dezembro 31, 2003

RELATÓRIOS SECRETOS SOBRE A GUINÉ COLONIAL (3)

"Cercados" é a parte que se segue do texto de Serafim Lobato. Nela, informação respeitante a ataques a Guileje.

"ESTAMOS CERCADOS POR TODOS OS LADOS"

Cercados

"O major Coutinho Lima pede para expor directamente o assunto ao general Spínola. Reticente, este aceita recebê-lo em Bissau ao fim da tarde do dia 20. "Não foi satisfeito o seu pedido de [apoio] de uma companhia, tendo-lhe sido determinado que regressasse ao COP 5, onde seria substituído no comando", acrescenta o relatório.
Coutinho Lima envia uma mensagem às companhias de Cacine, Gadamael e Guileje", "preparando a sua ida de Cacine para Guileje".
"Em 21 07h40, a Companhia de Cavalaria 8350 [Guileje] respondeu [ser] impossível cumprir o determinado no que se referia à sua colaboração no transporte do major Coutinho e Lima de Cacine para Guileje. Foi-lhe dito em 21 10h26 que o comandante da companhia seria responsabilizado pelo não cumprimento dessa ordem", pode ler-se no relatório do comando chefe. Igualmente a Companhia de Gadamael se opõe a destacar homens para levar o comandante de COP 5 para Guileje.
Às 14h15 do dia 21, é recebida, em Gadamael, a última mensagem de Guileje: "Estamos cercados de todos os lados." Seguiu-se o silenciamento das comunicações de e com o quartel. Às 05h30 do dia 22, Guileje foi evacuada.
Uma mensagem, enviada dois dias depois de Gadamael, informava que de Guileje não foi "recolhida qualquer viatura", e especificou: um camião Mercedes, quatro Berliet, três Unimog 404, 1 Unimog 411, 1 jipe, um veículo de cavalaria Fox, dois White, que teriam sido "destruídos parcialmente". Ficaram ainda no terreno, segundo a mensagem, três morteiros 81, um morteiro 10,7 cm, bem como duas bazucas de 8,9, dois morteiros de 60, três metralhadoras Breda e sete G3, que foram danificadas ou destruídas, mas sete pistolas-metralhadoras FBP ficaram para trás "não destruídas" e pelo menos quatro G3 desaparecidas.
Uma mensagem-relâmpago do comando chefe dirigida à Companhia 4734, com data do dia 22, ressaltava o seguinte: "Solicito que informe comandante CAOP 3, o coronel Ferreira Durão, que sua excelência o general comandante-chefe determinou que seja retirado imediatamente do comando do COP 5 o major de artilharia Alexandre da Costa Coutinho e Lima e mandado apresentar QG/CCFAG para efeito de auto de corpo de delito."
Entre 18 e 22 de Maio, Guileje foi bombardeada 36 vezes.
Uma mensagem de 21 de Maio descreve que o interior do aquartelamento tinha sido atingido durante uma flagelação com 200 impactos de granadas, que causaram "grandes danos materiais". Indica, nomeadamente, que foram destruídos todas as antenas de transmissões, dois depósitos de géneros, o forno da cozinha, tabancas, celeiros, arroz da população, havendo abrigos atingidos e danificados, bem como a secretaria, depósitos de artigos de cantina. Impactos houve que acertaram mesmo em valas-abrigos".

(Cont.)

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RELATÓRIOS SECRETOS SOBRE A GUINÉ COLONIAL (2)

Na continuação da edição do texto de Serafim Lobato apresentamos, agora, a parte relativa às "Restrições ao apoio aéreo". Nesta, faz-se referência a ataques a zonas muito perto de Guileje, assim como a esta mesma, as perdas sofridas, ao que se acrescentam as restrições havidas (e justificações) no que concerne a evacuações aéreas.
Destacam-se os relatórios- e excertos dos mesmos- em que tais informações se encontram.

"ESTAMOS CERCADOS POR TODOS OS LADOS"

Restrições ao apoio aéreo

"A 18 de Maio, a sul, junto à raia com a Guiné-Conacri, verificou-se uma concentração de forças guerrilheiras em redor de Guileje que apontava para uma tentativa de tomada do quartel.
Refere um relatório do comando chefe das Forças Armadas da Guiné (Repartição de Operações), assinada pelo seu chefe, tenente-coronel Pinto de Almeida, agora tornado público, que sintetiza a actividade do COP 5 (área militar que enquadrava Guileje) entre 18 de Maio e 21 de Maio de 1973, que, no primeiro dia, "durante a execução duma coluna de reabastecimento, as NO [nossas tropas] foram fortemente emboscadas por duas vezes, a cerca de dois km de Guileje, tendo sofrido um morto (comandante do pelotão de milícias de Guileje), sete feridos graves (cinco milícias do PelMilGuileje) e quatro feridos ligeiros (um miliciano do PelMilGuileje). Por falta de evacuação aérea, um dos feridos graves faleceu quatro horas depois da emboscada".
A falta de movimentação aérea não resultava de qualquer contratempo momentâneo. Eis a confissão do próprio comando chefe: "A partir de 06Abr73, o apoio aéreo no TO [território operacional] da Guiné sofreu grandes limitações impostas pelo aparecimento de foguetes antiaéreos eficazes, utilizados pelo inimigo, pelo que, no que se refere a COP 5, foi determinado, em 27Abr73, o cancelamento de evacuações a partir de Guileje e Gadamael. O apoio de fogos aéreos às forças terrestres sofreu também, a partir da mesma altura, fortes restrições."
(Os mísseis terra-ar Strella foram utilizados, pela primeira vez, a 5 de Abril, tendo atingido um avião Fiat G 91, pilotado pelo tenente Pessoa.)
O comandante do COP 5, major Coutinho Lima, enviou mensagens a alertar para a gravidade da situação. Informou que "a não satisfação do pedido de apoio de fogos, (...) bem como a não execução das evacuações" tinha causado "mal-estar no pessoal".
Às 20h desse dia 18, o PAIGC "iniciou as flagelações a Guileje". Horas depois, às 02h20, o COP 5 solicita apoio urgente, pois estava debaixo de fogo contínuo. "Foi-lhe respondido em 19 00h30- assinala o relatório do comando chefe- que a força aérea se encontrava totalmente empenhada noutra área do TO e que seria efectuado o apoio aéreo logo que possível."

(Cont.)

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RELATÓRIOS SECRETOS SOBRE A GUINÉ COLONIAL (1)

Iniciamos, com este post, a edição do texto "Estamos cercados por todos os lados", de Serafim Lobato.
Na sua parte introdutória chama-se a atenção para o esforço de combate desenvolvido pelo PAIGC por todo o território da Guiné-Bissau, com especial destaque para as zonas de fronteira, sendo isso feito com dois objectivos muito claros:

- a desmoralização dos soldados portugueses
- a conquista territorial

É dada particular atenção à ofensiva efectuada contra Guidage, unidade situada junto à fronteira com o Senegal.

"ESTAMOS CERCADOS POR TODOS OS LADOS"

"As Forças Armadas (FA) portuguesas começaram, há 30 anos, a sofrer os primeiros efeitos visíveis de desagregação na Guiné-Bissau, quando quartéis de fronteira estiveram cercados em combates prolongados e alguns foram abandonados (definitiva ou temporariamente) por efeito directo de assédios bem sucedidos de unidades guerrilheiras do PAIGC. Pela primeira vez são divulgados relatórios que permitem reconstruir a batalha de Guileje e Gadamael, que antecedeu a saída de Spínola da Guiné e o reconhecimento deste país pela ONU.
Em Maio de 1973, a guerrilha guineense efectuou 220 acções militares em todo o território da Guiné-Bissau e concentrou os seus esforços em quartéis de fronteira, visando, em primeiro lugar, a desmoralização dos soldados e, em paralelo ou posteriormente, a conquista territorial.
A 8 de Maio, o PAIGC lançou uma ofensiva concentrada de envergadura contra Guidage, unidade situada mesmo junto à linha de fronteira com o Senegal, fazendo parte de uma quadrícula militar de vários agrupamentos a norte do rio Cacheu que ia, a oeste, até Barro, sob um comando operacional único (COP 3) com sede em Bijene. Comportava unidades do Exército e da Marinha, estas estabelecidas na base fluvial de Ganturé.
Na defesa de Guidage, o comando chefe da Guiné enviou para a zona um conjunto elevado de grupos e destacamentos de tropas especiais, comandos, pára-quedistas e fuzileiros, bem como unidades de artilharia e mesmo de cavalaria. A guarnição local, quando começou o cerco, era constituída por uma companhia de Caçadores e por um pelotão de artilharia, equipado com obuses de 10,5mm- cerca de 200 homens.
Na operação de auxílio, reabastecimento e contra-ofensiva, que durou de 8 de Maio a 8 de Junho de 1973, estiveram envolvidos mais de mil homens (na maioria tropas especiais) das FA portuguesas, em terra, mar e ar, conforme assinalam os coronéis Aniceto e Carlos de Matos Gomes, no seu livro "Guerra Colonial".
As forças portuguesas tiveram 39 mortos e 122 feridos. Pelo menos seis viaturas militares de vários tipos foram destruídas e foram abatidos três aviões (um T6 e dois DO27). Só a unidade de Guidage contabilizou sete mortos e 30 feridos, todos militares. Nos cerca de 20 dias que ficou cercada, Guidage esteve sujeita a 43 ataques com foguetões de 122m/m, artilharia e morteiros. Todos os edifícios do quartel foram danificados. A unidade, que, no conjunto, teve mais mortos foi o Batalhão de Comandos: dez. Sofreu ainda 22 feridos, quase todos graves, e três desaparecidos".

(Cont.)

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dezembro 29, 2003

DIVULGAÇÃO DE RELATÓRIOS SECRETOS SOBRE A GUINÉ COLONIAL

"Estamos cercados por todos os lados"

Assim se intitula e chama a atenção, para/um trabalho de Sarafim Lobato publicado no jornal Público de Domingo (28/12/2003), que faz a divulgação, pela primeira vez, de "...relatórios secretos da batalha de Guileje e Gadamael, que dão conta de pedidos de ajuda desesperados, restrições ao apoio e evacuação por meios aéreos, fugas para o mato e "pessoal fortemente traumatizado".

Sendo que, a partir de amanhã, passaremos à sua edição integral, registamos, desde já, as partes constituintes e em que se divide o texto:

- [Texto sem título]
- Restrições ao apoio aéreo
- Cercados
- Fuga para o mato
- "Pessoal fortemente traumatizado"
- Spínola deixa Bissau

Sublinhamos a importância deste trabalho de Sarafim Lobato para aquela que é a totalidade da informação por nós editada e a editar relativa ao Portugal Colonial/Guerra Colonial, em particular, no que concerne ao território da Guiné-Bissau.

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dezembro 28, 2003

CONSIDERAÇÕES EM TORNO DO ESTUDO DAS RELIGIÕES ANTIGAS OU DAS RELIGIÕES ACTUAIS NOS SEUS TEMPOS PRIMORDIAIS: registos de Moisés Espírito Santo

Na sequência da edição do conteúdo da obra Origens do cristianismo português, da autoria do Dr. Moisés Espírito Santo registamos, agora, e conforme estipulado, as principais ideias por nós consideradas no "Preâmbulo" que daquela faz parte:

1. "Sendo a religião uma relação dos indivíduos com os entes sobrenaturais, a sua descoberta pelos métodos científicos pode ser aleatória pela ausência de indicadores, templos, cultos, objectos sacros, textos escritos. A religião só acidentalmente se deixa revelar aos profanos."

2. "A experiência religiosa é sempre difícil de traduzir em palavras e ainda mais escritas. (...). As religiões são obras do espírito, motivações de vida, conceitos abstractos de verdade, de virtude e de pecado, gestos espontâneos (...). As dificuldades aumentam à distância de dois ou três milénios com as religiões desaparecidas (...)."

