Sem dúvida que, até aos dias de hoje, falar em Parque Mayer remete imediatamente para determinado tipo de teatro: a Revista.
Tal tradição começou a forjar-se, senão de imediato, logo a partir do momento de reorganização do espaço, nomeadamente com a construção progressiva dos teatros, tendo-se ao longo dos tempos verificado um aumento da oferta de espectáculos.
Se bem que tal tendência tenha vindo a diminuir, até pela alteração do conceito de durabilidade das representações, a Revista continua lá. A sua presença é um facto.
Vejamos, então, como tudo aconteceu.
PARQUE MAYER. OS 80 ANOS DA BROADWAY PORTUGUESA
A "catedral da revista"
Para se tornar o centro da "revista à portuguesa", o Parque Mayer teve de concentrar-se quase exclusivamente neste género teatral. Não obstante, também nele se exibiram operetas, comédias e cinema. Acolheu ainda a Companhia Amélia Rey Colaço, após o incêndio no Teatro Nacional D. Maria II. Além de ter sobrevivido ao cinema que inundava a baixa lisboeta nos anos 30-70, conseguiu mesmo absorvê-lo, tendo o Capitólio imperado no circuito dos filmes pornográficos no pós-revolução (aí pôde ser visto o célebre Garganta Funda, p.e.). (...)
O título de "catedral da revista" foi uma conquista progressiva. Na década inicial, o Parque Mayer abarcou menos de 1/5 das revistas produzidas no país (contabilizando a partir de 1922). Nas décadas seguintes foi paulatinamente consolidade a sua influência até atingir uma supremacia absoluta: 41% nos anos 30, quase 50% nos anos 40, cerca de 62% nos anos 50 e cerca de 85% nos anos 60. Esta ascensão foi conseguida sobretudo à custa da redução gradual do número total de revistas produzidas, inversão esta registada durante o período da II Guerra Mundial (107, 156, 79, 71 e 66 peças, respectivamente anos 20 a 60). Depois da revolução, o Parque Mayer perdeu o gás: 61% das revistas nos anos 70, cerca de 36% nos anos 80 e cerca de 29% nos anos 90. Nos últimos anos, desde 1994, ensaiou uma tímida recuperação. Por exemplo, na década actual cabem-lhe mais de metade das revistas (embora estejamos perante números baixos: 4 em 7). O Parque Mayer foi responsável por 304 das 651 revistas produzidas entre 1922 e 2002, ou seja quase metade do total (cerca de 47%). Daí que o seu contributo para a revista, e para o teatro em geral seja relevante.
A menor quantidade de revistas em palco desde 1994/95 (abaixo de meia dúzia) não significa apenas uma redução da oferta, mas também que, na actualidade, cada espectáculo tem que estar mais tempo em cartaz. Estamos longe dos tempos em que as peças surgiam em catadupa, como nos anos 40 no Maria Vitória ou nos anos 60 no ABC (com 29 e 25 revistas, respectivamente). Estamos ainda mais distantes da época em que uma peça durou apenas uma semana no Maria Vitória (anos 30). (...)
Atentemos, desta vez, ao que nos diz Daniel Melo com a rúbrica "Os teatros".
PARQUE MAYER. OS 80 ANOS DA BROADWAY PORTUGUESA
Os teatros
Assim, uma quinzena após a abertura ao público do Parque Mayer, foi inaugurado o Teatro Maria Vitória, com a revista "Lua nova". Consumido por um incêndio em 10/5/1986, seria reconstruído, tendo reaberto com uma nova revista a 2/2/1990. Seguiu-se-lhe o Teatro Variedades, estreado com a revista "Pó de Arroz", em 8/7/1926. Este fora idealizado por Galhardo já em 1922 e começou a ser construído em 1924, com risco de Urbano de Castro, sob o antigo lago dos Jardins Mayer.
Pouco depois, foi a vez do Capitólio, inaugurado em 31/7/1931, da autoria do arquitecto Luís Cristino da Silva, o mesmo que desenharia o pórtico da entrada. Este recinto modernista, sucessor da Esplanada Egípcia e inicialmente utilizado como salão de música e "variedades", exibiu cinema e teatro, à maneira dos coevos "cine-teatros". Foi classificado como "imóvel de interesse público" pelo decreto-lei nº 8/83 (de 24/1/1983). Em 1937 surgiu o Teatro Recreio, com a revista "Faça sol". Esta casa de espectáculos, criada por Giuseppe Bastos e vizinha do restaurante Gato Preto, foi extinta em 1940, para dar lugar a um ringue de boxe. O Teatro ABC foi o último recinto a ser franquado, em 1955, com a revista "Haja saúde". No seu terreno procedera-o uma série de restaurantes-bares e/ou casas de espectáculo: Alhambra, Galo de Ouro, Baía e Casablanca. Encerrou em 1995.
Pontualmente, serviram de palco teatral o Pavilhão Variedades (revista "Amor perfeito", em 1924) e a Esplanada Egípcia (p.e. com a revista "Off-side", em 1929).
(Sublinhado nosso)
Continuamos a apresentação do texto de Daniel Melo relativo ao Parque Mayer.
Desta vez sobre "Capacidade de atracção".
PARQUE MAYER. OS 80 ANOS DA BROADWAY PORTUGUESA
Capacidade de atracção
O Avenida Parque conseguiu impor-se não só como espaço de diversão mas também de convívio- este derivado da profusão de estabelecimentos para todos os gostos que o marcariam desde o início, desde cafés, retiros, tasquinhas, casas de pasto e de fados, restaurantes, bares, dancings, cabarets, etc. Tal combinação concederia a este espaço uma redobrada capacidade de atracção. Além disso, demonstrou um grande dinamismo inicial, ao diversificar e renovar o tipo de espectáculos oferecidos. Por lá passou o jazz, com as troupes e as jazz-bands. Por lá ecoou a música ligeira, por iniciativa dos seus restaurantes e/ou cabarets e/ou dancings. Por lá se cantou o fado, no retiro de e com Armandinho e Georgino de Sousa, acompanhando à guitara e viola (respectivamente) o "fabuloso" Alfredo Marceneiro e revelando Maria Emília Alta, além de Joaquim Campos e Júlio Proença (ambos no Colete Encarnado) e Mariema (no Dominó). Nele granjeou grande popularidade a actuação regular da fadista Hermínia Silva na revista (tendo cantado ainda na Esplanada Egípcia e no Valente das Farturas). Também Amália Rodrigues aí conheceu o maestro Frederico Valério, na revista "Essa é que é essa" (Teatro Maria Vitória, 1942), o qual lhe escreveria o "Fado do ciúme" e "Sabe-se lá", marcando-lhe assim a carreira. Por lá se vibrou com noites de samba, no restaurante-bar Dominó (de Maria Luísa Barbosa e do músico brasileiro Nestor Campos), onde Nicolau Breyner cantou "Como é bom amar em Itapoan" e Raul Solnado contou anedotas. Lá foram inventadas as "marchas populares", uma década após a sua abertura, segundo uma ideia de Leitão de Barros para animar o recinto e que tiveram um êxito fulgurante, tendo sido repetidas uma quinzena depois. Lá foi recriado o antigo carnaval luso, com "danças de luta" e "cegadas" (...). Por fim, e acima de tudo, por lá passou e continua a passar o teatro, a grande singularidade do Parque Mayer relativamente às feiras populares convencionais.
Na sequência da nota ontem editada, iniciamos a apresentação do conjunto de posts dedicado ao Parque Mayer.
Hoje, e de acordo com a orgânica do autor- Daniel Melo-, daremos conta de uma pequena introdução, assim como da alínea respectiva às "Origens".
PARQUE MAYER. OS 80 ANOS DA BROADWAY PORTUGUESA
Criado no início dos "loucos anos 20" com a ambição de ser um pólo teatral, o Parque Mayer impôs-se como centro do teatro de revista e feira popular moderna, sobreviveu à censura de Salazar e Caetano, à rádio e ao cinema, ao futebol, à partidarite da revolução, à televisão e às telenovelas. É um "sempre-em-pé", embora tenha atravessado várias crises. Fixou-se no imaginário nacional como a "catedral da revista", uma Broadway à portuguesa. A suposta decadência não evitou a gula disfarçada de propostas de remodelação urbanística, em crescendo desde finais dos anos 60. Uma boa ocasião para revisitar este palco maior, os seus fazedores, os seus espectáculos, o seu público, as propostas de remodelação.
Origens
Em 1920, por ocasião duma partilha familiar, o Palácio Mayer foi comprado por Artur Brandão, juntamente com os seus anexos e parque. Este, por sua vez, vendeu-o a Luís Galhardo, tendo-se então constituído a sociedade Avenida Parque Lda. (28/5 e 30/11/1921). Galhardo, figura consagrada do meio teatral, estava interessado em criar um novo local de espectáculos. Àquele associou-se um conjunto de homens de negócios. Para tal constituiu-se a Sociedade Avenida Parque (11/2/1922 e 19/7/1924), com dez sócios, destacando-se Elias Azacot, Carlos Borges, Hipácio de Brion e Alberto Pinto Gouveia. Este último iniciaria em 1928 uma liderança familiar (embora partilhada), que prosseguiria com o seu filho Campos Figueira, o seu neto homónimo e o seu bisneto Artur Gouveia (actual responsável da sociedade sucessora, a Avenida Parque, SA).
Este espaço já detinha uma aura lúdica e boémia, pois alojara o Club Mayer, um clube nocturno de revista e jogo, durante 1918-1920. No entanto, a nova sociedade concentrou-se no Parque Mayer, tendo vendido o palacete, que se tornou no Consulado Geral de Espanha, em 1930.
O Parque Mayer foi inaugurado em 15/6/1922, substituindo e incorporando a função lúdica da Feira de Agosto (criada em 1908, na Rotunda), uma das últimas "feiras típicas" da capital, com petiscos, comércio e diversões. Inicialmente apresentou-se em instalações precárias de madeira ("barracas"), mas situava-se numa zona mais central e frequentada.
Nos primeiros anos o recinto designou-se por Avenida Parque, mas o nome antigo acabaria por impor-se correntemente. Com o tempo, transformar-se-ia num moderno e popular recinto de diversões ao ar livre, pretendendo emular o que se fazia em Paris (Luna-Park, Magic-City), Madrid (Retiro), Barcelona (Grande Parque), Sevilha, etc. (...). Mais tarde, esta componente seria ampliada e aperfeiçoada pela Feira Popular de Lisboa (1943).
Entre as diversões que passaram no Parque Mayer destacam-se as "barracas de tiros", os bailes (de fim-de-semana, ou de Carnaval), os circos Royal, El Dorado e Luftman, as "barracas" do "Pôrto de Lisboa" (miniatura animada da Ribeira) ou de "fenómenos" como a "mulher transparente" e a "mulher-sereia" e as pulgas amestradas, o labirinto e a roleta diabólica, a laranjinha, as "variedades", o jogo do quino, o jogo clandestino (para os mais aventureiros), os carrosséis e os fantoches, o Pavilhão Infantil, os "carrinhos de choque", a patinagem, os combates de boxe, a luta greco-romana e a luta livre.
Na revista de História do passado mês de Março, Daniel Melo, historiador-investigador do CEHCP-ISCTE publicou um trabalho intitulado "Os 80 anos da Broadway portuguesa". Sendo este apresentado em torno da polémica então existente relativamente à construção de um casino para aquele mesmo espaço, o autor desenvolve todo um conteúdo que faz o percurso de vida de um local com um simbolismo e especificidade próprios ao nível da cidade de Lisboa, em particular, assim como de Portugal, em geral.
Pela importância de um trabalho desta natureza, sobretudo, para o melhor conhecimento da Cultura portuguesa contemporânea, entendemos fazer a sua edição na íntegra. Contudo, pela extensão desse mesmo trabalho, a apresentação vai dividir-se por vários posts, de acordo com a própria orgânica interna apresentada pelo autor.
Assim, a edição terá a seguinte ordem:
- PARQUE MAYER 1: [Introdução], Origens
- PARQUE MAYER 2: Capacidade de atracção
- PARQUE MAYER 3: Os teatros
- PARQUE MAYER 4: A "catedral" da revista
- PARQUE MAYER 5: Motivos do êxito
- PARQUE MAYER 6: Público burguês citadino
- PARQUE MAYER 7: As 11 propostas para o Parque Mayer
Daremos igualmente destaque às "caixas" apresentadas:
- "A revista como crónica da vida portuguesa"
- "Mário Alberto, a alma do Parque Mayer".
