novembro 30, 2003

MUTILADOS. CONSEQUÊNCIAS DA GUERRA EM ÁFRICA (1961-1974): testemunhos- 2

Continuando a apresentação de testemunhos representativos da problemática supra-referenciada, seguem-se as palavras de Mário Santos Sobral. Nascido em 1946, foi 1º cabo comando. Serviu em Angola (1967-1968).

MUTILADOS. DOR ETERNA

Mário Santos Sobral
"Fui classificado para os comandos, tirei o curso de comandos em Angola e mantive-me operacional até ao ano em que fui ferido. Fazia operações constantemente. No dia 13 de Janeiro, partimos para o Leste de Angola, para Teixeira de Sousa, depois para Gago Coutinho, Lumbala, entrámos na Zâmbia. Estive uns três meses no Leste de Angola. Descansávamos dois ou três dias, no máximo cinco, e avançávamos outra vez para o mato. Tínhamos também operações relâmpago, quando íamos num dia e vínhamos no outro. Demos muitos tiros, fizemos muitas baixas ao inimigo, caçámos muitas armas, mas nunca sofremos qualquer baixa enquanto estivemos no Leste de Angola. Só no Norte de Angola é que sofremos uma baixa. Eu fui ferido na Maria Fernanda, na zona dos Dembos, no Norte. Aí sim, fomos muitas vezes atacados pelo MPLA. Uma noite fiquei a emboscar um trilho por onde eles passavam e por onde acabaram por não passar porque nos pressentiram. Da vez que fui ferido, a minha equipa ia à frente, o mato era muito intenso, e demos com um acampamento. Nessa altura, as balas batiam mesmo junto a nós e fizemos a reacção. Eu fui atingido na coluna por um estilhaço, ou qualquer coisa, mas não fiquei logo paraplégico. Ainda fui para Luanda no carro. Aguentei com muitas dores até ao outro dia, e ainda fui para o hospital pelos meus próprios pés. Só quando me fizeram a punção lombar no hospital é que eu deixei de sentir as pernas. Se fosse socorrido mais a tempo, talvez não tivesse ficado paraplégico. Depois, estive 23 dias nos cuidados intensivos de Luanda e fui evacuado para Portugal. Fiz tratamentos no Hospital Militar de Alcoitão. O que senti primeiro, quando fui ferido, foi raiva aos pretos. Mas a maior raiva que eu tive foi quando cheguei ao hospital, a berrar de dores, e o médico me disse: "Ou te calas ou não te faço nada." Era a má vontade dele para me fazer a punção lombar".

(p. 960-961)

Publicado por sandra em 10:19 PM | Comentários (0) | TrackBack

MUTILADOS. CONSEQUÊNCIAS DA GUERRA EM ÁFRICA (1961-1974): testemunhos- 1

Dando continuidade ao post sobre o assunto editado no passado dia 18, apresentamos o 1º testemunho da responsabilidade de Luís Almeida Machado. Nasceu em 1948 e foi fuzileiro especial. Serviu na Guiné (1967-1969 e 1970-1971) e em Angola (1972-1973).

MUTILADOS. DOR ETERNA

Luís Almeida Machado
"Fui para os fuzileiros porque onde eu vivia não tinha saídas nenhumas. Lembrei-me de ir para a Marinha para ganhar alguns tostões. Fui formado lá e, com um certo espírito de aventura e parvoíce, assim que o curso de fuzileiros especiais acabou ofereci-me como voluntário para a Guiné. Como lá se ganhava mais, e eu tinha sido promovido, quando terminei a comissão fui novamente para lá. Tinha vontade de fazer asneiras e fiquei na Marinha porque não tinha qualquer outra formação para trabalhar. Até 1969, os fuzileiros estavam aquartelados em Bissau e faziam operações periódicas onde era necessário e quando os superiores o determinavam. Normalmente, as operações eram de oito em oito dias, ou de quinze em quinze dias. Íamos para o interior e andávamos por lá não sei quanto tempo. Em Angola era diferente, porque normalmente as operações eram de um dia. Íamos ao objectivo, fazíamos o que tínhamos a fazer e regressávamos. Quando o general Spínola chegou dizia-se, na conversa popular, sobre ele: "Agora, passamos à psico." Criou-se a ideia de que Spínola queria transformar os métodos de actuação na Guiné. Mas a questão do aquartelamento dos fuzileiros não dependeu só de Spínola. Quando umas lanchas foram atacadas no rio Cacheu, houve necessidade de se colocar uma unidade de serviços especiais na zona. Então, os fuzileiros passaram a estar aquartelados também em Buba, em Ganturé, em Teixeira Pinto, fazendo operações por toda a Guiné. Sempre que havia qualquer coisa os helicópteros transportavam-nos para lá.
Aquilo limitava-se, às vezes, a espalhar lá uns panfletos. Uma vez mandaram imprimir uns impressos com a imitação de uma nota de mil escudos, que era o que o governo daria aos tipos por cada arma que encontrassem. Mas em termos de operações, quando lá cheguei, cada vez que seguíamos para uma operação no interior éramos flagelados uma, duas, três ou quatro vezes. Na segunda comissão já não foi assim. Penso que terá sido pela experiência que o PAIGC adquiriu, passando a aparecer-nos com maior segurança, sem se expor tanto. A partir de 1970, eles já não surgiram com tanta frequência. Fui ferido em Bissau, no dia 13 de Junho de 1971, quando caíram obuses junto à SACOR, por baixo das instalações dos fuzileiros. O meu destacamento estava aquartelado, na altura, em Porto Gole, numa situação transitória, e foi chamado para perseguir o grupo que tinha flagelado Bissau. Fomos a Bissau, de onde partimos de helicóptero para a perseguição. Estivemos uma noite inteira a andar e, cerca das treze horas, estávamos a descansar um pouco quando eles nos apareceram. Isto só confirmava que eles tinham adquirido mais experiência, porque só apareceram quando estávamos a descansar. Fui ferido com estilhaços, na bariga e na perna, eu e mais dois. O helicóptero foi-nos buscar e fomos para o hospital. Fui tratado em Bissau e depois fui fazer os últimos tratamentos às nossas instalações no aquartelamento de fuzileiros, porque éramos melhor tratados aí. Em relação às reacções, quer minhas quer de outras pessoas, não estou contra ninguém. Mas lembro-me de que, no dia em que cheguei com os outros dois fuzileiros ao hospital militar em Bissau, cerca das catorze horas, já lá tinham dado entrada vinte e tal militares feridos. O general Spínola foi visitar o grupo todo e eu recordo-me de o ouvir dizer: "Isto hoje, está a render." Ainda hoje não sei o que é que ele queria dizer com aquilo, mas não gostei de ouvir. Fui tratado, estive lá dois ou três meses, e voltei para Ganturé, onde estava aquartelada a minha unidade. Não vim para Portugal antes do fim da comissão. Em Angola não tive grandes problemas porque estive sempre em zonas muito pacatas, no Sul.
Não sou uma pessoa muito sensível, mas ainda vivo com a guerra. Anteontem, passei a noite toda na Guiné. Em média, de três em três semanas, vivo na Guiné, com coisas que se passaram, e com outras que eu invento. Em relação aos pesadelos, já sonhei mais que uma vez com uma cena que se passou lá. Eu andava no rio Cacheu, dentro de um bote, com quatro homens, para impedir que se fizesse o transporte de material de guerra para a outra margem. Cada grupo passava lá oito horas, de noite. Recordo-me que estava na minha hora de descanso, a tentar dormir quando, em sonhos, imagino que vejo na margem do rio um grupo de guerrilheiros, e que quero informar o meu grupo mas que não consigo. Como não me consigo mexer nem fazer nada, fiquei numa aflição, a transpirar, até que me lembrei que estava a sonhar. Mas não conseguia acordar nem falar com nenhum.
Isto aconteceu-me mais duas vezes cá em Portugal. É uma coisa infernal. As coisas que me marcaram foram muitas, muitas, muitas. Houve uma extremamente chocante, durante uma operação que fizemos. Ao amanhecer, chegámos ao objectivo: um poço onde os grupos de guerrilheiros e as famílias se abasteciam de água. Emboscámos junto ao poço, e deparámos com duas ou três mulheres e quatro ou cinco homens, alguns armados. Desencadeou-se o fogo, não morrendo nenhum homem, mas ficando uma mulher ferida, que trazia uma criança às costas. A mulher ficou deitada meio de lado, com a criança a gritar. E houve um colega meu, fuzileiro, que pegou num sabre- a mulher estava de pernas abertas- e espetou-lhe o sabre na vagina. Na altura, fiquei revoltado: "Porquê? O que é a guerra? A guerra é isto?" Viemos embora e a criança ficou a chorar. Esta cena chocou-me muito, porque isto não era guerra. Outra história foi quando capturámos um indivíduo. Ele não nos podia acompanhar, mas também não o podíamos largar para ele não denunciar a nossa posição. Então, o comandante deu ordem para o matar. Encheram-lhe a boca de trapos para não gritar e espetaram-lhe um sabre no pescoço. À primeira não entrou, mas entrou à segunda".

(p. 959-960)

Publicado por sandra em 06:52 PM | Comentários (0) | TrackBack

ENFERMEIRAS PÁRA-QUEDISTAS EM ACÇÃO NO PORTUGAL COLONIAL: testemunhos-1

Dando sequência à introdução feita à temática em post de dia 18, editamos hoje a 1ª parte do primeiro testemunho consigo relacionado. Pertence este a Maria Ivone Quintino Reis que foi enfermeira e tenente pára-quedista. Nascida em 1929, serviu em Angola, Guiné e Moçambique entre os anos de 1962-1973.

ENFERMEIRAS PÁRA-QUEDISTAS.

Maria Ivone Quintino Reis (1ª Parte)
"Mesmo que a minha família não deixasse, eu ia para a Força Aérea. O que aconteceu em Angola sensibilizou-me para ir ao encontro daqueles que estavam indefesos. Nunca tinha ido a África, não tinha lá parentes, nem na tropa, mas achava impressionante que famílias que tinham feito a sua vida em África, de repente acordassem com os filhos mortos. Como iriam mais militares para África em defesa das populações, negras ou brancas- ali não havia brancos nem pretos, mas portugueses- a missão que nos era proposta era acompanhar todos os feridos que surgissem na frente de combate, de maneira a não desfalcar as pessoas qualificadas que estariam lá a receber os feridos. Faríamos a evacuação da zona operacional para o hospital da retaguarda e, eventualmente, de tanto em tanto tempo, acompanhávamos os feridos a Lisboa em aviões transatlânticos. No curso de pára-quedistas, em Tancos, éramos onze e sujeitámo-nos a todos os testes de admissão. Claro que havia um cuidado de adaptação, porque não tínhamos a mesma resistência que os homens. Mas marcámos sempre a nossa diferença. Às vezes, depois de fazermos o que estava adequado à nossa capacidade física, havia testes de fim de dia, para voluntários, para ver quem é que era capaz de fazer isto ou aquilo. Nós íamos sempre tentar. Mas depois soubemos que os homens faziam à noite apostas sobre o que nós erámos ou não capazes de fazer. O próprio capitão Fausto Marques, chefe de grupo, quando o general Kaúlza de Arriaga formou o nosso quadro para irmos para Tancos e nos mandou para lá, sentiu-se um bocado afectado porque os pára-quedistas tinham cinco anos de existência e seria uma quebra do mito de que eles eram os melhores, os mais audazes, o máximo. Nós íamos desmistificá-los.
Mas a partir de certa altura o capitão Fausto Marques, que no princípio sentira uma certa reserva face à nossa presença, já nos defendia, à noite, nas apostas e nas noitadas em que eles comentavam as nossas capacidades. Provámos que éramos capazes ou, pelo menos, fazíamos tudo para o conseguir. Depois desses treinos, muitos disseram-nos que aguentámos uma determinada exigência, como pioneiras, que os grupos posteriores não aguentaram. Tudo passou a ser mais moldado para outras, já com um certo acolhimento e sensibilidade para com as mulheres. Até porque muitas de nós acompanharam os grupos que todos os anos entravam, como elo de apoio, que nós não tivemos. O curso era de oito semanas: entrámos a 6 de Junho de 1961 e fomos brevetadas a 8 de Agosto. No fim do curso, ficámos umas semanas em Lisboa, para se fazerem as nossas fardas e se tratar de toda a papelada porque era a primeira vez que se fazia um curso daqueles. Enquanto se faziam as fardas, houve uma operação na serra da Canda e pensaram: "Vão duas enfermeiras, para se fazer o teste da sensibilidade dos soldados, para ver como é que eles reagem às mulheres." Eu e a Maria Arminda fomos para Angola, não sabíamos bem para quê, para um teste de integração do meio operacional. Fomos para Angola no dia 22 de Agosto e no dia seguinte participámos no lançamento de pára-quedistas, numa zona de combate. Ficámos na base aérea, no Negage. Na zona mais próxima da guerra havia sempre um posto de comando, a partir do qual os aviões lançavam os pára-quedistas. Nós aterrávamos na base do comando operacional, que comandava os lançamentos que se faziam. Não pudemos saltar, estivemos dentro dos aviões enquanto eles saltavam, e fazíamos o apoio sanitário porque levávamos todo o nosso equipamento. Depois, aterrámos numa determinada zona, no Norte de Angola, onde estava o posto operacional de comando, para ver como é que a operação se desenrolava".

