dezembro 31, 2003

RELATÓRIOS SECRETOS SOBRE A GUINÉ COLONIAL (3)

"Cercados" é a parte que se segue do texto de Serafim Lobato. Nela, informação respeitante a ataques a Guileje.

"ESTAMOS CERCADOS POR TODOS OS LADOS"

Cercados

"O major Coutinho Lima pede para expor directamente o assunto ao general Spínola. Reticente, este aceita recebê-lo em Bissau ao fim da tarde do dia 20. "Não foi satisfeito o seu pedido de [apoio] de uma companhia, tendo-lhe sido determinado que regressasse ao COP 5, onde seria substituído no comando", acrescenta o relatório.
Coutinho Lima envia uma mensagem às companhias de Cacine, Gadamael e Guileje", "preparando a sua ida de Cacine para Guileje".
"Em 21 07h40, a Companhia de Cavalaria 8350 [Guileje] respondeu [ser] impossível cumprir o determinado no que se referia à sua colaboração no transporte do major Coutinho e Lima de Cacine para Guileje. Foi-lhe dito em 21 10h26 que o comandante da companhia seria responsabilizado pelo não cumprimento dessa ordem", pode ler-se no relatório do comando chefe. Igualmente a Companhia de Gadamael se opõe a destacar homens para levar o comandante de COP 5 para Guileje.
Às 14h15 do dia 21, é recebida, em Gadamael, a última mensagem de Guileje: "Estamos cercados de todos os lados." Seguiu-se o silenciamento das comunicações de e com o quartel. Às 05h30 do dia 22, Guileje foi evacuada.
Uma mensagem, enviada dois dias depois de Gadamael, informava que de Guileje não foi "recolhida qualquer viatura", e especificou: um camião Mercedes, quatro Berliet, três Unimog 404, 1 Unimog 411, 1 jipe, um veículo de cavalaria Fox, dois White, que teriam sido "destruídos parcialmente". Ficaram ainda no terreno, segundo a mensagem, três morteiros 81, um morteiro 10,7 cm, bem como duas bazucas de 8,9, dois morteiros de 60, três metralhadoras Breda e sete G3, que foram danificadas ou destruídas, mas sete pistolas-metralhadoras FBP ficaram para trás "não destruídas" e pelo menos quatro G3 desaparecidas.
Uma mensagem-relâmpago do comando chefe dirigida à Companhia 4734, com data do dia 22, ressaltava o seguinte: "Solicito que informe comandante CAOP 3, o coronel Ferreira Durão, que sua excelência o general comandante-chefe determinou que seja retirado imediatamente do comando do COP 5 o major de artilharia Alexandre da Costa Coutinho e Lima e mandado apresentar QG/CCFAG para efeito de auto de corpo de delito."
Entre 18 e 22 de Maio, Guileje foi bombardeada 36 vezes.
Uma mensagem de 21 de Maio descreve que o interior do aquartelamento tinha sido atingido durante uma flagelação com 200 impactos de granadas, que causaram "grandes danos materiais". Indica, nomeadamente, que foram destruídos todas as antenas de transmissões, dois depósitos de géneros, o forno da cozinha, tabancas, celeiros, arroz da população, havendo abrigos atingidos e danificados, bem como a secretaria, depósitos de artigos de cantina. Impactos houve que acertaram mesmo em valas-abrigos".

(Cont.)

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RELATÓRIOS SECRETOS SOBRE A GUINÉ COLONIAL (2)

Na continuação da edição do texto de Serafim Lobato apresentamos, agora, a parte relativa às "Restrições ao apoio aéreo". Nesta, faz-se referência a ataques a zonas muito perto de Guileje, assim como a esta mesma, as perdas sofridas, ao que se acrescentam as restrições havidas (e justificações) no que concerne a evacuações aéreas.
Destacam-se os relatórios- e excertos dos mesmos- em que tais informações se encontram.

"ESTAMOS CERCADOS POR TODOS OS LADOS"

Restrições ao apoio aéreo

"A 18 de Maio, a sul, junto à raia com a Guiné-Conacri, verificou-se uma concentração de forças guerrilheiras em redor de Guileje que apontava para uma tentativa de tomada do quartel.
Refere um relatório do comando chefe das Forças Armadas da Guiné (Repartição de Operações), assinada pelo seu chefe, tenente-coronel Pinto de Almeida, agora tornado público, que sintetiza a actividade do COP 5 (área militar que enquadrava Guileje) entre 18 de Maio e 21 de Maio de 1973, que, no primeiro dia, "durante a execução duma coluna de reabastecimento, as NO [nossas tropas] foram fortemente emboscadas por duas vezes, a cerca de dois km de Guileje, tendo sofrido um morto (comandante do pelotão de milícias de Guileje), sete feridos graves (cinco milícias do PelMilGuileje) e quatro feridos ligeiros (um miliciano do PelMilGuileje). Por falta de evacuação aérea, um dos feridos graves faleceu quatro horas depois da emboscada".
A falta de movimentação aérea não resultava de qualquer contratempo momentâneo. Eis a confissão do próprio comando chefe: "A partir de 06Abr73, o apoio aéreo no TO [território operacional] da Guiné sofreu grandes limitações impostas pelo aparecimento de foguetes antiaéreos eficazes, utilizados pelo inimigo, pelo que, no que se refere a COP 5, foi determinado, em 27Abr73, o cancelamento de evacuações a partir de Guileje e Gadamael. O apoio de fogos aéreos às forças terrestres sofreu também, a partir da mesma altura, fortes restrições."
(Os mísseis terra-ar Strella foram utilizados, pela primeira vez, a 5 de Abril, tendo atingido um avião Fiat G 91, pilotado pelo tenente Pessoa.)
O comandante do COP 5, major Coutinho Lima, enviou mensagens a alertar para a gravidade da situação. Informou que "a não satisfação do pedido de apoio de fogos, (...) bem como a não execução das evacuações" tinha causado "mal-estar no pessoal".
Às 20h desse dia 18, o PAIGC "iniciou as flagelações a Guileje". Horas depois, às 02h20, o COP 5 solicita apoio urgente, pois estava debaixo de fogo contínuo. "Foi-lhe respondido em 19 00h30- assinala o relatório do comando chefe- que a força aérea se encontrava totalmente empenhada noutra área do TO e que seria efectuado o apoio aéreo logo que possível."

(Cont.)

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RELATÓRIOS SECRETOS SOBRE A GUINÉ COLONIAL (1)

Iniciamos, com este post, a edição do texto "Estamos cercados por todos os lados", de Serafim Lobato.
Na sua parte introdutória chama-se a atenção para o esforço de combate desenvolvido pelo PAIGC por todo o território da Guiné-Bissau, com especial destaque para as zonas de fronteira, sendo isso feito com dois objectivos muito claros:

- a desmoralização dos soldados portugueses
- a conquista territorial

É dada particular atenção à ofensiva efectuada contra Guidage, unidade situada junto à fronteira com o Senegal.

"ESTAMOS CERCADOS POR TODOS OS LADOS"

"As Forças Armadas (FA) portuguesas começaram, há 30 anos, a sofrer os primeiros efeitos visíveis de desagregação na Guiné-Bissau, quando quartéis de fronteira estiveram cercados em combates prolongados e alguns foram abandonados (definitiva ou temporariamente) por efeito directo de assédios bem sucedidos de unidades guerrilheiras do PAIGC. Pela primeira vez são divulgados relatórios que permitem reconstruir a batalha de Guileje e Gadamael, que antecedeu a saída de Spínola da Guiné e o reconhecimento deste país pela ONU.
Em Maio de 1973, a guerrilha guineense efectuou 220 acções militares em todo o território da Guiné-Bissau e concentrou os seus esforços em quartéis de fronteira, visando, em primeiro lugar, a desmoralização dos soldados e, em paralelo ou posteriormente, a conquista territorial.
A 8 de Maio, o PAIGC lançou uma ofensiva concentrada de envergadura contra Guidage, unidade situada mesmo junto à linha de fronteira com o Senegal, fazendo parte de uma quadrícula militar de vários agrupamentos a norte do rio Cacheu que ia, a oeste, até Barro, sob um comando operacional único (COP 3) com sede em Bijene. Comportava unidades do Exército e da Marinha, estas estabelecidas na base fluvial de Ganturé.
Na defesa de Guidage, o comando chefe da Guiné enviou para a zona um conjunto elevado de grupos e destacamentos de tropas especiais, comandos, pára-quedistas e fuzileiros, bem como unidades de artilharia e mesmo de cavalaria. A guarnição local, quando começou o cerco, era constituída por uma companhia de Caçadores e por um pelotão de artilharia, equipado com obuses de 10,5mm- cerca de 200 homens.
Na operação de auxílio, reabastecimento e contra-ofensiva, que durou de 8 de Maio a 8 de Junho de 1973, estiveram envolvidos mais de mil homens (na maioria tropas especiais) das FA portuguesas, em terra, mar e ar, conforme assinalam os coronéis Aniceto e Carlos de Matos Gomes, no seu livro "Guerra Colonial".
As forças portuguesas tiveram 39 mortos e 122 feridos. Pelo menos seis viaturas militares de vários tipos foram destruídas e foram abatidos três aviões (um T6 e dois DO27). Só a unidade de Guidage contabilizou sete mortos e 30 feridos, todos militares. Nos cerca de 20 dias que ficou cercada, Guidage esteve sujeita a 43 ataques com foguetões de 122m/m, artilharia e morteiros. Todos os edifícios do quartel foram danificados. A unidade, que, no conjunto, teve mais mortos foi o Batalhão de Comandos: dez. Sofreu ainda 22 feridos, quase todos graves, e três desaparecidos".

(Cont.)

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dezembro 29, 2003

DIVULGAÇÃO DE RELATÓRIOS SECRETOS SOBRE A GUINÉ COLONIAL

"Estamos cercados por todos os lados"

Assim se intitula e chama a atenção, para/um trabalho de Sarafim Lobato publicado no jornal Público de Domingo (28/12/2003), que faz a divulgação, pela primeira vez, de "...relatórios secretos da batalha de Guileje e Gadamael, que dão conta de pedidos de ajuda desesperados, restrições ao apoio e evacuação por meios aéreos, fugas para o mato e "pessoal fortemente traumatizado".

Sendo que, a partir de amanhã, passaremos à sua edição integral, registamos, desde já, as partes constituintes e em que se divide o texto:

- [Texto sem título]
- Restrições ao apoio aéreo
- Cercados
- Fuga para o mato
- "Pessoal fortemente traumatizado"
- Spínola deixa Bissau

Sublinhamos a importância deste trabalho de Sarafim Lobato para aquela que é a totalidade da informação por nós editada e a editar relativa ao Portugal Colonial/Guerra Colonial, em particular, no que concerne ao território da Guiné-Bissau.

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dezembro 28, 2003

CONSIDERAÇÕES EM TORNO DO ESTUDO DAS RELIGIÕES ANTIGAS OU DAS RELIGIÕES ACTUAIS NOS SEUS TEMPOS PRIMORDIAIS: registos de Moisés Espírito Santo

Na sequência da edição do conteúdo da obra Origens do cristianismo português, da autoria do Dr. Moisés Espírito Santo registamos, agora, e conforme estipulado, as principais ideias por nós consideradas no "Preâmbulo" que daquela faz parte:

1. "Sendo a religião uma relação dos indivíduos com os entes sobrenaturais, a sua descoberta pelos métodos científicos pode ser aleatória pela ausência de indicadores, templos, cultos, objectos sacros, textos escritos. A religião só acidentalmente se deixa revelar aos profanos."

2. "A experiência religiosa é sempre difícil de traduzir em palavras e ainda mais escritas. (...). As religiões são obras do espírito, motivações de vida, conceitos abstractos de verdade, de virtude e de pecado, gestos espontâneos (...). As dificuldades aumentam à distância de dois ou três milénios com as religiões desaparecidas (...)."

3. "As religiões são sistemas de valores subjectivos. Existem em função dos crentes, por eles e para eles. Podem prescindir de qualquer forma plástica (textos, imagens, emblemas) e de comportamentos exteriores (...) e só a certos níveis se estruturam em organizações eclesiais. Para conhecer as religiões, descobrir a sua capacidade de mobilização das vontades individuais e colectivas, é necessário penetrar no seu interior."

4. "As religiões antigas teriam mobilizado multidões, exigindo a generosidade de muitos e contado imensos mártires, tal como as actuais. Se descobri-las integralmente é impossível, podemos aproximarmo-nos do seu limiar recorrendo à comparação com as religiões actuais, isto é, comparar as suas práticas com o que houver de semelhante nas religiões actuais."

5. "Um meio para explicar hoje os comportamentos religiosos do passado é o conceito sociológico de "função social", entendendo como tal a satisfação duma necessidade, a resposta à pergunta "quais são os efeitos declarados e latentes, conscientes e inconscientes que se procuram atingir com esse comportamento?"

6. "As razões expressas para os comportamentos sociais (quando as há) não são apenas supérfluas como devem ser sujeitas a ponderação."

7. "Os mitos justificativos dos cultos são construções a posterior destinadas a dar-lhes um sentido racional, são portanto irrelevantes enquanto relação causal. A Teologia é uma tentativa de racionalizar o sagrado que, por definição, é misterioso e que, portanto, participa do irracional."

8. "As fórmulas religiosas são passageiras e todas caducam."

Chamamos a atenção que cada um destes "pontos" por nós seleccionados, encontram-se desenvolvidos/explicitados ao longo do texto total do "Preâmbulo", pelo que aconselhamos a sua leitura integral, fundamental, também, para a melhor compreensão da obra a que respeita.

NOTA: Algumas destas considerações podem ser estendidas até vivências ou práticas da/na actualidade.


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ORIGENS DO CRISTIANISMO PORTUGUÊS: desenvolvimento do conteúdo

Editada que foi a referência bibliográfica:

ESPÍRITO SANTO, Moisés- Origens do cristianismo português. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões, [1993]

apresentamos, agora, aquele que é o seu conteúdo. São as seguintes as partes constituintes:

- PREÂMBULO
- A DEUSA SÍRIA, por Luciano de Samoçata
1. OS SIRIOS NO OCIDENTE
2. A MÃE DO SENHOR
3. A MAGNA MATER
4. A MÃE DOS DEUSES NA LUSITÂNIA E AS ADONIAS EM SEVILHA
5. OS PRIMÓRDIOS DO CULTO CATÓLICO DE MARIA
6. ORIGEM NORTE AFRICANA DO CRISTIANISMO IBÉRICO
7. PRIMEIRO CONCÍLIO IBÉRICO
8. PRESCILIANISMO
- CONCLUSÕES

Pela importância do "Preâmbulo" desta obra, serão apresentados alguns excertos em post posterior.

ORIGENS DO CRISTIANISMO PORTUGUÊS

PREÂMBULO

A DEUSA SÍRIA, por Luciano de Samaçota
Apresentação
Texto e notas

1. OS SIRIOS NO OCIDENTE

- A Criadora
- A Deusa Síria no Ocidente
- Os Sirios no Ocidente

2. A MÃE DO SENHOR

- Uma antiga simbólica
- Os Prantos por Tamouse- Adonis

3. A MAGNA MATER

- Mãe Castradora
- A Magna Mater conquista Roma
- Os Gallos em Roma
- Eunucos pelo Reino dos Céus
- A Magna Mater conquista o Ocidente
- Magma Mater ecuménica

4. A MÃE DOS DEUSES NA LUSITÂNIA E AS ADONIAS EM SEVILHA

- Magna Mater na Lusitânia
- Prantos sírios em Sevilha (ano 287 d.c)
- Santo António de Lisboa e os manjericos
- Senhora do Castelo
- São Sebastião emasculado
- A Blanca Paloma de Andaluzia
- Mãe-Soberana de Loulé

5. OS PRIMÓRDIOS DO CULTO CATÓLICO DE MARIA

- Maria e os primeiros cristãos
- Cristianismo de massa
- Culto mariano primitivo
- Instituição popular das festas marianas
- Luminárias

6. ORIGEM NORTE AFRICANA DO CRISTIANISMO IBÉRICO

- Atestados de idolatria
- O recurso de Cartago
- Elos de fundação

7. PRIMEIRO CONCÍLIO IBÉRICO

- O concílio de Eliberi
- O concílio da ordem imperial
- Correia de transmissão do Império

8. PRESCILIANISMO

- Um cristianismo que resiste ao Império
- Cristianismo das bases
- Concílio sobre concílio
- Prisciliano mártir
- Liberdade cristã, Livre-exame
- Fundamentos teológicos do Priscilianismo
- Religião mistérica
- A astrologia
- Secretismo elitista
- Liturgias iniciáticas
- Depois de Prisciliano

CONCLUSÃO

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A RELIGIÃO POPULAR PORTUGUESA: desenvolvimento das referências bibliográficas apresentadas (2)

Tal como fizemos em relação à obra referenciada anteriormente, editamos agora o conteúdo de:

ESPÍRITO SANTO, Moisés- A religião popular portuguesa. 2ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 1990.

Capítulos constituintes:

- Capítulo I: PRESTÍGIO RELIGIOSO DO MEIO NATURAL
- Capítulo II: TEMPORALIDADE RELIGIOSA E TRABALHO AGRÍCOLA
- Capítulo III: IGREJAS E SANTUÁRIOS
- Capítulo IV: A GRANDE SENHORA DOS MONTES
- Capítulo V: É A ALDEIA QUE FAZ O SANTO
- Capítulo VI: A LIBERTAÇÃO PELA PALAVRA
- Capítulo VII: DO NASCIMENTO À MORTE
- Capítulo VIII: "A NOSSA RELIGIÃO E A DOS PADRES"

A RELIGIÃO POPULAR PORTUGUESA

Capítulo I: PRESTÍGIO RELIGIOSO DO MEIO NATURAL

- A origem sagrada da aldeia
- A aldeia é um espaço fechado e segurizante
- A montanha, refúgio de monstros
- Pedras fecundantes e grutas protectoras
- A água viva e os banhos santos
- Debaixo de cada rocha uma mãe seduz o filho
- Árvores maternas e árvores paternas
- Animais solares e animais lunares
- A serpente, uma divindade solidária das mulheres

Capítulo II: TEMPORALIDADE RELIGIOSA E TRABALHO AGRÍCOLA

- O tempo que degenera
- O sol-pai
- A festa do fogo
- A lua, potência envolvente
- O fim do mundo pelo fogo
- O calendário
- O ciclo da germinação ou a morte colectiva
- O ciclo da floração ou o despertar
- O ciclo das colheitas ou da partilha
- Cerimónias agrícolas e lazeres
- Ritos agrários
- Talassa- a mãe primordial

Capítulo III: IGREJAS E SANTUÁRIOS

- A igreja matriz
- A voz do sino
- O santuário

Capítulo IV: A GRANDE SENHORA DOS MONTES

- A senhora sai da terra
- A nostalgia da mãe
- A senhora mãe-Pátria
- A senhora dos pescadores é uma dolorosa
- A senhora dos montes no turbilhão
- A Imaculada Conceição: a mulher decaída

Capítulo V: É A ALDEIA QUE FAZ O SANTO

- A aldeia faz o seu santo
- Nome masculino e alma feminina
- Cultos singulares
- "Santos canonizados pelo povo"- a vítima e o ladrão
- O santo como refém
- As alegres romarias do norte

Capítulo VI: A LIBERTAÇÃO PELA PALAVRA

- "Nada se pode fazer sem palavras"
- "Eu sou a mulher, a benzedeira"
- A eficácia dos ritos verbais
- "Eu te degrado para as ondas do mar coalhado"
- "Tudo o que a mulher ligar está ligado"
- O espectro da mulher

Capítulo VII: DO NASCIMENTO À MORTE

- De uma mãe à outra
- Ritos e cerimónias mortuárias
- A reintegração na mãe
- Almas boas e espíritos maus

Capítulo VIII: "A NOSSA RELIGIÃO E A DOS PADRES"

- O pai ao serviço da mãe
- É o pastor que segue o rebanho
- A "greve da religião"
"Vós sereis como o menino que uma mãe consola"
- Todo o ser humano deve ter duas mães

Conclusão

Publicado por sandra em 02:42 PM | Comentários (0) | TrackBack

A RELIGIÃO POPULAR PORTUGUESA: desenvolvimento das referências bibliográficas apresentadas (1)

Tendo sido editada, no passado dia 25, a referência bibliográfica:

ESPÍRITO SANTO, Moisés- Origens orientais da religião popular portuguesa seguido de Ensaio sobre toponímia antiga. Lisboa: Assírio & Alvim, 1988.

apresentamos hoje, conforme estipulado, aquele que é o conteúdo da obra.
Numa abordagem imediata, o trabalho do Dr. Moisés Espírito Santo divide-se em 3 partes, a saber:

PARTE PRIMEIRA- ORIGENS ORIENTAIS DA RELIGIÃO POPULAR PORTUGUESA

PARTE SEGUNDA- ENSAIO SOBRE TOPONÍMIA ANTIGA

PARTE TERCEIRA- OS CIVILIZADORES: FENÍCIOS E HEBREUS

Dentro de cada uma destas partes existem vários capítulos, cada um com os seus itens. Todo este conteúdo, pela sua extensão consta, assim, em anexo.

ORIGENS ORIENTAIS DA RELIGIÃO POPULAR PORTUGUESA seguido de ENSAIO SOBRE TOPONÍMIA ANTIGA

Preâmbulo

PARTE PRIMEIRA. ORIGENS ORIENTAIS DA RELIGIÃO POPULAR PORTUGUESA

Capítulo primeiro. ROCHAS, ÁRVORES, ÁGUA

1. Lugares altos
2. A rocha onde fostes engendrados
3. Uma descida às profundezas da cultura lusitana
4. Dizem à Árvore: "Tu geraste-me"
5. A Água, produto maternal
6. A Água, um dom do pai
7. Os rios

Capítulo segundo. A SENHORA DOS MIL NOMES

1. Senhoras Aparecidas
2. Paradigmas
3. As fugas da Senhora
4. A "Verdadeira Imagem"
5. Culto tópico
6. Emblema do povo
7. As "Sete Senhoras Irmãs"
8. Senhora dos Mareantes
9. Senhoras Estrangeiradas
10. Senhora do Pranto
11. A Senhora da Piedade e os militares
12. A Senhora da Piedade e a Renascença
13. Culto Mariano judeo-secreto
14. Sob as asas da Misericórdia
15. Senhora da Diáspora
16. Um Messias feminino

Capítulo terceiro. CONCEITO POPULAR DE DEUS

1. Deus das vinganças
2. Marido de sua mãe
3. Senhor dos Passos
4. Eis o Homem
5. Incapacidades de fundo
6. A mãe não morre

Capítulo quarto. A ANTIGA PROMESSA

1. "Uma promessa antiga": A Velha Aliança
2. Uma nuvem de gafanhotos
3. Renovação da Promessa: refeições rituais
4. Refeições rituais na tradição popular: o Bodo
5. Jeremias e as cavacas em honra da Senhora
6. Os bodos na tradição fenícia
7. Entre os primeiros cristãos sírios
8. Os Círios e os Prantos sírios
9. As Cruzes e os Prantos sírios
10. No Caramulo como no Sinai
11. Festas das Cruzes: luto judaico
12. Um protótipo: Senhor da Pedra de Gulpilhares

Capítulo quinto. O CULTO DO DIVINO

1. "O Divino é nosso, não é deles"
2. A festa judaica do Pentecostes
3. O nome, a imagem e o local do Divino
4. A Folia
5. Os loucos do Espírito
6. A Noite do Vitó
7. O Imperador
8. A Pomba e a Coroa
9. Os Jantares do Espírito Santo
10. Paradigmas
11. Pratos de surpresa e gestos trocados
12. A Pedra da Honra
13. Os giros
14. O Bendito da gente
15. O Segredo
16. Fatos irrisórios ou aparato glorioso?
17. Bois e touradas
18. No tempo das ceifas
19. Quem é o Divino?

Capítulo sexto. "DIVERTIR-VOS-EI NA FESTA"

1. A festa e a memória colectiva
2. O Entrudo e os Purim de D. Sebastião
3. Pascoela, a Senhora dos Prazeres e a Rainha Ester
4. Quinta-Feira da Ascensão de... Moisés ao Sinai
5. Festa das Colheitas

Capítulo sétimo. GALERIA DOS SANTOS

1. Questão de nomes
2. Mais temidos do que amados
3. São Mateus: "Não vás lá de mãos vazias!"
4. "São Bartolomeu foi marinheiro"
5. São Macário, o santo que matou o pai
6. A brilhante carreira de São João
7. São João judeu-secreto
8. São Sebastião, Sebastianismo e Sabatianismo
9. Santo António de Lisboa hermafrodita
10. São José, um (estranho) modelo social de pai
11. São Miguel, Príncipe do Povo Hebreu
12. São Tiago e as doze tribos da Diáspora
13. Santa Eulália, a resistente
14. As guerras púnicas de Santa Quitéria
15. Santa Catarina contra os tiranos
16. Santa Martinha, uma mulher vestida de homem
17. Santa Isabel: "A nova Ester em Portugal"
18. Santa Maria Madalena: "As prostitutas vos precederão"
19. Nossa Senhora Santa Ana

Capítulo oitavo. RETRATO DOS ANTEPASSADOS

1. Pilares e Bétilos
2. O Pelourinho
3. Belus, Bel, Baal
4. Ishtar
5. Thammuze ou Dommuzi (Adónis)
6. Átis
7. Sebasius
8. Poséidon, Pelagaios ou Salacius
9. Hermes
10. Melkarth ou Héracles de Tiro
11. Awwa, o Ovo e a Fénix
12. A Moira e os seus Tesouros
13. Anat, Ana ou Anta
14. Hera
15. Ester
16. Endovélico
17. Ataegina

Capítulo nono. A PROVA DA ARQUEOLOGIA

1. Deuses lusitanos falsificados
2. Os deuses do Portugal Romano
3. Pedras alçadas
4. Da Anatólia à Azambuja

Conclusão

PARTE SEGUNDA. ENSAIO SOBRE TOPONÍMIA ANTIGA

1. A lógica dos nomes
1.1. Os métodos literários
1.2. Os nomes não morrem
1.3. Método para a análise dos nomes

2. Os Povos
2.1. A Belária e a Fenicária
2.2. Azere ou Açor
2.3. Thamuje e Adon

3. A lógica dos sítios: "Carca-belus"

4. Conclusão

PARTE TERCEIRA. OS CIVILIZADORES: FENÍCIOS E HEBREUS

1. Os Fenícios: fundadores da idade histórica da Europa
2. Os Fenícios e o Ocidente
3. Os Hebreus

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dezembro 27, 2003

ENFERMEIRAS PÁRA-QUEDISTAS EM ACÇÃO NO PORTUGAL COLONIAL: testemunhos- 2

Retomamos a edição de posts respeitantes às enfermeiras pára-quedistas. Na sequência do editado a 30 de Novembro, apresentamos mais um excerto de testemunho de Maria Ivone Quintino Reis. Nele, recorda-se trabalho desenvolvido quer no contexto de acontecimentos na Índia Portuguesa, quer nas colónias africanas. Maria Ivone sublinha as condições de trabalho por que passou, extensíveis, também, às suas companheiras.

ENFERMEIRAS PÁRA-QUEDISTAS

Maria Ivone Quintino Reis (2ª Parte)

"Houve depois a visita a África do ministro do Ultramar, Adriano Moreira, e nomearam-me para ir na comitiva, como forma de motivar raparigas enfermeiras a tornarem-se pára-quedistas. Fui para o Ultramar em Setembro e voltei em Novembro. Meses depois, a Maria do Céu, uma colega nossa, foi com o general Kaúlza de Arriaga, secretário de Estado da Aeronáutica, às diferentes províncias. Quando cheguei da visita do ministro do Ultramar surgiu a questão da Índia e fomos quatro para Carachi, em 13 de Dezembro, para dar apoio às famílias que eram repatriadas da Índia, porque os militares ficaram em campos de concentração. Estávamos as quatro em Carachi quando Goa foi invadida, no dia 18 de Dezembro. A missão era para dar apoio ao transbordo dos militares que vinham na companhia aérea francesa contratada para ir buscá-los a Goa- porque não podiam ir aviões portugueses a Goa, nem sequer a Carachi. Depois, os militares iam em jipes para os barcos que estavam atracados em Carachi: o Vera Cruz, o Pátria e o Moçambique. Nós dávamos apoio à chegada dos militares, que estavam com seis meses de cativeiro. Eles chegavam ao Vera Cruz, que era fresquinho e onde se ouvia cantar o fado. Eu e a Zulmira estávamos lá mais por uma questão de equipa, com o comandante Solano de Almeida e o jornalista Urbano Carrasco. Estávamos numa ligação de comunicação com Lisboa- foi essa a causa maior que nos levou lá, porque não havia muito tempo no transbordo entre o avisão e os barcos. Voltámos de Carachi no Natal. A experiência lá foi dolorosa, a nível humano. Os aviões dos Transportes Aéreos da Índia Portuguesa (TAIP) vinham pôr as famílias em Carachi para as acomodarmos nos aviões da TAP, que estavam no Paquistão, porque não podiam ir à Índia, devido à expectativa de invasão. Acomodávamos aquelas mães, aquelas crianças, as bonecas, apinhadas dentro de um avião. Eram as famílias de três mil militares que ficaram lá presos. Houve uma que ficou internada na maternidade de Carachi porque estava à espera de bebé. A criança nasceu e nós fomos visitá-la. Ela veio connosco no último avião da TAIP, pilotado pelo comandante Solano de Almeida. Viemos no último avião que saiu de Goa, já depois da invasão, em voo baixo para não ser visto nem atingido pelos bombardeiros, em condições precárias, com destino a Carachi. Para lá tínhamos ido num avião da TAP.
O que estava a aconteccer no Ultramar despertou muito as mulheres. Houve cerca de 150 concorrentes, no total dos nove cursos, mas foram brevetadas 46, e das onze concorrentes do primeiro grupo foram brevetadas seis. A nossa vida era muito dura. Nunca sabíamos onde acordávamos, nem quando é que íamos dormir, nem onde estávamos. Durante o último ano que passei em Moçambique, o máximo de noites seguidas que dormi foram cinco. O nosso quadro era de vinte e uma enfermeiras- nove oficiais e nove sargentos- mas nunca esteve completo. O máximo de efectivos que existiu foram catorze. Éramos sempre escassas para cobrir as três províncias. Umas não aguentavam o curso, que era um teste de resistência, capacidade, audácia e coragem, e outras, ao fim de um ano, desistiam porque aquilo não dava para se fazerem projectos de vida; fazíamos directas, não havia folgas, nem fins-de-semana. Depois, eles confessaram que, no princípio, tinham achado muito mal que nós fôssemos para África, até porque não éramos especialmente elegantes, diziam que parecíamos assistentes sociais. Mas, por exemplo, uma vez, na Guiné, no fim da parada de uma cerimónia oficial, eu estava fardada e apareceu um soldado do Exército que se perfilou diante de mim, fez-me a continência com enorme rigor e afastou-se. Depois, disse-me: "Minha senhora, eu senti necessidade de ir bater a pala a uma mulher portuguesa." Naquele tempo havia a ideia da coragem e da audácia de nos destinarmos para os outros, e isso reflectia-se no acolhimento que tínhamos. As nossas directivas eram só para evacuação. Não podíamos sair do helicóptero, até por normas de segurança. Era um fiasco muito grande se fôssemos apanhadas. E toda a tropa ficava preocupada com uma mulher no meio dos combates".

(p. 664-665)

(Cont.)

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MUTILADOS. CONSEQUÊNCIAS DA GUERRA EM ÁFRICA (1961-1974): testemunhos-4

Na sequência dos testemunhos já editados, apresentamos um outro, desta vez de um alferes miliciano de Infantaria, que serviu em Moçambique nos anos de 1971-1972.
Cego, aquando do cumprimento da missão que lhe tinha sido atribuída este indivíduo, que quis manter o anonimato, recorda situações no território de África onde esteve, daquele que era o seu posicionamento perante o conflito, assim como pelo que passou após o ferimento (fatal) de que foi alvo.

MUTILADOS. DOR ETERNA

"Estive como alferes miliciano em Tete, numa fase depois da Operação Nó Górdio, em que houve uma deslocação da guerrilha para sul. Em Tete, nessa altura, o contacto directo com os guerrilheiros da Frelimo não era muito usual. Era a fase das minas: as picadas e os trilhos estavam pulverizados de minas. A primeira acção da guerrilha foi a captação das populações e a segunda foi a colocação de minas. A terceira acção era já de confronto directo, conjuntamente com minas. Eu estive na segunda fase da intervenção da guerrilha no terreno. Por exemplo, no mês de Agosto de 1971, na minha zona, tivemos trinta minas anticarro, fora as antipessoal. Fui ferido com uma mina antipessoal. Estava a fazer um estudo da mina- ainda não a estava a desmontar- e ela rebentou, ainda hoje não sei porquê. Fiquei cego. Fui evacuado para o hospital de Tete, e dali para o hospital de Lourenço Marques, onde fui logo operado à vista, mas sem hipóteses de recuperação. De lá fui para Lisboa. Eu tive uma experiência que fazia parte da estratégia militar em qualquer tipo de guerra de guerrilha, que era o aldeamento das populações. Para além de irmos a zonas onde estavam os guerrilheiros, nós tínhamos missões de aldear populações, isto é, de recolher as populações que estavam dispersas no mato e trazê-las para aldeamentos controlados pelas nossas tropas. Numa missão dessas, cheguei à dita aldeia bastante cedo, por volta das sete da manhã, e tentei falar com o chefe, que tinha fugido quando nos viu aproximar. Perguntei onde é que estava o chefe e fui prendê-lo com uma secção reforçada. O resto do pelotão ficou na aldeia. Queria que o chefe desse ordens para a população abandonar o local. Falei com ele em português, sem intérprete, porque ele percebia. Aliás, ele utilizava roupa europeia, tinha um casaco ocidental, mas não atendeu à ordem militar que eu dera e não disse nada à população.
Ficámos à espera que ele resolvesse a situação. Mas eu tinha que me ir embora porque não podíamos andar no mato a partir das quatro horas. A partir dessa hora não havia evacuações. Quando chegou ao limite da hora que eu podia esperar para irmos para o nosso acampamento, como não tinha havido qualquer movimentação da população para abandonar aquele local, fiz duas linhas de homens: uma linha à frente, com os homens armados em situação de fogo, e uma linha atrás, com homens com archotes para queimarem as palhotas. Era a nossa missão: levar as populações e queimar as palhotas, para que não pudessem servir de abrigo aos guerrilheiros. Ao ver isso, a população entendeu que estávamos ali para cumprir a missão, e começou a sair da aldeia, as mães com os filhos, com coisas à cabeça, com tudo o que puderam apanhar. Passámos toda a linha da aldeia com a população à frente, e deitando fogo às palhotas. Não dei um tiro nesse dia mas podia ter dado muitos tiros se, na altura em que desencadeei a acção de desalojamento, eles tivessem reagido. Mas quando passámos a linha das palhotas e eu olhei para trás e vi a aldeia a arder, e olhei para a frente e vi as mulheres com os filhos ao colo e pela mão, a guerra nunca mais foi igual para mim. Só pensava: "Que guerra é esta?" Tive uma tomada de consciência da monstruosidade que era a guerra. Eu sempre disse que devo estar no meu país nas horas e nas horas más. Aquela era uma hora má. Quando fui para a guerra, já tinha uma consciência política das coisas, de que a guerra colonial teria que ter uma solução política e não militar. Mas também nunca pensei em fugir. A minha geração, a geração de 60, um milhão e tal de homens, foi sacrificada à incapacidade política dessa altura.
Após ter sido ferido, andei um ano e meio aparvalhado, tipo em estado de choque, sonhava todos os dias com a guerra, acordava aos gritos e aos saltos, com pesadelos. Depois, fui estabilizando. E fiz a catarse de tudo isto. É óbvio que as nossas tropas eram mal preparadas, que o material era fraco, e que tínhamos umas tropas especiais com uma instrução melhor. Mas a tropa de quadrícula, normalmente, estava mal preparada porque não tinha cá qualquer instrução que se parecesse com um acto de guerra real. E chegava-se a Angola, a Moçambique ou à Guiné, as pessoas saíam do barco, metiam-lhes uma espigarda na mão e mandavam-nas para o mato. A pessoa só ia aprendendo a defender a sua pele ao longo dos meses em que lá estava. Na fase em que estive lá, o que eu notava, ao fazer muitas colunas e visitar companhias comandadas por milicianos, era que as pessoas não estavam lá movidas por ideais de defesa da Pátria, mas para defenderem o seu corpo. As pessoas não tinham nada a ver com aquilo, estavam ali a ver se aquilo passava o mais rapidamente possível. Eu tive a ideia de que éramos carne para canhão. Quando vim para cá evacuado, encontrei-me no Hospital Militar, na medicina dos oficiais, com mais três pessoas cegas, uma com amputações dos membros superiores e outra dos membros inferiores, e não tive ninguém, nenhum técnico, médico ou assistente social, que viesse ter comigo e me dissesse que a vida não tinha acabado. E a cegueira é uma deficiência pesadíssima. E à noite, eu e os outros dois oficiais juntávamo-nos, e ao que não tinha mãos, eu dava-lhe de fumar e de beber a cerveja à boca. Este era o apoio que nós tínhamos. Aqui se vê como éramos carne para canhão. Depois de termos defendido a Pátria, cada um com aquilo que pôde, no regresso devíamos ter tido um apoio que eu não tive. Estive num centro de reabilitação para cegos, para aprender a andar na rua, etc., mas não foi no hospital militar que me falaram do centro de reabilitação. Não havia uma estrutura para nos encaminhar para a reabilitação. Disto, eu falo com revolta. Na altura, eu nem sabia comer! E vinha uma enfermeira que me punha a comida ao fundo da cama, como se eu fosse um cão! Passado um tempo, fui falar com o médico e disse-lhe: "Eu já estou cego, mas não quero ficar maluco. Eu vou-me embora. Mande-me para a prisão mas eu vou-me embora." Estive um ano e tal sem aparecer no hospital. Quando lá voltei, a enfermeira veio ter comigo: "Ó senhor alferes, o senhor tem que ir fazer de oficial de dia para o DI!" Eu, cego, ia fazer de oficial de dia para o DI! Este era o controlo que eles tinham dos doentes. Compreendo que, num país como o nosso e com frentes de guerra tão grandes, eles não tivessem meios para a rectaguarda. Mas então os políticos deveriam ter resolvido a situação rapidamente, sem massacrarem uma juventude como a nossa."