Durante os anos em que decorreu a 2ª Guerra Mundial (1939-45), Lisboa não viu parar o funcionamento dos teatros nem a representação dos seus mais conhecidos actores. Quer o teatro ligeiro, quer o teatro declamado continuaram a apresentar-se perante o público e foram em número considerável as peças trazidas a palco.
Em post a editar num futuro próximo faremos uma síntese de todo este panorama, especificando espaços, actores e nomes de peças.
Posteriormente, também, tal síntese será alargada, desta feita, com abordagens relativas ao cinema e à rádio.
Nomeado por Salazar em 1938, Cônsul de Portugal em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes, contrariando ordens do Presidente do Conselho passa, no ano de 1940, centenas de vistos a judeus para atravessarem a fronteira francesa em busca da liberdade e salvação. Tal gesto levou a que fosse retirado do exercício das suas funções e acabasse os dias na mais clara das misérias.
Para uma introdução ao conhecimento de tal personalidade, apelidada por muitos como o "Schindler português", deixamos dois sites:
No âmbito dos conteúdos apresentados e a apresentar relativamente aos judeus em Portugal aquando da 2ª Guerra Mundial, deixamos hoje o depoimento de Ruth Arons, refugiada judia, de origem alemã. Tinha 14 anos quando chegou a Portugal, na companhia dos pais e irmã.
Depoimento extraído de:
MARTINS, Maria João- O paraíso triste. O quotidiano em Lisboa durante a II Guerra Mundial. Lisboa: Vega, 1994, p. 139-140.
Saí da Alemanha, com os meus pais e irmã, em 1936. Três anos antes, com a chegada dos nazis ao poder, tinham começado a surgir as leis racistas. O meu pai, que exercia advocacia, foi proibido de trabalhar.
O ambiente era muito pesado. Os nossos pais tiraram-nos do liceu oficial e levaram-nos para uma escola de freiras, pois os católicos pareciam ser mais brandos. Mas mesmo aí já havia discriminação. As meninas recebiam indicações em casa para não se darem com alunas judias. Fiquei muito contente quando saí da Alemanha.
A integração em Portugal foi difícil porque era tudo muito diferente. Os meus pais que, antes, tinham uma vida social e cultural muito intensa, não encontraram logo pessoas com quem conviver. Os refugiados que chegavam eram pessoas muito diferentes e bastante mais novas do que eles. Os portugueses, em contrapartida, eram muito amáveis, mas também muito fechados. Só a partir de 1941 é que se começaram a criar círculos de refugiados. Chegaram a aparecer velhos conhecidos nossos e até um tio e primos, que estiveram cá durante três meses.
O meu pai não conseguiu voltar a exercer a advocacia, uma vez que, para o fazer, teria de recomeçar os estudos de Direito. Dedicou-se, com um sócio, a um negócio de exportação, mas a sua visão jurídica do mundo era incompatível com o comércio. Os meus pais viveram dificilmente e nós também. Tivemos de aprender a língua e voltar a fazer a admissão ao liceu. O que não foi fácil porque o ensino era totalmente diferente. Ao contrário do que acontecia na Alemanha, fazia-se muito à base da memória. Aqui, até as contas eram diferentes. Tive de estudar muito. Na escola, a guerra parecia longínqua. As minhas colegas nem sequer falavam disso.
O meu pai nunca deixou que comprássemos o que quer que fosse no mercado negro. Mas o pão fazia-nos muita falta (só era permitido comprar dois pãezinhos por dia). Estávamos sempre atentos às notícias da Guerra, difundidas pela BBC, à espera que o Hitler atravessasse os Pirinéus. Nesse caso- previa o meu pai- partiríamos de Lisboa para a Madeira e daí para o Brasil.
Os refugiados mudaram vários hábitos de Lisboa. Antes deles, por exemplo, ninguém se lembrava de se sentar numa esplanada. Lembro-me que, no primeiro ano em que estive no colégio, a minha mãe foi-me buscar às aulas e sentou-se num banco da Avenida enquanto esperava. No dia seguinte, uma colega veio-me perguntar porque estava ela sentada num banco e sem chapéu. As lisboetas não saíam para a rua nesses preparos. Nós estávamos habituados a uma sociedade onde as pessoas viviam mais descontraídas.
Na Alemanha raramente íamos ao cinema. Em Portugal, para grande espanto nosso, as minhas colegas iam todos os domingos. Mais tarde, começámos a fazer o mesmo. Não víamos, claro está, aqueles célebres filmes alemães com a Marika Rokk. Mas lembro-me do grande êxito de E Tudo o Vento Levou. Eu gostava mais do Leslie Howard do que do Clark Gable. Era muito mais romântico.l
As imagens, qualquer que seja a sua natureza, são elementos importantíssimos para o acompanhamento do processo histórico, assim como para a construção do discurso histórico.
No caso particular das guerras havidas, pinturas, fotografias, imagens televisivas ou fitas resultantes de vídeos amadores, têm sido contributos relevantes para o seu conhecimento, análise, interpretação e reflexão.
Mas em torno destas mesmas imagens, sobretudo as televisivas, algumas questões se podem levantar, nomeadamente no que concerne à banalização do sofrimento. À banalização do sofrimento dos outros, que poderá rapidamente transformar-se na banalização do nosso próprio sofrimento.
A iconografia tem, pois uma história. Tem ela própria o seu percurso que se insere no percurso da História.
A iniciação a todas estas problemáticas pode verificar-se através da leitura de um livro muito recentemente colocado no mercado nacional: Olhando o sofrimento dos outros, de Susan Sontag.
De facto, com esta sua obra, a escritora norte-americana, faz uma nova avaliação dos argumentos que defendem que as imagens podem provocar dissenções, incitar à violência ou criar a apatia. E refere, neste contexto, trabalhos elaborados por Goya (ao nível da pintura) e outros no âmbito da fotografia onde se verifica o registo da Guerra Civil americana, dos linchamentos de negros dos estados americanos do Sul, da Primeira Guerra Mundial, da Guerra Civil de Espanha, da Segunda Guerra Mundial e dos conflitos da Bósnia, Serra Leoa, Ruanda, Israel, Palestina e 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque.
Pela simplicidade e, simultaneamente, importância da obra, após esta breve apresentação, editaremos alguns excertos da mesma que consideramos relevantes. Todo o livro será alvo de atenção, mas desde já registamos a particularidade atribuída ao capítulo que se debruça sobre aquilo a que a autora denomina de "iconografia do sofrimento".
Terminamos citando a autora:
"Não podemos imaginar como a guerra é terrível, como é aterradora, e como se torna normal..."
Referência bibliográfica:
SONTAG, Susan- Olhando o sofrimento dos outros. Lisboa: Gótica, 2003.
A perseguição aos judeus levada a cabo pelos nazis, não só, mas sobretudo, aquando do período da 2ª Guerra Mundial, originou ondas de refugiados na Europa. Os EUA apresentaram-se, então, como o "novo paraíso", espaço onde milhares de homens, mulheres e crianças poderiam voltar a instalar-se e tranquilamente conduzir/prosseguir as suas vidas.
Portugal recebeu muitos destes judeus, como placa giratoria para o outro lado do Atlântico. A sua passagem pelo país não foi indiferente à população, em particular no que respeita a usos e costumes. Lisboa, por exemplo, foi palco de vários episódios e situações.
No domínio da literatura esta passagem dos judeus pela capital foi abordada, por exemplo, por Erich Maria Remarque, no seu livro Uma noite em Lisboa.
Quanto à história :
Lisboa, ano de 1942. Os refugiados afluem a Portugal. No cais, dois homens, ambos emigrados alemães, iniciam uma estranha negociação. Um deles oferece ao outro os passaportes e os bilhetes que lhe possibilitarão seguir viagem com destino a Nova Iorque no navio que parte no dia seguinte. O preço por este favor é o seguinte: que o beneficiário se disponha a ouvir a dolorosa confissão do seu interlocutor.
Toda esta história é revivida através da narração do seu protagonista, um judeu fugido ao terror hitleriano.
O autor:
Erich Maria Remarque, nasceu a 22 de Junho de 1898 na Alemanha. Foi soldado aquando da 1ª Guerra Mundial, escrevendo com base nessa experiência a obra A Oeste nada de Novo. É ainda autor de: A Centelha da Vida, O Céu não tem Favoritos, Desenraizados, Tempo para Amar e Tempo para Morrer.
Perseguido pelos nazis que queimaram algumas das suas obras o autor exilou-se nos EUA, onde veio a falecer em 25 de Setembro de 1970.
Em jeito de ilustração, apresentamos de, Uma noite em Lisboa, o início do primeiro capítulo. E, também, um pouco do final.
Tinha os olhos pregados no navio. Fundeado no Tejo, a alguma distância do cais, iluminava-o um clarão vivíssimo. Se bem que estivesse havia uma semana em Lisboa, ainda me não habituara à luminosidade extravagante da cidade. Nas terras donde eu vinha, a noite fazia das cidades negros blocos de carvão, onde o foco de uma lanterna representava mais perigo do que a peste na Idade Média. Eu vinha da Europa do século XX.
O navio de passageiros ali atracado recebia carga, e eu sabia que a partida estava marcada para a tarde do dia seguinte. À luz crua de uma fiada de lâmpadas eléctricas, iam-se acumulando fardos de carne, peixe, conservas, pão e legumes, os carregadores arrastavam para bordo caixotes imensos e um guidaste içava volumes e fardos com a despreocupada indiferença de quem lhes não sente o peso.
O navio preparava-se para a partida, qual arca em tempo de dilúvio. E era de facto a arca de Nóe. Qualquer navio que naquele ano de 1942 abandonasse a Europa assemelhava-se a uma arca de salvação. A América era o monte Ararat e o dilúvio ia crescendo sempre. A enchente engolira há muito a Alemanha e a Áustria, atingindo proporções gigantescas na Polónia e em Praga. Amsterdão, Bruxelas, Copenhaga, Oslo e Paris estavam também submersas, as cidades da Itália ruíam e a própria Espanha deixara de ser segura. A costa de Portugal ficara sendo o último refúgio para os emigrantes que acima da pátria e da própria vida colocavam os seus ideais de liberdade, justiça e tolerância. Quem a partir daí não conseguisse alcançar a terra bendita da América estava perdido. Ficaria condenado a uma morte lenta no labirinto de documentos sempre recusados, de impossíveis licenças de trabalho e autorização de permanência no país, de campos de internamento; envolvido nos complicados meandros da burocracia; reduzido à solidão irremediável de desconhecido em terra alheia e à indiferença geral e criminosa com que era olhado o destino de cada homem, consequência inevitável da guerra, do medo e da necessidade. Naquela altura o homem não valia nada: um passaporte válido era tudo. (...) O navio fundeado no Tejo era o último com o qual, ainda em França, acalentáramos a esperança de chegar a Nova Iorque; a lotação esgotara-se, porém, com meses de antecedência, e, além do visto americano, faltavam-nos para cima de trezentos dólares. Tinha tentado arranjar pelo menos o dinheiro e fizera-o pelo único processo ao meu alcance- o jogo.
(...)
Estive na América durante todo o tempo que durou a guerra. (...)
Terminada a guerra, regressei à Europa. Não me foi fácil estabelecer a minha identidade, justamente numa altura em que na Alemanha centenas de grandes senhores lutavam por se libertarem da sua.
(...)
Da autoria de Jaime Serra, o livro As explosões que abalaram o fascismo, publicado pelas Edições Avante!
De acordo com o autor:
"A presente edição é uma versão mais completa, ampliada e pormenorizada, do texto sobre a ARA inserido no meu livro Eles Têm o Direito de Saber (Edições "Avante!", Lisboa, 1997).
Esta iniciativa resultou do facto de numerosos leitores terem manifestado a opinião de que aquele texto sobre a ARA estava demasiado sintetizado, tratando-se de um acontecimento de importância histórica na longa luta contra o fascismo e que tanto impacto teve na vida política nacional nos últimos anos do regime fascista e colonialista derrubado com a Revolução do 25 de Abril de 1974.