(p. 663-664)

(Cont.)

Publicado por sandra em 02:44 PM | Comentários (2) | TrackBack

CILINHA E O MOVIMENTO NACIONAL FEMININO. Nota

Para efeitos de edição posterior apresentamos introdução ao testemunho de Cecília Maria de Castro Pereira Supico Pinto, Presidente do Movimento Nacional Feminino (MNF), cuja abordagem foi já feita neste blog, no âmbito da especificação do trabalho desenvolvido pelas "Madrinhas de Guerra":

"Conheceu África em 1948 e deixou-se cativar. O seu marido, Luís Supico Pinto (1909-1990), foi ministro da Economia, membro do Conselho de Estado, presidente da Câmara Corporativa e um influente conselheiro de Salazar. (...). Lembram-se dela muitos dos ex-combatentes de Angola, Moçambique e Guiné, que visitou nas frentes de campanha para minorar a solidão, estimular o patriotismo e integrar-se por vezes nas colunas militares. Com o apoio de Salazar, que enquadrou o seu voluntarismo, deu-lhe confiança e gostava do seu feitio irreverente, tornou-se a figura emblemática do Movimento Nacional Feminino (MNF), uma estrutura cívica que chegou a congregar 82 000 mulheres em Portugal e nos territórios de África. O MNF dava apoio aos militares e suas famílias e possuía uma eficaz rede de informações que superava por vezes os serviços da PIDE e das Forças Armadas. Cecília Supico Pinto tem nas pernas estilhaços de minas e fez de si própria uma lenda durante os treze anos de guerra".

Registamos que este testemunho é extraído de:

ANTUNES, José Freire- A guerra de África. 1961-1974. Volume I. Lisboa: Círculo de Leitores, 1995, p. 421-434).

Publicado por sandra em 01:07 PM | Comentários (1) | TrackBack

ÓSCAR CARDOSO: inspector da PIDE/DGS criador dos Flechas (1)

Na sequência do anunciado e introduzido em post de 18 deste mês, iniciamos hoje a edição do testemunho do ex-inspector da PIDE/DGS, Óscar Cardoso, relativamente à sua experiência em África, em particular com a criação dos Flechas, em Angola.
Na parte do testemunho agora editada, o ex-inspector faz a apresentação da estrutura superior da PIDE/DGS e especifica o posicionamento da polícia face a outras existentes no mundo. Regista, igualmente, a situação dos serviços de informação em África e acontecimentos em torno do navio Angoche.

ÓSCAR CARDOSO- CRIADOR DOS FLECHAS

"Ingressei em miúdo na Mocidade Portuguesa, quando tive de ingressar. Fi-lo, curiosamente, quando estudava no Colégio Moderno, do Dr. João Soares. Mais tarde entrei para a Legião Portuguesa e frequentei o Instituto Superior de Estudos Ultramarinos. Interrompi o curso para fazer o serviço militar na Índia. Depois fui para a Guarda Nacional Republicana até que, em 1965, entrei para a PIDE. Na estrutura da PIDE, Barbieri Cardoso era inspector superior. Mas depois apareceu São José Lopes, um homem com grande influência em Angola, e era necessário dar-lhe outra situação para compensar o bom serviço que tinha feito. Então, nomearam-no inspector superior do Ultramar. Entretanto, havia na PIDE um indivíduo muito mais antigo do que o Dr. São José Lopes, o inspector Coelho Dias, que era subdirector, e que também queria ser inspector superior. Criaram-se assim os lugares de subdirector-geral para Barbieri Cardoso, de inspector superior do Ultramar para São José Lopes e de inspector superior do Continente para Coelho Dias. Havia uma divisão de tarefas entre os três. A PIDE tinha muito boas relações com todas as polícias e serviços secretos do seu género na Europa e no mundo. É conhecida a ligação de Barbieri Cardoso aos serviços secretos franceses, dirigidos pelo conde Alexandre de Marenches. Mas dávamo-nos bem com todas as polícias congéneres e também com os americanos da Central Intelligence Agency (CIA). Operávamos muito em África, através de informadores, sobretudo nos países vizinhos de Angola, Moçambique e Guiné. Por exemplo, havia informadores na Tanzânia em ligação a Oscar Kambona, o chefe da oposição a Julius Nyerere. Mas o controlo era feito através de Lisboa, pela secção central na António Maria Cardoso, chefiada por Álvaro Pereira de Carvalho. Tínhamos de facto bons informadores em África, onde os nossos serviços faziam um trabalho sobretudo de intelligence, em colaboração estreita com os militares.
Foi precisamente através da nossa rede na Tanzânia que soubemos o que se tinha passado com o navio Angoche. O navio Angoche levava material para a nossa Força Aérea, material sofisticado, essencialmente material explosivo, bombas para os aviões, etc., e creio que ia para Porto Amélia. Soubemos que o Angoche foi abordado em 23 de Abril de 1971 por um submarino da União Soviética e que os seus tripulantes foram levados para a Tanzânia, para a base central da Frelimo, Nachingwea. Foi uma operação executada por soviéticos, o que nos foi possível confirmar pelas análises que fizemos dos vestígios encontrados no barco. A primeira pessoa que fez a investigação a bordo do Angoche foi o inspector Casimiro Monteiro. Verificou que as armas não estavam lá. A tripulação foi levada para Nachingwea e depois, penso eu, terá sido aniquilada. Penso que iam no Angoche à volta de vinte e três pessoas. Mais de metade eram africanos, de Moçambique, e os outros europeus. O navio não era de passageiros mas levava um passageiro a bordo, a quem se deu uma boleia, o que era estranho. Houve uma outra coisa curiosa: a mudança, à última hora, do radiotelegrafista. O radiotelegrafista que era para ir resolveu não ir. Pode ter sido uma mera coincidência, mas é curioso que assim tenha sido. Na nossa opinião, tratou-se de uma operação soviética, feita em colaboração com o Partido Comunista Português. Fala-se que houve oficiais da Marinha, hoje oficiais generais, que estariam envolvidos nisso. Houve também o estranho caso de uma rapariga que foi "suicidada" na cidade da Beira e que estava ligada aos meios esquerdistas da Marinha portuguesa. Esta versão dos factos constou dos nossos relatórios na altura. Tínhamos um relatório secreto sobre o Angoche que desapareceu da sede da DGS, na Rua António Maria Cardoso, depois do 25 de Abril. Foi um dos processos que desapareceram. O caso estava a ser investigado.

(p. 401-402)

(Cont.)

Publicado por sandra em 11:54 AM | Comentários (2) | TrackBack

CRONOLOGIA DA REVOLUÇÃO DE ABRIL: 1974-2º Semestre

Continuamos a edição da cronologia relativa à revolução de Abril. O período abrangido é de 2 de Julho a 13 de Dezembro de 1974.

CRONOLOGIA DA REVOLUÇÃO DE ABRIL

1974
(2º Semestre)

2 de Julho
Mitterrand, primeiro-secretário do Partido Socialista Francês (PSF), chega a Portugal para efectuar conversações com dirigentes portugueses e conhecer melhor o País e o seu povo, participando num comício do PS.

9 de Julho
O primeiro-ministro, Palma Carlos, pede a demissão do cargo, por não terem sido aceites pelo Conselho de Estado as sugestões que formulara no sentido do alargamento dos seus poderes. Acompanham-no no seu pedido de demissão, por solidariedade política, os ministros Sá Carneiro, Firmino Miguel, Magalhães Mota e Vieira de Almeida.

13 de Julho
O coronel Vasco Gonçalves é nomeado primeiro-ministro.

18 de Julho
Toma posse o novo governo.

Verificam-se profundas alterações no seio do elenco governamental. Assim, são nomeados oito novos ministros- Vasco Gonçalves, Vítor Alves, Melo Antunes, Costa Brás, José Augusto Fernandes, Vitorino Godinho, Costa Martins e Sanches Osório-, saindo Palma Carlos, Pereira de Moura, Sá Carneiro, Manuel Rocha, Vieira de Almeida, Eduardo Correia, Mário Murteira, Avelino Gonçalves e Raul Rêgo. Magalhães Mota, Rui Vilar, Silva Lopes e Lourdes Pintasilgo permanecem no Governo, mas em cargos diferentes daqueles que ocupavam.

30 de Julho
A Polícia Judiciária acusa formalmente a PIDE de ter assassinado o general Humberto Delgado.

10 de Agosto
Ex-pides provocam motim na Penitenciária de Lisboa. Controlada a situação, os amotinados regressam às celas, sendo vaiados pela multidão que se concentrara no exterior do edifício.

6 de Setembro
São libertados ex-ministros do regime fascista.

17 de Setembro
Por resolução do Conselho de Ministros, são proibidas as actividades do Partido Nacionalista Português, que se propõe derrotar as instituições democráticas.

18 de Setembro
O novo presidente da Assembleia das Nações Unidas, Abdelaziz Bouteflika, declara: "Portugal retomou entre nós um lugar que ainda não tínhamos desesperado de o ver ocupar."

23 de Setembro
A reintegração de Portugal na Comunidade das Nações é aplaudida na Assembleia Geral da ONU depois do discurso de Mário Soares, que apresentou um programa de 14 pontos da política externa do nosso país.

27 de Setembro
São ocupadas pelas Forças Armadas as sedes em Lisboa do Partido Liberal e do semanário Bandarra, onde é descoberto diverso material de propaganda reaccionária e uma pistola de guerra.

28 de Setembro
Malogra-se a tentativa reaccionária contra o MFA e o Governo Provisório, levada a cabo por manifestantes da designada "maioria silenciosa" e que pretendiam apoiar o presidente da República, general Spínola.

Em Lisboa e arredores são detidas dezenas de pessoas por suspeita de ligação com a tentativa de conspiração reaccionária.

29 de Setembro
O brigadeiro Otelo Saraiva de Carvalho afirma que o MFA controla completamente a situação e que "foram tomadas as medidas necessárias para neutralizar as manobras que visavam derrubar a ordem democrática instaurada em 25 de Abril", e acrescenta: "Os destinos do País não serão decididos nas costas do povo português."

