autor de várias obras)
-Disparem, são só uns operários, Roger Bordier (Escritor de romances e ensaios)
- 1744-1849: um século lionês: os canuts face aos canibais do lucro, Maurice Moissonier (Historiador)
- 1871: traição de classe e semana sangrenta, Claude Willard (Historiador, professor universitário e presidente da Associação de Amigos da Comuna)
- Repressões anti-sindicais, André Devriendt (Director editorial do "Monde Libertaire". Ocupou numerosas funções sindicais)
- Os grupos armados do capital na França republicana, Maurice Rajsfus (Autor de obras especialmente dedicadas aos sistemas repressivos)
- A grande guerra: 11 500 mortos e 13 000 feridos por dia ao longo de três anos e meio, Jean-Pierre Fléchard
- Contra-revolução e intervenções estrangeiras na Rússia (1917-1921), Pierre Durand (Jornalista, historiador, especialista na Segunda Guerra Mundial)
- A Segunda Guerra Mundial, François Delpla (Historiador, especialista da segunda guerra mundial)
- Da origem das guerras e de uma forma paroxística do capitalismo, Pierre Durand (Antigo deportado-resistente em Buchenwald, especialista da deportação)
- Imperialismos, Sionismos e Palestina, Maurice Buttin (Advogado e presidente da Associação França-Palestina)
- Guerra e repressão: a hecatombe vietnamita, François Derivery (Pintor, autor de artigos de estética e de crítica)
- Massacres e repressão no Irão, François Derivery
- Genocídio anticomunista na Indonésia, Jacques Jurquet (Escritor, anticolonialista e militante comunista desde a Resistência)
- Anexação fascista de Timor-Leste, Jacques Jurquet
- O Iraque, vítima do petróleo, Subhi Toma (Sociólogo de origem iraquiana, exilado em França desde 1971. Chefiou várias missões de observação no Iraque depois da guerra de 1991)
- A África Negra sob a colonização francesa, Jean Suret-Canale
- Argélia 1830-1998. Dos balbuciamentos do capitalismo colonial até à empresa monopolista de recolonização "mundializada", André Prenant
- A África das independências e o "Comunismo" (1960-1998), Francis Arzalier (Historiador)
- As intervenções norte-americanas na América Latina, Paco Peña (Professor e jornalista chileno)
- Estados Unidos: o sonho inacabado. A longa marcha dos afro-americanos, Robert Pac (Jornalista, empenhado na luta ao lado dos negros, dos índios e dos membros de outras minirias étnicas)
- Centenário de um genocídio em Cuba. A "reconcentração" de Weyler, Jean Laille
- O genocídio índio, Robert Pac
- O capitalismo ao assalto da Ásia, Yves Grenet (Economista)
- As migrações nos séculos XIX e XX: contribuição para a história do capitalismo, Carine Andreani (Historiadora)
- Capitalismo, corrida ao armamento e comércio de armas, Yves Grenet
- Os mortos-vivos da mundialização, Philippe Paraire
- A mundialização do capital e as causas das ameaças de barbárie, François Chesnais (Economista)
- Os banqueiros suiços matam sem metralhadoras, Jean Ziegler (Deputado e professor)
- Um anúncio vale por mil bombas... Os crimes publicitários na guerra moderna, Yves Frémion (Escritor e jornalista)
- E mesmo assim a abolição do capitalismo não seria suficiente..., Monique e Roland Weyl (Advogados)
- A ditadura fascista: um capítulo negro do capitalismo português, Agostinho Lopes (Militante do PCP)
- Capitalismo e barbárie: quadro negro dos massacres e das guerras no século XX: 1900-1997.
No "Prefácio" constante do 1º volume da biografia de Álvaro Cunhal, elaborada por Pacheco Pereira, considera este a propósito da construção da história do PCP, da ideia de história de Álvaro Cunhal e, paralelamente, sobre a pessoa deste:
" (...) O problema do PCP não é com as "análises", é com os factos. No plano ideológico e político, Álvaro Cunhal tem uma concepção instrumentalista da história que tem a ver, acima de tudo, com a "identidade". Para Cunhal, a história tem sentido e direcção, logo uma retaguarda e uma vanguarda. Há quem esteja com a história e quem esteja contra a história.
Daí que a própria revelação dos factos têm a ver com a sua hierarquia em relação ao sentido dessa história. Uma história que não seja assim é percebida como uma invasão na identidade partidária, uma perigosa ruptura com essa hierarquia de acontecimentos. Está, para Cunhal, uma batalha em curso, usando a "história" do PCP como arma, e ele não quer ajudar os "inimigos" do partido. A "história" do PCP é, para ele, um instrumento de "luta" e, face a esta concepção da história, há "amigos" e há "inimigos".
Num texto já antigo que escrevi, o primeiro que se publicou sobre a resistência do PCP ao conhecimento da sua história, e que suscitou na altura uma dura polémica porque o PCP e a esquerda o receberam quase como uma provocação, identifiquei os núcleos de omissão e manipulação que o PCP transportava consigo. Quase vinte anos depois, pouco mudou: os mesmos períodos malditos, as mesmas pessoas obliteradas dos acontecimentos, os mesmos documentos desaparecidos, os mesmos critérios de exclusão e inclusão do que é politicamente aceitável ou é para esquecer.
De mal com a sua história, o PCP não consegue libertar-se não só da instrumentalidade, mas também dos fragmentos de "história oficial" que produziu e que qualquer investigação histórica contraria. Resta-lhe uma resistência cada vez mais sem sentido- o silenciamento forçado dos seus militantes, os arquivos fechados, a incomodidade crescente, cada vez que se conhece mais sobre o que se passou".
(PEREIRA, José Pacheco- Álvaro Cunhal. Uma biografia política. "Daniel", o jovem revolucionário (1913-1941). Volume 1. Lisboa: Temas e Debates, 1999, p. XIII-XIV).