(p. 963-965)

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ÓSCAR CARDOSO: inspector da PIDE/DGS criador dos Flechas (3)

Continuando a edição do testemunho do ex-inspector da PIDE/DGS, Óscar Cardoso, cuja última parte apresentámos no passado dia 01, registamos hoje o conteúdo relativo à formação dos Flechas, propriamente dito. Óscar Cardoso faz referência à sua ida às "terras do fim do mundo" e ao contacto directo com os bushmen, indivíduos locais que iriam ser treinados para formação da tal "milícia". De destacar, nesta parte do testemunho, a explicitação do ex-inspector sobre o apoio dado pelas Forças Armadas para o treino daqueles indígenas, naquele que era o aproveitamento máximo das suas potencialidades/capacidades.

ÓSCAR CARDOSO- CRIADOR DOS FLECHAS

"O meu director, São José Lopes, uma pessoa inteligentíssima, com quem tive alguns conflitos mas a quem hoje reconheço razão, autorizou-me a tentar a experiência. Disse-me: "Sim, senhor. Você pega no administrador, damos-lhe uma compensação monetária, e você vai para as terras do fim do mundo fazer uma prospecção sobre o que esses bushmen poderão dar, qual será o rendimento que eles poderão ter em operações de guerrilha.
O administrador Manuel Pontes, a minha mulher e eu lá fomos para as terras do fim do mundo. Deram-nos um Land-Rover decrépito e metemo-nos no mato. E começámos a contactar com os bushmen. Eram indivíduos que viviam muito primitivamente, faziam ainda o fogo por fricção, eram muito magros e pequenos, mas excelentes caçadores. Na região do Cuando-Cubango, este povo era trocado e vendido como se de gado se tratasse. Muitos eram forçadamente nómadas e outros estavam em regime de escravidão autêntica nos sobados dos chefes pretos bantos. Se o amor é uma motivação para se fazer a guerra, o ódio também é; e não havia dúvida nenhuma que eles odiavam os seus antigos donos. A nossa guerra em Angola não era contra os pretos mas contra quem fosse terrorista, contra quem pusesse minas na picada, e contra quem quisesse destruir o nosso Governo. Começámos por isso a angariar os fulanos, com dificuldade, porque eles tinham medo. Só que o Manuel Pontes tinha vivido muito tempo com os bushmen e conhecia aquela terra muito bem. Vivera numa jangada no rio Cuando, que fixa a fronteira com a Zâmbia, o rio Cuando que é um mundo, ora atinge vários quilómetros de largura ora estreita. Muitas vezes não se faz a devida justiça àqueles homens dos postos administrativos, mas Manuel Pontes era bem um exemplo. Os bushmen respeitavam-no muito e chamavam-lhe Tata K'Hum, que significava "o pai dos K'Hum", que eram eles. Quando eles viam o Tata K'Hum, com as suas barbas brancas, aproximavam-se. E por intermédio de alguns pretos que nós tínhamos connosco, conseguíamos falar com eles. Estavam subalimentados, eram esqueletos autênticos.
Mas acreditei na palavra do administrador, que me tinha dito: "Se vocês os treinarem, se os alimentarem bem, esses indivíduos podem ser de uma grande utilidade." E eu, por tudo o que lera, também pensei que sim. Então, começámos a dar-lhes treino de tiro. Comecei em 1967 com oito e, no fim, já tinha os que queria e sobravam-me. No Cuando-Cubango, um território duas vezes e meia maior que Portugal, tinha vários postos chefiados por agentes de 1ª classe, agentes de 2ª classe e algumas vezes chefes de brigada, e tinha também as coutadas de caça. Usávamos esses indivíduos, os bushmen, como pisteiros. Eram pisteiros extraordinários, olhavam para o terreno e sabiam ler tudo; se tinha sido uma mulher grávida que tinha passado, se tinha sido um preto, se ia carregado ou não. Nós aproveitávamos essa capacidade singular deles. No princípio utilizámo-los para obter informação num território muitíssimo pouco habitado, o menos habitado de Angola. Tínhamos que lá ir para ver, por isso mandava estes grupos. Estes grupos, inicialmente, iam armados de arco e flecha, mas de flechas envenenadas, em que eles eram exímios. A ideia era obter informação e, no caso de haver contacto ou de eles se sentirem capazes de dominar a situação, é claro que não traziam ninguém vivo, mas traziam documentos e armas. Começámos a ter resultados com isso, tanto assim que, normalmente, nós é que dizíamos onde é que havia um objectivo.
Dizíamos como é que era o dispositivo do acampamento, onde é que era a casa do chefe, quantos eram, os hábitos deles, nós é que dávamos as operações aos militares. Como era um terreno muito plano, era muito difícil darmos um ponto de referência. O que se diz em relação ao apoio que a população dava é teórico, a população dava muito pouco apoio aos terroristas. A população, ao fim e ao cabo, era uma bola de pingue-pongue no meio daquela coisa. A população que dava apoio aos terroristas era forçada, a maior parte do apoio logístico aos terroristas vinha da Zâmbia. Então, para eles saberem, os acampamentos ou ficavam no início do rio ou na confluência de um rio com outro. Na confluência por uma questão de definição geográfica e também porque eles podiam passar sem tudo menos água. Nós mandávamos lá os bushmen e depois eles diziam-nos. Alguns dos bushmen chegavam lá e levavam uma saraivada de tiros. E nós, com total apoio das Forças Armadas, começámos a treinar esses bushmen no Cuando-Cubango, no campo de trabalho do Missombo, que era um campo de recuperação de terroristas, se quiser, um campo de concentração, que nada tinha a ver com a PIDE. Foi assim o início dos Flechas".

(p. 403-405)

(Cont.)

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dezembro 26, 2003

O MOVIMENTO NACIONAL FEMININO CONTADO PELA SUA PRESIDENTE: testemunho de Cecília Supico Pinto- 3

Retomamos, hoje, a edição do testemunho da Presidente do Movimento Nacional Feminino- Cecília Supico Pinto.
Nele constam as circunstâncias do assumir da Presidência (6 meses após a fundação do Movimento), assim como o trabalho desenvolvido junto dos militares. Cecília Supico Pinto especifica as suas visitas às colónias e como estas evoluiram. Refere, também, as iniciativas que foram sendo tomadas, as necessidades detectadas e os pedidos de apoio/ajuda feitos aos portugueses.
O período abrangido nesta parte do testemunho são os anos de 1961, 1962 e 1963. No âmbito de uma iniciativa concreta, temos referência ao ano de 1971.

O MOVIMENTO NACIONAL FEMININO (MNF)
Testemunho de Cecília Supico Pinto
"Recebíamos apoio das vicentinas, foi a estrutura das vicentinas que nos permitiu ter comissões do MNF em muitas terrinhas. Contactávamos as pessoas pelo telefone. Fazíamos reuniões de recrutamento ou, então, as pessoas simpatizavam com mulheres que já trabalhavam connosco. No início, o MNF era uma coisa pequena e tínhamos de explicar pormenorizadamente os objectivos que nos moviam. Mas seis meses depois de começar o MNF comecei a receber inúmeras cartas hostis. E as mulheres da comissão central recebiam ameaças. Na Rádio Argel havia ameaças contra nós quase todos os dias. Os comunistas odiavam o MNF. A mim chamavam-me "Dona Lucília" e faziam circular toda a espécie de calúnias sobre a minha vida pessoal. Identificavam-me como líder do MNF. Decidi então que não queria que nenhuma outra mulher fosse prejudicada e ameaçada por minha causa. Se tinham de ameaçar alguém, que me ameacassem a mim. E assumi a presidência, seis meses depois da fundação do MNF. Havia pessoas que reduziam o MNF a um puro exibicionismo meu e diziam coisas do género "lá está ela convencida de que é a heroína". É sempre fácil dizer mal.
Fui em 1962, com a Ana Arnaut, organizar comissões locais à Guiné. Começámos pela questão das leis por que se regiam os militares. Na Guiné não havia, por exemplo, subsídio de isolamento, que se aplicava às unidades em zonas de intervenção e de isolamento. Achávamos que não era justo, porque eles estavam tão isolados ou mais do que os outros, tinham os mesmos problemas. Conseguimos o subsídio de isolamento para os militares da Guiné. Andámos por quase todas as unidades. Chegava às unidades e dizia mais ou menos isto: "Olá rapazes. Como não é possível trazer até vós as vossas famílias, é em nome delas que o MNF vos traz abraços e saudades." A primeira unidade que visitei foi Mansoa, perto de Bissau. Os comandantes eram avisados da nossa chegada, reuniam a unidade e eu falava. Cometi erros no início, por falta de prática. Ficava muito pouco tempo em cada unidade, fazia uma visita como a dos ministros ou dos jornalistas e ia-me embora. Depois fiquei mais à vontade e passei a demorar-me mais. Dizia aos soldados: "Venho ver o que é que gostariam de ter aqui. Aposto que gostam de futebol e de equipamentos. Quem é que é do Benfica e quem é que é do Sporting?" Eram contactos simples, como se fosse da família deles. Levava bolas de futebol, que comprávamos com os donativos que recebíamos. Outras vezes eram os próprios clubes que nos davam as bolas. Depois arranjávamos um subsídio do Ministério da Defesa e tivemos mais ajudas em equipamentos e em livros. Os livros que eles mais gostavam eram policiais e romances, sobretudo o Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, e também os livros de Eça de Queirós. O jogo preferido era o monopólio. Mandávamos material didáctico, para eles ensinarem as gentes das aldeias. E medicamentos. Havia sempre um médico da unidade para ministrar os medicamentos nas tabancas. Tive a vida muito facilitada pela grande compreensão do Adriano Moreira, com quem mantinha as melhores relações. Descobrimos que na ilha do Sal, em Cabo Verde, não havia água destilada. Bebia-se apenas água de garrafa, cara e de má qualidade. Conseguimos um destilador, pago pelo Ministério do Ultramar, e o Adriano enviou-nos de Cabo Verde um telegrama a dizer: "Cheguei Sal. Bebi água do destilador. Obrigado MNF."
Na mata, eles abriam as latas de atum e de salsicha à pancada, com a G-3 e com pedras, e muitas vezes eram detectados por causa desse barulho e sofriam emboscadas. Começámos então a enviar abre-latas. Também oferecíamos taças para os campeonatos de futebol interunidades. Passámos a trabalhar com as rádios: mandávamos cassetes para eles, eles mandavam cassetes para nós. Tivemos o programa "Espaço", a fábrica de discos, copiadoras para as unidades. Eram muitas as unidades e rádios a quem nós mandávamos programas gravados do MNF. Houve um que teve especial sucesso: um Sporting-Benfica em matraquilhos, com o Eusébio, o Simões, o Damas e o Artur Agostinho a fazer o relato. Gravávamos em bobinas ou cassetes e mandávamos para as unidades e para as rádios locais. Eles divertiam-se imenso. Às vezes eram as mulheres que gravavam mensagens. Bebés que ainda não falavam quando os pais partiram e que diziam "olá, pai". Coisas simples mas importantes para quem luta no mato e sofre a ausência da família. Havia um grupo da Madeira, o Conjunto João Paulo, cujos membros foram mobilizados. Conseguimos que fossem juntos para a Guiné, Angola e Moçambique, e andaram no mato a tocar para os militares. Eu própria cantava fados que me fartava. Havia sempre um que tinha guitarra e que me acompanhava. Vinha sempre das viagens a África com o sentimento de que era preciso fazer muito mais, com mais dinheiro, com mais organização. Nunca me senti satisfeita. Havia uma frase que repetíamos no MNF: "Nós não estamos a trabalhar para recompensas, mas sim para resultados." Ficava furiosa de não fazer mais. Muitas vezes não dependia só de mim, dependia do dinheiro que pedíamos e não vinha. Alguns embirravam comigo, mas no geral era muito bem recebida nas unidades. Muitas vezes ia com o camuflado por cima, ou então levava só uma saia e uma blusa porque fartos de camuflados estavam eles, e com uns sapatos normalíssimos, nada de botas. Chegava às unidades e perguntava "Quem é do Benfica?" Era metade. "Quem é do Sporting?" Era a outra metade. "Quem é do Belenenses?" Era só um, que era do meu clube. E eu dava um grande abraço a esse. Isso pegou, "telégrafo de mato" era muito rápido, e então eu chegava e perguntava: "Quem é do Porto? Quem é do Boavista?". Nada. "Quem é do Belenenses?" E todos diziam que eram do Belenenses e lá iam abraços.
Em Julho de 1963, 1500 famílias de soldados combatentes receberam assistência através da comissão distrital de Lisboa do MNF. Lançámos também em 1963 um apelo para a obtenção de 4000 cobertores para as famílias dos militares no Ultramar. Foi a Maria do Carmo Figueiredo, presidente da comissão distrital de Lisboa, que organizou isso. A Companhia dos Diamantes de Angola deu-nos um donativo. Ainda em 1963 começou a campanha para as ceis de Natal das famílias dos militares. Pedimos também uma hora de trabalho voluntário a todos os trabalhadores. Cada trabalhador dava uma hora do seu salário, ou dava menos se não pudesse dar uma hora. Fui algumas vezes à televisão para promover os ideais do MNF. Sempre que partia para o Ultramar ia à televisão e também quando se iniciava uma campanha e era preciso agarrar as pessoas. Os contributos para a hora de trabalho eram facultativos, mas a generosidade portuguesa era muito grande. Fomos muito bem correspondidas.
Na mesma altura distribuíamos agasalhos e lembranças a 3460 famílias de militares que estavam no Ultramar. Promovemos um festival aeronáutico em Alverca, que se chamou Paz na Guerra. Foi um festival formidável pela Força Aérea, com pára-quedistas, vários números de acrobacia, tudo isso correu muito bem e ganhámos algum dinheiro. Editávamos discos, que enviávamos para as unidades, por altura do Natal. No LP de 71, chamado "Natal de 71", participaram Amália Rodrigues, Eusébio, Joaquim Agostinho, Maria de Lurdes Modesto, Florbela Queirós, Armando Cortez, Francisco Nicholson, Paulo Machado, o inspector Artur Varatojo, os Parodiantes de Lisboa, Hermínia Silva, Elsa Gomes, etc. Esse LP teve uma tiragem de 300 000 exemplares".

(p. 425-428)

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A PROPÓSITO DO GÉNERO BIOGRÁFICO: considerações de António Manuel Hespanha

Editamos hoje, conforme compromisso assumido pela nossa parte, o texto do historiador António Manuel Hespanha intitulado, "O género biográfico em curso". Este texto foi publicado na revista História de Janeiro de 2002, sendo agora por nós recuperado, atendendo à sua importância para todos aqueles que, sobretudo, desenvolvem pesquisa e investigação no âmbito da História.
Destacamos, no seu conteúdo, as características apontadas ao género, assim como a "contra-argumentação" do historiador perante as mesmas. E atendendo a possíveis limitações, as propostas avançadas para o seu colmatar.

(HESPANHA, António Manuel- "0 género biográfico em curso". In: História. Nº 41. Ano XXIV (III Série). Janeiro 2002, p. 16-17).

O GÉNERO BIOGRÁFICO EM CURSO

"Nos últimos tempos, a biografia ficou de moda em Portugal. Os méritos da novidade vão para um grupo de companheiros de ofício, de inspiração relativamente consistente, com referências culturais também bastante partilhadas e todos eles comungando, se não me engano, de um certo desfastio pela história chamada estrutural. Em comum têm também a escrita sedutora e um bom conhecimento, pelo menos ao nível que lhes interessa, do período sobre que trabalham. Vasco Pulido Valente (...) talvez tenha sido o detonador da corrente. A "teorizadora" tem sido Fátima Bonifácio. Os "operacionais" são vários (...).
Na teorização desta história biográfica, a que também chamam "política", ressaltam sobretudo duas ideias-chave. Uma delas é a recusa de esquemas interpretativos "fortes", daqueles usados pelos cientistas sociais dos vários matizes, substituíndo-os por uma interpretação "evidente" (pelo menos, de "senso comum"), do género daquela que nós usamos para nos orientarmos na vida. O que, sendo pacífico para nós interpretarmos a vida de hoje, é bastante mais problemático para interpretarmos a vida de há muitos anos. Os nossos filhos sabem disso quando procuram entender os pais; e nós próprios o sabemos também quando temos a sorte de ainda tentar entender os nossos. Na minha opinião, por detrás da "evidência" de alguns enredos, podem esconder-se retroprojecções da sensibilidade de hoje. E isto, já se vê, tem perigos graves.
A outra ideia-chave do nóvel biografismo é a de que são os homens concretos- e não os desenvolvimentos anónimos das "estruturas"- que modelam a história. Mas como não são muitos os homens que estão em condições de modelar a história- pelo menos, a história de um país-, quem acaba por interessar a esta corrente historiográfica são os "grandes homens", nomeadamente os "grandes políticos". A teorização disto foi explicitamente feita, se não me engano, por Fátima Bonifácio.
A "grande biografia" exige, em princípio, um "grande biografado" (pressupondo, naturalmente, que é escrita por um grande biógrafo). Na sua falta, a biografia transforma-se num acto de cruel assassinato de um personagem, sempre confrontado com o personagem ideal que nunca foi, que nas condições não poderia ter sido e que porventura nem sequer quis ser. (...)
Não quero com isto dizer que a história tenha que ser épica, sobretudo se não há conspícuos heróis a celebrar. Mas também não tem que cultivar um sobranceiro desprezo, quando não pode lidar senão com miúda gentinha afadigada com a sua caseira gestinha. Sobretudo porque glorificar ou desprezar são atitudes moralistas que me parece não caberem bem na deontologia do historiador. Para além de que, no mínimo, implicam um confronto sem sentido entre países modelos (a Inglaterra, a Prússia, a França) e países medíocres (designadamente Portugal).
Daí que- voltando um pouco atrás- se não se encontra matéria prima para biografias de grandes homens, talvez se deva repensar na hipótese mais tradicional de investigar a vida dos outros homens, traçando os tais grandes frescos sociais- que, necessariamente, haverão de ser informados por algum modelo interpretativo geral-, de onde resultem os grandes cenários (económicos, culturais, institucionais, jurídicos) em que os homens- pequenos e grandes- se movem. A política também deve fazer parte disto. Mas reduzida à sua dimensão de peça de um políptico, e não alcandorada à dignidade de única disciplina histórica válida, como tem sido variamente proposto.
Voltemos aos dias de hoje e à história que deles pode vir a ser feita. Imaginem, por um momento, que a história dos dias de hoje vinha a ser a história (política) dos nossos políticos. Demos de barato que, pelo menos os mais evidentes, sejam todos eles heróis dos tais a quem uma grande biografia não fica folgada. Essa colecção de grandes biografias- ou a história do enredo das suas relações- esgotaria a história das nossas vidas? Ou seria sequer uma minimamente adequada introdução ao nosso tempo? Diria alguma coisa sobre a vida real das pessoas reais no nosso país? Neste sentido, não me parece que os tão citados ditos de Brecht sobre os actores da história tenham caído com o muro de Berlim".

(Sublinhado nosso)

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dezembro 25, 2003

ORIGENS DO CRISTIANISMO PORTUGUÊS: referência bibliográfica para o seu estudo

Continuando a divulgação de trabalhos do Dr. Moisés Espírito Santo, apresentamos desta vez (com igual compromisso de desenvolvimento de conteúdo posterior) um estudo onde é dada atenção às origens do Cristianismo no território que hoje é Portugal. É ele:

ESPÍRITO SANTO, Moisés- Origens do Cristianismo Português. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões, [1993].

Este conteúdo referenciado em título é antecedido pelo "Tratado sobre a deusa Síria por Luciano", com apresentação, tradução e notas do autor.

Publicado por sandra em 07:43 PM | Comentários (1) | TrackBack

A RELIGIÃO POPULAR PORTUGUESA: referencias bibliográficas para o seu estudo

Da autoria do Dr. Moisés Espírito Santo, dois importantes trabalhos para um melhor conhecimento e estudo daquelas que são as origens e características da Religião Popular Portuguesa.
Comprometendo-nos de que, em posts posteriores, pormenorizaremos os seus conteúdos, deixamos neste, somente, as referências bibliográficas. São elas:

- ESPÍRITO SANTO, Moisés- Origens orientais da religião popular portuguesa seguido de Ensaio sobre a toponímia antiga. Lisboa: Assírio & Alvim, 1988.

- ESPÍRITO SANTO, Moisés- A religião popular portuguesa. 2ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 1990.

Salientamos que estes dois estudos resultam não só de sínteses bibliográficas mas de um aturado trabalho no terreno desenvolvido pelo autor. Inserem-se ambos no "capítulo" da História da Cultura e das Mentalidades, que valorizamos igualmente neste blog.

Publicado por sandra em 06:49 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 24, 2003

O "FENÓMENO FÁTIMA": o "Bispo de Fátima"

Individualidade importante em todo o fenómeno relacionado com Fátima, D. José Alves Correia da Silva, é uma figura que merece destaque. Bruno Cardoso Reis apresenta-o com maior pormenor, por isso a consideração da "caixa" intitulada "O "Bispo de Fátima".
Fica assim a edição do seu conteúdo.

O "BISPO DE FÁTIMA"

"O primeiro bispo da diocese restaurada de Leiria, D. José Alves Correia da Silva (nomeado em 15.5.1920), inicia o governo da diocese em 4.8.1920), foi o grande promotor e gestor da expansão e da organização do culto de Fátima, e do planeamento e da construção do santuário que lhe dá corpo. Formado em Teologia por Coimbra, professor do seminário do Porto (1897-1920) e cónego da Catedral, e nisso figura típica da sua geração no episcopado, aos 48 anos, e depois de haver estado algum tempo antes em Lourdes, veio a assumir a chefia de uma nova diocese, com os desafios e as expectativas que isso implica, e em que certamente o maior era o da gestão da questão de Fátima. Ainda que só a partir de 13 de Maio de 1984 os seus sucessores se passassem a intitular oficialmente bispos de Leiria-Fátima, foi ele realmente o primeiro a merecer esse título, pelo seu prolongado governo da diocese- 38 anos!- durante todo o período de formação e consolidação do santuário. Faleceu em 1958".

(História. Nº 29. Ano XXII (III Série). Outubro 2000, p. 22)

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O "FENÓMENO FÁTIMA": alguns protagonistas

Dando continuidade à edição do texto de Bruno Cardoso Reis intitulado "Os primeiros cinquenta anos de Fátima", cuja última das partes por nós apresentada se verificou no passado dia 6, trazemos aqui hoje o conteúdo inerente à "caixa" "Alguns protagonistas". Nesta, é avançada informação mais detalhada sobre as crianças videntes: Jacinta, Francisco e Lúcia.

ALGUNS PROTAGONISTAS

Os videntes Jacinta (11.3.1910-20.2.1920) e Francisco (11.6.1908-4.4.1919)

São irmãos, e primos de Lúcia. Vivem no lugar de Aljustrel, freguesia de Fátima, concelho de Ourém. Dos relatos contemporâneos surge uma dupla imagem, de crianças normais do seu meio que gostam de brincar com as demais, mas muito marcadas pela educação religiosa, a única que receberam. Pertencem a famílias de pequenos proprietários remediados, o que nas terras pobres daquela zona significa algo acima do limiar da sobrevivência, eventualmente ricas em terras, animais e frutos, mas não em dinheiro. Os jovens trabalhavam já para os pais no pastoreio, o grande recurso face aos solos pobres e agrestes da região. Só o rapaz tem uns rudimentos de alfabetização; as raparigas não têm escola na freguesia. Ouviram relatos dos milagres bíblicos nos serões familiares, assim como de aparições mais recentes, têm na devoção pelo terço o elemento central da sua piedade, e nas procissões, o grande momento da vida religiosa local. Durante as aparições revela-se a liderança natural de Lúcia, e afirma-se a determinação dos jovens em defender a sua visão face a todo o tipo de pressões. Os dois mais novos morrem poucos anos após o fim das aparições.

A vidente Lúcia (28.3.1907)

A mais velha dos três videntes, Lúcia, aos 14 anos decide ingressar no Asilo do Vilar, das Doroteias, indo depois iniciar o noviciado em Tui. Por decisão sua? Bem mais jovem mostrou-se bastante determinada e, sem o apoio da família, que temia o escândalo, e do seu pároco, que não queria comprometer-se, enfrentou as autoridades e as penalidades que lhe eram prometidas. Não custa a crer, tendo em conta o seu percurso- e desde logo o facto de ter ouvido a Senhora a mandar-lhes aprender a ler-, que aconselhada por figuras do clero com que entretanto passou a contactar, o passo tenha sido desejado como a concretização de uma vocação, de um sonho de uma miúda do campo profundamente devota e desejosa de educação. Só em 1935, já retirada no Carmelo de Coimbra (onde ainda hoje reside), ela retoma algum protagonismo no processo de Fátima ao começar a escrever, por ordem do prelado leiriense, novos relatos das aparições. Talvez tomada pelo gosto da escrita, ou porque acreditava ver agora mais claramente o que em 1917 lhe parecia confuso, desenvolve o que então contou e regista por escrito. Estes factos criam do ponto de vista da análise histórica o problema da coerência do relato. Os diálogos entre os videntes e a Senhora registados nos inquéritos originais passam a aparecer intercalados com falas que não constam inicialmente e que contrariam inclusive o que então ficou dito (...)".

(História. Nº 29. Ano XXII (III Série). Outubro 2000, p, 21)

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dezembro 23, 2003

REVOLUÇÃO E NIILISMO HISTÓRICO- CITAÇÃO

"A revolução dos princípios assassina Deus na pessoa do seu representante. A revolução do século XX suprime o que de Deus ainda subsistia nos próprios princípios e consagra o niilismo histórico. Sejam seguidamente quais forem os caminhos escolhidos por esse niilismo, a partir do instante em que ele pretende criar qualquer coisa no século, fora de todas as regras morais, tem de construir o templo de César."

(Albert Camus- O HOMEM REVOLTADO)

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UM SIGNIFICADO PARA A HISTÓRIA- CITAÇÃO

"O homem completo, absolutamente livre, definitiva e totalmente satisfeito com o que é, o homem que se aperfeiçoa e se completa através desta satisfação, será o Servo que "venceu" a sua Servidão. Se o Domínio ocioso é um impasse, a Servidão laboriosa, pelo contrário, é a fonte de todo o progresso humano, social e histórico. A História é a história do Servo trabalhador".

(Alexandre Kojéve- Introdução à leitura de Hegel, cit. por, FUKUYAMA, Francis- O fim da história e o último homem. 2ª ed. Lisboa: Gradiva, 1999, p. 194)

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O LUGAR DA HISTÓRIA NA SOCIEDADE ACTUAL: perspectiva de António Manuel Hespanha

Aprofundando conteúdos relacionados com citações anteriormente apresentadas, editamos um texto da autoria de António Manuel Hespanha, intitulado "Porque é que esta sociedade nos há-de querer", saído na revista História de Abril de 2002.
Neste texto o historiador debruça-se sobre aquela que deve ser a realidade do ensino da História, nomeadamente em termos universitários, assim como qual o lugar que o historiador pode ocupar no âmbito da sociedade contemporânea, designadamente ao nível da sua inserção em empresas (ao nível da indústria portuguesa).
Neste contexto de inserção renovada, especifica aquelas que são (ou devem ser) as competências de indivíduos com formação na área da História.

(HESPANHA, António Manuel- "Porque é que esta sociedade nos há-de querer?". In: História. Nº 44. Ano XXIV (III Série). Abril 2002, p. 16-17)

PORQUE É QUE ESTA SOCIEDADE NOS HÁ-DE QUERER?

"Há um par de semanas, num zapping desesperado-prospectivo, caí sobre uma entrevista do Engº Ludgero Marques, que falava sobre o Estado que era o do país, antes das últimas eleições.
Para além de que gosto de ouvir a sociedade civil, alimento a presunção de que este empresário nortenho (...) sabe o que diz, pela simples razão de que se trata de uma pessoa que julgo ter construído uma sólida fortuna com o seu trabalho. Daí que o ouça com atenção.
Quando o apanhei, ele falava do ensino, que está mal, como toda a gente o sabe (embora não me pareça que toda a gente saiba porque é que está mal e, muito menos, como é que pode ficar bem). O engenheiro dizia, para além de outras coisas correntes, uma coisa que, embora muito me pese é bastante verdade. Que a universidade estava mal porque estava na mão dos "sábios". Com "sábio" queria ele designar uma espécie que todos nós conhecemos (se não é que quase todos nós somos mesmo): pessoas que antepomos a lógica da ciência (ou o que pensamos ser isso) à lógica dos usos sociais da ciência. E que, por isso, desenhamos programas, cursos, pós-graduações, mestrados e doutoramentos (que, agora, vai dar quase tudo ao mesmo) sem ter na menor conta aquilo que a sociedade (disse, a sociedade, não disse o mercado) realmente pede (ou não pede, mas devia pedir, se desculparem o vanguardismo...).
Mas o Engenheiro disse mais. Disse que o mal é que estes sábios se estavam a preparar sofisticadamente para o futuro, quando a nossa sociedade ainda nem era do presente. E que, portanto, se devia fazer um downgrade das pretensões científicas e, em vez de trabalhar sobre semi-condutores, trabalhar sobre correias de transmissão e rodas dentadas (ele não disse isto assim, mas este era o espírito geral da coisa).
Claro que o Engº Ludgero Marques (...) tocou num ponto sério. A indústria portuguesa está antiquada. Parece que ele não crê que se possa modernizar tão depressa (...). E daí que, muito realisticamente, acha que o melhor é pôr as universidades e a investigação no mesmo passo da indústria. Que a primeira proposição é uma injustiça para com muitos empresários (a começar, porventura, por ele próprio), parece-me evidente. Que alguma coisa tem que ser feita para formar gente para uma indústria que é o que é, também é claro. Mas que isso implique que a universidade e ciência (?), no nosso país, devam eleger isso como seu objectivo maior é, para dizer o menos, uma irresponsabilidade.
O que é que isto tem a ver com a história?
Não, por certo, louvar as vantagens da arqueologia industrial, embora muita dessa tal indústria a que Ludgero Marques se refere deve ser preservada apenas para fins museológicos, incluindo no museu as instalações e as relações de trabalho correspondentes.
Mas tem a ver com uma pergunta mais fundamental para nós. Será que a história é um dos tais luxos a sacrificar às necessidades da sociedade? Ou, restringindo mesmo mais (para evitar qualquer espécie de "cultismo"), do mercado?
Não estou, por outras palavras, a falar de historiadores para museus, para arquivos, para dar aulas. Nem estou a falar no enorme campo de trabalho que as ideias de protecção do património trouxeram aos arqueólogos nesta nova maré fontista. Não. Estou a falar, carrément, da utilidade genérica dos historiadores como gestores e prospectores das relações sociais, ao nível dos serviços e das empresas.
Se é alguma coisa, o historiador é um técnico dos homens e dos tempos. Combinando, dos homens nos tempos, nas situações mutáveis das vidas e das sociedades. Disso, viu o historiador muito. E, se não esgotou a sua curiosidade (ou não foi convidado a isso pelos seus formadores) num mero saber passadista e descritivo, deve ter ideias, pressentimentos, sensações, sobre muitos modelos de sociedade, muitos modelos de cultura, muitos modelos de comportamento humano e muitos modelos de relacionamento de todos os anteriores modelos. Como sabe muito sobre o passado dos homens, o historiador tem um material notável para, sobre ele, fazer elaborar a imaginação e a inteligência. Uma imaginação e uma inteligência, ambas prospectivas, voltadas para o futuro, para aquilo que há-de ser, mas que os empresários, frequentemente, não sabem ler nos seus saberes técnicos, da terceira, da segunda ou ainda mesmo da primeira geração industrial.
Numa época de pluralismo sócio-cultural e de mudança imprevisível como a nossa, esse saber é de capital importância para o tecido empresarial, contar com estes técnicos da inteligência e da imaginação sobre o humano pode ser fundamental. Não me refiro apenas às vantagens da sua presença nas equipas de planeamento estratégico. Refiro-me também à importância que podem ter a escalões menos altos, ao nível da gestão corrente das relações humanas (no âmbito da empresa, com o mercado) ou das relações com a sociedade e com o homem.
E a prova provada disto é a tendência verificada, também em Portugal, para o aumento da procura de historiadores para o desempenho de perfis profissionais que nada têm a ver com a história.
Claro que, para isto, algo se tem que fazer na formação dos historiadores. A liquidação do mau positivismo (...), a habituação trans-cultural, a percepção de constantes na evolução, a capacidade de extrapolar com agilidade do passado para o presente- usando o passado, não como um modelo, mas como uma chispa da imaginação prospectiva-, a sensibilidade para as especificidades e constrangimentos das conjunturas, tudo isto são valores a cultivar no ensino da história, dirigido a estas novas funções. Valores que, bem vistas as coisas, são funcionais mesmo em relação às rotas palmilhadas por Clio".

