Importantes instrumentos para divulgar as ideias norteadoras da acção, assim como a ideologia subjacente, as publicações assumiram um lugar de destaque na totalidade do trabalho desenvolvido pela MPF.
Títulos como Boletim da MPF ou Menina & Moça, são apenas dois exemplos de tudo o que foi editado.
No texto em anexo, é feita uma apresentação global da temática. Em post posterior será editada informação particularizando conteúdos dos dois títulos citados.
"A partir de 13 de Maio de 1939 e até Abril de 1947, a organização feminina publicou o Boletim da MPF, que, como o nome indicava, se dirigia às filiadas, num período em que a organização se propunha enquadrar toda a juventude feminina. Na realidade, porém, o Boletim dirigiu-se sobretudo às estudantes das classes sociais mais altas, entre as quais tentou formar uma elite feminina, colaboradora da elite masculina do Estado Novo, e criar uma mulher "nova". (...) o Boletim da MPF foi substituído, a partir de 1947, pela M & M, uma revista dirigida "a todas as raparigas", com um carácter menos elitista e um conteúdo menos ideológico do que a publicação que a antecedeu.
Para as filiadas mais novas, o Boletim da MPF começou por integrar a "Página das lusitas", que se autonomizou, depois, numa revista específica com o nome de Lusitas, editada entre 1943 e 1957 sob a direcção de Maria Teresa Andrade Santos. Entre 1957 e 1974, esta publicação adoptou o nome de Fagulha, dirigida por Maria Alice Andrade Santos, irmã da anterior, e na qual colaboraram Ester de Lemos na redacção e Maria Ottolini Coimbra na ilustração.
A partir de 1961, a MPF editou, para as jovens adolescentes não escolarizadas, a revista mensal De Mãos Dadas, dirigida por Ainda Cardigas dos Reis. Em Outubro do ano anterior, a MPF também tinha começado a publicar a Agenda da MPF, dirigida às alunas liceais a partir do 4º ano, potenciais frequentadoras voluntárias que a organização pretendia aliciar para as suas actividades. Em Outubro de 1969, (...), surgiu ainda a revista semestral Lavores e Trabalhos Manuais, para apoiar os programas de ensino de lavores e auxiliar as respectivas educadoras. Estas últimas três publicações de "massas" da MPF dirigiam-se às- poucas- adolescentes não escolarizadas, com uma linguagem simples e rubricas "femininas" de preparação para a vida no lar e o trabalho artesanal. De circulação pouco mais que interna, haverá ainda o jornal Ad lucem, editado a estêncil pelo centro universitário de Lisboa.
Para divulgar e unificar as directrizes da organização entre as dirigentes, existiam, desde Janeiro de 1941, as Folhas de Formação Moral e Nacionalista, às quais se seguiram, no ano seguinte, as Folhas de Formação Moral para as lusitas das escolas primárias, a cargo de Ester Gaspar, e para as infantas, as vanguardistas e as lusas do ensino secundário, respectivamente da responsabilidade de Helena Cabedo Garcia e Helena Vital. Em Maio de 1942, Ingrid Ryberg apresentou um manual de Educação Física, ao qual se seguiu, um ano depois, o Manual de Jogos Educativos, para as EMP (Escolas do Magistério Primário).
Em 1946, a MPF iniciou a edição do Boletim para Dirigentes que, subdividido em duas publicações- para os centros do ensino primário e secundário-, integrou as antigas Folhas de Formação Moral e artigos formativos outrora incluídos no Boletim da MPF. Depois de um interregno, o Boletim para Dirigentes surgiu de novo em 1963, sob a responsabilidade de Maria Margarida Craveiro Lopes dos Reis e de Ester Gaspar Soeiro de Sá, e, cinco anos depois, adoptou o nome de Boletim da Mocidade Portuguesa Feminina, por seu turno substituído, na década de setenta, pelo Guia para Monitoras".
(P. 337-338)
Editamos, agora, figuras representativas da Juventude Italiana (conhecida, na generalidade, como "Balilas"). Registamos, para que fique ciente, que esta organização de juventude sofreu reajustes e alterações de designação. Destes aspectos faremos aqui registo. Para já, atente-se nas representações:
Figura 1
Figura 2
Figura 3

Figura 4
Figura 5

Figura 6

Figura 7

Figura 8

Figura 9

Figura 10

Apresentamos algumas figuras representativas da Juventude Franquista. Mais uma vez chamamos a atenção para o que pode ser detectado em comum com outras organizações de juventude contemporâneas.
Figura 1
Figura 2
Figura 3

Figura 4

Editamos o segundo conjunto de imagens relativo à Juventude Hitleriana. Independentemente de no post anterior termos já iniciado uma numeração identificativa, neste, registamos outra completamente autónoma, apesar da temática permanecer a mesma.
Neste novo grupo temos então:
Figura 1

Figura 2

Figura 3

Figura 4

Figura 5

Figura 6

Figura 7

Figura 8

Figura 9

Figura 10

Figura 11

Figura 12

Figura 13

Figura 14

Procure-se também atender, com todas estas figuras, ao que existe de semelhante com as imagens por nós apresentadas respeitantes à Mocidade Portuguesa.
Apresentamos, com este post, o primeiro conjunto de figuras representativas da Juventude Hitleriana. Nelas, é possível registar as posturas e as diferentes actividades desenvolvidas.
As ideias de si retiradas, ficarão ainda mais consolidadas aquando da conclusão da edição da sua totalidade (daquela, obviamente que temos disponível). Atente-se, no entanto, e para já:
Figura 1