No seu regresso de Estrasburdo, onde se deslocou para, em representação do Governo português, discursar perante o Conselho da Europa, Mário Soares afirma que a Comunidade Europeia está disposta a prestar todo o apoio necessário a Portugal.

O primeiro-ministro propõe ao povo português a oferta de um dia de trabalho (5 de Outubro) para comemorar a "vitória sobre a reacção".

30 de Setembro
Os generais Jaime Silvério Marques, Galvão de Melo e Diogo Neto são afastados da Junta de Salvação Nacional.

Após a renúncia de Spínola, "baseada na análise pessoal e subjectiva da situação nacional", o general Costa Gomes assume a presidência da República, por escolha da Junta de Salvação Nacional.

1 de Outubro
Costa Gomes empossa o III Governo Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves. Firmino Miguel e Sanches Osório são afastados do elenco governativo, por terem pedido a demissão.

5 de Outubro
O País vive em festa uma jornada de esforço: milhões de portugueses oferecem um domingo de trabalho para o ressurgimento da pátria livre.

7 de Outubro
O brigadeiro Carlos Fabião e o tenente-coronel Fischer Lopes Pires são nomeados pelo Exército para a Junta de Salvação Nacional.

8 de Outubro
São nomeados novos membros para a Junta de Salvação Nacional e para o Conselho de Estado: Pinho Freire e Mendes Dias, propostos pela Força Aérea, e Silvano Ribeiro e Miguel Judas nomeados pelo presidente da República para substituírem interinamente Rosa Coutinho e Vítor Crespo.

15 de Outubro
Em reunião da Assembleia Geral da ONU, a primeira em que um chefe de Estado português usa da palavra, em saudação fraternal, calorosamente aplaudida, Costa Gomes afirma: "O povo português considera-se irmão de todos os povos oprimidos."

18 de Outubro
Costa Gomes encontra-se com Gerald Ford na Casa Branca; na reunião os dois presidentes decidem estabelecer uma mais ampla cooperação entre Portugal e os EUA.

2 de Novembro
O MDP transforma-se em partido político; ao aprovar o projecto do seu programa político, reafirma defender a participação do MFA nos trabalhos da Assembleia da República.

12 de Novembro
Os donativos da campanha "Um dia de salário para a Nação" atingem um total de 13 000 contos.

5 de Dezembro
É aprovada no Senado americano uma proposta de auxílio a Portugal e às suas colónias em vias de independência, no valor de 1 250 000 contos.

13 de Dezembro
Ficam retidos em Caxias, por ordem do COPCON, 10 dos 11 capitalistas acusados da prática de "actos de sabotagem económica".

Publicado por sandra em 11:04 AM | Comentários (3) | TrackBack

novembro 29, 2003

O "FENÓMENO FÁTIMA": os primeiros 50 anos-1

Retomamos com este post a problemática em torno do "fenómeno Fátima", iniciando a edição do texto de Bruno Cardoso Pires- "Os primeiros cinquenta anos de Fátima", publicado na revista História de Outubro de 2000.
Neste início de abordagem o autor contextualiza a aparição no decorrer da I Guerra Mundial (1914-18) e respectivas consequências para a grande maioria da população portuguesa, regista as dúvidas e contradições nos/entre os três videntes- Jacinta, Francisco e Lúcia-, assim como salienta a existência de outras visões do mesmo tipo e seus protagonistas. Destaca a assistência à "dança do sol", ao que se acrescenta o tratamento do acontecimento por parte da imprensa de então.
Note-se: decorria o ano de 1917.

OS PRIMEIROS CINQUENTA ANOS DE FÁTIMA

[Texto introdutório]

"À luz dos inquéritos feitos no decorrer de 1917 aos videntes por vários membros do clero, parece que nem mesmo para eles a resposta foi muito clara. Jacinta e Francisco, de 7 e 9 anos, nada ou quase nada dizem, e nem mesmo Lúcia- 10 anos, a mais velha e mais segura dos videntes- parece estar certa de quem fosse a "Senhora", salvo que era do Céu. Esta ter-lhe-ia dito que na última aparição lhe revelaria a sua identidade. No entanto, depois disso, Lúcia afirmou ter dúvidas sobre se a Senora lhe disse: "façam aqui uma capelinha à Senhora do Rosário" ou façam aqui uma capelinha, eu sou a Senhora do Rosário". Esta noção difusa da identidade da aparição é reforçada por Lúcia ter afirmado que nessa data viu surgir sucessivamente a figura da Senhora das Dores (a que se refere com o nome popular de Senhora das Espadas) e a Senhora do Carmo.
Entretanto é preciso recordar a I Guerra Mundial como protagonista "oculto" de Fátima, com a crise generalizada que provoca a arrastar para dificuldades ainda maiores a maioria dos portugueses que vivem no limiar da sobrevivência. É neste quadro que surgem vários relatos de visões na imprensa, geralmente da Virgem, o tradicional recurso dos aflitos, alter-ego da mulher do patrão mais disposta à caridade, próxima do Omnipotente mas com a doçura da mulher e mãe aos pedidos do povo. Ou simplesmente para muitos crentes uma divindade mais poderosa que Deus, como afirmava Lúcia em 1917. Videntes são sempre crianças pobres do campo- inocentes, dizem os crentes; dadas a fantasias, manipuláveis e levadas a efabular, dizem os cépticos. É também nesta conjuntura que a Igreja procura organizar uma militância empenhada, culta, urbana, para combater politicamente o anticlericalismo, mas sem desprezar o filão da devoção popular, que se procura estimular e disciplinar: é o tempo das missões, do rosário. No entanto, em todos estes casos de visões, a hierarquia católica, os sacerdotes e a imprensa confessional observam e anotam com frieza e distância prudente estes fenómenos místicos. O percurso inicial de Fátima é exemplo disso. A diferença esteve no milagre do Sol e no que se lhe seguiu...
De facto, se tudo tivesse ficado pelos relatos muitas vezes confusos de três crianças talvez o sítio da Cova da Iria, um agreste pasto de ovelhas, nunca se tivesse tornado no centro mundial de enormes peregrinações que é hoje. Em Fátima houve uma manifestação da divindade diante de uma enorme multidão. Pelo menos a maioria dos que esperaram horas à chuva em 13 de Outubro na Cova da Iria junto dos três jovens pastores- uma multidão calculada entre 60 a 80.000 pessoas, o que diz bem da curiosidade pelo sagrado e da sede de milagres de então- não hesitou em aclamar como indiscutível o milagre do sol. Este astro teria "dançado", mudado de cor e ameaçado precipitar-se sobre os peregrinos. Para a maioria dos presentes era a prova desejada da presença divina. Entre os convertidos encontrava-se o jornalista céptico Avelino de Almeida, do jornal republicano conservador O Século que, em 15 de Outubro, escreve: "assiste-se a um espectáculo único e inacreditável para quem não foi testemunha dele." (in António T. Fernandes, O Confronto de Ideologias..., Porto, Afrontamento, pp. 108-114).
Mas, o que dizem a respeito deste milagre do sol os videntes? Coisas bem contraditórias. Lúcia nega que tenha ordenado à multidão (a mando da Senhora) que fechasse os chapéus de chuva e olhasse para o Sol; Francisco afirma ter visto a aparição apontar para o Sol (o que Lúcia e Jacinta negam). Em todo o caso, para os três videntes, o milagre foi outro: a aparição de toda a Sagrada Família (que o povo não vê) e o fim da I Guerra Mundial...que continuou por mais de um ano".

(p. 16-17)

(Cont.)

Publicado por sandra em 10:20 PM | Comentários (4) | TrackBack

ROSA CASACO: escritos na 1ª pessoa-3

Continuamos a apresentação do prefácio da obra Servi a pátria e acreditei no regime, de António Rosa Casaco.
No excerto que agora editamos o autor dá particular atenção às interpretações históricas dos intelectuais de esquerda, onde se enquadra, obviamente, a imagem que de si dão, fazendo-as relacionar com a evolução do próprio Comunismo no mundo.

SERVI A PÁTRIA E ACREDITEI NO REGIME

Prefácio e fragmentos da vida profissional do autor- 3

"Rosa Casaco, o homem que chefiou a brigada da PIDE que matou Humberto Delgado..."
Porque não Rosa Casaco o homem que come criancinhas ao pequeno almoço?

Apesar da minha idade, tentarei avivar a memória sem mentir. Haverá certamente, aqui e além, algumas contradições, mas, desde já chamo a atenção do leitor para as minhas afirmações e até o estimulo a que as confronte com outras e, sobretudo, com os pareceres e acórdãos das autoridades judiciais e com outros documentos que igualmente reproduzo, no todo ou em parte, em anexo. As minhas afirmações poderão ser, pois, questionadas, mas nunca a documentação jurídica que define claramente a minha verdadeira situação.
Embora a Europa se tenha libertado da tirania do comunismo, com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o desmoronamento da toda poderosa União Soviética, permanece, em boa medida, sob o jugo da opressão intelectual do totalitarismo das esquerdas, nomeadamente em Portugal, e os intelectuais desta proveniência, mesmo em minoria e em vias de extinção zoológica, são incapazes de sair da comédia, da farsa em que vivem, pretendendo ocultar a tragédia de um século de horrores e crimes pelos quais nunca serão julgados em tribunal algum.
Esta é uma das principais teses que se insere num dos livros publicados por Jean-François Revel, sob o título de "La Grande Parade", ensaio analítico dedicado à nociva sobrevivência da "utopia socialista". Esta obra de Revel é uma bomba cultural, um ensaio que analisa o remanescente das elites intelectuais comunistas, simpatizantes ou de meros "companheiros de viagem", hostis a qualquer tentativa de revisão ou sequer a uma análise desapaixonada das ideias que desembocaram na experiência totalitária mais universal da História da Humanidade, com custos que se cifram, por exemplo, e sem irmos mais longe, na destruição de muitos e muitos milhões de vidas humanas.
O Muro de Berlim caiu estrondosamente mas o mesmo não se pode dizer do "mundo intelectual" da mentira totalitária. Por isso, resulta ser pertinente uma revisão da história das ideias políticas durante a última década e desmascarar a "grande farsa" de um totalitarismo intelectual que ainda aspira poder impor e dominar as consciências, o que constitui uma ameaça permanente e arriscadíssima para a causa da Liberdade.
Igualmente, a aparição do "Livro Negro do Comunismo", documentado nos arquivos do Partido Comunista da União Soviética e da KGB, causou um alvoroço moral a milhões de incrédulos e cegos pela utopia marxista... que um dia se fez Estado...e se multiplicou pelo Globo. Como revolução político-social, o comunismo foi o mais desenfreado e devastador movimento assassino do século XX, averbando o triste registo de mais de cem milhões de mortos, genocídio, aliás, reconhecido pelas suas próprias fontes".

(p. 12-13)

(Cont.)

Publicado por sandra em 04:37 PM | Comentários (0) | TrackBack

CRONOLOGIA DA REVOLUÇÃO DE ABRIL: 1974-1º Semestre

Conforme anunciado, iniciamos a edição da Cronologia da Revolução de Abril. Neste post o período abrangido é entre 25 de Abril e 19 de Junho de 1974.
Recordamos que esta proposta de cronologia é da autoria do Professor António Reis.

CRONOLOGIA DA REVOLUÇÃO DE ABRIL

1974
(1º Semestre)

25 de Abril
Golpe de Estado: o MFA derruba o regime autoritário e entrega o Poder à Junta de Salvação Nacional, presidida pelo general António de Spínola.