3. "As religiões são sistemas de valores subjectivos. Existem em função dos crentes, por eles e para eles. Podem prescindir de qualquer forma plástica (textos, imagens, emblemas) e de comportamentos exteriores (...) e só a certos níveis se estruturam em organizações eclesiais. Para conhecer as religiões, descobrir a sua capacidade de mobilização das vontades individuais e colectivas, é necessário penetrar no seu interior."

4. "As religiões antigas teriam mobilizado multidões, exigindo a generosidade de muitos e contado imensos mártires, tal como as actuais. Se descobri-las integralmente é impossível, podemos aproximarmo-nos do seu limiar recorrendo à comparação com as religiões actuais, isto é, comparar as suas práticas com o que houver de semelhante nas religiões actuais."

5. "Um meio para explicar hoje os comportamentos religiosos do passado é o conceito sociológico de "função social", entendendo como tal a satisfação duma necessidade, a resposta à pergunta "quais são os efeitos declarados e latentes, conscientes e inconscientes que se procuram atingir com esse comportamento?"

6. "As razões expressas para os comportamentos sociais (quando as há) não são apenas supérfluas como devem ser sujeitas a ponderação."

7. "Os mitos justificativos dos cultos são construções a posterior destinadas a dar-lhes um sentido racional, são portanto irrelevantes enquanto relação causal. A Teologia é uma tentativa de racionalizar o sagrado que, por definição, é misterioso e que, portanto, participa do irracional."

8. "As fórmulas religiosas são passageiras e todas caducam."

Chamamos a atenção que cada um destes "pontos" por nós seleccionados, encontram-se desenvolvidos/explicitados ao longo do texto total do "Preâmbulo", pelo que aconselhamos a sua leitura integral, fundamental, também, para a melhor compreensão da obra a que respeita.

NOTA: Algumas destas considerações podem ser estendidas até vivências ou práticas da/na actualidade.


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ORIGENS DO CRISTIANISMO PORTUGUÊS: desenvolvimento do conteúdo

Editada que foi a referência bibliográfica:

ESPÍRITO SANTO, Moisés- Origens do cristianismo português. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões, [1993]

apresentamos, agora, aquele que é o seu conteúdo. São as seguintes as partes constituintes:

- PREÂMBULO
- A DEUSA SÍRIA, por Luciano de Samoçata
1. OS SIRIOS NO OCIDENTE
2. A MÃE DO SENHOR
3. A MAGNA MATER
4. A MÃE DOS DEUSES NA LUSITÂNIA E AS ADONIAS EM SEVILHA
5. OS PRIMÓRDIOS DO CULTO CATÓLICO DE MARIA
6. ORIGEM NORTE AFRICANA DO CRISTIANISMO IBÉRICO
7. PRIMEIRO CONCÍLIO IBÉRICO
8. PRESCILIANISMO
- CONCLUSÕES

Pela importância do "Preâmbulo" desta obra, serão apresentados alguns excertos em post posterior.

ORIGENS DO CRISTIANISMO PORTUGUÊS

PREÂMBULO

A DEUSA SÍRIA, por Luciano de Samaçota
Apresentação
Texto e notas

1. OS SIRIOS NO OCIDENTE

- A Criadora
- A Deusa Síria no Ocidente
- Os Sirios no Ocidente

2. A MÃE DO SENHOR

- Uma antiga simbólica
- Os Prantos por Tamouse- Adonis

3. A MAGNA MATER

- Mãe Castradora
- A Magna Mater conquista Roma
- Os Gallos em Roma
- Eunucos pelo Reino dos Céus
- A Magna Mater conquista o Ocidente
- Magma Mater ecuménica

4. A MÃE DOS DEUSES NA LUSITÂNIA E AS ADONIAS EM SEVILHA

- Magna Mater na Lusitânia
- Prantos sírios em Sevilha (ano 287 d.c)
- Santo António de Lisboa e os manjericos
- Senhora do Castelo
- São Sebastião emasculado
- A Blanca Paloma de Andaluzia
- Mãe-Soberana de Loulé

5. OS PRIMÓRDIOS DO CULTO CATÓLICO DE MARIA

- Maria e os primeiros cristãos
- Cristianismo de massa
- Culto mariano primitivo
- Instituição popular das festas marianas
- Luminárias

6. ORIGEM NORTE AFRICANA DO CRISTIANISMO IBÉRICO

- Atestados de idolatria
- O recurso de Cartago
- Elos de fundação

7. PRIMEIRO CONCÍLIO IBÉRICO

- O concílio de Eliberi
- O concílio da ordem imperial
- Correia de transmissão do Império

8. PRESCILIANISMO

- Um cristianismo que resiste ao Império
- Cristianismo das bases
- Concílio sobre concílio
- Prisciliano mártir
- Liberdade cristã, Livre-exame
- Fundamentos teológicos do Priscilianismo
- Religião mistérica
- A astrologia
- Secretismo elitista
- Liturgias iniciáticas
- Depois de Prisciliano

CONCLUSÃO

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A RELIGIÃO POPULAR PORTUGUESA: desenvolvimento das referências bibliográficas apresentadas (2)

Tal como fizemos em relação à obra referenciada anteriormente, editamos agora o conteúdo de:

ESPÍRITO SANTO, Moisés- A religião popular portuguesa. 2ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 1990.

Capítulos constituintes:

- Capítulo I: PRESTÍGIO RELIGIOSO DO MEIO NATURAL
- Capítulo II: TEMPORALIDADE RELIGIOSA E TRABALHO AGRÍCOLA
- Capítulo III: IGREJAS E SANTUÁRIOS
- Capítulo IV: A GRANDE SENHORA DOS MONTES
- Capítulo V: É A ALDEIA QUE FAZ O SANTO
- Capítulo VI: A LIBERTAÇÃO PELA PALAVRA
- Capítulo VII: DO NASCIMENTO À MORTE
- Capítulo VIII: "A NOSSA RELIGIÃO E A DOS PADRES"

A RELIGIÃO POPULAR PORTUGUESA

Capítulo I: PRESTÍGIO RELIGIOSO DO MEIO NATURAL

- A origem sagrada da aldeia
- A aldeia é um espaço fechado e segurizante
- A montanha, refúgio de monstros
- Pedras fecundantes e grutas protectoras
- A água viva e os banhos santos
- Debaixo de cada rocha uma mãe seduz o filho
- Árvores maternas e árvores paternas
- Animais solares e animais lunares
- A serpente, uma divindade solidária das mulheres

Capítulo II: TEMPORALIDADE RELIGIOSA E TRABALHO AGRÍCOLA

- O tempo que degenera
- O sol-pai
- A festa do fogo
- A lua, potência envolvente
- O fim do mundo pelo fogo
- O calendário
- O ciclo da germinação ou a morte colectiva
- O ciclo da floração ou o despertar
- O ciclo das colheitas ou da partilha
- Cerimónias agrícolas e lazeres
- Ritos agrários
- Talassa- a mãe primordial

Capítulo III: IGREJAS E SANTUÁRIOS

- A igreja matriz
- A voz do sino
- O santuário

Capítulo IV: A GRANDE SENHORA DOS MONTES

- A senhora sai da terra
- A nostalgia da mãe
- A senhora mãe-Pátria
- A senhora dos pescadores é uma dolorosa
- A senhora dos montes no turbilhão
- A Imaculada Conceição: a mulher decaída

Capítulo V: É A ALDEIA QUE FAZ O SANTO

- A aldeia faz o seu santo
- Nome masculino e alma feminina
- Cultos singulares
- "Santos canonizados pelo povo"- a vítima e o ladrão
- O santo como refém
- As alegres romarias do norte

Capítulo VI: A LIBERTAÇÃO PELA PALAVRA

- "Nada se pode fazer sem palavras"
- "Eu sou a mulher, a benzedeira"
- A eficácia dos ritos verbais
- "Eu te degrado para as ondas do mar coalhado"
- "Tudo o que a mulher ligar está ligado"
- O espectro da mulher

Capítulo VII: DO NASCIMENTO À MORTE

- De uma mãe à outra
- Ritos e cerimónias mortuárias
- A reintegração na mãe
- Almas boas e espíritos maus

Capítulo VIII: "A NOSSA RELIGIÃO E A DOS PADRES"

- O pai ao serviço da mãe
- É o pastor que segue o rebanho
- A "greve da religião"
"Vós sereis como o menino que uma mãe consola"
- Todo o ser humano deve ter duas mães

Conclusão

Publicado por sandra em 02:42 PM | Comentários (0) | TrackBack

A RELIGIÃO POPULAR PORTUGUESA: desenvolvimento das referências bibliográficas apresentadas (1)

Tendo sido editada, no passado dia 25, a referência bibliográfica:

ESPÍRITO SANTO, Moisés- Origens orientais da religião popular portuguesa seguido de Ensaio sobre toponímia antiga. Lisboa: Assírio & Alvim, 1988.

apresentamos hoje, conforme estipulado, aquele que é o conteúdo da obra.
Numa abordagem imediata, o trabalho do Dr. Moisés Espírito Santo divide-se em 3 partes, a saber:

PARTE PRIMEIRA- ORIGENS ORIENTAIS DA RELIGIÃO POPULAR PORTUGUESA

PARTE SEGUNDA- ENSAIO SOBRE TOPONÍMIA ANTIGA

PARTE TERCEIRA- OS CIVILIZADORES: FENÍCIOS E HEBREUS

Dentro de cada uma destas partes existem vários capítulos, cada um com os seus itens. Todo este conteúdo, pela sua extensão consta, assim, em anexo.

ORIGENS ORIENTAIS DA RELIGIÃO POPULAR PORTUGUESA seguido de ENSAIO SOBRE TOPONÍMIA ANTIGA

Preâmbulo

PARTE PRIMEIRA. ORIGENS ORIENTAIS DA RELIGIÃO POPULAR PORTUGUESA

Capítulo primeiro. ROCHAS, ÁRVORES, ÁGUA

1. Lugares altos
2. A rocha onde fostes engendrados
3. Uma descida às profundezas da cultura lusitana
4. Dizem à Árvore: "Tu geraste-me"
5. A Água, produto maternal
6. A Água, um dom do pai
7. Os rios

Capítulo segundo. A SENHORA DOS MIL NOMES

1. Senhoras Aparecidas
2. Paradigmas
3. As fugas da Senhora
4. A "Verdadeira Imagem"
5. Culto tópico
6. Emblema do povo
7. As "Sete Senhoras Irmãs"
8. Senhora dos Mareantes
9. Senhoras Estrangeiradas
10. Senhora do Pranto
11. A Senhora da Piedade e os militares
12. A Senhora da Piedade e a Renascença
13. Culto Mariano judeo-secreto
14. Sob as asas da Misericórdia
15. Senhora da Diáspora
16. Um Messias feminino

Capítulo terceiro. CONCEITO POPULAR DE DEUS

1. Deus das vinganças
2. Marido de sua mãe
3. Senhor dos Passos
4. Eis o Homem
5. Incapacidades de fundo
6. A mãe não morre

Capítulo quarto. A ANTIGA PROMESSA

1. "Uma promessa antiga": A Velha Aliança
2. Uma nuvem de gafanhotos
3. Renovação da Promessa: refeições rituais
4. Refeições rituais na tradição popular: o Bodo
5. Jeremias e as cavacas em honra da Senhora
6. Os bodos na tradição fenícia
7. Entre os primeiros cristãos sírios
8. Os Círios e os Prantos sírios
9. As Cruzes e os Prantos sírios
10. No Caramulo como no Sinai
11. Festas das Cruzes: luto judaico
12. Um protótipo: Senhor da Pedra de Gulpilhares

Capítulo quinto. O CULTO DO DIVINO

1. "O Divino é nosso, não é deles"
2. A festa judaica do Pentecostes
3. O nome, a imagem e o local do Divino
4. A Folia
5. Os loucos do Espírito
6. A Noite do Vitó
7. O Imperador
8. A Pomba e a Coroa
9. Os Jantares do Espírito Santo
10. Paradigmas
11. Pratos de surpresa e gestos trocados
12. A Pedra da Honra
13. Os giros
14. O Bendito da gente
15. O Segredo
16. Fatos irrisórios ou aparato glorioso?
17. Bois e touradas
18. No tempo das ceifas
19. Quem é o Divino?