O fenómeno da "Globalização" (política, económica, cultural...) pode ser interpretado de forma diferente, porque mais alargada, do que aquela como é feita actual e quotidianamente.
De facto, existem propostas que o situam num plano mais amplo do tempo, em que remetem a sua origem a épocas relativamente recuadas no âmbito do processo histórico.
Considera-se, por exemplo, que a "Globalização" vem atravessando fases distintas, sendo que as características que vem assumindo nas últimas décadas as distingue de períodos anteriores, pelas seguintes razões:
- O papel que tem assumido a globalização da informação.
- A globalização militar.
- A globalização ambiental.
São, pois, estas as principais diferenças entre o que vivemos e presenciamos hoje e o que se passou, por exemplo, entre o século XIV e grande parte do século XX, sendo que neste importantes evoluções se vieram já a registar.
A nota quanto a este tema e possibilidade de abordagem fica feita. A ideia fica lançada.
Registamos que voltaremos ao assunto, atendendo à importância e pertinência deste tipo de abordagem histórica, à qual não podemos ficar indiferentes.
Sendo composto por um conjunto razoável de capítulos da autoria de vários autores, O livro negro do capitalismo, cuja apresentação no mercado é da responsabilidade da editora Campo das Letras, apresenta-se como uma proposta (entendida como correcta e verdadeira) de análise e interpretação da História Mundial do século XV ao século XX.
Naquela que é a sua "Introdução", Maurice Cury- poeta, romancista e argumentista francês- escreve, pois, o propósito da publicação, não sem incluir um início de enquadramento imbuído de crítica e, simultaneamente, de alguma ironia. Vejamos:
"O mundo dominado pelo capitalismo é o mundo livre; o capitalismo, designado actualmente apenas por liberalismo, é o mundo moderno. É o único modelo de sociedade , senão o ideal, pelo menos o mais satisfatório. Não existe e jamais existirá outro.
É este o canto unânime que entoam não só os responsáveis económicos e a maior parte dos responsáveis políticos, mas também os intelectuais e os jornalistas que têm acesso aos principais media: os audiovisuais, a imprensa, a grande edição, geralmente nas mãos de grupos industriais e financeiros. Não que o pensamento dissidente seja de modo algum proibido (liberalismo oblige!), mas acaba por ser canalizado para uma quase clandestinidade. Eis a liberdade de expressão com que se deliciam os apoiantes do nosso sistema liberal.
A virtude do capitalismo reside na sua eficácia económica. Mas em benefício de quem e a que preço? Nos países ocidentais, que são a montra do capitalismo (enquanto o resto do Mundo será mais ou menos o seu armazém das traseiras), examinaremos os factos".
E são realmente examinados os considerados "factos", num total de 622 páginas.
Referência bibliográfica:
AAVV- O livro negro do capitalismo. Porto: Campo das Letras, 1998 (Colecção Campo da História, 8).
Para todos aqueles que se interessam pelo estudo do Comunismo em termos gerais, suas diferentes manifestações e interpretações, assim como pela história do Partido Comunista Português, ou manifeste interesse por publicações específicas que façam abordagens em seu torno, recomendamos a consulta do blog de José Pacheco Pereira "Estudos sobre o Comunismo" (http://www.estudossobrecomunismo.blogspot.com) que inclui, como o próprio indica "Notas, perguntas, bibliografias, estudos sobre a história do comunismo em Portugal e no mundo".
Na sequência das recolhas que temos vindo a fazer relativas ao pensamento de várias personalidades sobre a evolução do processo histórico, e em particular sobre o século XX, registamos neste post a visão sobre a matéria apresentada por Álvaro Cunhal, dirigente histórico do Partido Comunista Português.
O excerto que se segue resultou de uma intervenção enviada ao Encontro Internacional sobre a "Vigencia y actualización del marxismo", organizada pela Fundación Rodney Arismendi, em Montevideo, de 13 a 15 de Setembro de 2001, por ocasião do 10º aniversário da sua constituição e incide, inequivocamente, sobre a importância que a revolução de 1917, a constituição da ex-URSS e o movimento internacional comunista tiveram para o desenrolar de um período histórico específico, onde dois sistemas e duas grandes ideologias existiam e se confrontavam.
Escreve, então, o ex-Secretário Geral do PCP:
"O século XX fica assinalado para sempre pela revolução russa de 1917, pelo poder político do proletariado e pela construção duradoura, a primeira vez na história, de uma sociedade sem exploradores nem explorados.
Tinham-se registado anteriormente insubordinações, rebeliões e revoltas. Dos escravos, dos servos da gleba, das classes exploradas e oprimidas. Mas em nenhum caso essas lutas tinham o objectivo (ou sequer a admissão da possibilidade) de construir uma sociedade nova libertadora.
A falsidade da historiografia oficial, as caluniosas e gigantescas campanhas anticomunistas e o renegar do próprio passado por alguns, tornam necessário aos comunistas lembrar o que foi e significou a revolução russa de 1917 e a construção da União Soviética. Lembrar e justificar a afirmação de que se trata do principal acontecimento histórico do século XX e um dos mais assinaláveis na história da humanidade.
Lembrar também que, antecedente próximo da revolução russa, na Comuna de Paris de 1871, o proletariado tomou o poder e, dando prova de um heroísmo de massas, iniciou a construção de uma nova sociedade. (...)
Mas sublinhar sempre que, vencida a Comuna de Paris, não o foi o curso da nova história da humanidade que ela iniciou, por ter sido como que a alvorada anunciadora da revolução russa de 1917 que iniciou de facto o caminho de um novo sistema social, sem precedentes na história. Muitos esquecem que, ao longo de mais de meio século, esse sistema ganhou terreno como alternativa ao sistema capitalista. São acontecimentos que ficarão para sempre como referência e valores da humanidade na luta pela sua própria libertação.
A edificação do novo Estado, traduzida na consigna "todo o poder aos sovietes de operários, camponeses e soldados", significou a instauração do poder popular e um elemento-base do Estado e de uma democracia "mil vezes mais democrática que a mais democrática das democracias burguesas".