Figura 2

Figura 3

Figura 4

Figura 5

Figura 6

Figura 7

Figura 8

Figura 9

Figura 10

Figura 11

Que estas figuras sirvam de estímulo para o aprofundamento do conhecimento de tal organização de juventude.
Na sequência das imagens editadas relativas à Mocidade Portuguesa, serão alvo de apresentação, neste blog, conjuntos de outras respeitantes às organizações de juventude suas contemporâneas, nomeadamente:
- Juventude Hitleriana
- Juventude Franquista
- Balilas
Após a edição destes novos conjuntos, faremos registo de informação consigo relacionada, até para sublinharmos os pontos de contacto com as influências estabelecidos no âmbito da Mocidade Portuguesa.
O desenvolvimento da consciência social, do espírito de caridade, o melhor conhecimento dos mais pobres e das suas necessidades, assim como o serviço social, foram realidades inerentes à formação efectuada pela MPF. Para lhe dar efectividade em termos de prática, a organização das mais diversas iniciativas, especialmente relevantes em alturas do ano muito particulares, ou em contexto de determinado tipo de acontecimento ou situação.
Todos esses cenários são apresentadas no texto em anexo, onde a autora- Irene Flunser Pimentel- dá uma ideia suficientemente abrangente do alcance dos resultados deste tipo de formação.
"Segundo as palavras da organização feminina da juventude, "uma das principais ideias lançadas pela MPF em colaboração com a OMEN" foi a Semana da Mãe, com o objectivo de "lembrar a importância e a grandeza da missão maternal, prestando-lhe homenagem condigna; despertar nas raparigas o sentimento de gratidão e devoção pelas suas mães e o desejo de serem, no futuro, as continuadoras da admirável tradição das mães portuguesas". No dia 8 de Dezembro, eram habitualmente inauguradas as exposições de berços e enxovais, com o objectivo de contribuir para o "desenvolvimento da consciência social" e "do espírito de caridade" das filiadas que, assim, aprenderiam a conhecer "os meios pobres" e a contribuir com umas horas de trabalho "para o bem-estar e alegria dos mais desfavorecidos". Nos meses anteriores às Semanas da Mãe, a MPF enviava directrizes para a confecção dos berços reveladoras do modo elitista e paternalista como encarava os "pobrezinhos": em 1941 sugeriu, por exemplo, que "por se destinarem a pobres", os enxovais deveriam "ser da maior simplicidade", devendo as respectivas placas de prata ser substituídas "por madeira ou metal barato".
Incluídas na formação das filiadas para o "serviço social" e com "objectivos assistenciais", havia ainda outras iniciativas, no Natal e na Páscoa: as Embaixadas da Alegria e da Bondade e os Folares da Páscoa. As filiadas deslocavam-se às "enfermarias nuas", aos hospitais, aos lares da terceira-idade, creches, orfanatos e "até junto dos velhos sem lar, dos doentes sem visitas, das crianças sem mãe, para lhes levar um pouco de carinho".
Ao explicar os objectivos das campanhas assistenciais, a organização considerou que "não poderia contentar-se só com a formação intelectual e física das filiadas" e que por isso se ocuparia também da "formação do coração", dando-lhes a conhecer "a fraqueza, a miséria e a dor" do próximo. A MPF nunca deixou, no entanto, de esclarecer que as embaixadas e os folares não representavam "essencialmente um meio de fazer assistência mas um processo educativo de que os centros lançam mão para fazer a formação social das filiadas".
As filiadas também eram mobilizadas para outras iniciativas pontuais de "serviço social", entre as quais visitas domiciliárias a asilos e preparação de almoços serviços aos ardinas, ocasiões que serviam de novo para transmitir os conceitos caritativos paternalistas e corporativistas do Estado Novo. Em Janeiro de 1953, a MPF colaborou com a Campanha Nacional para a Extinção do Analfabetismo, através da confecção de agasalhos para alunas pobres das escolas primárias e da mobilização das filiadas, suas famílias e "pessoas de boa vontade" para a alfabetização das "criadas".
Por outro lado, as campanhas internacionais constituíram também meios para a formação política e ideológica das filiadas. A MPF realizou, nomeadamente, colectas de dinheiro para apoiar as "vítimas do comunismo" na Finlândia durante a Segunda Guerra Mundial e na Hungria, em 1956. Nesse ano, a directora dos serviços de formação moral propôs ainda que algumas filiadas, "cuidadosamente escolhidas", ajudassem, nas "lides caseiras", as mães de "famílias pobres para que estas pudessem gozar uns dias de férias".
(p. 316-318)
Desde os primeiros tempos, a Educação Física esteve inerente às práticas a levar a cabo no âmbito da MPF.
A Educação Física especialmente adaptada às raparigas, foi igualmente atendida e alvo de particular atenção por parte das dirigentes, donde se distingue a Comissária Nacional, Maria Guardiola.
As modalidades praticadas, os objectivos pretendidos, as formadoras, a sua colocação nos estabelecimentos de ensino, as provas onde se registavam participações, de tudo isto, nos fala o texto que apresentamos em anexo.
"O ministro da Educação Nacional, Carneiro Pacheco, atribuiu, (...), tanto na reforma educativa de 1936 como às organizações de juventude, um lugar destacado à educação física. Em 1940, o MEN criou ainda o Instituto Nacional de Educação Física (INEF), tendo-se Maria Guardiola congratulado por essa nova escola incluir "uma educação física segundo os sexos". Em 1947 e 1948, os Estatutos do Ensino Liceal e do Ensino Técnico Profissional tornaram obrigatória a Educação Física da MP nos liceus e nas escolas técnicas e atribuíam a orientação e a fiscalização dessa actividade- tal como aconteceu com o Canto Coral e os Lavores- às organizações de juventude.
A MPF ministrou, no ensino primário, Jogos, Ginástica e Danças Rítmicas, e, no ensino secundário, Desportos, Danças Regionais e Iniciação Campista. Instituído em 1943, pela delegacia da Estremadura, para instrutoras e graduadas, e só depois para filiadas, o Campismo foi, no entanto, sui generis, como se pode ler num artigo do Boletim da MPF, onde é descrita uma deslocação de algumas graduadas, acompanhadas por Ingrid Ryberg, a uma quinta no Lumiar durante um "dia" que terminou pelas dezoito horas. Quanto às Danças Regionais, Maria Guardiola mandou, em 1950, por ocasião do cruzeiro a África, elaborar um guarda-roupa e constituir um grupo "folclórico-etnográfico", à semelhança dos Coros e Danças SF (Sección Femenina de la Falange Española Tradicionalista).
A partir dos anos cinquenta, as filiadas da MPF passaram, ao contrário do que sempre fora decidido desde os anos trinta, a participar com a MP em exibições de ginástica e de danças regionais nos festivais de 10 de Junho no Estádio Nacional. A MPF começou também a organizar, nesse período, campeonatos desportivos, contrariando assim a postura inicial de não promover "exibições" e "competições". A primeira participação internacional da MPF ocorreu no concurso europeu de ginástica Ling em 1947. Dez anos depois, além de organizar campeonatos universitários regionais e nacionais de voleibol, badminton e de basquetebol, a MPF de início às primeiras experiências de andebol e começou a participar nos Jogos Internacionais da Fédération Internacionale Sportive de l'Enseignement Catholique (FISEC).
Em Março desse ano de 1957, continuava, porém, a ser defendida, na M & M, prática do desporto feminino em regime de "separação de sexos", sem exibicionismo e em consonância com "as regras da prudência e da sã moralidade", dado que os desportos violentos masculinizavam e esterilizavam as mulheres. Os desportos não cessarem, porém, de ser uma das actividades mais procuradas pelas jovens e foi mesmo através delas que a organização feminina se tornou mais atractiva, até porque algumas das modalidades de carácter elitista- como o ténis e a equitação- passaram a ser praticadas por filiadas da pequena burguesia "remediada", que, sem essa oportunidade facultada pela MPF, a elas nunca teriam tido acesso.
O facto de a educação física escolar estar até 1966 sob orientação e fiscalização da MPF, que além disso nomeava as respectivas professoras, motivou resistências por parte dos directores dos estabelecimentos de ensino. Estes não se apressavam, por exemplo, a divulgar à organização feminina as vagas de professoras dessa actividade e sempre preferiam aquelas que eram formadas pelo INEF às educadoras da MPF, consideradas incompetentes.
A directora dos serviços de Educação Física da MPF, Ingrid Ryberg de Figueiredo, protestou contra essa situação e solicitou ao MEN, em 1958, que os directores das escolas fossem obrigados a comunicar as vagas das professoras de Educação Física. Não conseguiu, porém, esconder que, de facto, a competência profissional das educadoras da MPF era muito inferior às formadas no INEF, facto comprovado através das próprias informações dos serviços de inspecção da organização.
Em 1967, trinta anos depois da polémica sobre a criação de um ginásio feminino propagandeado nas páginas do jornal República, e de Francisco Nobre Guedes, comissário nacional da MP, recusar a prática de qualquer tipo de desporto pelas raparigas, era a própria MPF a responsável pela difusão das modalidades desportivas nos liceus e nas escolas técnicas. Mas, ao contrário da ideia divulgada de que a MPF teria introduzido no seio da juventude feminina escolarizada os desportos, deve dizer-se que a organização feminina se limitou a preencher um espaço já anteriormente ocupado, para responder às necessidades das jovens, atenuando, por um lado, os aspectos considerados "pagãos", "imorais" e "exibicionistas" da educação física, e monopolizando, por outro lado, a sua prática, orientação e fiscalização nas escolas."
(p. 304-308)
Terminamos, com este post, a abordagem relativa à Formação Nacionalista/Moral e Social, desenvolvida pela MPF.
No texto em anexo, a especificidade dos questionamentos e discussões relativos à legitimidade/oportunidade de tal domínio de acção por esta organização feminina. Justificações apresentadas.
A formação "moral e social", a partir de 1957
"A fidelidade à moral cristã e à religião católica sempre foi amalgamada com a lealdade à ideologia do Estado Novo pela MPF, nomeadamente a partir de 1943, quando essa noção foi erigida, na primeira folha de "Formação Moral para Dirigentes", como ideia central a ser transmitida às filiadas. Anos depois, ao fazer a história da MPF, em 1966, Ester de Lemos considerou a Formação Moral e Nacionalista o centro de todas as actividades da organização pois difundia a única "moral possível- a moral cristã, fundamento da vida colectiva e seiva das instituições portuguesas desde a origem da nacionalidade".
Essa actividade nunca cessou, porém, de motivar críticas, mesmo depois de se passar a denominar, com o novo plano de actividades de 1957/1958, Formação Moral e Social. Em resposta às críticas tanto dos que consideravam que essa actividade duplicava a disciplina de Moral e Religião como dos acusavam as MP de constituírem um movimento religioso ou dos que consideravam ser tarefa exclusiva da Igreja a formação católica da Juventude, a MPF afirmou que, "embora inspirada nos princípios da moral cristã", a Formação Moral e Social não se confundia com o catecismo, mas era "a aplicação desses princípios".