Capítulo sexto. "DIVERTIR-VOS-EI NA FESTA"

1. A festa e a memória colectiva
2. O Entrudo e os Purim de D. Sebastião
3. Pascoela, a Senhora dos Prazeres e a Rainha Ester
4. Quinta-Feira da Ascensão de... Moisés ao Sinai
5. Festa das Colheitas

Capítulo sétimo. GALERIA DOS SANTOS

1. Questão de nomes
2. Mais temidos do que amados
3. São Mateus: "Não vás lá de mãos vazias!"
4. "São Bartolomeu foi marinheiro"
5. São Macário, o santo que matou o pai
6. A brilhante carreira de São João
7. São João judeu-secreto
8. São Sebastião, Sebastianismo e Sabatianismo
9. Santo António de Lisboa hermafrodita
10. São José, um (estranho) modelo social de pai
11. São Miguel, Príncipe do Povo Hebreu
12. São Tiago e as doze tribos da Diáspora
13. Santa Eulália, a resistente
14. As guerras púnicas de Santa Quitéria
15. Santa Catarina contra os tiranos
16. Santa Martinha, uma mulher vestida de homem
17. Santa Isabel: "A nova Ester em Portugal"
18. Santa Maria Madalena: "As prostitutas vos precederão"
19. Nossa Senhora Santa Ana

Capítulo oitavo. RETRATO DOS ANTEPASSADOS

1. Pilares e Bétilos
2. O Pelourinho
3. Belus, Bel, Baal
4. Ishtar
5. Thammuze ou Dommuzi (Adónis)
6. Átis
7. Sebasius
8. Poséidon, Pelagaios ou Salacius
9. Hermes
10. Melkarth ou Héracles de Tiro
11. Awwa, o Ovo e a Fénix
12. A Moira e os seus Tesouros
13. Anat, Ana ou Anta
14. Hera
15. Ester
16. Endovélico
17. Ataegina

Capítulo nono. A PROVA DA ARQUEOLOGIA

1. Deuses lusitanos falsificados
2. Os deuses do Portugal Romano
3. Pedras alçadas
4. Da Anatólia à Azambuja

Conclusão

PARTE SEGUNDA. ENSAIO SOBRE TOPONÍMIA ANTIGA

1. A lógica dos nomes
1.1. Os métodos literários
1.2. Os nomes não morrem
1.3. Método para a análise dos nomes

2. Os Povos
2.1. A Belária e a Fenicária
2.2. Azere ou Açor
2.3. Thamuje e Adon

3. A lógica dos sítios: "Carca-belus"

4. Conclusão

PARTE TERCEIRA. OS CIVILIZADORES: FENÍCIOS E HEBREUS

1. Os Fenícios: fundadores da idade histórica da Europa
2. Os Fenícios e o Ocidente
3. Os Hebreus

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dezembro 27, 2003

ENFERMEIRAS PÁRA-QUEDISTAS EM ACÇÃO NO PORTUGAL COLONIAL: testemunhos- 2

Retomamos a edição de posts respeitantes às enfermeiras pára-quedistas. Na sequência do editado a 30 de Novembro, apresentamos mais um excerto de testemunho de Maria Ivone Quintino Reis. Nele, recorda-se trabalho desenvolvido quer no contexto de acontecimentos na Índia Portuguesa, quer nas colónias africanas. Maria Ivone sublinha as condições de trabalho por que passou, extensíveis, também, às suas companheiras.

ENFERMEIRAS PÁRA-QUEDISTAS

Maria Ivone Quintino Reis (2ª Parte)

"Houve depois a visita a África do ministro do Ultramar, Adriano Moreira, e nomearam-me para ir na comitiva, como forma de motivar raparigas enfermeiras a tornarem-se pára-quedistas. Fui para o Ultramar em Setembro e voltei em Novembro. Meses depois, a Maria do Céu, uma colega nossa, foi com o general Kaúlza de Arriaga, secretário de Estado da Aeronáutica, às diferentes províncias. Quando cheguei da visita do ministro do Ultramar surgiu a questão da Índia e fomos quatro para Carachi, em 13 de Dezembro, para dar apoio às famílias que eram repatriadas da Índia, porque os militares ficaram em campos de concentração. Estávamos as quatro em Carachi quando Goa foi invadida, no dia 18 de Dezembro. A missão era para dar apoio ao transbordo dos militares que vinham na companhia aérea francesa contratada para ir buscá-los a Goa- porque não podiam ir aviões portugueses a Goa, nem sequer a Carachi. Depois, os militares iam em jipes para os barcos que estavam atracados em Carachi: o Vera Cruz, o Pátria e o Moçambique. Nós dávamos apoio à chegada dos militares, que estavam com seis meses de cativeiro. Eles chegavam ao Vera Cruz, que era fresquinho e onde se ouvia cantar o fado. Eu e a Zulmira estávamos lá mais por uma questão de equipa, com o comandante Solano de Almeida e o jornalista Urbano Carrasco. Estávamos numa ligação de comunicação com Lisboa- foi essa a causa maior que nos levou lá, porque não havia muito tempo no transbordo entre o avisão e os barcos. Voltámos de Carachi no Natal. A experiência lá foi dolorosa, a nível humano. Os aviões dos Transportes Aéreos da Índia Portuguesa (TAIP) vinham pôr as famílias em Carachi para as acomodarmos nos aviões da TAP, que estavam no Paquistão, porque não podiam ir à Índia, devido à expectativa de invasão. Acomodávamos aquelas mães, aquelas crianças, as bonecas, apinhadas dentro de um avião. Eram as famílias de três mil militares que ficaram lá presos. Houve uma que ficou internada na maternidade de Carachi porque estava à espera de bebé. A criança nasceu e nós fomos visitá-la. Ela veio connosco no último avião da TAIP, pilotado pelo comandante Solano de Almeida. Viemos no último avião que saiu de Goa, já depois da invasão, em voo baixo para não ser visto nem atingido pelos bombardeiros, em condições precárias, com destino a Carachi. Para lá tínhamos ido num avião da TAP.
O que estava a aconteccer no Ultramar despertou muito as mulheres. Houve cerca de 150 concorrentes, no total dos nove cursos, mas foram brevetadas 46, e das onze concorrentes do primeiro grupo foram brevetadas seis. A nossa vida era muito dura. Nunca sabíamos onde acordávamos, nem quando é que íamos dormir, nem onde estávamos. Durante o último ano que passei em Moçambique, o máximo de noites seguidas que dormi foram cinco. O nosso quadro era de vinte e uma enfermeiras- nove oficiais e nove sargentos- mas nunca esteve completo. O máximo de efectivos que existiu foram catorze. Éramos sempre escassas para cobrir as três províncias. Umas não aguentavam o curso, que era um teste de resistência, capacidade, audácia e coragem, e outras, ao fim de um ano, desistiam porque aquilo não dava para se fazerem projectos de vida; fazíamos directas, não havia folgas, nem fins-de-semana. Depois, eles confessaram que, no princípio, tinham achado muito mal que nós fôssemos para África, até porque não éramos especialmente elegantes, diziam que parecíamos assistentes sociais. Mas, por exemplo, uma vez, na Guiné, no fim da parada de uma cerimónia oficial, eu estava fardada e apareceu um soldado do Exército que se perfilou diante de mim, fez-me a continência com enorme rigor e afastou-se. Depois, disse-me: "Minha senhora, eu senti necessidade de ir bater a pala a uma mulher portuguesa." Naquele tempo havia a ideia da coragem e da audácia de nos destinarmos para os outros, e isso reflectia-se no acolhimento que tínhamos. As nossas directivas eram só para evacuação. Não podíamos sair do helicóptero, até por normas de segurança. Era um fiasco muito grande se fôssemos apanhadas. E toda a tropa ficava preocupada com uma mulher no meio dos combates".

(p. 664-665)

(Cont.)

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MUTILADOS. CONSEQUÊNCIAS DA GUERRA EM ÁFRICA (1961-1974): testemunhos-4

Na sequência dos testemunhos já editados, apresentamos um outro, desta vez de um alferes miliciano de Infantaria, que serviu em Moçambique nos anos de 1971-1972.
Cego, aquando do cumprimento da missão que lhe tinha sido atribuída este indivíduo, que quis manter o anonimato, recorda situações no território de África onde esteve, daquele que era o seu posicionamento perante o conflito, assim como pelo que passou após o ferimento (fatal) de que foi alvo.