No plano económico, a partir do controle operário, as terras, as fábricas, as minas, os transportes ferroviários, os bancos, passaram a pertencer ao Estado de todo o povo, determinando um fulgurante desenvolvimento.
A par das empresas do Estado, realizou-se uma profunda transformação da agricultura, com a colectivização agrícola, na qual sovkozes (unidades do Estado) e o movimento colkoziano de massas (cooperativas) desempenharam papel determinante.
No plano social foram assegurados os direitos à habitação, à assistência médica e ao ensino. Foi reconhecida de facto a igualdade de direitos às mulheres. Foram libertadas do domínio dos grandes senhores as instituições culturais.
A União Soviética alcançou grandes descobertas e avanços na ciência e nas novas e revolucionárias tecnologias, que lhe permitiram, a par do desenvolvimento económico e social, atingir um potencial militar que, durante décadas, manteve em respeito a política agressiva do capitalismo. (...)
É também necessário que não se esqueça a contribuição que a União Soviética deu para o desenvolvimento da luta dos trabalhadores e dos povos do mundo, para novas revoluções socialistas, para a conquista de direitos fundamentais pelos trabalhadores nos países capitalistas, para o desenvolvimento do movimento nacional libertador e para, ao preço de 20 milhões de vidas (...), derrotar a Alemanha hitleriana na 2ª Guerra Mundial, dando contribuição decisiva para salvar o mundo da barbárie fascista. (...)
Embora contido pelo campo socialista e pelo avanço do processo revolucionário mundial até às últimas décadas do século XX, o capitalismo registou um desenvolvimento que o levou a atingir, no fim do século, a supremacia em termos mundiais.
Dois factores determinaram esta situação.
Por um lado, o desaparecimento da União Soviética e outros países socialistas, o enfraquecimento do movimento comunista internacional e do movimento nacional de libertação, a regressão de processos revolucionários.
Por outro lado, o desenvolvimento do capitalismo nas esferas da produção, da ciência, da investigação científica, das tecnologias revolucionárias e da força militar.
Daqui resultou no findar do século XX, uma alteração da correlação de forças que permitiu ao imperialismo lançar uma gigantesca ofensiva visando alcançar o domínio absoluto em todo o planeta.
Em mais de três quartos do século XX, a tendência geral da evolução foi o avanço do socialismo e da luta libertadora dos povos.
Uma inversão dessa tendência dá-se nas últimas décadas do século. A alteração da correlação de forças, tornou possível ao capitalismo desencadear uma ofensiva global. (...)".
(CUNHAL, Álvaro- "As seis características fundamentais de um partido comunista", in Elementos fundamentais de um partido comunista. Edição da Comissão Concelhia da Amadora do PCP, 2003, p. 1-4. Sublinhados do autor).
No mês de Maio de 1999 realizou-se o 1º Colóquio Internacional "Impunidade e Direito à Memória", organizado pela Fundação Humberto Delgado e pela Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, tendo tido lugar na Fundação Calouste Gulbenkian. Deste encontro, que reuniu várias personalidades nacionais e internacionais, resultou uma obra intitulada De Pinochet a Timor Lorosae. Impunidade e direito à memória, publicada pelas Edições Cosmos.
Introduzindo tal publicação temos um texto de Iva Delgado (filha do General Humberto Delgado) onde a problemática em torno da "Memória" se coloca de forma particularmente aguda, chamando-se a atenção para situações várias de ordem quotidiana que levam ao seu redimensionar construtivo, ao esquecimento, à deturpação ou ao branquemento.
Pela importância e pertinência que tal abordagem reveste para uma maior consciencialização daquilo que é ou pode ser o imperfeito entendimento da História e da actuação dos seus agentes, registamos algumas ideias da autora:
"(...) A sociedade intemporal e imediatista em que vivemos, aparentemente sem ramificações com o passado e destituída de apetência para se analisar na sua contingência estrutural, contribui para o apagamento paulatino da memória histórica, quer pelo permanente e obsessivo reajuste político do presente, quer pelo repescar de temas ou monumentalização de personalidades, trazidos à actualidade por uma questão de oportunismo, moda ou simples capricho mediático. Assim, se por um lado existe um apetite global por temas históricos, quando eficazmente envolvidos pela roupagem apetecível da mediatização, por outro, há uma secundarização da informação e da investigação histórica, tornando esta, por vezes, mera auxiliar dos produtores de documentários que nos trazem em linguagem up to date essa memória reformulada.
Esta apropriação dos diversos passados para efeito de espectáculo tende a criar conceitos novos de interpretação que relativizam a forma como se apreciam regimes opostos como ditadura e democracia. A apresentação das diversas versões e o desejo de ouvir os dois lados, sem que se esboce uma fronteira ética mínima que permita estabelecer quem agiu contra a humanidade e quem lutou a seu favor, transforma o passado num manancial de narrativas utilizáveis por qualquer um, ao qual se retirou substância dramática e se imprimiu o cunho de faits divers, e que apenas interessa pontualmente como alimento da voragem informativa".
Estabelecendo a relação entre a construção e consolidação da "Memória" com a História do século XX, considera Iva Delgado:
"(...) No contexto das ditaduras totalitárias do século XX a memória enquanto instrumento do poder revelou-se indispensável à manipulação de consciências. Com efeito, com o fim de subordinação consensual das massas, reescreve-se a História para que o poder obtenha uma legitimação ideológica reforçada. É a partir do voluntarismo do poder e não de factos documentados que se estabelece a verdade oficial. Não interessa a realidade recuperada através dos vestígios, documentos e testemunhos, mas a simulação de factos cimentados pela ideologia. Quando estes não encaixam no tabuleiro do poder, são pura e simplesmente anulados. A destruição massiva de documentos, de sinais do passado, de testemunhos, de pessoas e até de povos e culturas serve o propósito de apagamento, da alteração e reinserção dos novos dados ajustados às necessidades políticas do poder vigente".