(Sublinhado nosso)

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dezembro 22, 2003

A CIVILIZAÇÃO ISLÂMICA VISTA POR CLÁUDIO TORRES. ENTREVISTA (5)

Concluímos hoje a edição da entrevista ao arqueólogo Cláudio Torres. Nesta parte restante são dadas respostas a:

15. Voltando à ciência e ao conhecimento. Há um florescimento extraordinário da ciência, da própria filosofia, do estudo, de uma convivência do livre pensamento até ao século XIV. E depois parece que há um corte. As grandes figuras, Averróis, Avicena, Ibn Khaldun, os grandes viajantes, o Ibn Battuta, são todos até ao século XIV. Depois parece que há um corte...

16. Está a falar das repúblicas marítimas veneziana, genoveza, Amalfi, etc, e depois da Espanha e de Portugal... Todos vão estrangulando...

17. Isto é: enquanto há crescimento no Norte, o mundo islâmico vira-se para dentro...

18. Só que diante desse ataque há muita coisa que se vai perdendo. Por exemplo, o velho conceito de cidade-mosaico mediterrânica está praticamente destruído...

19. A queixa permanente que se ouve um pouco por todo o lado é que os árabes não se unem. E a verdade é que olhando a história, vemos sempre muitos conflitos.

ENTREVISTA COM CLÁUDIO TORRES

15. Voltando à ciência e ao conhecimento. Há um florescimento extraordinário da ciência, da própria filosofia, do estudo, de uma convivência do livre pensamento até ao século XIV. E depois parece que há um corte. As grandes figuras, Averróis, Avicena, Ibn Khaldun, os grandes viajantes, o Ibn Battuta, são todos até ao século XIV. Depois parece que há um corte...

E há. Temos de ver que todas essas e muitas outras figuras são os últimos representantes da cultura mediterrânica. A sua base filosófica vai beber a Aristóteles, a Platão. Eles foram os herdeiros de toda a cultura milenar do Mediterrâneo. Dos grandes sábios do Egipto que hoje conhecemos mal ou que desapareceram. Toda a ciência do Egipto, da Mesopotâmia, grega, latina, está neles condensada. Não só a conhecia, como foram os seus tradutores para o árabe, de onde passou depois para as línguas latinas ou neolatinas. Eles são o repositório desse passado. De certa forma, estes sábios marcam o final da sua própria civilização e o lançamento de uma ponte para a Europa moderna. E de facto é nas cidades-Estado, nas repúblicas italianas, que surge essa viragem. Ainda fortemente ligadas ao mundo do Sul, ao mundo islâmico, estão também em contacto com uma nova riqueza e muito poder que chega das extensas e fartas planícies europeias. A partir dos séculos XIII-XIV, esta Europa feudal já impulsionada pela burguesia nascente, expande-se para Sul. É o que sucede na França e na Península Ibérica. Na altura, era no al-Ândaluz que florescia a civilização mais avançada da sua época. Não há dúvida que esta civilização brilhante foi sendo integrada e assimilada pelos recém chegados do Norte, o que justifica a importância histórica da Península Ibérica nos tempos que se vão seguir. Era impensável de outra forma. A expansão europeia não acontece em Londres ou Paris e sim nas orlas do Sul, em Sevilha ou Lisboa, cidades que herdaram os saberes mediterrânicos.
Mas também é preciso notar que a lógica económica dos mercados mediterrânicos estava a esgotar-se. Eram cada vez mais difíceis os caminhos da seda, do ouro e das especiarias. E a nova Europa, enriquecida com os saberes mediterrânicos precisa de expansão rápida, tem necessidade de atingir os grandes mercados do Oriente. Não é por acaso que andam todos em busca do caminho para a Índia. Os percursos do interior estavam esgotados. Havia um certo marasmo, as mercadorias chegavam a preços altíssimos. De repente há uma explosão, em que a parte mais dinâmica da sociedade, a burguesia mercantil- muitos deles antigos muçulmanos ou judeus convertidos à nova ordem- se lançam na aventura marítima, na conquista de todo o mundo. É uma época em que a Europa é inundada de grandes riquezas vindas do saque de outros continentes, levando à marginalização das antigas redes comerciais mediterrânicas e portanto ao empobrecimento dos países islâmicos.

16. Está a falar das repúblicas marítimas veneziana, genovesa, Amalfi, etc, e depois da Espanha e de Portugal... Todos vão estrangulando...

Vão estrangulando. Estes centros de expansão comercial marítima, tinham consolidado a sua rectaguarda. É o caso de Veneza com as planícies riquíssimas do Veneto que a rodeiam a Norte. É uma espécie de gigantesco anfiteatro com águas correntes dos Alpes... Assim como Génova, apertada entre as rochas do seu porto... e que no entanto domina um vasto território, com as planícies do pó e as ilhas da Córsega e Sardenha. De antigas cidades-Estado, passam a poderosos Estados modernos. A constituição destas nações ibéricas e italianas, com vastos territórios e viradas para o comércio mundial vai desviar e secundarizar os circuitos antes dominados por Alexandria, Damasco ou Bizâncio.

17. Isto é: enquanto há crescimento no Norte, o mundo islâmico vira-se para dentro...

Vai enquistando. E é um processo que continua até aos nossos dias. A grande expansão começara nas repúblicas italianas, e depois prossegue pelas Descobertas ibéricas. Mas a pendulação histórica tem muitas variantes. Nunca sabemos qual poderá vir a ser no futuro um outro pólo de desenvolvimento. A África, as Ásias, a própria América do Sul, são zonas que ainda não tiveram historicamente a sua oportunidade de serem pólos agregadores de civilizações. Aquilo que se vai construindo passa-se como um testemunho a outras civilizações, a outros espaços.
Quanto ao Islão, à religião muçulmana, continua em expansão. E este é um facto indesmentível. É a única grande religião que mantém uma grande e rápida expansão. Pela sua espantosa simplicidade, pelos seus mecanismos de reconhecimento quase não-iniciáticos, toca muito fundo os mais desprotegidos, os mais explorados, os mais marginais. A grande marginalização que está a ser feita pela nossa civilização ocidental, a empurrar os que não vencem, a esmagar os mais fracos, a atirar para o lixo milhares ou milhões de pessoas e de povos, está a alimentar o Islão na sua faceta de protesto, de porto de abrigo, de defesa contra uma agressão cada vez mais violenta. Um Islão que era um imenso mosaico de povos, de culturas, de formas de ser, mesmo de micro-religiões, está a ser empurrado pelo autismo desta nossa civivilização todo-poderosa para uma agressiva resistência, como única de forma a manter alguma identidade.

18. Só que diante desse ataque há muita coisa que se vai perdendo. Por exemplo, o velho conceito da cidade-mosaico mediterrânica está praticamente destruído...

Pois está. Mas aí entra um outro fenómeno dramático que aconteceu já há 50 anos, que foi a criação de Israel. Não podemos acusar os judeus ou o judaísmo. Foram os grandes interesses financeiros já ligados ao petróleo que criaram o Estado de Israel. Os judeus das cidades mediterrânicas que tinham os seus bairros, os velhos melahs (que eram zonas originalmente dedicadas ao comércio do sal), foram obrigados a abandonar as suas casas e a emigrar para Israel com promessas miríficas.
Esta deslocação artificial de populações e a crescente e falsa tensão religiosa alimentada de fora do Mediterrâneo é infelizmente hoje o modelo que domina toda a região. Esta luta feroz entre as populações autóctones e os recém-chegados, oriundos da América do Norte ou de países eslavos, nascidos e criados em culturas que nada têm a ver com os antigos equilíbrios locais, é hoje, infelizmente, dominante em todo o Próximo Oriente. Estamos num impasse sem solução à vista. Precisamente porque foi quebrada a velha civilização mediterrânica, onde as várias religiões e culturas sempre conviveram mais ou menos pacificamente.

19. A queixa permanente que se ouve um pouco por todo o lado é que os árabes não se unem. E a verdade é que olhando a história, vemos sempre os mesmos conflitos.

O problema é que nós misturamos tudo de uma forma muitas vezes inconsciente. Não se trata de árabes, mas de muçulmanos. Falar assim da união de árabes é a mesma coisa que estarmos a perguntar porque é que os franceses, os ingleses e os espanhóis não se uniram na história, se eram todos cristãos. É completamente impossível: são civilizações diferentes. Cada cidade tinha a sua própria história. O que é que tem a ver um egípcio com um libanês? Muito pouco. E um egípcio com um marroquino? Nada, absolutamente nada, a não ser a mesma religião. São povos e culturas diferentes. O que hoje os une é apenas a religião, o que a está a transformar no único cimento unificador. Não nos podemos esquecer que o árabe falado em Marrocos era incompreensível no Egipto, não se entendiam porque falavam árabes dialectais. Era como aqui na Europa. Porque é que um português e um francês não se entendem? A origem é o latim, mas depois evoluíram de forma diferente. A mesma coisa sucedeu no Norte de África.
Mais tarde e com objectivos políticos, começou a ser imposto o árabe clássico. Era a mesma coisa se nós na Europa tivéssemos o latim obrigatório. Teria toda a gente de aprender latim para comunicar entre si. Foi o que fez este movimento unificador religioso do árabe, que está a aumentar exponencialmente. Neste momento, toda a gente fala árabe clássico, pelo menos na classe média alta. A escolarização é feita em árabe clássico, corânico.

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DO CONGRESSO DOS COMBATENTES AO MOVIMENTO DOS CAPITÃES: o princípio de uma ampla mobilização

Com este post terminamos a edição do texto principal de Maria Inácia Rezzola. As "caixas" nele incluídas serão ainda alvo de apresentação.
No ponto em anexo temos como ideia norteadora: a evolução da justificação da existência do Movimento dos Capitães.
Se inicialmente este se formou, mobilizado por questões de ordem corporativa, com a sua crescente politização, logo a questão da guerra e o problema colonial assumiram um papel crescente. Nesta sequência, a própria decisão de derrube do governo.
A autora destaca ainda, por forma a complementar este panorama condutor ao Golpe de Estado, a síntese elaborada por José Medeiros Ferreira, que acrescenta: as demissões dos generais Costa Gomes e António de Spínola, o apoio dos velhos generais a Marcelo Caetano (conhecido episódio da "Brigada do Reumático"), assim como razões de ordem económica: choque petrolífero e desvalorização do escudo.

DO CONGRESSO DOS COMBATENTES AO MOVIMENTO DOS CAPITÃES

O princípio de uma ampla mobilização

"A 28 de Agosto, por exemplo, 51 oficiais em comissão de serviço na Guiné enviam a várias individualidades (Presidente da República, Presidente do Conselho e Ministro da Defesa e Exército) uma exposição em que se dizem "feridos no seu prestígio" profissional. Seguem-se idênticos documentos de oficiais de Angola e Moçambique. Era o princípio de uma ampla mobilização que levará nomeadamente a que, nos primeiros dias de Setembro, seja distribuída em algumas unidades uma circular equacionando as questões básicas com que os oficiais de carreira se confrontam, e apelando ao desenvolvimento de contactos e ao aprofundamento da reflexão sobre que atitude tomar. "Estavam criadas as condições para que o "Movimento dos Capitães" surgisse como expressão concreta e organizada de um processo que tomava foros de prova de força entre os oficiais mais jovens e o próprio Governo". É neste contexto que, a 9 de Setembro, Diniz de Almeida, Vasco Lourenço, Simões, Camilo e Bicho Beatriz promovem a realização de um encontro, em Alcáçovas, de 136 oficiais, com o objectivo de preparar um acto de repúdio ao governo que o obrigasse a reconsiderar a sua posição e a rever os diplomas. Uma reunião agitada, com fortes debates, nomeadamente quanto às acções de protesto a desenvolver, que acabará por marcar o início simbólico da conspiração dos capitães. No final, acorda-se enviar um abaixo-assinado a Marcelo Caetano manifestando os seus protestos e esperando a rápida anulação dos decretos-lei.
Por tudo isto, é fácil concluir que a mobilização em torno do Movimento dos Capitães apresenta características bem diversas das verificadas quando do Congresso dos Combatentes. Antes de mais, porque os spinolistas são ultrapassados em todo este processo; depois, porque esta mobilização é ditada, em última análise, por razões estritamente corporativas. Os próprios resultados do encontro em Alcáçovas apontam nesse sentido. Depois de grande debate, em que são discutidos os problemas da classe e as consequências da aplicação da nova legislação, chega-se a uma plataforma de entendimento quanto ao próximo passo a dar: enviar um abaixo-assinado a Marcelo Caetano pedindo a revogação dos decretos-lei. Isto leva-nos a concluir que na origem da mobilização dos jovens capitães estão, sem dúvida, questões profissionais, e a concordar com Medeiros Ferreira quando caracteriza a primeira fase do movimento conspirativo como sendo uma fase essencialmente corporativa. Diniz de Almeida reforça esta nossa tese ao observar que a "recusa da guerra colonial, como facto mobilizador, ainda que fosse inicialmente possível, contaria exclusivamente com o apoio minoritário, embora valioso, dos oficiais operacionais mais progressistas". Assim, as questões profissionais e do prestígio da instituição acabarão por funcionar como elementos congregadores e unificadores para uma classe claramente despolitizada e pouco dada a actos de insubordinação, permitindo progressivamente o alargamento do movimento contestarário.
Refira-se, no entanto, que apesar de terem sido razões corporativas que levaram à mobilização e criação do Movimento dos Capitães, ele resistirá à própria suspensão dos decretos e à exoneração do Ministro do Exército e da Defesa, em Outubro de 1973. De facto, a vastidão do protesto impedira qualquer medida repressiva levando o governo a optar pelo recuo em todas as frentes. A prova mais óbvia de que o regime acreditava na natureza puramente corporativa do movimento de contestação reside no facto de, em finais do ano, prometer uma melhoria substancial dos vencimentos dos militares. Era já tarde. Nesse momento o Movimento evoluíra deixando as iniciais reivindicações de carácter corporativo de ser fundamentais. Crescentemente politizado, o Movimento tinha um outro carácter: a questão da guerra e o problema colonial passam a estar no centro das suas atenções, acabando por conduzir, posteriormente, à própria decisão de derrubar o regime. Os autores são unânimes a este respeito.
Sánchez Cervelló, por exemplo, é peremptório em afirmar que "o golpe de Estado de 25 de Abril de 1974 teve como motivo essencial a resolução da questão colonial". Posição semelhante é a de António Reis, para quem o 25 de Abril foi "uma revolução autonomamente dirigida por militares com o objectivo prioritário de encontrar uma saída política para o impasse colonial", considerando que, em última análise, a contestação corporativa dos primeiros momentos "acabou por se revelar um mero pretexto para acelerar e cimentar um processo de contestação à política colonial do regime". Em suma, sintetiza José Medeiros Ferreira, numa análise global que tem em conta estes e outros factores fundamentais na queda do regime marcelista: "como circunstâncias detonadoras do derrube do regime político, havia o cansaço da guerra por parte dos oficiais das Forças Armadas, a alteração das regras de acesso à carreira militar, a constituição do MFA, o mal- estar provocado pelas demissões dos generais Costa Gomes e António de Spínola da chefia do Estado-Maior General das Forças Armadas (...), a cena palaciana da "brigada do reumático" com os velhos generais do regime em apoio de Marcelo Caetano e, para os cultores das razões económicas, o clima gerado pelo já referido choque petrolífero do ano de 1973, com a subida do preço do barril de petróleo e a consequente desvalorização do escudo".

(p. 42-43. Sublinhado nosso)

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DO CONGRESSO DOS COMBATENTES AO MOVIMENTO DOS CAPITÃES: fraqueza do regime

Retomamos a edição do texto de Maria Inácia Rezzola, intitulado "Do congresso dos combatentes ao movimento dos capitães", cuja última parte foi apresentada no passado dia 06.
No ponto que hoje se acrescenta (dando continuidade ao texto) são de destacar a publicação do Decreto-lei nº 353/73, de 13 de Julho e Decreto-Lei nº 409/73, de 20 de Agosto, causadores de descontentamento e instabilidade em/entre alguns daqueles que por si eram atingidos.
Seriam, pois, para alguns, mais uns contributos para o desenvolvimento do Movimento dos Capitães.

DO CONGRESSO DOS COMBATENTES AO MOVIMENTO DOS CAPITÃES

Fraqueza do regime

"Paralelamente, assinale-se que todo este episódio deixa inequivocamente transparecer a fraqueza do regime. Isto porque, apesar da mobilização desse grupo de oficiais do Quadro Permanente e do consequente esvaziamento do Congresso, o poder não reage, num sinal evidente de que o terreno era propício a futuras mobilizações e iniciativas.
Finalmente, refira-se que Congresso dos Combatentes oferece o pretexto para uma acção política colectiva, isto é, apesar de lhes ser interdito regularmente, os oficiais apercebem-se na importância de assumir atitudes colectivas e da sua possibilidade. Consciencializados acerca da necessidade de se unir e debater os seus problemas, nomeadamente os decorrentes da guerra, muitos oficiais começam a pensar na forma de se organizar, colocando-se perante o dilema de aderir a organizações já existentes, ou, em alternativa, criar uma associação nova na qual se sentissem verdadeiramente representados. O surgimento dos célebres decretos-lei do Verão de 73 acabará, no entanto, por alterar o rumo dos acontecimentos levando a que, apenas indirecta e marginalmente, o factor guerra contribua para a mobilização da oficialidade.
De facto, em resposta à necessidade de quadros para continuar o esforço de guerra, a 13 de Julho de 1973 é publicado o decreto-lei nº 353/73, que permite a passagem dos oficiais do Quadro Especial de Oficiais (QEO) aos quadros permanentes das armas de infantaria, artilharia e cavalaria, mediante a frequência de um curso intensivo na Academia Militar. Em última análise, alterando a contagem da antiguidade dos milicianos que optassem por ingressar no Quadro Permanente, e reduzindo a duração do curso da Academia para os milicianos, a aplicação deste decreto significava uma radical mudança na progressão da carreira até aí praticada, favorecendo os milicianos em detrimento dos oficiais oriundos de cadetes. A reacção destes últimos era inevitável: o decreto-lei 353/75 retirava-lhes alguns dos privilégios adquiridos, e reconhecidos, pelo facto de terem frequentado a Academia Militar e de serem oficiais de carreira. Em última análise possibilitava-se que os milicianos ultrapassassem os oficiais de carreira.
Não é pois de estranhar que Otelo Saraiva de Carvalho considere o diploma como o "verdadeiro rastilho para a criação do Movimento dos Capitães", comparando o decreto-lei nº 353/73 a uma "pequena bola de neve que, rolando, daria lugar à avalancha e à queda de um regime ditatorial de direita, velho de quarenta e oito anos (...). Os jovens leões rugiram, manso a princípio. Ganhando consciência da sua força foram deitando as garras de fora e, rugindo mais forte, lançaram-se ao ataque. A partir daí, quem poderia realmente travar o seu desenfreado golpe?"
Em termos práticos, uma das primeiras iniciativas de contestação foi a levada a cabo pelo capitão Morais da Silva ao elaborar uma exposição-tipo de protesto. A adesão ao documento transcende todas as expectativas. Inquietos com esta reacção, os oficiais oriundos de milicianos fazem divulgar dos documentos atacando os primeiros ("Estagnação ou progresso" e "Dos Espúrios aos puros"). No entanto, consciente dos perigos que a situação encerrava, o próprio regime será obrigado a recuar.
De facto, a 14 de Agosto, discursando na Escola Prática de Infantaria, Sá Viana Rebelo admite terem-se verificado algumas situações que não estavam previstas na aplicação do decreto-lei. Dias depois é publicado o decreto-lei nº 409/73 (de 20 de Agosto) que dó nova redacção aos artigos 3 e 6 do decreto-lei 353/73. No entanto, e apesar desta rectificação solucionar o problema da ultrapassagem dos oficiais superiores (majores), a injustiça relativamente aos capitães e subalternos do quadro permanente mantém-se. Por outro lado, a questão do prestígio da instituição também não é resolvida. Neste contexto, ao invés de acabar com a contestação, o diploma rectificativo contribuirá grandemente para a adensar."

(p. 41-42. Sublinhado nosso.)

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LEITURA(S) PARA OS DIAS DE HOJE. O LUGAR DA HISTÓRIA: considerações de António Manuel Hespanha

Na sequência de um excerto ontem editado (citação do autor)- que corresponde, aliás, ao 1º parágrafo do texto hoje apresentado-, deixamos para consulta o artigo integral de António Manuel Hespanha, intitulado "Para ler os tristes dias de hoje".
Publicado na revista História de Maio de 2003, chama o seu conteúdo a atenção, num contexto internacional de guerra, para aspectos ou regras que devem ser atendidos e seguidos pelos historiadores, no sentido de explicarem acontecimentos verificados nos dias de hoje.
Especificando situações que se encontram directamente relacionadas com contextos de conflito armado, não deixa o autor de alargar o seu âmbito para aquela que é a generalidade da compreensão de civilizações diferentes da ocidental.
Neste sentido, as abordagem feitas desenvolvem as seguintes problemáticas:

1. A crítica das fontes.
2. A diferente notoriedade da verdade "dos factos".
3. A questão da diferença.

(HESPANHA, António Manuel- "Para ler os tristes dias de hoje". In: História. Ano XXV (III Série), nº 56, Maio 2003, p. 18-19)

PARA LER OS TRISTES DIAS DE HOJE

"A história- já o escrevi aqui por demais- não é, nem a mestra da vida, nem um seguro contra o erro. Mas tem regras úteis para ler as coisas de modo menos arbitrário. Os historiadores conhecem-nas, embora em grau diverso.
A primeira diz respeito à crítica das fontes. Nem todos os documentos são "verdadeiros". A guerra sempre teve a verdade como a sua primeira vítima. As palavras, escritas, cantadas ou difundidas em briefings, sempre foram uma arma, hoje das mais temíveis e de destruição (moral) mais massiva. Por vezes a falsificação dos documentos é tão grosseira que o inimigo tem vantagem em mostrar rapidamente ("olhem como eles são mentirosos!"). Outras vezes, é mais insidiosa, legitimada por ares de serena pompa, por apresentações em Powerpoint ou por animações tecnologicamente sofisticadas. As falsificações que mais temo são as dos chamados analistas independentes com que nos brindam todas as noites. Frequentemente, uns espertalhões de conhecidos engajamentos, mais uns militares de conspícua experiência bélica, quase todos a tirar o partido que podem da ignorância e da desgraça alheias. Tomar como verdades o que os contendores dizem- directamente ou por interposta pessoa- é, para qualquer historiador, um erro de palmatória.
De palmatória é também julgar que todas as verdades "dos factos" ganham a mesma notoriedade. Algumas são pura e simplesmente silenciadas, outras não têm força para se fazer ouvir. A vida quotidiana, feita de palavras em voo, foi sempre uma destas últimas. As opiniões das pessoas comuns, dos que não foram poderosos, cultos, ou ricos, têm tido o mesmo destino. Por isso é que a história "das mentalidades" surgiu contra a história "da cultura"; ou, mais recentemente, que a história oral surgiu contra a história feita à medida das fontes escritas; ou, ainda, que a história dos grupos "subalternos"- ou seja, daqueles que, por não dominarem os media, foram reduzidos ao silêncio- surgiu contra a história dos homens, dos brancos ou dos "normais. Hoje, os meios de produção de notícias (de "acontecimentos") estão tão desigualmente repartidos que as oportunidades de se ser sujeito da história nunca foram tão desiguais. Já vimos muitas vezes Donald Rumsfeld, mas nunca vi nem Noam Chomsky, nem Edward Said, nem Gunter Grass, nem nenhum dos muitos intelectuais dissidentes da guerra. Tal como os iraquianos nunca viram, na televisão deles, os opositores ao seu regime. Fartei-me de ver prisioneiros iraquianos em todas as posições e situações. Mas o acontecimento "prisioneiros" só apareceu quando apareceram imagens, também lamentáveis, dos prisioneiros americanos. Quanto aos que estão em vários Guatanamos, esses nunca os verei e, salvo em fontes de informação raras e de elite (como os relatórios da American Bar Association, a prestigiosa associação de advogados dos Estados Unidos), nunca serão acontecimento. Claro que posso- os iraquianos talvez não ...- andar a procurar uns e outros na Internet ou em jornais mais ou menos sofisticados e indisponíveis. Mas isso não muda uma vírgula quanto ao fundo do problema.
A terceira regra do bom historiador é lidar com o diferente. E, para isso, ser capaz de fazer a difícil operação intelectual que é, no conhecimento do outro, ir para além das suas aparências (ou das suas evidências). Nunca é demais repetir isto nos tristes tempos de hoje. Os média todos os dias constroem uma imagem dos contendores, mesmo quando não fazem senão filmá-los "como eles são". Nos nossos enterros, por muita raiva que tenhamos pela morte e por quem a causou, há uma serena compostura ritual. Não se grita, não se corre atabalhoadamente com o morto aos ombros, não se dão tiros para o ar, não se queimam, em pleno féretro, as efígies do condutor bêbado ou do médico incompetente. Hoje, não temos mártires entre nós, apesar de os continuarmos a honrar nos altares e nos panteões, como santos e como heróis. Mas, se os tivéssemos, não os poríamos na televisão, transmitindo, em carne viva, a sua determinação suicida. As nossas manifestações são organizadas e marcadas pela moderação das palavras de ordem. Os nossos líderes não antecedem cada intervenção com uma invocação de Deus e, de qualquer modo, o nosso Deus chama-se mesmo "- Deus", como Deus manda, não dando por esse nome de Alá, que nos remete para medos atávicos. Alguns dizem que tudo isto acontece, porque somos mais civilizados (ou mesmo, apenas civilizados). Pelo menos, assumem o seu etno-centrismo; embora não expliquem muito bem porque é que, depois de 200 anos de esforços violentos, o homem branco ainda não pôde descansar de transportar o seu fardo. Outros- como a generalidade dos bons historiadores a fazer história- preferem chamar a isto "diferenças culturais". Enfim, não exigem ao mundo muçulmano que tenha tido o nosso Iluminismo, a nossa Declaração dos Direitos do Homem, o nosso laicismo, as nossas boas maneiras, a nossa ritualização da morte, a nossa forma de exprimir sentimentos, a nossa maneira de sentir, a nossa geometria da alma, o nosso nome de Deus. Tudo tem de ser contextualizado, mediado pela inteligência da diferença, despido de preconceitos ocidentais, entendido num contexto cultural, social e político que não é o nosso, mas na construção do qual nós temos colaborado, desde há duzentos anos, raramente de forma exemplar.
Muitos pensarão que este afã de compreensão é a garantia da desculpa e o princípio da cumplicidade. Os historiadores sabem que, pelo contrário, tentar compreender é o corolário da sabedoria e o princípio da convivência. No caso dos historiadores, a questão é puramente intelectual. No caso dos leigos dos dias de hoje, é também existencial e moral. E, por isso, mais decisiva.
Uma nota final. O que aqui escrevo não é consensual entre os historiadores. Muitos pensam que, com esta querela dos métodos, a história perdeu em ligibilidade e que, por isso, perante a indecisão sobre quem tem razão, mais vale, neutralmente, contar as coisas "como elas realmente são (ou foram)". Como aquele vizinho que, ao descer as escadas, ouve um marido espancar a mulher. "Sei lá quem tem razão... Para que me vou meter nisto? Eles que se entendam, que devem estar um para o outro". Entretanto a mulher vai sendo normalmente espancada. Muitas vezes a mulher tem razão; quase nunca oferece um perigo que a tareia possa prevenir; e, de qualquer maneira, nunca por nunca deveria ser espancada. A mulher perdeu tudo- dignidade, paz, e, por vezes, a vida; mas o vizinho não sujou as mãos e continua a ser um cidadão que pode dar lições de neutralidade e de sabedoria aos que se metem nos insondáveis sarilhos dos outros".

(Sublinhado a negro nosso)

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dezembro 21, 2003

A PROPÓSITO DO GÉNERO BIOGRÁFICO- CITAÇÕES

1. "Uma colecção de grandes biografias esgotaria a história das nossas vidas? Diria alguma coisa sobre a vida real das pessoas reais do país real?"

2. "A "grande biografia" exige, em princípio, um "grande biografado" (pressupondo, naturalmente, que é escrita por um grande biógrafo). Na sua falta, a biografia transforma-se num acto de cruel assassinato de um personagem."

(HESPANHA, António Manuel- "O género biográfico em curso". In: História. Nº 41. Ano XXIV (III Série). Janeiro 2002, p. 16-17).

NOTA: O texto de onde foram extraídos estes excertos será editado na íntegra).

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LEITURA(S) PARA OS DIAS DE HOJE. O LUGAR DA HISTÓRIA- CITAÇÃO

"A história (...) não é, nem a mestra da vida, nem um seguro contra o erro. Mas tem regras úteis para ler as coisas de modo menos arbitrário. Os historiadores conhecem-nas, embora em grau diverso."

(HESPANHA, António Manuel- "Para ler os tristes dias de hoje". In: História. Nº 56. Ano XXV (III Série), Maio 2003, p. 18-19).

NOTA: O texto de onde foi retirado este excerto será editado na íntegra.

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A UTILIDADE DA HISTÓRIA E A ACTUAÇÃO DO HISTORIADOR- CITAÇÕES

1. "Será que a história é um dos tais luxos a sacrificar às necessidades da sociedade? Ou, restringindo mesmo mais, do mercado?"

2. "Como sabe muito sobre o passado dos homens, o historiador tem um material notável para, sobre ele, fazer elaborar a imaginação e a inteligência. Uma imaginação e uma inteligência, ambas prospectivas, voltadas para o futuro, para aquilo que há-de ser, mas que os empresários, frequentemente, não sabem ler nos seus saberes técnicos."

(HESPANHA, António Manuel- "Porque é que esta sociedade nos há-de querer?". In: História. Nº 44. Ano XXIV (III Série), Abril 2002, p. 16-17).

NOTA: O texto de onde foram retirados estes excertos será editado na íntegra.

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GALERIA DE PERSONALIDADES RELACIONADAS COM AS COLÓNIAS PORTUGUESAS (IGREJA E RELIGIÃO): Joaquim Teles Sampaio

TELES SAMPAIO. Fúria na Beira

"Foi um dos discípulos espirituais do bispo da Beira, D. Sebastião Soares de Resende, e um seguidor da sua cruzada social em Moçambique. Baseou-se no relato de missionários espanhóis para revelar numa homilia a ocorrência de um massacre de negros em Mucumbura.
Era pároco da Igreja do Sagrado Coração de Jesus de Macúti e tornou-se um dos protagonistas do conflito que pôs a comunidade branca da Beira em pé de guerra. Foi preso e julgado. Jorge Jardim era um dos seus adversários. Mas ele agia como se cumprisse uma missão sagrada.
O papa Paulo VI tinha-lhe dito a ele e ao bispo de Nampula, D. Manuel Vieira Pinto, em Setembro de 1971: "Vocês não saiam de Moçambique, nem que morram no vosso lugar!" O padre Joaquim Teles Sampaio teve de sair clandestinamente."

(ANTUNES, José Freire- A guerra de África. 1961-1974. Vol. II. Lisboa: Círculo de Leitores, 1995, p. 791).

Dois excertos extraídos de junto do depoimento de Teles Sampaio:

"Na homilía dominical revelou o massacre de negros em Mucumbura. Uma semana depois, a questão de admitir ou não a bandeira portuguesa dentro da igreja de Macúti deu origem a turbulência política e social na Beira. Foi preso, juntamente com o padre Fernando Mendes. Reclama a influência dos missionários, sobretudo dos padres brancos do cardeal Lavigerie."

(Idem, Ibidem, p. 971).

"Acha que Jorge Jardim inspirou as manifestações na Beira contra os padres, acusados de estarem do lado da Frelimo. Conseguiu sair clandestinamente de Moçambique e vir para Portugal. Foi posto na Igreja de Santa Isabel, em Lisboa, e relacionou-se com os católicos que promoveram a vigília pela paz na Capela do Rato, na passagem do ano de 1972 para 1973."

(Idem, Ibidem, p. 795)

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GALERIA DE PERSONALIDADES RELACIONADAS COM AS COLÓNIAS PORTUGUESAS (IGREJA E RELIGIÃO): Pina Cabral

PINA CABRAL. Bispo dos Libombos

"Ao serviço da sua fé, esteve em Moçambique a partir de 1967. Após a ascensão de Caetano, seu amigo, sentiu um ambiente de renovação social mas também de conflito político em que se envolveram missionários contrários à presença de Portugal. A missão anglicana no lago Niassa era a sua principal fonte de actividade e de preocupação. O bispo protestante Daniel Pina Cabral deu-se bem com Baltasar Rebelo de Sousa e estimulou a formação do clero natural de Moçambique."

(ANTUNES, José Freire- A guerra de África. 1961-1974. Vol. II. Lisboa: Círculo de Leitores, 1995, p. 769)

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dezembro 20, 2003

0 3Oº ANIVERSÁRIO DA FUNDAÇÃO DA LIGA INTERNACIONALISTA COMUNISTA: Portugal, Dezembro de 1973

Verificando-se hoje a comemoração na "Voz do Operário" em Lisboa, dos 30 anos sobre a fundação da Liga Comunista Internacionalista (LCI), originária do futuro PSR (Partido Socialista Revolucionário), editamos a cronologia que faz a ligação entre estes dois acontecimentos saída no jornal Público, num trabalho da responsabilidade de Maria José Oliveira (20/12/2003).

DA LIGA COMUNISTA INTERNACIONALISTA AO PARTIDO SOCIALISTA REVOLUCIONÁRIO

1969
No contexto da crise académica de Coimbra, João Cabral Fernandes, estudante de Medicina, e Francisco Sardo, aluno de Filosofia, organizam o Centro de Estudos Sócio-Económicos, que promove uma alternativa à esquerda dominante. Sardo viaja para França. Assiste, em Paris, a um comício da Liga Comunista Revolucionária (LCR) e reconhece empatia com as palavras de Daniel Bensaid e Alain Krivine, dirigentes da IV Internacional. Cabral Fernandes é detido durante a crise académica.

1970
O Centro de Estudos Sócio-Económicos edita clandestinamente o livro "Tratado de Economia Marxista", de Ernest Mandel. Cabral Fernandes é eleito para a direcção da academia coimbrã e organiza uma república de contornos inéditos- sem nome, mista e antipraxe.

1971
Dois jovens do grupo trotskista de Coimbra, Cabral Fernandes e Jorge Nabais, viajam para França, onde estabelecem relações com dirigentes da LCR. No fim do ano, Cabral Fernandes e José Falcão abandonam Coimbra e instalam-se em Lisboa. Sardo ruma para o Porto.