MUTILADOS. DOR ETERNA

"Estive como alferes miliciano em Tete, numa fase depois da Operação Nó Górdio, em que houve uma deslocação da guerrilha para sul. Em Tete, nessa altura, o contacto directo com os guerrilheiros da Frelimo não era muito usual. Era a fase das minas: as picadas e os trilhos estavam pulverizados de minas. A primeira acção da guerrilha foi a captação das populações e a segunda foi a colocação de minas. A terceira acção era já de confronto directo, conjuntamente com minas. Eu estive na segunda fase da intervenção da guerrilha no terreno. Por exemplo, no mês de Agosto de 1971, na minha zona, tivemos trinta minas anticarro, fora as antipessoal. Fui ferido com uma mina antipessoal. Estava a fazer um estudo da mina- ainda não a estava a desmontar- e ela rebentou, ainda hoje não sei porquê. Fiquei cego. Fui evacuado para o hospital de Tete, e dali para o hospital de Lourenço Marques, onde fui logo operado à vista, mas sem hipóteses de recuperação. De lá fui para Lisboa. Eu tive uma experiência que fazia parte da estratégia militar em qualquer tipo de guerra de guerrilha, que era o aldeamento das populações. Para além de irmos a zonas onde estavam os guerrilheiros, nós tínhamos missões de aldear populações, isto é, de recolher as populações que estavam dispersas no mato e trazê-las para aldeamentos controlados pelas nossas tropas. Numa missão dessas, cheguei à dita aldeia bastante cedo, por volta das sete da manhã, e tentei falar com o chefe, que tinha fugido quando nos viu aproximar. Perguntei onde é que estava o chefe e fui prendê-lo com uma secção reforçada. O resto do pelotão ficou na aldeia. Queria que o chefe desse ordens para a população abandonar o local. Falei com ele em português, sem intérprete, porque ele percebia. Aliás, ele utilizava roupa europeia, tinha um casaco ocidental, mas não atendeu à ordem militar que eu dera e não disse nada à população.
Ficámos à espera que ele resolvesse a situação. Mas eu tinha que me ir embora porque não podíamos andar no mato a partir das quatro horas. A partir dessa hora não havia evacuações. Quando chegou ao limite da hora que eu podia esperar para irmos para o nosso acampamento, como não tinha havido qualquer movimentação da população para abandonar aquele local, fiz duas linhas de homens: uma linha à frente, com os homens armados em situação de fogo, e uma linha atrás, com homens com archotes para queimarem as palhotas. Era a nossa missão: levar as populações e queimar as palhotas, para que não pudessem servir de abrigo aos guerrilheiros. Ao ver isso, a população entendeu que estávamos ali para cumprir a missão, e começou a sair da aldeia, as mães com os filhos, com coisas à cabeça, com tudo o que puderam apanhar. Passámos toda a linha da aldeia com a população à frente, e deitando fogo às palhotas. Não dei um tiro nesse dia mas podia ter dado muitos tiros se, na altura em que desencadeei a acção de desalojamento, eles tivessem reagido. Mas quando passámos a linha das palhotas e eu olhei para trás e vi a aldeia a arder, e olhei para a frente e vi as mulheres com os filhos ao colo e pela mão, a guerra nunca mais foi igual para mim. Só pensava: "Que guerra é esta?" Tive uma tomada de consciência da monstruosidade que era a guerra. Eu sempre disse que devo estar no meu país nas horas e nas horas más. Aquela era uma hora má. Quando fui para a guerra, já tinha uma consciência política das coisas, de que a guerra colonial teria que ter uma solução política e não militar. Mas também nunca pensei em fugir. A minha geração, a geração de 60, um milhão e tal de homens, foi sacrificada à incapacidade política dessa altura.
Após ter sido ferido, andei um ano e meio aparvalhado, tipo em estado de choque, sonhava todos os dias com a guerra, acordava aos gritos e aos saltos, com pesadelos. Depois, fui estabilizando. E fiz a catarse de tudo isto. É óbvio que as nossas tropas eram mal preparadas, que o material era fraco, e que tínhamos umas tropas especiais com uma instrução melhor. Mas a tropa de quadrícula, normalmente, estava mal preparada porque não tinha cá qualquer instrução que se parecesse com um acto de guerra real. E chegava-se a Angola, a Moçambique ou à Guiné, as pessoas saíam do barco, metiam-lhes uma espigarda na mão e mandavam-nas para o mato. A pessoa só ia aprendendo a defender a sua pele ao longo dos meses em que lá estava. Na fase em que estive lá, o que eu notava, ao fazer muitas colunas e visitar companhias comandadas por milicianos, era que as pessoas não estavam lá movidas por ideais de defesa da Pátria, mas para defenderem o seu corpo. As pessoas não tinham nada a ver com aquilo, estavam ali a ver se aquilo passava o mais rapidamente possível. Eu tive a ideia de que éramos carne para canhão. Quando vim para cá evacuado, encontrei-me no Hospital Militar, na medicina dos oficiais, com mais três pessoas cegas, uma com amputações dos membros superiores e outra dos membros inferiores, e não tive ninguém, nenhum técnico, médico ou assistente social, que viesse ter comigo e me dissesse que a vida não tinha acabado. E a cegueira é uma deficiência pesadíssima. E à noite, eu e os outros dois oficiais juntávamo-nos, e ao que não tinha mãos, eu dava-lhe de fumar e de beber a cerveja à boca. Este era o apoio que nós tínhamos. Aqui se vê como éramos carne para canhão. Depois de termos defendido a Pátria, cada um com aquilo que pôde, no regresso devíamos ter tido um apoio que eu não tive. Estive num centro de reabilitação para cegos, para aprender a andar na rua, etc., mas não foi no hospital militar que me falaram do centro de reabilitação. Não havia uma estrutura para nos encaminhar para a reabilitação. Disto, eu falo com revolta. Na altura, eu nem sabia comer! E vinha uma enfermeira que me punha a comida ao fundo da cama, como se eu fosse um cão! Passado um tempo, fui falar com o médico e disse-lhe: "Eu já estou cego, mas não quero ficar maluco. Eu vou-me embora. Mande-me para a prisão mas eu vou-me embora." Estive um ano e tal sem aparecer no hospital. Quando lá voltei, a enfermeira veio ter comigo: "Ó senhor alferes, o senhor tem que ir fazer de oficial de dia para o DI!" Eu, cego, ia fazer de oficial de dia para o DI! Este era o controlo que eles tinham dos doentes. Compreendo que, num país como o nosso e com frentes de guerra tão grandes, eles não tivessem meios para a rectaguarda. Mas então os políticos deveriam ter resolvido a situação rapidamente, sem massacrarem uma juventude como a nossa."

(p. 963-965)

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ÓSCAR CARDOSO: inspector da PIDE/DGS criador dos Flechas (3)

Continuando a edição do testemunho do ex-inspector da PIDE/DGS, Óscar Cardoso, cuja última parte apresentámos no passado dia 01, registamos hoje o conteúdo relativo à formação dos Flechas, propriamente dito. Óscar Cardoso faz referência à sua ida às "terras do fim do mundo" e ao contacto directo com os bushmen, indivíduos locais que iriam ser treinados para formação da tal "milícia". De destacar, nesta parte do testemunho, a explicitação do ex-inspector sobre o apoio dado pelas Forças Armadas para o treino daqueles indígenas, naquele que era o aproveitamento máximo das suas potencialidades/capacidades.

ÓSCAR CARDOSO- CRIADOR DOS FLECHAS

"O meu director, São José Lopes, uma pessoa inteligentíssima, com quem tive alguns conflitos mas a quem hoje reconheço razão, autorizou-me a tentar a experiência. Disse-me: "Sim, senhor. Você pega no administrador, damos-lhe uma compensação monetária, e você vai para as terras do fim do mundo fazer uma prospecção sobre o que esses bushmen poderão dar, qual será o rendimento que eles poderão ter em operações de guerrilha.
O administrador Manuel Pontes, a minha mulher e eu lá fomos para as terras do fim do mundo. Deram-nos um Land-Rover decrépito e metemo-nos no mato. E começámos a contactar com os bushmen. Eram indivíduos que viviam muito primitivamente, faziam ainda o fogo por fricção, eram muito magros e pequenos, mas excelentes caçadores. Na região do Cuando-Cubango, este povo era trocado e vendido como se de gado se tratasse. Muitos eram forçadamente nómadas e outros estavam em regime de escravidão autêntica nos sobados dos chefes pretos bantos. Se o amor é uma motivação para se fazer a guerra, o ódio também é; e não havia dúvida nenhuma que eles odiavam os seus antigos donos. A nossa guerra em Angola não era contra os pretos mas contra quem fosse terrorista, contra quem pusesse minas na picada, e contra quem quisesse destruir o nosso Governo. Começámos por isso a angariar os fulanos, com dificuldade, porque eles tinham medo. Só que o Manuel Pontes tinha vivido muito tempo com os bushmen e conhecia aquela terra muito bem. Vivera numa jangada no rio Cuando, que fixa a fronteira com a Zâmbia, o rio Cuando que é um mundo, ora atinge vários quilómetros de largura ora estreita. Muitas vezes não se faz a devida justiça àqueles homens dos postos administrativos, mas Manuel Pontes era bem um exemplo. Os bushmen respeitavam-no muito e chamavam-lhe Tata K'Hum, que significava "o pai dos K'Hum", que eram eles. Quando eles viam o Tata K'Hum, com as suas barbas brancas, aproximavam-se. E por intermédio de alguns pretos que nós tínhamos connosco, conseguíamos falar com eles. Estavam subalimentados, eram esqueletos autênticos.
Mas acreditei na palavra do administrador, que me tinha dito: "Se vocês os treinarem, se os alimentarem bem, esses indivíduos podem ser de uma grande utilidade." E eu, por tudo o que lera, também pensei que sim. Então, começámos a dar-lhes treino de tiro. Comecei em 1967 com oito e, no fim, já tinha os que queria e sobravam-me. No Cuando-Cubango, um território duas vezes e meia maior que Portugal, tinha vários postos chefiados por agentes de 1ª classe, agentes de 2ª classe e algumas vezes chefes de brigada, e tinha também as coutadas de caça. Usávamos esses indivíduos, os bushmen, como pisteiros. Eram pisteiros extraordinários, olhavam para o terreno e sabiam ler tudo; se tinha sido uma mulher grávida que tinha passado, se tinha sido um preto, se ia carregado ou não. Nós aproveitávamos essa capacidade singular deles. No princípio utilizámo-los para obter informação num território muitíssimo pouco habitado, o menos habitado de Angola. Tínhamos que lá ir para ver, por isso mandava estes grupos. Estes grupos, inicialmente, iam armados de arco e flecha, mas de flechas envenenadas, em que eles eram exímios. A ideia era obter informação e, no caso de haver contacto ou de eles se sentirem capazes de dominar a situação, é claro que não traziam ninguém vivo, mas traziam documentos e armas. Começámos a ter resultados com isso, tanto assim que, normalmente, nós é que dizíamos onde é que havia um objectivo.
Dizíamos como é que era o dispositivo do acampamento, onde é que era a casa do chefe, quantos eram, os hábitos deles, nós é que dávamos as operações aos militares. Como era um terreno muito plano, era muito difícil darmos um ponto de referência. O que se diz em relação ao apoio que a população dava é teórico, a população dava muito pouco apoio aos terroristas. A população, ao fim e ao cabo, era uma bola de pingue-pongue no meio daquela coisa. A população que dava apoio aos terroristas era forçada, a maior parte do apoio logístico aos terroristas vinha da Zâmbia. Então, para eles saberem, os acampamentos ou ficavam no início do rio ou na confluência de um rio com outro. Na confluência por uma questão de definição geográfica e também porque eles podiam passar sem tudo menos água. Nós mandávamos lá os bushmen e depois eles diziam-nos. Alguns dos bushmen chegavam lá e levavam uma saraivada de tiros. E nós, com total apoio das Forças Armadas, começámos a treinar esses bushmen no Cuando-Cubango, no campo de trabalho do Missombo, que era um campo de recuperação de terroristas, se quiser, um campo de concentração, que nada tinha a ver com a PIDE. Foi assim o início dos Flechas".

(p. 403-405)

(Cont.)

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dezembro 26, 2003

O MOVIMENTO NACIONAL FEMININO CONTADO PELA SUA PRESIDENTE: testemunho de Cecília Supico Pinto- 3

Retomamos, hoje, a edição do testemunho da Presidente do Movimento Nacional Feminino- Cecília Supico Pinto.
Nele constam as circunstâncias do assumir da Presidência (6 meses após a fundação do Movimento), assim como o trabalho desenvolvido junto dos militares. Cecília Supico Pinto especifica as suas visitas às colónias e como estas evoluiram. Refere, também, as iniciativas que foram sendo tomadas, as necessidades detectadas e os pedidos de apoio/ajuda feitos aos portugueses.
O período abrangido nesta parte do testemunho são os anos de 1961, 1962 e 1963. No âmbito de uma iniciativa concreta, temos referência ao ano de 1971.