Recontros junto à sede da DGS: agentes desta polícia política disparam rajadas de metralhadora contra os manifestantes, causando 45 feridos e 4 mortos.

Movimentações populares de apoio ao movimento das Forças Armadas com grande concentração na Baixa lisboeta e em especial no Largo do Carmo.

26 de Abril
A Junta de Salvação Nacional reconhece que a solução das guerras do ultramar é política e não militar e que se deve debater este problema a nível nacional, lançando-se uma política que conduza à paz.

O almirante Américo Thomaz e o professor Marcelo Caetano embarcam para o Funchal, sob custódia militar.

27 de Abril
A Junta de Salvação Nacional nomeia os chefes dos estados-maiores dos três ramos das Forças Armadas: o capitão de mar-e-guerra José Baptista Pinheiro de Azevedo é nomeado chefe do Estado-Maior da Armada, sendo promovido a vice-almirante, o brigadeiro Silvério Marques é nomeado chefe do Estado-Maior do Exército, sendo promovido a general, o general piloto-aviador Manuel Diogo Neto é nomeado chefe do Estado-Maior da Força Aérea.

28 de Abril
Chegam a Santa Apolónia, vindos de Paris, os dirigentes do PS, Dr. Mário Soares, Dr. Ramos da Costa, que estava há 13 anos exilado em Paris, e engenheiro Tito de Morais.

A Junta de Salvação Nacional envia para a Imprensa Nacional os primeiros diplomas, através dos quais destitui dos seus cargos o almirante Américo Thomaz, o chefe do Governo, Marcello Caetano, e os ministros, secretários e subsecretários de Estado do seu gabinete. A Assembleia Nacional e o Conselho de Estado são também dissolvidos. Estes poderes passam a ser exercidos pela Junta de Salvação Nacional (aprovado em 25 de Abril).

29 de Abril
A Junta de Salvação Nacional nomeia o general Costa Gomes no cargo de chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas.

30 de Abril
É instituído o dia 1 de Maio como feriado nacional obrigatório (aprovado em 27 de Abril).

Chega a Portugal o secretário-geral do PCP, Dr. Álvaro Cunhal, depois de longa permanência (14 anos) no estrangeiro, tendo estado radicado na Rússia e, mais tarde, na Checoslováquia (Praga) e em Paris.

É extinta a Direcção-Geral de Segurança, ficando o seu património na dependência e sob custódia das Forças Armadas.

1 de Maio
Cerca de um milhão de pessoas celebram euforicamente, em manifestações por todo o país, o Dia do Trabalhador. São as primeiras manifestações livres desde há quase 50 anos.

Álvaro Cunhal afirma que "o que é fundamental para o futuro de Portugal é a aliança entre as massas populares e as Forças Armadas".

A Junta de Salvação Nacional é reconhecida internacionalmente.

8 de Maio
O porta-voz da JSN declara que "a identificação com o Programa do MFA é a única condição posta aos grupos políticos para participarem no Governo Provisório".

12 de Maio
É dissolvida a Companhia Móvel da Polícia, conhecida por polícia de choque.

15 de Maio
É nomeado o Governo Provisório, com o Prof. Palma Carlos como primeiro-ministro, e divulgado o respectivo programa. O Dr. Álvaro Cunhal, o Prof. Pereira de Moura e o Dr. Sá Carneiro assumem o cargo de ministro sem pasta, com missões de natureza específica e funções de coordenação entre ministérios ou quaisquer outras que lhes sejam delegadas pelo primeiro-ministro.

É completo o elenco governamental, com a nomeação do ministro da Defesa Nacional, tenente-coronel Mário Firmino Miguel, do ministro da Coordenação Interterritorial, Dr. António de Almeida Santos, do ministro dos Negócios Estrangeiros, Dr. Mário Soares, do ministro do Equipamento Social e Ambiente, Prof. Eng. Manuel Rocha, do ministro da Educação e Cultura, Prof. Eduardo Correia e do ministro da Administração Interna, Dr. Joaquim Jorge Magalhães Mota.

É concluído o elenco governamental, com nomeação do ministro do Trabalho, Avelino António Pacheco Gonçalves, do ministro dos Assuntos Sociais, Prof. Mário Murteira, e do ministro da Comunicação Social, Dr. Raúl Rego.
É anunciado que o Conselho de Estado será constituído pelos membros da JSN, por sete representantes das Forças Armadas e por sete cidadãos de reconhecido mérito, a designar pelo presidente da República. Por sua vez, os órgãos de soberania serão o presidente da República, a JSN, o Conselho de Estado, o Governo Provisório e os Tribunais.

19 de Maio
Caetano e Thomaz partem para o Brasil.

21 de Maio
Américo Thomaz (acompanhado da mulher e da filha) e Marcello Caetano chegam ao Brasil, que lhes concedeu asilo político, mas são proibidos de exercer qualquer actividade política. Moreira Baptista e Silva e Cunha ficam na Madeira.

29 de Maio
Mais de 100 000 pessoas aclamam no Porto o general António de Spínola, que apela ao povo português para que escolha entre a liberdade democrática ou o anarquismo.

9 de Junho
São estabelecidas relações diplomáticas com a União Soviética.

10 de Junho
Uma multidão desfila da Avenida da Liberdade a Belém, numa inequívoca manifestação de apoio ao MFA.

18 de Junho
O presidente Spínola recebe o presidente Nixon nos Açores, sendo realçada a amizade entre as duas nações. No encontro dos dois chefes de Estado é discutido o problema da Base das Lajes, numa agenda ultra-secreta.

19 de Junho
Os países da NATO congratulam-se com a actual situação política portuguesa.

No decorrer do seu encontro com o presidente Spínola, nos Açores, Nixon afirma: "Portugal livre e próspero é vital para a NATO e para os interesses dos Estados Unidos".

Publicado por sandra em 02:29 PM | Comentários (2) | TrackBack

A HERANÇA DE ESTALINE: PCP- um partido estalinizado

Com este post editamos a última parte do texto de João Madeira, "A herança de Estaline". Neste ponto será abordada a reorganização verificada no PCP nos inícios (e ao longo) dos anos 40, em particular, aquilo que esta significou de bolchevização do partido. Regista-se, igualmente, a readmissão do PCP no movimento comunista internacional.

JOSÉ ESTALINE MORREU HÁ 50 ANOS

PCP: um partido estalinizado

"A reorganização do PCP em 1940-41, já num contexto de guerra, configura uma verdadeira refundação e é o marco para a sua bolchevização, representando o reatamento dos laços com o movimento comunista internacional em 1947-48, como que o fecho de abóbada desse novo edifício.
Os seus dirigentes revelavam-se apuradamente diligentes na aplicação da estratégia soviética, mesmo que inicialmente isso assentasse num enorme esforço seguidista de interpretação das consignas que iam fundamentalmente beber às emissões em língua portuguesa da Rádio Moscovo.
A inversão do curso da guerra, com o poderoso efeito internacional de derrota nazi em Estalinegrado e, internamente, o papel desempenhado no ciclo grevista de 1943-44 ou no lançamento do MUNAF- Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista- desencadeiam admiração e simpatias acrescidas no PCP, que lhe permitiram crescer e rodear-se de uma orla de apoios vasta e socialmente diversificada.
Identificar-se, aceitar ser estalinista em Portugal nos anos 40 e 50 era sem dúvida, para a maioria dos militantes, das gerações de militantes e das suas orlas mais ou menos próximas, estar do lado da luta contra o fascismo, já que naquele contexto de luta aberta contra o regime ser anti-estalinista foi, esmagadoramente, ser anti-comunista.
Nestas circunstâncias, o modelo orgânico, mas ideologicamente determinado, que se construíra em Portugal era o de partido clandestino, fortemente centralizado, hierarquizado, compartimentado, dotado de um corpo de regras muito detalhadas de funcionamento verificadas e controladas de cima para baixo, que, no caso dos funcionário clandestinos- controleiros, tipógrafos e respectivas companheiras- iam da verificação pormenorizada das despesas à inspecção física das casas ou do controlo das movimentações de rua à filtragem da correspondência familiar.
Com esta pesadíssima carga procedimental, o espaço para o debate político era fortemente condicionado e frequentemente anulado em nome da defesa do partido. A orientação política era determinada por uma elite dirigente muito restrita- os membros do Secretariado e da Comissão Política- e a sua discussão e aprovação dificilmente ultrapassava o círculo do Comité Central e das troikas de direcção provincial e regional.
Mas foram estas regras que permitiram ao PCP manter, com altos e baixos, um funcionamento permanente, que implicava renovação de lugares deixados em aberto pelas investidas repressivas, edição e distribuição da imprensa, e uma variável acção política nos locais de trabalho ou por áreas de intervenção.
Evidentemente que se o Partido Comunista era o partido do proletariado e o seu comité central a sua direcção, ter, para lá de tímidos limites de moderação, ideias diferentes ou posturas divergentes era, nessa lógica estreita, afrontar e atentar contra o proletariado e os seus interesses.
A tal ponto que, nos primeiros anos 50, também em Portugal se acompanharam os grandes processos de eliminação, inclusivamente física, de quadros que entraram numa rota de dissidência e suspeição. Naquele contexto atraíam com espantosa facilidade o anátema de terem traído os superiores interesses do partido, e portanto, do proletariado, ateando facilmente a possibilidade de se terem bandeado para o regime e entrarem em conluiu activo com a sua polícia política.
Daí à denúncia pública e à expulsão dos militantes legais ia um passo. No caso dos anónimos funcionários clandestinos, ter-se-ia chegado mesmo à execução, como parece ter sido o caso mais conhecido, embora nunca cabalmente explicado, em 1951, do vidreiro Manuel Domingues, da Marinha Grande, que aí participara no 18 de Janeiro de 1934, que estudara nos anos 30 na Escola Leninista de Moscovo, membro do Comité Central, responsável pelas tipografias clandestinas no pós-guerra e que chegara a integrar o Bureau Político do Comité Central.
O legado de Estaline assentava na concepção "nacional" de comunismo, na codificação do funcionamento partidário e na utilização da violência a partir das estruturas de poder. É isso tal que se expressa na História do Partido Comunista Bolchevique Russo, dirigida por Estaline, que viria a ser publicada em 1938.
Estaline apresenta em forma simplificada de cartilha o carácter do partido como vanguarda iluminada, dotado de verdade científica, a roçar a infalibilidade, aprofundando as tendências centralizadoras, já presentes na versão matricial de Lenine".

(p. 41-42)

Publicado por sandra em 11:50 AM | Comentários (0) | TrackBack

ESTALINE E ESTALINISMO EM PORTUGAL: resumo de colóquio

Nos passados dias 21 e 22 realizou-se na Faculdade de Letras de Lisboa o colóquio "Estaline em Portugal".
Sendo que na revista "Actual" do jornal EXPRESSO de hoje, Nair Alexandra apresenta um resumo de tal iniciativa, dele fazemos aqui a edição. Serve esta, igualmente, para complementar o conteúdo dos posts que temos aqui trazido relativos a Estaline.