Os comunicados da ARA, agora também publicados na íntegra e na totalidade, constituem, a nosso ver, documentos de grande interesse para a compreensão da justeza política das suas acções.
No que se refere à descrição de alguns dos mais interessantes episódios destas acções, até agora de conhecimento muito restrito e que aqui se publicam, registamos com apreço a contribuição prestada por Carlos Coutinho, um dos principais intervenientes nessas acções".
Sem que isto signifique a dispensa da leitura integral da obra, deixamos, a título exemplificativo, três comunicados da ARA referenciados pelo autor.
Recordamos, ainda, que sobre esta organização falou igualmente o ex-inspector da PIDE Óscar Cardoso, em entrevista dada no âmbito do tema "Terrorismo de Esquerda" e já editada neste blog.
Referência bibliográfica:
SERRA, Jaime- As explosões que abalaram o fascismo. Lisboa: Edições Avante!, 1999 (Colecção Resistência).
OS COMUNICADOS DA ARA
- Sobre a acção no navio Cunene
"Hoje, dia 26 de Outubro, cerca das cinco horas da manhã, um Comando da ACÇÃO REVOLUCIONÁRIA ARMADA (ARA), levou a cabo com êxito a primeira operação revolucionária armada contra o aparelho de guerra de opressão colonial do governo fascista.
Em virtude desta acção ficou alagado e imobilizado na doca de Alcântara, em Lisboa, com um grande rombo, o navio CUNENE, de 16 000 toneladas que é utilizado para alimentar a guerra colonial.
O Comando Central da ACÇÃO REVOLUCIONÁRIA ARMADA declara que ao atacarmos a máquina de guerra que alimenta a guerra colonial não estamos contra os soldados, os sargentos e oficiais honrados, forçados a fazer uma guerra que odeiam. Estamos, sim, contra a continuação desta criminosa guerra de opressão colonial que se transformou num flagelo para os povos de Angola, Guiné e Moçambique e num cancro que corrói a nação, que queima vidas e bens do povo português para servir os interesses dum punhado de monopolistas sem pátria. Estamos solidários com a justa luta libertadora dos povos coloniais.
A ACÇÃO REVOLUCIONÁRIA ARMADA propõe-se conduzir a sua acção revolucionária no quadro da luta geral do povo português contra a ditadura fascista e pela conquista da liberdade. Deste modo, a ARA não se desliga da luta revolucionária das massas, da luta dos operários e camponeses, da luta dos estudantes e intelectuais revolucionários contra a política fascista do governo de Marcelo Caetano; antes se propõe secundá-la até chegar à insurreição popular armada que destruirá para sempre a ditadura fascista e o poder dos monopólios e latifundiários, assim como o domínio imperialista no nosso país.
VIVA A INSURREIÇÃO POPULAR ARMADA!
26 de Outubro de 1970
O Comando Central da
ACÇÃO REVOLUCIONÁRIA ARMADA".
- Tripla acção: contra a Escola da PIDE/DGS, o navio Niassa e o Centro Cultural dos EUA
"No prosseguimento da sua acção revolucionária, comandos da A.R.A, numa acção conjugada, levaram a efeito com pleno êxito, na madrugada do dia 20 de Novembro, três operações distintas:- destruição parcial da Escola Técnica da odiosa PIDE-DGS, principal instrumento de repressão fascista do governo de M. Caetano; destruição de importantes quantidades de equipamento e material de guerra armazenados no cais privativo da C.N.N., prontos para embarque no navio NIASSA para alimentar a guerra colonial; destruição do "Centro Cultural" da embaixada dos Estados Unidos em Lisboa, centro de propaganda ideológica do imperialismo americano no nosso país.
O Comando Central da A.R.A salienta que, dados os processos técnicos utilizados, quaisquer destas acções revolucionárias poderiam ter tido lugar a qualquer hora do dia. Sacrificando, contudo, um maior efeito espectacular de tais acções, houve a preocupação de, na medida do possível, evitar perdas de vida inúteis. A despeito desta preocupação, e não podendo garantir em absoluto que em futuras acções revolucionárias não se venham a verificar acidentes mais graves que os verificados até agora. A ACÇÃO REVOLUCIONÁRIA ARMADA responsabiliza desde já por tal eventualidade o governo de M. Caetano devido ao prosseguimento da sua política antinacional de terrorismo político, de guerra colonial e de sujeição ao imperialismo estrangeiro.
Não podendo já silenciar por mais tempo a existência e a acção da A.R.A, o governo, pela boca dos seus porta-vozes da PIDE-DGS, procurou deturpar o significado e importância política da sua acção, classificando os membros da A.R.A de "terroristas", de "maoístas", etc. A ACÇÃO REVOLUCIONÁRIA ARMADA fiel aos propósitos definidos no seu Comunicado de 26 de Outubro último, prosseguirá ao lado do povo e demais forças antifascistas na luta pelo derrubamento da ditadura fascista, contra a guerra colonial, contra o domínio imperialista no nosso país.
VIVA A INSURREIÇÃO POPULAR ARMADA!
21 de Novembro de 1970
O Comando Central da
ACÇÃO REVOLUCIONÁRIA ARMADA".
- Sobre a acção na doca de Alcântara
"Na madrugada do dia 12 de Janeiro de 1972, um comando da A.R.A colocou duas potentes cargas, uma explosiva e outra incendiária, num dos armazéns do cais de Alcântara em Lisboa.
Em consequência da forte explosão e do incêndio que se lhe seguiu foi destruída grande quantidade de material pronto a embarcar para a guerra colonial, entre o qual se encontrava importante material de guerra recém-chegado de França e destinado a unidades de caçadores pára-quedistas.
Porque o comando da A.R.A actuou entre as 6 e as 8 horas da manhã, quando no Porto de Lisboa não há trabalhadores em actividade, não houve mortos nem feridos.
O comando da A.R.A que realizou a acção não teve baixas.
A A.R.A prosseguirá a sua acção revolucionária, integrada na luta do povo português contra o fascismo e solidária com a heróica e justa luta dos povos de Angola, Guiné e Moçambique.
ABAIXO O FASCISMO E O COLONIALISMO!
VIVA A INSURREIÇÃO POPULAR ARMADA!
12 de Janeiro de 1972.
O COMANDO CENTRAL DA A.R.A".
Atendendo a que em entrevista com o ex-inspector da PIDE, Óscar Cardoso sobre "A organização da PIDE/DGS" se fez referência à morte do estudante Ribeiro Santos, a esta daremos especial destaque em post posterior, em particular, dando a conhecer mais alargadamente o que sobre o assunto se escreveu já na revista História.
Para complemento de informação, disponibilizamos os seguintes sites:
E eis-nos que chegou o mês de Abril de 1974. Dia 25, o golpe de Estado que derrubou um regime com cerca de meio século de existência. Anteriormente: o golpe falhado das Caldas (16 de Março). Falhado, mas um importante prenúncio.
Debrucemo-nos, então, nas palavras de Óscar Cardoso.
ENTREVISTA COM ÓSCAR CARDOSO
Bruno Oliveira Santos: Que acções foram adoptadas para fazer abortar o golpe das Caldas?
Óscar Cardoso: Foi tudo muito fácil. Accionou-se o dispositivo militar e aquela movimentação parou toda.
B.O.S: A PIDE prendeu todos os spinolistas e o MFA passou a ser controlado pela facção esquerdista.
O.C: Isso não é bem assim. A PIDE nunca prendeu militares. Foram os próprios militares que prenderam os seus colegas golpistas. O único momento em que as coisas não se passaram dessa forma foi por causa de uma reunião que estava convocada para 16 de Março em casa do Almeida Bruno. Ora, como eu morava perto, no Monte Estoril, os militares pediram-me para deitar a mão ao Almeida Bruno e aguentar as coisas enquanto eles não chegassem. Dirigi-me então para lá. Ele morava num bloco com vários apartamentos. Já estavam todos lá dentro. Identifiquei-me então como inspector-adjunto da DGS a um morador do prédio e pedi-lhe para me deixar telefonar para a António Maria Cardoso. Já não sei com quem falei, mas lembro-me de ter dito ser necessário os militares virem depressa porque os outros já estavam todos reunidos e eu não podia fazer nada sozinho. E vim para a rua. Entretanto, saiu de casa do Almeida Bruno o capitão Farinha Ferreira. Eu disse-lhe o que estava ali a fazer e enganei-o dizendo que aquilo estava tudo cercado, que havia militares em vários telhados vizinhos e que, por isso, era melhor para ele manter a calma. Contudo, ele estava excitadíssimo, mas não havia maneira de acalmá-lo. Disse-lhe: Eu não lhe quero fazer mal nenhum, mas olhe que os tipos que estão nos telhados ainda lhe dão um tiro!... Pedi-lhe então para se encostar a uma árvore, abraçando-a, e pus-lhe as algemas. Dali ele já não saía. Só se arrancasse a árvore pela raiz! E o tipo diz-me: Senhor inspector, eu sou um oficial do Exército e nunca me senti em toda a minha vida tão humilhado como neste momento. Disse-lhe que, desde que ele me desse a sua palavra de honra em como não saía dali, eu lhe tirava as algemas. Respondeu-me que sim e eu tirei-lhe as algemas. Entretanto chegaram os militares e levaram-nos a todos para o governo militar de Lisboa.
Também me mandaram ir prender o major Manuel Monge, que morava ali para Miraflores. Eu cheguei lá com mais dois agentes, bati à porta e a mulher disse-me que ele não estava. Respondi-lhe que tínhamos de verificar. Entrámos então na residência, abrimos todas as divisões e verificámos que uma delas estava fechada. A mulher do Monge disse que era o quarto da criada. Está bem, minha senhora, mas temos de verificar- respondi-lhe.
Mas também não estava lá ninguém. Parece que o Monge estava pendurado na varanda... Se nós estivessemos muito empenhados naquela operação, teríamos sido mais rigorosos e provavelmente o Monge não se escapava. A verdade é que estávamos ali todos um bocado contrariados. Olhe, quem conta este episódio é o Otelo no livro Alvorada em Abril. Escreveu lá, por outras palavras, que o inspector Óscar Cardoso revistou a casa, sempre com toda a correcção, mas a dada altura perdeu o verniz e insinuou que o major Monge estaria na cama com a criada... Ora, não foi nada disso, é tudo mentira.
B.O.S: Conheceu o Otelo?
O.C: O Otelo estudou comigo no Liceu Camões, mas depois perdi-lhe o rasto. Até ao 25 de Abril... A última vez que o vi foi em Luanda, em 1992. Eu tinha constituído com um sócio uma empresa que vendia aviões, e estava justamente em Angola a negociar a venda de aviões. Sabe que aquela malta do MPLA sempre me tratou com toda a correcção. Ora, no hotel onde eu estava hospedado vi o Otelo. E vi também o general Tomé Pinto. Não quer dizer que estivessemos juntos, mas vi-os lá. E o Otelo vinha todo lançado para me cumprimentar! Eu é que nem o cumprimentei a ele nem ao general Tomé Pinto, que foi meu comandante de Batalhão. Mais tarde, expliquei pessoalmente ao general Tomé Pinto que só não o cumprimentei para não o comprometer.
B.O.S: A PIDE ou o Governo já sabiam que ia ocorrer uma revolução a 25 de Abril?
O.C: É claro que sabiam. Principalmente depois do golpe das Caldas, a 16 de Março, controlávamos todos os movimentos dos militares subversivos. São eles próprios que hoje o dizem. Sabe o que é que nos enganou? Estávamos convencidos que o Spínola dominava a situação. É que o Spínola ainda nos inspirava alguma confiança, não era comunista. Sabíamos que ia dar-se o 25 de Abril, o que não sabíamos é que o 25 de Abril teria o desfecho que teve...
B.O.S: Acha que Marcello Caetano pode ter combinado com Spínola o 25 de Abril?