Por outro lado, a MPF esclareceu ainda que a Formação Moral e Social não constituía uma actividade à parte mas era, sim, uma componente fundamental de todas as suas actividades. Num estudo elaborado pela direcção de serviços de dirigentes e graduadas, no fim da década de cinquenta, mostrava-se, como dizia o título de um dos capítulos, como "fazer formação social e moral através todas as actividades da MPF". Assim, enquanto a Educação Física deveria inculcar noções morais de lealdade, obediência e de coragem, a Educação Feminina privilegiaria a responsabilidade familiar, as virtudes tradicionais da mulher portuguesa e a dignidade no casamento, e, finalmente, a Iniciação Artística promoveria a luta contra a mediocridade e o relacionamento do "belo" com o "bom".
Em Novembro de 1965, os encontros de Formação Moral e Social foram novamente objecto de grande discussão na reunião do conselho técnico da MPF, que concluiu pela necessidade de "intensificar cada vez mais uma educação diferenciada da gente moça", de modo a tornar "os rapazes mais viris e as raparigas mais femininas", preparando-as "para as tarefas do lar e da maternidade". Um ano depois, Ester de Lemos continuou a ecoar as críticas que desde o início da década de cinquenta se faziam ouvir contra a Formação Moral e Social da MPF, respondendo que essa actividade servia de "complemento a qualquer aula de Moral" e era "ao mesmo tempo formação social e formação portuguesa, coisas que saem do âmbito da cadeira de Moral e Religião"".
(p. 303-304)
No excerto de texto em anexo, editado na sequência do apresentado anteriormente, Irene Flunser Pimentel concretiza, tendo como base publicações da MPF, em que consistia o "nacionalismo equilibrado" referenciado, assim como explicita as heroinas femininas dadas a conhecer e colocadas, como modelos, às filiadas.
Quer através da caricatura, quer através da manipulação da História, eram transmitidas ideias, cuja eficácia se desejava acima de tudo, para efeitos de doutrinação.
DA FORMAÇÃO NACIONALISTA À FORMAÇÃO MORAL E SOCIAL
"Um nacionalismo equilibrado"
"Num texto ficcional, intitulado "Três Mocidades", que tentava mostrar as diferenças entre os nacionalismos alemão e italiano, por um lado, e o português, por outro lado, duas jovens, Joaninha- de "tipo português", "robusta e graciosa na sua farda da MP"- e Albertina- "sem graça feminina e masculinizada"- travam o seguinte diálogo, paradigmático da forma como a MPF encarava o "nacionalismo equilibrado" português:
"Albertina- O que me interessa a mim é o desporto, e se entrei para a "Mocidade" foi porque imaginei que lá quisessem fazer mulheres militarizadas. Afinal temos puericultura, cozinha, enfim, o que já faziam as nossas mães! Como eu gostava de ser alemã!
Joaninha (furibunda)- Fora! Fora! nem hitleriana nem balila. Portuguesa, portuguesa! Deus me livre de ser uma autocrata (...) alemã ou uma comunista! Hei-de ser em tudo cristã e mulher. Viva o século XX! Mas com o desembaraço, a vida intensa e o entusiasmo das raparigas de agora guardemos as virtudes das nossas mães e das nossas avós (...).
Albertina- (...) Tanto me importa que os homens me achem bonita como feia. Não preciso deles para nada e vivo muito bem sem eles.
Joaninha- Não digas "desta água não beberei". Com a tua mania de feminismos exagerados, falas mal dos homens e... queres ser como eles!"
Como se vê, são inumerados, neste texto caricatural, onde surgem uma heroína "positiva" e outra "negativa", quase todos os receios e desejos da MPF relativamente à educação das raparigas. Apontando, por um lado, os perigos do feminismo e os desvios das organizações fascista e nazi, que militarizavam e masculinizavam as jovens, a MPF transmitia, por outro lado, a necessidade de ministrar às jovens uma educação tradicional e especificamente feminina para as manter portuguesas e cristãs.
As heroinas femininas históricas
O Estado Novo, como apontou António Nova, reiventou ideologicamente a História de Portugal construindo uma tradição que fazia de "figuras míticas e religiosas" heróis educativos e que servia de ponte entre um passado mitificado e um presente concreto. Da mesma forma, a MPF transformou as terrenas Dona Leonor e Dona Filipa de Lencastre e a celestial Virgem Maria em heroínas educativas e fez, de datas históricas paradigmáticas, momentos passados de "nascimento" e "renascimento", que desembocavam na "restauração" salazarista: por exemplo, a formação de Portugal, a Restauração de 1640 e o 28 de Maio de 1926 eram todos eles momentos altos de "regeneração", que tinham conduzido ao Estado Novo de Salazar.
Em Junho de 1940, um número especial do Boletim da MPF, dedicado à comemoração do duplo centenário, apresentou esse ano como uma repetição da Restauração de 1640, no qual Portugal estaria a reviver, como no passado, um novo momento de glória. Através do mito cíclico da regeneração e da comparação com a natureza- identificação das épocas históricas com as estações do ano, dando assim a ideia da necessidade "natural" da evolução de Portugal-, era alegoricamente promovido o culto dos dois chefes, Carmona e Salazar:
"As nações, como a terra, têm as suas estações; 1940 é a plena primavera duma época nova (...) Portugal foi grande no passado porque teve grandes valores morais. São os homens que levantam as nações ou as deixam cair (...). A Mocidade Portuguesa Feminina (...) evocando estes oito séculos (...) aponta às suas filiadas como exemplo vivo de bem servir a nação: Carmona e Salazar."
(...)
Outra das facetas da actividade de Formação Moral e Nacionalista da MPF foi o recursao a exemplos femininos da História de Portugal. Essa tarefa coube particularmente a Maria Teresa Leitão de Barros, que, em artigos do Boletim da MPF, erigiu em modelos educativos rainhas e princesas portuguesas, por vezes glorificadas, curiosamente, pelas suas atitudes políticas enquanto governantes, em contradição com as virtudes recatadas das mulheres exclusivamente dedicadas ao lar apregoadas pela MPF. Dona Luísa de Gusmão foi, por exemplo, exaltada pela sua capacidade diplomática e sentido político, pela forma como exerceu o cargo de regente e mesmo por ter sacrificado o seu papel de mãe para defender a nação.
Entre as principais qualidades apontadas na rainha Dona Leonor, contaram-se, por seu turno, o sacrifício pela pátria e pela fé cristã, a inteligência, e, sobretudo, o facto de ter sido a responsável pela "assombrosa realização de assistência social que seriam as Misericórdias".
(...)
As rainhas e princesas não eram, porém, as únicas a ser convocadas para modelos a seguir; também aquelas que escolheram seguir a vida religiosa eram enaltecidas pela MPF. A beata Dona Teresa, filha de D. Sancho I e esposa de Afonso IX, que optou por entrar num mosteiro, foi, por exemplo, elogiada, nas páginas do Boletim da MPF, por Bertha Leite, que não hesitou em defender a via de celibato, ou seja, o caminho do sacrifício do matrimónio e da maternidade, em nome da opção religiosa. (...)
(Cont.)
(p. 301-303)
Iniciamos com este post a edição de informação respeitante à temática apresentada em título. Sendo que a fonte da mesma é a publicação História das organizações femininas do Estado Novo, da autoria de Irene Flunser Pimentel, o número das páginas onde se encontra o texto, encontra-se devidamente indicado.
DA FORMAÇÃO NACIONALISTA Á FORMAÇÃO MORAL E SOCIAL
"Até ao fim da Segunda Guerra Mundial, a MPF preocupou-se, inicialmente, sobretudo com a Formação Nacionalista, ligando-a sempre à formação moral e cristã, dado que, como considerava a organização, Portugal era historicamente cristão, e o catolicismo legitimava o nacionalismo português. Foram os seguintes os objectivos dessa actividade, tal como a MPF os apresentou em 1942:
- dar a conhecer o passado de Portugal, a riqueza do "património lusitano, latino e cristão";
- preparar as gerações futuras para amarem a pátria "até ao sacrifício";
- transmitir os "princípios morais e patrióticos" que enformam o "equilibrado nacionalismo do Estado Novo" e o "distinguem" dos nacionalismos estrangeiros e dos "extremismos dum e doutro lado";
- apontar Salazar como o "realizador da Restauração económica e política do país, mas também, e sobretudo, da Reforma Moral tão necessária na nossa Pátria e que é a base de toda a reconstrução nacional";
- dar como exemplo os "valores femininos da nossa História" para formar raparigas "conscientes dos seus deveres de Cristãs e Portuguesas e convictas da necessidade de cooperarem, pelas suas virtudes, pelo seu aperfeiçoamento moral, na conquista dum Portugal Maior".
Ficaram assim claramente definidos quer as principais ideias do nacionalismo salazarista quer o papel da mulher no "renascimento" de Portugal:
1. Ideia do "ressurgimento" da nação, como continuadora do glorioso passado histórico e ponte para o futuro;
2. Propósito da criação de uma mulher "nova", pronta a servir a pátria com sacrifício da vida;
3. Defesa de um nacionalismo "equilibrado", distinto tanto do comunismo como do nacional-socialismo, e de relações internacionais não expansionistas, a única postura possível para um pequeno país que tentava, na defensiva, preservar a sua independência e o seu império colonial;
4. Mito do "chefe" e culto de Salazar, o "restaurador";
5. Exaltação, através de modelos femininos históricos, da coragem das mulheres que, sacrificando a maternidade, chegaram ao poder, e glorificação das "virtudes" daquelas que foram mães e esposas ou se entregaram a Deus.
A MPF propunha-se, assim, através da Formação Moral e Nacionalista, "nacionalizar" as raparigas para criar uma "mulher nova", cristã e portuguesa, cujo lugar na sociedade orgânica salazarista seria a família, base do renascimento e da grandeza de Portugal, e cuja actuação não passava pela intervenção política directa, atribuída aos homens, mas pela "colaboração" e pela "cooperação" com os esposos e com os governantes. Mas, a MPF não se limitava a difundir estas ideias nos seus centros escolares, utilizava também outros meios de inculcação ideológica, entre os quais se contaram as suas publicações de massas. Veja-se, a título de exemplo, como o Boletim da MPF deu conteúdo aos dois últimos objectivos, anteriormente apontados nos pontos 4 e 5, da Formação Moral e Nacionalista."
(p. 300-301)
(Cont.)
Complementando toda a informação que pretendemos disponibilizar, registamos uma última vertente por nós seleccionada que, note-se, não esgota de todo, a abordagem relativa à MPF. É esta vertente aquela relativa às publicações periódicas então editadas pelo movimento.
Considerando a utilização estratégica destas publicações para a transmissão de valores e comportamentos a adoptar pelas jovens, o seu conhecimento apresenta-se de grande relevância para a melhor compreensão de toda a ideologia sustentadora da MPF (assim como da mentalidade das suas dirigentes).
Serão registados os títulos em questão, assim como serão dados exemplos de textos ou excertos de textos em si editados.
A informação aqui em causa continua a ter proveniência no estudo desenvolvido por Irene Flunser Pimentel.
Dando sequência às abordagem que neste blog iremos fazer relativamente à MPF, registamos como temáticas a desenvolver:
- A Formação Nacionalista/Formação Moral e Social.
- A Educação Física.
- Formação Social e Caritativa.
A informação a estes níveis apresentada continuará a ter como base o trabalho de Irene Flunser Pimentel, anteriormente registado.
Continuando a dar atenção à investigação levada a cabo por Irene Flunser Pimental registamos, para efeitos de edição futura, a existência de centros enquadradores das filiadas da Mocidade Portuguesa Feminina. Denominando-se globalmente como Centros Escolares, assumiam as seguintes especificidades:
1- Centros dos liceus femininos
2- Centros universitários
3- Centros de indústrias regionais
No âmbito desta abordagem serão apresentados registos numéricos representativos das organizações, actividades e desenvolvimentos verificados.