OLHAR PORTUGUÊS SOBRE ESTALINE
Encontro discutiu os reflexos do estalinismo, em Portugal- sem figuras do PCP
Nair Alexandra

"Foi com algumas revelações, um olhar muito crítico sobre a história do Partido Comunista Português (PCP) e a influência do estalinismo no nosso país que decorreu o colóquio "Estaline em Portugal", na Faculdade de Letras de Lisboa a 21 e 22 deste mês. E foi também a propósito não só da passagem (em Março deste ano) do meio século sobre a morte do dirigente soviético mas também a propósito do 90º aniversário de Álvaro Cunhal.
E a introdução ao encontro, por João Medina, seria logo contundente: retomando uma expressão de Eduardo Lourenço, o historiador define o PCP e o salazarismo como dois "cães de faiança". A seu ver, a dicotomia entre estes dois únicos antagonismos teve um papel paralisante na vida política, cultural e intelectual portuguesa e "constituiu uma das tragédias da nossa situação histórica no século XX". Para dar um exemplo de como o ambiente de secretismo que se vivia nos meios culturais portugueses perdurou para lá do 25 de Abril, Rui Mário Gonçalves contou uma história curiosa. Foi em Setembro de 1976, em plena Praça Vermelha, Moscovo, que Mário Dionísio soube que António Vale, autor de textos polémicos sobre as artes nos anos 50, era o pseudónimo de Álvaro Cunhal. "Ele ficou espantado!", recordou.
Curiosamente, Pacheco Pereira defenderia que, ao contrário do que sucedeu noutros movimentos comunistas europeus, "há muito poucas referências a Estaline no cânone português". O momento de excepção terá sido o da morte do ditador russo, em Março de 1953, a pretexto do qual o PCP manifestou uma atitude de alinhamento com o culto da personalidade.
Outras intervenções abordaram os conflitos entre os movimentos de extrema-esquerda e o Partido Comunista da União Soviética (PCUS), as posições de uns e de outros face a Estaline, ou o novelo emaranhado dos partidos e forças em Portugal que reflectiram essas lutas. Fernando Rosas referiu, ainda, a existência de estalinismos de direita e de esquerda, num encontro pautado pela ausência de personalidades ligadas ao PCP- o único previsto, Alberto Vilaça, não pôde comparecer por razões de saúde, e o seu texto foi lido no colóquio.
Falou-se, ainda, nas mudanças operadas dentro do partido nos anos 40 e na influência do estalinismo nas tendências estéticas que atravessaram Portugal no século XX, através do neo-realismo. E este foi o pretexto para se referirem pormenores interessantes: de acordo com António Pedro Pita, a expressão "neo-realismo" aparece pela primeira vez, em Portugal, num texto do poeta Joaquim Namorado, no contexto de um debate teórico sobre a articulação entre neo-realismo e o realismo socialista. Aquele especialista referiu, ainda, como textos de Estaline foram publicados nas revistas "Sol Nascente" (Maio e Novembro, 1939) e "Síntese" (1940), sob os pseudónimos de Gabriel Coutinho e José Vasco Salinas".

("Actual"- EXPRESSO, p. 10)

Publicado por sandra em 10:33 AM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 28, 2003

ROSA CASACO: escritos na 1ª pessoa- 2

Continuamos a edição do "Prefácio" do livro de António Rosa Casaco. A problemática abordada é a mesma e prossegue em tom crítico. Registe-se o apelo do autor para que os leitores acreditem nos factos que apresenta e como os apresenta. Mais: que estejam particularmente atentos à documentação que disponibiliza, dado que a mesma é reveladora da Verdade.
Igualmente de destacar, o lugar e papel atribuído à Televisão, como órgão de comunicação social.

SERVI A PÁTRIA E ACREDITEI NO REGIME

Prefácio e fragmentos da vida profissional do autor- 2

"Sabe-se que a política, independentemente do vector em que se inscreve, não tem quase nunca um excessivo respeito pela Verdade e que, com frequência, cede à tentação de a esquecer em proveito próprio, mas a generalização de tudo isto é mais uma ingente falsidade.
Gravíssimo e inadmissível, é o uso sistemático da mentira. Quando se lê ou se ouve alguma notícia notoriamente falsa, o repúdio devia ser obrigatório e automático, com todas as suas consequências.
Os criadores e divulgadores da mentira são inúmeros, mas, mesmo assim, representam uma ínfima fracção da sociedade portuguesa. Grave, sim, é o altíssimo número dos que acolhem as mentiras, as têm como autênticas, as aceitam, as incorporam nas suas mentes e actuam em consequência. Terei de pedir às pessoas que desestimem tais escritos, que não lhes confiram qualquer credibilidade. Peço a quem me lê que me creia e que analise as decisões judiciais, que junto em anexo no final desta obra. Suponho que a minha posição na sociedade portuguesa sairá dessa leitura clarificada. Julguem-me, com rigor e, se quiserem, sem piedade, concedam-me o benefício da dúvida. Tenho esse direito!
A Televisão tem tendência mais para corroborar que revisar as nossas próprias opiniões e preconceitos, fomentando mais a passividade que o espírito crítico. Bom, a televisão, tal como existe actualmente, talvez não seja o meio mais adequado para a formação de opiniões e de uma consciência crítica. E foi ela que criou este velhinho de barbas, como um Pseudo Hemingway, o "mau da fita" ou um "Pai Natal" com as mãos sujas de vermelho, não da vestimenta que enverga, mas de sangue..."

(p. 11-12)

(Cont.)

Publicado por sandra em 09:58 PM | Comentários (2) | TrackBack

ROSA CASACO: escritos na 1ª pessoa- 1

Com este post iniciamos a edição do "Prefácio" do livro Servi a pátria e acreditei no regime, da autoria de António Rosa Casaco.
Como se poderá constatar, pretende o autor com estas palavras iniciais à sua obra, clarificar o que pretende com a mesma, sendo de destacar aquilo que considera dever ser a reposição da verdade histórica, até então absolutamente desvirtuada.
Sendo que são essas palavras e argumentação que pretendemos aqui dar a conhecer, iniciemos então a sua exposição.

SERVI A PÁTRIA E ACREDITEI NO REGIME

Prefácio e fragmentos da vida profissional do autor-1

"Existem por aí organizações, meios de comunicação social, partidos políticos e indivíduos isolados que, com a pretensão manifesta da procura da Verdade e respectiva divulgação, urbi et orbi, em pretensa transparência total, dedicam-se, outrossim, em ocultar a realidade sistematicamente, substituindo-a pelo que jamais existiu, servindo o seus interesses próprios, vias de regra, inconfessados e inconfessáveis. Daí a gravidade extrema de uma situação em que me vi envolvido, que emporcalhou o meu nome e o dos meus e de que, agora, tentarei apresentar a minha versão dos factos demonstrando com os meus escritos e com a apresentação de documentos oficiais e oficiosos, ou simples referências à documentação, para eventual esclarecimento do leitor e para limpar o meu nome. Não serei pomposo, ao ponto de afirmar que se trata de uma obra esclarecedora, mas apenas do meu contributo pessoal vivido para que a História, apesar de tudo, se possa fazer com o mínimo de objectividade e de justiça.
Não suporto a falsidade dos pretensos fazedores de História que escamoteando os factos perante gerações inteiras escrevem, isso sim, as suas estórias e historietas às quais se priva à partida, com evidente má-fé, todo o conhecimento veraz das suas raízes.
A falsidade acumulada no último quarto de século, relativamente ao regime derrubado em 25 de Abril de 1974 e à minha pessoa em que acabei, como toda a gente sabe, involuntária e desgraçadamente, por ser um dos símbolos desse mesmo regime, designadamente, em tudo o que de maléfico o período de Maio de 1926 à revolução dita dos "cravos" encerrou, mais do que maléfico, eu diria mesmo "satânico" e não escolhi este adjectivo por acaso. Pouco mais se fez para se defender dessa mentira repugnante e que é repetida sem cessar no bom estilo propagandístico dos comunistas e da mentira, alarve, fantasista, plausível ou, mesmo, inteligente, por mais que se desconfie, de pé atrás ou à frente, à esquerda ou à direita, alguma coisa acaba por ficar. É repugnante e degradante para os intelectuais conservadores portugueses que nada ou quase nada fizeram para desmascarar este estado de coisas durante mais de 28 anos".

(p. 11. Sublinhado nosso.)

(Cont.)

Publicado por sandra em 09:16 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 27, 2003

ROSA CASACO, EX-INSPECTOR DA PIDE/DGS

Desde há muito pouco tempo no mercado, o livro de António Rosa Casaco, cujo título é: Servi a pátria e acreditei no regime. (Edição do autor, [2003]).

Nota biográfica (constante na obra):

"António Rosa Casaco, nasceu em 1915, de uma família humilde, e teve uma infância e juventude muito pobres, exercendo diversas profissões manuais. Depois de cumprir o serviço militar, ingressou na carreira policial em 12 de Janeiro de 1937, como simples agente, atingindo, por mérito, em 1962, a categoria de funcionário superior, no cargo de inspector.
A sua formação cívica e intelectual é simplesmente empírica, obtida durante toda a sua vida, em leituras seleccionadas e posteriormente, em contactos estreitos com intelectuais e políticos, portugueses e estrangeiros, que sempre lhe dispensaram apreço e consideração, vindo a manter relações de amizade com aquelas augustas personalidades.
Exerceu, dentro da sua profissão, durante cerca de dez anos, a perigosa função de "Emissário do Governo Português", iniciada no final da Guerra Civil Espanhola e durante toda a Segunda Guerra Mundial, vindo daqui a contactar com altas figuras da diplomacia e política mundial.
Os seus "hobbys" foram, predominantemente, o jornalismo e o exercício da fotografia artística, ganhando inúmeros prémios nacionais e estrangeiros, entre eles algumas medalhas de ouro, e foi considerado, nos Estados Unidos, em 1948, entre os primeiros cinquenta melhores artistas-fotógrafos do mundo, na posição de décimo segundo lugar. Em consequência, não é de estranhar que o presidente [do Conselho] Salazar lhe viesse a pedir para fazer uma série de fotografias para inserir no livro Vacances avec Salazar, de autoria da escritora francesa Christine Garnier. Daí, Salazar preferia que fosse ele que lhe fizesse sempre as fotografias necessárias e pertinentes à sua vida privada, nascendo entre ambos uma grande estima. (...)
As relações entre a Polícia Portuguesa e a Polícia Espanhola foram por ele criadas, a partir de 1938 até à revolução de 25 de Abril de 1974, dentro da melhor colaboração mútua e de interesse para os dois países. Dentro das suas funções profissionais exerceu, muitas vezes acções de espionagem/contra-espionagem, em diversos locais do Globo.
Aquando da revolução de 25 de Abril de 1974, (...), abandonou o país, refugiando-se primeiro em Espanha e, depois, no Brasil, voltando à Europa em 1983, para residir, em casa própria, nas ilhas Baleares, em Maiorca, precisamente. Actualmente fixou residência em Madrid, onde deseja continuar".

Para uma ideia mais consistente da obra, apresentamos em anexo a sua organização interna e especificação da documentação jurídica constante.
Registamos, igualmente, que deste livro, para além do "Prefácio", editaremos algumas outras partes, pela importância, e para efeitos de ilustração.

SERVI A PÁTRIA E ACREDITEI NO REGIME

Orgânica interna

I- UM PREFÁCIO À LAIA DE DESABAFO

II- PERCURSO DE VIDA

III- PERSEGUIÇÕES

IV- REFLEXÕES

V- EPÍLOGO

VI- DOCUMENTAÇÃO JURÍDICA

Quanto a esta é a seguinte:

- Certificado do Registo Criminal (1993)
- Contagem da prescrição da pena (1996)
- Parecer da Procuradoria da República Portuguesa (1996)
- Sentença do Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa (1998)
- Sentença do Tribunal de Madrid (Audiência Nacional, 1998)
- Recurso da República Portuguesa para o Supremo de Madrid (1998)
- Alegações dos advogados espanhóis de Rosa Casaco (1998)
- Acórdão do Supremo Tribunal de Lisboa (1998)
- Acordão do Supremo Tribunal de Madrid (1999)
- Acordão do Tribunal Constitucional de Madrid (2000)
- Acordão do Tribunal Constitucional de Lisboa (2001)

Publicado por sandra em 09:38 PM | Comentários (0) | TrackBack

CRONOLOGIA DA REVOLUÇÃO DE ABRIL. Nota

De 25 de Abril de 1974 a 28 de Junho de 1976, data em que o General Ramalho Eanes é eleito Presidente da República, muitos acontecimentos são dignos de registo para a História de Portugal desse período.
São, pois, esses acontecimentos que irão ser retomados neste blog, naquela que é a edição de uma cronologia proposta pelo Professor António Reis em capítulos escritos para Portugal. 20 anos de democracia, publicação do Círculo de Leitores e cujos títulos são: "A revolução de 25 de Abril" e "O processo de democratização".
Tal edição será feita faseadamente, por semestres de cada ano.