Estabelecendo a ponte entre esta questão e aquela relativa à "Impunidade", considera:
"(...) A questão da impunidade está intimamente ligada à da diluição da memória num mundo de permanente evasão, ao poder oculto do esquecimento que ergue barreiras de desconhecimento e de ignorância indispensáveis para que as falsificações do passado, em nome de interesses pontuais surtam efeito e colham defensores. A deturpação intencional e determinada, que coloca em plano de igualdade, para efeito de repreciação histórica, os factos ocorridos durante a vigência de um regime repressivo com os de uma sociedade aberta, cria e inventa figurinos virtuais do passado, que apaziguam ou pretendem apaziguar a revolta latente perante violências e arbitrariedades".
(DELGADO, Iva et al (org.)- De Pinochet a Timor Lorosae. Impunidade e direito à memória. Lisboa: Edições Cosmos, 2000, p. 9-12).
A filosofia de Hegel era entendida como doutrina quase oficial das universidades prussianas, sendo igualmente bastante considerada pelos dirigentes políticos da Prússia. Tal facto levou a que, ainda em vida do filósofo, esta começasse a ser contestada, nomeadamente pelo aproveitamento que do seu pensamento era feito pela igreja luterana e pelos meios conservadores alemães.
No plano da crítica filosófica, religiosa e política surgem uma série de indivíduos que passam a ser considerados como pertencentes à "Esquerda Hegeliana", pelas fortes críticas que dirigem ao seu sistema filosófico. Sendo no terreno religioso que se começa por combater a ordem estabelecida, destacam-se a este nível nomes como os de David Strauss, Bruno Bauer e Ludwig Feuerbach.
Importa a este propósito registar que as teorias de Hegel, em particular aquela relativa ao desenvolvimento do processo histórico, vai ser repegada por Karl Marx, embora como este próprio dizia, virada do avesso. Valorizando a visão dialéctica de Hegel, a História vai ser entendida não como o desenvolvimento ou a caminhada do Espírito, mas como o palco de constantes lutas de classes, no sentido do alcançar da vitória das classes oprimidas e de uma sociedade comunista representativa de um reino mundial da efectiva Liberdade.
Hegel (1770 Estugarda-1831 Berlim) foi o principal representante do Idealismo alemão. No âmbito do seu sistema filosófico apresenta o mundo como resultante do desenvolvimento do Espírito (do Absoluto), desenvolvimento este que se realiza através de um processo dialéctico (tese, antítese, síntese).
De acordo com Hegel a História nada mais representa do que um processo racional, que traduz, em fases distintas, os resultados das implicações da "Ideia de Liberdade". Entende o filósofo que a Liberdade é a essência do Espírito, sendo a Filosofia da História, por isso mesmo, parte da Filosofia do Espírito.
A História é apresentada como um desenvolvimento progressivo em direcção a determinado sentido, ideia esta característica do pensamento Iluminista. E esse sentido, que implicava um percurso por fases determinadas era, inequivocamente, a realização da Liberdade, que nada mais é do que o reconhecimento e a adopção de objectos substanciais universais como o Direito, a Lei e, em última instância, o Estado.
No que concerne às acções específicas dos indivíduos, estas deveriam ser entendidas dentro de um determinado contexto histórico que exigia ou tornava necessárias a sua efectivação, o mesmo se verificando no que respeita a instituições e formas de governo.
No caso do desenvolvimento das nações, este significava contributos particulares ao nível religioso, político, moral, legal, científico e artístico, para o progresso histórico global, ou seja, para o desenvolvimnento do Espírito do Mundo.
Como obras principais Hegel deixou: Fenomenologia do Espírito (1807), A cidade da lógica (1812-1816), Filosofia do Direito (1821) e as Conferências sobre a Filosofia da História (proferidas nos últimos anos da sua vida).
Registemos, então, alguns excertos de textos por si produzidos:
"Deve-se observar desde o início que o fenómeno que investigamos- História Universal- pertence ao domínio do espírito. (...)
Na posição em que a observamos- A História Universal- o Espírito manifesta-se na sua mais concreta realidade. Não obstante isto (...) devemos mencionar algumas características abstractas da natureza do espírito. (...) No presente não é oportuno expor a ideia de Espírito especulativamente, porque tudo o que tenha lugar numa introdução deve, como já se observou, ser tomado como simplesmente histórico; algo considerado como já tendo sido explicado e comprovado noutro lugar, ou cuja demonstração aguarda a confirmação da própria Ciência Histórica. Temos portanto de mencionar aqui:
1) As características abstractas da natureza do Espírito.
2) Os meios que o Espírito utiliza para realizar a sua Ideia.
3) Por último devemos considerar a forma que assume a corporação perfeita do Espírito- o Estado.
(...), a essência do Espírito, é a Liberdade. Todos admitirão sem hesitar a teoria de que o Espírito, entre outras propriedades, também é dotado de Liberdade. (...)
A questão dos meios pelos quais a Liberdade se desenvolve num Mundo conduz-nos ao fenómeno da própria História. Embora a Liberdade seja em princípio uma ideia incoativa, os meios que usa são externos e fenoménicos e oferecendo-se na História à nossa visão sensível. O primeiro relance à História convence-nos de que as acções dos homens provêm das suas necessidades, paixões, caracteres e talentos, e impõe-nos a convicção de que tais necessidades, paixões e interesses são as únicas fontes de acção (...).
Esta vasta acumulação de vontades, interesses e actividades constitui os instrumentos e os meios que o Espírito cósmico usa para atingir o seu objectivo, tornando-o consciente e efectivando-o. (...) Mas poderia pôr-se em dúvida que essas manifestações de vitalidade da parte de indivíduos e povos, nas quais eles procuram e satisfazem seus próprios fins, fossem ao mesmo tempo os meios e instrumentos de um fim mais alto e vasto, do qual nada sabem- que realizam inconscientemente (...). Mas sobre esta questão, logo no início anunciei o meu ponto de vista e defendi a nossa hipótese (...) e a nossa convicção de que a Razão governa o mundo e tem, consequentemente, governado a sua história. Em relação a esta existência universal e substancialmente autónoma- tudo o mais se lhe subordina e submete, bem como os seus meios de desenvolvimento. (...)"