Na sua obra História das organizações femininas do Estado Novo, Irene Flunser Pimentel, apresenta uma proposta de abordagem periodal no que concerne ao desenvolvimento da Mocidade Portuguesa Feminina, no âmbito da sociedade portuguesa. Nessa abordagem, a cada período corresponde um conjunto de características próprias, sendo que são estas que permitem ir detectando especificidades onde poderá haver tendência para considerar uniformismos e monolitismo. Registam-se, igualmente, acontecimentos particulares que foram temperando a vida do movimento.
Propõe-nos, assim, a investigadora, a seguinte organização, para efeitos de compreensão e acompanhamento:
1. Formação e implantação da MPF. 1938-1947.
2. A MPF surge à luz do dia. 1938-1942.
3. Os poderes da Mocidade reforçam-se. 1942.
4. A integração das actividades da MPF no plano escolar. 1947.
5. Da integração da MPF na escola à limitação da obrigatoriedade. 1948-1957.
6. O novo estatuto da MPF. 1950
7. Das críticas à obrigatoriedade ao II Congresso da Mocidade Portuguesa.
8. A sociedade muda, o regime treme e a escola vence a MPF. 1958-1966.
9. Implementação nas colónias. 1960-1963
10. A remodelação de 1966
11. Do princípio do fim à extinção da MPF. 1968.1974
Relativamente a todas estas fases, serão aqui consideradas as sínteses elaboradas pela autora.
Referência bibliográfica:
PIMENTEL, Irene Flunser- História das organizações femininas do Estado Novo. Lisboa: Temas e Debates, 2001.
Dando continuidade ao tema que nos propusemos abordar, registamos agora, um conjunto de informações relativas à primeira das organizações de juventude integradas na política e nos propósitos do Estado Novo.
Antecedente da Mocidade Portuguesa, a Acção Escolar Vanguarda desenvolveu a sua actividade entre 1934 e 1936.
Sobre si, um texto da autoria de Luís Farinha, intitulado "Acção Escolar Vanguarda" e publicado no último número da revista História. Como apresentação sublinha-se:
"Nos primórdios do Estado Novo, a Acção Escolar Vanguarda constituiu uma primeira tentativa de organização juvenil do regime, de pendor fascista".
Referência bibliográfica:
FARINHA, Luís- "Acção Escolar Vanguarda". História. Ano XXV (III Série). Fevereiro 2004. Nº 63, p. 30-33.
A ACÇÃO ESCOLAR VANGUARDA
"Em 28 de Janeiro de 1934, a Acção Escolar Vanguarda apresentava-se, em Comício, no Teatro S. Carlos (Lisboa), com discursos de António Ferro do recém-criado SPN (Secretariado de Propaganda Nacional)- um ideólogo do novo regime em constituição, e de Salazar- o prometedor "chefe" em potência do Estado Novo, nem por isso incontestado por esta época pelos sectores mais extremistas, de pendor fascista- os designados "rolões", do nome de Rolão Preto, "chefe" do Movimento Nacional- Sindicalista. Era a primeira organização juvenil criada pelo regime para "combater as ideias comunistas" difundidas entre a juventude, em especial nos meios académicos e sindicais. Teve uma duração curta já que, em finais daquele ano se encontrava praticamente moribunda dando lugar, dois anos depois, à Mocidade Portuguesa, uma organização na linha salazarista dominante. Não deixou de ser, segundo António Costa Pinto "uma organização de dinâmica fascista. O seu jornal- Avante- é um órgão da direita extremista, simpatizante da criação de um forte movimento de massas, à imagem do que acontecia por essa altura em Itália. Muitos dos seus artigos eram escritos por dirigentes fascistas italianos- mesmo alemães. A componente ideológica é fortíssima, com críticas ao capitalismo e traços evidentes de anti-semitismo. No curto espaço de tempo em que se afirmou, os jovens agregados- os "camisas verdes"- eram treinados pelos "tenentes" apoiantes do regime, no Porto, realizaram marchas pelo país e comícios de afirmação fascista". Nunca terão ultrapassado os dois milhares de aderentes. Foram, pois, uma minoria muito politizada, de voluntários, dispostos a influenciar a implantação de um regime de natureza fascista em Portugal e com os olhos postos no evoluir do país e da conjuntura internacional.
Um mundo à beira da guerra
No início de 1934, o mundo vivia de olhos cravados na incompreensível terra alemã. Sob o efeito de uma tremenda crise económica, e da vigilância da opinião pública antifascista internacional, a França e a Inglaterra mostravam-se amedrontadas perante a inutilidade da Sociedade das Nações para conter o armamentismo alemão e a contaminação da Áustria pelo "vírus" nazi. Neste país, no início de Fevereiro, foram dissolvidos todos os partidos políticos, à excepção da Frente Patriótica de Dolfuss- para uns meses depois, o próprio ditador ser assassinado, durante uma tentativa de golpe nazi. Por todo o lado, as direitas nacionalistas ganhavam ânimo. Nos finais de 1933 (Novembro), os nazis tinham dominado as eleições alemãs, com 92% do eleitorado a votar em seu favor. Aprovavam, obviamente, a política anti-liberal e anti-social do chanceler nomeado por Hindenburg: governo sem Parlamento e supressão dos sindicatos e dos partidos políticos. Aí estava uma interessante maneira de suprimir as lutas sociais, cortando o mal pela raiz. De resto, se mais dúvidas houvera, a confirmação viria com a aprovação, em referendo, da fusão dos poderes na pessoa do Furher, após a morte de Hindenburg, em Agosto de 1934. Adolf Hitler- o "Chefe"- ia salvar a Alemanha.
Por toda a Europa (e também pelo mundo), a crise do capitalismo, que provocara milhões de desempregados, resolvia-se por um reforço dos poderes do Estado e pela supressão das liberdades individuais e colectivas. No país vizinho, falhara o compromisso entre republicanos e socialistas, em nome de um "humanismo socialista". Na mesma altura em que Hitler ganhara o eleitorado alemão de forma esmagadora, as direitas republicanas espanholas ganhavam as eleições (Novembro de 1933) e, não por acaso, também Getúlio Vargas assumia poderes ditatoriais no Brasil. Assediada por violentos tumultos, no início de 1934, a República francesa decidia-se pela constituição de um governo de união nacional, por forma a evitar uma possível guerra civil.
Passados ainda poucos anos sobre o terrível primeiro conflito mundial, voltava o pesadelo da guerra. No Extremo Oriente, o Japão anunciara (Março de 1933) a sua retirada da SDN e, em função de uma política belicista, voltava a acordar o conflito russo-japonês- que tinha fragilizado o Império dos Czares em 1905.
O Portugal pró-Salazar
Em Portugal, não eram muito diferentes as condições económicas e políticas que se viviam em finais de 1933 e início de 1934. As elites liberais desistiram do jogo democrático e os últimos resistentes republicanos tinham sido conduzidos ao exílio, à deportação ou à inutilidade de uma semi-clandestinidade inofensiva. Não tinha sido necessário decretar ostensivamente o fim dos partidos políticos e dos sindicatos: foram desaparecendo, de forma "natural" durante a Ditadura Militar, quer em função da repressão e da censura que ocorria após cada revolta contra a Situação, quer em função da dinâmica inclusiva do Salazarismo que passava pela atracção da maioria das oposições, atribuindo-lhe cargos no aparelho de Estado e pelo esmagamento dos mais renitentes e intransigentes. Em 18 de Janeiro, a tentativa de greve geral tinha constituído o "canto cisne" do movimento sindical livre- e bem assim de uma elite sindicalista com raízes nos tempos áureos do pós-guerra. Em seu lugar, o Estado Novo configurou uma nova estrutura orgânica de enquadramento ideológico, político e institucional. Em Setembro de 1933 promulgou o Estatuto de Trabalho Nacional e reorganizou os Sindicatos Nacionais. Já em Março tinha obtido uma esmagadora confirmação do novo modelo constitucional, através de referendo (embora as abstenções tivessem sido contabilizadas a favor.) Até Maio do ano seguinte preparou o I Congresso da União Nacional e o "partido único" do regime. No entanto, só em finais de 1934 (Dezembro) se abalançou à realização de eleições legislativas, porque tinha sido difícil serenar os extremismos de direita que tinham apoiado até aí a Ditadura Nacional, embora com expectativas muito fortes de fascização do regime- entre eles os nacionais-sindicalistas de Rolão Preto, o qual veio a ser exilado em Julho de 1934, em função da oposição que fazia ao Ditador. A formação da Acção Escolar Vanguarda encaixa nesta conjuntura de captação das franjas radicais de direita, como explica António Costa Pinto: "É uma dupla resposta do recém criado SPN, com António Ferro, mas especialmente com António Eça de Queirós. Por um lado, procurava enquadrar os dissidentes do movimento Nacional-Sindicalista, em desagregação; por outro, procurava integrar na Ditadura- sob a chefia de Salazar- uma juventude "ardente" e desejosa de vitoriar, mimeticamente, os movimentos fascistas europeus".
A Acção Escolar Vanguarda
Era seu dirigente máximo Ernesto de Oliveira e Silva que definia a sua organização como um reduto do combate "antiliberal e antimarxista ao serviço da Nação". Afirmou-se definitivamente no Comício do teatro S. Carlos, onde discursou Salazar- também contra o comunismo: "a grande heresia da nossa idade". À juventude presente, que o saudava de braço erguido, à romana, Salazar doutrinava. O Comunismo caminhava para "a subversão de tudo e na sua força destruidora, não distingue o erro e a verdade, o bem e o mal, a justiça e a injustiça" e "pouco se lhe dá da História e das experiências seculares da humanidade, da vida e da dignidade da inteligência, dos puríssimos afectos da família, da honra e do pudor da mulher, da existência e grandeza das nações, contanto que a sua falsa concepção da humanidade tenha podido arrancar a escravidão do homem e a sua máxima abjecção" (Salazar, A Escola, A Vida e a Nação).
A AEV era uma organização transclassista, assegura António Costa Pinto: "Procurava doutrinar a juventude, tanto trabalhadora, como estudantil. Houve contactos com o Ministério da Instrução, mas era, fundamentalmente, uma organização pensada a partir do espírito de inculcação ideológica e doutrinária que fundamentou a criação do Secretariado de Propaganda Nacional". No Comício de apresentação do teatro S. Carlos, António Ferro não escondia os seus objectivos de propaganda do Estado Novo que queria ajudar a criar com a chefia de Salazar. Aos que duvidavam das suas capacidades de renovação revolucionária afirmava: "Atrás da sua calma, do seu perfil inquebrantável, há mais inquietação, mais revolução, mais vanguarda que em todos esses movimentos desordeiros das alfurjas, que pretendem escalar o poder e terminam sempre na polícia".
Independentemente da reduzida dimensão e duração, a Acção Escolar Vanguarda cumpriu o seu papel de intervenção social e ideológica, numa altura crucial de fundação e afirmação do novo regime salazarista. Desde logo, porque ajudou a solucionar o problema da desactivação do movimento nacional-sindicalista; depois, porque deu o mote para a criação da futura Mocidade Portuguesa- um movimento mais á medida do projecto do regime. Os dois foram movimentos criados a partir de cima, por iniciativa dos órgãos de propaganda e de formação da juventude, por isso ordenadores da ordem política vigente. Separavam-se, contudo, na sua feição ideológica: a AEV foi um movimento de assumidas simpatias fascistas, ao passo que a Mocidade Portuguesa visou uma integração mais completa da juventude dentro dos "valores nacionais".
Concluímos com este post a edição de imagens representativas da Mocidade Portuguesa e da Mocidade Portuguesa Feminina. Apresentam-se, então, as seguintes:
Figura 1