1972
São criados os Grupos de Acção Comunista (GAC) em Lisboa, Porto e Coimbra. Na capital, as acções centram-se na luta contra a guerra colonial e no Porto prosseguem intervenções junto do operariado e dos estudantes universitários. Uma cisão no grupo do Porto origina a criação da União Operária Revolucionária (UOR), que tem reservas sobre a IV Internacional e privilegia acções nos bairros operários. Francisco Vale, Heitor de Sousa, António Brandão e Adelino Fortunato dirigem a organização. Em Dezembro, na Capela do Rato, Francisco Lousã e Bernardo Vasconcelos e Sousa são presos, juntamente com mais de uma centena de activistas, numa vigília de contestação à guerra colonial.

1973
Três dirigentes dos GAC/Lisboa- Alfredo Frade, José Manuel Boavida e António Gomes- são presos durante a distribuição de panfletos. Durante o Verão, vários activistas trotskistas viajam para Paris. A 17 e 18 de Dezembro, em casa de Manuel Cavaco, em Peniche, os GAC reúnem-se naquele que será o encontro de fundação da Liga Comunista Internacionalista (LCI). Para o comité central são eleitos Cabral Fernandes, Faustino (um dos dirigentes do PAIGC em Portugal) e João Alcântara (Lisboa), Sardo e Ferreira dos Santos (Porto) e Carlos Queirós (Coimbra). O movimento lança um dos "slogans" mais ouvidos nas manifestações: "Nem mais um soldado para as colónias".

1974
A 23 de Abril, a LCI manifesta-se contra a guerra colonial na Cova da Piedade (foi a última acção política antes do 25 de Abril) e os participantes arremessam pedras às montras da filial do Banco Pinto de Magalhães. A queda da ditadura leva à reformulação da LCI e à reunificação com a UOR. São eleitos novos dirigentes para o comité central e estabelecido um funcionamento centralizado em Lisboa. Comício na Voz do Operário (dia 19 de Maio), com a participação de Ernest Mandel, da IV Internacional. O encontro é promovido por quatro grupos políticos de estrema-esquerda e acontecem alguns desacatos quando Sardo alude à "ditadura estalinista".

1975
Em pleno "Verão quente" realiza-se o II Congresso da LCI, no qual surgem quatro tendências e são apresentadas cerca de meia centena de moções. Vence a corrente liderada por Francisco Vale, que é favorável à integração da LCI na FUR (Frente de Unidade Revolucionária), grupo que inclui também o MES (Movimento da Esquerda Revolucionária), o PRP (Partido Revolucionário do Proletariado) e a LUAR (Liga Unitária de Acção Revolucionária). Em Agosto, a LCI constitui os SUV (Soldados Unidos Vencerão), grupos de militares que actuam no interior dos quartéis com vista a promover a auto-organização política dos militares. Os SUV actuam sob a direcção de Ferreira Fernandes, Manuel Resende, José Carvalho e Heitor de Sousa, entre outros. Face ao golpe militar do 25 de Novembro, a LCI desafia a proibição imposta às publicações de extrema-esquerda e no dia 26 lança para as ruas o nº 19 do "Luta Proletária", jornal oficial do movimento.

1976
No III Congresso da LCI, em Janeiro, é eleito um novo comité central (composto por Cabral Fernandes, Lousã, Frade, Brandão e Heitor de Sousa) e criticada a integração na FUR. Francisco Vale é um dos dirigentes que se afastam do partido. Em Abril, a LCI concorre às eleições legislativas (obtém precisamente 16 232 votos), mas vê os seus tempos de antena na televisão e na rádio serem suspensos por ordem do Conselho da Revolução (CR), que acusa o partido de criticar o militarismo. O CR acaba por recuar na sua decisão.

1978
Aquele que seria o IV Congresso da LCI torna-se no congresso de criação do Partido Socialista Revolucionário (PSR), fundado a partir da fusão da LCI com o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT). É lançado o jornal "Combate Operário". Uma das primeiras posições do PS foi a "luta contra o Governo de Mota Pinto, cujo objectivo é continuar a atacar os trabalhadores".

(Itálico nosso)

NOTA: Refere Maria José Oliveira que "Algumas destas informações foram recolhidas na publicação comemorativa dos 20 anos da LCI, editada pelo PSR em 1993, e em vários jornais da época.

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HISTÓRIA ECONÓMICA E SOCIAL PORTUGUESA

Deixamos registo do site da Associação Portuguesa de História Económica e Social (aphes). Nele, encontram-se reunidos os eventos mais recentes, os encontros realizados, assim como o boletim.

Site:
http://www.terravista.pt/Ancora/2370/

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MULHERES PORTUGUESAS NA GUERRA COLONIAL: o exemplo de Maria Estefânia Anachoreta (5)

Com este post terminamos a edição do texto de João Pombeiro relativo a Maria Estefânia Anachoreta.
Em anexo, o excerto restante referencia os últimos tempos de Maria Estefânia em Angola, o seu regresso forçado a Portugal por doença do pai, que viria a falecer pouco tempo depois, assim como a condecoração de que veio a ser alvo. Refere, também, a sua possibilidade de ida à Guiné, que nunca se chegou a concretizar, por recomendação do general António de Spínola.
A terminar, mais uma história reveladora da importância do trabalho que desenvolveu.

AMOR EM TEMPO DE GUERRA

"No início de Fevereiro de 1967, Maria Estefânia viaja até Sá da Bandeira. O tenente-coronel José António de Sousa Magalhães, do Regimento de Infantaria 22, recorda-se muito bem da visita da "senhora". "Colaborou e trabalhou muito. A sua estada, de dois ou três dias, marcou todos os soldados e oficiais. Ficámos muito gratos. Para sempre." Aos 83 anos, é visível a satisfação com que ainda conta essa passagem. Foi uma das últimas visitas de Maria Estefânia. A poucos dias de terminar o mês foi obrigada a voltar a Portugal. "Quando estava no Luso recebi a notícia da doença do meu pai." Assim que foi possível partiu de comboio para Luanda. "Só tenho pena de não ter ido ao Lobito e a Benguela", repete incessantemente. No aeroporto, oficiais e soldados esperam-na para uma despedida à altura da sua jornada. Ainda chega a Lisboa a tempo de ver o pai com vida. Faleceu a 28 de Fevereiro.
Depois de algum tempo de paragem para cumprir o luto pelo pai, Maria Estefânia Anachoreta vai pelo distrito confortar as mulheres. "Demorou muito entregar todas as mensagens. Em certos casos, quando as levava às mulheres já os soldados tinham regressado." A única condecoração pública estava guardada para Outubro de 1967, no salão nobre da Câmara Municipal de Santarém. Maria Estefânia é então agraciada com a Medalha de Mérito Feminino, entregue pelo general Amaro Romão, comandante da 2ª Região Militar. Estiveram presentes na cerimónia autoridades religiosas, militares e civis. Na portaria de louvor lê-se: "Louvada a senhora D. Maria Estefânia Machado Anachoreta [...] que revelou nobreza de carácter e espírito patriótico na missão que a si própria se impôs, não se poupando a sacrifícios de toda a ordem para com a sua bondade e gentileza incentivar o moral e ânimo dos soldados. [...] Deve ser apontada como exemplo das virtudes e mérito da mulher portuguesa."
Alguns meses depois da cerimónia, a representante do MNF encontra-se com o ministro do Ultramar, Joaquim Moreira da Silva Cunha, na Feira do Ribatejo. Na altura, em 1968, o ministro informa-a de que, depois do trabalho que tinha feito em Angola, o Exército estava disposto a transportá-la para qualquer outra provìncia. "Ainda lhe perguntei se sabia o que eu tinha feito em Angola." Depois de uma curta conversa, assegurou-lhe que iria preparar a viagem à Guiné- "era o país que estava pior". Uma preparação que durou pouco tempo. "Depois de avisar algumas mulheres do meu distrito de que iriam ter notícias da Guiné, recebo um telegrama do general Spínola. Não era oportuno ir à Guiné, avisou-me." Nunca cheguei a ir. Também nunca mais regressou a Angola.

Maria Estefânia nunca pensou que voltaria a contar esta história. Disse-o várias vezes ao longo da conversa. Foi entrevistada por Fialho Gouveia na RTP pouco depois do seu regresso. Desde essa altura contou-a apenas a amigos e familiares. As mais de três décadas que a separam de Angola remeteram tudo para o baú das boas recordações. Nesse final de tarde, na sua casa em Santarém, a luz natural já há muito deu lugar às luzes dos candeeiros. Dá mais uma volta pelas fotografias, pelo mapa amarelecido de 1965, pelos objectos oferecidos, e pede só mais um minuto. Volta à cadeira, onde tinha ficado um pequeno bloco preto, e repete uma das histórias que mais a comoveram. "Às 7h30 da manhã do dia 17 de Setembro de 1966 parti para Carmona. Passei a enorme regedoria do Caindo e parei no Bingo para visitar uma secção. Viam-se muitas senzalas por ali. Seguiu-se o Lige e parei no Negage. Finalmente cheguei a Carmona, onde o tenente-coronel Bagorna me apresentou ao sector. Só havia um soldado do distrito de Santarém. Falei com ele. Depois de ouvir a mensagem pediu-me o gravador. Abraçado a ele, vagueava por ali, sob o olhar dos colegas, a ouvir a voz da namorada. Não queria largá-lo. E ouviu, ouviu, ouviu. Sabe o que isso significava em Angola em 1966?"

(Itálico nosso)

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GALERIA DE PERSONALIDADES RELACIONADAS COM AS COLÓNIAS PORTUGUESAS (IGREJA E RELIGIÃO)-Luís Moita

LUÍS MOITA. Orar no Rato

"Era padre e no final de 1968 começou a protestar junto do cardeal Cerejeira. Tinha-se entusiasmado com o comunismo ao estudá-lo na Pontifícia Universidade Gregoriana. Desistiu dos votos em 1971, casou, tornou-se um marxista libertário e transitou para o mundo da irmandade com os movimentos nacionalistas. Luís Santos Moita foi um dos promotores da vigília da Capela do Rato, na noite de passagem de ano de 1972 para 1973. Estava preso em Caxias no dia 25 de Abril de 1974."

(ANTUNES, José Freire- A guerra de África. Vol. II. Lisboa: Círculo de Leitores1995, p. 647).

NOTA: O testemunho de Luís Moita será editado neste blog.

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dezembro 18, 2003

GALERIA DE PERSONALIDADES RELACIONADAS COM AS COLÓNIAS PORTUGUESAS (IGREJA E RELIGIÃO)- José Felicidade Alves

FELICIDADE ALVES. Escândalo em Belém

"Foi um protegido do cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira e foi expulso da Igreja, casou-se, tornou-se membro do Partido Comunista Português e não abdica da sua condição de padre. Nada no seminarista ordenado aos 23 anos fazia prever uma incontrolável revolta do pároco de Santa Maria de Belém, a paróquia do presidente da República. Mas a partir da guerra em Angola, José da Felicidade Alves não se coibiu de exprimir as suas críticas à guerra, à polícia política e à ortodoxia religiosa. As suas homilias da missa do meio-dia, na Capela dos Jerónimos, tornaram-se um escândalo político e social."

(ANTUNES, José Freire- A guerra de África. 1961-1974. Vol. I. Lisboa: Círculo de Leitores, 1995, p. 501)

Dois excertos do depoimento a editar neste blog:

"Pequenas heterodoxias começaram a crispar as suas relações com o cardeal-patriarca de Lisboa, seu protector. Com Salazar dava-se bem. Até que soube que lhe queriam armar uma cilada. Entretanto distribuiu pela paróquia um escrito do papa Paulo VI contra a guerra. A PIDE fez-lhe o cerco."

(Idem, Ibidem, p. 501)

"O caso Felicidade Alves era do domínio público e criava dores de cabeça ao Patriarcado de Lisboa. O cardeal Cerejeira escreveu a Marcelo Caetano: "A presença do padre Felicidade como pároco de Belém, bem o sinto, é escândalo público que é urgente terminar. E estava e estou disposto a resolvê-lo de vez [...]
A decisão de o remover foi tomada na ausência do padre Felicidade em Paris".
Quando regressou de Paris, e depois de ser avisado pela sua organização paroquial, conseguiu ganhar tempo apresentando-se na paróquia, para a qual Cerejeira já tinha nomeado outro. Mas em 7 de Novembro de 1968 foi demitido."

(Idem, Ibidem, p, 504)

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GALERIA DE PERSONALIDADES RELACIONADAS COM AS COLÓNIAS PORTUGUESAS (IGREJA E RELIGIÃO)- Malcolm McVeigh

MALCOLM McVEIGH. Caça ao missionário

"A difusão do protestantismo antecedeu a do catolicismo em Angola e as suas sociedades missionárias remontam ao século XIX. A Igreja Metodista, com a sua casa-mãe na América, tinha maior influência na área urbana de Luanda e a Igreja Baptista, depende da britânica Sociedade Missionária Baptista, detinha posições sobretudo no Norte.
Os missionários anglo-saxónicos, e especialmente os metodistas, tinham sido pioneiros nos campos da educação e da assistência social e hospitalar. Em Março de 1961 havia cerca de trezentos missionários americanos em Angola, a quem as autoridades e uma parte da comunidade branca atribuíram responsabilidades directas na doutrinação dos guerrilheiros. O número foi por isso rapidamente diminuindo.
Malcolm McVeigh, um [reverendo] metodista americano, narrou a sua experiência angolana a responsáveis do Departamento de Estado."

(ANTUNES, José Freire- A guerra de África. 1961-1974. Vol. I. Lisboa: Círculo de Leitores, 1995, p. 219).

NOTA: A narrativa desta experiência será editada neste blog.

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dezembro 17, 2003

GALERIA DE PERSONALIDADES RELACIONADAS COM AS COLÓNIAS PORTUGUESAS- Baltasar Rebelo de Sousa

REBELO DE SOUSA. Africanização

"O último ministro do Ultramar foi um filho espiritual de Caetano, que conheceu na Mocidade Portuguesa e secretariou no Ministério das Colónias. Fez a sua iniciação no Governo aos 34 anos, como subsecretário de Estado da Educação (1955-1961). Salazar nomeou-o governador-geral de Moçambique em 1968. Foi no Palácio da Ponta Vermelha um impulsionador da política social e da divisa autonomista de Caetano e coexistiu bem com o comando militar de Augusto dos Santos e Costa Gomes. Diz que quis estar do lado dos "índios", ou seja, conquistar os autóctones para a causa portuguesa. Em Novembro de 1973, depois de tornar-se ministro do Ultramar, pretendeu acelerar a estratégia de africanização, dando maior representatividade aos naturais.
Agravou-se a situação em Moçambique: demitiu o governador da Beira, Sousa Teles, quando foi a revolta branca contra os militares e planeava mudar os principais responsáveis no território. Baltasar Rebelo de Sousa, um dos lealistas de Caetano, pensa que o seu mestre e protector perdeu a grande oportunidade política quando não concorreu às eleições presidenciais de 1972."

(ANTUNES, José Freire- A guerra de África. 1961-1974. Vol. II. Lisboa: Círculo de Leitores, 1995, p. 869)

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GALERIA DE PERSONALIDADES RELACIONADAS COM AS COLÓNIAS PORTUGUESAS- António de Spínola

ANTÓNIO DE SPÍNOLA. As armas e a razão

"Ficou célebre no comando do Batalhão 345 em Angola, para onde foi voluntário em 1961, pelo seu carisma e pela sua valentia. Salazar enviou-o para Bissau, em Maio de 1968, quando a situação era dramática: o PAIGC, bem dirigido por Amílcar Cabral, apoderara-se de áreas significativas. Entrou de forma leonina no quartel-general de Bissau. Depurou, reorganizou, levantou o moral dos combatentes, rodeou-se de uma equipa imaginativa que o seguia fielmente e que nele condensou mais tarde as esperanças de um chefe à maneira do general Charles de Gaulle. De 1968 a 1972 tentou contrariar a eficácia de doutrinação e de combate do PAIGC, até se convencer da necessidade de uma saída através de conversações. Lançou uma obra governativa, explorou as dissensões entre etnias, estimulou a difusão da sua imagem até se tornar um caso de popularidade no País e no estrangeiro. As directivas secretas que a seguir se reproduzem ilustram o início da sua cruzada: usar melhor as armas mas ganhar os povos pela razão.
António Sebastião Ribeiro de Spínola, governador e comandante-chefe da Guiné, então com 58 anos de idade, acreditou seriamente na sua capacidade de fazer a diferença e no seu próprio mito."

(ANTUNES, José Freire- A guerra de África. 1961-1974. Vol. I. Lisboa: Círculo de Leitores, 1995, p. 343).

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GALERIA DE PERSONALIDADES RELACIONADAS COM AS COLÓNIAS PORTUGUESAS- Adriano Moreira

ADRIANO MOREIRA. Reformar e sair

"Este homem passou pelo Governo como um cometa mas marcou muito. Foi reformador, carismático, conflituoso e deram-no como potencial sucessor de Salazar- tudo isto em menos de dois anos. Como ministro do Ultramar, Adriano Moreira visitou Angola em guerra e Moçambique ainda em paz para dar confiança aos portugueses, aboliu o estatuto do indigenato e a obrigatoriedade da cultura do algodão. Parecia disposto a imprimir maior velocidade às mudanças em África quando se viu travado. Quem o demitiu foi Salazar, usando como pretexto um célebre conflito de competências com o general Venâncio Deslandes, governador de Angola, que deixou feridas nas Forças Armadas. Mas ele considera-se uma vítima dos lobbies económicos."

[Adriano Moreira- Ministro do Ultramar: 1961-1962]

(ANTUNES, José Freire- A guerra de África. 1961-1974. Vol. I. Lisboa: Círculo de Leitores, 1995, p. 269).

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GALERIA DE PERSONALIDADES RELACIONADAS COM AS COLÓNIAS PORTUGUESAS- Franco Nogueira

FRANCO NOGUEIRA. Integracionismo

"Era um liberal e autonomista, mas depois deixou-se arrebatar pelo magnetismo de Salazar e tornou-se um integracionista para quem a flexibilização do sistema ultramarino conduziria inevitavelmente à perda de África. Foi durante oito anos um ministro dos Negócios Estrangeiros tecnicamente hábil e um advogado competente, por vezes em situações de grande adversidade, da ortodoxia do Estado Novo. Ajudou a enfrentar a hostilidade da política anticolonial de Kennedy ao longo de uma época dramática (1961-1963) e a usar o trunfo da Base das Lajes para minorar os ímpetos de Washington. Desenvolveu, com razões para isso, uma cultura política antiamericana que era extensiva a muitos outros elementos da elite político-militar. Pediu a Caetano que riscasse a expressão "os novos Brasis", que o sucessor de Salazar tinha introduzido no seu discurso de posse. Ficou na periferia política. A partir de 1969, era administrador da Companhia de Caminho de Ferro de Benguela por parte do Estado, ia escrevendo a Caetano. Combateu as intenções de atribuir uma maior autonomia aos territórios de África e opôs-se à aproximação de Portugal à Comunidade Económica Europeia. Foi um dos herdeiros intelectuais do espírito e das ideias de Salazar.
Alberto Franco Nogueira (1918-1993), um diplomata e político de grande qualidade, não viu confirmado o seu temor de um assalto de Washington: em Abril de 1974 a capacidade de intervenção dos americanos na África portuguesa era tão diminuta que daí em diante só acumularam fracassos."

(ANTUNES, José Freire- A guerra de África. 1961-1974. Vol. I. Lisboa: Círculo de Leitores, 1995, p. 259).

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dezembro 16, 2003

GALERIA DE PERSONALIDADES RELACIONADAS COM AS COLÓNIAS PORTUGUESAS- Costa Gomes

COSTA GOMES. General paradoxo

"Foi um caso extraordinário de reabilitação política no Estado Novo. Era subsecretário de Estado do Exército e conspirou contra Salazar na tentativa neutralizada em 13 de Abril de 1961. Seis dias depois declarou, preto no branco, que a componente militar da guerra em Angola era apenas um dos problemas, e que estava longe de ser o mais importante. Foi posto numa prateleira, num quartel secundário em Beja, mas ressurgiu como Fénix das cinzas. Fez o curso de promoção a oficial general e em 1965 deram-lhe uma posição de comando em Moçambique, onde esteve quatro anos. Em 1970 foi para Angola, como comandante-chefe, considerando-se o general mais apto para o efeito. Reclama a paternidade do acordo com Jonas Savimbi e a UNITA e a alteração do esforço militar do Norte para o Leste. Mandou destruir sistematicamente, com desfolhantes, as plantações de mandioca que serviam de base alimentar aos grupos de guerrilha do MPLA e diz que a situação melhorou muito. Tornou-se chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, a partir de Setembro de 1972, e daí para a frente assistiu ao agravamento geral das condições militares em Moçambique e na Guiné. O general Francisco da Costa Gomes, responsável pela manutenção da disciplina nas Forças Armadas, deu razão aos capitães do movimento corporativo que derrubou o regime e justifica-se: andou a fazer a guerra para ver se os políticos encontravam uma solução política".

(ANTUNES, José Freire- A guerra de África. 1961-1974. Vol. I. Lisboa: Círculo de Leitores, 1995, p. 113).

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GALERIA DE PERSONALIDADES RELACIONADAS COM AS COLÓNIAS PORTUGUESAS- António Champalimaud

ANTÓNIO CHAMPALIMAUD. Pioneiro e capitão

"Iniciou em 1944 a sua saga africana e durante três décadas o seu grupo empresarial não cessou de crescer e de promover o desenvolvimento económico-social de Moçambique e Angola. Foi pioneiro das vastidões tropicais, um dos grandes capitães de indústria do pós-guerra, construtor de impérios. O Grupo Champalimaud controlava, em 1970, dois terços da capacidade instaladora da indústria e arrecadava três quartos das receitas da indústria em Portugal, agregava em 1973 doze empresas industriais, cinco companhias de seguros e um grande banco. As suas maiores empresas- Siderurgia Nacional, Cimentos de Leiria, Banco Pinto & Souto Maior, a Mundial e Cimentos Tejo- valiam em 1972, na Bolsa de Lisboa, mais de 40 milhões de contos. Do cimento ao alumínio, do aço ao carvão, da banca aos seguros, os seus interesses em África foram-se multiplicando e contribuíram para o boom económico dos territórios em guerra. António de Sommer Champalimaud, um homem de rasgos e visão estratégica, acreditou no futuro da África portuguesa quando Kennedy fez oposição a Salazar, tornou-se socialmente controverso devido a um famoso processo judicial, teve ambiciosos planos de expansão bloqueados por Caetano e por membros do seu Governo, viveu cinco anos exilado no México e voltou para Portugal algum tempo antes do golpe de Estado".

(ANTUNES, José Freire- A guerra de África. 1961-1974. Vol. I. Lisboa: Círculo de Leitores, 1995, p. 77)

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A CIVILIZAÇÃO ISLÂMICA VISTA POR CLÁUDIO TORRES. ENTREVISTA (4)

Retomamos a edição da entrevista ao arqueólogo Cláudio Torres. Desta vez temos respostas a:

10. Mas há períodos de transição que estão bem explicados, como o do feudalismo ao capitalismo...

11. Era isso que eu ia perguntar...

12. É criação posterior...

13. Mas não terá sido esse tipo de sociedade tributária que no início permitiu uma expansão tão rápida e que depois se transformou num entrave?

14. Mas Bagdad e Cairo não foram cidades muito grandes?


ENTREVISTA COM CLÁUDIO TORRES

10. Mas há períodos de transição que estão bem explicados, como o do feudalismo ao capitalismo...

Mas isso já faz parte da nossa pequena história moderna, é melhor conhecida, temos mais dados. Com as grandes civilizações do passado é diferente. É por isso que proliferam publicações esotéricas, à volta dos mistérios do passado, "das civilizações desaparecidas" e tudo isso, porque realmente há uma fraca explicação histórica. Por que é que o Islão ficou para trás e não deu o grande salto em frente para o progresso tecnológico e as ciências modernas? É um dos aspectos mais interessantes da história do Mediterrâneo. O que sabemos é que nestes territórios e sociedades é sensível o fenómeno de uma teimosia e extraordinária continuidade. Há um saber usar da civilização que é difícil encontrar noutros locais. Muitas vezes são as tais dúvidas que nos assaltam: para quê mudar se está bem? O que vemos hoje no mundo são as civilizações mediterrânico-muçulmanas que foram destruídas pela colonização europeia. São, muitas vezes, países artificiais, recortados pela colonização dos últimos dois séculos. Podemos hoje culpar o Império Otomano, por ter conseguido uma grande unificação?

11. Era isso que eu ia perguntar...

Mas o Império Otomano é, apesar de tudo, um falso império. Um império muito mediterrânico que, finalmente, prolonga no tempo o Império Romano, e sobretudo os restos do mundo Bizantino... É um império em que apesar de uma natural centralidade, soube, como todos os outros que o antecederam, manter as diferenças. Nunca tentou unificações forçadas e brutais. Completamente diferente de outros, seus contemporâneos, como o Império Espanhol na América Latina. O Império Otomano foi uma espécie de prolongamento da antiguidade até aos nossos dias, quando, já completamente descaracterizado, caiu de podre. E no entanto, durante vários séculos, foi um império tipicamente mediterrânico, formado por cidades e não por estados.
Não existiam países com[o] o Iraque, a Síria, o Líbano...

12. É criação posterior...

Toda a sociedade, e sobretudo os circuitos de poder, concentravam-se nas cidades, as velhas pólis. Mantinham-se as cidades-Estado na velha ordem do Mediterrâneo. Um poder tributário da cidade. Obviamente, a recolha dos impostos era feita por um representante do Império, apoiado nas suas tropas. Cada cidade, porém, com o seu mosaico de comunidades diferentes, mantinha uma certa autonomia política e religiosa.

13. Mas não terá sido esse tipo de sociedade tributária que no início permitiu uma expansão tão rápida e que depois se transformou num entrave?

É possível. Muitas vezes vemos que as grandes pulsões da história do homem são feitas pela miséria e pela necessidade. As grandes emigrações... Porque é que os irlandeses e muitos outros foram para a América? Pela fome, pela miséria total. Não tinham hipótese de sobreviver. Em que medida é que essa falta de necessidades, a ausência de uma miséria absoluta e a sólida estabilidade, a capacidade de ir mantendo as civilizações a nível médio não impediu uma mudança radical, arrastando-se até à decadência moderna?
Não queremos dizer que eram sociedades abastadas que viviam no luxo. Mas havia certamente um equilíbrio ecológico que permitia alimentar basicamente toda a população com uma qualidade muito maior do que possamos imaginar. A grande concentração da miséria é recente, nas cidades transformadas em megalópolis, com o abandono dos campos. Ora a cidade mediterrânica era uma pequena cidade, um núcleo humano equilibrado e não um monstro. Tinha entre os dois e os 10 mil habitantes, com a sua cintura alimentar, as suas hortas, as suas árvores de fruta, as zonas de sequeiro, as de pastoreio. É uma espécie de célula de sobrevivência. Este núcleo de civilização não encontramos no Norte feudal. O Mediterrâneo manteve-se agarrado a esta célula de civilização que foi a cidade, que praticamente só implodiu agora no século XX, com a concentração brutal dos expulsos da agricultura. Esta tendência concentracionária fez implodir uma estrutura económica que estava intacta há muitos séculos.

14. Mas Bagdad e Cairo não foram cidades muito grandes?

Momentaneamente foram cidades imperiais. E, como todos os impérios, fazem as grandes concentrações de poder: muitas tropas, a corte... Mas essa concentração é anormal. E quando acaba o império, dispersa-se outra vez. Só cidades como Alexandria ou Istambul foram sempre grandes cidades, porque foram a plataforma de circulação de grandes riquezas. Alexandria é a boca do Oriente e do Ocidente, do Mar Vermelho, das grandes rotas de toda a África. Assim como foi Bizâncio, entre o Oriente e o Ocidente. Porém, sempre foram aglomerados muito compartimentados em bairros especializados. A Roma imperial teve os seus momentos de glória com o Império. Mas na Idade Média era uma cidade secundária, alimentada apenas pelo pequeno aparato áulico do papado. Assim como Cartago, teve a sua importância momentânea. Córdoba foi a capital de todo o al-Ândaluz durante uns tempos, uma centena de anos. Mas é sempre um período efémero, retomando rapidamente a sua escala.

(Cont.)

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dezembro 15, 2003

CONSIDERAÇÃO PELOS CONCEITOS DE "ECUMENISMO" E "CIVILIZAÇÃO DO UNIVERSAL" NO COMBATE AO TERRORISMO NO PALCO DA HISTÓRIA- CITAÇÃO

"O problema está em saber- e esse é, quanto a mim, o sentido do "diálogo ecuménico"- se há entre os diferentes fiéis das diferentes religiões alguns valores comuns susceptíveis de serem partilhados. Ora, manifestamente, há. O sentido inato de justiça, o sentimento do bem, o amor pelo próximo, o respeito pela vida humana, a compreensão da unidade e comum destino do homem na Terra, nossa "casa comum", são valores partilhados por todas as religiões e culturas. São valoes que constituem um património comum- como os direitos do homem (...). Não é a civilização do Ocidente ou as civilizações do Oriente, as civilizações do Norte ou do Sul- mas a "civilização do universal", cujos valores são comuns a toda a Humanidade.
É essa civilização do universal que devemos invocar- e servir-nos de referência- na luta contra o terrorismo em que estamos legitimamente empenhados. Mas nessa luta não podemos sacrificar os valores que dela decorrem, nomeadamente os que têm a ver com a dignidade da pessoa humana, com o respeito pelos outros e com as garantias e liberdades dos que são acusados de terem cometido crimes, por forma a poder julgá-los com imparcialidade".

(SOARES, Mário- "Ecumenismo e civilização do universal" (Artigo publicado no semanário Expresso, em 24 de Novembro de 2001). In: Um mundo inquietante. Lisboa: Temas e Debates, 2003, p. 114-115)

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GLOBALIZAÇÃO. UM FENÓMENO INERENTE AO PROCESSO HISTÓRICO- CITAÇÃO

"Aquilo a que se chama globalização, como todos sabemos, representa um fenómeno histórico perfeitamente inelutável, que tem a ver com as grandes transformações tecnológicas, científicas e com a revolução informática, das últimas décadas, mas também com a natureza especulativa que tem vindo a assumir o capitalismo, no seu estádio actual.
Tratando-se de um fenómeno inelutável, não tem sentido ser contra a globalização, da mesma maneira que não se pode ser contra a força da gravidade. Mas tem sentido procurar introduzir-lhe regras, lutando- como disse Mary Robinson em Porto Alegre, com a autoridade de comissária da ONU para os Direitos Humanos- por uma "globalização ética". Isto é: capaz de englobar uma dimensão de justiça social, de respeito pelos Direitos Humanos e também ambiental, tentando preservar os equilíbrios ecológicos da natureza."

(SOARES, Mário- "Um mundo de complexas relações internacionais" (Tópicos de uma conferência realizada na Universidade Complutense em Madrid, em 5 de Março de 2002). In: Um mundo inquietante. Lisboa: Temas e Debates, 2003, p. 54).

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dezembro 14, 2003

MIGUEL SOUSA TAVARES SOBRE "EQUADOR": de novo em entrevista (2)

Terminamos com este post a entrevista a Miguel Sousa Tavares.
Chamamos a atenção para alguns cortes havidos, atendendo ao facto de os conteúdos inerentes, não terem qualquer relação com os objectivos que nos propomos para a edição em causa.

ENTREVISTA COM MIGUEL SOUSA TAVARES
Texto: Isabel Coutinho

(...)

Quem tenha lido o livro e depois vá a S. Tomé sente que está a ver o que lá estava descrito. Mas falando das personagens. A dada altura do livro é referido o papel importante que algumas mulheres tiveram em S. Tomé durante determinado período histórico, nomeadamente fala na Ana Chaves e na Maria Correia. Mas as mulheres do livro não são personagens muito fortes.

Eu acho que são. Há um personagem fortíssimo, a Maria Augusta, que é um dos meus personagens preferidos. A Doroteia é uma personagem fortíssima. Doroteia por quem eu me senti forçado a puxar muito mais. A inglesa também é uma personagem muito forte.

A Maria Augusta apaga-se...

Apaga-se porque ele vai atrás da mulher fatal. Você tem a mulher fatal, tem um jovem anjo disponível que é a Doroteia e tem a mulher madura e inteligente que é a Maria Augusta. E dessas três ele escolhe a mulher fatal. Coisa que escolheriam 99 em cada 100 homens. [risos]

(...)

Estava a escrever a pensar num filme?

A pensar num filme, não. Mas estava a pensar em termos de imagem. Ou seja, que à medida que as pessoas fossem lendo as cenas sentissem quase como se estivessem lá dentro, que fosse fácil visualizar. Isso foi uma preocupação que sempre tive. Isso é uma escrita fílmica, sobretudo formada na imagem. A minha escrita tem muito a ver com o olhar. Tudo o que escrevo começa pelo olhar e pela memória do olhar que tenho sobre as coisas. Foi a memória do meu olhar sobre S. Tomé que me inspirou o livro. Queria transmitir às pessoas o que é que se sente no clima de S. Tomé, o que é a humidade, o que são as roças, o que são os mosquitos, o que é a malária, o que é o fundo do mar. Tudo coisas que fixei. A memória para mim é a maior ferramenta da escrita. A memória do olhar.

A memória das roças...

Quando lá estive, eram poucas as roças que estavam a funcionar. Eram roças exploradas por portugueses. O que mais me marcou foram os hospitais abandonados, as cadeiras dos dentistas, os vidros partidos, tudo com um ar pré-histórico mas que na altura deviam ser imponentes.

(...)

Este romance tem algumas descrições eróticas. Estava planeado na estrutura do livro ou o sexo foi algo que lhe apareceu?

O sexo apareceu-me tinha para aí 12 anos e desde então graças a Deus ainda não desapareceu. Portanto, acho que ele existe. Faz parte da vida como fazem os jantares. Também me pode perguntar porque é que faço descrições gastronómicas ao pormenor. Se eu estivesse a descrever na altura dos factos, o sexo não apareceria de forma tão crua. Embora o livro seja um romance com uma base histórica, é escrito hoje. Tive de resolver isso na minha cabeça. Não me ia pôr a escrever como se estivesse no século XIX, com a linguagem desse século. Seria absurdo. Portanto toda a linguagem do livro, todos os diálogos, é minha. Contemporânea. O sexo é meu. Contemporâneo.
E devo dizer que não é nada fácil escrever sobre sexo sem cair na ordinarice e na vulgaridade. O que é que se chama ao peito de uma mulher? Odeio a palavra "peito", "mamas" não é nada literário, "seios" de maneira nenhuma porque isso punha-me ao lado de escritores consagrados que usam muito a palavra. O mesmo para o sexo do homem. É terrível.

O que gostou mais de escrever no "Equador"?

O que me deu mais prazer escrever em todo o livro foi uma parte que já tinha escrita na cabeça desde o início. E esperei um ano e meio para a escrever: é a carta que Luís Bernardo Valença escreve ao rei D. Carlos. É aquilo que pessoalmente gosto mais do livro. Lembro-me que quando lá cheguei senti um prazer tão grande. Sentei-me ao computador, a seguir ao jantar e decidi escrever a carta para o rei. O meu prazer foi verdadeiramente físico, foi demente. Saber exactamente o que queria escrever e a fórmula como queria escrever foi imenso. E chegar ao fim e pensar: "Está acabado" (...)