O.C: Tenho praticamente a certeza. Na manhã do dia 25 o director da PIDE, major Silva Pais, estabeleceu um contacto telefónico com Marcello Caetano, que já estava no Quartel do Carmo, e acordaram que uma brigada da polícia iria buscar o presidente do Conselho. Eu, o Sílvio Mortágua, o Abílio Pires e o Agostinho Tienza e eu. O Pires foi no seu próprio carro, atrás de nós. Seguimos em dois carros para que, em caso de necessidade, um deles pudesse executar uma qualquer manobra de diversão. Íamos esperar o presidente do Conselho à Rua do Carmo. Existe uma ligação- eu não quero ser romanesco e dizer que há uma passagem secreta- entre o Quartel do Carmo e a Rua do Carmo. E essa ligação ainda deve existir hoje, concerteza. O major Silva Pais combinou o nosso encontro com Marcello Caetano para esse local. Seguindo as suas instruções, parámos o carro mais ou menos a meio da Rua do Carmo, uns metros acima dos pilares do elevador de Santa Justa. Como o Marcello nunca mais aparecia, eu disse aos outros para permanecerem ali, subi a Rua do Carmo, virei na Rua Garrett, subi a Calçada do Sacramento e apresentei-me no Quartel do Carmo. Fui recebido pelo comandante-geral da GNR, que me conduziu até ao Marcello. Disse-lhe que estávamos à sua espera na Rua do Carmo, de acordo com o que havia sido combinado com o major Silva Pais e o Marcello respondeu-me que não era preciso porque já tinha tudo tratado com o general Spínola!...
B.O.S: Que horas eram?
O.C: Não posso precisar, mas ainda era de manhã.
B.O.S: Isso derruba a versão oficial, segundo a qual o Spínola só é contactado a meio da tarde, por iniciativa do Pedro Feytor Pinto, depois de falar com Marcello Caetano.
O.C: Sim, sim. Eu lembro-me de que era de manhã porque depois disso ainda fui almoçar com o Tienza. Encontrámos uma tasquinha aberta na Travessa do Ferragial e comemos uns pastéis de bacalhau.
B.O.S: É verdade que Marcello Caetano foi informado na madrugada de 25 de Abril de que a PIDE podia fazer calar o Rádio Clube Português, posto de comando do MFA, mas nunca se mostrou muito interessado em qualquer acção de contra-ataque?
O.C: O Marcello Caetano não tinha nada a ver com isso. Nós podíamos de facto calar o Rádio Clube Português, mas para isso não era preciso o Marcello para nada. Precisávamos era de um morteiro. Eu e o Alpoim Calvão tentámos encontrar um no Arsenal da Marinha, mas não estava lá ninguém. Se naquela altura tivéssemos arranjado um morteiro, talvez o 25 de Abril morresse ali. Não foi possível... Mas foi uma decisão do Alpoim Calvão, o Marcello não sabia de nada.
A dada altura, recebemos a informação que os militares de Cavalaria 7 vinham com carros de combate e autometralhadoras tomar a sede da PIDE. Era uma situação aborrecida porque ficávamos ali isolados, sem poder fazer nada. Então eu decidi bloquear os acessos à António Maria Cardoso, impedindo assim que os Payton de Cavalaria 7 chegassem lá. Pus um carro eléctrico na esquina da Rua Vítor Córdon com a Rua António Maria Cardoso, pus outro na entrada do Chiado Terrasse e pus ainda uma camioneta a tapar a Travessa dos Teatros.
Quando chegaram os militares a dizer que vinham tomar as instalações, eu, o meu director e o Alpoim Calvão fomos falar com eles e rapidamente os demovemos das suas intenções. Lá se foram embora...
B.O.S: Por que motivo aparece o Alpoim Calvão na António Maria Cardoso?
O.C: O Alpoim Calvão ia ser o próximo director-geral da PIDE. Era uma coisa que já se sabia.
B.O.S: Mas a verdade é que Marcello Caetano nunca esboçou o mínimo gesto de contra-ataque. O próprio Salgueiro Maia podia ter sido apanhado entre dois fogos no Largo do Carmo.
O.C: Nunca recebemos na PIDE qualquer ordem para atacar o Salgueiro Maia e as tropas estacionadas no Carmo. O que se esperava, aliás, era que as tropas fiéis ao governo pusessem cobro áquela situação irregular. Não puseram... E repare que a GNR aquartelada no Carmo era, só por si, uma força, um esquadrão de Cavalaria que tinha certamente autometralhadoras e que, sem necessitar de mais ninguém, podia acabar com aquilo. O Marcello Caetano é que nunca permitiu que a PSP ou a GNR actuassem. Se tivesse dado ordens concretas à PSP e à GNR nesse sentido, aquilo acabava tudo em cinco minutos.
B.O.S: Lembra-se da ocupação da sede da PIDE pelos militares?
O.C: As Forças Armadas só entraram na sede da PIDE no dia 26, dirigidas pelo comandante Costa Correia. Até essa altura, tinham permanecido no exterior, juntamente com a população que andava por ali aos berros. Olhe, uma das frases gritadas na altura era esta: Vamos deitar fogo a isto tudo! Isso era um grande problema porque nós tínhamos um depósito de gasolina com muitos milhares de litros, cuja existência não era certamente conhecida pela população. Se o depósito se incendiasse, ia o Chiado todo pelos ares...
Foi por isso que o nosso director-geral mandou dar uns tiros para o ar. Acredito que um ou outro agente, mais nervoso ou mais atemorizado com a situação, tenha atirado para baixo. Mas, como estava a contar-lhe a propósito do Costa Correia, ele chegou lá no dia 26 e disse-nos: A população está um bocado agitada. É melhor vocês entregarem as armas e serem evacuados para Caxias até as coisas serenarem. Repare que até isto suceder, nós tivemos todas as possibilidades de nos safarmos. Saíamos muitas vezes para tomar café, para ir ali ou acolá... Bom, a verdade é que aceitámos ser evacuados para Caxias, com a garantia de que a detenção era temporária, até a situação acalmar. Mal chegámos a Caxias, vimos que afinal as promessas feitas não eram para cumprir. Mandaram-nos entregar os relógios e os atacadores dos sapatos. Enfim, deram-nos o tratamento de um prisioneiro normal. Vimos logo que não íamos ficar ali só enquanto as coisas não acalmassem...
B.O.S: O director de serviços Pereira de Carvalho e muitos dos seus subordinados que trabalhavam na Secção Central ficaram mais algum tempo com os militares na António Maria Cardoso, entretidos com os arquivos...
O.C: Ficaram lá mais um mês, pelo menos.
B.O.S: E dormiam lá?
O.C: Eu não sei como é que as coisas se passaram. Não sei até se o Pereira de Carvalho não iria dormir a casa, porventura sob vigilância. Os militares revolucionários queriam fundamentalmente que eles lhes indicassem onde estavam os ficheiros, como estavam organizados...
B.O.S: Mas a PIDE queimara já muitos ficheiros.
O.C: Sim, sim.
B.O.S: E nenhum dos funcionários da polícia aproveitou a confusão da altura para levar ficheiros para casa?
O.C: Não. Sabe porquê? Os que queriam ficheiros pessoais já os tinham levado para casa há muito tempo. Aliás, isso é uma coisa que não dignifica muito a minha antiga organização, mas a verdade é que havia na PIDE alguns monstros sagrados muito dados a colecções de ficheiros pessoais. (...)
Os anos 60 destacam-se pelo aumento do terrorismo no mundo inteiro.
Surgem, por exemplo, vários grupos radicais a tudo dispostos em nome do marxismo-leninismo e seus derivados. Alguns deles chegam mesmo a ser apoiados pelos partidos comunistas, outros afirmam-se como órgãos de acção directa desses partidos.
Alguns destes grupos em Portugal:
- FAP-Frente de Acção Popular (1964)
- LUAR- Liga de Unidade e Acção Revolucionária (1967)
- BR- Brigadas Revolucionárias (1970)
- ARA- Acção Revolucionária Armada (1970)
Sobre esta temática, atente-se na entrevista a Óscar Cardoso. A título excepcional apresentamos, também, o que sobre o assunto nos diz o ex-inspector Abílio Pires.
ENTREVISTA COM ÓSCAR CARDOSO
Bruno Oliveira Santos: A PIDE inculcou a ideia de um Partido Comunista como organização clandestina muito bem montada e perigosa para justificar a existência da própria polícia?
O.C: Não. O Partido Comunista era mesmo uma organização bem montada, embora não fosse uma máquina infernal. A sua estrutura, aquando do 25 de Abril, estava já praticamente de rastos.
B.O.S: O MRPP já vos causava mais problemas?
O.C: Sem dúvida. Os militantes do MRPP eram os meninos maus das famílias boas. Eram jovens, sobretudo estudantes, e já causavam mais problemas do que os comunistas.
B.O.S: Conheceu os processos sobre o terrorismo do PCP, através do seu braço armado, a ARA?
O.C: Conheço alguns dados sobre a organização.
B.O.S: No ano passado, um dos operacionais da ARA, Jaime Serra, publicou um livro, onde conta a história das várias acções realizadas.
O.C: O que ele se esqueceu de escrever é que, em Abril de 1971, a ARA também provocou o desaparecimento do navio Angoche, ao largo de Moçambique, causando 23 mortos. Quem fez explodir os helicópteros de Tancos, fez explodir o Angoche. É que as duas explosões foram provocadas pelo mesmo tipo de explosivo, do mesmo lote.
Nós tínhamos um laboratório de polícia no 3º andar da António Maria Cardoso e que era dirigido pelo dr. Carlos Veloso, que ainda é vivo. Foram aí feitas análises para apurar responsabilidades, tendo-se concluído precisamente que as duas acções foram realizadas com o mesmo lote de explosivo. É evidente que o processo do Angoche desapareceu sem deixar rasto. O processo demonstrava que o crime foi perpetrado pela ARA, com a conivência de oficiais superiores da Marinha, entre eles o Vítor Crespo, que nos meios castrenses e não só era também conhecido por Vítor Copos. É que o PCP teve sempre, e ainda tem, os seus informadores na Forças Armadas. Ora, foi precisamente através desses informadores que o PCP soube que o Angoche transportava material de guerra para o norte de Moçambique. (...)
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ENTREVISTA COM ABÍLIO PIRES
Bruno Oliveira Santos: Investigou alguns processos de terrorismo?
Abílio Pires: Conheço bem o processo da FAP. A organização morreu à nascença, por denúncia do PCP. O jornal do partido noticiou a entrada em Portugal de Francisco Martins Rodrigues e de João Pulido Valente. Os comunistas não perdoavam. Vários funcionários e militantes que, segundo as normas comunistas, traíram o PCP foram despachados com o famoso tiro na nuca: a Aurélia Celorico, no Porto; o José Miguel Lambanas, em Almada; o Augusto Ferreira Lindolfo, em Gaia, que não morreu mas apanhou uma rajada de metralhadora; o Mário Mateus...
B.O.S: Conheceu também os processos da LUAR.
A.P: Muito bem. O Palma Inácio roubou vinte e oito mil contos da filial do Banco de Portugal da Figueira da Foz. Em 1967, vinte e oito mil contos era uma fortuna! Desse dinheiro, eu consegui recuperar vinte e dois mil.
Recuperei onze mil em Paris. Lembro-me perfeitamente, foi em plena agitação do Maio de 68. Viajei de avião para Bruxelas e daí fui de autocarro para Paris. A cidade estava sem transportes públicos, as multidões ocupavam as ruas... Eu já sabia onde estava o dinheiro! A LUAR estava infiltrada com informadores nossos! O dinheiro estava debaixo de uma báscula numa quinta dos arredores de Paris. Estavam lá onze mil contos. (...)
Os restantes onze mil contos estavam numa mina de água, nos arredores de Guimarães. Os informadores disseram que o dinheiro estava à guarda de um indivíduo de apelido Teixeira e mencionaram o local aproximado de residência. Não foi difícil encontrá-lo. Havia só dois Teixeiras na zona. O dinheiro estava numa lata dentro de um saco de plástico.
B.O.S: E os outros seis mil?
A.P: Três mil contos tinham sido gastos em viagens pelo Camilo Mortágua e pelo Palma Inácio. Andaram pelo México, Brasil e outras paragens. Os outros três mil foram depositados na conta bancária do Emídio Guerreiro, em França. Por causa disso, cheguei a falar com o subdirector da Polícia Judiciária Francesa, mas vi logo que era impossível recuperar o dinheiro. É que o Emídio Guerreiro era muito estimado em França, pertencera à Resistência Francesa durante a II Guerra Mundial.
B.O.S: O Palma Inácio foi preso mas fugiu...
A.P: Agora já se pode contar: eu comprei a serra que ele usou para fugir! Fi-lo para proteger o meu informador. Disse-me que o Palma Inácio queria uma serra. Comprei a serra e disse ao informador para metê-la dentro de um pão e fazê-la chegar às mãos do Palma Inácio numa das visitas da irmã.