Referência bibliográfica:

REIS, António (Coord.)- Portugal. 20 anos de democracia. Lisboa: Círculo de Leitores, 1994.

Publicado por sandra em 06:57 PM | Comentários (0) | TrackBack

A HERANÇA DE ESTALINE: Estaline e a pátria soviética

Estaline tinha uma ideia definida para a URSS e para o Mundo. Essa ideia seria consubstanciada num conjunto de políticas que teriam que conduzir à sua efectivação.
Antes e depois da II Guerra Mundial haviam caminhos claros a serem percorridos. E subordinações que tinham que ser conduzidas. E imagens que tinham que ser construídas e consolidadas.
É, pois, sobre tudo isto que João Madeira continuará a escrever.

JOSÉ ESTALINE MORREU HÁ 50 ANOS

"A estratégia antifascista e de criação de frentes populares constituíram um poderoso anel internacional em defesa da União Soviética na conjuntura de erupção agressiva dos fascismos de entre guerras.
Sobre a concepção prevalecente de "socialismo num só país", essa estratégia subordinava a concepção de internacionalismo proletário e a própria luta antifascista à defesa dos interesses da URSS naquele instável contexto internacional, como a posição soviética face à guerra civil de Espanha evidenciaria.
Ao mesmo tempo, no interior da União Soviética, decorria uma extraordinária avalanche repressiva em 1936-38 que visou desde as oposições internas aos quadros frágeis e incompetentes da burocracia estatal-partidária, estendendo-se aos cidadãos suspeitos. A velha guarda bolchevique, os seus companheiros de revolução, seriam eliminados em grandes processos colectivos. Nesses três anos, mais de um milhão de pessoas teriam sido presas, das quais metade teria sido executada e quatro milhões teriam sido forçados a penosas deportações e fixações forçadas, ao mesmo tempo que se procedeu a uma depuração quase total das médias e altas patentes das forças armadas.
A assinatura do Pacto Germano-Soviético em 1939, se interrompe a estratégia antifascista, desvalorizando objectivamente a função do Komintern que havia aprovado essa linha política no último congresso realizado, faz no entanto emergir ainda com mais clareza o nacionalismo como marca do pensamento estaliniano, exigindo um reforço dos laços de dependência da Internacional, que se tornava cada vez mais uma espécie de apêndice do aparelho burocrático estatal soviético.
Do mesmo modo, com a invasão da URSS pelas divisões nazis, se as frentes populares deslizam para frentes nacionais, mais abrangentes do ponto de vista social e político, não deixam, por isso, de configurar suportes fundamentais de uma estratégia de defesa nacional que, sob pesados e heróicos sacrifícios do povo russo, levariam ao recuo alemão, abririam caminho à inversão do curso da guerra e à derrota do bloco nazi-fascista.
Suscitando ampla admiração em vastos sectores sociais dos países aliados, pela resistência e pela contribuição decisiva para a Vitória de 1945, Estaline trataria de delinear desde a Conferência de Teerão, em 1943, com Churchill e Roosevelt a divisão do mundo em áreas de influência, que evoluiria rapidamente com o final da guerra para uma lógica bipolar que viria a caracterizar duradouramente o mundo.
Essa lógica, do ponto de vista soviético e irradiando para todo o movimento comunista internacional, apoiado em poderosas organizações periféricas como o Conselho Mundial da Paz, evoluiria da consigna de luta contra a guerra, propagandeada num primeiro momento em torno da agressão mais ou menos eminente à URSS e da ameaça de terceira guerra mundial, para a luta pela paz, em torno da ideia de que a possibilidade de guerra passara a radicar nas contradições interimperialistas, às quais se opunha o conceito de coexistência pacífica, consubstanciado através de um reclamado Pacto entre as Quatro Grandes Potências.
Nesta linha, a imagem de Estaline seria depois da guerra como que vincada e remoçada de modo a surgir internacionalmente como "porta-bandeira da Paz no mundo" ou como "Pai dos povos".
Porém, a importância da questão nacional está já bem patente desde os seus primeiros escritos. O Marxismo e a Questão Nacional, de 1912-13, constitui, instado por Lenine, o seu contributo teórico para o programa bolchevique.
O entronsamento da ideia nacional com a mão de ferro contra os inimigos da pátria explicará a sua preferência, para fundar historicamente a legitimidade da grande nação russa, na figura hagiográfica de Ivan, O Terrível, alimentada pela conjuntura de guerra, tanto na cinematografia de Eisenstein como nos próprios cartazes de propaganda.
Segundo o diário de Dimitrov, citado por António Elorza, pelas comemorações do 20º aniversário da Revolução de Outubro, num almoço restrito à elite soviética, Estaline teria brindado:
"Exterminaremos esse inimigo mesmo que seja um velho bolchevique, exterminá-lo-emos a ele e à sua estirpe, toda a sua família. Impiedosamente vamos exterminar todos aqueles que pelos seus actos e pelos seus pensamentos (sim, também pelos seus pensamentos) ataquem a unidade do estado socialista. Pelo extermínio total de todos os inimigos, deles e dos seus descendentes".
As implicações deste veio profundo repercutir-se-iam ainda sobre o movimento comunista internacional, submetendo-o aos desígnios da política externa soviética, que passava pela escrupulosa manutenção de áreas de equilíbrio geo-estratégico, obrigando os partidos nacionais, particularmente na Europa liberal, a abdicarem de uma estratégia insurreccional e a integrarem-se num jogo político que aparentemente se baseava no respeito pelos mecanismos funcionais das democracias, de que Estaline estruturalmente desdenhava".

(p. 39-41. Sublinhado nosso).

Publicado por sandra em 06:18 PM | Comentários (11) | TrackBack

ESTALINE: "Um homem inflexível na defesa da Revolução"

É, pois desta forma, que João Madeira intitula a "caixa" existente no seu texto A herança de Estaline. Atribuindo a autoria da frase a Álvaro Cunhal, o autor regista:

"Há alguns anos, já depois da implosão da União Soviética, numa conferência destinada a militantes do PCP, Álvaro Cunhal, questionado sobre a figura de Estaline, faz um interessante exercício de valorização do que entendia serem as virtudes do dirigente soviético- modéstia, cordialidade, amigo dos seus amigos e ser "naturalmente um homem inflexível na defesa da Revolução".
Nestas considerações, mesmo aludindo a vagas e sempre incertos deméritos encerra-se afinal a implícita aceitação dos métodos políticos em nome dos quais se exerceria essa inflexibilidade.
Em 1953, há meio século, como a generalidade dos partidos comunistas, também em Portugal se fizeram minutos de silêncio, se puseram gravatas pretas, se tarjaram comunicados de negro, se compuseram poemas, se choraram lágrimas sinceras, porque, para uns, para a imensa maioria, a figura de Estaline representava a resistência e a vitória sobre o nazi-fascismo, como a referência internacional para a luta antifascista que internamente se travava e travaria por longos anos.
Porém, para outros, uma escassa minoria certamente, com conhecimento teórico e vivencial da realidade da União Soviética, dos fundamentos e mecanismos do que era o regime soviético, a inflexibilidade na defesa da Revolução tão admirada como qualidade do dirigente comunista russo só poderia significar a aceitação tenaz dessa realidade como seu próprio pressuposto".

(MADEIRA, João- "A herança de Estaline". In: História. Nº 56. Maio 2003, p. 40. Sublinhado nosso.).

Publicado por sandra em 11:25 AM | Comentários (3) | TrackBack

A HERANÇA DE ESTALINE: PCP- uma bolchevização atrapalhada

Retomando o texto de João Madeira relativo a Estaline, apresentam-se no ponto agora editado, as características vigentes nos primeiros anos de vida do PCP- nomeadamente antes da reorganização dos anos 40-.
De facto, um conjunto de dificuldades de ordem interna impediram um caminho normalizado para a bolchevização do partido, numa aproximação a Moscovo, assim como uma afirmação inequívoca no âmbito da Internacional Comunista. Desta, aliás, acabará por ser suspenso em 1938.

JOSÉ ESTALINE MORREU HÁ 50 ANOS

"Na periferia europeia e na periferia do movimento comunista internacional, o PCP, fundado em 1921, estava ainda longe de ser um partido bolchevizado.
Mesmo depois do golpe militar de 28 de Maio de 1926, o PCP ainda não se havia conseguido libertar do heteróclito lastro sócio-político que estivera na sua origem. Sindicalistas revolucionários, socialistas, republicanos de esquerda, radicais, velhos conspiradores carbonários que se haviam reunido no partido emergente debatiam-se em tumultuosas estratégias internas de apropriação do poder partidário, a que nem a intervenção directa de um delegado da Internacional Comunista- o suiço Jules Humbert-Droz- no I Congresso, em 1923, conseguiria por termo.
A construção do partido em moldes leninistas, cuja regra de ouro, porventura mais do que a "maioria operária", correspondia à centralização, colidia quase epidermicamente com os lastros de cultura política com que esses militantes chegavam ao partido, num frémito que era um misto de radicalização e de fascínio, com muito romantismo revolucionário, pela experiência soviética triunfante de 1917.
A isso acrescia, particularmente desde os últimos tempos da república liberal, quando fermentavam as conspiratas militares e se agregava o largo espectro político para a desmantelar, que as directivas da Internacional Comunista, ao precipitarem-se na consigna de "classe contra classe", suscitavam dificuldades de operacionalização quando a fascização do país se tornava realidade.
Isto é particularmente evidente depois de 1929 e da reorganização nessa altura empreendida por Bento Gonçalves, que vai polarizando em torno de si um número de dirigentes e quadros que queriam efectivamente bolchevizar o partido, mas que procuravam como podiam, pelos primeiros anos trinta, contornar o desajustamento entre a orientação que emanava do centro e a realidade que suportavam no interior do país.
Por outro lado, nunca conseguiriam homogeneizar e enquadrar organicamente as diferentes golfadas de activistas que em radicalização acelerada se aproximavam do partido, quer fosse uma nova geração operária, mas ainda muito ligada à herança do sindicalismo revolucionário, ou gerações mais jovens que evoluíam apressadas do republicanismo de esquerda para o comunismo.
Só quando, em 1935, a nova estratégia assente no frentismo antifascista é consagrada no VII Congresso da Internacional Comunista, é que esse nó de dessintonia política se desatava.
Porém, os esforços de aplicação da linha de Moscovo a Portugal, protagonizados por Bento Gonçalves, Álvaro Cunhal, Francisco Miguel, Francisco Paula de Oliveira, Alberto Araújo, principalmente no lançamento de uma frente Popular e de uma política sindical de massas, seriam interrompidos por sucessivas flagelações policiais.
Essa precaridade orgânica casava-se com a incapacidade de construir em Portugal uma Frente Popular decente na segunda metade desse lustro, que as grandes purgas de Moscovo e da Internacional Comunista ateariam ainda mais.
Num conturbado processo, pontuado de suspeições e expulsões sem uma contrapartida de renovação forte de lideranças, o PCP acabaria em 1938 suspenso da Internacional, mantendo-se formal e organicamente desligado durante uma longa década".