E agora, qual é a sua relação com o "Equador"?

Depois, é engraçado, o livro morreu. Desde as revisões, que me custaram imenso, nunca mais o li. E estou convencido que nunca mais o vou ler na vida. Morreu mesmo. Está morto.

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MIGUEL SOUSA TAVARES SOBRE "EQUADOR": de novo em entrevista (1)

Na sequência das opiniões ontem editadas sobre o livro Equador, de Miguel Sousa Tavares e, conforme referido, a apresentação, hoje, da entrevista dada pelo mesmo ao jornal PÚBLICO e publicada no suplemento "Mil Folhas" (13 de Dezembro de 2003).
Pela extensão da entrevista, esta será editada em dois posts.

ENTREVISTA COM MIGUEL SOUSA TAVARES
Texto: Isabel Coutinho

Miguel Sousa Tavares não se considera nem escritor nem romancista. Gosta de contar histórias. Já as contou de muitas maneiras: com câmara de filmar, com máquina fotográfica, com reportagens, com livros de viagens, com histórias para crianças e, esta ano, com "Equador", o seu primeiro romance, publicado na Oficina do Livro. Sousa Tavares não sabe se este romance serviu a literatura, mas sabe que serviu a leitura. Deu horas de prazer a vários leitores. Anteontem realizou-se a festa de comemoração dos 100 mil exemplares vendidos. "Equador" está a ser traduzido na Holanda (Ambo/Anthos) e na Alemanha (na Bertelsmann), em espanhol, na editora Salamandra (a editora de Harry Potter) e será publicado no Brasil, pela Nova Fronteira. Considerado por uns, desprezado por outros, gerou debate. "Equador" é, sem dúvida, o livro do ano de 2003.

No final de "Equador", agradece a Francisco Xavier Mantero e conta que este lhe ofereceu um livro sobre S. Tomé que lhe inspirou esta história. Quem é este seu amigo e que livro era esse?

O Francisco Xavier Mantero é descendente de uma família de antigos colonos que tinham roças em São Tomé e no Príncipe. Foi por insistência dele que conheci aquelas ilhas. Ofereceu-me um livro sobre as condições de trabalho nas roças há cem anos. Foi escrito pelo avô dele, é um relatório que seria para o rei Dom Carlos. Como entretanto o rei foi morto, acabou por ser dirigido à Rainha Dona Amélia. Data do final da monarquia e descreve exactamente a posição portuguesa face às acusações inglesas. Foi aí que tropecei neste episódio da história de Portugal que desconhecia: houve um conflito com a Inglaterra a propósito do trabalho escravo na ilha de S. Tomé e Príncipe. Isso inspirou-me a história e a ilha inspirou-me o resto.

Visitou S. Tomé antes de começar a escrever?

Fui lá antes de escrever, visitei todas as roças que consegui.

Esteve lá quanto tempo?

Uma semana, quando tive a ideia de escrever o livro, nos anos 90. Depois comecei a recolher tudo o que conseguia que pudesse estar relacionado com o fundo histórico do livro, congeminei o enredo da história e finalmente criei condições na minha vida pessoal para que pudesse escrever. Enquanto escrevia, contratei uma licenciada em História, Ana Xavier Cifuentes, para verificar uma série de dados. Ela voltou a São Tomé, já em plena escrita do romance, para verificar qual era o nome antigo das ruas, para consultar o Arquivo Histórico de S. Tomé e Príncipe, etc.

Houve um episódio histórico que foi a visita do enviado da companhia inglesa Cadbury que se situa numa época anterior à da acção do romance. Mas o envio do cônsul inglês para S. Tomé e o que nos conta no livro é ficcionado.

O "Equador" tem partes verdadeiras e outras ficcionais. Há discursos de personagens e cartas que são textuais. Por exemplo, o relatório da reunião dos ingleses em Lisboa com os roceiros de S. Tomé é textual. A descrição de um dia de trabalho nas roças é tirada de um discurso de um roceiro. O discurso que faz o conde Sousa Faro (administrador residente da roça Água Izé) ao receber o príncipe Luís Filipe também é textual. O jogo do livro é ter partes factuais, históricas, e outras que são inventadas. Nunca existiu um governador daqueles, nunca existiu um cônsul residente de Inglaterra em S. Tomé, existiu sim um senhor Joseph Burtt que foi lá fazer duas inspecções, ali e em Angola. Uns personagens existiram e outros não.

Antes de começar a escrever já tinha a estrutura toda da história na sua cabeça?

Sabia como é que se ia desenvolver e como é que acabava. Depois foram-me aparecendo desvios, coisas que não estavam previstas. Por exemplo, a parte da Índia não estava prevista, a parte do julgamento também não estava prevista, o episódio com a Matilde em Lisboa também não estava previsto. São laterais, foram aparecendo à medida que achei que precisava de caracterizar melhor as personagens, de lhes dar enquadramento para sabermos de onde tinham partido até se juntarem todos em S. Tomé. Gasto quase 200 páginas até conseguir finalmente chegar a S. Tomé, e foi um dia de grande alegria aquele em que escrevi o último capítulo antes de Luís Bernardo desembarcar na ilha.

Vasco Graça Moura, numa das suas crónicas na revista "Os Meus Livros", defendeu que a parte da Índia britânica poderia constituir matéria de uma novela, que seriam 50 páginas a menos e o livro teria lucrado. Também achava pouco verosímil a cena em que Luís Bernardo Valença se despe do estatuto de governador para ser advogado de defesa em tribunal de dois negros fugidos de uma roça.

O romance tem liberdade criativa. Também acho pouco verosímel que a Catherine Earnshaw tenha voltado ao Monte dos Vendavais não sei quantos anos depois para se encontrar com o Heathcliff e serem felizes para sempre. Nos romances acontecem coisas que às vezes não acontecem na vida real.

Porque é que teve necessidade de incluir a parte da Índia?

Queria caracterizar os dois personagens. Sabia que a inglesa ia trair o marido e para isso era preciso dar historial àquele casamento. Qualquer coisa que pudesse justificar que um comportamento aparentemente irresponsável ou leviano. Porque ela não se torna aquela mulher assim sem mais nem menos. Depois, a Índia sempre me fascinou, e sempre me fascinou perceber porque é que os ingleses queriam governar a ingovernável Índia.

Teria sido possível escrever este livro sem ir a S. Tomé?

Não. Uma característica que sempre tive, e que tem a ver com o jornalismo, é saber descrever ambientes. E os ambientes descrevem-se vendo-os. Não é preciso vê-los longamente. Até tenho uma medida certa: bastam-me nove dias para conhecer um país. Por acaso na Índia estive três vezes e mais tempo. Mas bastaram-me nove dias para conhecer Goa.

Em S. Tomé, a praia de Micondó fica bastante afastada da cidade, o seu acesso é difícil. Mas no livro coloca o governador a ir lá muitas vezes tomar banho.

Isso foi uma opção pessoal, porque era a minha praia preferida, aquela que eu conhecia melhor. Quando o ponho a mergulhar ali, e ele descreve o que é mergulhar naquela praia... Eu fiz isso, eu sabia o que era aquele fundo do mar.

Para quem conhece S. Tomé pode parecer estranho que o Palácio do Governador fique distante da Sé Catedral, visto ficarem mesmo ao lado.

Sim, talvez. Confesso que tivemos bastantes dificuldades com a topografia de S. Tomé. Primeiro não encontrámos nenhuma planta da cidade. Nem lá, nem cá. Depois acontece que o nome das ruas mudou duas vezes, com a república e com a independência. Descobrir o que é que correspondia a quê foi um trabalho bastante complicado. Eu sabia que haveria duas pessoas de S. Tomé que iriam dizer há aqui um erro, há ali um outro, agora não podia ficar bloqueado. Tinha de avançar.

Deu o livro a ler a alguém, além dos editores, antes de ser publicado?

Não, só à minha mulher é que dei algumas partes a ler para testar com ela. Mas vamos lá deixar-nos de rodeios e vamos aos erros históricos, que é o que as pessoas gostam de pegar. Quanto erros históricos tem o livro? Vinte e dois, que eu tenha detectado. Foram todos detectados por leitores. Recebi dezenas de cartas de leitores: uns corrigiam uma coisa, outros corrigiam outra. Outros mandavam correcções e não tinham razão. Não deve haver muitos escritores que se possam gabar de ter tido tamanho "feed-back" dos seus leitores, e todos de boa-fé. Depois há a crítica de má-fé. Sobre isso dizia no outro dia em Lisboa o peruano Vargas Llosa, acusado de ter erros históricos num romance, respondeu: "Pois é, mas não sou historiador, escrevi um romance histórico." Eu digo a mesma coisa.
Não me é cobrável o papel de um historiador. Fiz investigação histórica, tive o cuidado de pedir a colaboração de uma pessoa licenciada em História, agora não tive a pretensão de escrever um livro sobre história. Por exemplo, na revista "História" apontam-me um erro que é tratar os angolanos por angolares, mas nos textos da época os colonos portugueses chamavam angolares aos escravos angolanos vindos de Angola, indistintamente. Não inventei, tirei um texto da época. Outro exemplo: fomos a Vila Viçosa copiar um dos menus que lá existem que tivesse sido servido num almoço de caça. Chamaram-me depois a atenção para que havia um erro de ortografia no menu redigido em francês. Ora o erro é do "chef", porque nós limitamos a copiar o que lá estava.

O que é que foi emendado?

Fiz emendas das coisas absurdas, logo na segunda edição. A pior foi terem-me trocado o Cortez pelo Colombo. Não sei de onde veio. E o Jaime II pelo Carlos II. Essas magoaram-me mesmo, porque não vieram de mim. Não sei como é que escaparam a seis revisões. Havia erros básicos como o Buçaco e a data do canal Suez. A partir da sétima edição, juntei todas as sugestões de emendas que os leitores me enviaram e todas as que tinha tido conhecimento. Fui verificar e estudar uma por uma. Em algumas achei que as pessoas não tinham razão e não as usei, as outra corrigi. A partir daí acabou. Senão fico agarrado ao "Equador" até ao fim da minha vida. [risos]

(Cont.)


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dezembro 13, 2003

"EQUADOR" DE MIGUEL SOUSA TAVARES EM ANÁLISE (5)

Apresentamos a opinião à obra de Isaura Carvalho, licenciada em História e professora do Instituto Diocesano em São Tomé e Príncipe.
Com ela concluímos o conjunto de opiniões a editar.

ISAURA CARVALHO
Licenciada em História e professora do Instituto Diocesano em São Tomé e Príncipe.

"Estamos perante um excelente romance. Nos últimos tempos, em termos literários, considero que foi do melhor que se fez. E também aquele que mais permitiu que São Tomé fosse conhecido lá fora.
Em termos literários é excelente, tem uma organização fantástica de ideias, uma clareza de discurso e uma enorme preocupação em termos de escrita. Em termos históricos há questões que são um pouco polémicas. Mas, embora haja alguns aspectos que possam ser questionados, também me pareceu que estamos perante um produto de uma investigação criteriosa.
Por outro lado, foi muito arrojado fazer-se um romance que relaciona três realidades históricas diferentes- a de São Tomé, a de Portugal e a de Inglaterra. Estamos perante um trabalho de envergadura.
Mas para nós que somos de São Tomé, é muito fácil encontrarmos algumas imprecisões. A Ribeira Peixe não é no sítio onde ele a coloca, o assobô não canta e começa logo a chuva, mas o romance permite isso por ser ficcionado.
Em São Tomé perdemos o hábito da escrita com alguma seriedade e com alguma investigação histórica e as nossas referências literárias já estão um pouco esquecidas nos tempos. Falta-nos esse exercício. Aqui a escrita não é um ritual sério, também não se produzem obras de envergadura. Este romance ter vindo de uma pessoa de fora, para nós, foi uma honra. É um bom retrato do país com as devidas distâncias. Pode ser um bom exercício. Pode ajudar à nossa reflexão. Temos uma ausência de hábitos de escrita séria, temos obras de pouco valor literário e em termos de investigação histórica temos feito pouquíssimo. Estamos de facto adormecidos no tempo.
Vejo muitas pessoas motivadas pela leitura da obra e pode ser que daqui a algum tempo seja uma referência nas nossas escolas. A vinda de Miguel Sousa Tavares a São Tomé poderá fazer com que se faça uma reflexão sobre o país e o passado. Como estou a escrever o livro "Histórias e Memórias das Roças", foi muito interessante para mim ler o "Equador", porque para analisar a situação dos trabalhadores nas roças (ao contrário do Miguel Sousa Tavares) não fui às fontes de arquivo- fui ouvir primeiro os testemunhos orais, as pessoas que trabalharam nas roças e que ainda estão vivas. E confrontando os testemunhos orais com as realidades descritas no "Equador" estão muito próximos. O livro despertou-me mais atenção até por isso. Também teve o efeito de servir para reunir as pessoas a uma mesa e, em vez de estarem a falar de fofocas, estão a discutir sobre algo que ultrapassa a nossa realidade quotidiana e a opinar com alguma seriedade. "Equador" despertou essa curiosidade nas pessoas e é também uma fonte de conversa aqui em São Tomé."

("Mil Folhas"- Público, p. 08)

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"EQUADOR" DE MIGUEL SOUSA TAVARES EM ANÁLISE (4)

Apresentamos a opinião à obra de Mário Jesus dos Santos, embaixador português em São Tomé e Príncipe.

MÁRIO JESUS DOS SANTOS
Embaixador português em São Tomé e Príncipe

"Gostei imenso de ler o "Equador". Quem vive em São Tomé sente ao longo do livro toda a ambiência do que é a ilha. Independentemente de ser uma obra de ficção, localizada no tempo, muito da vivência que o livro nos dá é precisamente o que se vive ainda hoje. Há de facto um sentir, para quem está em São Tomé, uma identificação com o "Equador". É uma obra muito conseguida.
Realço a leitura e a discussão que o livro já gerou e também o desejo de muitos são-tomenses de verem o escritor Miguel Sousa Tavares aqui no país para connosco compartilhar também o que foi a feitura do livro e para discussão do seu conteúdo. O livro teve aqui um grande sucesso."

("Mil Folhas"- Público, p. 08)

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"EQUADOR" DE MIGUEL SOUSA TAVARES EM ANÁLISE (3)

Apresentamos a opinião à obra de Nuno Meira Simões da Cunha, coordenador local dos Projectos de Cooperação do Ministério da Segurança Social e do Trabalho em São Tomé e Príncipe.

NUNO MEIRA SIMÕES DA CUNHA
Coordenador local dos Projectos de Cooperação do Ministério da Segurança Social e do Trabalho em São Tomé e Príncipe.

"Na realidade tenho algumas dificuldades em avaliar um livro destes como um leitor normal. Um português que reside em São Tomé corre, desde o momento em que abre o livro, o risco de sentir uma enorme identificação com as personagens e com os espaços onde a acção se desenrola.
A leitura do livro foi para mim uma constante comparação entre o presente e o passado, seja ao nível de sensações, emoções, medos, dificuldades do dia-a-dia, etc, etc. E, curiosamente, são muitos os aspectos em comum, pois, apesar das diferentes contigências, a vivência num país que é uma ilha (neste caso duas ilhas) apresenta aspectos vivenciais que diferentemente se alteram. E, nesse aspecto, o autor captou e transmitiu muito bem esse sentir.
Sem querer correr o risco de ser mal interpretado, são várias as passagens do livro em que o passado e o presente se intercruzam, e a forma como vivemos as situações actualmente, por vezes, não se diferenciam muito da forma como as personagens as viviam naquele período.
Simultaneamente, a leitura deste livro é uma forma diferente de compreender a história desta terra, mas também a história de Portugal. Não estamos perante um livro de história, mas, sem dúvida, perante um livro pleno de história. E a forma como as situações são descritas permite-nos, eventualmente, aprofundar a visão que os diferentes estratos sociais poderão ter tido dos diferentes acontecimentos. Nesse sentido, realço a personagem do cônsul inglês, bem como do líder da revolta no Príncipe.
Por vezes, como forma de brincadeira, em jantares entre amigos, divertimo-nos a imaginar quem, de entre a comunidade local, poderia representar esta ou aquela personagem, o que demonstra um pouco a forma como o livro é visto pela comunidade que reside em São Tomé."

("Mil Folhas"- Público, p. 07)

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"EQUADOR" DE MIGUEL SOUSA TAVARES EM ANÁLISE (2)

Apresentamos a opinião à obra de Henrique C. Ferreira, neto de um português que foi para São Tomé e Príncipe no mesmo barco em que foi o protagonista do romance.

Henrique C. Ferreira
Neto de um português que foi para São Tomé e Príncipe no mesmo barco em que foi o protagonista do romance.

"Depois de ler o belo romance "Equador", de Miguel Sousa Tavares, apetece-me discorrer sobre um povo esquecido no que tem de melhor, a sua cidadania e que só é lembrado quando tem riquezas que definam ciclos "civilizacionais": Ciclo da cana do açúcar, ciclo do cacau e ciclo nascente do petróleo. (...)
É bom lembrar, como faz o livro, que S. Tomé e Príncipe não era só o principal exportador de cacau a nível mundial, o que, aliado à qualidade do cacau produzido e aos preços altos da sua comercialização, desde logo, devido à sua grande procura na Europa, fez emergir fortunas colossais e feitas em muito pouco.
Constitui um momento ímpar aquele em que o autor põe o Governador, licenciado em Direito em Coimbra, a combater na barra do tribunal a justiça privada e a defender dois trabalhadores contratados que tinham tido a ousadia de sair da sua roça à procura da liberdade. O que ali é ficção e julgo que uma homenagem a um ilustre e destemido advogado chamado Francisco Sousa Tavares, tem paralelos locais nos exemplos de Manuel João da Palma Carlos, que defendeu as vítimas da revolta do Batepé, em 1953 e quando era Governador Carlos Gorgulho, e de Mário Soares, que defendeu gratuitamente, quando esteve deportado em S. Tomé nos finais dos anos 60, um humilde e desesperado guarda-fiscal. É também curioso ter tido a revolta do Batepé origem na desconfiança de que o Governador da época queria, novamente, sujeitar o povo santomense a trabalho forçado. (...)
O livro de Miguel Sousa Tavares é um hino à militância pela Justiça e incentiva-nos a lutar por ideais. Os recentes acontecimentos em S. Tomé e Príncipe vieram mostrar o muito que há para fazer nessas duas belíssimas ilhas. O caminho seguro é o que passa por pôr as instituições a funcionar, implementando o Estado de Direito. (...)
O melhor auxílio que esta pode dar é o de criar condições para um eficaz funcionamento da administração pública, cativando para esta os bons quadros que existem, contrariando o "status quo" promove o desinteresse pela coisa pública e permite a corrupção.
A grande diferença para Cabo Verde tem presidido em, neste país, existir um pleno funcionamento das instituições e em S. Tomé e Príncipe uma permanente instabilidade política. Portugal tem especiais responsabilidades históricas pelo que deve assumir um papel activo ao nível da cooperação bilateral e multilateral, contribuindo para o efectivo funcionamento dos órgãos de soberania, a reforma da administração pública e a reorganização das forças armadas.
Como demonstra a história magistralmente contada em "Equador", a riqueza de cacau só deu felicidade a alguns e a vida só tem sentido se for enformada por valores e pautar-se pelo respeito dos direitos fundamentais dos cidadãos. O presente e o futuro de S. Tomé e Príncipe não permitem novos contratados mas requerem um bom contrato social que está por fazer.
Obrigado Miguel Sousa Tavares pelo seu contributo. Os meus avós e pais, anonimamente, deram e vão dando, igualmente, no seu Ilhéu das Rolas, onde passa mesmo o Equador."

("Mil Folhas"- Público, p. 06)

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"EQUADOR" DE MIGUEL SOUSA TAVARES EM ANÁLISE (1)

Nos dias 11 e 12 de Outubro editámos posts apresentando o mais recente livro de Miguel Sousa Tavares- Equador. Nesses posts incluiram-se apreciações à obra e uma entrevista dada pelo próprio autor.
Iniciamos, agora, a retoma da questão, dado um novo conjunto de opiniões ter vindo a público, nomeadamente no suplemento "Mil Folhas" do jornal PÚBLICO de hoje.
Essas opiniões serão apresentadas em vários posts, sendo igualmente de atender a edição da entrevista dada por Miguel Sousa Tavares, onde se inclui resposta a algumas críticas até então formuladas.

Neste post apresentamos a opinião de Alda Espírito Santo, poetisa e presidente da União Nacional dos Escritores e Artistas de São Tomé e Príncipe.

ALDA ESPÍRITO SANTO
Poetisa e presidente da União Nacional dos Escritores e Artistas de São Tomé e Príncipe

"Para se fazer um livro destes tem que haver algum conhecimento sobre São Tomé e Príncipe. Na bibliografia Sousa Tavares faz referência a Francisco Mantero, e ao que me parece ele esteve cá pelo menos uma semana. Tinha que estar algum tempo em São Tomé e ter uma investigação feita. Há pessoas que se referem a flores, e outras coisas que para mim têm somenos importância, a ruas, o facto de dizer que uma praia tem uma areia mais clara ou mais escura, isso são questões sem interesse nenhum.
O que me interessa é uma questão fundamental: a questão dos chocolateiros ingleses perante o trabalho escravo das roças de São Tomé e Príncipe que era uma realidade que ninguém pode escamotear.Essa análise que Sousa Tavares fez é verdadeira. Coincidiu. As referências feitas à vida nas roças, ao papel dos curadores, porque os roceiros, verdadeiros donos da roça, só vinham a São Tomé quando viesse o Presidente da República ou na gravana, no tempo mais seco, de visita numas férias que podiam passar aqui, isso está muito bem retratado na obra.
Ele teceu o romance de uma forma muito curiosa. Ao longo da história de África, e não só em São Tomé, aquelas senhoras ociosas também acabavam por se envolver com os seus criados negros. Isso é a verdade."

("Mil Folhas"- Público, p. 05)

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VOZES DA DIÁSPORA. NOVA BIBLIOGRAFIA SOBRE A COMUNIDADE JUDAICO-PORTUGUESA EM AMESTERDÃO

Continuando a completar a informação editada neste blog relativa aos Judeus, apresentamos um texto da autoria de Simon Kuin intitulado "Vozes da diáspora. Nova biobliografia sobre a comunidade judaico-portuguesa em Amesterdão", publicado na revista "Actual" do jornal EXPRESSO de hoje.
Neste texto, tal como o título dá a perceber, chama-se a atenção para um trabalho recentemente trazido a público pelo investigador holandês Harm Den Boer, cujo tema são as publicações em língua espanhola e portuguesa por judeus dos respectivos países ibéricos, quer em Amestertão, quer em outras cidades da Holanda.
Passamos, então, à sua transcrição:

"Em 5 de Dezembro passou mais um aniversário do "Decreto de Expulsão dos Judeus em Portugal", em 1496. Embora fosse comutada em conversão forçada em 1497, esse decreto viria a determinar o fim de uma comunidade judaica florescente. O pedido de perdão simbólico de Mário Soares, então Presidente da República, em 1989, pelas perseguições que os judeus sofreram em Portugal, foi um primeiro sinal de reconhecimento da importância da herança judaica.
No estrangeiro, a história dos judeus em Portugal e da diáspora judaico-portuguesa conta com uma área de estudos importante. Harm Den Boer, investigador da Universidade de Amesterdão, pesquisa há mais de vinte anos esse tema. O investigador holandês acaba de publicar o CD-ROM "Spanish and Portuguese printing in the Netherlands 1584-1825" (IDC Publishers, www.idc.nl), uma bibliografia descritiva de todas as obras publicadas nas duas línguas ibéricas em Amesterdão e outras cidades holandesas. Trata-se de 928 títulos, desde a "Gazeta de Amesterdão" (em castelhano) ao Examen das Tradições Fariseas, de Uriel da Costa (em português). Segundo afirma o autor: "O português funcionava como língua coloquial, enquanto o castelhano era a língua cultural. Dois terços dos livros descritos na bibliografia são editados em castelhano, o resto, sobretudo, os regulamentos, em português."
Amesterdão é uma das cidades com um acervo interessante de livros e manuscritos do século XVII, período em que a comunidade judaico-portuguesa aí atingiu o apogeu. Por esta razão, a maioria dos títulos descritos por Den Boer são provenientes das duas bibliotecas, a Ets Haim e a Rosenthaliana, embora tenha feito também descobertas interessantes em Lisboa, Madrid e Nova Iorque.
Foi graças ao clima liberal e tolerante da cidade calvinista que várias famílias de cristãos-novos optaram por se converter ao judaísmo. O regresso às raízes foi, em parte, estimulado pelas autoridades calvinistas de Amesterdão, que desconfiavam de tudo o que se relacionasse com o catolicismo- que incluía os cristãos-novos. A reconversão fez com que Amesterdão se tornasse, em pouco tempo, um centro cultural da diáspora judaico-portuguesa. Foi sobretudo a actividade editorial dos judeus portugueses de Amesterdão que fez "ressuscitar" uma cultura e vivência religiosa perdidas em Portugal.
Para Den Boer: "Um aspecto interessante da produção livreira da comunidade judaico-portuguesa em Amerterdão são os contactos com a Península Ibérica. Por um lado, verifica-se que alguns livros, como comentários rabínicos ou livros de orações, entraram clandestinamente em Portugal e Espanha. Por outro, vê-se que houve obras escritas por judeus, impressas numa tipografia judaica, mas destinadas a um público espanhol e bem católico." Exemplo disso é Miguel de Barrios, residente em Amesterdão por volta de 1660, que tanto escreveu odes à comunidade judaico-portuguesa como publicou elogios ao rei de Espanha.
Um dos últimos textos em português publicado em Amesterdão foi um sermão, escrito em 1809. Depois disso, desapareceram gradualmente da cidade calvinista. Quem quiser estudar, hoje, este tema tem de se dirigir às bibliotecas de Amesterdão, com a nova bibliografia como ferramenta útil de investigação".

("Actual"- EXPRESSO, p. 12. Sublinhado nosso)

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A CIVILIZAÇÃO ISLÂMICA VISTA POR CLÁUDIO TORRES. ENTREVISTA (3)

Na continuação da entrevista dada, Cláudio Torres dá resposta ao seguinte:

6. Sempre existiram cidades...

7. É a cidade mosaico.

8. Mas há um tributo diferenciado para os que não são muçulmanos...

9. Mas o atraso a que certa altura é votado o mundo islâmico não tem a ver com o facto de ter começado a perder as rotas do Mediterrâneo para as repúblicas marítimas, como Veneza?

ENTREVISTA COM CLÁUDIO TORRES

Sempre existiram as cidades...

De facto. E sobretudo uma rede intensíssima de comércio. Hoje, ao contrário dos grandes clássicos, como o Jacques Pirenne, que dizem que a expansão do Islão cercou a Europa numa espécie de cintura de fogo e não a deixou desenvolver-se, nós sabemos que, ao contrário, o desenvolvimento das cidades é indissociável do Islão. Quando analisamos, na Alta Idade Média, cidades como Londres ou Paris, notamos que eram aglomerados de pequenas casas de madeira, sem qualquer estrutura urbana. Já na Península Ibérica, no Sul, havia uma série de grandes e médias cidades com uma estrutura urbana sólida e bem organizada. Estas cidades permitiam uma intensa vida mercantil, uma permanente e constante troca de ideias e sobretudo o confronto de várias religiões. Porque em todas as cidades do Mediterrâneo coabitavam as três religiões do Livro. Nunca as minorias judaicas ou cristãs deixaram de existir e de afirmar as suas diferenças. Todas as cidades do Mediterrâneo sempre tiveram bairros diferentes com o seu centro religioso, o seu cemitério- seja a sinagoga, a igreja nestoriana ou monofisita, os católicos romanos...

É a cidade mosaico.

Exactamente. Embora seja também claro quem exerce o poder. É ele que recebe os impostos- daí considerá-la sociedade tributária. Desde que pague, cada comunidade pode exercer uma certa autonomia e manter os seus costumes.

Mas há um tributo diferenciado para os que não são muçulmanos...

Sim. Mas isso tem as suas vantagens e tem os seus inconvenientes. Por outro lado, a pouco e pouco, as religiões dominadas vão-se convertendo, porque passam a pagar menos. São formas inteligentes de dominação, mais eficazes. Mas, por outro lado, há os interesses de religiões minoritárias que se mantêm fortemente, por razões culturais ou por interesse também. Muitas vezes as minorias de cristãos em cidades do Islão tinham contactos de privilégio com outras cidades. Tinham a sua própria rede de solidariedades montada e autónoma. Quer dizer, havia também vantagens. Com os judeus, acontecia precisamente a mesma coisa. Eram minorias muito bem organizadas em cada cidade, com o seu bairro, a sua estrutura económica, que tinham vantagens em manter-se minoritárias porque exploravam redes próprias, monopólios assegurados em vários portos do Mediterrâneo. Este equilíbrio entre as várias comunidades e os grupos minoritários foi um pouco a chave do êxito do Islão mediterrânico.
Fora do Mediterrâneo, a arqueologia mostra que em todo o Norte e Centro europeu a estrutura feudal assentava no saque. O senhor feudal precisa de ter objectos para oferecer, é essa a sua forma de denominação. Ora para o senhor distribuir, sem haver formas de produção nem manufacturas, a solução estava na guerra e no saque. A estrutura económica do feudalismo, a sua própria sobrevivência, assentava na guerra contra o Sul mais urbanizado e enriquecido com produtos oriundos do comércio longínquo. Nos primeiros anos, os brocados e sedas dos senhores do Norte, dos bispos, vêm dos países do Sul, onde chegaram oriundos do Oriente.
Nestas sociedades do Norte sem circulação monetária, a moeda, muitas vezes saqueada ou adquirida no Sul, serve para fundir e entesourar sob a forma de joalharia. No final da Idade Média são introduzidos circuitos de monetarização, em que o Sul serviu de modelo.
As armas, curiosamente, eram fabricadas em sítios insólitos: no al-Ândaluz, antes das manufacturas do Toledo, as lâminas de aço vinham de Damasco, onde tinha chegado a tecnologia indiana. Da Índia também tinham partido séculos antes os saberes da têmpera do aço em direcção da Europa Central através do Mar Negro e Danúbio. É com estas espadas que os povos bárbaros atacam pelo Norte o mundo romano.
O próprio cristianismo a pouco e pouco vai entrando, a partir do século V, VI, pela Europa acima. O cristianismo é uma religião tipicamente mediterrânica, que se vai adaptando às novas mentalidades do Norte introduzindo algumas novidades como o vinho, que vai abrindo mercados fundamentais, primeiro através do Mar Negro e do Danúbio e depois pelas grandes rotas marítimas do Ocidente. O que é curioso é que começa a surgir uma nova classe social- a burguesia ligada às cidades, às orlas das cidades feudais- fenómeno desconhecido no Mediterrâneo islâmico. A partir dos séculos XIII e XIV, o mundo islâmico começa a ficar para trás, ligado a um modo de produção antigo. Não avançou, não teve as convulsões que abalaram a Europa, com a crescente afirmação dessa nova classe, até à sua tomada do poder e expansionismo planetário no Renascimento e domínio completo no século XIX. Todo este movimento inovador só viria a afectar o velho Mediterrâneo islâmico através da colonização moderna. Daí a nossa imagem do Islão mediterrâneo já ser uma imagem romântica veiculada pelos colonizadores: o passado medieval, os haréns, o exótico... Ainda hoje, numa viagem à cidade marroquina de Fez procuramos, de certa forma, o nosso próprio passado.

Mas o atraso a que a certa altura é votado o mundo islâmico não tem a ver com o facto de ter começado a perder as rotas do Mediterrâneo para as repúblicas marítimas, como Veneza?

É difícil dizer isso. Por exemplo, como é que podemos hoje explicar que a longa civilização do Egipto faraónico tenha desaparecido? Como é que se esfumaram no tempo civilizações tão importantes como as que floresceram durante milénios na Mesopotâmia? Estas questões, e sobretudo os agitados períodos de transição, são por vezes mal explicados pela história. Por que é que acaba um certo ciclo e começa outro?

(Cont.)

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dezembro 12, 2003

A CIVILIZAÇÃO ISLÂMICA VISTA POR CLÁUDIO TORRES. ENTREVISTA (2)

Continuamos a edição da entrevista com Cláudio Torres. Desta vez respondendo a:

4. No entanto, o Islão nunca chega a dominar todo o Mediterrâneo...

5. Mas como é que esta civilização, que atinge um apogeu tão importante, depois entra em decadência?

ENTREVISTA COM CLÁUDIO TORRES

No entanto, o Islão nunca chega a dominar todo o Mediterrâneo...

Não, porque era uma civilização- mais do que uma religião- marítima, ao contrário do que ouvimos repetir. Quais áreas do deserto, qual civilização do deserto? Os deuses, esses sim, vamos sempre buscá-los aos sítios primordiais, às lonjuras não habitadas pelo homem, às montanhas inóspitas e às orlas do deserto.
Isso é o mito. A realidade é completamente diferente. A civilização muçulmana, além dos símbolos originais de Meca e Medina, surgiu e prosperou em Alexandria, no Cairo, nas grandes cidades. É uma civilização profundamente urbana que se difundiu dentro do Mediterrâneo, no interior das comunidades mercadoras e, de certa forma, sobrepondo-se e competindo com êxito com a religião judaica e com as várias heresias cristãs que então se degladiavam. Foram principalmente estes mercadores originários da Síria, do Líbano e da velha Fenícia, conhecedores de todos os mares e portos, inicialmente judeus e depois cristãos, os grandes difusores da nova religião muçulmana.
É curioso notar as diferenças entre a religião judaica e a religião muçulmana. Embora tendo a mesma origem, a religião judaica manteve-se uma elite, que defende a sua origem única, sem contaminações, e portanto recusando o proselitismo. Ao contrário, no Islão- e de certa forma seguindo a tradição cristã-, os mercadores precisam espalhar, integrar outros povos na sua religião, na sua civilização, na sua língua, porque o mundo islâmico está muito ligado à palavra e à língua. O grande mercado planetário que foi criado no Mediterrâneo tinha de ter uma língua unificada que permitisse fazer o intercâmbio e a troca dos objectos e das ideias.

Mas como é que esta civilização, que atinge um apogeu tão importante, depois entra em decadência?