Decidi fazê-lo porque, para além de proteger o informador, tinha o Palma Inácio completamente controlado. Ele não entrava em Portugal sem que eu soubesse. A prova disso é que, tendo entrado mais tarde, foi imediatamente preso na Avenida Duque de Ávila, em Lisboa, quando estava a preparar os seus homens para assaltar um banco na Chamusca. Foram todos presos.
Eu sabia tudo quanto se passava na LUAR. Depois do 25 de Abril, prenderam o Moura Dinis, acusando-o de ser o meu informador. Mas não era. O Moura Dinis foi preso em Caxias sem culpa nenhuma. Os meus informadores eram outros... (...)
1961: ano que marca o início do conflito nos territórios africanos.
Em Angola dá-se o arranque de toda uma situação só terminada após a queda do regime em 25 de Abril de 1974.
Vejamos o que sobre África e a guerra travada nos diz Óscar Cardoso, ex-inspector da PIDE.
ENTREVISTA COM ÓSCAR CARDOSO
Bruno Oliveira Santos: Como é que viveu o início do terrorismo em Angola?
Óscar Cardoso: Quando o terrorismo começa em Angola, eu estava ao serviço da GNR. O terrorismo em Angola não era mais nem menos do que a cobiça de quatro potências pela Ágrica Portuguesa: a União Soviética, a China, os Estados Unidos da América e o Vaticano. Os movimentos de libertação eram apenas marionetas manobradas por terceiros.
(...)
B.O.S: O que eram os Flechas?
O.C: Eu fui para Angola em 1966 e, como era normal, fiz um curto estágio em todos os serviços da delegação- investigação, administrativos, etc. Depois disso, o director São José Lopes mandou-me fazer um périplo por todas as subdelegações do território. Isso permitiu-me ter um conhecimento profundo sobre todos os problemas que havia em Angola. A dado momento, fui para o Luso. Quem estava a chefiar a subdelegação era o inspector Fragoso Allas, um homem que traiu a PIDE no 25 de Abril. O Fragoso Allas, que depois desteve na Guiné, dava-se muito bem com o Spínola. No 25 de Abril estava feito com ele. Mas não era o único! O inspector superior Rogério Dias Coelho, antigo colega de Spínola no Colégio Militar, era outro que tal. No 25 de Abril já estava indigitado por Spínola para ser o novo director-geral!
O Fragoso Allas tinha organizado o chamado Corpo de Auxiliares, indivíduos recrutados e pagos por nós e que eram utilizados como intérpretes, guias e até mesmo como guardas prisionais. Ora, nessa altura eu conheci um velhote- o Manuel Pontes Júnior- que me fala nas Terras do Fim do Mundo, cuja existência eu já conhecia por ser referida em vários livros. Aliás, a designação de Terras do Fim do Mundo é da responsabilidade do Henrique Galvão, que assim as classifica no seu admirável livro Outras Terras, Outras Gentes.
B.O.S: Não estava à espera de o ouvir tecer grandes elogios à obra literária do Henrique Galvão!...
O.C: Eu sei, mas olhe que esse livro é extraordinário! Aliás, as pessoas estão mal informadas sobre o Galvão. Nos seus últimos anos de vida, ele arrependeu-se de tudo, estava mesmo muito arrependido de todas aquelas conspirações. Sabe quem é que pagou o funeral do Galvão? A PIDE. Mas eu estava a dizer que nesse livro do Galvão há referências às chamadas Terras do Fim do Mundo. Nessas terras habitavam os bosquímanos. Eu comecei logo a idealizar o recrutamento desses homens para o Corpo de Auxiliares, até um bocado influenciado pela tropa de guardas de fronteira do KGB. Era conhecido o ódio que os bosquímanos tinham aos negros. Foram sempre escravizados pelos pretos, trocados e vendidos como se fossem objectos ou cabeças de gado. Não era preciso gastar praticamente dinheiro nenhum em alimentação- os bosquímanos encontravam comida em qualquer sítio. Eram rápidos, eram pequenos, conheciam bem o terreno.
Enviei um memorando ao São José Lopes a propor o recrutamento daqueles homens e ele lá me deixou ir para o Cuando-Cubango organizar tudo aquilo. Levei a minha mulher e um velho Land Rover. Foram os melhores tempos da minha vida! Os bosquímanos detestavam mesmo os pretos! Olhe que, ainda em 1969, eram trocados e vendidos a abatidos pelos negros sem dó nem piedade. Bem, comecei por recrutar três ou quatro. No início, utilizavam apenas arcos e flechas, sobretudo flechas envenenadas, o que causava um grande Pãnico entre os turras. É por isso que receberam a designação de Flechas. Comecei a ter bons resultados com a incorporação daqueles bosquímanos, tão bons resultados que cheguei a ter mais de 400 flechas treinados, só no Cuando-Cubango. Mais tarde, criaram-se flechas por toda a província de Angola e em Moçambique.
B.O.S: Eram só bosquímanos?
O.C: Depois foram incorporados homens de outras minorias. Os bosquímanos eram uma minoria do Cuando-Cubango, que era uma savana quase deserta. (...)
B.O.S: Foram recuperados vários guerrilheiros da FNLA, do MPLA e da UNITA?
O.C: Sim, sim. Muitos dos terroristas andavam lá contrariados- eram obrigados a fazer aquela guerra para evitar que as famílias sofressem represálias.
B.O.S: É verdade que Jonas Savimbi foi assistido por médicos do exército português no princípio dos anos 70?
O.C: É. A UNITA tinha sido abandonada pela China e sabia que não tinha quaisquer hipóteses de implantação em Angola sem o nosso apoio. Como aspirava a integrar um futuro governo de Angola, os seus guerrilheiros aceitaram colaborar com o exército português em diversas acções contra os outros movimentos. Vários portugueses com interesses económicos na zona do Luso, sobretudo os madeireiros, pagavam à UNITA para não serem molestados no transporte de mercadorias.
Isto ajuda a compreender as razões pelas quais Jonas Savimbi foi assistido pelo Serviço de Saúde Militar, no Luso. O oficial encarregado das ligações com Savimbi era o major Passos Ramos, da Zona Militar Leste. Foi ele quem tratou de tudo. Já não me recordo da doença de que Savimbi padecia...Julgo que era uma apendicite, mas não tenho a certeza.
B.O.S: A PIDE teve alguma participação no assassínio de Eduardo Mondlane?
O.C: A carta armadilhada que provocou a morte de Eduardo Mondlane foi preparada pelo Casimiro Monteiro, que era de facto um grande especialista em explosivos. Mas o Casimiro Monteiro não agiu sozinho, teve a colaboração do chefe de segurança do Mondlane, o Joaquim Chissano, actual Presidente da República de Moçambique. Portanto, esse trabalho foi feito com a própria Frelimo, que estava muito interessada em eliminar o Mondlane.
B.O.S: Teve acesso aos relatórios sobre Wiryamu?
O.C: Não conheço essa história. De resto, na província de Tete, que eu conheci bem, não existia nenhuma terra chamada Wiryamu. Nem existia em Moçambique nenhuma terra começada por W. Eu não gosto de falar sobre esses assuntos, numa guerra há sempre massacres... O que lhe posso dizer é que nas instruções das Forças Armadas, da PIDE e demais forças da ordem havia a preocupação de evitar os massacres. As instruções eram muito claras: não molestar a população, evitar todo e qualquer tipo de barbaridad, etc. Era exactamente o contrário do que sucedia nos manuais dos terroristas, que aterrorizavam a população.
É evidente que há sempre excepções. Um soldado, cansado de fazer a guerra, farto de ver os seus camaradas estropiados por minas, pode, às tantas, tomar tudo por igual e cometer um erro qualquer...
B.O.S: Que relações mantinha a PIDE com o general Costa Gomes?
O.C: O Costa Gomes era muito amigo do meu inspector superior, Aníbal de São José Lopes. Era tão amigo que, a seguir à revolução, enquanto nós fomos todos presos, o São José Lopes foi mandado para Timor. O Costa Gomes arranjou maneira de ele ir para lá e escapar assim à detenção. Nem outra coisa era de esperar. O São José Lopes conhecia muitos dos podres do Costa Gomes. É que o Costa Gomes prezava muito o dinheiro e falava-se à boca pequena que gostava muito de umas pedrinhas, de uns diamantes, de que o solo angolano é fértil...É muito provável que o São José Lopes estivesse a par de umas negociatas quaisquer.
De resto, as relações que mantivemos com o Costa Gomes, quando ele era comandante-chefe em Angola, foram da maior cordialidade. Não havia festa para a qual não fosse convidado: o Dia do Flecha, o aniversário do São José Lopes, e por aí fora. Foi-lhe oferecido o crachat de ouro da PIDE, que ele aceitou com todo o gosto. Pessoalmente, mantive sempre as melhores relações com ele. Aliás, o Costa Gomes namorou a minha tia, irmã de minha mãe, e tratou-me sempre com muito respeito. Como vê, para além de ter sido meu professor, podia ter sido meu tio.
B.O.S: A PIDE delineou algum plano secreto para matar Amílcar Cabral?
O.C: Não. Assim como lhe disse abertamente que a PIDE colaborou na eliminação de Eduardo Mondlane, também lhe garanto que nunca existiu nenhum plano para matar Amílcar Cabral. Quam matou Cabral foram dissidentes do PAIGC, a PIDE não teve nada a ver com aquilo. Essas histórias estão todas muito mal contadas. E na altura do 25 de Abril havia já um acordo entre o Nino Vieira e o nosso governo para aquele vir para Portugal, com a mulher e a filha, cuja colocação na Universidade estava já assegurada. Ora, quem conta essa história muito bem é o coronel Vaz Antunes, que estava então na Guiné, num opúsculo chamado Uma Diligência Interrompida. Os guerrilheiros do PAIGC estavam cansados, queriam acabar com a guerra e sobretudo não admitiam a sua subordinação aos cabo-verdianos.
B.O.S: A PIDE era um bom serviço de inteligência?
O.C: Como sabe, todas as Forças Armadas têm serviço de inteligência. Em África, a PIDE desempenhou essas funções. O melhor serviço de informação que existia no país era o nosso. A GNR tinha o seu serviço de informação. A PSP tinha também um serviço de informação, mas o melhor de todos era o da PIDE.
Prestámos serviços importantíssimos às Forças Armadas. Salvámos muitas vidas. Alguns dos oficiais que se notabilizaram no 25 de Abril foram salvos pela acção corajosa e abnegada de funcionários da polícia. (...)
Os militares, por natureza, não gostam de informação. Aquilo para eles é uma chatice. Mas a verdade é que o nosso serviço de inteligência funcionava muito bem. É isso que explica que, já depois do 25 de Abril e tendo em conta que as nossas tropas continuavam a fazer a guerra, alguns quadros da PIDE foram libertados para integrar a POlícia de Informação Militar (PIM), então criada.
Os militares revolucionários sabiam perfeitamente que, sem esse serviço de informação, era impossível continuar a guerra. Há até um caso, naturalmente pouco conhecido, mas que vale a pena contar: um dos quadros da PIDE chamado para integrar a nova polícia foi o inspector José Vítor Carvalho. Em 1975, em pleno PREC, foi promovido a inspector-adjunto!
B.O.S: Os serviços de informação da polícia dispunham de informadores nos países vizinhos?
O.C: A verdadeira história das nossas relações com esses países ainda está por fazer. Muito do que se tem dito não corresponde à verdade. O Malawi não nos era hostil. Era-o o Zaire, teoricamente, mas na prática obtínhamos tudo quanto queríamos desse país. De resto, dispúnhamos de vários informadores ao mais alto nível. Na Zâmbia era mais difícil, mas também tínhamos informadores. O mesmo acontecia no Congo-Brazzaville.
B.O.S: E na Rodésia?
O.C: Na Rodésia não precisávamos de informadores porque colaborávamos directamente com o CIO (Central Intelligence Organisation). O mesmo se passava em relação à Africa do Sul: havia uma colaboração estreita com as polícias e os serviços de informação sul-africanos. Repare que todos os países situados entre Angola e Moçambique não nos podiam ser hostis porque a sua sobrevivência dependia dos abastecimentos que chegavam, exclusivamente, pelas linhas férreas da Beira e do Lobito.