No que respeita ao desenvolvimento do Espírito no sentido de alcançar o seu objecto- o Estado-, escreve o filósofo:
"(...) em que material se concretiza o Ideal da Razão? (...), afirmamos que a Lei, a Moral e o Governo, e só eles, são a realidade e acabamento positivos da Liberdade. A Liberdade de uma ordem mesquinha e limitada é um mero capricho que se realiza na esfera dos desejos privativos e limitados.
Na história do Mundo apenas podem atrair a nossa atenção os povos que constituem um estado. Porque é preciso compreender que este representa a realização da Liberdade, isto é, do objectivo último e absoluto, e que existe apenas para a assegurar. Além disso deve-se compreender que tudo o que o ser humano tem de valioso, toda a realidade espiritual, ele possui por intermédio do Estado".
(Excertos extraídos de: GARDINER, Patrick- Teorias da história. 4ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1995, p. 73-82. Sublinhado nosso).
Foram já apresentadas em posts anteriores algumas ideias em torno do optimismo/pessimismo no que concerne ao desenvolvimento do processo histórico, sendo de destacar a referência a autores/pensadores que lançam um mais directo olhar sobre o século XX.
Convém nesta sequência deixar registado, em jeito de chamada de atenção, desafiadora para futuros desenvolvimentos, que desde o princípio do século passado os temas da decadência e das elites estiveram na ordem do dia.
No que respeita ao primeiro, e em termos de abordagem, destacam-se nomes como o de Albert Demangeon ("declínio da Europa"), Oswald Spengler ("declínio do Ocidente"), Danel Halévy ("decadência da liberdade"), Robert Aron e Arnaud Dandieu ("decadência da nação francesa"). Após a Segunda Guerra Mundial o tema assume importância redobrada, afirmando-se de forma muito especial por parte de países que até ai se consideravam como os efectivos depositários da "Civilização". Em termos de respostas propostas temos o sonho ideocrático de Paul Valéry (1871-1945), o recurso à força de Spengler (1880-1936), à religião em Toynbee (1899-1975), à aventura ou a arte em Malraux.
Relacionada com a abordagem referenciada temos aquela relativa às elites, sendo o recurso a si feito não somente pelos regimes italiano e alemão. Para além do fascismo italiano ou do nacional-socialismo alemão, diversos autores que defendem posições liberais chamam a atenção para a distância verificada entre as elites governantes e os governados. Neste âmbito vale pois a pena registar nomes como o de Vilfredo Pareto (1848-1923), Gaestano Mosca (1856-1941), Max Weber (1864-1920) e Robert Michels (1876-1936).
A cada uma destas personalidades será feita complementaridade com a síntese do seu pensamento para melhor conhecimento e compreensão das teorias desenvolvidas e defendidas.
A análise da evolução tecnológica e a sua relação com a própria sociedade da informação, fazem com que Paul Virilio (1932- ), conhecido como o "pensador da velocidade" apresente na obra Cibermundo: a política do pior (resultante de uma entrevista que lhe foi feita) uma série de reflexões relacionadas com a concepção de História e, por inerência, com as noções de tempo, espaço, velocidade, corporeidade, trajecto e acidente, sendo que cada uma delas por si só tem um papel primordial para o entendimento do que são hoje e serão no futuro as vivências humanas e o seu enquadramento a um âmbito mais alargado.
Virilio vive e sente a História com uma especificidade muito própria, relacionando-a, inclusive, com a própria forma como os acontecimentos são apresentados através dos media. Ou seja, a imediatização de tudo, o directo, o aqui e agora, como que retiram a temporalidade dos factos e acontecimentos. A presentificação da História é um facto, significando esta que "...a imediaticidade do presente tem primazia sobre o passado e sobre o futuro". Os flashes e as imagens apresentados são, pois, um comprovativo de tudo isso, realidade esta sustentada pela forma como os media trabalham, não já sobre a forma de narração.
Temos então a constatação da imposição de uma teoria da economia política da velocidade caracterizadora das sociedades actuais, integradas estas no tempo histórico em que se vive, pois "No momento em que se é ameaçado por uma cibernética social, pelas telecomunicações, pela Internet e pela automatização da interactividade, é necessário que haja uma economia política da velocidade como há uma economia política da riqueza e da acumulação. Senão, não poderemos resistir a esta poluição das distâncias que é imperceptível e invisível".
Ao reflectir sobre a presentificação da História, a aceleração das informações e sobre a política da velocidade, Virilio chama a atenção para aquilo a que denomina de "amputação do volume do tempo". Na medida em que o tempo é volume e o Homem está inserido em três dimensões de tempo cronológico (passado, presente e futuro), com a força que actualmente reveste a dimensão presente, esse mesmo volume é posto em causa: porque cada vez mais se vive em tempo real que questiona a efectividade de uma série de outras vertentes e nos faz remeter para outras noções.
A nova concepção de tempo leva-nos necessariamente para um outro conceito de espaço e de velocidade. Se o presente é o que se impõe, a aceleração predomina, logo, o espaço reduz-se. Ou seja, através da "hiperconcentração do tempo real", há o caminhar para o desenquadrar do Homem da tridimensionalidade temporal, devido à imposição do actuar à "velocidade da luz", o que implica por seu lado, o alterar do próprio conceito de trajecto, o qual, por si só, também tem como inerente três dimensões (partida, viagem, chegada) e do conceito de corporeidade que cada vez mais se vai transformando em virtual ou numa espécie de "presente-ausente", sem que a matéria lá esteja. E no meio de tudo isto, o acidente (o que significa a negatividade ou o lado negativo que a própria evolução comporta) a acontecer, passa de local e geral porque o estreitamento do Mundo assim o permite.