(p. 38-39)

Publicado por sandra em 10:47 AM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 26, 2003

O "FENÓMENO FÁTIMA": cronologia

Integrada no texto de Rita Almeida Carvalho, intitulado Fátima e Salazar, a seguinte cronologia que passamos a apresentar.

CRONOLOGIA

1917
Maio, 13- Primeira alegada aparição da Senhora de Fátima aos pastores Francisco, Jacinta e Lúcia.
Outubro, 13- Uma multidão de 60000 a 80000 pessoas reúne-se na Cova da Iria para assistir à "dança do sol".
Novembro- Inicia-se o processo canónico preliminar de inquirição, com os interrogatórios aos alegados videntes. Durará até Abril de 1919.
Novembro, 7- Revolução Russa, constituição dum governo com maioria bolchevique.

1918
Novembro, 11- Assinatura do Armistício que põe fim à I Guerra Mundial.
Novembro, 18- Greve geral convocada pela União Operária Nacional.

1919
Abril- Inicia-se na Cova da Iria a construção duma pequena capela.
Abril, 4- Morre Francisco, vítima da pneumónica.

1920
Março, 2- Morre Jacinta, vítima da pneumónica.
Agosto, 15- D. José Alves Correia da Silva é nomeado novo bispo de Leiria.

1921
Junho- Lúcia entra no recolhimento do Vilar.
Outubro, 13- Celebração na Cova da Iria da primeira missa autorizada por Correia da Silva.

1922
Março, 6- A capela da Cova da Iria é destruída por uma bomba. A sua reconstrução irá iniciar-se em Dezembro.
Maio, 13- Missa de desagravo pelo atentado bombista. Grande aumento do afluxo de peregrinos.
Outubro, 29- Nomeação de Mussolini para a chefia do governo.

1926
Maio, 28- Golpe de Estado, início da ditadura.

1927
Outubro- Correia da Silva adquire para a diocese os terrenos da Cova da Iria.

1928
Abril, 27- António de Oliveira Salazar assume a pasta das Finanças.
Maio, 13- Inicia-se a construção da Basílica na Cova da Iria.

1929
Acordo de Latrão entre Mussolini e a Igreja.
Maio, 13- Carmona e Salazar deslocam-se a Fátima.

1930
Outubro, 13- Carta pastoral do bispo de Leiria defendendo Fátima contra as suspeições de fraude.

1933
Janeiro, 31- Nomeação de Hitler para a chefia do governo.
Julho, 20- Assinatura da Concordata entre Pacelli, futuro Pio XII, e o governo alemão.

1936
A instâncias do bispo de Leiria, Lúcia terá iniciado a redacção das suas "Memórias". Ficarão concluídas em 1941.
Julho, 18- Putsch franquista, início da Guerra Civil de Espanha.

1938
Maio, 13- Às habituais comemorações de Fátima associam-se manifestações de júbilo pelas vitórias franquistas na Guerra Civil de Espanha.

1939
Setembro, 1- Início da II Guerra Mundial.

1940
Maio, 7- Assinatura da Concordata entre o Vaticano e o governo português.

1941
Junho, 22- Ataque da Alemanha à URSS.

1942
Outubro, 31- Em discurso transmitido pela Rádio Vaticano e pela Emissora Nacional portuguesa, Pio XII refere-se favoravelmente a Fátima.
Dezembro, 24- Homilia de Natal de Pio XII, evitando mencionar o extermínio dos judeus pelos nazis.

1946
Lúcia entrega ao bispo de Leiria uma carta contendo o "terceiro segredo". A carta fica fechada no cofre da diocese. Será enviada para o Arquivo do Santo Ofício, no Vaticano, em 1957.
Maio, 12- O cardeal Bento Masella, enviado a Fátima por Pio XII, é recebido em Portugal com honras de chefe de Estado.

1955
Janeiro, 22- Comemorações das bodas de prata do bispo de Leiria, com a presença de Craveiro Lopes, Salazar e membros do governo.

1958
Março, 13- Morre D. José Alves Correia da Silva, que fora o mais activo promotor do reconhecimento do alegado milagre e ao longo de 38 anos de gestão diocesana de Leiria se tornara conhecido como "bispo de Fátima".
Maio, 13- Com a campanha presidencial de Delgado em pano de fundo, os militares fiéis a Salazar comparecem em Fátima em número muito maior do que nos anos anteriores.

1961
Julho, 7- O papa João XXIII manifesta informalmente ao embaixador português preocupação com a eventualidade de se "fazer dizer à irmã Lúcia (...) mais do que ela estaria em condições de dizer", nomeadamente em relação à Rússia.

1964
O papa Paulo VI visita a União Indiana, causando o desagrado do governo português.
Setembro, 17- No Vaticano o embaixador português é pela primeira vez sondado sobre o efeito compensatório que poderia ter uma visita do papa a Portugal.

1965
Maio, 13- O secretário de Estado do Vaticano, cardeal Fernando Cento, vem a Portugal e louva Portugal "nação sempre fidelíssima".
Maio, 14- O MNE, Franco Nogueira, discursa em tom de reconciliação num banquete ofereciso ao enviado papal.

1967
Maio, 13- Visita do papa Paulo VI a Fátima.

1981
Outubro, 13- Atentado de Ali Agca, militante turco de extrema-direita, contra o papa João Paulo II em Roma.

2000
Maio, 13- João Paulo II procede em Fátima à beatificação de Francisco e Jacinta. O cardeal Angel Sodano declara que o "terceiro segredo" consistia na previsão do atentado de Ali Agca.

Publicado por sandra em 02:06 PM | Comentários (4) | TrackBack

OS PRIMEIROS CINQUENTA ANOS DE FÁTIMA. Nota

Na sequência do referenciado em post anterior, apresentamos o primeiro texto que iremos editar relativamente ao "fenómeno Fátima":

- BRUNO CARDOSO REIS- Os primeiros cinquenta anos de Fátima.

Orgânica interna:

- [Texto introdutório]
- A polémica na imprensa em 1917
- Fátima antes da consagração canónica. 1917-1930
- Da consagração canónica à guerra civil de Espanha
- Fátima e a II Guerra Mundial
- Fátima no pós-guerra
- O "terceiro segredo" e a luta política
- Paulo VI, Fátima e Salazar
- Conclusão

Inerentes a este texto, temos as seguintes "caixas":

- Alguns protagonistas
- O "Bispo de Fátima"
- Para saber mais

Referência bibliográfica:

REIS, Bruno Cardoso- "Os primeiros cinquenta anos de Fátima". In: História. Nº 29. Outubro 2000, p. 16-27).

Publicado por sandra em 01:24 PM | Comentários (0) | TrackBack

A CONTEXTUALIZAÇÃO DO "FENÓMENO FÁTIMA" NA HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DE PORTUGAL

Pela importância assumida em todos os campos da História do Portugal Contemporâneo (Política, Cultura, Mentalidades, Religião, Economia), o "fenómeno Fátima" não poderia deixar de ficar registado neste blog.
Na revista História de Outubro de 2000, num dossier que lhe é especificamente dedicado, reunem-se um conjunto de textos que iremos editar. São esses textos os seguintes:

- BRUNO CARDOSO REIS- Os primeiros cinquenta anos de Fátima.

"Não sendo uma fabricação, Fátima também não foi simplesmente de geração espontânea. Meio século de história tecida à sua volta não tornou mais pacífica a resposta à pergunta, que não é talvez a decisiva mas é o ponto de partida inevitável: o que aconteceu na Cova da Iria em 1917?"

- RITA ALMEIDA CARVALHO- Fátima e Salazar.

"Se exceptuarmos o ano de 1967, momento em que Paulo VI visita a Cova da Iria, Salazar sempre recusou participar nas cerimónias comemorativas das aparições de Nossa Senhora de Fátima. Será esta ausência do chefe do governo suficiente para afirmar que não houve qualquer aproveitamento político do fenómeno de Fátima por parte do Estado Novo?"

- CARLOS SANTOS PEREIRA- Fátima na cruzada do século.

"O jesuíta Edouard Dhanis defendia a tese de que o fenómeno de Fátima cobre duas realidades distintas: a mais antiga, ligada às alegadas "aparições" da "senhora vestida toda de branco" a três pastores da Cova da Iria entre Maio e Outubro de 1917; e uma Fátima posterior, inspirada nos relatos das Memórias da vidente Lúcia. O teólogo belga e o seu colega alemão Karel Rahner sublinhavam ainda que a documentação existente revela sérias contradições entre as duas Fátimas".

De cada um destes artigos iremos fazer uma apresentação mais detalhada, nomeadamente no que respeita a pontos constituintes e "caixas" inerentes, à medida que os textos começarem a ser editados.
Apresentaremos igualmente uma cronologia do fenómeno, independentemento do texto onde se encontra integrada, para um enquadramento inicial dos leitores.

Publicado por sandra em 12:32 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 25, 2003

ESPECIFICIDADES INERENTES AOS MOVIMENTOS NACIONALISTAS ANGOLANOS: apresentação de situações

Na sequência da edição do texto de Fernando Andresen Guimarães relativo aos movimentos nacionalistas angolanos no exílio, apresentamos agora aquelas que são as duas "caixas" que a ele se encontram anexas. São elas:

- O "incidente Ferreira": concretiza uma situação onde a rivalidade entre UPA/FNLA e MPLA é uma evidência.

- Savimbi no exílio: faz a sintese do percurso político desde os tempos em que pertencia à UPA/FNLA até à criação da UNITA em 1966. Registo da morte em Fevereiro de 2002.

OS MOVIMENTOS NACIONALISTAS ANGOLANOS NO EXÍLIO

O "incidente Ferreira"

"Em finais de 1961, um grupo armado de cerca de 20 elementos, chefiado por Tomás Ferreira, foi enviado pelo MPLA para o interior de Angola com vista a reforçar grupos da resistência no Dembos com quem tinham ligações. Ferreira e seus homens foram alegadamente interceptados por unidades da UPA/FNLA e subsequentemente detidos e eliminados. Quando acusados do massacre, um dirigente da UPA, Rosário Neto, negou que o incidente tivesse ocorrido, mas acrescentou com condescendência que não tinha sido inteligente da parte do MPLA enviar homens para uma zona de guerra sem ter informado a UPA. Tipicamente, a UPA sublinhava o facto de ter acesso privilegiado ao território angolano e considerava publicamente a guerra anticolonial em Angola como sendo exclusivamente do seu domínio.
Mais tarde veio a ser revelado, todavia, que Rosário Neto desconhecia que, de facto, a UPA tinha interceptado e eliminado o grupo Ferreira, sob ordens directas de Holden Roberto. (Marcos Cassanga, dirigente da ala militar da UPA, ao abandonar o movimento em 3 de Março de 1962, acusou Holden Roberto de ter dado ordens aos seus grupos armados para exterminar quaisquer unidades do MPLA que fossem encontradas em território angolano)".