Figura 2

Figura 3

Continuamos a edição de imagens representativas da Mocidade Portuguesa e Mocidade Portuguesa Feminina:
Figura nº 1

Figura nº 2

Figura nº 3

Figura nº 4

Figura nº 5

(Independentemente da edição das imagens se verificar na sequência das apresentadas anteriormente, vamos registar a sua numeração autónomamente, atendendo à ordem de visualização dos posts, não confundindo assim os leitores.)
1. Breve apresentação
A Mocidade Portuguesa foi criada no ano de 1936. Foi uma organização oficial juvenil, integrada no Ministério da Educação Nacional e administrada por um Comissário Nacional. Os seus objectivos eram enquadrar na mentalidade dos mais jovens os valores do regime: "Deus, Pátria e Família".
Para ajudar na imposição dos princípios veinculados pelo Estado Novo, o desporto era fundamental devido à disciplina que requeria.
Esta organização enquadrava os jovens (sexo masculino) por escalões etários, cada um deles com nomes específicos: os lusitos (dos 7 aos 10 anos), os infantes (dos 10 aos 14), os vanguardistas (dos 14 aos 17) e os cadetes (dos 17 aos 25).
Todos os sábados, aqueles pertencentes à Mocidade, tinham que cumprir certas "obrigações" ou "rituais", tais como içar a bandeira, saudação à romana, marchas militares, exercícios físicos, palestra patriótica e cantar o hino da organização. Tinham por símbolo a bandeira de D. João I.
O uniforme da Mocidade Portuguesa era composto por uma camisa verde (com distintivo sobre o lado esquerdo), calção ou calça comprida bege e, para completar uns botins pretos. O primeiro comissário nacional a dirigir a Mocidade foi Francisco José Nobre Guedes.
Em Dezembro de 1937 formou-se a Mocidade Portuguesa Feminina e, tinha como objectivos formar uma nova mulher, boa católica e portuguesa, futura mãe e esposa obediente. Foi eleita para comissária a Deputada da União Nacional (UN) Maria Baptista Guardiola.
As filiadas organizavam-se de acordo com quatro escalões: lusitas (7-10 anos), infantas (10-14), vanguardistas (14-17) e lusas ( a partir dos 17)
Quer a Mocidade Portuguesa, quer a Mocidade Portuguesa Feminina foram extintas após o 25 de Abril.
(Após esta breve apresentação, será editada informação mais pormenorizada relativa à MP e à MPF. Aquela presente tem como objectivo tornar compreensíveis as imagens, naquela que é a sua visualização imediata.)
2. Inerente à utilização e à representação pela/da Mocidade Portuguesa e pela/da Mocidade Portuguesa Feminina, temos como 1º conjunto de figuras:
Figura nº 1

Figura nº 2

Figura nº 3

Figura nº 4

Figura nº 5

Figura nº 6

Registamos como alvo de edição em futuros posts, informação relativa a organizações enquadradoras da juventude, criadas e favoráveis pelo/ao Estado Novo, em particular:
- Acção Escolar Vanguarda
- Mocidade Portuguesa
- Mocidade Portuguesa Feminina
Serão igualmente editados posts com fotografias e pinturas/desenhos a si respeitantes. A atender, igualmente, a simbologia predominante e utilizada.
Depois dos exemplos de pinturas apresentados, editamos agora, duas obras representativas da escultura, na ex-URSS:
1- Monumento ao Soldado Libertador. Soldado do Exército Vermelho segurando nos braços uma criança e pisando a cruz suástica. A vitória sobre o Nazismo.

2- Homem operário e Mulher.