O MOVIMENTO NACIONAL FEMININO (MNF)
Testemunho de Cecília Supico Pinto
"Recebíamos apoio das vicentinas, foi a estrutura das vicentinas que nos permitiu ter comissões do MNF em muitas terrinhas. Contactávamos as pessoas pelo telefone. Fazíamos reuniões de recrutamento ou, então, as pessoas simpatizavam com mulheres que já trabalhavam connosco. No início, o MNF era uma coisa pequena e tínhamos de explicar pormenorizadamente os objectivos que nos moviam. Mas seis meses depois de começar o MNF comecei a receber inúmeras cartas hostis. E as mulheres da comissão central recebiam ameaças. Na Rádio Argel havia ameaças contra nós quase todos os dias. Os comunistas odiavam o MNF. A mim chamavam-me "Dona Lucília" e faziam circular toda a espécie de calúnias sobre a minha vida pessoal. Identificavam-me como líder do MNF. Decidi então que não queria que nenhuma outra mulher fosse prejudicada e ameaçada por minha causa. Se tinham de ameaçar alguém, que me ameacassem a mim. E assumi a presidência, seis meses depois da fundação do MNF. Havia pessoas que reduziam o MNF a um puro exibicionismo meu e diziam coisas do género "lá está ela convencida de que é a heroína". É sempre fácil dizer mal.
Fui em 1962, com a Ana Arnaut, organizar comissões locais à Guiné. Começámos pela questão das leis por que se regiam os militares. Na Guiné não havia, por exemplo, subsídio de isolamento, que se aplicava às unidades em zonas de intervenção e de isolamento. Achávamos que não era justo, porque eles estavam tão isolados ou mais do que os outros, tinham os mesmos problemas. Conseguimos o subsídio de isolamento para os militares da Guiné. Andámos por quase todas as unidades. Chegava às unidades e dizia mais ou menos isto: "Olá rapazes. Como não é possível trazer até vós as vossas famílias, é em nome delas que o MNF vos traz abraços e saudades." A primeira unidade que visitei foi Mansoa, perto de Bissau. Os comandantes eram avisados da nossa chegada, reuniam a unidade e eu falava. Cometi erros no início, por falta de prática. Ficava muito pouco tempo em cada unidade, fazia uma visita como a dos ministros ou dos jornalistas e ia-me embora. Depois fiquei mais à vontade e passei a demorar-me mais. Dizia aos soldados: "Venho ver o que é que gostariam de ter aqui. Aposto que gostam de futebol e de equipamentos. Quem é que é do Benfica e quem é que é do Sporting?" Eram contactos simples, como se fosse da família deles. Levava bolas de futebol, que comprávamos com os donativos que recebíamos. Outras vezes eram os próprios clubes que nos davam as bolas. Depois arranjávamos um subsídio do Ministério da Defesa e tivemos mais ajudas em equipamentos e em livros. Os livros que eles mais gostavam eram policiais e romances, sobretudo o Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, e também os livros de Eça de Queirós. O jogo preferido era o monopólio. Mandávamos material didáctico, para eles ensinarem as gentes das aldeias. E medicamentos. Havia sempre um médico da unidade para ministrar os medicamentos nas tabancas. Tive a vida muito facilitada pela grande compreensão do Adriano Moreira, com quem mantinha as melhores relações. Descobrimos que na ilha do Sal, em Cabo Verde, não havia água destilada. Bebia-se apenas água de garrafa, cara e de má qualidade. Conseguimos um destilador, pago pelo Ministério do Ultramar, e o Adriano enviou-nos de Cabo Verde um telegrama a dizer: "Cheguei Sal. Bebi água do destilador. Obrigado MNF."
Na mata, eles abriam as latas de atum e de salsicha à pancada, com a G-3 e com pedras, e muitas vezes eram detectados por causa desse barulho e sofriam emboscadas. Começámos então a enviar abre-latas. Também oferecíamos taças para os campeonatos de futebol interunidades. Passámos a trabalhar com as rádios: mandávamos cassetes para eles, eles mandavam cassetes para nós. Tivemos o programa "Espaço", a fábrica de discos, copiadoras para as unidades. Eram muitas as unidades e rádios a quem nós mandávamos programas gravados do MNF. Houve um que teve especial sucesso: um Sporting-Benfica em matraquilhos, com o Eusébio, o Simões, o Damas e o Artur Agostinho a fazer o relato. Gravávamos em bobinas ou cassetes e mandávamos para as unidades e para as rádios locais. Eles divertiam-se imenso. Às vezes eram as mulheres que gravavam mensagens. Bebés que ainda não falavam quando os pais partiram e que diziam "olá, pai". Coisas simples mas importantes para quem luta no mato e sofre a ausência da família. Havia um grupo da Madeira, o Conjunto João Paulo, cujos membros foram mobilizados. Conseguimos que fossem juntos para a Guiné, Angola e Moçambique, e andaram no mato a tocar para os militares. Eu própria cantava fados que me fartava. Havia sempre um que tinha guitarra e que me acompanhava. Vinha sempre das viagens a África com o sentimento de que era preciso fazer muito mais, com mais dinheiro, com mais organização. Nunca me senti satisfeita. Havia uma frase que repetíamos no MNF: "Nós não estamos a trabalhar para recompensas, mas sim para resultados." Ficava furiosa de não fazer mais. Muitas vezes não dependia só de mim, dependia do dinheiro que pedíamos e não vinha. Alguns embirravam comigo, mas no geral era muito bem recebida nas unidades. Muitas vezes ia com o camuflado por cima, ou então levava só uma saia e uma blusa porque fartos de camuflados estavam eles, e com uns sapatos normalíssimos, nada de botas. Chegava às unidades e perguntava "Quem é do Benfica?" Era metade. "Quem é do Sporting?" Era a outra metade. "Quem é do Belenenses?" Era só um, que era do meu clube. E eu dava um grande abraço a esse. Isso pegou, "telégrafo de mato" era muito rápido, e então eu chegava e perguntava: "Quem é do Porto? Quem é do Boavista?". Nada. "Quem é do Belenenses?" E todos diziam que eram do Belenenses e lá iam abraços.
Em Julho de 1963, 1500 famílias de soldados combatentes receberam assistência através da comissão distrital de Lisboa do MNF. Lançámos também em 1963 um apelo para a obtenção de 4000 cobertores para as famílias dos militares no Ultramar. Foi a Maria do Carmo Figueiredo, presidente da comissão distrital de Lisboa, que organizou isso. A Companhia dos Diamantes de Angola deu-nos um donativo. Ainda em 1963 começou a campanha para as ceis de Natal das famílias dos militares. Pedimos também uma hora de trabalho voluntário a todos os trabalhadores. Cada trabalhador dava uma hora do seu salário, ou dava menos se não pudesse dar uma hora. Fui algumas vezes à televisão para promover os ideais do MNF. Sempre que partia para o Ultramar ia à televisão e também quando se iniciava uma campanha e era preciso agarrar as pessoas. Os contributos para a hora de trabalho eram facultativos, mas a generosidade portuguesa era muito grande. Fomos muito bem correspondidas.
Na mesma altura distribuíamos agasalhos e lembranças a 3460 famílias de militares que estavam no Ultramar. Promovemos um festival aeronáutico em Alverca, que se chamou Paz na Guerra. Foi um festival formidável pela Força Aérea, com pára-quedistas, vários números de acrobacia, tudo isso correu muito bem e ganhámos algum dinheiro. Editávamos discos, que enviávamos para as unidades, por altura do Natal. No LP de 71, chamado "Natal de 71", participaram Amália Rodrigues, Eusébio, Joaquim Agostinho, Maria de Lurdes Modesto, Florbela Queirós, Armando Cortez, Francisco Nicholson, Paulo Machado, o inspector Artur Varatojo, os Parodiantes de Lisboa, Hermínia Silva, Elsa Gomes, etc. Esse LP teve uma tiragem de 300 000 exemplares".

(p. 425-428)

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A PROPÓSITO DO GÉNERO BIOGRÁFICO: considerações de António Manuel Hespanha

Editamos hoje, conforme compromisso assumido pela nossa parte, o texto do historiador António Manuel Hespanha intitulado, "O género biográfico em curso". Este texto foi publicado na revista História de Janeiro de 2002, sendo agora por nós recuperado, atendendo à sua importância para todos aqueles que, sobretudo, desenvolvem pesquisa e investigação no âmbito da História.
Destacamos, no seu conteúdo, as características apontadas ao género, assim como a "contra-argumentação" do historiador perante as mesmas. E atendendo a possíveis limitações, as propostas avançadas para o seu colmatar.

(HESPANHA, António Manuel- "0 género biográfico em curso". In: História. Nº 41. Ano XXIV (III Série). Janeiro 2002, p. 16-17).

O GÉNERO BIOGRÁFICO EM CURSO

"Nos últimos tempos, a biografia ficou de moda em Portugal. Os méritos da novidade vão para um grupo de companheiros de ofício, de inspiração relativamente consistente, com referências culturais também bastante partilhadas e todos eles comungando, se não me engano, de um certo desfastio pela história chamada estrutural. Em comum têm também a escrita sedutora e um bom conhecimento, pelo menos ao nível que lhes interessa, do período sobre que trabalham. Vasco Pulido Valente (...) talvez tenha sido o detonador da corrente. A "teorizadora" tem sido Fátima Bonifácio. Os "operacionais" são vários (...).
Na teorização desta história biográfica, a que também chamam "política", ressaltam sobretudo duas ideias-chave. Uma delas é a recusa de esquemas interpretativos "fortes", daqueles usados pelos cientistas sociais dos vários matizes, substituíndo-os por uma interpretação "evidente" (pelo menos, de "senso comum"), do género daquela que nós usamos para nos orientarmos na vida. O que, sendo pacífico para nós interpretarmos a vida de hoje, é bastante mais problemático para interpretarmos a vida de há muitos anos. Os nossos filhos sabem disso quando procuram entender os pais; e nós próprios o sabemos também quando temos a sorte de ainda tentar entender os nossos. Na minha opinião, por detrás da "evidência" de alguns enredos, podem esconder-se retroprojecções da sensibilidade de hoje. E isto, já se vê, tem perigos graves.
A outra ideia-chave do nóvel biografismo é a de que são os homens concretos- e não os desenvolvimentos anónimos das "estruturas"- que modelam a história. Mas como não são muitos os homens que estão em condições de modelar a história- pelo menos, a história de um país-, quem acaba por interessar a esta corrente historiográfica são os "grandes homens", nomeadamente os "grandes políticos". A teorização disto foi explicitamente feita, se não me engano, por Fátima Bonifácio.
A "grande biografia" exige, em princípio, um "grande biografado" (pressupondo, naturalmente, que é escrita por um grande biógrafo). Na sua falta, a biografia transforma-se num acto de cruel assassinato de um personagem, sempre confrontado com o personagem ideal que nunca foi, que nas condições não poderia ter sido e que porventura nem sequer quis ser. (...)
Não quero com isto dizer que a história tenha que ser épica, sobretudo se não há conspícuos heróis a celebrar. Mas também não tem que cultivar um sobranceiro desprezo, quando não pode lidar senão com miúda gentinha afadigada com a sua caseira gestinha. Sobretudo porque glorificar ou desprezar são atitudes moralistas que me parece não caberem bem na deontologia do historiador. Para além de que, no mínimo, implicam um confronto sem sentido entre países modelos (a Inglaterra, a Prússia, a França) e países medíocres (designadamente Portugal).
Daí que- voltando um pouco atrás- se não se encontra matéria prima para biografias de grandes homens, talvez se deva repensar na hipótese mais tradicional de investigar a vida dos outros homens, traçando os tais grandes frescos sociais- que, necessariamente, haverão de ser informados por algum modelo interpretativo geral-, de onde resultem os grandes cenários (económicos, culturais, institucionais, jurídicos) em que os homens- pequenos e grandes- se movem. A política também deve fazer parte disto. Mas reduzida à sua dimensão de peça de um políptico, e não alcandorada à dignidade de única disciplina histórica válida, como tem sido variamente proposto.
Voltemos aos dias de hoje e à história que deles pode vir a ser feita. Imaginem, por um momento, que a história dos dias de hoje vinha a ser a história (política) dos nossos políticos. Demos de barato que, pelo menos os mais evidentes, sejam todos eles heróis dos tais a quem uma grande biografia não fica folgada. Essa colecção de grandes biografias- ou a história do enredo das suas relações- esgotaria a história das nossas vidas? Ou seria sequer uma minimamente adequada introdução ao nosso tempo? Diria alguma coisa sobre a vida real das pessoas reais no nosso país? Neste sentido, não me parece que os tão citados ditos de Brecht sobre os actores da história tenham caído com o muro de Berlim".

(Sublinhado nosso)

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dezembro 25, 2003

ORIGENS DO CRISTIANISMO PORTUGUÊS: referência bibliográfica para o seu estudo

Continuando a divulgação de trabalhos do Dr. Moisés Espírito Santo, apresentamos desta vez (com igual compromisso de desenvolvimento de conteúdo posterior) um estudo onde é dada atenção às origens do Cristianismo no território que hoje é Portugal. É ele:

ESPÍRITO SANTO, Moisés- Origens do Cristianismo Português. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões, [1993].

Este conteúdo referenciado em título é antecedido pelo "Tratado sobre a deusa Síria por Luciano", com apresentação, tradução e notas do autor.

Publicado por sandra em 07:43 PM | Comentários (1) | TrackBack

A RELIGIÃO POPULAR PORTUGUESA: referencias bibliográficas para o seu estudo

Da autoria do Dr. Moisés Espírito Santo, dois importantes trabalhos para um melhor conhecimento e estudo daquelas que são as origens e características da Religião Popular Portuguesa.
Comprometendo-nos de que, em posts posteriores, pormenorizaremos os seus conteúdos, deixamos neste, somente, as referências bibliográficas. São elas:

- ESPÍRITO SANTO, Moisés- Origens orientais da religião popular portuguesa seguido de Ensaio sobre a toponímia antiga. Lisboa: Assírio & Alvim, 1988.