(...)
B.O.S: Como é que reagiu à publicação de Portugal e o Futuro do general Spínola?
O.C: Muito mal. Ficámos todos com a sensação de que aquilo era o prncípio do fim. Aliás, não foi o Spínola quem escreveu o livro- foi o coronel Pereira da Costa. O Spínola era um oficial de Cavalaria, era um eguariço, como se costumava dizer. Tinha um vocabulário de duzentas palavras. Não tinha capacidade para escrever nada. Talvez as ideias tenham sido fornecidas pelo Spínola, mas quem redigiu o livro foi o outro.
B.O.S: E como militar?
O.C: Era bom militar.
B.O.S: Acha que sim?! Então não era só fachada? O Spínola era vaidoso como um pavão, dispunha de vários sacos azuis para pagar a sua própria propaganda. Olhe, é à custa disso que ainda hoje o julgam um grande estratega militar...
O.C: Eu conheço essas histórias, mas pelo menos em Angola foi um bom coronel. Era, sobretudo, um militar com prestígio, tinha carisma, era o homem que aparecia lá em cima com pose autoritária, com as luvas e o pingalim... Sabe que as Forças Armadas vivem também da fachada, dos tambores, das cornetas.
B.O.S: Os missionários causavam-lhe problemas?
O.C: Em África, existiam missionários católicos e missionários protestantes. De um modo geral, aqueles que nos eram mais favoráveis eram os católicos. Entre os missionários protestantes havia de tudo- uns eram agentes da CIA, outros do MI6, alguns do próprio SDECE francês...
Lembro-me de que na missão de Catata, perto de Serpa Pinto, existia um missionário que era- soubemo-lo através de intercepção de correspondência- um agente da CIA. Escrevia cartas para os Estados Unidos descrevendo a situação, o ambiente da população, as tendências da população, os ataques, etc. Por tudo o que ele escrevia percebia-se que era hostil à presença portuguesa. Eu fiz esse missionário mudar rapidamente de ideias com a ajuda de alguns flechas. Vesti os flechas com fardas da UNITA e organizámos um ataque à missão: provocámos uns distúrbios, partimos uns vidros. O certo é que o missionário mudou logo de ideias em relação à presença dos portugueses em África.
Lembro-ne também de que existia no Cuando-Cubango, numa terra chamada Chama Vera, uma congregação de frades franceses, na qual seguimos a mesma estratégia. Eles até estavam a fazer uma obra engraçada. Olhe, eram os únicos brancos que falavam correctamente o dialecto dos bosquímanos!
Mas a verdade é que também apoiavam claramente os terroristas: davamlhes roupas, alimentação, etc. E, repare, numa altura em que nós tínhamos já alguns conflitos com a Santa Sé, a simples expulsão desses missionários não era a melhor solução. Era preciso fazê-los mudar de ideias. Organizámos também um ataque, vestindo os flechas com as fardas dos terroristas, e os padres decidiram ir embora...
Mas não se julgue que as missões tinham apenas aspectos negativos. Lembro-me muito bem da madre Cristina, da missão do Cuchi, uma missão linda, muito bem organizada. A madre Cristina era brasileira e dirigia naquela missão várias freiras, que tinham a seu cargo a educação de inúmeras meninas. Uma ou outra vez, os terroristas chegaram mesmo a entrar na missão, tendo mesmo violado algumas meninas. (...)
(...), podemos dizer que os serviços de informação dos diversos países infiltravam agentes seus em diversas missões. Os americanos, os ingleses, os franceses, todos faziam isso. E se calhar o Vaticano também lá devia ter alguns! Aliás o Vaticano tem o serviço de informações mais bem organizado do mundo inteiro!
B.O.S: Qual era a situação militar nas três frentes de guerra, em Abril de 1974?
O.C: Na Guiné, havia um cansaço geral das duas partes. Era a mais dura das frentes de guerra. De qualquer modo, a situação não era desastrosa para os portugueses, como alguns tentaram fazer crer. Havia graves divergências no seio do PAIGC, onde a facção cabo-verdiana, mais intelectualizada, dominava os guineenses, que não se conformavam com essa situação.
Ao contrário do que se diz, nem os terroristas dominavam a maior parte do território, nem as nossas tropas abandonavam algumas zonas em favor do inimigo. O que se passava é que a Guiné não tinha população em várias áreas do interior e, a partir de determinada altura, entendeu-se retirar os militares que ocupavam essas zonas desertas. Os historiadores de pacotilha que temos vêem nessas retiradas a prova de que o nosso exército estava completamente batido. Não é verdade!
Em Moçambique, a situação estava controlada. Havia alguns problemas com os macondes, mas dominávamos o território.
Em Angola, a guerra estava ganha. A UNITA cooperava connosco, o MPLA estava falido e não fazia guerrilha e a FNLA limitava-se a fazer algumas incursões esporádicas no norte.
1958: ano de eleições presidenciais.
O General Humberto Delgado apresenta a sua candidatura. Numa conferência promete demitir Salazar caso seja eleito. "Obviamente, demito-o" é até hoje recordado e apresentado quase como "slogan" de campanha.
O candidato do regime foi o almirante Américo Tomás, que acabaria por "ganhar" as eleições.
Humberto Delgado após a "derrota" eleitoral acaba por sair do país. Fixa-se no Brasil. Anos mais tarde é atraido a Portugal. Acaba por ser morto em terras espanholas. A PIDE aparece como culpada.
Vejamos o que sobre tudo isto (e sobre outros acontecimentos) diz o ex-inspector Óscar Cardoso.
ENTREVISTA COM ÓSCAR CARDOSO
Bruno Oliveira Santos: Que memórias guarda das eleições de 1958?
Óscar Cardoso: Lembro-me bem desse período eleitoral. Na altura eu era alferes e estava no Batalhão de Metralhadoras 1, na Calçada da Ajuda. Entrámos várias vezes de prevenção. É evidente que a nossa unidade estava pelo regime vigente, embora houvesse já alguns dissidentes. Não eram tempos fáceis. Sabia-se que o Humberto Delgado tinha sido fortemente influenciado pelos americanos, que estiveram sempre interessados em acabar com o nosso Ultramar, e na altura havia já uns prelúdios de problemas em África, começaram a aparecer umas seitas profético-salvânicas com algum fundo político.
B.O.S: Disse que o Delgado era fortemente influenciado pelos americanos. Ele era agente da CIA?
O.C. É possível. Pode ter sido porque na verdade o Delgado modificou-se completamente depois de ter regressado dos Estados Unidos, onde desempenhou determinadas funções, e sobretudo depois de o Presidente do Conselho, dr. Oliveira Salazar, não o ter nomeado para um alto cargo, julgo que o de governador-geral de Angola. O Delgado chateou-se e resolveu passar para a oposição ao regime. Mas é curioso que, alguns dias antes das eleições, no Batalhão onde eu estava, me dirigi aos soldados, explicando-lhes o momento que se vivia, começando por dizer-lhes que o general Delgado tinha umas certas ideias, o almirante Américo Tomás é que era uma pessoa da nossa inteira confiança, e os soldados disseram-me: Meu alferes, a gente não sabe nada disso, nós vamos para onde nos mandar.
(...)
B.O.S: Num curto espaço de tempo, entre 1959 e 1960, Delgado fugiu para o Brasil, Henrique Galvão evadiu-se, Cunhal fugiu de Peniche. Parece que de um momento para o outro todas as figuras da oposição são enviadas para o estrangeiro para lutar contra o regime. Quem lhes abriu as portas? Foi a PIDE?
O.C: Eu penso que sim. Eu ainda não estava na PIDE e, por isso, não sei com que intenção se terá permitido a saída ou a fuga para o estrangeiro das figuras mais marcantes da oposição, saídas que de facto ocorreram todas mais ou menos na mesma altura. Lembro-me de, alguns anos depois, ter conversado sobre isso com antigos colegas da PIDE, nomeadamente o director Cunha Passo, que me confirmaram essa tese. Foi tudo preparado. Repare que o Álvaro Cunhal era um homem que ia de Mercedes fazer os exames de Direito, o seu processo na PIDE desapareceu sem deixar rasto. E olhe que era um documento importante. Mostrava, entre outras coisas, que o Cunhal não foi sempre o bravo lutador antifascista que todos julgavam que era...
B.O.S: Mas o insucesso na recaptura de Cunhal ditou o afastamento do director-geral da PIDE, capitão Neves Graça, que segundo alguns mantinha uma ligação com o grupo de Botelho Moniz, e a sua substituição pelo coronel Homero de Matos.
O.C: Não é muito provável que o capitão Neves Graça estivesse ligado ao grupo de Botelho Moniz, mas também não é de todo impossível. E, se calhar, terá sido mesmo essa ligação que ditou o seu afastamento, mais do que o insucesso na recaptura de Cunhal.
B.O.S: O golpe de Botelho Moniz é uma intentona que recebe, desde o início, o apoio inequívoco da CIA e onde estão também o então tenente-coronel Costa Gomes e o próprio Marcello Caetano...
O.C: Apesar de na altura ainda não ter ingressado na PIDE, lembro-me muito bem do golpe abortado do Botelho Moniz e do Costa Gomes. Desconheço sinceramente até que ponto o Marcello Caetano terá estado ligado à tentativa de golpe, mas a verdade é que a tese do seu envolvimento faz todo o sentido.
B.O.S: E é curioso que no assalto liderado por Varela Gomes ao quartel de Beja, na passagem do ano de 1961 para 1962, o Costa Gomes volta a estar presente...
O.C: O Costa Gomes esteve em todas. É curioso que, nos anos 50, o Costa Gomes foi meu professor de Matemática no Colégio de São João de Brito. Olhe, não havia tipo mais religioso do que ele. Aliás, o São João de Brito era um colégio de Jesuítas. Depois, foi meu comandante-chefe em Angola, e posso garantir-lhe que nunca tivemos um comandante-chefe que nos desse mais apoio do que ele na guerra que fazíamos no Ultramar. Foi, sem dúvida, o homem que mais apoiou a PIDE/DGS em Angola.
B.O.S: Já estava na PIDE aquando da morte de Delgado?
O.C: Ingressei na PIDE alguns meses depois da morte de Humberto Delgado. E, como é de bom tom nestas coisas, nunca fiz muitas perguntas sobre o caso. De resto, como deve imaginar, independentemente de sermos todos colegas, numa polícia de informação ou de investigação há necessariamente certos limites. Foi já depois da PIDE ter sido extinta, quando estávamos todos na prisão, que conversei com vários colegas e amigos sobre o caso Delgado.
Conheci bem o Casimiro Monteiro, o homem que parece que o matou. Conheci-o na Índia, no final dos anos 50. Trabalhava na polícia. E depois do 25 de Abril, voltei a encontrá-lo na África do Sul.
B.O.S: O Casimiro Monteiro teve vários problemas na Índia, foi demitido da polícia após processo disciplinar...
O.C: Parece que sim. Mas já depois da queda da Índia Portuguesa, ele esteve envolvido com a resistência portuguesa naquele território. Fez um trabalho excepcional. Era um homem destemido, especialista em descobrir e desmontar minas e armadilhas. Há quem diga, contudo, que era ele quem punha ou mandava pôr as minas e depois ia lá descobri-las. Estou a falar-lhe com toda a franqueza. Mas era um homem destemido. Em inúmeras operações militares em África, sabe que arma ele utilizava? Uma catana de samurai! Entrava nos acampamentos dos turras, aos berros, com aquele corpo enorme, e resolvia as coisas à catanada. A vida dele dava um romance! Combateu na guerra civil espanhola e esteve na Rússia durante a II Guerra Mundial.
B.O.S: A fazer o quê, a combater na Frente Leste?
O.C: Sim, sim. Em Estalinegrado. E o Spínola também lá esteve. Não sei se como combatente ou como mero observador, mas também lá esteve.
B.O.S: Mas não é estranho que um homem que foi demitido da polícia na Índia, após instauração de processo disciplinar, tenha ingressado na PIDE pouco tempo antes do caso Delgado e imediatamente incorporado na brigada ad hoc que matou o general?
O.C: É de facto muito estranho e não consigo encontrar explicação para isso.
B.O.S: Quem prepara a brigada ad hoc é o Pereira de Carvalho...