(p. 37)

Savimbi no exílio

"Jonas Savimbi, que começou a sua carreira de nacionalista angolano na FNLA e que pegou no estandarte da cruzada anti-MPLA após a derrota da FNLA em 1976, também foi influenciado pela rivalidade que se estabeleceu nos anos do exílio, particularmente em Leopoldville a partir de 1962.
Foi nomeado Secretário-Geral da UPA em Fevereiro de 1961, apenas um mês antes dos ataques devastadores que aquele movimento desencadeou no norte de Angola a partir de 15 de Março. Apesar dos ataques terem vitimado, para além de portugueses e mestiços, trabalhadores ovimbundu, seus congéneres, Savimbi disse considerar mais importante o facto de que, com estas acções, se ter iniciado dentro de Angola a revolta contra o colonialismo.
Quando a UPA se dissolve na FNLA, Savimbi passa para "Ministro do Exterior" do chamado Governo Revolucionário de Angola no Exílio, que, em 1963, passou a ser oficialmente, aos olhos da Organização de Unidade Africana, o único legítimo movimento nacionalista angolano. Mas, no ano seguinte, em 1964, tensões com Holden Roberto e talvez o seu desígnio de ser líder do seu próprio movimento, levou-o a abandonar a FNLA e partir para uma travessia do deserto que acaba com o estabelecimento da UNITA em 1966. Cria-se assim a terceira vertente da guerra civil angolana, uma que acabou por ser muito mais resistente do que a FNLA na oposição ao MPLA e na procura do poder em Angola, pelo menos até ao dia 22 de Fevereiro de 2002, dia em que Jonas Savimbi é morto".

(p. 39)

Publicado por sandra em 09:58 PM | Comentários (0) | TrackBack

A HERANÇA DE ESTALINE: o marxismo-leninismo, uma formulação de Estaline

Naquela que é a sua abordagem em torno da figura de Estaline, João Madeira salienta neste ponto, o percurso ascencional dentro do Partido e na própria URSS de então. Não deixa igualmente de referenciar o tipo de relações construídas com os restantes PC's existentes no mundo.
Fundamental em todo este contexto, o simbolismo/divinização criados em torno da figura do líder, denominado "pai dos povos".

JOSÉ ESTALINE MORREU HÁ 50 ANOS

O marxismo-leninismo, uma formulação de Estaline

"Nesse número especial do Avante! reflectia-se a imagem de si próprio que Estaline construiu e projectou sobre a União Soviética e o movimento comunista internacional.
Em primeiro lugar, a ideia de continuador de Lenine. Tinha sido nessa base que se havia conseguido elevar acima da elite dirigente soviética, afirmando-se como o mais importante depositário do pensamento do dirigente bolchevique falecido em Janeiro de 1924.
A conhecida expressão marxismo-leninismo surgia então como uma formulação que pretendia distinguir radicalmente o comunismo da social-democracia; mas também afirmar-se no terreno na luta interna pela sucessão no PC soviético, acrescentando-se no panteão iconográfico aos perfis de Marx, Engels e Lenine como o melhor dos leninistas.
Essa formulação está já presente na Primavera de 1924 nos artigos que o próprio publica no Pravda, que viriam a ser sucessivamente editados como Fundamentos do Leninismo, glosados como grande contributo teórico, mas onde o pensamento de Lenine passa como que por um processo de desidratação e simplificação empobrecedora.
No intenso e prolongado debate travado entre a elite partidária soviética sobre a Nova Política Económica, particularmente em torno dos problemas relacionados com as formas privadas de propriedade fundiária, Estaline encabecerá de forma hábil o processo do seu desmantelamento pela crescente intervenção coerciva do estado na colectivização do sector agrícola, na industrialização acelerada e num quadro de referência que se sedimentava na ideia de construção do socialismo num só país, isto, é, de um "comunismo nacional".
Pudera cimentar apoios partidários por essa inflexão, ancorado na sobrevalorização da luta de classes e de uma política de classe contra classe, que se espelhava tanto fora como dentro do partido e que fez, por isso, acompanhar de uma particular agressividade em relação aos que haviam sido politicamente vencidos no interior do partido, reduzindo os opositores a um bloco e as suas opiniões, mesmo que distintas, como as de Bukharine e Trotski, a epítetos de oportunistas, direitistas, liquidacionistas...
Com o final da década de vinte, se para Estaline o pensamento de Lenine havia sido "o marxismo da época do imperialismo e da revolução proletária", era o seu próprio pensamento que perfilava em nome do marxismo-leninismo.
De um ponto de vista simbólico, as comemorações do seu 50º aniversário, em 1929, representam a sua consagração à frente do partido e do Estado já devidamente caucionado pela sacralizada invocação de Lenine, no seu mausoléu e em nome do seu pensamento.
De modo tenaz, mas fulgurante, em meia dúzia de anos, Estaline impunha a sua liderança ao partido, anulando primeiro politicamente, e nos anos seguintes fisicamente, os que divergiam dos seus pontos de vista e da sua orientação. À medida que os primeiros anos 30 corriam, a sua imagem, mesmo na iconografia do regime, ia-se antepondo à do seu antecessor.
Na Internacional Comunista, ainda que tenha sido o II Congresso, em 1920, a determinar as 21 condições para admissão de cada partido, o funcionamento centralizado, a disciplina, a necessidade de depuração, este processo só estará estabelecido, por redução dos partidos comunistas a secções nacionais subordinadas ao centro soviético, na fase que corresponde no tempo à entronização de Estaline".

(p. 37-38. Sublinhado nosso.)

Publicado por sandra em 09:00 PM | Comentários (1) | TrackBack

novembro 24, 2003

CRONOLOGIA RELATIVA A ESTALINE: o homem, a URSS e o mundo

No âmbito do texto aqui em divulgação, João Madeira apresenta, também, uma cronologia onde necessariamente estabelece a relação entre a figura de Estaline, a evolução política da ex-URSS, assim como da ordem internacional.
É, pois, essa cronologia que aqui editamos.

CRONOLOGIA

1879
21 de Dezembro- José Vissarionovitch, Estaline nasce em Gori, Georgia.

1894
Entra para o seminário que frequenta até ser expulso em 1899. É aí, em 1898, que adere ao Partido Operário Social Democrata Russo (POSDR)

1912
Janeiro- Reúne com Lenine e outros dirigentes bolcheviques em Cracóvia, em pleno Império Austro-Húngaro. É conhecido pelo psudónimo Koba. É eleito nesta altura para o Comité Central do Partido Bolchevique e é quando escreve O Marxismo e a Questão Nacional.

1917
É nomeado responsável pelo jornal Pravda e, depois da Revolução, comissário para as nacionalidades do primeiro governo bolchevique, mantendo-se até 1923 nessa qualidade. Durante a guerra civil comanda um conjunto de operações militares. É já na fase terminal da vida de Lenine eleito secretário-geral do partido.

1919
Fundação da Internacional Comunista (Komintern).

1924
Janeiro- Lenine morre e Estaline publica Princípios do Leninismo e A Revolução de Outubro e a Táctica dos Comunistas Russos.

1927
Intervém em Abril numa reunião plenária do Comité Central sobre a oposição de esquerda e a quebra da disciplina partidária de Trotski e Zinoviev; leva o assunto à reunião da presidência do Comité Executivo da Internacional Comunista, tema que vai retomar em nova reunião do CC do PC(b) da URSS num discurso intitulado "A oposição trotskista antes e agora". Trotski será então expulso do partido.

1928
Vence politicamente Nicolas Bukharin e inicia e processo de desmantelamento da NEP, com a coletivização da agricultura a partir de 1929, obrigando à deslocação de grandes contingentes de população rural, provocando, em 1932-33 a grande fome que causa muitas centenas de milhar de mortos.

1929
Estaline faz, em fins de Janeiro, na reunião da comissão política do CC do PC(b) da URSS o discurso "O grupo de Bukharin e o desvio de direita no nosso partido", tema que retomará em Abril na Reunião plenária do Comité Central. Leon Trotski é expulso da União Soviética. Em Dezembro Estaline publica no Pravda um artigo intitulado "O ano da grande viragem".

1934
Assassinato de Sergei Kirov, membro da Bureau Político do CC; será aproveitada por Estaline para simplificar drasticamente os processos em casos de terrorismo.

1936-38
Grande ofensiva violenta que leva, em três grandes e sucessivos processos à condenação e execução de inúmeros dirigentes e quadros da velha guarda bolchevique: Zinoviev, Bukharin, Kamanev, Rikov, Krestinsky. Uma Comissão do Bureau Político submeteu à assinatura de Estaline quase 400 listas com mais de 44 mil nomes de quadros e dirigentes do partido, dos quais mais de 39 mil seriam condenados à morte. Só em 1937-38, mais de milhão e meio de pessoas foram presas, 1.345.000 condenadas, quase 62 mil executadas.

1939
Assinatura do pacto germano-soviético. A Alemanha invade a Polónia e a URSS ataca a Finlândia, seguida, em 1940, da submissão dos países bálticos à URSS.

1940
Trotski é assassinado no México por ordem de Estaline.

1941
A Alemanha invade a URSS.

1943
Molotov comunica em Maio a Dimitrov e Manuilsky que para Estaline a Internacional Comunista deixou de ter razão de existir. No final desse mês, a decisão estava tomada e fora comunicada aos PCs. Capitulação alemã em Estalinegrado. Estaline participa na Cimeira de Teerão, com os presidentes dos EUA e da Grã-Bretanha, onde se começa a delinear o mundo do pós-guerra.

1945
Entrada dos exércitos soviéticos em Berlim. Fim da guerra com a capitulação alemã e Conferência de Yalta, onde Estaline participa, de novo ao lado de Rossevelt e Churchill.

1946
Churchill usa pela primeira vez a expressão Cortina de Ferro para exprimir a ideia de um mundo bipolar. As eleições para o Soviete Supremo da URSS conferem aos comunistas mais de 99% dos votos.

1947
Realiza-se a conferência constituinte do Kominform- Centro de Informação dos PCs, em Szklarska Poreba, na Polónia, que vinha sendo preparada desde o ano anterior.

1952
XIX Congresso do PCUS, último em que Estaline participa.

1953
Estaline morre a 5 de Março.

(p. 39 e 41)

Publicado por sandra em 09:39 PM | Comentários (0) | TrackBack

A HERANÇA DE ESTALINE: texto introdutório

Na sequência do anunciado ontem, iniciamos a edição do texto de João Madeira intitulado A herança de Estaline.
No ponto hoje apresentado, o autor faz uma abordagem geral à forma como o PCP considerava Estaline à data da sua morte- Março de 1953-, o que se reflectia nos próprios comunicados elaborados. Toda esta síntese é enriquecida com a transcrição de "discursos directos".

JOSÉ ESTALINE MORREU HÁ 50 ANOS

"Em Marvila, na zona oriental de Lisboa, um dos corações operários da cidade no início dos anos cinquenta, segundo o Avante!, uma mulher teria juntado à sua porta um grupo de pessoas a quem falava de Estaline e da "gratidão que a humanidade lhe deve". O líder soviético acabara de morrer e o órgão central do PCP queria transmitir a comoção e as sentidas homenagens ocorridas nos meios populares.
Os quatro membros que compunham o clandestino Secretariado do Comité Central do PCP haviam subscrito e datado de 6 de Março de 1953, o próprio dia em que a notícia da morte do dirigente russo começa a ser conhecida pelo mundo, uma mensagem de condolências ao CC do Partido Comunista da União Soviética.
A mensagem, no tom e no estilo dos seus subscritores, "garante aos trabalhadores portugueses e aos partidos comunistas irmãos que se manterá fiel aos ensinamentos de Lenine e de Staline, que se guiará pela experiência e ensinamentos do glorioso partido de Lenine e de Staline..."
Estaline é qualificado de herdeiro e continuador genial de Marx, Engels e Lenine, de porta-bandeira da paz no mundo, de grande amigo da juventude, de construtor do socialismo, de grande arquitecto do comunismo.
Na reunião que o Comité Central realiza ainda nesse mês, Joaquim Pires Jorge faz a evocação do dirigente, considerando a sua morte como prematura e irreparável. Eleva-o à categoria de génio no plano teórico e como estratega político, chamando-lhe "gigante do pensamento e da acção".
Tarjando a negro, sairá dessa reunião um comunicado no mesmo estilo, que antes de gritar por "glória eterna", jura "manter sempre vivo dentro do partido dos trabalhadores