É portanto constatável que Paul Virilio interpreta as evoluções tecnológicas e o que caracteriza a sociedade da informação de uma forma muito para além do meramente factual ou reduzido a uma análise de carácter micro. Há outros patamares que são atentamente referenciados e que enquadram tudo aquilo que se vai verificando a um nível mais do senso comum, sendo precisamente esses aspectos que são valorizados por outros analistas e estudiosos, mas sobretudo pelo cidadão comum que facilmente se rende e deslumbra com tudo aquilo que de novo vai surgindo, acelerando por isso determinado tipo de consumos, adoptando determinados comportamentos e hábitos, conduzindo por tudo isso a determinado tipo de produções e práticas a vários níveis da vivência social.
(Referência bibliográfica: VIRILIO, Paul- Cibermundo: a política do pior. Lisboa: Teorema, 2000).
Sociólogo francês, Henri-Pierre Jeudi, na sua obra A sociedade transbordante, publicada em Portugal pelas Edições Século XXI, apresenta uma abordagem da História profundamente relacionada com a forma como caracteriza e interpreta o mundo contemporâneo, absolutamente imbuído pela cultura dos média e da comunicação, com interferência inequívoca das novas tecnologias da informação.
Entendendo a época actual como altamente propiciadora para a criação de ilusões na e da História, a vertente simbólica é por demais valorizada e feita relacionar com um processo específico que se encontra em curso e que molda as formas de imposição ou, mais suavemente, de construção da memória.
Neste sentido entende o investigador que:
"Na construção do acontecimento, os media elaboram um enquadramento. Podemos assim dizer que participam plenamente na realização da história. Mas de qual história? (...)
Mais do que nunca, num processo de mediatização geral, a lógica da história exibe-se como uma abstracção total, como o fruto da própria produção dos acontecimentos. Assim se constrói a antecipação da continuidade. O que acontece, devia acontecer, era inevitável. (...) Como poderia a verdade ser falsificada? Esta lógica da História funda-se no seu próprio poder moralizador, sendo cada acontecimento testemunha exemplar na medida em que não é ensombrado pela sua apresentação desviada. Esse jogo de reenvio em espelho entre o acontecimento, a sua encenação, a sua interpretação, a sua significação consignada, supõe uma certa orquestração. Pode-se sempre considerar os jornalistas e os homens políticos como os organizadores de uma tal cenografia. Mas isso em nada explica a perfeição do fechar-se em círculo da própria história. Pouco importam as responsabilidades! Sabia-se que os media eram um excelente instrumento para fazer história, mas apercebemo-nos também do quanto eles permitem encenar a Razão aparente da história".
(JEUDY, Henri-Pierre- A sociedade transbordante. Lisboa: Edições Século XXI, [1995] p.51-54).
Pela importância que assumem presentemente as relações construidas ou que podem ser construidas entre a vivência da História e a Sociedade da Informação e da Comunicação, com todas as características a esta inerentes, com este post iniciamos a abordagem de tal problemática, assim como a procura, recolha e selecção de opiniões ou teorizações em torno das questões que a este nível podem ser levantadas. Porque, relativamente a um passado não muito recente, as categorias de "espaço" e de "tempo" são concebidas, sentidas, vividas e potenciadas de forma diferente, o entendimento do processo histórico de tais alterações não poderia ser afastado. Por isso a necessidade de chamar a atenção quer para as causas, quer para os desenvolvimentos, quer para as implicações.
Resultante do XI Curso de Verão subordinado ao tema "Grandes Correntes Políticas e Culturais do Século XX", realizado pelo Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, nos dias 17 a 19 de Janeiro de 2002, foi editada obra com o mesmo título sob a coordenação científica do Dr. António Reis. Pelo facto do seu conteúdo ser um importante contributo para a melhor compreensão daquela que tem sido a evolução do processo histórico, nomeadamente no século XX, deixamos aqui o seu registo e informação adicional entendida como relevante para a sua mais completa apresentação.
Dividida em três grandes áreas, a obra encontra-se estruturada da seguinte forma, atendendo também às diversas personalidades intervenientes:
I- AS RESPOSTAS À CRISE DO SISTEMA LIBERAL (1900-1945)
- Regimes fascistas: elites, partido único e decisão política nas ditaduras da época do fascismo (António Costa Pinto).
- Os reformismos político-sociais europeus entre 1900 e 1940 (Mário Sottomayor Cardia).
- Comunismos marxistas (João Madeira).
- Irracionalismos (António Reis).
- Vanguardismos e realismos. O lugar da realidade no tempo da revolução (Luís Trindade).
II- OS CONFRONTOS IDEOLÓGICOS NO MUNDO BIPOLAR (1945-1989)
- Social-Democracia e Democracia Cristã no mundo bipolar (1945-1989) (Pedro Oliveira).
- Novas formas de comunismo e radicalismo de esquerda (João de Almeida Santos).
- Neopositivismo e Estruturalismo na Europa do século XX (António Marques).
- Racionalismo Crítico (Maria João Cabrita).
III- A GLOBALIZAÇÃO E OS SEUS DESAFIOS
- A globalização e as suas alternativas (João Ferreira do Amaral).
- Pós-Modernismo e Pós-Modernidade (Eduardo Prado Coelho)
A propósito da periodização apresentada e das temáticas abordadas a si inerentes, escreve António Reis:
"A crise do sistema liberal (1900-1945), os confrontos ideológicos no mundo bipolar (1945-1989) e a globalização actual expressaram e originaram sucessivas e diferentes correntes políticas e culturais, que se interinfluenciaram e contribuiram para as mudanças operadas na opinião pública e na sociedade. Dos nacionalismos antiliberais ás novas formas de comunismo e radicalismo de esquerda, dos reformismos democráticos à social-democracia, à democracia cristã e aos desafios da globalização, das diferentes formas de irracionalismo, vanguardismo e realismo ao pós-modernismo, do neopositivismo ao racionalismo crítico, é o rico, trágico e contrastado século XX que aqui perpassa, sem, no entanto, neles se pretender esgotar toda a sua diversidade política e cultural".