- ESPÍRITO SANTO, Moisés- A religião popular portuguesa. 2ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 1990.

Salientamos que estes dois estudos resultam não só de sínteses bibliográficas mas de um aturado trabalho no terreno desenvolvido pelo autor. Inserem-se ambos no "capítulo" da História da Cultura e das Mentalidades, que valorizamos igualmente neste blog.

Publicado por sandra em 06:49 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 24, 2003

O "FENÓMENO FÁTIMA": o "Bispo de Fátima"

Individualidade importante em todo o fenómeno relacionado com Fátima, D. José Alves Correia da Silva, é uma figura que merece destaque. Bruno Cardoso Reis apresenta-o com maior pormenor, por isso a consideração da "caixa" intitulada "O "Bispo de Fátima".
Fica assim a edição do seu conteúdo.

O "BISPO DE FÁTIMA"

"O primeiro bispo da diocese restaurada de Leiria, D. José Alves Correia da Silva (nomeado em 15.5.1920), inicia o governo da diocese em 4.8.1920), foi o grande promotor e gestor da expansão e da organização do culto de Fátima, e do planeamento e da construção do santuário que lhe dá corpo. Formado em Teologia por Coimbra, professor do seminário do Porto (1897-1920) e cónego da Catedral, e nisso figura típica da sua geração no episcopado, aos 48 anos, e depois de haver estado algum tempo antes em Lourdes, veio a assumir a chefia de uma nova diocese, com os desafios e as expectativas que isso implica, e em que certamente o maior era o da gestão da questão de Fátima. Ainda que só a partir de 13 de Maio de 1984 os seus sucessores se passassem a intitular oficialmente bispos de Leiria-Fátima, foi ele realmente o primeiro a merecer esse título, pelo seu prolongado governo da diocese- 38 anos!- durante todo o período de formação e consolidação do santuário. Faleceu em 1958".

(História. Nº 29. Ano XXII (III Série). Outubro 2000, p. 22)

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O "FENÓMENO FÁTIMA": alguns protagonistas

Dando continuidade à edição do texto de Bruno Cardoso Reis intitulado "Os primeiros cinquenta anos de Fátima", cuja última das partes por nós apresentada se verificou no passado dia 6, trazemos aqui hoje o conteúdo inerente à "caixa" "Alguns protagonistas". Nesta, é avançada informação mais detalhada sobre as crianças videntes: Jacinta, Francisco e Lúcia.

ALGUNS PROTAGONISTAS

Os videntes Jacinta (11.3.1910-20.2.1920) e Francisco (11.6.1908-4.4.1919)

São irmãos, e primos de Lúcia. Vivem no lugar de Aljustrel, freguesia de Fátima, concelho de Ourém. Dos relatos contemporâneos surge uma dupla imagem, de crianças normais do seu meio que gostam de brincar com as demais, mas muito marcadas pela educação religiosa, a única que receberam. Pertencem a famílias de pequenos proprietários remediados, o que nas terras pobres daquela zona significa algo acima do limiar da sobrevivência, eventualmente ricas em terras, animais e frutos, mas não em dinheiro. Os jovens trabalhavam já para os pais no pastoreio, o grande recurso face aos solos pobres e agrestes da região. Só o rapaz tem uns rudimentos de alfabetização; as raparigas não têm escola na freguesia. Ouviram relatos dos milagres bíblicos nos serões familiares, assim como de aparições mais recentes, têm na devoção pelo terço o elemento central da sua piedade, e nas procissões, o grande momento da vida religiosa local. Durante as aparições revela-se a liderança natural de Lúcia, e afirma-se a determinação dos jovens em defender a sua visão face a todo o tipo de pressões. Os dois mais novos morrem poucos anos após o fim das aparições.

A vidente Lúcia (28.3.1907)

A mais velha dos três videntes, Lúcia, aos 14 anos decide ingressar no Asilo do Vilar, das Doroteias, indo depois iniciar o noviciado em Tui. Por decisão sua? Bem mais jovem mostrou-se bastante determinada e, sem o apoio da família, que temia o escândalo, e do seu pároco, que não queria comprometer-se, enfrentou as autoridades e as penalidades que lhe eram prometidas. Não custa a crer, tendo em conta o seu percurso- e desde logo o facto de ter ouvido a Senhora a mandar-lhes aprender a ler-, que aconselhada por figuras do clero com que entretanto passou a contactar, o passo tenha sido desejado como a concretização de uma vocação, de um sonho de uma miúda do campo profundamente devota e desejosa de educação. Só em 1935, já retirada no Carmelo de Coimbra (onde ainda hoje reside), ela retoma algum protagonismo no processo de Fátima ao começar a escrever, por ordem do prelado leiriense, novos relatos das aparições. Talvez tomada pelo gosto da escrita, ou porque acreditava ver agora mais claramente o que em 1917 lhe parecia confuso, desenvolve o que então contou e regista por escrito. Estes factos criam do ponto de vista da análise histórica o problema da coerência do relato. Os diálogos entre os videntes e a Senhora registados nos inquéritos originais passam a aparecer intercalados com falas que não constam inicialmente e que contrariam inclusive o que então ficou dito (...)".

(História. Nº 29. Ano XXII (III Série). Outubro 2000, p, 21)

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dezembro 23, 2003

REVOLUÇÃO E NIILISMO HISTÓRICO- CITAÇÃO

"A revolução dos princípios assassina Deus na pessoa do seu representante. A revolução do século XX suprime o que de Deus ainda subsistia nos próprios princípios e consagra o niilismo histórico. Sejam seguidamente quais forem os caminhos escolhidos por esse niilismo, a partir do instante em que ele pretende criar qualquer coisa no século, fora de todas as regras morais, tem de construir o templo de César."

(Albert Camus- O HOMEM REVOLTADO)

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UM SIGNIFICADO PARA A HISTÓRIA- CITAÇÃO

"O homem completo, absolutamente livre, definitiva e totalmente satisfeito com o que é, o homem que se aperfeiçoa e se completa através desta satisfação, será o Servo que "venceu" a sua Servidão. Se o Domínio ocioso é um impasse, a Servidão laboriosa, pelo contrário, é a fonte de todo o progresso humano, social e histórico. A História é a história do Servo trabalhador".

(Alexandre Kojéve- Introdução à leitura de Hegel, cit. por, FUKUYAMA, Francis- O fim da história e o último homem. 2ª ed. Lisboa: Gradiva, 1999, p. 194)

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O LUGAR DA HISTÓRIA NA SOCIEDADE ACTUAL: perspectiva de António Manuel Hespanha

Aprofundando conteúdos relacionados com citações anteriormente apresentadas, editamos um texto da autoria de António Manuel Hespanha, intitulado "Porque é que esta sociedade nos há-de querer", saído na revista História de Abril de 2002.
Neste texto o historiador debruça-se sobre aquela que deve ser a realidade do ensino da História, nomeadamente em termos universitários, assim como qual o lugar que o historiador pode ocupar no âmbito da sociedade contemporânea, designadamente ao nível da sua inserção em empresas (ao nível da indústria portuguesa).
Neste contexto de inserção renovada, especifica aquelas que são (ou devem ser) as competências de indivíduos com formação na área da História.

(HESPANHA, António Manuel- "Porque é que esta sociedade nos há-de querer?". In: História. Nº 44. Ano XXIV (III Série). Abril 2002, p. 16-17)

PORQUE É QUE ESTA SOCIEDADE NOS HÁ-DE QUERER?

"Há um par de semanas, num zapping desesperado-prospectivo, caí sobre uma entrevista do Engº Ludgero Marques, que falava sobre o Estado que era o do país, antes das últimas eleições.
Para além de que gosto de ouvir a sociedade civil, alimento a presunção de que este empresário nortenho (...) sabe o que diz, pela simples razão de que se trata de uma pessoa que julgo ter construído uma sólida fortuna com o seu trabalho. Daí que o ouça com atenção.
Quando o apanhei, ele falava do ensino, que está mal, como toda a gente o sabe (embora não me pareça que toda a gente saiba porque é que está mal e, muito menos, como é que pode ficar bem). O engenheiro dizia, para além de outras coisas correntes, uma coisa que, embora muito me pese é bastante verdade. Que a universidade estava mal porque estava na mão dos "sábios". Com "sábio" queria ele designar uma espécie que todos nós conhecemos (se não é que quase todos nós somos mesmo): pessoas que antepomos a lógica da ciência (ou o que pensamos ser isso) à lógica dos usos sociais da ciência. E que, por isso, desenhamos programas, cursos, pós-graduações, mestrados e doutoramentos (que, agora, vai dar quase tudo ao mesmo) sem ter na menor conta aquilo que a sociedade (disse, a sociedade, não disse o mercado) realmente pede (ou não pede, mas devia pedir, se desculparem o vanguardismo...).
Mas o Engenheiro disse mais. Disse que o mal é que estes sábios se estavam a preparar sofisticadamente para o futuro, quando a nossa sociedade ainda nem era do presente. E que, portanto, se devia fazer um downgrade das pretensões científicas e, em vez de trabalhar sobre semi-condutores, trabalhar sobre correias de transmissão e rodas dentadas (ele não disse isto assim, mas este era o espírito geral da coisa).
Claro que o Engº Ludgero Marques (...) tocou num ponto sério. A indústria portuguesa está antiquada. Parece que ele não crê que se possa modernizar tão depressa (...). E daí que, muito realisticamente, acha que o melhor é pôr as universidades e a investigação no mesmo passo da indústria. Que a primeira proposição é uma injustiça para com muitos empresários (a começar, porventura, por ele próprio), parece-me evidente. Que alguma coisa tem que ser feita para formar gente para uma indústria que é o que é, também é claro. Mas que isso implique que a universidade e ciência (?), no nosso país, devam eleger isso como seu objectivo maior é, para dizer o menos, uma irresponsabilidade.
O que é que isto tem a ver com a história?
Não, por certo, louvar as vantagens da arqueologia industrial, embora muita dessa tal indústria a que Ludgero Marques se refere deve ser preservada apenas para fins museológicos, incluindo no museu as instalações e as relações de trabalho correspondentes.
Mas tem a ver com uma pergunta mais fundamental para nós. Será que a história é um dos tais luxos a sacrificar às necessidades da sociedade? Ou, restringindo mesmo mais (para evitar qualquer espécie de "cultismo"), do mercado?
Não estou, por outras palavras, a falar de historiadores para museus, para arquivos, para dar aulas. Nem estou a falar no enorme campo de trabalho que as ideias de protecção do património trouxeram aos arqueólogos nesta nova maré fontista. Não. Estou a falar, carrément, da utilidade genérica dos historiadores como gestores e prospectores das relações sociais, ao nível dos serviços e das empresas.
Se é alguma coisa, o historiador é um técnico dos homens e dos tempos. Combinando, dos homens nos tempos, nas situações mutáveis das vidas e das sociedades. Disso, viu o historiador muito. E, se não esgotou a sua curiosidade (ou não foi convidado a isso pelos seus formadores) num mero saber passadista e descritivo, deve ter ideias, pressentimentos, sensações, sobre muitos modelos de sociedade, muitos modelos de cultura, muitos modelos de comportamento humano e muitos modelos de relacionamento de todos os anteriores modelos. Como sabe muito sobre o passado dos homens, o historiador tem um material notável para, sobre ele, fazer elaborar a imaginação e a inteligência. Uma imaginação e uma inteligência, ambas prospectivas, voltadas para o futuro, para aquilo que há-de ser, mas que os empresários, frequentemente, não sabem ler nos seus saberes técnicos, da terceira, da segunda ou ainda mesmo da primeira geração industrial.
Numa época de pluralismo sócio-cultural e de mudança imprevisível como a nossa, esse saber é de capital importância para o tecido empresarial, contar com estes técnicos da inteligência e da imaginação sobre o humano pode ser fundamental. Não me refiro apenas às vantagens da sua presença nas equipas de planeamento estratégico. Refiro-me também à importância que podem ter a escalões menos altos, ao nível da gestão corrente das relações humanas (no âmbito da empresa, com o mercado) ou das relações com a sociedade e com o homem.
E a prova provada disto é a tendência verificada, também em Portugal, para o aumento da procura de historiadores para o desempenho de perfis profissionais que nada têm a ver com a história.
Claro que, para isto, algo se tem que fazer na formação dos historiadores. A liquidação do mau positivismo (...), a habituação trans-cultural, a percepção de constantes na evolução, a capacidade de extrapolar com agilidade do passado para o presente- usando o passado, não como um modelo, mas como uma chispa da imaginação prospectiva-, a sensibilidade para as especificidades e constrangimentos das conjunturas, tudo isto são valores a cultivar no ensino da história, dirigido a estas novas funções. Valores que, bem vistas as coisas, são funcionais mesmo em relação às rotas palmilhadas por Clio".