O.C: É efectivamente o Pereira de Carvalho, mas a brigada não podia ter sido constituída sem o consentimento do Barbieri Cardoso.
B.O.S: O Pereira de Carvalho tinha um poder enorme, dirigia a Secção Central que era uma polícia dentro da polícia...
O.C: Era, mas uma polícia dentro de outra polícia também está subordinada a um director. Repare: o major Silva Pais era aquele director decorativo, simpático, porque o homem forte era efectivamente o Barbieri Cardoso, que fez quase toda a carreira na PIDE. O major Silva Pais, por quem eu tenho muita admiraçãoo, sobretudo depois de ter assistido à forma digna como se comportou na prisão, era uma figura política da PIDE; o Barbieri Cardoso é que era realmente um homem de carreira nos serviços de informação, espionagem e contra-espionagem. Mas é evidente que se a operação carecia do consentimento do Barbieri Cardoso, já a constituição da equipa pode ter sido da inteira responsabilidade do Pereira de Carvalho.
B.O.S: Bacorejava-se que o Pereira de Carvalho era um homem da CIA...
O.C: É muito provável. Olhe, gostei muito de trabalhar com o Pereira de Carvalho. Era um homem desempoeirado e dinâmico. A verdade é que, de um momento para o outro, ele passou a habitar uma bela casa e a conduzir bons carros. Talvez fosse mesmo um homem da CIA. Se é verdade, tenho muita pena.
Mas sobre o caso do Delgado, é tudo muito nebuloso. A quem interessava a morte do Delgado? Só interessava ao grupo de Argel.
B.O.S: Aliás, poucos meses após o incidente, Henrique Galvão escreveu vários artigos no jornal brasileiro "Estado de São Paulo", responsabilizando o grupo de Argel pela morte de Delgado, com a conivência do Partido Comunista. E a composição da brigada dá que pensar: organizada pelo Pereira de Carvalho, possivelmente um homem da CIA, e constituída pelo Casimiro Monteiro, recém-chegado à PIDE e imediatamente incorporado na mais importante operação do ano, o Rosa Casaco...
O.C: Conheço todos os que participaram nessa operação. De facto, o Casimiro Monteiro tinha ingressado recentemente na PIDE, mas olhe que, pensando bem, numa operação desta natureza talvez conviesse mesmo integrar um homem que não conhecesse nada do processo e que tivesse já alguma experiência em operações deste tipo. É que o Casimiro Monteiro era como um bulldog- dizia-se faz e ele fazia. Era um homem muito grande, muito largo, era uma besta de força. Tinha muita experiência militar. Quanto ao Agostinho Tienza, ele era apenas o condutor. O Ernesto Lopes Ramos, hoje licenciado em Direito e vivendo no Brasil, era um homem inteligentíssimo. O Rosa Casaco era um tipo essencialmente venal, um indivíduo que gostava muito de dinheiro. Vestia bem, era um bon vivant, divertia toda a gente com umas larachas. Mais tarde, teve um processo disciplinar por tráfico de divisas. Todos eles terão sido convocados pelo director Pereira de Carvalho.
Para o que sucedeu naquele dia em Villa Nueva del Fresno, avento duas hipóteses: uma é a do suborno. Custa-me muito dizer isto porque o Pereira de Carvalho foi provavelmente o melhor director que tive. A verdade é que ele também gostava muito de dinheiro e pode ter sido manobrado pelo grupo de Argel, que era a única organização interessada na eliminação física de Delgado. Até porque o Delgado tinha desiludido, vinha com o intuito de denunciar aquilo tudo, os comunistas, o bando de Argel... Esta é uma hipótese. A outra, e inclino-me mais para esta, é a seguinte: o Casimiro Monteiro era um homem impulsivo, e impulsivo era também o general. E o general Delgado era um indivíduo que andava sempre armado. Ao ver avançar para ele aquele tipo descomunal que era o Casimiro Monteiro, o general rapa da pistola, o outro rapa também e mata-o primeiro. Pode ter sido isso.
De uma forma ou de outra, o que parece mais lógico é que deve ter sido o grupo de Argel a preparar a trama, tendo havido alguma fraqueza da nossa parte. Uma coisa eu posso garantir: o dr. Oliveira Salazar, por tudo o que lhe conheço, e algumas vezes fiz serviço de vigilância ao presidente do Conselho de Ministros, estaria sempre contra a eliminação física de alguém.
B.O.S: Nunca conversou com o Casimiro Monteiro acerca deste assunto na África do Sul?
O.C: Não, nunca falei. Eu fui para a África do Sul depois de ter sido libertado sob caução e para evitar, como parece que esteve para acontecer, que me prendessem novamente. Mas vinha a Portugal de vez em quando e numa dessas escapadas fui contactado por uma advogada, Maria Manuel Magro Romão, que me pediu para falar ao Casimiro Monteiro. Disse-me que estava interessada em escrever uma biografia dele, sobretudo sobre a sua participação no caso Delgado. E eu falei com o Casimiro Monteiro. Encontrei-o em Richards Bay vivendo miseravelmente e quase cego. Usava o nome falso de José Fernandez. Sobrevivia com a ajuda da polícia sul-africana, que o amparou depois de ter fugido de cá. Disse-lhe que estavam interessados em escrever uma biografia dele, que lhe pagavam, e ele não se pôs de lado. Entretanto, o projecto não avançou de imediato e o Casimiro Monteiro morreu. Há quem diga que não morreu, mas morreu mesmo.
Registo inicial:
- Decreto-Lei 35.046, de 22 de Outubro de 1945- instituição da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE).
Artigo 1º:
"(...) organismo de polícia judiciária dependente do Ministério do Interior, ao qual cabem, quanto ao objecto da sua competência, os mesmos poderes e funções que a lei confere à polícia judiciária".
Artigo 2º
"(...) [atribuição de ] funções administrativas e funções de repressão e de prevenção criminal".
Anteriormente (desde o período da Ditadura Militar):
Decreto nº 12.972, de 16 de Dezembro de 1926- Criação de uma Polícia geral de informações de carácter secreto.
Decreto nº 15.195, de 17 de Março de 1928: Criação da Polícia de Informação.
1931: extinção da polícia anterior e criação da Polícia Internacional Portuguesa.
1933: mudança de nome para Polícia de Defesa Política e Social.
Foi extinta neste mesmo ano, passando depois a denominar-se Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE).
1945- PIDE
1969- nova denominação: Direcção-Geral de Segurança.
Apresentamos, então, a entrevista com o ex-inspector Óscar Cardoso, sobre "A organização da PIDE/DGS".
ENTREVISTA COM ÓSCAR CARDOSO
Bruno Oliveira Santos: A PIDE tinha- entre corpo directivo, agentes, pessoal administrativo e auxiliar- cerca de 2.500 efectivos. Isto não era uma enormidade para um país como Portugal?
Óscar Cardoso: Com os agentes do Ultramar, talvez fossem quase 3.000 efectivos. E este número não é nenhuma enormidade. Não se esqueça que Portugal ia do Minho a Timor. Estando hoje Portugal reduzido às fronteiras do tempo de D. Afonso III, sabe quantos homens tem a GNR? Cerca de 30.000. E sabe quantos tem a PSP? Mais de 20.000. Some-lhes ainda os da Polícia Judiciária, que não sei quantos são.
B.O.S: Como é que se processava a entrada na PIDE?
O.C: O exército, nas suas ordens de serviço, publicava convites, dirigidos sobretudo a oficiais milicianos, que no caso de estarem interessados em ingressar no quadro da PIDE deveria submeter-se depois a concurso. Isto no caso de candidatos provenientes do exército, porque ingressaram na PIDE vários ex-agentes da Polícia Judiciária e da GNR, como é o meu caso.
B.O.S: No caso de virem do exército, era preciso a abonação de um oficial.
O.C: Pois era. Exigia-se, de facto, a abonação de um oficial, até porque o candidato necessitava de ter uma folha militar limpa.
B.O.S: É verdade que vários oficiais que se destacaram depois do 25 de Abril, como Vasco Gonçalves, abonaram a entrada de diversos agentes?
O.C: Eu nunca vi nenhuma abonação assinada pelo Vasco Gonçalves, mas conheci na prisão um agente, o Augusto Queirós, de Portalegre, que me disse que tinha sido abonado precisamente pelo Vasco Gonçalves.
O Costa Gomes, esse então, deve ter abonado muitos. Principalmente candidatos provenientes de Angola, no tempo em que ele era comandante-chefe.
B.O.S: Os informadores tinham um peso significativo na resolução dos problemas?
O.C: Há que distinguir dois tipos de informadores: aqueles que fornecem informações por entenderem que o devem fazer, sem terem sido solicitados para tal e sem exigirem qualquer pagamento, e aqueles que, como em qualquer Estado e em qualquer polícia, fornecem informações para ganhar umas coroas, ainda que sejam indivíduos bem formados. Porque também há informadores angariados na ralé, como são quase todos aqueles que colaboram hoje com a Polícia Judiciária: a gatunagem, os traficantes de droga, que se denunciam una aos outros.
Nenhum Estado sobrevive sem informação. Ora, sem informadores não há informação. Por isso, como qualquer polícia, a PIDE também tinha informadores, inclusivamente no Partido Comunista. Agora, se me pergunta qual o peso que esses informadores tinham dir-lhe-ei que eles eram catalogados de acordo com a qualidade das informações. Havia indivíduos cujas informações batiam sempre ou quase sempre certo e outros cujas informações não tinham qualquer veracidade.
B.O.S: É verdade que os ficheiros da PIDE- os chamados Dossiers Individuais de Controlo- tinham informações sobre mais de um milhão de portugueses?
O.C: Não faço a mínima ideia. Quando entrei para a PIDE fiz um estágio em todos os departamentos e passei também pelos serviços reservados, mas nunca me forneceram qualquer indicação sobre o número de ficheiros existentes.
B.O.S: Esses ficheiros podiam ser consultados livremente por qualquer agente?
O.C: De maneira nenhuma. Estavam reservados à consulta pelos inspectores que estavam nessa divisão. A prática era esta: se um inspector de outra divisão pretendia consultar um ficheiro, tinha de preencher um documento de requisição para o efeito, que era depois arquivado.
B.O.S: Todos esses ficheiros desapareceram...
O.C: Os ficheiros desapareceram porque a sua revelação punha a descoberto os crimes e os vícios de muitos impolutos lutadores antifascistas, alguns deles bufos da PIDE. Os ficheiros importantes foram, como sabe, para a União Soviética. Os que vieram para a Torre do Tombo são refugo.
Desapareceu o processo secreto do navio Angoche, em cujo afundamento estava implicado o PCP; desapareceu o processo do dr. Álvaro Cunhal; desapareceu o processo que comprometia o bando de Argel na morte do general Humberto Delgado; desapareceu o processo de Júlio Fogaça, militante do PCP, preso com o namorado, que era um soldado de Cavalaria 7; desapareceu o processo que demonstrava que a famosa fuga de Peniche fora preparada pela PIDE; desapareceu o processo do Jean Jacques Valente, que estava preso por homicídio, e que depois do 25 de Abril foi credenciado para interrogar os funcionários da PIDE, em Caxias...
Por outro lado, apareceram muitos ficheiros- fabricados e introduzidos nos arquivos depois do 25 de Abril- para dar um estatuto de mártir e de torturado a muito menino que nunca pôs os pés na António Maria Cardoso! Sabe que esses mártires têm hoje direito a benefícios fiscais e pensões do Estado? Talvez isto ajude a explicar a inflação de torturados...
B.O.S: Quer dizer que a tortura não era uma prática institucionalizada na PIDE?
O.C: É claro que não. Um dia vi na televisão uma velhota a mostrar as cicatrizes causadas por queimaduras de cigarro que lhe haviam sido feitas pelos torcinários da PIDE. Uns dias depois, a mesma velhota dizia nos jornais que recebera 40 contos do Partido Comunista para mostrar as queimaduras, que afinal foram provocadas por azeite a ferver num acidente doméstico. É que com estas mentiras que se fas a história! Olhe, eu servi na GNR e na PIDE. Onde eu vi grandes sovas foi na GNR. A PIDE era uma polícia semelhante à de muitos outros países democráticos. A França tinha o SDECE e o DST, a Inglaterra tinha o II5 e o DI6, os Estados Unidos da América tinham e têm a CIA e o FBI. Todas estas polícias faziam ou fazem ainda investigação, informação, espionagem e contra-espionagem. Afinal, éramos diferentes em quê? Fazíamos escutas telefónicas? Fazem-nas hoje todos os serviços de informação dos países democráticos. E Portugal não é excepção!