Fica, pois, uma proposta/possibilidade de abordagem.
Referência bibliográfica:
As grandes correntes políticas e culturais do século XX: [actas] do XI Curso de Verão do IHC-UNL. Coord. de António Reis. Lisboa: Edições Colibri, 2003.
Continuando a recolha e apresentação de opiniões relativas às imagens construídas sobre o século XX e perspectivas de futuro deixamos, com este post, as palavras de Boris Ponomariov escritas no livro O comunismo num mundo em mudança, absolutamente reveladoras de uma ideia de destino e fim da História, desta feita, rumo ao Comunismo e às consequências dai advindas para a Humanidade.
Chamamos a atenção para o facto do livro em causa ser datado de 1985, portanto, imediatamente anterior a todo um processo que se iria verificar na ex-URSS, condutor à sua desagregação e ao fim do regime comunista até então vigente desde a Revolução de Outubro de 1917.
Escreve Ponomariov:
"No nosso século, complexo e cheio de acontecimentos, realizações e viragens históricas, a humanidade pensa mais frequentemente no seu futuro. Que lhe propõem as duas principais correntes ideológico-políticas da actualidade: a burguesa e a do socialismo científico? O pessimismo e a incerteza do futuro sopram da primeira corrente. (...)
Os comunistas têm uma visão radicalmente diferente do futuro da humanidade, visão que se baseia no optimismo histórico. Estão convencidos de que o futuro da humanidade é a sociedade sem guerras, sem confrontos catastróficos entre os povos, porque desaparecerão as causas que as geram e as forças sociais que beneficiam do ódio e da desconfiança que semeiam na terra e que lucram e prosperam à custa das guerras, dos conflitos internacionais e da tensão internacional. Será uma sociedade sem militarismo nem despesas para fins militares, uma sociedade como escreveu K. Marx, "cujo governo internacional será a Paz, porque o seu governante nacional será por toda a parte o mesmo- o Trabalho". É óbvio que as guerras serão excluídas da vida da humanidade, pois não haverá motivos que as gerem. A sociedade chegará ao desarmamento!
Partindo das leis de desenvolvimento da sociedade humana e da análise dos processos sociais contemporâneos, apoiando-se nas conclusões da ciência marxista-leninista, os comunistas estão convencidos de que a organização comunista da sociedade se implantará necessariamente no planeta, pois este é a marcha progressista e irrevogável da história. (...)
O caminho do socialismo para o comunismo estende-se por várias etapas sucessivas e estreitamente ligadas entre si. (...)
Na etapa final de construção da sociedade socialista sem classes delinear-se-ão os contornos, os traços da sociedade comunista.
O pensamento marxista-leninista parte de que o comunismo acabará, em primeiro lugar, com a miséria e a penúria, assegurando assim o bem-estar a todos os cidadãos. (...)
(...), o desenvolvimento multiforme do homem nas condições do regime comunista contribui para o florescimento de todas as capacidades do indivíduo, facto que torna o seu trabalho, realizado à medida das suas capacidades, mais produtivo e interessante. (...), em consequência da supressão da divisão tradicional do trabalho, criar-se-ão as condições indispendáveis para que cada um possa efectuar o trabalho que melhor corresponda às suas capacidades e vocações e que mais lhe agrade. (....), no comunismo, o cumprimento do dever de trabalhar concretizar-se-á de maneira diferente da que existe sob o socialismo. (...) O pensamento marxista considera que no comunismo todos os membros da sociedade vão trabalhar estimulados por nobres incentivos morais e elevada consciência. (...)"
(PONOMARIOV, Boris- O comunismo num mundo em mudança. Lisboa: Edições Avante, 1985, p. 279-285. Sublinhado nosso).
Tendo sido já por nós abordado em post editado no passado mês de Agosto, Francis Fukuyama é agora retomado, desta vez, para registo da análise que faz do século passado, assim como da posição que relativamente a este assume, objectivando-se igualmente uma melhor percepção de como essa posição (que é evolutiva, não se mantendo idêntica para a totalidade dos 100 anos em questão) se vai relacionar com aquele que é o caminho em direcção ao fim da História preconizado e defendido. Outro aspecto de fundamental importância é a abordagem relativa à evolução (ou não) da moral do/no Homem, aliada esta ao decorrer do processo histórico, acrescentando-se igualmente o reconhecimento de problemas de ordem intelectual.
Face à análise e apreciação feitas do percurso histórico, Fukuyama acaba por questionar a tão instalada ideia de pessimismo relativamente ao século XX (ou estado a que este habituou), pessimismo este que acabaria por se estender às evoluções decorrentes nos tempos futuros, diluindo-se e confundindo-se com o próprio fluir da História.
As ideias do autor são recolhidas da sua obra O fim da história e o último homem, também ela alvo de atenção anterior.
Assim, e para Francis Fukuyama:
"O século XX, pode-se dizê-lo, fez de todos nós profundos pessimistas históricos. (...)
O pessimismo do século XX contrasta nitidamente com o optimismo do século anterior. (...) O extremo pessimismo do nosso próprio século é, pelo menos em parte, devido à crueldade com que estas expectativas iniciais fossem esmagadas. A primeira guerra mundial foi um acontecimento crítico, que minou a auto-confiança da Europa. A guerra derrubou, claro, a antiga ordem política representada pelas monarquias alemã, austríaca e russa, mas o seu mais profundo impacte foi de ordem psicológica. (...) As virtudes da lealdade, do trabalho árduo, da perseverança e do patriotismo foram aplicadas na chacina sistemática e inútil de outros homens, desacreditando, deste modo, todo o mundo burguês que havia criado estes valores. (...)