(Sublinhado nosso)

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dezembro 22, 2003

A CIVILIZAÇÃO ISLÂMICA VISTA POR CLÁUDIO TORRES. ENTREVISTA (5)

Concluímos hoje a edição da entrevista ao arqueólogo Cláudio Torres. Nesta parte restante são dadas respostas a:

15. Voltando à ciência e ao conhecimento. Há um florescimento extraordinário da ciência, da própria filosofia, do estudo, de uma convivência do livre pensamento até ao século XIV. E depois parece que há um corte. As grandes figuras, Averróis, Avicena, Ibn Khaldun, os grandes viajantes, o Ibn Battuta, são todos até ao século XIV. Depois parece que há um corte...

16. Está a falar das repúblicas marítimas veneziana, genoveza, Amalfi, etc, e depois da Espanha e de Portugal... Todos vão estrangulando...

17. Isto é: enquanto há crescimento no Norte, o mundo islâmico vira-se para dentro...

18. Só que diante desse ataque há muita coisa que se vai perdendo. Por exemplo, o velho conceito de cidade-mosaico mediterrânica está praticamente destruído...

19. A queixa permanente que se ouve um pouco por todo o lado é que os árabes não se unem. E a verdade é que olhando a história, vemos sempre muitos conflitos.

ENTREVISTA COM CLÁUDIO TORRES

15. Voltando à ciência e ao conhecimento. Há um florescimento extraordinário da ciência, da própria filosofia, do estudo, de uma convivência do livre pensamento até ao século XIV. E depois parece que há um corte. As grandes figuras, Averróis, Avicena, Ibn Khaldun, os grandes viajantes, o Ibn Battuta, são todos até ao século XIV. Depois parece que há um corte...

E há. Temos de ver que todas essas e muitas outras figuras são os últimos representantes da cultura mediterrânica. A sua base filosófica vai beber a Aristóteles, a Platão. Eles foram os herdeiros de toda a cultura milenar do Mediterrâneo. Dos grandes sábios do Egipto que hoje conhecemos mal ou que desapareceram. Toda a ciência do Egipto, da Mesopotâmia, grega, latina, está neles condensada. Não só a conhecia, como foram os seus tradutores para o árabe, de onde passou depois para as línguas latinas ou neolatinas. Eles são o repositório desse passado. De certa forma, estes sábios marcam o final da sua própria civilização e o lançamento de uma ponte para a Europa moderna. E de facto é nas cidades-Estado, nas repúblicas italianas, que surge essa viragem. Ainda fortemente ligadas ao mundo do Sul, ao mundo islâmico, estão também em contacto com uma nova riqueza e muito poder que chega das extensas e fartas planícies europeias. A partir dos séculos XIII-XIV, esta Europa feudal já impulsionada pela burguesia nascente, expande-se para Sul. É o que sucede na França e na Península Ibérica. Na altura, era no al-Ândaluz que florescia a civilização mais avançada da sua época. Não há dúvida que esta civilização brilhante foi sendo integrada e assimilada pelos recém chegados do Norte, o que justifica a importância histórica da Península Ibérica nos tempos que se vão seguir. Era impensável de outra forma. A expansão europeia não acontece em Londres ou Paris e sim nas orlas do Sul, em Sevilha ou Lisboa, cidades que herdaram os saberes mediterrânicos.
Mas também é preciso notar que a lógica económica dos mercados mediterrânicos estava a esgotar-se. Eram cada vez mais difíceis os caminhos da seda, do ouro e das especiarias. E a nova Europa, enriquecida com os saberes mediterrânicos precisa de expansão rápida, tem necessidade de atingir os grandes mercados do Oriente. Não é por acaso que andam todos em busca do caminho para a Índia. Os percursos do interior estavam esgotados. Havia um certo marasmo, as mercadorias chegavam a preços altíssimos. De repente há uma explosão, em que a parte mais dinâmica da sociedade, a burguesia mercantil- muitos deles antigos muçulmanos ou judeus convertidos à nova ordem- se lançam na aventura marítima, na conquista de todo o mundo. É uma época em que a Europa é inundada de grandes riquezas vindas do saque de outros continentes, levando à marginalização das antigas redes comerciais mediterrânicas e portanto ao empobrecimento dos países islâmicos.

16. Está a falar das repúblicas marítimas veneziana, genovesa, Amalfi, etc, e depois da Espanha e de Portugal... Todos vão estrangulando...

Vão estrangulando. Estes centros de expansão comercial marítima, tinham consolidado a sua rectaguarda. É o caso de Veneza com as planícies riquíssimas do Veneto que a rodeiam a Norte. É uma espécie de gigantesco anfiteatro com águas correntes dos Alpes... Assim como Génova, apertada entre as rochas do seu porto... e que no entanto domina um vasto território, com as planícies do pó e as ilhas da Córsega e Sardenha. De antigas cidades-Estado, passam a poderosos Estados modernos. A constituição destas nações ibéricas e italianas, com vastos territórios e viradas para o comércio mundial vai desviar e secundarizar os circuitos antes dominados por Alexandria, Damasco ou Bizâncio.

17. Isto é: enquanto há crescimento no Norte, o mundo islâmico vira-se para dentro...

Vai enquistando. E é um processo que continua até aos nossos dias. A grande expansão começara nas repúblicas italianas, e depois prossegue pelas Descobertas ibéricas. Mas a pendulação histórica tem muitas variantes. Nunca sabemos qual poderá vir a ser no futuro um outro pólo de desenvolvimento. A África, as Ásias, a própria América do Sul, são zonas que ainda não tiveram historicamente a sua oportunidade de serem pólos agregadores de civilizações. Aquilo que se vai construindo passa-se como um testemunho a outras civilizações, a outros espaços.
Quanto ao Islão, à religião muçulmana, continua em expansão. E este é um facto indesmentível. É a única grande religião que mantém uma grande e rápida expansão. Pela sua espantosa simplicidade, pelos seus mecanismos de reconhecimento quase não-iniciáticos, toca muito fundo os mais desprotegidos, os mais explorados, os mais marginais. A grande marginalização que está a ser feita pela nossa civilização ocidental, a empurrar os que não vencem, a esmagar os mais fracos, a atirar para o lixo milhares ou milhões de pessoas e de povos, está a alimentar o Islão na sua faceta de protesto, de porto de abrigo, de defesa contra uma agressão cada vez mais violenta. Um Islão que era um imenso mosaico de povos, de culturas, de formas de ser, mesmo de micro-religiões, está a ser empurrado pelo autismo desta nossa civivilização todo-poderosa para uma agressiva resistência, como única de forma a manter alguma identidade.

18. Só que diante desse ataque há muita coisa que se vai perdendo. Por exemplo, o velho conceito da cidade-mosaico mediterrânica está praticamente destruído...

Pois está. Mas aí entra um outro fenómeno dramático que aconteceu já há 50 anos, que foi a criação de Israel. Não podemos acusar os judeus ou o judaísmo. Foram os grandes interesses financeiros já ligados ao petróleo que criaram o Estado de Israel. Os judeus das cidades mediterrânicas que tinham os seus bairros, os velhos melahs (que eram zonas originalmente dedicadas ao comércio do sal), foram obrigados a abandonar as suas casas e a emigrar para Israel com promessas miríficas.
Esta deslocação artificial de populações e a crescente e falsa tensão religiosa alimentada de fora do Mediterrâneo é infelizmente hoje o modelo que domina toda a região. Esta luta feroz entre as populações autóctones e os recém-chegados, oriundos da América do Norte ou de países eslavos, nascidos e criados em culturas que nada têm a ver com os antigos equilíbrios locais, é hoje, infelizmente, dominante em todo o Próximo Oriente. Estamos num impasse sem solução à vista. Precisamente porque foi quebrada a velha civilização mediterrânica, onde as várias religiões e culturas sempre conviveram mais ou menos pacificamente.

19. A queixa permanente que se ouve um pouco por todo o lado é que os árabes não se unem. E a verdade é que olhando a história, vemos sempre os mesmos conflitos.

O problema é que nós misturamos tudo de uma forma muitas vezes inconsciente. Não se trata de árabes, mas de muçulmanos. Falar assim da união de árabes é a mesma coisa que estarmos a perguntar porque é que os franceses, os ingleses e os espanhóis não se uniram na história, se eram todos cristãos. É completamente impossível: são civilizações diferentes. Cada cidade tinha a sua própria história. O que é que tem a ver um egípcio com um libanês? Muito pouco. E um egípcio com um marroquino? Nada, absolutamente nada, a não ser a mesma religião. São povos e culturas diferentes. O que hoje os une é apenas a religião, o que a está a transformar no único cimento unificador. Não nos podemos esquecer que o árabe falado em Marrocos era incompreensível no Egipto, não se entendiam porque falavam árabes dialectais. Era como aqui na Europa. Porque é que um português e um francês não se entendem? A origem é o latim, mas depois evoluíram de forma diferente. A mesma coisa sucedeu no Norte de África.
Mais tarde e com objectivos políticos, começou a ser imposto o árabe clássico. Era a mesma coisa se nós na Europa tivéssemos o latim obrigatório. Teria toda a gente de aprender latim para comunicar entre si. Foi o que fez este movimento unificador religioso do árabe, que está a aumentar exponencialmente. Neste momento, toda a gente fala árabe clássico, pelo menos na classe média alta. A escolarização é feita em árabe clássico, corânico.

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DO CONGRESSO DOS COMBATENTES AO MOVIMENTO DOS CAPITÃES: o princípio de uma ampla mobilização

Com este post terminamos a edição do texto principal de Maria Inácia Rezzola. As "caixas" nele incluídas serão ainda alvo de apresentação.
No ponto em anexo temos como ideia norteadora: a evolução da justificação da existência do Movimento dos Capitães.
Se inicialmente este se formou, mobilizado por questões de ordem corporativa, com a sua crescente politização, logo a questão da guerra e o problema colonial assumiram um papel crescente. Nesta sequência, a própria decisão de derrube do governo.
A autora destaca ainda, por forma a complementar este panorama condutor ao Golpe de Estado, a síntese elaborada por José Medeiros Ferreira, que acrescenta: as demissões dos generais Costa Gomes e António de Spínola, o apoio dos velhos generais a Marcelo Caetano (conhecido episódio da "Brigada do Reumático"), assim como razões de ordem económica: choque petrolífero e desvalorização do escudo.