(Também ao nível da escultura, que as imagens deixadas sejam um estímulo para um maior aprofundamento).
Na sequência do post anterior, editamos agora, algumas pinturas representativas das temáticas e "estilo" inerentes ao Realismo Socialista (produções na ex-URSS):
1- Alla Zamai: Celebrando a colheita (1951)

2- Satel G: Na construção do hotel Ukraina (1950)

3- Taras Maksimenko: Trabalhando em um projecto (1960)

4- Nikolai Artemevitch Pavlyuk: Lenin no seu escritório (1947)

5- Aleksander Ivanovich Laktionov: Retrato de Estaline (1949)

(Os exemplos apresentados não esgotam, de todo, o tema. Que se considerem um pequeno estímulo para aprofundamentos posteriores)
Deixamos o registo de algumas ideias:
1- "Realismo socialista, estilo generado en la Unión Soviética en la década de 1930 con fines propagandísticos y que se difundió a otros países comunistas después de la II Guerra Mundial. Dicho movimiento, se fraguó en la extinta URSS durante la época de Iósiv Stalin y el primer paso hacia su establecimiento oficial fue en 1932, cuando el Comité Central del PCUS (Partido Comunista de la Unión Soviética) decretó que todos los grupos artísticos independientes se disolvieran en favor de las nuevas formaciones controladas por el reciente Estado. En el año 1934 el yerno de Stalin, Andrei Zhdánov, pronunció un discurso en el Congreso de la Unión de escritores soviéticos en el cual se afirmaba que el realismo socialista era la única forma de arte aprobada por el Partido. A partir de ese momento, los artistas fueron requeridos para suministrar un 'panorama históricamente concreto de la realidad en su desarrollo revolucionario'. Zhdánov también repitió la frase de Stalin que describía al artista como un 'ingeniero del alma humana'.
El soporte de esta teoría estética estaba fundado en los escritos de Marx, Engels y Lenin. La esencia del Realismo Socialista se desarrolló gradualmente desde esas premisas y sus preceptos se volvieron confusos a través de las subsiguientes críticas y comentarios del Partido. Broadly vino a decir que el artista debería pintar sucesos y personas reales desde una óptica optimista e idealizada que proporcionara la imagen de un futuro glorioso de la URSS bajo la era comunista. El arte debía ser accesible a las masas y tener un propósito social. En aquel momento, con las demostraciones de procesos y depuraciones de los oponentes políticos en la década de 1930, los artistas que no acataron los dogmas del realismo socialista fueron expulsados de su empleo, exiliados o asesinados. En severo contraste con el ambiente de la vanguardia de la década de 1920, todo arte formalista y progresista fue censurado como capitalista y burgués y desprovisto de cualquier relevancia para el proletariado.
Aunque el partido restringió drásticamente la libertad artística, hubo sin embargo una gran variedad de interpretaciones del realismo socialista en términos de estilo y de temática. Los asuntos más tratados incluían imágenes de trabajadores en los campos o en las fábricas, retratos de Stalin y de otras figuras de Estado, escenas históricas de la Revolución e idealizaciones de la vida doméstica. En lo estilístico, los artistas fueron animados a imitar el trabajo de Iliá Repin y otros miembros del grupo de los Vagabundos, aunque algunos emplearon un tímido impresionismo o una manera de pintar más ingenua. Uno de los exponentes favoritos del realismo socialista fue el pintor Sergei Gerasimov, quien produjo paradigmáticas imágenes tales como Fiesta en una granja colectiva (1936-1937) y Stalin y Voroshilov en el Kremlin (1938; ambas en la Galería Tretyakov de Moscú).
Después del fin de la II Guerra Mundial el realismo socialista tomó un cariz nacionalista, y las influencias extranjeras fueron especialmente criticadas. Ejemplos de este estilo académico, con énfasis en escenas históricas gloriosas, son las obras de Vladimir Serov como La entrada de Alejandro Nevski en Pskov (1945, San Petersburgo). La URSS también impuso el realismo socialista al nuevo bloque de países del Este. Sin embargo, con la muerte de Stalin en el año 1953 y el declive de su reputación bajo Nikita Jruschov, el realismo socialista se transformó en un estilo menos fuerte aunque permanecieran ecos de la estética oficial. También se extendió a China, donde fue el único estilo aceptado hasta la muerte de Mao Zedong en 1976. Con la disgregación del bloque comunista a fines de la década de 1980 el realismo socialista decayó. Pasó a ser utilizado de forma irónica en algunas obras, y a criticar el antiguo sistema comunista".
(Extraído de Lycos.es)
2- "É definido no Congresso de Escritores Soviéticos, realizado em Moscou em 1934, como o único estilo para escritores e artistas russos. Para Andrei Zhdanov, "o realismo socialista pede do artista uma representação de realidade verdadeira e historicamente concreta em seu desenvolvimento revolucionário. A esse respeito, verdade histórica e realidade devem se combinar com a tarefa de transformação ideológica e a educação dos trabalhadores no espírito do socialismo". Após o desaparecimento dos movimentos de vanguarda construtiva, são desenvolvidos na União Soviética (atual Rússia) movimentos realistas como a AKhRR - Assotsiatsia Khudozhnikov Revolutsionnoi Rossii (Associação de Artistas da Rússia Revolucionária) e a OST - Sociedade de Pintores de Cavalete, criadas respectivamente em 1922 e 1924. A OST, influenciada pela arte alemã, que foi exposta em Moscou em 1924 e 1925, reuniu pintores cujas obras aspiravam realizar um retrato positivo da realidade e expressar a nova era da construção socialista. Enfatizava-se o potencial da tecnologia soviética. Artistas mais destacados: Deineka, Jurij Ivanovic Pimenov, Abram Petrovic Shterenberg, Vialov, Mihajl Vasil´evic Nesterov e Isaak Israilevic Brodskij. No Brasil: Carlos Scliar, Renina Katz, Mário Gruber e Abelardo da Hora".
(MORAIS, Frederico- Panorama das artes plásticas séculos XIX e XX. Apresentação Ernest Mange. 2. ed. rev. São Paulo: Itaú Cultural, 1991.)
É com um excerto de Tarrafal, o pântano da morte, de Cândido de Oliveira, que damos por terminada a edição de posts respeitantes a alguns exemplos da denominada Literatura autobiográfica da resistência ao Estado Novo, versando esta, uma realidade específica.
No texto em anexo o autor faz a apresentação da Colónia Penal e Campo do Tarrafal. Atender às diferenças por si estabelecidas. Registar as considerações apresentadas.
"O ARAME FARPADO
Ao abandonarmos a vila do Tarrafal pela estrada que se dirige para a aldeia de Chambom, separando o pântano da Achada Grande da cadeia do monte que emoldura a baía, divisa-se logo, à direita, em frente, o talude rectangular que protege o campo, em jeito de fortaleza colonial, encimado pelos torreões para metralhadoras, nos quatro cantos do rectângulo, e pelas guaritas dos soldados. Dois ou três quilómetros andados por entre duas alas de raquíticas purgueiras, de folhagem semelhante à da figueira, abre-se uma rotunda murada, donde irradiam quatro estradas: aquela que seguimos, aquela que a prolonga até à aldeia do Chambom; uma terceira, à esquerda, que conduz ao "Chalet do Monte", vivenda do director da Colónia; e a quarta, à direita, a mais larga, construída pelos deportados, a nascer entre duas colunatas de pedra, unidas superiormente por um estreito arco, em ferro, onde está inscrita a legenda: "Colónia Penal do Tarrafal".
Estamos na Colónia. A estrada passa a chamar-se pomposamente "Avenida do Chambom". Desce em direcção ao mar, num desenvolvimento de uns seiscentos metros e termina numa pequena horta, mesmo à beira-mar, onde existe o poço de captação de água que abastece o Campo e a população das imediações.
A Avenida tem uns dez a quinze metros de largo e é quase toda ela debruada por acácias rubras, ainda raquíticas, plantadas há uns três anos, e confiadas ao carinho dos presos da brigada das árvores.
Quando se desce a Avenida, deixamos, à mão esquerda, a central eléctrica, a parada da Companhia Indígena, dois ou três pequenos edifícios destinados aos oficiais e sargentos e, no mesmo plano, mas no outro lado da parada, na margem da Ribeira do Chambom, as casernas dos soldados, a cozinha e os depósitos de material, e tudo arrumado dentro de um amplo quadrilátero, circundado por duas ordens verticais de arame farpado.
Mais abaixo, encontram-se, também do lado esquerdo, três barracas em madeira, de boa construção, suspensas no ar, assentes em pilastras de um metro de altura. Têm o jeito de "bungalows" ingleses. Foram construídas na Alemanha e tinham ido para Cabo Verde, quando da tentativa da fundação de um Campo de Concentração na Ilha de S. Nicolau. Nessas três barracas vivem os guardas e o topo de uma delas é ocupado pela farmácia da Colónia.
Deste lado da Avenida nada mais existe, a não ser a Frigideira, a prisão da Colónia, horrenda construção em cimento armado, a que havemos de nos referir. Está afastada uns duzentos metros da avenida, sobre a margem da Ribeira de Chambom, no prolongamento das casernas dos soldados de Angola.
À direita de quem entra na Colónia, fica o Campo de Concentração- a aldeia tumular dos deportados, com uma fachada de terra, em talude, numa extensão de duzentos metros, quebrado ao centro pela porta, nome por que é conhecida a entrada naquele horrível sorvedouro de vidas humanas; entre a avenida e talude, à esquerda da porta há um barracão de madeira, idêntico aos anteriores, onde está instalada a secretaria; e, mais além, um edifício de alvenaria, utilizado para messe dos guardas e depósito de géneros. Finalmente uma outra barraca de madeira- o Armazém! O mercado da Colónia. Com o seu mercado negro ou clandestino. Um bilhete que se passa, destinado ao Campo, com as últimas notícias da guerra; uma carta clandestina para o interior, um jornal... uma revista... um mapa de guerra... Coisas simples e sem importância real a não ser no Tarrafal, porque ajudam a matar o isolamento cruel a que estão sujeitos os deportados que foram sepultados em vida no Campo de Concentração.
Para além da espessa e alta muralha de terra, do profundo e largo fosso, da intrincada e agressiva teia de arame farpado está o Campo.
Colónia e Campo não têm ali a mesma compreensão. Justificadamente. A Colónia significa toda a área da Achada Grande, de um quilómetro quadrado, adquirida pelo Estado, e desgarrada da jurisdição do governador de Cabo Verde para ficar directamente dependente do capitão Agostinho Lourenço da PVDE.
A área da Colónia não pertence nem depende do Ministério das Colónias. É zona autónoma. As autoridades locais não têm a menor jurisdição sobre aqueles terrenos nem sobre os indivíduos que neles vivem. Nem ali podem entrar sem prévia autorização do director do Campo de Concentração, que depende sob todos os aspectos do Ministério do Interior.
É uma dependência da PVDE! Como o Forte de Caxias ou o Forte de Peniche ou a cadeia do Aljube. Enquadra-se na série de depósitos de presos à disposição da polícia política, e sujeitos à autoridade discricionária do capitão Agostinho Lourenço- o Krammer português- o que lhe permite transferir livremente o preso político de um depósito para outro... A passagem do Aljube para Caxias ou de Peniche para o Tarrafal é da competência do director da PVDE!
Deste modo, a Colónia, é terreno feudal. Nem o Ministério da Justiça, nem o Ministério das Colónias, nem qualquer outra autoridade pode intervir ou conhecer o que se passa no Tarrafal".
Editamos, com este post, um excerto do livro O segredo das prisões atlânticas, da autoria de Acácio Tomás de Aquino, dando desta forma sequência às apresentações feitas anteriormente.
Destacamos, em termos de conteúdo, o registo das condições que deram origem, no Tarrafal, ao agravamento de saúde e consequente morte de Mário Castelhano, secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho e Director do jornal A Batalha (órgão da CGT).
Decorria o ano de 1940.
"MORREU MÁRIO CASTELHANO
Mário Castelhano, desde o seu internamento na Fortaleza de São João Baptista na Ilha Terceira, nos Açores, vinha sofrendo dos intestinos, mas como em Angra o médico assistente não recusava receitar especialidades farmacêuticas necessárias ao tratamento dos presos doentes ali enclausurados, a doença do Mário não se agravou.
Assim que foi internado no Campo de Concentração do Tarrafal, quer pela deficiente alimentação quer pela falta de medicação adequada para atenuar ou curar a sua enfermidade, lentamente o seu mal foi-se agravando, até que, nos primeiros dias de Outubro de 1940, Mário Castelhano baixa à enfermaria com febre intestinal.
Ao fim de vários dias, como a dieta a que estava sujeito não o alimentasse convenientemente, o médico Esmeraldo Pratas Pais receitou-lhe outra dieta, como melhor alimentação no seu entender: papas de farinha.
Assim que o Mário começou a ingerir esta nova dieta, o seu estado de saúde agravou-se ainda mais.
Como eu nessa altura estivesse atravessando uma crise de dores no lumbago, crise que frequentemente me imobilizava, e desejando a todo o custo que o director soubesse do estado em que se encontrava o Mário, expus ao camarada Manuel Pessanha o meu desejo, para que ele transmitisse ao Rosinha, então criado do director, e este assim fez. O Rosinha transmitiu o caso à mulher do director, dizendo-lhe que o Mário já o tinha salvado da morte, assim como outros camaradas, exaltando as suas qualidades, e que naquele momento estava muito mal.
O director assim que a sua mulher lhe transmitiu o que se passava com o Mário, chamou a Rosinha, para que lhe explicasse melhor o assunto. Ao mesmo tempo pergunta-lhe quem teria sido o preso que lhe dera esse recado. O Rosinha, por engano, segundo afirmou, em vez de citar o nome do Pessanha disse-lhe que fora Tomás de Aquino.
O director, durante o pouco tempo do seu reinado, manifesta para comigo uma certa aversão, sem eu saber o motivo, mas vai imediatamente à Vila e traz o médico consigo, a fim de assistir ao que me desejava dizer, e ouvir o que eu lhe dissesse.
Já depois de ter tocado o recolher, abriram a porta da caserna e um guarda chama por mim e indica-me para ir ao portão falar ao director.
Quando cheguei, o director mandou-me encostar a um dos fortins, o que me fez desconfiar que alguém ali se encontrava escondido.
- Então o que se passa com o Mário Castelhano?
Apesar de não ter sido quem falara ao Rosinha a propósito da doença do Mário, não tive dúvidas em lhe responder, como se de facto fosse a minha pessoa que o tivesse feito.
- Senhor director, é um facto incontestável que o Mário Castelhano, desde que o médico lhe receitou papas de farinha como dieta, o seu estado de saúde agravou-se consideravelmente!
- Mas o que são essas ampolas de comer?- pergunta-me.
O Rosinha em vez de dizer ampolas bebíveis disse de comer.
- Deve ser engano, senhor director, eu falei ao Rosinha foi em ampolas bebíveis e não de comer. Tais ampolas bebíveis creio que são aconselháveis para as infracções intestinais!
Com azedume interpela-me:
- Mas o que é que você percebe de medicina? Você está a chamar assassino ao médico?
- Eu não lhe estou a chamar assassino. Eu, mais os meus camaradas do acampamento, estamos dispostos a comprar os medicamentos necessários para salvar o Mário, caso a farmácia da Colónia não os tenha!
- Mas quem é que lhe disse que as papas lhe faziam mal? Volta o director a interrogar-me em termos de censura.
- São todos os componentes do acampamento. Especialmente os que acompanham mais de perto a evolução da sua doença!
- Diga lá um nome? E apresta-se para registar.
- Sou eu um deles; disse-lhe peremptoriamente.
O director mandou chamar o enfermeiro Virgílio de Sousa. Percebendo a sua intenção, interpus:
- Senhor director, eu não disse que fosse ele!
O guarda não chegou a chamar o Virgílio, porque ele logo quis admoestar:
- Você, há tempos, quando foi marcar a casa junto à minha residência, fez lá um comentário desagradável à minha pessoa... Você queria era já uma tareia!
Voltando-se para o guarda, ordena-lhe:
- Leva já este sacana para a "Frigideira".
Quando regressei de lá baixei á enfermaria, e assim que o médico viu que eu já podia pôr-me de pé, o director mandou formar os presos e chama por mim e o Virgílio de Sousa.
Na presença do médico, o director começa por enaltecer as qualidades dele, a quem estava confiada a vigilância da nossa saúde, para depois desdenhar miseravelmente da dignidade e da competência profissional do abnegado enfermeiro Virgílio de Sousa. A meu respeito, com desdém aludiu a que eu, profissionalmente, nem servente de pedreiro era.
Dali segui para a "Frigideira".
Daí a dois dias, a 12 de Outubro de 1940, morre o Mário Castelhano, nos braços do nosso camarada Américo Martins Vicente, o que nos causou profunda consternação.
Alguns camaradas, supondo que teria havido uma provocação por parte do Rosinha para me prejudicar, fizeram um inquérito, sendo ouvidos o Pessanha, o Rosinha e eu. Verificou-se que nada houve em desabono do Rosinha.
Com a perda do camarada Mário Castelhano, não só a Organização Libertária Prisional, como também a organização anarco-sindicalista perdeu um dos seus melhores elementos.
Mário Castelhano foi um dos militantes mais prestigiosos do movimento operário, carácter íntegro, dotado de uma inconfundível tolerância, mas energicamente combativo em todos os momentos cruentos da luta contra a tirania. Defensor acérrimo e convicto das suas ideias anarco-sindicalistas, pelas quais sempre denodadamente combateu, foi várias vezes preso e várias vezes deportado.
Foi secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho, Director do jornal A Batalha, órgão da CGT, e colaborador activo do movimento revolucionário e grevista do 18 de Janeiro de 1934. Faleceu vítima da infecção intestinal, sem qualquer assistência médica.
Os camaradas que nessa altura estavam no serviço de saúde, Virgílio de Sousa, Leonildo Assunção Felizardo, Silvino Leitão, Fernando Costa e Américo Martins Vicente, este como doente crónico, e sempre um abnegado auxiliar, tentaram por todos os meios ao seu alcance arrancar às garras da morte o moribundo Mário Castelhano, mas toda a sua boa vontade, saber e dedicação foram baldados, em consequência da falta de medicamentos, sonegados criminosamente pelo famigerado médico carcereiro Esmeraldo Pratas Pais.
A estes quatro camaradas atrás citados, como a outros que mais tarde se incorporaram no serviço de saúde, não podemos deixar de registar o nosso mais vivo reconhecimento pelo seu inexcedível e abnegado afã na assistência aos muitos doentes prostrados nos leitos e aos que necessitavam dos seus cuidados permanentes.
Continuam os castigos acintosos com pretextos forçados ou insignificantes.
Alpedrinha é castigado com três dias por discutir com um guarda por causa de um púcaro de água.
Os presos voltam a usar o cabelo comprido. Domingos Tavares, Gabriel Pedro e Francisco Miguel são castigados, respectivamente, com seis, quatro e dois dias por não tirarem o chapéu ao guarda Velhinho, e Manuel Gomes por não ouvir a ordem de "Tirar chapéus" é castigado com 10 dias. Damásio Pereira é punido com quatro dias por conduzir a cama para o depósito de doentes sem autorização do guarda.
O guarda Carlos Silva é agredido pelo director por ele participar do seu criado Rosinha, mas entretanto este e Tomás Garcia passam duas noites na "Frigideira".
O guarda Teixeira apreende um par de botas que José de Almeida estava fazendo sem autorização, sendo castigado com 10 dias, e António Gonçalves Saleiro "Viana" também com 10 dias por tentar encobrir, e é agredido na secretaria.
Jacinto Vilaça baixa à enfermaria com uma biliosa".
Na sequência de tudo o que tem sido editado sobre a antiga colónia penal do Tarrafal, dos excertos de obras (literatura autobiográfica) apresentados e ainda a apresentar, deixamos algumas fotografias, da responsabilidade de Bjorn Hagelby, respeitantes ao espaço em questão, naquele que é o seu estado na actualidade:
Fotografia 1