Esse é um dos aspectos mais aliciantes da história do Mediterrâneo o do Islão. Temos de perceber que todo o mundo antigo, o mundo civilizado, numa certa altura convergiu no Islão. Vemos que, nas margens Norte do Mar Interior, as partes mais "mediterranizadas" passaram ao Islão- veja-se a Sicília, o sul da Península Ibérica-porque era onde chegava o Mediterrâneo e a sua civilização. Ficaram de fora os povos bárbaros. Esses estavam na orla, eram semi-nómadas, na maioria, e não tinham capacidade física para poder organizar-se senão invadindo ou atacando os povos fortemente sedentários da orla mediterrânica. No Norte da Europa, nas zonas menos urbanizadas, começam a organizar-se estados feudais cuja estrutura económica, fechada sobre si própria, nada tem a ver com o Mediterrâneo onde, sob o Islão, continuou a funcionar uma intensa vida mercantil.
Mas pergunta-se: porque é que esse mercado intensíssimo não deu origem ao capitalismo? Esse é que é o facto interessante. O marxismo resolveu sempre mal a explicação teórica do fenómeno mediterrânico. Chamou-lhe "modo de produção asiático"... Ninguém sabe o que isso é. Quanto ao mundo económico e mental da Europa, o marxismo criou e desenvolveu uma lógica que ainda hoje não só aceitamos como achamos difícil de rebater. Mas para o Mediterrâneo não, não ficou resolvido. E hoje chamamos-lhe o quê? Uma sociedade tributária. Não é certamente a mesma em todo o lado. Mas não é feudal. Disso não temos dúvida nenhuma. Na Idade Média, o grande embate entre o mundo muçulmano e o mundo cristão é uma luta entre uma sociedade feudal solidamente organizada e hierarquizada pela Ordem de Cluny, em que o dinheiro e o comércio são pecaminosos, e uma outra sociedade a que chamamos hoje tributária, onde o mercado faz parte da sua própria fundação ideológica.
É por isso que toda a história da Europa cristã é constituída por grandes estruturas feudais- o castelo, ou o mosteiro, em cujas imediações e em contradição com o poder instituído, começam a surgir os burgos, muitas vezes no sítio de uma feira, num pequeno largo onde se juntavam os mercadores. À medida que o equilíbrio dos senhorios, dos militares e dos grandes senhores da terra iam permitindo, foram surgindo e crescendo estes pequenos "quistos" que mais tarde viriam a desembocar no Renascimento. No interior da própria estrutura feudal cada vez mais fragilizada, foi surgindo e consolidando-se esta nova classe, os tais burgueses dos burgos, de onde viriam a nascer as primeiras cidades independentes dos senhores.
Ora o Mediterrâneo estava cheio destas cidades. Sempre tinham existido e tinham sido reforçadas sob o Islão...

(Cont.)

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SOBRE O PROCESSO HISTÓRICO- CITAÇÃO (2)

"A história humana é um registo de progresso- um registo de conhecimento cumulativo e de sabedoria crescente, de avanço contínuo para uma plataforma superior de inteligência e bem-estar. Cada geração transmite à seguinte os tesouros que herdou, aperfeiçoados pelas suas próprias experiências, engrandecidos pelos frutos de todas as vitórias por si ganhas... O aumento do bem-estar, resgatado às maquiavélicas interferências de príncipes voluntariosos, está agora à mercê da regulamentação benéfica das grandes leis providenciais".

(Robert Mackenzie- The nineteenth century- a history. Cit em R.G. Collingwood- The idea of history. Nova Iorque: Oxford University, 1956, p. 146).

Publicado por sandra em 09:39 PM | Comentários (0) | TrackBack

SOBRE O PROCESSO HISTÓRICO- CITAÇÃO (1)

"Um pensador tão respeitável e sóbrio como Immanuel Kant podia ainda acreditar seriamente que a guerra servia os objectivos da Providência. Depois de Heroxima, toda a guerra é tida, quando muito, como um mal necessário. Um teólogo tão santo como São Tomás de Aquino podia argumentar com toda a convicção que os tiranos servem fins providenciais, visto que sem tiranos não haveria oportunidade para o martírio. Após Auschwitz, quem utilizasse este argumento seria acusado de blasfémia... Depois desses terríveis acontecimentos, ocorridos no coração do mundo moderno, iluminado e tecnológico, pode alguém ainda acreditar no Deus que é necessariamente Progresso, tanto quanto no Deus que manifesta o seu Poder sob a forma de superdesígnio da Providência?"

(Emile Fackenheim-God's Presence in History: Jewish Affirmations and Philosophical Reflections. Nova Iorque: New York University Press, 1970, p. 5-6).

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dezembro 11, 2003

O ISLÃO- CITAÇÃO (3)

"Ironia das ironias: ainda não há muito tempo, nas escolas, apresentavam-se os "mouros" como bárbaros invasores contra quem os portugueses tiveram de encetar um combate sem tréguas até os expulsar para o outro lado do Mediterrâneo. Hoje, quando sabemos que as tão faladas invasões mouras são pouco mais que mitos, quando nos preocupamos em resgatar o legado que nos deixou a civilização do Al-Ândaluz- em vez de escondê-lo ou estigmatizá-lo- renascem no chamado mundo ocidental ideias semelhantes às que vigoravam nas escolas do salazarismo".

(Luís Leiria- "Compreender o Islão". In: História. Nº Especial (Novembro) de 2003, [p.3])

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O ISLÃO- CITAÇÃO (2)

"Porque razão os árabes nunca unem os seus recursos para lutar pelas causas que, pelo menos oficialmente, afirmam apoiar, e nas quais, no caso dos palestinianos, o seu povo acredita activamente, até mesmo apaixonadamente?"

(Edward Said- "Uma crise sem precedentes. A condição árabe". In: História. Nº Especial (Novembro) de 2003, p. 110).

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O ISLÃO- CITAÇÃO (1)

"Precisamos que todas as forças intelectuais e todas as forças políticas lutem connosco [os árabes] contra o esquema imperialista que pretende reformular as nossas vidas sem o nosso consentimento. Porque tem a resistência de ficar entregue apenas ao extremismo e a bombistas suicidas desesperados?"

(Edward Said- "Uma crise sem precedentes. A condição árabe". In: História. Nº Especial (Novembro) de 2003, p. 108)

NOTA: Ensaio a editar neste blog.

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A CIVILIZAÇÃO ISLÂMICA VISTA POR CLÁUDIO TORRES. ENTREVISTA (1)

Iniciamos, então, a edição da entrevista ao arqueólogo Cláudio Torres.
Neste post são dadas respostas aos seguintes comentários e/ou questões:

1. Gostaria que comentasse a tese tão em voga do "Choque das Civilizações": de um lado o Ocidente, do outro o Islão. Os que a defendem apontam o Islão como diferente e inimigo, embora muitas vezes não o queiram admitir.

2. Diz que a civilização muçulmana olha para o seu "paraíso perdido". No entanto, esse paraíso nasceu de uma forma inesperada, de umas tribos do deserto da Península arábica. Como é que explica essa civilização avançadíssima que se desenvolveu de uma forma tão rápida?

3. Mas o que leva a esta confluência?

Justificamos o nº reduzido de questões pela extensão das respostas.

ENTREVISTA COM CLÁUDIO TORRES

Gostaria que comentasse a tese tão em voga do "Choque das Civilizações": de um lado o Ocidente, do outro o Islão. Os que a defendem apontam o Islão como diferente e inimigo, embora muitas vezes não o queiram admitir.

É evidente que há aí qualquer coisa de verdade. O que o senso comum capta é outra civilização, outra religião, outra língua, outros hábitos alimentares, outras formas de estar na vida... A chamada civilização ocidental foi sendo sempre construída numa sequência, juntando as várias tendências e esmagando outras, aniquilando pequenas religiões minoritárias. Foi-as expulsando e destruindo, e foi-se formando também a partir delas.
Por exemplo, dentro da civilização ocidental, como sabemos, eclodiram movimentos contestatários, e mesmo revolucionários, como a Revolução de Outubro e que, parecendo ser o seu oposto, pertenciam afinal intrinsecamente à própria civilização ocidental, sendo um resultado seu, um seu produto. Precisamente aquilo que o marxismo nos tinha explicado: as coisas nascem de dentro de outras que aparentemente são o seu contrário- é o princípio da não-contradição. Quer dizer que dentro desta nossa civilização nasceu aparentemente o seu oposto- não o era, sabemos hoje. Foram as violentas contradições de uma época, que afinal se esvaneceram e voltamos a cair, se quisermos, num unanimismo civilizacional.
A comparação com o outro, com o inimigo, com alguém que é diferente, é fundamental à própria afirmação de um estatuto civilizacional: é preciso dizer que nós somos os melhores, nós temos a sequência civilizacional do homem desde a aparição do cristianismo, somos a soma de tudo o que há de melhor dentro da história do homem; e os outros têm de ser criados, inventados. Houve um período em que se falava do perigo amarelo, mas é difícil apontá-lo já como o principal inimigo. Está ainda muito longe- talvez o seja, um dia, quando a China for a grande afirmação de uma outra civilização fortemente identitária. A civilização ou civilizações industânicas não são um perigo: a Índia foi compartimentada pelo colonialismo, repartida em vários fragmentos. Não é hoje uma ameaça, é mais um problema para a civilização ocidental.
Portanto, resta o Islão, uma civilização que procura uma identidade e que vem de um passado brilhante. Qualquer muçulmano sabe que vem do Paraíso, de onde foi expulso. Vem de uma civilização, de uma literatura, de uma ciência, de um passado de vanguarda dominante e hoje está numa situação de completa colonização. O que resta desse passado esplendoroso refugia-se hoje e apenas na religião. A diferença hoje aponta para o facto religioso. Por um lado, a religião serve de elo unificador para o mundo islâmico; sendo facilmente identificado pelo Ocidente como o inimigo da actualidade, porque de certa forma vive apenas do passado. E os caminhos são opostos: a civilização ocidental procura o progresso, desde o Renascimento que vai buscar o seu grande motor ao avanço tecnológico, a tudo o que vem de novo, espezinhando de certa maneira o seu passado; ao contrário, a civilização muçulmana está virada para trás: sonhando com um tempo de ouro, quando atingiu o seu apogeu civilizacional, e para quem o progresso é olhado com desconfiança e mesmo hostilidade.
Este confronto está a ser alimentado- sentimo-lo mais do que claramente-, está a desenvolver-se como nunca tinha acontecido nos últimos tempos, e está a criar dois blocos nitidamente opostos e que, do meu ponto de vista, são considerados necessários para alimentar a grande máquina de guerra, a grande indústria do novo Império. Para este, é vital criar e alimentar um inimigo. E esse inimigo tem de ser credível. O comunismo era um inimigo credível, mas demasiado intocável, por causa do equilíbrio do terror. Justificava uma corrida armamentista, mas não uma ocupação planetária. Hoje, a luta contra o terrorismo é completamente diferente: é preciso ir lá ocupar o território, instalar as suas forças militares para cingir as tais células do terrorismo- inventadas ou não- que estão organizadas à volta ou dentro do próprio mundo islâmico. É um processo de recolonização, se quisermos, que tem sido a resposta da máquina militar americana.

Diz que a civilização muçulmana olha para o seu "paraíso perdido". No entanto, esse paraíso nasceu de uma forma inesperada, de umas tribos do deserto da Península arábica. Como é que se explica essa civilização avançadíssima que se desenvolveu de uma forma tão rápida?

As grandes religiões têm de ter os seus deuses, os seus mitos fundadores, e esse é um deles. Que a civilização islâmica tenha vindo do deserto não só é hoje completamente negado como era impensável que tivesse sucedido. A civilização islâmica é uma grande civilização mediterrânica. É a soma, a continuidade das velhas e milenares civilizações que convergem lentamente ao longo dos séculos para o apogeu civilizacional dos séculos X e XI. É a grande civilização mediterrânica que fala árabe, é muçulmana maioritariamente e é pólo agregador e ponta-de-lança de toda a história do homem até esse momento.

Mas o que leva a esta confluência?

Há várias causas que momentaneamente convergem no mesmo objectivo. Primeiro, há uma coordenação e unificação das rotas marítimas. Várias vezes, no Mediterrâneo, houve tentativas imperiais- algumas conseguidas, outras não. E houve sempre duas vertentes importantes: uma que tende para o continente, e outra para o mar. Há os grandes impérios continentais, desde Alexandre o Grande, os impérios persas e outros a Norte, a Leste do Mediterrâneo e na própria África. E depois há os impérios marítimos. Têm duas concepções completamente diferentes entre si. O que define o império continental é uma ocupação territorial, habitualmente militar. E os impérios marítimos são o seu oposto: assentam fundamentalmente no comércio. São grandes redes comerciais em que as estradas são o mar. Enquanto que nos grandes impérios continentais é preciso abrir as estradas, pôr os escravos a trabalhar, calcetar e controlar os caminhos, o mar não precisa. É por definição aberto aos grandes portos e ao intercâmbio.
É por isso que esses dois mundos sempre se opuseram e são aqueles que definem no Mediterrâneo as grandes civilizações. Desde os velhos impérios fenício e grego, as talassocracias não têm território, espaços de terra. São portos pouco controlados militarmente: a sua grande força vem-lhes precisamente do comércio, é o domínio de várias famílias, de milhares de comerciantes que trocam entre si os produtos e as ideias. Portanto é muitas vezes um espaço pouco definido, dominado por ideias, por princípios fundamentais. E por princípios religiosos mais do que por religiões. É natural que a pouco e pouco o êxito de muitos anos do império romano tenha sido o de assimilar a si, principalmente à volta do Mediterrâneo, a diversidade- cada Deus local, pequeno ou grande, era assimilado ao panteão imperial. Mas a divisão do Império do Ocidente e do Império do Oriente nunca foi colmatada. O Império do Oriente sempre falou grego, o do Ocidente começava a falar o latim, nas suas variações. Mas nunca foi conseguida uma sólida unificação.
Em época muçulmana, é conseguido um primeiro equilíbrio através da unificação linguística. O árabe penetra profundamente em todo o mundo mercantil. Toda a gente urbana sabe falar árabe- desde a Índia até à Península Ibérica. E a outra grande novidade é a abertura das rotas do Mediterrêneo a mundos até então desconhecidos- a entrada do Extremo Oriente. As grandes rotas da Seda e do Indostão. As aberturas marítimas pelo Mar Vermelho e Golfo Pérsico. As grandes civilizações de fora do Mediterrâneo são captadas, puxadas através das grandes rotas de mercadores, das linhas de comércio- não por conquistas militares, isso é o que é o facto interessante, porque elas eram perfeitamente secundárias. A conquista é feita pelas grandes rotas do comércio.
É o comércio, é o mercado pela primeira vez planetário nesta zona do mundo. Temos sempre de imaginar que nessa altura há outros mundos autónomos, a china e a Índia, duas civilizações, que embora autónomas entram, por essa altura, na história do Mediterrâneo. Pela primeira vez as grandes rotas do Oriente atravessam toda a Ásia e vêm desembocar a Damasco, ao Mediterrâneo. A Índia passa pelo Golfo, penetra pelo Mar Vermelho e entra também no Mediterrâneo através de vários elementos arquitectónicos, técnicos e mesmo alimentares.
A grande civilização muçulmana é pela primeira vez a síntese da história do homem mediterrânico, com os seus anexos já mais ou menos integrados, através do primeiro grande império mercantil. Mercantil, não militar. As aventuras militares são sempre episódios que formam a história dos mitos, dos heróis, dos poderosos que têm de justificar a sua estirpe de poder através de feitos militares. Mas isso é a pequenina história dentro da História. O principal é que esta é uma civilização do mercado, que durante séculos vai fazendo a síntese de todas as religiões. E não podemos esquecer que o mercado é por definição propenso a receber os outros, a aceitar outras ideias, a aceitar o que o militar nunca faria ou fará. Para o militar, o único diálogo é o combate, é a morte, não há, nem pode haver, um diálogo entre dois militares que se confrontam. Ora o comerciante é o oposto. Se ele leva um produto que vai vender a um país que não conhece, a um porto diferente, ele tem de contactar com o comprador, não matá-lo. Foi esse contacto que criou a civilização mediterrânea desde sempre.

(p. 7-10)

(Cont.)

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dezembro 10, 2003

A CIVILIZAÇÃO ISLÂMICA VISTA POR CLÁUDIO TORRES. Nota

Pela importância, nos dias de hoje reforçada, do conhecimento da Civilização Islâmica, e pelo aprofundamento que da mesma tem feito o arqueólogo português, Cláudio Torres, editaremos a partir de amanhã, uma entrevista dada pelo mesmo a Luís Leiria e publicada no nº especial (de Novembro) da revista História.

Para ilustrar, um excerto de resposta:

"A grande marginalização que está a ser feita pela nossa civilização ocidental alimenta o Islão na sua faceta de protesto, de porto de abrigo, de defesa contra uma agressão cada vez mais violenta".

(Para compreender o Islão. História. Nº Especial. [Novembro 2003])

_____________

NOTA: Luís Leiria é o editor da revista História.

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MULHERES PORTUGUESAS NA GUERRA COLONIAL: o exemplo de Maria Estefânia Anachoreta (4)

Na sequência do que temos vindo a apresentar sobre o trabalho desenvolvido por Maria Estefânia Anachoreta em Angola, editamos a caixa incluída no texto principal de João Pombeiro intitulada, "Adeus até ao meu regresso":

"Num dia de aniversário de Salazar, 28 de Abril de 1961, era oficialmente fundado o Movimento Nacional Feminino (MNF), a organização feminina que acompanhou os treze anos de guerra colonial (1961-1974). Apesar de reivindicar a sua independência, pelo facto de não nascer de nenhuma decisão política, o MNF esteve sempre ao serviço do Estado Novo. Nem podia ser de outra forma. Na sua origem estão 25 mulheres com ligações privilegiadas à elite política de então. Cecília Supico Pinto, a única presidente, por exemplo, era casada com o ministro da Economia. De adesão voluntária, o movimento envolveu mais de oitenta mil mulheres ao longo de treze anos em todo o território português. Maria Estefênia Anachoreta presidia à delegação de Santarém. "Era preciso ajudar as famílias que tinham os seus filhos e maridos na guerra", afirma. Os próprios soldados, nas colónias ou já regressados a Portugal, eram alvo de atenções. O movimento dividia-se por várias secções: havia as madrinhas de guerra, os aerogramas, a assistência à família, as visitas a hospitais, o emprego ou a secção das passagens aéreas.
Nos registos do MNF é possível ver que, por várias vezes, Cecília Supico Pinto e outras representantes se deslocaram a Angola para visitar os soldados. A Operação Sorriso, em 1973, foi alvo de uma grande cobertura jornalística. No entanto, a aventura solitária de Maria Estefânia Anachoreta, com bobines na bagagem, está para além de qualquer horizonte do movimento. Sete meses. "A comissão central do Movimento Nacional Feminino não sabia o que eu ia fazer", recorda".

- independentemente de grande parte das informações desta caixa já terem sido por nós editadas, entendemos não as omitir, quer para não desvirtuar a totalidade do texto, quer para não amputar uma parte do trabalho de pesquisa de João Pombeiro-

(João Pombeiro- "Amor em tempo de guerra". In: Grande Reportagem. Ano XIII. 3ª Série. 151. 29 de Novembro de 2003, p. 40. Sublinhado nosso.)

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dezembro 08, 2003

LEMBRANÇAS DE MARIA LAMAS 20 ANOS APÓS A SUA MORTE: entrevista com Maria Cândida Caeiro- 3

Concluimos, com este post, a edição da entrevista com Maria Cândida Caeiro. Como assunto em destaque, a entrada de Maria Lamas para o Partido Comunista Português, logo após o 25 de Abril de 1974.

ENTREVISTA COM MARIA CÂNDIDA CAEIRO
Por São José Almeida

"Oh filha, para ser coerente devia ir para o partido"

Maria Lamas aderiu ao PCP em 1974, logo após o 25 de Abril e de desfilar no primeiro 1º Maio. Após a revolução é directora honorária da revista "Mulheres". Uma adesão que surpreende ainda hoje muita gente, mas, como a própria disse, foi uma questão de coerência.

A sua mãe era comunista, mas só depois do 25 de Abril entra para o PCP.

Em 1974. Ela diz assim, tal e qual vou contar-lhe como é que foi: "Oh filha, eu para ser coerente devia ir para o partido, devia-me filiar no partido." "Filia-te", foi o que eu lhe disse. "Ah e então a tua irmã?" Eu disse: "O problema é teu." "Mas o que é que tu me aconselhas?" Ela gostava muito de me colocar estas casquinhas de banana a mim e eu disse: "Olha mãe, desculpa, eu aí não te dou palpite. Tu fazes o que entenderes e aquilo que quiseres. Dizes-me, se quiseres que te faça alguma coisa, mas decides tu sozinha." "Pois, mas eu tenho medo que a Mimi se zangue, que a Mimi fique aborrecida." Passados uns dias disse-me: "Olha, já decidi, eu quero ir para o Partido Comunista". E eu disse: "Está bem, pronto." "Mas podias ser tu a inscrever-me." Falei com o Carlos Aboim Inglez, ali na António Serpa, e com a Maria Alda [Nogueira] e disse: "Oh Maria Alda, gostava de ir aí falar contigo por causa disto assim assim, um problema da minha mãe, podes imaginar o que é." "Sim, sim, imagino, vem depressa", respondeu. E inscrevi-a, foi assim.

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LEMBRANÇAS DE MARIA LAMAS 20 ANOS APÓS A SUA MORTE: entrevista com Maria Cândida Caeiro- 2

Continuamos a edição da entrevista de São José Almeida a Maria Cândida Caeiro.
Assuntos abordados: presidência de Maria Lamas no Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, exposição "Livros Escritos por Mulheres", despedimento do "Século", o projecto "As Mulheres do Meu País".

ENTREVISTA COM MARIA CÂNDIDA CAEIRO
Por São José Almeida

"A Pide, quando chegou, encontrou as paredes"

Como presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, Maria Lamas marcou a sociedade portuguesa. Organizou a exposição sobre livros escritos por mulheres que foi desfeita num ápice, antes de a PIDE entrar e encontrar as paredes nuas. Depois viajou pelas aldeias a fazer "As Mulheres do Meu País".

Em 1945, Maria Lamas reanima o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, CNMP.

Viu-se que ela fazia coisas, fazia muitas coisas. Toda a vida fez o que gostou. E o que queria. (...) A minha mãe fez a exposição sobre os Açores, quem foi inaugurar a exposição foi o Salazar. A minha mãe não queria estar.

Só fazia o que queria mesmo.

A minha mãe tinha umas mãos muito bonitas. Só escrevia. Não fazia nenhum trabalho de casa. Só me lembro uma vez que estive muito doente de ela me espremer umas laranjas, que eu fiquei admiradíssima. Ela nem tocava em nada. " "Escova-me o chapéu. Arranja-me água morna para os dentes, escova-me os sapatos, vê lá se o casaco está bem."

Quem tratava disso era a senhora.

Eu, quando já tinha idade; antes disso eram as minhas irmãs.

Voltando ao CNMP. Viam que ela tinha capacidade de liderança?

As pessoas viam que ela era capaz de dirigir o conselho. Estávamos no fim da guerra. Estava-se à espera que o Salazar se fosse embora. Ela foi eleita presidente e arranjou pessoas que a ajudassem. A primeira foi a Deolinda Quartim, fundadora da Maçonaria Feminina e da Liga Republicana. Era a Maria Emília Titto de Morais, que dava aulas de enfermagem, era a Manuela Porto, que dava aulas de teatro. Era a não sei quantas que ensinava cozinha, era a outra que ensinava a bordar. E faziam cursos. Eram sócias e iam aos cursos sem pagar nada. Eram mais de 2000 em pouco tempo. A PIDE andava desvairada. Mas eram aulas e não havia política, não podiam fazer nada. Até que a minha mãe decide fazer a exposição dos livros escritos por mulheres. No salão das Belas-Artes. Foi às delegações estrangeiras e pediu livros escritos por mulheres.

É aí que está patente a Rosa Luxemburgo.

Mas essas coisas tinham de ser feitas com muita habilidade. E todas as noites havia uma palestra sobre uma escritora. Está bom de ver, puxava ali às Belas-Artes uma multidão. Até que a minha mãe foi avisada- como se costuma dizer, até no inferno é bom ter amigos- que a PIDE ia fechar a exposição. No dia 12 de Janeiro- a exposição esteve aberta nove dias-, a exposição encheu-se de gente, a PIDE não entrou. As pessoas saíram, ficaram só algumas que saíram depois. A PIDE, quando chegou, encontrou as paredes. A PIDE nunca mais perdoou isto. Não largou o Pereira da Rosa: "Ou o senhor manda a senhora embora, ou a gente fecha-lhe o jornal."[Houve uma rede que ajudou a desmontar e fazer desaparecer a exposição.]

Aí exigem a saída da sua mãe do "Século" e fecham o conselho.

Sai em Julho de 1947.

Concretiza então as "Mulheres no Meu País", mais uma vez a preocupação com as mulheres.

É um projecto que trazia na cabeça já há muito tempo. O Manuel Fróis de Figueiredo foi o editor. Mas a minha mãe foi ter com o governador civil, o Mário Madeira, a dizer-lhe: "Por que fecharam aquilo?" E ele disse-lhe: "As mulheres portuguesas não precisam de mais educação do que aquela que a Obra das Mães lhes dá." E ela disse: "Ai é? Então deixe estar que eu vou ver e depois dou-lhe a resposta."

É uma reportagem sociológica em fascículos.

É uma reportagem extraordinária. E houve mais pessoas envolvidas. A minha mãe não tinha dinheiro para aquilo, ficou sem dinheiro nenhum, ela vivia do trabalho. Portanto, para fazer aquilo, tinha que ter dinheiro para se aguentar, dinheiro para fazer a viagem. E houve pessoas, muito importantes, não vou dizer quem são, por que acho que não devo.

Porque não? Passaram 50 anos.

Porque algumas estão vivas e continuam a não dizer que fizeram. Mas são da oposição [ao fascismo], garanto-lhe. Fez uma empresa, o Manuel Fróis e a filha, a Orquídea Fróis de Figueiredo, e a minha mãe, que entrava com o trabalho. Uma empresa chamada Actualis. Era assim: a minha mãe fez o projecto, apresentou, eles davam-lhe um dinheiro. Ela, supúnhamos, íamos para Santarém, levava a sua pastinha e começava a falar com as pessoas, determinava as aldeias, ia ter com o fotógrafo do sítio, estava 15 dias, tomava notas, regressava, passava o trabalho a limpo, mandava para a tipografia, revia as provas, mandava imprimir- aquilo foi publicado em 15 fascículos. Mas foi um perfeito êxito, espantoso, esgotou-se. Houve uma pessoa que ajudou muito a minha mãe- foi o senhor Agostinho Fernandes, o fundador da Livraria Portugália.

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LEMBRANÇAS DE MARIA LAMAS 20 ANOS APÓS A SUA MORTE: entrevista com Maria Cândida Caeiro- 1

Fez, no Sábado passado, 20 anos sobre a morte de Maria Lamas (06 de Dezembro de 1983). A este propósito, o jornal Público desse mesmo dia, publica uma entrevista conduzida por São José Almeida a Maria Cândida Caeiro, filha mais nova da homenageada, hoje com 81 anos.
É, pois essa entrevista que vamos hoje editar, distribuída por 3 posts.

Maria da Conceição Vassalo e Silva da Cunha Lamas (1893-1983) foi jornalista, resistente ao Estado Novo, lutadora pelos Direitos Humanos e pela emancipação/dignificação da Mulher.

Fonte:
Público, 6 de Dezembro de 2003, p. 14-15 (Secção "Nacional").

ENTREVISTA COM MARIA CÂNDIDA CAEIRO
Por São José Almeida

"Desde pequena que vi a mãe a defender determinadas causas"

PÚBLICO- Quem era a sua mãe, para si?

MARIA CÂNDIDA CAEIRO- Primeiro que tudo era a minha mãe. E era uma mulher que eu admirava muito. Com contradições, como todos nós, mas era uma mulher que se empenhava a fundo em qualquer actividade que conseguisse ou desejasse fazer. Era uma mulher muito solidária, com um poder de comunicação que eu ainda não voltei a encontrar- para ela comunicar e para fazer comunicar os outros. Conseguia juntar à volta dela jovens, mulheres de meia-idade, pessoas mais velhas e todos sentiam que podiam confiar nela.

A ideia que dá é que era uma pessoa com uma enorme afectividade.

Muito grande.

De uma força brutal e de uma determinação que movia montanhas.

Muito determinada, sobretudo. As pessoas julgavam que a convenciam. Vou contar uma história, sem nomes de pessoas. Juntavam-se aqui nesta sala, por exemplo, já com ela muito velhota... Acontece que as pessoas saiam daqui e qualquer deles dizia: "Eu sou a maior amiga da Maria Lamas". Isto acontecia frequentemente.

Ela dava grande importância às pessoas.

A todas. Era de facto uma pessoa muito solidária, muito desejosa de ajudar, era muito generosa, mas era uma pessoa que sabia muito bem o que queria.

Não se confundia.

Fazia as coisas porque sabia que devia fazer, era generosa da sua natureza, mas também não era só por ser boa, era porque sabia que isso se devia fazer. Achava que fulana ou sicrano precisava de ajuda e ela ajudava, às vezes eram pessoas que ela não voltava a ver. Era uma faceta a isso muito pouca gente sabe.

Por indicação de Ferreira de Castro a sua mãe é convidada para a revista "Modas e Bordados".

O João Pereira da Rosa andava aflito porque o "Modas e Bordados" não se vendia. E o Ferreira de Castro disse-lhe: "Olhe que eu conheço uma pessoa que é capaz de o ajudar a resolver esse problema". E a minha mãe começou a trabalhar no "Século". Em 1929 ele disse-lhe: " A senhora quer dirigir esta revista?" E ela disse: "Eu quero, mas com uma condição: o senhor não manda embora a senhora que é directora, ela fica a trabalhar comigo." Era a Vitória de Oliveira. Ela pensou que tinha de fazer qualquer coisa para chamar a atenção e então decide fazer a exposição "Mulheres Portuguesas- Exposição da Obra Antiga e Moderna de Carácter Literário, Artístico e Científico". O Pereira da Rosa deixou, foi um êxito, em 1930.

Foi então condecorada pelo marechal Carmona.

Fizeram-lhe uma grande homenagem, uma grande festa. A minha mãe ficou muito coisa, mas ela gostava. Dizia, não..., não sei quê..., mas ela gostava. Ela tinha-se em grande conta. Não dizia: "Sou isto, sou aquilo..." Mas... Fizeram-lhe uma grande homenagem, deram-lhe uma salva de prata com rosas à volta, era bonita, e um grande anel. Ela não usava jóias. Mas a revista mudou para 12 tostões e foi um grande êxito.

A sua mãe, quando toma conta da "Modas e Bordados", percebe que aquele é o público-alvo que ela quer privilegiar...

Exactamente.

O público feninino.

Exactamente.

Das mulheres que lêem a revista.

Exactamente.

A sua mãe tem uma grande preocupação- não é uma pessoa que se prenda só com uma cidadania de elites e com um movimento intelectual, não é isso que a preocupa...

Não, não, não.

Hoje, há muito a reacção: ai a Maria Lamas, "Modas e Bordados". Porquê?

Às vezes havia pessoas que falavam com ela e ela dizia-me: "Ah, filha, esta gente só pensa no que não tem interesse nenhum." Dizia-me isso tantas vezes. Mas era incapaz de responder mal a alguém.

Ela tinha uma grande sensibilidade social não tinha?

Exactamente. Mas, a propósito conto-lhe uma história. Como aquilo teve um grande êxito, ela lembrou-se de fazer uma exposição de tapetes de Arraiolos feitos pelas presas das Mónicas.

É uma sensibilidade social sempre ligadas às mulheres.

Quando veio para Lisboa, trabalhava em Benfica na Fábrica Simões e levava roupa para casa para abrir casas e pôr botões. E reparou que as operárias não sabiam ler. Então combinou com umas tantas que elas iam lá a casa e ela alfabetizava-as.

Era uma preocupação de causas feministas, da mulher na sociedade.

A minha mãe viveu comigo toda a vida e foi sempre uma mulher de grandes afectos, não era nada contra os homens. As pessoas quando houvem falar em feminismo julgam logo outras coisas.

Mas isso é uma caricatura que se faz em Portugal do feminismo.

Mas permanentemente.

Mas feminismo não é isso.

Pelo contrário.

O pensamento da sua mãe, ela diz à Helena Neves, em 1982...

É uma pessoa que conheceu muito bem a minha mãe e foi uma grande amiga dela. As coisas que a Helena Neves escreve são de acreditar.

Ela diz: "Não existe libertação da mulher sem libertação do homem."

O que é óbvio. Era isso a luta pela paz, a luta contra a guerra. Ela não era contra que se fizessem batalhas por causas. A pacificação não era deixar tudo muito quieto. Quando eu era pequenina, eu costumava dizer: "Eu e o pai somos talassas [monárquicos], a mãe é bolchevique, e as manas são piquelitanas [republicanas]." Isto para lhe dizer que desde pequena que vi a mãe a defender determinadas causas. Não é uma coisa que lhe nascesse de repente.

Há uma frase de uma actriz americana, Geena Davis, que diz que "ser feminista não significa mais do que não acreditar que as mulheres são seres humanos de segunda classe". Isso é o que a sua mãe faz.

Toda a vida fez. Olhe, em relação exposição das presas, ela foi ter com a doutora Maria Arantes e disse que queria que as presas fossem ver o seu trabalho exposto e disse que queria sem guardas. Lá chegaram a um acordo. Elas foram de táxi com as guardas não fardadas. E eu tenho as fotografias das presas das Mónicas a visitar a exposição dos tapetes de Arraiolos. A minha mãe contava que foi emocionante. As mulheres agarravam-se aos tapetes a chorar.

Isso em 1931.

Exactamente. Ela propôs ao Pereira da Rosa um subtítulo "Modas e Bordados- Vida Feminina" e ele disse que sim. E, passado uns anos, em 1939, ele propôs-lhe que o nome dela saísse no cabeçalho como directora.

Quando se fala da "Modas e Bordados", diz-se que era piroseira.

E era.

Era a sociedade da época ou não?

Era alguma sociedade da época, como hoje também há revistas cor-de-rosa. Mas primeiro foi uma forma de ganhar dinheiro e depois fez a exposição das mulheres e foi por ali fora. A certa altura muda o formato. Mas havia pessoas que escreviam com pseudónimo, pessoas com outra dimensão intelectual. Outro caso foi a Bertha Rosa-Limpo, mãe do Jorge Brun do Canto. Ela estava aflita de dinheiro, cantava ópera e deixou de cantar. A minha mãe propôs-lhe que ela fizesse uma coisa de receitas para a revista e que a minha mãe propôs que se chamasse "Correio de Pantagruel".

O Livro Pantagruel nasce aí.

Exactamente. E criou uma revista para raparigas, a "Joaninha", que depois entrou como página da "Modas e Bordados". Era o "Correio da Joaninha", que era feito pela "Tia Filomena". Foi um sucesso.

A Tia Filomena era a sua mãe.

Mas ninguém sabia.

Nem o Rosa Pereira?

Nem ele. Tanto que a primeira coisa que ela fez, quando saiu do "Século", foi registar o pseudónimo "Tia Filomena". Mas ela ali tratava de tudo- política, amores. É muito importante, porque foi antes da guerra, foi a altura de muitos jovens se meterem na política. E só respondia a pseudónimos. É das coisas mais importantes que a minha mãe fez, porque levou muita gente para a política. E, quando ela saiu, registou o nome e foi um movimento à volta dela.

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dezembro 07, 2003

MULHERES PORTUGUESAS NA GUERRA COLONIAL: o exemplo de Maria Estefânia Anachoreta (3)

O entrecruzar de discurso directo de Maria Estefânia Anachoreta e de alguns daqueles com quem se cruzou em Angola, compõe aquela que é a continuação do texto de João Pombeiro.
Os testemunhos cruzam-se. As informações complementam-se. A História faz-se.