DO CONGRESSO DOS COMBATENTES AO MOVIMENTO DOS CAPITÃES

O princípio de uma ampla mobilização

"A 28 de Agosto, por exemplo, 51 oficiais em comissão de serviço na Guiné enviam a várias individualidades (Presidente da República, Presidente do Conselho e Ministro da Defesa e Exército) uma exposição em que se dizem "feridos no seu prestígio" profissional. Seguem-se idênticos documentos de oficiais de Angola e Moçambique. Era o princípio de uma ampla mobilização que levará nomeadamente a que, nos primeiros dias de Setembro, seja distribuída em algumas unidades uma circular equacionando as questões básicas com que os oficiais de carreira se confrontam, e apelando ao desenvolvimento de contactos e ao aprofundamento da reflexão sobre que atitude tomar. "Estavam criadas as condições para que o "Movimento dos Capitães" surgisse como expressão concreta e organizada de um processo que tomava foros de prova de força entre os oficiais mais jovens e o próprio Governo". É neste contexto que, a 9 de Setembro, Diniz de Almeida, Vasco Lourenço, Simões, Camilo e Bicho Beatriz promovem a realização de um encontro, em Alcáçovas, de 136 oficiais, com o objectivo de preparar um acto de repúdio ao governo que o obrigasse a reconsiderar a sua posição e a rever os diplomas. Uma reunião agitada, com fortes debates, nomeadamente quanto às acções de protesto a desenvolver, que acabará por marcar o início simbólico da conspiração dos capitães. No final, acorda-se enviar um abaixo-assinado a Marcelo Caetano manifestando os seus protestos e esperando a rápida anulação dos decretos-lei.
Por tudo isto, é fácil concluir que a mobilização em torno do Movimento dos Capitães apresenta características bem diversas das verificadas quando do Congresso dos Combatentes. Antes de mais, porque os spinolistas são ultrapassados em todo este processo; depois, porque esta mobilização é ditada, em última análise, por razões estritamente corporativas. Os próprios resultados do encontro em Alcáçovas apontam nesse sentido. Depois de grande debate, em que são discutidos os problemas da classe e as consequências da aplicação da nova legislação, chega-se a uma plataforma de entendimento quanto ao próximo passo a dar: enviar um abaixo-assinado a Marcelo Caetano pedindo a revogação dos decretos-lei. Isto leva-nos a concluir que na origem da mobilização dos jovens capitães estão, sem dúvida, questões profissionais, e a concordar com Medeiros Ferreira quando caracteriza a primeira fase do movimento conspirativo como sendo uma fase essencialmente corporativa. Diniz de Almeida reforça esta nossa tese ao observar que a "recusa da guerra colonial, como facto mobilizador, ainda que fosse inicialmente possível, contaria exclusivamente com o apoio minoritário, embora valioso, dos oficiais operacionais mais progressistas". Assim, as questões profissionais e do prestígio da instituição acabarão por funcionar como elementos congregadores e unificadores para uma classe claramente despolitizada e pouco dada a actos de insubordinação, permitindo progressivamente o alargamento do movimento contestarário.
Refira-se, no entanto, que apesar de terem sido razões corporativas que levaram à mobilização e criação do Movimento dos Capitães, ele resistirá à própria suspensão dos decretos e à exoneração do Ministro do Exército e da Defesa, em Outubro de 1973. De facto, a vastidão do protesto impedira qualquer medida repressiva levando o governo a optar pelo recuo em todas as frentes. A prova mais óbvia de que o regime acreditava na natureza puramente corporativa do movimento de contestação reside no facto de, em finais do ano, prometer uma melhoria substancial dos vencimentos dos militares. Era já tarde. Nesse momento o Movimento evoluíra deixando as iniciais reivindicações de carácter corporativo de ser fundamentais. Crescentemente politizado, o Movimento tinha um outro carácter: a questão da guerra e o problema colonial passam a estar no centro das suas atenções, acabando por conduzir, posteriormente, à própria decisão de derrubar o regime. Os autores são unânimes a este respeito.
Sánchez Cervelló, por exemplo, é peremptório em afirmar que "o golpe de Estado de 25 de Abril de 1974 teve como motivo essencial a resolução da questão colonial". Posição semelhante é a de António Reis, para quem o 25 de Abril foi "uma revolução autonomamente dirigida por militares com o objectivo prioritário de encontrar uma saída política para o impasse colonial", considerando que, em última análise, a contestação corporativa dos primeiros momentos "acabou por se revelar um mero pretexto para acelerar e cimentar um processo de contestação à política colonial do regime". Em suma, sintetiza José Medeiros Ferreira, numa análise global que tem em conta estes e outros factores fundamentais na queda do regime marcelista: "como circunstâncias detonadoras do derrube do regime político, havia o cansaço da guerra por parte dos oficiais das Forças Armadas, a alteração das regras de acesso à carreira militar, a constituição do MFA, o mal- estar provocado pelas demissões dos generais Costa Gomes e António de Spínola da chefia do Estado-Maior General das Forças Armadas (...), a cena palaciana da "brigada do reumático" com os velhos generais do regime em apoio de Marcelo Caetano e, para os cultores das razões económicas, o clima gerado pelo já referido choque petrolífero do ano de 1973, com a subida do preço do barril de petróleo e a consequente desvalorização do escudo".

(p. 42-43. Sublinhado nosso)

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DO CONGRESSO DOS COMBATENTES AO MOVIMENTO DOS CAPITÃES: fraqueza do regime

Retomamos a edição do texto de Maria Inácia Rezzola, intitulado "Do congresso dos combatentes ao movimento dos capitães", cuja última parte foi apresentada no passado dia 06.
No ponto que hoje se acrescenta (dando continuidade ao texto) são de destacar a publicação do Decreto-lei nº 353/73, de 13 de Julho e Decreto-Lei nº 409/73, de 20 de Agosto, causadores de descontentamento e instabilidade em/entre alguns daqueles que por si eram atingidos.
Seriam, pois, para alguns, mais uns contributos para o desenvolvimento do Movimento dos Capitães.

DO CONGRESSO DOS COMBATENTES AO MOVIMENTO DOS CAPITÃES

Fraqueza do regime

"Paralelamente, assinale-se que todo este episódio deixa inequivocamente transparecer a fraqueza do regime. Isto porque, apesar da mobilização desse grupo de oficiais do Quadro Permanente e do consequente esvaziamento do Congresso, o poder não reage, num sinal evidente de que o terreno era propício a futuras mobilizações e iniciativas.
Finalmente, refira-se que Congresso dos Combatentes oferece o pretexto para uma acção política colectiva, isto é, apesar de lhes ser interdito regularmente, os oficiais apercebem-se na importância de assumir atitudes colectivas e da sua possibilidade. Consciencializados acerca da necessidade de se unir e debater os seus problemas, nomeadamente os decorrentes da guerra, muitos oficiais começam a pensar na forma de se organizar, colocando-se perante o dilema de aderir a organizações já existentes, ou, em alternativa, criar uma associação nova na qual se sentissem verdadeiramente representados. O surgimento dos célebres decretos-lei do Verão de 73 acabará, no entanto, por alterar o rumo dos acontecimentos levando a que, apenas indirecta e marginalmente, o factor guerra contribua para a mobilização da oficialidade.
De facto, em resposta à necessidade de quadros para continuar o esforço de guerra, a 13 de Julho de 1973 é publicado o decreto-lei nº 353/73, que permite a passagem dos oficiais do Quadro Especial de Oficiais (QEO) aos quadros permanentes das armas de infantaria, artilharia e cavalaria, mediante a frequência de um curso intensivo na Academia Militar. Em última análise, alterando a contagem da antiguidade dos milicianos que optassem por ingressar no Quadro Permanente, e reduzindo a duração do curso da Academia para os milicianos, a aplicação deste decreto significava uma radical mudança na progressão da carreira até aí praticada, favorecendo os milicianos em detrimento dos oficiais oriundos de cadetes. A reacção destes últimos era inevitável: o decreto-lei 353/75 retirava-lhes alguns dos privilégios adquiridos, e reconhecidos, pelo facto de terem frequentado a Academia Militar e de serem oficiais de carreira. Em última análise possibilitava-se que os milicianos ultrapassassem os oficiais de carreira.
Não é pois de estranhar que Otelo Saraiva de Carvalho considere o diploma como o "verdadeiro rastilho para a criação do Movimento dos Capitães", comparando o decreto-lei nº 353/73 a uma "pequena bola de neve que, rolando, daria lugar à avalancha e à queda de um regime ditatorial de direita, velho de quarenta e oito anos (...). Os jovens leões rugiram, manso a princípio. Ganhando consciência da sua força foram deitando as garras de fora e, rugindo mais forte, lançaram-se ao ataque. A partir daí, quem poderia realmente travar o seu desenfreado golpe?"
Em termos práticos, uma das primeiras iniciativas de contestação foi a levada a cabo pelo capitão Morais da Silva ao elaborar uma exposição-tipo de protesto. A adesão ao documento transcende todas as expectativas. Inquietos com esta reacção, os oficiais oriundos de milicianos fazem divulgar dos documentos atacando os primeiros ("Estagnação ou progresso" e "Dos Espúrios aos puros"). No entanto, consciente dos perigos que a situação encerrava, o próprio regime será obrigado a recuar.
De facto, a 14 de Agosto, discursando na Escola Prática de Infantaria, Sá Viana Rebelo admite terem-se verificado algumas situações que não estavam previstas na aplicação do decreto-lei. Dias depois é publicado o decreto-lei nº 409/73 (de 20 de Agosto) que dó nova redacção aos artigos 3 e 6 do decreto-lei 353/73. No entanto, e apesar desta rectificação solucionar o problema da ultrapassagem dos oficiais superiores (majores), a injustiça relativamente aos capitães e subalternos do quadro permanente mantém-se. Por outro lado, a questão do prestígio da instituição também não é resolvida. Neste contexto, ao invés de acabar com a contestação, o diploma rectificativo contribuirá grandemente para a adensar."

(p. 41-42. Sublinhado nosso.)

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LEITURA(S) PARA OS DIAS DE HOJE. O LUGAR DA HISTÓRIA: considerações de António Manuel Hespanha

Na sequência de um excerto ontem editado (citação do autor)- que corresponde, aliás, ao 1º parágrafo do texto hoje apresentado-, deixamos para consulta o artigo integral de António Manuel Hespanha, intitulado "Para ler os tristes dias de hoje".
Publicado na revista História de Maio de 2003, chama o seu conteúdo a atenção, num contexto internacional de guerra, para aspectos ou regras que devem ser atendidos e seguidos pelos historiadores, no sentido de explicarem acontecimentos verificados nos dias de hoje.
Especificando situações que se encontram directamente relacionadas com contextos de conflito armado, não deixa o autor de alargar o seu âmbito para aquela que é a generalidade da compreensão de civilizações diferentes da ocidental.
Neste sentido, as abordagem feitas desenvolvem as seguintes problemáticas:

1. A crítica das fontes.
2. A diferente notoriedade da verdade "dos factos".
3. A questão da diferença.

(HESPANHA, António Manuel- "Para ler os tristes dias de hoje". In: História. Ano XXV (III Série), nº 56, Maio 2003, p. 18-19)

PARA LER OS TRISTES DIAS DE HOJE

"A história- já o escrevi aqui por demais- não é, nem a mestra da vida, nem um seguro contra o erro. Mas tem regras úteis para ler as coisas de modo menos arbitrário. Os historiadores conhecem-nas, embora em grau diverso.
A primeira diz respeito à crítica das fontes. Nem todos os documentos são "verdadeiros". A guerra sempre teve a verdade como a sua primeira vítima. As palavras, escritas, cantadas ou difundidas em briefings, sempre foram uma arma, hoje das mais temíveis e de destruição (moral) mais massiva. Por vezes a falsificação dos documentos é tão grosseira que o inimigo tem vantagem em mostrar rapidamente ("olhem como eles são mentirosos!"). Outras vezes, é mais insidiosa, legitimada por ares de serena pompa, por apresentações em Powerpoint ou por animações tecnologicamente sofisticadas. As falsificações que mais temo são as dos chamados analistas independentes com que nos brindam todas as noites. Frequen