Fotografia 2

Fotografia 3

Fotografia 4

Fotografia 5

Fotografia 6
[Não apresentamos mais informação adicional, por a mesma não se encontrar inerente às respectivas fotografias.]
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Sob o título "Kaúlza de Arriaga, el último militar partidario del salazarismo", noticiou no passado dia 03, o jornal espanhol El Mundo:
"LISBOA.- El general Kaúlza de Arriaga, último reducto militar del salazarismo, murió el 2 de febrero de 2004, a los 89 años, en el Hospital Militar de la capital portuguesa.
El general, uno de los militares más temidos del régimen conocido como Estado Novo, quedó marcada por la campaña militar en Mozambique en la década de los setenta, dentro de las guerras coloniales portuguesas, y siempre rechazó la independencia de las antiguas colonias lusas, que consideraba fruto de la conspiración comunista.
Nacido en Oporto, el 18 de enero de 1915, aunque su familia procedía del archipiélago de las Azores, Kaúlza de Arriaga fue el estratega de la llamada 'Operación Nudo Gordiano' en las guerras coloniales
El mariscal Francisco da Costa Gomes, presidente portugués durante dos años tras la Revolución del Claveles, que fue uno de los rivales democráticos dentro de las filas castrenses de Arriaga, criticó aquella aventura militar que movilizó a varios miles de soldados portugueses en ultramar por el enorme costo humano y material y sus escasos resultados.
Fruto de la actuación del fallecido en las colonias fue también una grave matanza civil en la aldea mozambiqueña de Wiryiamu, el 30 de diciembre de 1972.
El incidente, del que Arriaga siempre declinó la responsabilidad, costó la vida de centenares de civiles, muchos de ellos mujeres y niños.
En 1998, el militar desaparecido trataba de justificarse en una entrevista con estas palabras: "Yo ni siquiera estaba en Mozambique. Se efectuaron tres investigaciones. Ni siquiera hubo una matanza, ni 400 muertos. Sólo 66".
Kaulza de Arriaga, que siempre consideró la Revolución de los Claveles "el peor acontecimiento en ocho siglos de historia portuguesa" fue pasado obligatoriamente a la reserva el 14 de mayo de 1974, tres semanas después de la deposición del salazarismo.
En septiembre del mismo año fue encarcelado durante cerca de año y medio y poco después de quedar en libertad demandó al Estado y exigió reparaciones y explicaciones por su prisión y en 1987 la justicia le dio la razón y recibió la simbólica cifra de 100.001 escudos (en la actualidad unos 500 euros).
Sin embargo no fue depurado por los llamados "Capitanes de Abril", organizados en el Movimiento de las Fuerzas Armadas (MFA), sino por la Junta de Salvación Nacional lusa que encabezaba el mariscal Antonio de Spínola, que consideró la decisión "un saneamiento" de las filas castrenses.
Durante el régimen autocrático fundado por Antonio de Oliveira Salazar, Kaúlza de Arriaga ocupó diversos cargos, desde jefe del gabinete del ministro de Defensa a secretario de Estado de Aeronáutica o presidente de la Junta de Energía Nuclear.
Este último cargo lo acumuló algún tiempo al de titular de la empresa mixta petrolífera "Angol S.A.".
En enero de 1977 también fue inspirador de un minoritario partido de extrema derecha conocido como Movimiento Independente de Reconstrusao Nacional (MIRN).
El sepelio de Kaúlza de Arriaga está anunciada para mañana, miércoles, en el cementerio lisboeta de los Prazeres, y su capilla ardiente estará instalada hasta entonces en el Hospital Militar".
(El Mundo, 3 de Fevereiro de 2004- Secção "Obituários")
No contexto da morte do General Kaúlza de Arriaga, regista ainda o jornal Público, com o título "O peso de Wiriamu":
"Foi durante a liderança de Kaúlza de Arriaga no comando militar de Moçambique que ocorreram os massacres de populações civis no território, em Dezembro de 1972. Wiriamu foi a palavra que mais mundo correu, na sequência de uma denúncia internacional do padre Adrian Hastings, com base num relatório feito por missionários da Congregação de Burgos que missionavam em Tete. Face à onda de solidariedade com Moçambique que correu mundo, o regime de Lisboa fica cada vez mais encurralado no plano político. O Papa Paulo VI solidariza-se com os missionários que revelaram a chacina, o então secretário-geral da ONU, Kurt Waldheim, recebe o padre Hastings, Willy Brandt reconhece a Frelimo e a Suécia duplica o seu financiamento a este movimento.
Sobre Wiriamu, Kaúlza de Arriaga sempre afirmou que não se encontrava em Moçambique nessa altura, mas face aos inquéritos realizados, ordenados pelo próprio e por Marcelo Caetano, repetiu até à exaustão: "Não ocorreu nada em Wiriamu. Não houve nenhum crime em Wiriamu".
As arrepiantes afirmações de Kaúlza sobre os massacres encaixam na lógica de uma personalidade que sempre pôs os interesses do Estado Novo à frente de tudo. Mas são mais uma peça na construção de uma personalidade controversa que seguramente explica a frieza e o silêncio do país político em relação à sua pessoa, da esquerda à direita. Tanto nos trinta anos que passaram desde o 25 de Abril de 1974 como na hora da sua morte".
(Público, 4 de Fevereiro de 2004)