AMOR EM TEMPO DE GUERRA

"António Ferreira da Silva era um dos dois jovens soldados de Santarém que estavam na companhia 1404, na Canga da Mula, no Norte de Angola. "Ela esteve quinze dias na companhia. Era uma senhora de armas, que ia para o mato com os soldados. Queria ver no terreno aquilo que a gente sofria. Andava a pé no meio da coluna." A mais forte recordação é a do momento em que ouviu a voz da mulher e da filha. "Foi um deus que lá apareceu. Não duvide." Enquanto mostra as fotografias do seu álbum antigo, António Ferreira da Silva lembra-se dos bolos que Maria Estefânia fazia quando regressavam à companhia. "Eu fazia bolos, doces, mas sobretudo falava muito com os soldados. Depois de ouvirem as bobines, juntava os rapazes e contava-lhes histórias da família, de Santarém, de Portugal. A ânsia de ouvir era muito grande", recorda Maria Estefânia. Ao longo da conversa entrecruzam-se pequenas histórias. "Apesar do drama que se vivia, consegui estar sempre de bom humor. Era importante para os soldados." Mais uma vez as fotografias são disso uma prova. Por exemplo, conta que o primeiro alferes que teve como oficial às ordens tirou fotografias durante dias a fio sem rolo na máquina. "É por isso que o álbum de fotografias não está tão completo", sorri. Lembra, por exemplo, o delírio de Miguel Pacassa, um angolano que lhe descreveu em pormenor como assistira à chegada de Diogo Cão. "Encontrei-o nas margens do rio Zaire." E também um oficial que quis à força que ela própria fosse consultada por um psiquiatra. "Estava convencido de que, para ter aceitado semelhante tarefa, não devia estar boa da cabeça."
"As ordens do Comando Geral eram de que me levassem onde quisesse ir." Durante os sete meses, a maioria no mato, Maria Estefânia teve sempre o apoio incondicional dos militares. Aos dezoito mil quilómetros que fez por terra juntam-se vinte mil feitos por ar. Quando as distâncias eram muito grandes, a mensageira aproveitava a boleia do Nordatlas, o avião de reabastecimento das unidades, ou as carreiras [aéreas] dos oficiais que iam para Luanda. "Nunca pedi um voo que fosse." Na sua incursão pelo Leste de Angola- "a zona que me custou mais"-, visitou por três dias o batalhão 1864, em Gago Coutinho. A dirigi-la estava Orlando Rodrigues da Costa. "A zona, na altura, era perigosa, palco de constantes emboscadas", recorda o então tenente-coronel. "Para visitar todas as companhias do batalhão, a senhora arriscou-se muito." Hoje com 83 anos, Orlando Rodrigues da Costa conta um pormenor que nunca mais esqueceu. "A senhora era muito destemida. Dizia frequentemente "comigo não há perigo". Por sorte, nunca houve." As emboscadas da guerrilha eram uma constante em todo o território, como lembram os vários oficiais e soldados contactados pela GRANDE REPORTAGEM. "Nunca me aconteceu nada."
Os dias para Maria Estefânia começavam muito cedo. Partia em coluna, quase sempre de madrugada. "Recordo que fazer setenta quilómetros em picada demorava mais de quatro horas." De jipe, de chaimite ou a pé, as pernas cederam várias vezes. Os mosquitos, o calor e as alergias não a deixavam em paz. "Nunca, mesmo quando as minhas pernas me aconselhavam a não andar mais", responde quando lhe perguntam se alguma vez pensou em desistir. A cada dia que passava, eram "injecções e mais injecções administradas em cada unidade" para suportar os trilhos que se seguiriam. "Muitos horas a andar embrenhada no mato. Onde havia um soldado do distrito de Santarém, eu ia", afirma. José Sabino Ferreira é uma prova viva do esforço de Maria Estefânia. Foi um dos jovens que a emissária visitou no mato, num destacamento a sessenta quilómetros da companhia estacionada a norte de São Salvador do Congo. "Foi excepcional a surpresa. Ouvir a voz da minha namorada no outro lado do mundo era impensável."
Neste caso, a fotografia marca o tempo certo. Maria Estefânia passou pela companhia 779, em Pangala, a 10 de Outubro de 1966. Entre os soldados de Santarém estava José Carlos Patrício. Horas depois da surpresa, ouviu no gravador as mensagens da mulher, da mãe e da filha. "Tinha 23 anos e era a primeira vez que ouvia a voz da minha bebé. Isso não se esquece. Não se esquece."
Não é difícil imaginar a emoção dos soldados quando recebiam as mensagens dos seus familiares. Isolados em Angola- as únicas notícias chegavam por aerograma- e envolvidos numa guerra que não dava sinais de querer terminar, os jovens militares apenas podiam contar com os seus companheiros de armas."

(Cont.)

(Itálico nosso)

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MULHERES E DIREITOS HUMANOS: uma perspectiva histórica- 3

Terminamos este conjunto de posts com a edição da informação disponibilizada relativa ao Conselho da Europa.

(MULHERES E DIREITOS HUMANOS)

CONTEXTO INTERNACIONAL

Conselho da Europa

"O Conselho da Europa constitui, em 1995, um grupo de especialistas com vista a desenvolver a estratégia de mainstreaming, o qual produziu em Março de 1998 um importante relatório sobre esta matéria, embora tal preocupação exista nesta organização desde o início da década de 90.
Em 1997 promove em Atenas uma conferência sobre mainstreaming, tendo-se debruçado sobre a inter-relação entre o mainstreaming e as políticas específicas na área da igualdade, sobre as metodologias e os requisitos para a sua implementação e analisado de que modo o mainstreaming é realizado em várias áreas da política.
Em Outubro de 1998, o Comité de Ministros do Conselho da Europa adopta uma recomendação através da qual convida os seus Estados membros a estimular e apoiar a utilização do mainstreaming enquanto instrumento para a promoção da igualdade. No mesmo ano dirige, com o mesmo objectivo, uma mensagem a todos os comités directores do Conselho da Europa e em 2001 dá início à implementação de seminários de sensibilização e formação dirigidos a vários comités directores, criando ainda um grupo informal de peritos sobre o mainstreaming".

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MULHERES E DIREITOS HUMANOS: uma perspectiva histórica- 2

Dando sequência ao post anterior, editamos agora informação relativa à União Europeia.

(MULHERES E DIREITOS HUMANOS)

CONTEXTO INTERNACIONAL

União Europeia

"Na União Europeia a integração da perspectiva de género aparece pela primeira vez como estratégia no III Programa Comunitário a Médio Prazo sobre a Igualdade de Oportunidades entre as Mulheres e os Homens (1991-1995). Tornou-se um tema central do IV Programa Comunitário a Médio Prazo sobre a Igualdade de Oportunidades entre as Mulheres e os Homens (1996-2000).
Em Fevereiro de 1996 a Comissão Europeia adopta uma comunicação sobre este tema-"Integrar a igualdade de oportunidades no conjunto das políticas e acções comunitárias": "Trata-se de não circunscrever os esforços de promoção da igualdade à execução de medidas específicas a favor das mulheres, mas antes de mobilizar explicitamente com vista à igualdade o conjunto das acções e das políticas globais, introduzindo na respectiva definição, de forma activa e visível a consideração dos seus efeitos possíveis nas situações respectivas dos homens e das mulheres (gender perspective). Uma perspectiva desta natureza pressupõe uma avaliação sistemática das acções e das políticas e uma tomada em consideração dos possíveis efeitos na definição e na implementação das mesmas". Como consequência dessa comunicação, cada director-geral da Comissão Europeia é tornado responsável pela integração da perspectiva de género na sua respectiva área política.
Em 2 de Outubro de 1997, o Tratado de Amesterdão, que altera o Tratado Que Institui a Comunidade Europeia, contribui para dar às questões da igualdade de género um lugar de maior importância no quadro da cooperação comunitária, tornando-se a igualdade de género um dos objectivos fundamentais do Tratado da União Europeia.
Assim, o Tratado formaliza o compromisso de integração da dimensão da igualdade de oportunidades a nível europeu, na medida em que menciona entre os objectivos e as tarefas da Comunidade "a missão de promover a igualdade entre homens e mulheres" (artigo 2º) e de o fazer "em todas as acções previstas no Tratado" (artigo 3º). Desta forma, o mainstreaming, isto é, a integração da perspectiva de género, foi consagrado no Tratado, devendo permear todas as políticas e acções comunitárias.
O Tratado torna também claro que são permitidas acções positivas com vista a contribuir para que o sexo sub-representado possa alcançar na prática a igualdade na vida profissional. Isto significa que os Estados membros que desejem promover acções positivas podem fazê-lo.
Em 20 de Dezembro de 2000 o Conselho Europeu adopta uma decisão que estabelece um programa de acção comunitário para o período compreendido entre 1 de Janeiro de 2001 a 31 de Dezembro de 2005, o qual "congrega todas as políticas e acções comunitárias orientadas para a concretização da igualdade entre homens e mulheres, incluindo as políticas de integração da dimensão de género e as acções específicas dirigidas às mulheres". Na Comunicação da Comissão Europeia sobre o mesmo tema, "Rumo a uma estratégia quadro da Comunidade para a igualdade entre homens e mulheres (2001-2005)", o mainstreaming é, de novo, referido como a estratégia a ser adoptada por forma a ultrapassar desigualdades estruturais que ainda subsistem entre as mulheres e os homens, não deixando de lado a execução de acções específicas em prol das mulheres. "Foram já registados progressos consideráveis relativamente à situação das mulheres nos Estados membros, mas a igualdade entre as mulheres e os homens na vida quotidiana é ainda prejudicada pelo facto de homens e mulheres não usufruírem na prática de direitos iguais. Nomeadamente a persistente sub-representação das mulheres e a violência de que são alvo demonstram que ainda existem desigualdades estruturais entre mulheres e homens.
A solução eficaz para esta situação poderá estar na integração do objectivo da igualdade entre mulheres e homens nas políticas que têm repercussões directas e indirectas nas vidas de homens e de mulheres. Aquando da concepção e execução das políticas, as preocupações, necessidades e aspirações das mulheres deverão ser tidas em consideração e revestir a mesma importância do que as sentidas pelos homens. Esta é a abordagem de gender mainstreaming, adoptada em 1996, e que a Comissão pretende tornar operacional e consolidar através da presente proposta.
Paralelamente à integração da perspectiva de género, as persistentes desigualdades continuam a exigir a execução de acções específicas em prol da igualdade. A estratégia quadro assenta nesta "abordagem dual
".

(Itálico nosso)

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MULHERES E DIREITOS HUMANOS: uma perspectiva histórica-1

No âmbito da Resolução do Conselho de Ministros nº 184/2003, de
25 de Novembro
, que "Aprova o II Plano Nacional para a Igualdade" é apresentada, numa perspectiva histórica, a contextualização internacional (Nações Unidas, União Europeia, Conselho da Europeia) do tratamento da problemática Mulheres e Direitos Humanos.
Pela importância da síntese em questão, incluimos a sua edição em anexo, iniciando-a com a abordagem relativa às Nações Unidas.

Fonte:
Diário da República. I-B Série. Nº 273
(25 de Novembro de 2003)

(MULHERES E DIREITOS HUMANOS)

CONTEXTO INTERNACIONAL

Nações Unidas

"No âmbito das Nações Unidas, foi adoptada em 1979, pela Assembleia Geral, a Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres, que constitui o quadro normativo para a eliminação da discriminação e para a igualdade entre as mulheres e os homens.
Posteriormente, a Declaração de Pequim e a sua Plataforma de Acção, adoptadas em Setembro de 1995 pelos representantes de 189 países participantes na 4ª Conferência Mundial das Nações Unidas sobre as Mulheres, reflectem um novo compromisso internacional de carácter programático tendo em vista os objectivos da igualdade, desenvolvimento e paz e os Estados aí representados reafirmam o seu compromisso com a eliminação das discriminações contra as mulheres e dos obstáculos à igualdade, assumindo de forma explícita a estratégia de mainstreaming como meio para alcançar a igualdade.
Nessa matéria, os Estados membros acordaram que "os Governos e outros agentes devem promover uma política activa e visível de integração da perspectiva de género em todas as políticas e programas, de modo que, antes de as decisões serem tomadas, seja analisado o efeito que possam produzir nas mulheres e nos homens, respectivamente".
Acordaram também que os Governos deverão, designadamente, "incentivar e promover o envolvimento activo do leque mais alargado e diversificado de agentes institucionais do sector público, privado e voluntário, para que trabalhem em prol da igualdade entre mulheres e homens", "mandatar todos os ministérios para reverem as suas políticas e programas segundo uma perspectiva de género à luz da Plataforma de Acção e atribuir, ao mais alto nível, a responsabilidade de execução deste mandato; estabelecer e ou reforçar uma estrutura de coordenação interministerial para levar a cabo este mandato, para avaliar os progressos alcançados e para estabelecer a articulação com os organismos pertinentes" e "promover a formação de pessoal em matéria de concepção e análise de dados sobre uma perspectiva do género".
A Conferência de Pequim evidenciou ainda que atingir a igualdade de oportunidades não interessa apenas às mulheres mas é antes uma condição fundamental para alcançar o desenvolvimento social que interessa à sociedade no seu conjunto. Assim sendo, os direitos fundamentais das mulheres não devem ser tratados separadamente, e apenas nos fóruns que se ocupam das questões das mulheres, mas antes integradas em todos os debates.
Estes objectivos foram reafirmados pela 23ª Sessão Especial da Assembleia Geral das Nações Unidas em Junho de 2000 no documento adoptado sobre iniciativas e acções futuras para a implementação da Declaração e Plataforma de Acção de Pequim".

(Itálico nosso)

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dezembro 06, 2003

DO CONGRESSO DOS COMBATENTES AO MOVIMENTO DOS CAPITÃES: ambiente propício ao debate

Continuando a edição do texto de Maria Inácia Rezzola, "Do congresso dos combatentes ao movimento dos capitães", neste ponto explicita a autora aquela que é a sua posição perante a iniciativa daquele ano de 1973. Esta, é pois, consubstanciada por duas grandes ordens de razões (ou ao nível de dois tipos de contextualizações, absolutamente complementares).

DO CONGRESSO DOS COMBATENTES AO MOVIMENTO DOS CAPITÃES

Ambiente propício ao debate

"Discordando desta interpretação, e detectando a impossibilidade de estabelecer uma ligação orgânica ou motivacional directa entre os dois movimentos, não podemos deixar de assinalar o amplo significado e importância da contestação ao Congresso dos Combatentes do Ultramar.
Antes de mais porque, e ainda que indirectamente, a mobilização gerada em torno ao Congresso deixa patentes as movimentações em curso na Guiné e, sobretudo, o facto de António de Spínola ter aí criado o ambiente propício ao debate sobre a guerra. Refira-se, a este propósito que, apesar de sempre ter sido um homem do regime, em meados de 1972, o Governador e Comandante-chefe das Forças Armadas na Guiné incompatibiliza-se com Caetano, ao ver gorados seus esforços de desenvolvimento de conversações com o PAIGC. A recusa de Caetano na procura de uma saída política para a guerra, que o general considera perdida em termos militares, leva o seu escol de magníficos a promover uma tentativa de golpe palaciano. Assim, no Verão de 1972, alguns oficiais do staff de Spínola desenvolvem contactos com a Ala Liberal tendo em vista o afastamento de Américo Tomás da Presidência da República e a sua substituição por Spínola. Caetano acabará por pactuar com a recandidatura de Américo Tomás, fazendo fracassar o projecto. No entanto, na Guiné, estava já criado o ambiente propício ao debate sobre a guerra, tema tabu do regime. A ideia de que a solução do problema é política e não militar difunde-se entre a oficialidade spinolista que acabará por liderar a contestação ao Congresso dos Combatentes do Verão de 1973.
Em segundo lugar, é fundamental integrar os acontecimentos que rodeiam o Congresso dos Combatentes no contexto da guerra e da política colonial do regime. Num momento em que, sobretudo na Guiné, os confrontos se agravam, e o desgaste provocado pelo esforço de guerra se reflectia perigosamente no moral das tropas, aos olhos de muitos começava a ser óbvio que o governo aceitaria mais facilmente uma derrota militar do que a cedência perante os movimentos de libertação. O espectro do caso da Índia era preocupante, temendo-se que, uma vez mais, as Forças Armadas fossem responsabilizadas pelos erros políticos do regime e pela sua estratégia colonial. Segundo Dinis de Almeida, "a sucessiva responsabilização dos oficiais do Quadro Permanente pelos insucessos, cuja razão de ser era bem mais política do que militar, não traduzia senão a intencional preparação da opinião pública, não apenas para os periódicos, inevitáveis e frequentes insucessos militares, mas também para o colapso previsível e iminente que se desenrolaria a curto prazo na Guiné. Tal transferência de responsabilidades já havia logrado êxito na Índia, possibilitando ao regime a sua sobrevivência". Assim, em última análise, a mobilização em torno da contestação ao Congrsso acaba por patentear um clima de mal-estar que se começa a instalar no interior das Forças Armadas. O elevado número de assinaturas reunidas em apenas alguns dias são disso o sinal incontestável".

(p. 39-41. Sublinhado nosso.)

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O "FENÓMENO FÁTIMA": os primeiros cinquenta anos de Fátima- 2

Alvo de uma imensa polémica na altura em que se tornou realidade, o "fenómeno Fátima", não poderia deixar de ser utilizado das mais diversas formas pelas forças então em confronto. Republicanos e Católicos (de acordo com a divisão apresentada pelo autor) degladiavam posições no terreno, sendo que no seu seio as divisões eram igualmente uma constatação.
Quer aproveitamentos políticos, quer religiosos, tudo era um facto. No meio, os videntes, como eram encarados, como foram questionados e que interpretações se dava ao que diziam. A acrescentar: preocupações decorrentes de todos estes cenários.

Sobre tudo isto escreve Bruno Cardoso Reis no ponto A polémica na imprensa em 1917, do seu texto "Os primeiros cinquenta anos de Fátima". Na sequência do editado em post de 29 de Novembro, segue-se e reforça-se, agora, como a abordagem das várias questões em torno das aparições de Fátima foram apresentadas na imprensa da época.

O "FENÓMENO FÁTIMA"

A polémica na imprensa em 1917

"Se o artigo de O Século provoca o escândalo dos republicanos anticlericais, a divisão não poupou as fileiras católicas. Uma forte polémica sobre Fátima anima a principal imprensa católica em Outubro e Novembro de 1917. Perante a prudência de todos os sectores da militância católica relativamente a relatos de aparições, sem dúvida que o milagre do 13 de Outubro em Fátima marcou uma primeira viragem da frieza para o entusiasmo. No entanto, rápida e importante, essa viragem não foi universal.
Entre os presentes nessa data estava um dos mais destacados dirigentes do movimento católico, Domingos Pinto Coelho. Este advogado e proprietário miguelista, fundador e candidato pelo primeiro ensaio de partido católico em Portugal (em 1901), publica na primeira página do principal diário católico- A Ordem- um testemunho em que afirma peremptoriamente que está convencido que se presenciou não um milagre do Sol, mas um fenómeno natural: "Estes fenómenos [...] impressionaram-nos fortemente. (...) Uma dúvida nos restava porém. O que víramos no Sol era cousa excepcional? Ou reproduzir-se-ia em circunstâncias análogas? Ora precisamente essa analogia de circunstâncias proporcionou-se-nos ontem. (...) Vimos as mesmas sucessões de cores, o mesmo investimento rotativo, etc." E daí concluiu: "Eliminado pois o único facto extraordinário, que fica? (...) As afirmações de três crianças e nada mais. É muito pouco. (...) Voltámos de Fátima naquele mesmo estado de espírito em que para lá fôramos- na dúvida." (A Ordem, 16.10.1917; cit. António T. Fernandes, op. cit., pp. 93 ss.)
Qual o sentido destas polémicas entre e no seio dos dois campos em confronto na questão religiosa- o republicano e o católico? Pensamos que é necessário tirar três conclusões fundamentais: a primeira é a de que esses campos em confronto estavam longe de ser uniformes; a segunda é a de que Fátima foi, desde o início, uma questão politizada; a terceira é a de que os videntes e as suas declarações foram marginalizados com uma enorme rapidez.
Começando pelo fim: Lúcia e Jacinta teimam em declarar que a guerra acabara em 13 de Outubro de 1917, quando ela durou até Novembro do ano seguinte? Esse não é assunto que vá merecer grande atenção, o que importa na imprensa da época é estabelecer se houve um milagre ou uma fraude, qual o significado político do acontecido e quais as suas consequências em termos da questão religiosa.
Quanto à primeira questão, se para muitos republicanos as aparições da Cova da Iria e o seu apoio popular são a confirmação da capacidade de manipulação do Jesuíta e de quão enraizada é a crendice popular que é preciso extirpar, para outros defensores do novo regime, o êxito das aparições- verdadeiras ou não- mostra aonde leva a política errada da ala mais anticlerical do republicanismo: ao acicatar da hostilidade popular contra a República.
Note-se, no entanto, que mesmo entre os laicistas radicais não houve consenso sobre a forma de lidar com Fátima. Devia-se ignorar os acontecimentos ou requerer a intervenção das autoridades para fazer cumprir a intangível Lei da Separação, que tornava ilegal o tipo de ajuntamentos espontâneos realizados em torno dos videntes? Os mais importantes jornais desta corrente são o espelho disso: O Mundo segue a segunda via, a Montanha segue a primeira, e justifica assim o seu silêncio a respeito de Fátima: "Pergunta-nos um constante leitor a razão por que não falámos ainda no caso de Fátima. Pela simplicíssima razão de não costumarmos mexer em porcarias" (23.10.1917; cit. in António T. Fernandes, op. cit., p. 135).
Os militantes católicos dividem-se sobre se houve ou não milagre em Fátima. Mas, com tanto ardor ou mais (apenas um pouco mais nas entrelinhas), discutem a utilidade ou o risco de Fátima para o esforço de mobilização que move as hostes católicas no sentido de se organizarem politicamente para combater o anticlericalismo. De um lado, Domingos Pinto Coelho acentua o perigo do descrédito para os católicos que Fátima representa, e recomenda estrita reserva; tanto mais que a massa amorfa de peregrinos não lhe parece poder vir a ser útil no esforço da mobilização católica. Do outro, Gonçalo Almeida Garrett entendia que, devidamente educada e enquadrada, a piedade informe dos peregrinos poderia ser de grande valor para a campanha em favor da restauração política e social da Igreja Católica, como se tornará claro pela sua acção posterior: foi ele quem elaborou, no início, dos anos 20 um célebre guia do peregrino e forneceu as letras fortemente politizadas de uma série de hinos que enquadrarão as grandes peregrinações anuais.
Quanto à questão da politização de Fátima, no contexto do Portugal de Maio a Outubro de 1917 um acontecimento daquela natureza não podia deixar de ser aspirado para o centro da "questão religiosa" que era um elemento fundamental de vida política. Os sucessos da Cova da Iria buliam com aspectos essenciais da confrontação entre católicos (na oposição) e laicistas anticlericais (no poder): eram uma manifestação pública de religiosidade não autorizada pelas autoridades civis; e a suposta vinda de Nossa Senhora e o seu apelo à paz configuravam um duplo desafio ao projecto dos republicanos no poder. Em primeiro lugar, como uma embaraçosa emergência do delírio religioso que pretendiam eliminar. Em segundo lugar, pondo em causa o esforço de guerra, prioridade absoluta de Afonso Costa e dos seus seguidores, mas que lhes causava enormes dificuldades internas.
A afirmação de Lúcia e Jacinta de que a Senhora tinha dito que a guerra acabava em 13 de Outubro de 1917 e que os soldados iam regressar, não correspondendo à realidade, revela uma verdade essencial: o clima de crise geral que "politiza" um meio rural alheio à política num sentido mais "sofisticado". A preocupação com a guerra é uma pulsão essencial no desenhar da relação dos videntes com a Senhora. É praticamente a única coisa sobre a qual as figuras do clero vindas para interrogá-los os interrogam por iniciativa própria. E é das poucas coisas sobre as quais as autoridades por sua vez interrogam essas figuras. Lúcia pergunta ao padre José F. Lacerda, capelão militar no CEP em licença em Outubro de 1917: "Olhe cá, aquilo lá na guerra morre muita gente?- A Jacinta tem lá um irmão..." (In Documentação Crítica de Fátima. I. Interrogatórios aos videntes- 1917, Santuário de Fátima, p. 353). Este irmão mais velho de Francisco e Jacinta- "o meu Manuel"- fora recrutado e enviado para Cabo Verde, o que para as crianças e os seus pais é a guerra na mesma".

(p. 17-20)

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MULHERES PORTUGUESAS NA GUERRA COLONIAL: o exemplo de Maria Estefânia Anachoreta (2)

Revelando, agora, que Maria Estefânia Anachoreta foi presidente da delegação do Movimento Nacional Feminino em Santarém, acompanhemos toda a sua história desde antes da partida para Angola. Primeiramente, em jeito de enquadramento, episódios passados com aqueles que beneficiaram da sua actuação.

AMOR EM TEMPO DE GUERRA

" Foi no caminho de Quibala para Ambriz, a 13 de Dezembro de 1965. Manuel Cordeiro não se esquece do primeiro combate que travou. A coluna onde seguia é vítima de uma emboscada. Um morto e três feridos. O alferes de Santarém chegara a Luanda no final de Novembro. Tal como muitos outros militares, partiu do Cais da Rocha, em Lisboa, a bordo do Vera Cruz. Três dias depois de estar na capital angolana, Manuel Cordeiro parte em coluna para a companhia, situada em Quibala, uma das várias zonas quentes do país. Para um rapaz de 22 anos era um mundo novo sem justificação aparente, um ambiente de guerrilha em que viveu até Janeiro de 1968. O alferes não hesita nem um segundo quando se lhe pergunta qual o episódio que mais o marcou nesses anos. Escolhe o dia- "só não consigo datá-lo com precisão"- em que uma senhora, de vestido simples e sapatos lisos, chega a Quibala acompanhada por militares e munida de um gravador. Parecia caída do céu. Uma visão. Mas não. Era bem real, tão real como a voz inconfundível que, horas depois, se soltava do pequeno gravador desta mensageira inesperada. "Foi o momento mais importante da minha passagem pela guerra. Ouvir a voz da minha mãe, ali, naquele fim do mundo."
Mas há outras vozes. Num princípio de tarde na Primavera de 1998, Maria Estefânia Anachoreta meteu-se no carro a caminho de Salvaterra de Magos. A amiga Maria Teresa aguardava-a para o lanche. Em condições normais, a viagem não duraria mais de uma hora. No entanto, numa estrada secundária, um dos pneus do carro rebentou. Maria Estefânia recorda que ficou pouco tempo à espera de auxílio, já que um senhor que passava de mota depressa se ofereceu para mudar a roda. "Quanto é que lhe devo?", perguntou por fim. "Não me deve nada, minha senhora." "Pelo menos para beber uma cerveja. Tenho muito gosto nisso", reforçou Maria Estefânia. "Quando a senhora foi a Nambuangongo levar uma mensagem da minha mãe eu também não lhe dei nada."

Como qualquer pessoa que conta pela primeira vez uma história com quase quatro décadas, tem dificuldade em manter a linearidade cronológica. Maria Estefânia Anachoreta recosta-se na cadeira que tem ao fundo da sala, na sua velha casa de Santarém, rodeada de árvores. "Sabe, nunca escrevi um diário a sério, porque nunca esperei que esta história fosse publicada." No colo tem dois pequenos cadernos negros onde, juntamente com o nome dos soldados, escreveu pequenos apontamentos avulsos sobre a sua epopeia em Angola. Porque foi disso que se tratou: de uma grande aventura, decorrida entre Agosto de 1966 e Fevereiro de 1967, ilustrada por recordações dispersas e centenas de fotografias a preto e branco, que guarda religiosamente. No decorrer da conversa ganha entusiasmo e começa a marcar todos os lugares por onde andou num mapa rodoviário de Angola de 1965, bastante amarelecido. "Só tenho pena de não ter ido ao Lobito e a Benguela." Recosta-se novamente na cadeira. A casa está decorada com objectos que trouxe dessa missão. "Tudo ofertas dos soldados e oficiais." Aos 83 anos, diz com um sorriso orgulhoso: "Não fiz nada tão gratificante na minha vida como esta viagem."
A concretização de um sonho antigo estava por pouco. Iria visitar a Itália, em especial Florença e Roma, com o dinheiro que poupara. Contudo, a crescente inquietação das famílias do seu distrito com o destino de filhos e maridos em Angola fê-la mudar de ideias. Como presidente da delegação do Movimento Nacional Feminino (MNF) em Santarém, Maria Estefânia sentia de perto a angústia dessas mulheres. "Decidi que iria a Angola para as sossegar. Choravam muito sempre que as visitava. Para muitas, com os filhos e maridos partia também o único sustento. Prometia-lhes então que iria a Angola levar as suas mensagens de esperança- e depois, de lá, traria as respostas dos soldados." Durante os primeiros meses de 1966, Maria Estefânia, com a ajuda de mais de algumas delegadas, percorre todas as freguesias do concelho de Santarém recolhendo mensagens gravadas de mães, pais, irmãos, mulheres ou namoradas dos militares enviados para Angola. "Reuni no total 1200 mensagens em dezenas de bobines, com a ajuda do director da Rádio Ribatejo."
A partida de Lisboa, em finais de Julho de 1966, num avião do Exército, foi atribulada. Recorda que só à terceira tentativa a viagem de 23 horas finalmente se concretizou. A comissão central do MNF (...) tem conhecimento da viagem- "pensavam que eu ia organizar o secretariado de lá"-, mas não das verdadeiras intenções de Maria Estefânia. Chega a Luanda com pouca bagagem, um gravador Siera e dezenas de bobines. "Tencionava demorar-me três meses- era o meu plano inicial. Afinal foram sete, e voltei por motivos de força maior." O objectivo estava traçado: entregar as mensagens a todos os soldados do distrito de Santarém, onde quer que eles estivessem. Ou seja, visitar mais de duzentas unidades espalhadas por todo o território angolano. "Vê aqui no mapa? São Salvador do Congo, Henrique de Carvalho, Gago Coutinho, Carmona, Cazombo, Luso, Teixeira de Sousa, Quibaxe, Salazar, Zala, Quibala, Veríssimo Sarmento, Bembe, Quitexe, Negage, Silva Porto, Lumeje." Enquanto percorre o mapa de alto a baixo nota-se que a memória dos lugares por onde passou se mantém viva.
Depois de alguns dias em Luanda, onde fica junto de familiares enquanto espera as autorizações- que "não foram difíceis de obter"-, a representante do MNF inicia finalmente a sua jornada em Angola".

(p. 34-35. Itálico nosso.)

(Cont.)

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MULHERES PORTUGUESAS NA GUERRA COLONIAL: o exemplo de Maria Estefânia Anachoreta (1)

Após a apresentação feita à edição de posts relacionados com a ida e permanência de Maria Estefânia Anachoreta em terras de Angola, deixamos aqui, para iniciar, a abordagem à "caixa" intitulada "Nunca fui atacada", incluída no texto principal de João Pombeiro:

"Nunca fui atacada"

"Durante os sete meses em Angola, Maria Estefânia nunca foi apanhada numa emboscada nem alvo de um ataque organizado. "A única coisa com que lutava era contra as minhas pernas". Quando chega a Luanda, em finais de Julho de 1966, a guerra já decorre há cinco anos. O primeiro ano, 1961, fora particularmente violento, com as acções da UPA a espalhar o terror entre os colonos estabelecidos no norte de Angola.
Enquanto Maria Estefânia Anachoreta percorria o país de norte a sul, em picada, a guerra colonial em Angola conhecia mais desenvolvimentos, alguns bem significativos. Em Setembro de 1966, sobretudo, nota-se um forte reforço do armamento dos movimentos nacionalistas. Os dois meses seguintes ficam marcados por duas resoluções das Nações Unidas. A 14 de Outubro o Conselho de Segurança convida o governo português a proibir acções de mercenários em Angola e o estabelecimento de bases contra o governo do Congo-Kinshasa. Por outro lado, a Assembleia Geral, a 17 de Novembro, condena a guerra colonial conduzida por Portugal, que constitui "um crime contra a humanidade e uma ameaça à paz e à segurança internacionais". Dezembro de 1966 é o mês que marca as primeiras acções da UNITA, fundada em Março desse ano. O Leste é a região mais atingida pelos ataques. Cassamba, no dia 4, e Teixeira de Sousa, no dia de Natal, despertam os soldados portugueses para os primeiros ataques do novo movimento independestista. Maria Estefânia confirma. "O Leste era a zona mais perigosa, custou-me muito atravessá-la". Enquanto isso, o novo governador-geral de Angola, Rebocho Vaz, nomeado em Outubro, chega a Luanda com a convicção de que a guerra "está praticamente ganha". Mas a convicção nunca se veio a confirmar. Com os movimentos nacionalistas a actuar em todas as frentes, Maria Estefânia teve sorte. Muita sorte".

(João Pombeiro- "Amor em tempo de guerra". In: Grande Reportagem. Ano XIII. 3ª série. 151. 29 de Novembro 2003, p. 38. Sublinhado nosso.)

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dezembro 04, 2003

O MOVIMENTO NACIONAL FEMININO CONTADO PELA SUA PRESIDENTE: testemunho de Cecília Supico Pinto-2

Evolução da situação logística do movimento, o serviço de aerogramas e as madrinhas de guerra, eis sobre o que testemunha Cecília Supico Pinto.