Como se verificaria, a primeira guerra mundial foi apenas um aperitivo para novas formas de malignidade que surgiriam, em breve, no futuro. Se a ciência moderna tornou possível o fabrico de armas com uma capacidade de destruição nunca vista, (...), a política moderna criou um estado de poder sem precedentes, para o qual estava ainda por inventar uma palavra nova: totalitarismo. Apoiado por uma eficiente força policial, por partidos políticos de massas e por ideologias radicais que visavam controlar todos os aspectos da vida humana, este novo tipo de estado lançou-se num projecto que não ambicionava menos do que dominar o mundo. (...) Existiam, obviamente, muitas tiranias sangrentas antes do século XX, mas Hitler e Estaline colocaram a tecnologia e a organização política moderna ao serviço do mal. (...)
A experiência do século XX faz que se tornassem altamente problemáticas as pretenções de progresso com base na ciência e na tecnologia. É que a capacidade tecnológica para melhorar a vida humana depende grandemente de um paralelo progresso moral do homem. Sem este último, o poder da tecnologia seria simplesmente usado para o mal e a humanidade ficaria pior do que anteriormente. (...)
Os acontecimentos traumatizantes do século XX foram também o pano de fundo de uma profunda crise intelectual. Apenas é possível falar de progresso histórico se se souber para onde caminha a humanidade. (...)
O pessimismo do presente quanto à possibilidade de progresso na história nasceu de duas crises separadas, mas paralelas: a crise política do século XX e a crise intelectual do racionalismo ocidental. A primeira matou dezenas de milhões de pessoas e forçou centenas de milhões a viverem sob novas e mais brutais formas de escravidão; a segunda deixou a democracia liberal sem recursos intelectuais para se defender. (...)".
Eis que se dá então uma evolução no pensamento de Fukuyama, atendendo ao considerado início de uma nova época caracterizadora do rumo da História:
"(...) Mesmo assim, apesar das poderosas razões para o pessimismo geradas pela nossa experiência da primeira metade deste século, os acontecimentos da segunda metade têm vindo a apontar para uma direcção muito diferente e inesperada. Ao atingirmos os anos 90, o mundo, como um todo, não deu a conhecer novos malefícios, antes se tem revelado melhor de certos e distintos modos. A maior surpresa do passado recente foi o colapso absolutamente inesperado do comunismo em grande parte do mundo nos finais dos anos 80. Mas esta evolução, apesar de notável, foi apenas uma parte de um mais vasto modelo de acontecimentos que haviam começado a tomar forma desde a segunda guerra mundial. (...) Se a principal inovação política do início do século XX foi a invenção dos fortes estados totalitários da Alemanha e da Rússia, as últimas décadas revelaram uma tremenda fraqueza interna. Esta fraqueza, tão maciça e inesperada, sugere que as lições pessimistas acerca da história, que o nosso século supostamente nos ensinou, precisam de ser repensadas desde o início."
(FUKUYAMA, Francis- O fim da história e o último homem. 2ª ed. Lisboa: Gradiva, 1999, p. 27-35).
George Steiner (1929- ), actualmente professor de Literatura Comparada na Universidade de Oxford e de Poesia em Harvard, no ido ano de 1974 participou numa série emissões de rádio, agora passadas para livro e traduzidas em Portugal pela editora Relógio D' Água. Intitulada a publicação como Nostalgia do absoluto, nela é abordada (através de cinco textos resultantes de cinco emissões) a problemática da decadência do papel desempenhado pelos sistemas religiosos formais no âmbito da sociedade ocidental, contrapondo o autor aquelas que entende serem as novas mitologias que procuram suprir esse vazio então criado.
Logo no 1º texto, intitulado "Os messias seculares", George Steiner apresenta a sua concepção do Marxismo (e por isso, também, do Materialismo Histórico) considerando-o, inequivocamente, como uma forma de mitologia explicativa da realidade (passada, presente e futura).
Por entendermos a importância da divulgação desta opinião, deixamos aqui um excerto, considerado como mais ilucidativo:
"(...) A estrutura mitológica do marxismo, a que começarei por me didicar nesta primeira conferência, é não apenas abertamente dramática, mas também representativa da grande corrente europeia de pensamento e sensibilidade a que chamamos romantismo. (...) o marxismo pode ser expresso na forma de um épico histórico. Narra o avanço da humanidade desde a escravidão até ao futuro reino da justiça perfeita. Tal como muita da arte, música e literatura românticas, o marxismo põe a doutrina teológica da queda do homem, do pecado original e da redenção final em termos históricos e sociais. (...)
Contudo, não podem existir dúvidas a respeito do carácter messiânico e visionário daquilo que tem para dizer acerca do futuro. Apesar de não satisfazer a nossa ardente curiosidade a respeito da catástrofe original, vontade não lhe falta de nos contar tudo sobre o dia depois de amanhã, sobre o definhamento do Estado, e sobre a ditosa existência da humanidade num mundo sem classes, sem opressão económica, sem pobreza e sem guerra. (...)
Pessoalmente, devo exprimir a crença (...), devo exprimir a convicção de que tanto a explicação marxista da condição humana como a sua promessa relativa ao nosso estado futuro se mostraram ilusórias. A análise marxista da história revelou-se unilateral e muitas vezes absolutamente ao arrepio da evidência. (...)
Mas não nos iludamos quanto à força trágica e generalizada deste falhanço, caso realmente o seja. O que estava em jogo não era a mera crítica técnica de certas instituições económicas. Não foi por questões teóricas de investimento, divisão de trabalho ou ciclos comerciais que gerações de homens e mulheres lutaram, morreram e mataram outros. A sua visão, promessa, e apelo à total dedicação e renovação do homem foram absolutamente messiânicas, religiosas, teológicas. Ou, para usarmos o título de um livro muito apreciado, foi "um Deus falhado".
(STEINER, George- Nostalgia do absoluto. Lisboa: Relógio D' Água, 2003, p. 16-22).