Com estas atordoadas de tortura e de escutas telefónicas que se lançam para o ar ninguém repara que hoje mesmo se está a formar uma nova polícia à escala mundial que, utilizando meios informáticos poderosos e altas tecnologias, controla facilmente a própria vida privada de cada um de nós. Mas como tudo é feito em nome da democracia, ninguém parece estar muito preocupado...
Os horrores da PIDE continuam a ser propagados para justificar a revolução e esconder as misérias destes últimos 25 anos. Não fomos nada do que dizem. Fomos, sim, uma das três melhores polícias do mundo. Prestámos relevantes serviços ao país.
B.O.S: A PIDE perseguiu os emigrantes?
O.C: Não. Perseguiu apenas os chamados engajadores, indivíduos sem escrúpulos que exploravam os que pretendiam emigrar e os sujeitavam a condições desumanas. Em relação aos emigrantes, nunca tomámos qualquer medida persecutória. Foram à nossa sede várias mulheres e mães de emigrantes pedir ajuda para visitar os seus maridos e filhos no estrangeiro. Recorriam a nós porque sabiam que, para além de assegurarmos o serviço de fronteiras, tínhamos competência para emitir passaportes.
Lembro-me de um caso que vale a pena contar. Apareceu um belo dia na PIDE uma senhora idosa com um semblante pesaroso. O marido, que estava em França, sofrera um acidente e estava internado no hospital. A senhora queria ir vê-lo, mas não tinha dinheiro suficiente para os gastos. Os nossos serviços emitiram-lhe um passaporte especial, arranjaram-lhe um farnel, acompanharam-na a Santa Apolónila e compraram-lhe o bilhete. Não foi caso único.
B.O.S: São constantemente referidos os casos de Dias Coelho e de Ricardo dos Santos para demonstrar a mão pesada da PIDE.
O.C: Em nenhum dos casos houve a intenção de matar. O Dias Coelho era militante do PCP. Dois agentes da polícia foram incumbidos de o prender. Contudo, a operação correu mal porque, avistado o Dias Coelho, um dos agentes não esperou pela colaboração do colega e decidiu actuar sozinho.
Apercebendo-se da situação, o Dias Coelho agrediu esse agente, que caiu no chão. Entretanto, chega o colega e agarra o agressor. Nesse momento, o agente caído- certamente com os sentidos afectados pela queda- saca da pistola e dispara atingindo mortalmente o Dias Coelho. Só por acaso a vítima não foi o outro agente, o Manuel Lavado, que ficou ferido no braço.
O caso de Ribeiro dos Santos não é muito importante. Recebeu na PIDE um telefonema da secretaria do Instituto Superior de Economia (actual Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras) informando que os estudantes haviam detido naquela escola um agente da nossa polícia. Quem atendeu o telefonema esclareceu o funcionário da escola que não havia tratar-se de um agente da PIDE porque não introduzíamos agentes nas escolas. De qualquer modo, foram enviados dois homens ao local para averiguar o sucedido. Os estudantes tinham efectivamente raptado um indivíduo, que estava no auditório com as mãos atadas a um saco na cabeça. Os nossos agentes tentaram libertá-lo, tendo sido violentamente agredidos pelos estudantes. Um dos agentes, que já estava ferido, sacou da pistola e deu uns tiros para o ar, com o propósito de dispersar os agressores. Uma bala atingiu, por ricochete, o Ribeiro dos Santos.
Apurou-se depois que o Ribeiro dos Santos não estudava naquele Instituto. Parece que era aluno de Direito. Creio que estava ali como provocador. O indivíduo que os estudantes raptaram era um agente da PSP.
B.O.S: É curioso verificar que, enquanto se fala muito no caso Ribeiro dos Santos, não se diz uma única palavra sobre a morte de um outro militante do MRPP, Alexandrino de Sousa, assassinado depois do 25 de Abril por elementos da extrema-esquerda quando andava a colar cartazes em Lisboa.
O.C: Pois não. Depois do 25 de Abril já não havia a PIDE para carregar a culpa. Mas deixe-me dizer-lhe que, no caso Ribeiro dos Santos, as investigações foram conduzidas pela Polícia Judiciária, que enviou o processo para o Tribunal, tendo sido provada a legítima defesa do autor dos disparos.
Da autoria de Bruno Oliveira Santos, Histórias secretas da PIDE/DGS, é uma obra que, para além de apresentar este organismo de polícia judiciária (do Estado Novo), estabelece as relações existentes entre a mesma e várias situações ou contextos vividos em determinado período da história de Portugal.
Organizando-se este trabalho na apresentação de uma introdução feita pelo autor a cada um dos capítulos, seguindo-se depois entrevistas, dentro das temáticas respectivas, a três ex-elemento da organização, a sua riqueza é, por isso mesmo, reforçada.
Ler o que antigos intervenientes da polícia têm para contar e para justificar, é de extrema importância para completarmos ou reestruturarmos ideias, para percebermos como entenderam e viveram o seu trabalho, assim como para compreendermos melhor determinada época e regime.
Neste sentido, julgámos importante apresentar neste nosso blog, em vários posts, algumas dessas entrevistas.
Dos nomes envolvidos (Cunha Passo, Abílio Pires, Óscar Cardoso, Diogo Albuquerque), escolhemos editar as entrevistas dadas pelo ex-inspector Óscar Cardoso.
Independentemente da escolha feita, deixamos registada informação sobre cada um dos envolvidos (de acordo com "Notas Biográficas" apresentadas pelo autor):
"José Manuel da Cunha Passo nasceu em Mafra, a 13 de Setembro de 1925. Ingressou na PIDE em 1955, como Inspector. Em Abril de 1974, era Director dos Serviços de Investigação e Contencioso da DGS, assegurando ainda a chefia do Gabinete Nacional da Interpol.
Óscar Aníbal Piçarra de Castro Cardoso nasceu em Lisboa, a 10 de Junho de 1935. Concluídos os estudos liceais, matriculou-se no Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina. Pertenceu à Mocidade Portuguesa, Legião Portuguesa, GNR e Exército, tendo ingressado na PIDE em 1965. Criador dos Flechas, era a 25 de Abril de 1974 Inspector-Adjunto da DGS, sendo responsável pelos serviços de informação em Angola e Moçambique. Em 1992, foi-lhe atribuída uma pensão vitalícia por serviços distintos prestados à Pátria. Autor do livro Espingarda de Caça (Lisboa, Inapa, 1996) e co-autor de A Bem da Nação (Lisboa, Dom Quixote, 1998).
Abílio Augusto Pires nasceu em Castro de Avelãs (Bragança) a 5 de Junho de 1926. Frequentou a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Depois de cumprir o serviço militar, ingressou em Janeiro de 1950 na PIDE, como agente auxiliar. Inspector desde 1965, era em Abril de 1974 Inspector-Adjunto da DGS, dirigindo o Centro de Informação 2 daquela polícia. Em representação do Ministério do Interior, integrava ainda o Conselho de Segurança Interna.
Diogo Albuquerque nasceu em Lisboa, em Abril de 1939. Depois de cumprir o serviço militar, ingressou na PIDE em 1960, como agente auxiliar. Em Abril de 1974, era Chefe de Brigada da DGS".
Referência bibliográfica:
SANTOS, Bruno Oliveira- Histórias secretas da PIDE/DGS. Lisboa: Nova Arrancada, 2000.
A ordem de apresentação das entrevistas em posts seguirá a orgânica da obra, a saber:
- A organização da PIDE/DGS
- Das eleições de 1958 à morte de Delgado.
- A guerra de África
- O terrorismo de esquerda
- O golpe de 25 de Abril.
Amanhã, apresentaremos as entrevistas dadas relativamente às duas primeiras temáticas. No Domingo, as restantes.
"O horror dos gulags escondidos na Coreia do Norte", assim como "É preciso pressionar Pyongyang", entrevista com David Hawk, são dois trabalhos assinados por Francisca Gorjão Henriques no jornal Público de hoje que, pelo conteúdo de importância histórica (no âmbito da História Contemporânea) que apresentam, entendemos deles fazer registo e anexar a sua transcrição.
O HORROR DOS GULAGS ESCONDIDOS NA COREIA DO NORTE
Torturas, infanticídio, abortos forçados, violações de mulheres, rações mínimas para não morrer à fome... Em pelo menos 36 campos prisionais da Coreia do Norte, escondidos em vales ou no meio das montanhas, vivem-se situações de verdadeira escravatura. São campos de trabalhos forçados de onde, por vezes, só se sai para morrer em casa ou na rua: uma forma de diminuir o número elevadíssimo de mortes nas prisões. Mas para lá ir parar pode bastar uma simples distracção. Como cantar uma música pop sul-coreana. Com base em imagens de satélite e entrevistas a antigos detidos e guardas prisionais que conseguiram fugir para o estrangeiro, o Comité Americano para os Direitos Humanos na Coreia do Norte- um grupo independente com sede em Washington- concluiu que "os campos norte-coreanos foram construídos segundo o modelo estalinista e continuam a ser geridos assim", escreve Anne Aplebaum no prefácio. "Como no tempo de Estaline, a liderança norte-coreana não quer que ninguém saiba nenhum destes pormenores", continua Aplebaum. E nega que os campos existam. Mas desde terça-feira que as 125 páginas do relatório "O Gulag Escondido: Os Campos de Prisioneiros da Coreia do Norte", dirigido pelo investigador David Hawk (ver entrevista), estão acessíveis ao público.
Prisões políticas, punições colectivas
Os avós de Kang Chol-hwan, 35 anos, estavam no Japão, mas decidiram ir para Pyongyang para contribuir para construir o socialismo. Mas um dia o avô desapareceu e foi dito à família que cometera um acto de alta traição. Todos, excepto a mãe de Kang, foram levados para o campo de trabalho de Yodok (um campo "kwan-li-so", destinado aos crimes políticos; já existiram uma dezenas deles, mas agora há seis ou sete). Kang tinha nove anos. Ficou lá até aos 19, quando foi inesperadamente libertado.
Existem entre 150 mil e 200 mil norte-coreanos detidos por crimes políticos: algo que pode ir da leitura de um jornal estrangeiro ao insulto à autoridade. Dezenas de milhares são presos juntamente com os vários membros da família, muitas vezes até três gerações, que são distribuídos por áreas distintas, ou por campos diferentes, impedidos de manter contactos entre si.
"São presos sem qualquer processo judicial, que frequentemente cumprem penas perpétuas". E trabalham como escravos em minas, a cortar árvores, ou a tratar de animais de criação- uma tarefa considerada privilegiada devido ao acesso às rações, que permite aumentar a dose calórica diária. Há quem tenha menos sorte, como Kim Tae Jin, que esteve no mesmo campo entre 1988 e 1992. Para sobreviver comia plantas, raízes, ratos, cobras, sapos.
Os delitos comuns
Os campos "kyo-hwa-so"- que significa "um lugar para tornar uma pessoa melhor através da educação"- albergam presos que tiveram direito a um processo judicial e recebem penas fixas de prisão, ao fim das quais são, libertados. Mas largos milhares morrem antes de a pena chegar ao fim, em acidentes de trabalho- em minas, fábricas, pedreiras- ou por não resistirem à fome. Aqui, os presos recebem 100 gramas de feijão ou arroz por dia. Os que não conseguem resistir são "atirados para as montanhas, como animais mortos", sem serem enterrados.
São campos para delitos comuns, mas por vezes trata-se de uma forma encapuzada de prisões políticas: Ji Hae-nam, agora com 54 anos, foi presa por perturbar a "ordem socialista". Fazia parte do comité de propaganda do Partido dos Trabalhadores. Mas fixou uma música sul-coreana que ouviu na televisão. Numa festa com outras mulheres, cantou-a. Os vizinhos denunciaram-na. Foi presa, espancada, violada. Ao fim de dois anos e dois meses libertaram-na.
Os criminosos da fronteira
Foi a simples curiosidade de um adolescente de 19 anos que levou An Hyuk a "espreitar" a China. Custou-lhe caro: foi repatriado para a Coreia do Norte, esteve um ano e oito meses em solitária (est