O MOVIMENTO NACIONAL FEMININO (MNF)

Testemunho de Cecília Supico Pinto
"Quando o MNF tinha um mês e meio de existência começámos a reclamar a isenção de franquia postal para os militares e suas famílias. Foi assim que surgiram os aerogramas. Fizemos imenso barulho. Toda a gente dizia que a isenção fiscal era impossível de conseguir. Tínhamos que entrar com dinheiro para os impressos e tudo com muito ministério e muita burocracia à mistura. Éramos simples formigas, mas não admitíamos muros. Estávamos certas e queríamos coisas positivas e vantajosas para os militares e para as suas famílias. A edição dos earogramas era muita cara. O Governo disse-nos que autorizava, desde que fôssemos nós a tomar conta do assunto. Os aerogramas passaram então a ser grátis para os militares e as famílias pagavam vinte centavos por cada um. Não tínhamos dinheiro. Lembro-me de perguntar quanto havia em caixa e responderam: "Mil e quinhentos escudos." Pedimos então para fazer publicidade e vendíamos frases publicitárias nos aerogramas. Com esse dinheiro começámos. Editámos depois mais de trezentos milhões de aerogramas. Se as famílias tivessem pago, durante treze anos de guerra, um selo normal, teria sido uma fortuna incalculável. A campanha dos aerogramas foi a primeira iniciativa do MNF. O quartinho do Largo Camões tornou-se pequeno. Conseguimos depois uma casa na Rua Presidente Arriaga, uma casa arruinada onde tinha estado o 7º Bairro Fiscal. Trabalhámos meses ao frio, sem tecto, com chuva. Fazia um frio tremendo. A CIDLA deu-nos gás para aquecimento. Um dia, ao almoço, caiu o tecto da secretaria. Era um prédio velhíssimo, com uns azulejos maravilhosos que foram estragados depois do 25 de Abril. Fomos andando, fazendo obras, arranjando dinheiro para isso tudo. Nunca entrou um tostão do MNF em nada de confortos. No início nem sequer havia casas de banho na sede, o que era um problema tremendo para quem trabalhava ali horas a fio. Havia apenas uma piazinha, sem porta. Depois houve pessoas que tiveram pena de nós e começaram a dar-nos coisas: sanitas, azulejos, a mandarem canalizadores.
Nós tínhamos aquela força de antes quebrar do que torcer. Aconteceram as coisas mais engraçadas com as madrinhas de guerra, porque o que os soldados queriam era namoradas. Ao princípio ainda vingou a ideia correcta da madrinha de guerra, como uma pessoa com quem se desabafava, a quem se contavam histórias, que mandava notícias por carta e entrava em contacto com as famílias. Simplesmente, os nossos queridos soldados queriam as mulheres namoradeiras. Eu chegana às unidades e perguntava: "Então, como é que estamos de madrinhas de guerra?" Eles respondiam: "O movimento é bera, não nos dá madrinhas de guerra." Eu dizia: "Meus amigos, o que vocês querem é namoradas de guerra, com trinta de tornozelo, oitenta de peito, mais não sei quanto de anca." Eles riam-se. Aconteceu, por exemplo, uma história extraordinária com a condessa de Castelo Mendo, que tinha mais de 80 anos. Demos-lhe a posta-restante de um soldado e ela escreveu-lhe a dizer que passava a ser a sua madrinha de guerra. Na volta do correio foi pedida em casamento. Ora a condessa de Castelo Mendo tinha um espírito extraordinário, abertíssimo, e quis pregar uma partida ao pobre soldado. Primeiro, reuniu a família toda, e comunicou-lhe que tinha sido pedida em casamento. Foi uma risada. Depois, mandou tirar uma fotografia dela e enviou-a ao soldado, com estes dizeres, mais ou menos:"Recebi o teu pedido de casamento, agradeço-te imenso, fiquei comovida. Agora mando-te aqui o meu retrato que é para tu olhares bem para mim e veres se continuas a querer que eu case contigo." O rapaz escreveu-lhe a pedir imensa desculpa. Mas continuou a querer ser o afilhado de guerra dela. Eu tive vários afilhados de guerra. Nem toda a gente gostava das madrinhas de guerra. As pessoas por vezes não entendiam. Por isso decidimos escolher um afilhado de guerra para as famílias. Escrevia o pai, a mãe, a avó, escrevia toda a gente para esse afilhado de guerra da família. Os soldados gabavam-se imenso de terem muitas madrinhas de guerra. Quantas mais madrinhas tinhas mais eram admirados nas suas unidades".

(p. 424-425)

(Cont.)

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ROSA CASACO: escritos na 1ª pessoa- 4

No excerto de prefácio que apresentamos, e na sequência do já editado, Rosa Casaco continua a insistir na necessidade de sublinhar a sua inocência perante muitas das acusações que lhe são feitas, sendo o livro Servi a Pátria e acreditei no regime um meio que entendeu utilizar para o fazer.
Critica, no seu discurso, os intelectuais de esquerda em particular e a Esquerda em geral, assim como reforça o seu pensamento ácerca dos meios de comunicação social, por um ou outro motivo, dependentes do poder político.

SERVI A PÁTRIA E ACREDITEI NO REGIME

Prefácio e fragmentos da vida profissional do autor- 4

"Em Portugal, não sei bem se o Partido Socialista é agora uma esquerda pós-socialista por definição ou se antes perfilha um socialismo pós-esquerdista ou, pelo contrário, uma esquerda neo liberal, ou se afinal é esquerdista ma non troppo ou lá o que quer que seja.
Os intelectuais de esquerda, segundo parece, estão chegando ao seu bendito final, pelo menos os franceses, segundo "Le Débat" e "L'Esprit", começaram a falar, há já bastante tempo, no pós-socialismo. Era a confusão da derrota convertida em sistema político e filosófico. Este dogma demorou mais em fragmentar-se porque os intelectuais de esquerda não queriam abdicar de todo o seu pensamento e a sua arquitectura mental político-filosófica, recusando-se a aceitar que as suas ideias e cultura política eram obsoletas.
Alexis de Tocqueville, escritor e político francês do século XIX, escreveu: "Se um oprimido não tiver o seu meio de defesa, deve dirigir-se à nação inteira e se esta o não escuta, ao género humano. E se não tem outro meio para o fazer terá que decorrer à imprensa".
Mas se essa imprensa, no caso vertente, se naga a publicar a minha defesa, porque "politicamente incorrecta" porque "politicamente fora do tempo" ou distorce-se para a falsidade permanente, para a inverdade que é o que é, mas que se vende bem, não estava outra solução que não fosse a de recorrer à publicação desta minha defesa de moto próprio, isto é: publicando este livro que pretende ser esclarecedor, que visa relatar a verdade e que é o meu grito de me libertar daquilo que não fiz.
Se tivesse ao meu lado um Émile Zola a defender-me com o seu "J'accuse", o êxito seria total e irrefutável, com o qual as esquerdas portuguesas não se atreveriam a impugnar.
É muito poderoso e arrogante este "Quarto Poder", esta imprensa, escrita ou não escrita, de grande circulação que não admite o que digo, que nem se atém ao que se sentenciam os tribunais de Portugal e de Espanha, que me persegue sem tino e sem norte e estou certo que ao fazê-lo, tem para tal o beneplácito do poder político que, genericamente, serve de forma acéfala e com fidelidade canina. E um país que a acolha e a aceita, ou se deixa dominar por semelhante imprensa, nunca poderá ser considerado como democrático, mas sim, como uma "democracia controlada", e assim sendo não é uma democracia, mas uma "ditadura camuflada".
Os outros orgãos da imprensa e da informação, em geral, os mais "débeis", não se atrevem a entrar em conflito com os mais poderosos por recearem as consequentes retaliações, directas ou indirectas, do poder político. Ora, este procedimento por parte de quem manda nem sequer é ditatorial- é mafioso!
Eu sei que a minha autodefesa, após esta publicação, será implacavelmente atacada com injúrias e falsidades de toda a ordem, de mistura com a habitual esteria para a qual a esquerda está sempre vocacionada e não dispõe de psiquiatra habilitado, mas a verdade tem de vir à tona, tem de ser demonstrada, e este axioma terá que vingar, pelo menos perante os vindouros e perante os historiadores honestos e imparciais."

(p. 13-14)

(Cont.)

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DO CONGRESSO DOS COMBATENTES AO MOVIMENTO DOS CAPITÃES: o primeiro acto de indisciplina

Nesta parte do texto, Maria Inácia Rezzola apresenta aquele que foi o Congresso dos Combatentes: organizadores, significado, oposições, reacção da opinião pública, contributos para os tempos posteriores no seio das Forças Armadas.

DO CONGRESSO DOS COMBATENTES AO MOVIMENTO DOS CAPITÃES

O primeiro acto de indisciplina

"O mote é dado pela realização, no Porto, nos dias 1 a 3 de Junho, do Congresso dos Combatentes do Ultramar. Organizado pelos sectores conservadores do regime, com o apadrinhamento público de Américo Tomás, o Congresso propunha-se "combater tudo quanto ameace a unidade e a grandeza de Portugal". Em última análise, trata-se de uma reunião de apoio à política integracionista do regime e à continuidade do esforço de guerra, através do qual se pretendia revelar à opinião pública nacional e internacional a adesão das Forças Armadas ao seu projecto e, "como corolário, dividir responsabilidades que lhe cabem inteiramente".
A percepção de que um grupo considerável de oficiais do Quadro Permanente se preparava para contestar o evento leva o ministro da Defesa e Exército, Sá Viana Rebelo, a proibir a sua participação nos trabalhos. As dificuldades e resistências ao envio de representantes ao Congresso encontradas pelos oficiais em serviço na Guiné são apenas um exemplo de como se pretendeu silenciar todas as vozes discordantes e transmitir, uma vez mais, uma imagem de união em torno das políticas do regime. A estratégia falha, assistindo-se à formação de uma ampla frente contestatária, mobilizada em torno de duas ideias básicas: a antidemocraticidade formal da organização do Congresso e o seu carácter reaccionário. Neste sentido, um grupo de oficiais do Quadro Permanente, precisamente os mais sacrificados pela guerra, decide boicotar o evento pondo a circular, para recolha de assinaturas, um abaixo-assinado demarcando-se do congresso e dos seus resultados. A acção é da iniciativa de oficiais muito próximos do então Governador da Guiné, António de Spínola. Mas o grupo onde pontificam os nomes de Ramalho Eanes, Hugo dos Santos ou Firmino Miguel alarga-se rapidamente a outros sectores. Ao ter sido contactado para assinar o documento, Vasco Lourenço recorda ter imediatamente aderido, começando ele próprio a divulgá-lo e a recolher apoios.
Desta manifestação colectiva sem precedentes resultará a recolha de centenas de assinaturas e o envio de um telegrama em que os signatários afirmam não aceitar "outros valores" nem defender "outros interesses que não sejam os da Nação", não reconhecendo "aos organizadores do Congresso, e portanto ao próprio Congresso, a necessária representatividade", isto é, não lhe reconhecem nem legitimidade nem representatividade. O telegrama é simbolocamente assinado pelo cap.-ten. Rebordão de Brito e 1º sargento graduado em alferes Marcelino da Mata, ambos condecorados com a Ordem Militar da Torre e Espada e Cruz de Guerra de 1ª Classe, ou seja, oficiais com incontestável valor militar e provas dadas na frente de combate.
O conhecimento público desta contestação acaba por retirar qualquer significado ou expressão ao Congresso, provocando nada mais do que uma profunda indiferença na opinião pública. No entanto, a importância deste episódio é bastante ampla, constituindo, desde logo, o primeiro acto público de indisciplina e de ruptura com a política colonial do regime. Há mesmo quem, como Vasco Lourenço, considere estes acontecimentos como a "antecâmara da conspiração" que acabará por conduzir à criação do Movimento dos Capitães, em Setembro desse mesmo ano".

(p. 39)

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DO CONGRESSO DOS COMBATENTES AO MOVIMENTO DOS CAPITÃES: texto introdutório

Na abordagem inicial que aqui apresentamos, Maria Inácia Rezzola, referencia um conjunto de acontecimentos determinantes para a compreensão do clima vivido em Portugal aquando o Congresso dos Combatentes, no ano de 1973. São esses acontecimentos: o caso da Capela do Rato, o III Congresso da Oposição Democrática e o abandono da Assembleia Nacional por Francisco Sá Carneiro, então deputado da Ala Liberal. De salientar, igualmente, a política que Marcelo Caetano acaba por seguir em relação às colónias.
Destaque, em tudo isto, aquele que foi o falhanço do projecto de renovação na continuidade, preconizado por Marcelo Caetano aquando do início da sua governação.

DO CONGRESSO DOS COMBATENTES AO MOVIMENTO DOS CAPITÃES

Texto introdutório

"O ano de 1973 inicia-se da pior forma para o regime. A pretexto das celebrações do Dia Mundial da Paz, um grupo de católicos organiza na Capela do Rato, em Lisboa, uma vigília sobre o tema "A Paz é possível" onde é aprovada uma moção repudiando a política de guerra do regime e reconhecendo a justeza da luta dos povos coloniais. A forte repressão policial que sobre ela se abate não consegue esconder os inquetantes sinais de ruptura da "frente católica" que há já algum tempo ameaçavam pôr em causa a "Santa Aliança", pactuada nos inícios do Estado Novo. Dias depois, elegando a preservação da sua dignidade pessoal, o deputado da Ala Liberal Francisco Sá Carneiro abandona a Assembleia Nacional, iniciando o processo de afastamento deste grupo em relação ao regime.
A auto-reforma das instituições e o reformismo liberal tinham falhado, num momento em que, como demonstra o III Congresso da Oposição Democrática, realizado em Aveiro, em Abril desse mesmo ano, o discurso das oposições se radicaliza. A guerra colonial e o direito dos povos à autodeterminação e independência são temas quentes desse Congresso, marcado ainda pela violência policial sobre os congressistas quando se deslocavam em manifestação silênciosa ao cemitério local, para prestar homenagem a Mário Sacramento. Paralelemante, os problemas económicos, patentes, por exemplo, no acelerado crescimento da inflação, proporcionam o agravamento do clima social e reivindicativo.
Como pano de fundo, gerando uma situação potencialmente explosiva, a questão da guerra: acorrentado aos ultras do regime, Caetano descarta a possibilidade de uma saída política e aposta na continuação do esforço de guerra até à solução final, a encontrar nos campos de batalha. O projecto de renovação na continuidade há muito fora abandonado. Caetano cedera, acabando por comprometer a sua própria sobrevivência política. O ano estava apenas a começar, prevendo-se novas movimentações e contestações. E elas acabarão por surgir no sector tradicionalmente fiel ao regime e fundamental para a sua manutenção e continuidade do seu projecto colonial: as Forças Armadas".

(p. 38-39)

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dezembro 03, 2003

A GUERRA COLONIAL NO TEMPO DE MARCELO CAETANO (2)

Continuamos a edição do texto de Josep Sánchez Cervelló.
Aspectos salientados: as eleições de 1969, a lista da União Nacional, as individualidades que rodeavam Marcelo Caetano, a política colonial. As dificuldades e tentativas de conciliação. Os fracassos.

AS REFORMAS ESTILHAÇAM-SE PERANTE O PROBLEMA COLONIAL

"Com o objectivo de consolidar-se no poder e ampliar a sua base de apoio, Caetano aproveitou as eleições de Outubro de 1969 para consultar a população acerca do problema crucial que o regime enfrentava: a questão colonial. Estas eleições foram realizadas com o propósito de garantir-lhe os apoios necessários: tanto a nível interno, reforçando a sua imagem perante os seus pares da ditadura e legitimando a sua autoridade diante da oposição democrática; e, no âmbito internacional, desanuviando o clima de hostilidade a Portugal, país que cada vez mais sofria críticas em todos os fóruns internacionais. Marcelo Caetano sabia que não iria perder as eleições. O seu prestígio pessoal e, sobretudo, a manipulação do escrutínio garantiam a vitória.
Mas, numa perspectiva história, pode dizer-se que as eleições de 1969 foram um fracasso para Marcelo Caetano. Pois, apesar de muitos dos integrantes das listas da União Nacional serem gente nova, ele teve de integrar nelas declarados inimigos seus que, vinte dias depois de inaugurada a legislatura, provocaram uma votação na Assembleia Nacional a favor da política ultramarina iniciada por Salazar.
Os limites do poder de Marcelo Caetano ficaram claros quando teve de enfrentar a ala mais ortodoxa da ditadura, especialmente por causa das divergências sobre o Ultramar. Para Caetano (assim o disse em Setembro de 1970), a permanência em África justificava-se por causa dos portugueses lá instalados e para fazer face aos compromissos internacionais contraídos pelo Governo. Ainda assim, atreveu-se a assinalar que a independência das colónias não significava a perda da nacionalidade, ideia que os ultras do regime consideravam um sacrilégio, já que, para eles, Portugal, sem as colónias, seria devorado pela Espanha. Nesse contexto, em Dezembro de 1970, o presidente do Governo apresentou na Assembleia Nacional um anteprojecto de Revisão Constitucional, com a intenção de encontrar uma via intermédia entre os deputados liberais e os de extrema-direita e realizar as reformas que considerava necessárias. Deste modo, as modificações que Marcelo Caetano introduziu na Constituição de 1933 diziam respeito à estrutura do Estado. Portugal continuava a ser um país unitário, mas passava a ter regiões autónomas com poderes próprios. O resultado da Revisão Constitucional foi discreto e teve a virtude de não agradar nem à direita nem à esquerda".

(p. 44-45)

Publicado por sandra em 09:12 PM | Comentários (1) | TrackBack

A GUERRA COLONIAL NO TEMPO DE MARCELO CAETANO (1)

Iniciamos a edição do texto A guerra colonial no tempo de Marcelo Caetano, da autoria de Josep Sánchez Cervelló, anteriormente apresentado.
Nesta abordagm inicial o autor destaca aquele que é o enquadramento da governação de Marcelo Caetano, a situação do país herdado e o problema da Guerra Colonial, que Portugal assumia com imensas dificuldades.

[TEXTO INTRODUTÓRIO]

"Marcelo Caetano não estava acima dos grupos de poder que configuravam o regime; pertencia antes a uma tendência mais modernizadora que, conjunturalmente, era maioritária. O seu poder há-de ressentir-se da diversidade de projectos políticos dos partidários da ditadura, outrora unidos sob a indiscutível autoridade de Salazar. Isto provocou um debilitar da sua actividade governativa e, definitivamente, do próprio regime. Além disso, teve de suportar, sobretudo, a acção persistente da oposição que, tanto nas colónias como em Portugal, contestava a legitimidade do regime.
Recebeu uma herança complicada: um território com drásticos desequilíbrios regionais, uma população desinformada pela censura, elevada emigração e graves problemas derivados da perseguição política e da guerra. Recebeu, acima de tudo, uma guerra generalizada em quase todas as áreas coloniais: um conflito sem sentido nem perspectivas que consumia quase metade do orçamento do Estado e condicionava a vida toda do país".

(p. 44)

Publicado por sandra em 08:29 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 02, 2003

DO CONGRESSO DOS COMBATENTES AO MOVIMENTO DOS CAPITÃES. Nota

Da autoria de Maria Inácia Rezzola o texto saído na revista História de Junho deste ano, "Do congresso dos combatentes ao movimento dos capitães", será alvo de edição neste blog.

Apresentação:
"Há 30 anos, realizava-se o Congresso dos Combatentes do Ultramar. Organizado pelos sectores conservadores do regime, o evento seria um fracasso, devido à oposição dos oficiais do Quadro Permanente. Foi o primeiro acto público de indisciplina dos sectores militares".

Orgânica interna:

- [Texto introdutório]
- O primeiro acto de indisciplina
- Ambiente propício ao debate
- Fraqueza do regime
- O princípio de uma ampla mobilização

Como "caixas" temos:

- "Suspenderam o Congresso? Nem tentar!"
- "O "Telegrama dos 400"

A edição será faseada.

Publicado por sandra em 08:51 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 01, 2003

ÓSCAR CARDOSO: inspector da PIDE/DGS criador dos Flechas (2)

Continuamos a edição do testemunho de Óscar Cardoso. Neste post a parte abordada é aquela em que fala do tipo de trabalho desenvolvido em Angola antes da criação dos Flechas. Refere igualmente o seu fascínio por África e as leituras feitas que para isso contribuíram. Salienta o relacionamento desenvolvido com o administrador Manuel Pontes e como este reforçou a sua vontade de desenvolver um projecto específico em Angola.

ÓSCAR CARDOSO- CRIADOR DOS FLECHAS

"Em Angola, em 1965-1966, trabalhámos na pesquisa de informação. Estávamos tanto quanto possível dispersos por toda a Província para tentar captar as populações. Tínhamos um pequeno corpo de auxiliares, que às vezes iam pesquisar informação, mantinham contactos no interior da Província e vinham-se embora. Eu comecei por tomar contacto com os serviços na delegação de Luanda, que era perto da Fortaleza de São Miguel, numa rampa. Fui chefiar os Serviços Reservados, em que fazia sobretudo trabalho de segurança interna. Por exemplo, se um indivíduo queria uma licença de uso e porte de arma, era necessário ver se ele tinha antecedentes criminais, etc. Depois estive na secção central da contra-espionagem, a qual chamávamos o GAB, através da qual tínhamos os contactos com os informadores estrangeiros e lidávamos verdadeiramente com o que havia de secreto. A articulação entre Angola, Moçambique e a Guiné era feita através de Lisboa, o que não queria dizer que, se houvesse coisas urgentes a tratar, nos prendêssemos a teias burocráticas e não circulássemos pelos outros territórios. Estive uns meses a fazer estágio no GAB. Depois, fiz uma espécie de tournée por Angola, pelas diferentes delegações onde havia problemas, para ter contacto com o problema de Angola. Desde Cabinda até às "terras do fim do mundo", o Cuando-Cubango, conheci Angola toda. Acabei por estar um total de sete anos seguidos no Cuando-Cubango. Dizer que gostei de lá estar é pouco- adorei lá estar. Era chefe de uma subdelegação sediada em Serpa Pinto.
Eu nunca gostei muito de papéis e de burocracia, mas é claro que, à medida que uma pessoa vai subindo na escala hierárquica de qualquer organização, cada vez tem mais papéis e mais secretárias. Não me agradava muito a ideia de estar em Luanda aos papéis. Houve um livro que li em miúdo, com os meus 11 anos, e que me fascinou- As Minas de Salomão. Também os livros Como Eu Atravessei a África, de Serpa Pinto, e De Angola à Contracosta, de Capelo e Ivens, foram decisivos para a minha vida. Gostei sempre muito de África, tinha uma paixão por África e, assim que apareceu a minha oportunidade, fui para África. Em Luanda conheci acidentalmente, num café, uma figura muito interessante: o administrador Manuel Pontes, já prestes a reformar-se, e tivemos uma conversa. Ele era um profundo conhecedor dos sítios e das gentes e falou-me das "terras do fim do mundo", nome que foi dado ao Sudeste de Angola por Henrique Galvão, um dos homens que mais exacerbou o patriotismo do Ultramar. Foi no seu livro Outras Terras Outras Gentes que Henrique Galvão baptizou aquela zona de terras do fim do mundo. Depois lá fez aquela porcaria do Santa Maria, mas enfim... Manuel Pontes era um homem que passou a maior parte da sua vida no mato, um estudioso, um homem culto e muito simples. Falou-me então de uma minoria étnica, a que nós chamávamos os bosquímanos, que viviam no Cuando-Cubango. Eu também já tinha tido um certo conhecimento teórico dessa etnia, no Instituto Superior de Estudos Ultramarinos, onde tínhamos uma cadeira de Etnografia. E fascinou-me a ideia de fazer qualquer coisa. O mundo africano atraía-me, também me influenciaram as obras literárias de Jean Lartéguy, como Os Centuriões, os relatos da experiência francesa na Indochina, as histórias de Lawrance da Arábia e, em certa medida, os Boinas Verdes americanos ".

(p. 403)

(Cont.)

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MULHERES PORTUGUESAS NA GUERRA COLONIAL: o exemplo de Maria Estefânia Anachoreta

Por forma a complementar toda a informação que neste blog temos disponibilizado sobre a acção/participação das mulheres portuguesas aquando da Guerra Colonial, será objecto de edição, também, o texto de João Pombeiro saído na revista Grande Reportagem, do passado dia 29 (Grande Reportagem Semanal 151. Ano XIII. 3ª Série), versando sobre o que por terras de África fez Maria Estefânia Anachoreta.
Intitulando-se o texto "Amor em tempo de guerra", é o mesmo introduzido da seguinte forma:

"Com dezenas de bobines na bagagem, Maria Estefânia Anachoreta partiu de Santarém para a aventura da sua vida. Entre 1966 e 1967, com a Guerra Colonial ao rubro, percorre os caminhos de Angola à procura dos militares do seu distrito. Faz dezoito mil quilómetros em picada e entrega 1200 mensagens de amor e saudade gravadas em casa pelos familiares dos soldados. A reconstituição de uma epopeia".

É, pois, esta epopeia que aqui iremos recordar. Nesse registo, a consideração das "caixas" intituladas "Nunca fui atacada" e "Adeus, até ao meu regresso".

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A GUERRA COLONIAL NO TEMPO DE MARCELO CAETANO. Nota

Da autoria de Josep Sánchez Cervelló, professor de História Contemporânea em Espanha, um texto saído na revista História de Junho deste ano, intitulado "A guerra colonial no tempo de Marcelo Caetano", será por nós editado neste blog.

Para já a sua apresentação:
"Quando Marcelo Caetano chegou ao poder, longe iam os tempos em que defendera uma saída federal para a questão colonial. As tremendas contradições políticas que sempre o assaltaram ficaram de novo expostas".

Em termos de orgânica interna, é ela a seguinte:

- [Texto introdutório]
- As reformas estilhaçam-se perante o problema colonial
- O projecto federal de Fevereiro de 1962
- A evolução da guerra, de 1968 a 1974

Cada um destes pontos serão alvo de edição faseada.

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O MOVIMENTO NACIONAL FEMININO CONTADO PELA SUA PRESIDENTE: testemunho de Cecília Supico Pinto-1

Dando continuidade à apresentação ontem feita em CILINHA E O MOVIMENTO NACIONAL FEMININO. Nota, iniciamos a edição do testemunho de Cecília Supico Pinto.

O MOVIMENTO NACIONAL FEMININO (MNF)

Testemunho de Cecília Supico Pinto
"Quando foi do Santa Maria fiquei revoltadíssima por terem assaltado o barco. O Luís [marido] estava com Salazar em casa dele, quando telefonou para lá o Pedro Theotónio Pereira, ministro da Presidência. Quem atendeu o telefone foi o meu marido. O Pedro contou-lhe o que se estava a passar com o Santa Maria e o Luís transmitiu a notícia a Salazar. Fiquei furiosa com o desvio do Santa Maria. Queria avançar, não sei para onde, queria impetuosamente fazer qualquer coisa. Então ocorreu-me: escrever cartas e abaixo-assinados de protesto, mandar telegramas, mobilizar as pessoas. Foi uma bola de neve. Passadas 24 horas já nem havia impressos nos telégrafos. Comecei por telefonar às pessoas a dizer que mandassem telegramas e que falassem a outras pessoas. Excedeu tudo o que nós pudéssemos imaginar o volume de telegramas para a Embaixada dos Estados Unidos, em protesto contra a posição deles. Mandámos milhares e milhares de telegramas. E tudo começou lá em minha casa. Houve cegos que assinaram em braille, freiras, toda a gente. Foi a loucura das assinaturas. Eu estive junto de Salazar quando o Santa Maria regressou. Juntaram-se para aí umas cem mil pessoas, tantas que muitas delas tiveram de ficar do lado de cá da gare marítima, naquele imenso terreno. Era impossível passar para o lado de lá, para o cais, que não era muito largo e estava completamente cheio. A multidão gritava pelo nome de Salazar e vários membros do Governo e chefes das Forças Armadas lamentavam, um após outro, o facto de Salazar não falar à multidão. Eu ouvi os lamentos de uns e de outros, até que não me contive e disse que, se calhar, não tinham explicado devidamente a Salazar, e que eu ia tentar convencê-lo. Responderam-me que não valia a pena, porque já várias pessoas tinham tentado, e Salazar dissera que não falava. Mas eu cheguei ao pé de Salazar e disse-lhe que do lado de lá estavam muitos milhares de pessoas que o queriam ver e que ele tinha de aparecer numa janela ou num terraço. Ele limitou-se a dizer: "Mas com certeza que sim." E foi. E disse: "O Santa Maria está de novo connosco. Obrigado, portugueses." Houve uma enorme salva de palmas, uma manifestação estrondosa. É claro que ele não tinha percebido. Com tanto cerimonial tinham-lhe naturalmente dito que deveria fazer um discurso, enquanto eu só disse que as pessoas queriam vê-lo e que tinha de se mostrar. Ele entendeu e foi imediatamente. Alguns ficaram com cara de parvos, espantadíssimos, perguntaram-me o que tinha eu dito a Salazar. Respondi que não tinha dito nada, só lhe contara a verdade.
Depois veio o 15 de Março em Angola, com todas as barbaridades que foram cometidas. Comecei a ouvir outras mulheres e senti que estavam com vontade de fazer qualquer coisa. Tínhamos-nos juntado quando foi do Santa Maria, não podíamos agora ficar indiferentes. E avançámos. O MNF nasceu precisamente em 28 de Abril de 1961, o dia dos anos de Salazar. Telefonei-lhe e disse-lhe para ver na televisão, às nove horas da noite, o anúncio da criação do MNF. Acrescentei que não era por acaso que o movimento aparecia no dia dos anos dele. Ele disse que achava bem e perguntou o que íamos fazer. Eu disse que isso não sabia. Foram à televisão a Maria Luísa Bobone e a Teresa Mónica, muito ligadas a obras de caridade. Explicaram mais ou menos qual era a ideia e não tinham papel nenhum na mão. Foi em directo e saíram-se lindamente. A partir daí muita gente telefonou, mais gente aderiu. Decidimos avançar mas quisemos que fosse um verdadeiro movimento de mulheres e não um movimento de senhorinhas e senhorecas importantes. Do núcleo inicial fazia parte a Maria da Glória Barros e Castro, presidente nacional das vicentinas. As vicentinas estavam em toda a parte, construíam uma organização formidável e as pessoas nutriam admiração e ternura pela sua obra espantosa. Integravam também a primeira comissão central do MNF a Madalena da Câmara Fialho, professora de Odivelas, a Maria Antónia Torres Pereira, enfermeira, e a Deolinda Santos, directora do Colégio de Odivelas, de família militar. Este foi o núcleo inicial, em que eu não aparecia. Havia uma quantidade de pessoas também casadas com senhores do governo e eu não queria que o movimento desse o aspecto de ser uma coisa do Governo. Era independente do Estado e não era político, apenas patriótico, segundo rezavam os estatutos, e era verdade. Entrava no MNF quem quisesse, de qualquer classe, credo ou cor. Assim aconteceu. Se eu assumisse logo a primeira linha, uma série de pessoas ficariam ofendidas por não serem chamadas e podia estragar-se a ideia do movimento.
A nossa primeira sede foi um quartinho no Largo Luís de Camões. O meu marido apoiou a ideia, mas não sabia ainda o que lhe estava reservado, que era eu passar doze ou catorze horas por dia no MNF. Não pedi autorização a Salazar, porque achei que ele podia não achar bem e eu queria era andar com aquilo para a frente. De maneira que ele foi posto perante um facto consumado. Nós fizemos aquilo muito entre nós, sem estardalhaço, até que apareceu na televisão. Em Junho de 1961 promovemos uma sessão na Sociedade de Geografia, com o testemunho ao vivo de mulheres representativas de todo o território nacional, desde o Minho a Timor e a Macau. Naturais desses locais fizeram depoimentos na Sociedade de Geografia e comprometeram-se a trabalhar para o MNF. Foi uma sessão orientada pela Maria da Glória Barros e Castro. Fizemos depois campanhas para donativos e mandámos uma lembrança a cada militar, em colaboração com a Cruz Vermelha Portuguesa. Mais tarde, separámo-nos: a Cruz Vermelha fazia o seu Natal e nós o nosso. Fazíamos aqui, também, o Natal das famílias. Depois da invasão do Estado Português da Índia, em 18 de Dezembro de 1961, tivemos quatro lares abertos para receber as famílias de repatriados. Estivemos nos aeroportos e nos portos de desembarque para receber essa gente e para a encaminhar, o que fizemos ao longo de vários meses. Nesse Natal, o Diário Popular e Brás de Medeiros colaboraram muito connosco. Organizámos um Natal com todas as crianças. Depois foi o próprio Estado que foi colocando os repatriados da Índia. Sempre com a ajuda do almirante Henrique Tenreiro. É incrível a campanha que se fez contra este homem, que não ganhava dinheiro. Tinha uma espantosa maneira de ser, era um organizador nato. O que ele fez pelos pescadores foi extraordinário".

(p. 421-424. Sublinhado nosso.)

(Cont.)

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MUTILADOS. CONSEQUÊNCIAS DA GUERRA EM ÁFRICA (1961-1974): testemunhos-3

Continuamos com a apresentação de testemunhos. Editamos, desta vez, as palavras de alguém que se quis manter anónimo. Cargo tido na situação presente de reforma: tenente-coronel.

MUTILADOS. DOR ETERNA

Anónimo
"O meu amigo Sobral foi escolhido para os comandos, mas eu não. Eu fui a Mafra e apareceram uns fulanos dos comandos para escolherem indivíduos. Eu não queria ir, e por isso fiz todas as minhas provas ao contrário. Qual não foi o meu espanto quando fui escolhido. Em Angola, fui a várias operações ao Leste, onde se conseguia sobreviver, com mais ou menos tiros, sem grandes problemas. Depois regressámos a Luanda, onde se dava a finalização do curso de comando e obtínhamos o ambicionado crachat.
Uma das operações que fizemos, próximo de Nambuangongo, foi um aquartelamento onde se dizia que havia cerca de trinta mil turras, e onde o Exército já tinha feito uma grande operação. Aquilo sabia-se tudo: se nós estivéssemos a engraxar os sapatos em Luanda, o engraxador sabia que se ia fazer uma operação num determinado sítio. O serviço de informações funcionava lindamente. Essa grande operação, em que esteve envolvida grande quantidade de tropas, fez com que os fulanos se deslocassem de um dado local para outro. Foi a Operação Nova Luz. A Nova Luz deslocou os problemas de um sítio para outro. Foi nesse local, Canacassala, muito perto da Beira Baixa, que era uma fazenda de café, que no dia 14 de Setembro de 1969, fomos fazer uma operação. Eles deixaram-nos entrar e destruímos uma lavra. No fim da operação, quando regressámos, fomos emboscados. Foi nessa emboscada que fui ferido: levei um tiro na cabeça e outro numa perna. Morreu um fulano. Aquela história demorou uns dez minutos, mas não me lembro porque fiquei inconsciente. Fui evacuado para Luando, num Unimog 404, quando deveria ter sido por via aérea. Foi comunicado o meu estado para o hospital, para estar uma ambulância pronta para me levar, mas posteriormente vim a saber que quando cheguei ao Centro de Instrução de Comandos (CIC), ainda estive dez minutos à espera de transporte para o hospital.
Fui operado, tiraram-me a bala da cabeça. Tive a sorte de, na altura, estar lá o melhor neurocirurgião. Mas não me mexeram na perna. Estive três meses em coma, de tal maneira que mandaram um telegrama para os meus pais a dizerem que eu tinha morrido. Um primo meu, que era lá professor na Faculdade de Engenharia, é que se manteve em contacto permanente com os meus pais, mantendo-se também em contacto com um colega que era ortopedista no hospital. Um dia, verificaram que eu tinha febre, motivada pelo facto de eu ser alérgico ao adesivo que me tinham posto na cabeça. Quando me punham o adesivo eu tirava, e de tanto mexer lá como as mãos, aquilo infectou. Mas as opiniões dividiam-se: uns médicos diziam que a febre era por causa da operação à cabeça, enquanto que outros pensavam que era por não ter sido operado à perna e, por isso, pensaram que se me cortassem a perna, eu deixaria de ter febre. Como o colega do meu primo era da opinião que a febre era resultante da cabeça, avisou o meu primo de que me queriam cortar a perna e disse-lhe: "Chegas lá e dizes que te responsabilizas por não lhe cortarem a perna." O meu primo foi lá e, por isso, ainda cá tenho a perna: está torta mas é minha. Quando saí de coma, fiquei doze meses sem falar. Eu tinha que ser evacuado para a Metrópole, mas como era um doente difícil, porque tinha ficado sem controlo e fazia tudo na cama, a enfermeira pára-quedista que foi lá negou-se a trazer-me. Fui depois evacuado através da TAP por outro fulano, em Novembro. Fui para o Hospital Militar, onde me fizeram 23 ou 24 operações. Como na altura andava a tirar Direito, e como fiquei todo torto, optei pela continuação do serviço activo dispensado por invalidez, e neste momento sou um tenente-coronel na reforma. O que mais me custou foi o período hospitalar. Apesar da minha deficiência, depositaram-me num quarto. Não se imagina o que é fazer a vida sem falar. Só passados oito meses é que me meteram dentro de uma banheira- estive oito meses sem tomar banho! Esta experiência foi revoltante. Não tive o auxílio de ninguém".

(p. 961-963)

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