"O ex-líder do PSD Marcelo Rebelo de Sousa considerou ontem que o general Kaúlza de Arriaga, falecido segunda-feira, se destacou mais como um teórico da estratégia, do que pelos seus êxitos no terreno como comandante militar. "Em geral foi um grande organizador e geo-estratego teórico, mais do que um comandante com os correspondentes êxitos no terreno", disse Marcelo Rebelo de Sousa à agência Lusa.
Marcelo Rebelo de Sousa - cujo pai, Baltazar Rebelo de Sousa, foi governador de Moçambique entre 1968 e 1970, tendo acompanhado a parte inicial da carreira militar de Kaúlza de Arriaga naquela antiga colónia portuguesa - adiantou à Lusa que o general "teve um papel político muito significativo em três momentos da vida da ditadura terminada a 25 de Abril de 1974".
O primeiro momento, precisou, foi "enquanto sub-secretário e depois secretário de Estado da Aeronaútica, criando um novo ramo das Forças Armadas portuguesas e desempenhando um protagonismo muito especial ao contribuir para o fracasso do golpe de Estado de Botelho Moniz, em 1961, o que prolongou por mais alguns anos a chefia do Governo por Salazar".
Para Marcelo Rebelo de Sousa, o segundo momento do general Kaúlza de Arriaga correspondeu à data em que foi "um dos delfins de Salazar, em 1968, abdicando na altura de confrontar Marcelo Caetano por considerar que, sendo muito mais novo, tinha ainda hipóteses de lhe suceder no futuro".
O último momento político do general Kaúlza de Arriaga foi "já perto do 25 de Abril, quando regressado do comando militar de Moçambique, passou a encabeçar uma linha de contestação a Marcelo Caetano e de preparação de uma possível sucessão ainda no quadro da ditadura, o que viria a ser ultrapassado pelo processo que conduziria ao 25 de Abril", acrescentou.
Para além de Marcelo, poucas mais foram as reacções à morte deste general. O presidente da Associação de Combatentes de Ultramar, José Nunes, disse à agência Lusa lamentar a morte de Kaúlza de Arriaga como a de qualquer outro combatente nas ex-colónias portuguesas. "Lamento a morte de mais um combatente de Ultramar, como a de muitos outros que todos os dias desaparecem", afirmou.
Semelhante foi a reacção do tenente-coronel Vasco Lourenço. "Lamento a morte [de Kaúlza de Arriaga], porque lamento a morte de uma pessoa. Prefiro não comentar", disse o presidente da Associação 25 Abril."
(Público, 4 de Fevereiro de 2004)
No passado dia 2, faleceu com 89 anos de idade, o general Kaúlza de Arriaga. Encontrava-se internado no Hospital Militar da Estrela, com a doença de Alzheimer.
No jornal Expresso de ontem, em particular na revista "Única", sai publicado um texto da autoria de José Pedro Castanheira, cujo conteúdo apresenta uma síntese do percurso e ideias do general.
Regista o autor que "Kaúlza de Arriaga foi comandante militar em Moçambique, defendeu teses racistas e quis derrubar Marcelo Caetano, que via como "traidor".
É, pois esse texto, que neste post editamos.
O GENERAL SEM VITÓRIAS
"Faleceu do dia 2, com 89 anos de idade, o general Kaúlza de Arriaga. O seu nome fica associado ao massacre de Wiriamu, ocorrido em 16 de Dezembro de 1972, quando era comandante-chefe das Forças Armadas de Moçambique. Considerado o maior crime de guerra cometido nas antigas colónias, Wiriamu foi denunciado pelo jornal "Times", na véspera da visita de Marcelo Caetano a Londres. Ainda hoje se ignora o número de vítimas civis, causadas pela 6ª Companhia de Comandos. Um relatório da Cruz Vermelha calculou-as em cerca de centena e meia. Os três inquéritos instaurados pelas autoridades portuguesas concluíram por números muitíssimos inferiores. Mas uma investigação feita pelo EXPRESSO, em 1992, apontou para quatro centenas. No rescaldo de Wiriamu, Caetano perdeu a confiança em Kaúlza, que, assim, terminou a sua carreira.
Kaúlza Oliveira de Arriaga nasceu no porto em 18 de Janeiro de 1915. O ex-Presidente Costa Gomes lembra, em O Último Marechal: "Foi aluno distintíssimo na Faculdade de Ciências do Porto e na Escola de Engenharia do Exército". Ainda no Porto, "teve uma grande paixão" pela poetisa Sofia de Mello Breyner.
Ajudante e chefe de gabinete do ministro da Defesa Nacional, Santos Costa, foi nomeado, em 1955, subsecretário de Estado da Aeronáutica, tendo fundado o Batalhão de Caçadores Pára-quedistas. Já secretário de Estado, foi autor, em 1960, de um relatório premonitório. Em Alvorada em Abril, Otelo Saraiva de Carvalho regista que o documento alertava para o risco que a "proletarização das Forças Armadas" poderia constituir para o regime, quando os jovens cadetes, oriundos das classes sociais baixas, chegassem a oficiais.
Em 1961, registou aquela que terá sido a sua principal vitória política. Na sua página na Internet (www.cidadevirtual.pt/k-arriaga) lê-se que "contribuiu decisivamente para fazer abortar um golpe de Estado contra o Presidente Salazar e contra o Ultramar português". Foi a "Abrilada", de que resultou a destituição do ministro da Defesa, Botelho Moniz, e do subsecretário de Estado do Exército, Costa Gomes. Seguiu-se uma remodelação governamental, com Salazar a assumir a Defesa e a dirigir um célebre discurso ao país: "Para Angola, rapidamente e em força".
OPERAÇÃO NÓ GÓRDIO
Encerrada, para seu desgosto, a experiência governativa, foi colocado como professor no Instituto de Altos Estudos Militares (1964/1968). O tomo Problemas Estratégicos Portugueses (um dos 12 livros que escreveu) reúne algumas das suas lições, em que se distinguiu como teórico do racismo branco: "Nós não seremos capazes de manter a dominação branca, que constitui um objectivo nacional, a não ser que o povoamento branco se efectue a um ritmo que acompanhe e ultrapasse, mesmo que ligeiramente, a produção de negros evoluídos".
Presidente da Junta de Energia Nuclear e da emprensa de petróleos Angol, em Junho de 1969, foi colocado em Moçambique, onde, pela primeira e única vez, pôs à prova as suas qualidades e teorias de estratego militar- primeiro como comandante do Exército e, depois, como comandante-chefe das Forças Armadas. A sua acção foi marcada pela operação Nó Górdio.
Envolvendo um efectivo de oito mil homens foi a maior operação dos 13 anos de guerras coloniais. Até ao fim da vida, Kaúlza não se cansou de sublinhar que a operação "foi um sucesso". Vaidoso, chegou mesmo a apresentar-se (em Guerra e Política) como "o segundo melhor perito do mundo em guerra subversiva, logo a seguir a Giap- célebre chefe militar nas guerras da Indochina e do Vietnam". Ponto de vista diametralmente oposto foi sustentado quer por Costa Gomes, quer por Spínola. Para o historiador António Costa Pinto, em O Fim do Império Português, "a operação foi um falhanço, pois passados poucos meses a Frelimo recuperou o terreno perdido".
A Nó Górdio não satisfez Lisboa, que também considerou megalómana e perigosa a proposta de um mesmo comandante-chefe para Angola e Moçambique. Mas o que fez cair Kaúlza foi o escândalo Wiriamu. A 9 de Julho de 1973, Caetano escreveu-lhe a carta fatal: "Reconheço a vantagem, para si, para Moçambique, para todos nós, em outra pessoa rever os conceitos e as tácticas da acção anti-subversiva em Moçambique". Contrafeito, e sempre acompanhado da mulher, regressou à metrópole no mês seguinte. Na sua página na Internet lê-se que "a partir do final do ano de 1973, deixou de crer nas possibilidades em decréscimo do Presidente Caetano, procurando a sua substituição". Com efeito, Kaúlza passou a liderar o que António de Spínola designa (em País sem Rumo) "a revolta dos generais", em ruptura à direita com a política de Caetano.
Posto ao corrente dos planos da extrema-direita militar, os capitães decidiram infiltrar-se. José Manuel Barroso, em Segredos de Abril, refere que Sousa e Castro foi um dos "espiões do MFA". "Reunimo-nos na Pousada de São Filipe, em Setúbal, nos finais de 1973. Explicam-nos que o golpe já tem data marcada, no mês de Dezembro". A 17 de Dezembro, Carlos Fabião denunciou publicamente o golpe de Estado em preparação. Fabião foi punido pela hierarquia militar, mas o golpe foi travado.
ASSÉDIO AO PRESIDENTE
Kaúlza, no entanto, não era homem para desistir e passou a assediar o próprio Presidente da República, Américo Thomaz, com a cumplicidade do cunhado, general Luz Cunha, novo chefe do Estado Maior General das Forças Armadas. Nas suas memórias, Últimas Décadas de Portugal, Thomaz transcreve uma última carta de Kaúlza, exortando-o a que tomasse "em tempo útil, as grandes medidas" capazes de "sustar a evolução no sentido do abismo". Certamente informado do golpe em curso, Kaúlza fazia notar que "os prazos de acção são curtos".
Hesitante e sem poder, Thomaz nada fez. A 25 de Abril de 1974, os capitães puseram termo à ditadura. Três semanas depois, Kaúlza foi passado à reserva. Acabou por ser preso na crise do 28 Setembro, ficando detido 16 meses. Sem culpa formada, foi libertado incondicionalmente em Janeiro de 1976 e processou o Estado português. Em 1977, lançou o Movimento para a Independência e Reconstrução Nacional (MIRN), uma pequeníssima formação de extrema-direita, a que presidiu.
O processo judicial arrastou-se durante mais de dez anos e subiu ao Supremo Tribunal Administrativo, que em 1987 reconheceu a razão do general. O Estado foi condenado a uma indeminização de 100 contos e um escudo. O respectivo acórdão inclui um invulgar juízo político: "O general Kaúlza de Arriaga tinha, realmente, capacidade, vontade e prestígio para liderar um movimento que impedisse a descolonização de Angola e Moçambique".
Vítima de doença de Alzheimer, Kaúlza de Arriaga morreu no Hospital militar da Estrela. O funeral foi no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa".
No jornal Público de dia 06 de Fevereiro, na secção "Espaço Público" (p. 8), foi editado um artigo de Esther Mucznik, que aborda a problemática dos genocídios, a sua relação com o conhecimento, interpretação e memória dos povos.
Intitulado "Memória e ideologia", o texto é apresentado da seguinte forma:
"A guerra dos números é indecente. Mas tem um mérito: é o de mostrar como a ideologia pode mascarar os factos. Do mesmo modo, a memória e a sua transmissão estão indissoluvelmente ligadas à política e à ideologia".
Porque entendemos ser um importante ponto de partida e/ou complemento para a reflexão, fazemos aqui a sua reprodução.
"Não pode haver questão mais importante, nem obrigação mais imperiosa do que a prevenção de genocídios." Esta é uma afirmação de Kofi Annan em Estocolmo, na conferência internacional dedicada a este tema, encerrando um ciclo de encontros anuais iniciados no ano 2000 sobre o Holocausto. Tal como as outras, esta conferência realizou-se de forma a coincidir com o aniversário da libertação do campo de extermínio de Auschwitz, a 27 de Janeiro de 1945, pelas tropas soviéticas.
Na verdade, a questão dos genocídios é, infelizmente, sempre actual. Como prevenir e impedir a execução de planos mais ou menos elaborados de extermínio de um povo ou de uma etnia? Como fazer com que acabem, de uma vez por todas, as guerras com o objectivo de fazer desaparecer da face da terra um grupo humano considerado indesejável?
Kofi Annan sugeriu a criação de um comité de prevenção dos genocídios para reflectir sobre os instrumentos necessários para impedir esses acontecimentos.
Penso que é uma ideia generosa, mas duvido da sua eficácia. Porque na realidade esses organismos estão sempre perante uma encruzilhada: ou se situam fora da esfera política de decisão e então a sua eficácia é nula; alimentam-se de declarações e condenações tão retóricas quanto inúteis; elaboram relatórios e recomendações que permanecerão, normalmente, letra morta. Ou se situam na esfera política, com algum impacto e imediatamente estaremos perante um cenário de genocídios "bons" e genocídios "maus", genocídios que o são, outros que parecem, mas não são.
Se algumas dúvidas houvesse, bastaria um rápido olhar sobre a cena internacional: que nome tem a liquidação silenciosa, pelo exército russo de Putin, de mais de 100.000 mil tchetchenos, numa população total de um milhão, o mesmo Putin recebido e festejado nalguns países do Ocidente europeu como "um pilar fundamental da nova ordem internacional"? Alguém considera a guerra da Tchetchénia uma guerra de extermínio?
Em contrapartida, os 800 palestinianos mortos desde o início da Intifada de El Aqsa são ruidosamente considerados como vítimas da política "genocida" de Ariel Sharon por esses mesmos que estranhamente nunca se manifestaram contra a guerra da Tchetchénia.
A guerra dos números é indecente. Mas tem um mérito: é o de mostrar como a ideologia pode mascarar os factos. Como disse o ministro alemão Joschka Fischer, "Israel é o único Estado cuja existência é perpetuamente questionada". Alguém questiona o direito da Rússia à existência?
Da mesma forma, poucas são as vozes que se levantam, quando Jacques Chirac, o grande defensor dessa "nova ordem internacional", recebe com honras de Estado o seu homólogo chinês, "esquecendo" o milhão de vítimas de violações dos direitos humanos na China de hoje e fazendo arrogantemente tábua rasa das aspirações da formiguinha Taiwan.
Sei que cada país defende os seus interesses acima de tudo. É normal e legítimo. Mas também acredito em valores, especialmente no valor da vida humana e no valor da liberdade. E acredito nos regimes que, apesar de tudo, melhor defendem esses valores e que, até prova do contrário, são os regimes democráticos, "os menos maus dos maus regimes", numa versão aproximada das palavras de Churchill.
Mas acredito também na pedagogia da verdade por ser aquela que melhor favorece o desenvolvimento do ser humano, a sua consciência e o seu espírito crítico. A este propósito, o jornal "Libération" relatava recentemente um facto interessante: umas horas antes da difusão na televisão francesa do filme "Hitler, o Nascimento do Mal", um representante da cadeia privada tranquilizava os seus espectadores assegurando que não havia no filme comentários anti-semitas porque... tinham sido censurados para não se correr o risco de influenciar alguns espíritos mais vulneráveis. Certamente com a melhor das intenções, a consequência desta preocupação foi a de mostrar um Hitler que afinal até nem era assim tão anti-semita!
Este episódio absurdo confronta-nos com o problema nunca verdadeiramente resolvido da transmissão da memória, questão central na prevenção dos genocídios. Pode-se discutir se a história dos genocídios deve ou não constar nos programas escolares e nos grandes meios de difusão; se essa transmissão pode ser algo mais do que um saber desestruturante sobre a virtualidade do mal no ser humano. Ou se, pelo contrário, se deve banir o discurso da verdade e utilizar um discurso "light" como forma de "protecção" das pessoas e evitar a banalização...
Mas acima de tudo há que entender que a memória e a sua transmissão estão indissoluvelmente ligadas à política e à ideologia e que esses são os factores que determinam a capacidade de absorção dessa mesma memória.
O exemplo do Holocausto é altamente significativo: segundo uma recente sondagem realizada em nove países da Europa ocidental e do Norte, 36 por cento dos inquiridos consideram que os judeus "deviam parar de fazer o papel de vítimas" do Holocausto. O que significa esta resposta? Simplesmente que na imagem, hoje tornada quase consensual, do judeu carrasco do povo palestiniano essas pessoas não reconhecem ou não querem reconhecer o judeu vítima do Holocausto. Por isso o discurso sobre o Holocausto deixou de ser ouvido: provoca cansaço e impaciência. Na realidade, está a deixar de ser consensual e "politicamente correcto" e a ser suplantado pelo discurso das actuais vítimas com estatuto adquirido: as vítimas do "complot" americano-sionista.
Guerras e genocídios não acabarão tão cedo. Infelizmente ainda fazem parte dos meios a que recorre a política. Contra eles o discurso consensual, cheio de boas intenções, não pode nada. Não há outro caminho que não seja o da responsabilidade e da responsabilização colectiva e individual de cada ser humano. E só pode ser responsável quem é livre. Livre, na acção, livre no pensamento, livre na consciência: capaz de distinguir o bem do mal".
Com a restante parte do excerto de texto de Joaquim Ribeiro percebemos, através de narração de "viva vóz", muito do anteriormente sintetizado pela jornalista São José Almeida. Clima pouco adequado, insectos, água inquinada e por isso imprópria para consumo, resistências do director da colónia penal e falta de assistência médica, tudo é abordado. A acrescentar, as consequências: fraquezas físicas, doenças, mortes.
"PERÍODO AGUDO
Setembro verdejava tudo com as suas chuvas transbordantes. Um ano "bem chovido". O mosquedo, com o tempo tão propício, abrigava-se no capim em prolífera reprodução. Todo o reino da criação se refazia com rapidez incrível nos anos de chuva, como que a querer compensar a heróica e faminta população das ilhas dos terríveis anos de seca, que periodicamente dizimam sem remissão entre duas a três dezenas de milhares de pessoas. Os trabalhadores nativos tinham-se ido embora por causa das chuvas e do estado endémico do Campo. A abertura da vala foi interrompida. Chegou-nos a notícia de que a água da fonte (poço com moinho constantemente avariado) estava inquinada, mas o "Manuel dos Arames" não nos permitia fervê-la mesmo nesta emergência.
Travou-se, então, uma luta de vida ou de morte. A luta pela vida teve aqui a sua mais cabal expressão. Impelidos como por uma mola, lançámo-nos corajosamente à pilha de lenha destinada à cozinha. Vieram os carcereiros obrigar-nos a repor a lenha no local, ao que nos negámos, a gritar que não nos deixaríamos matar assim. Fizemos fogueiras e ordenaram-nos que as apagássemos. A luta foi tremenda para fervermos as primeiras latas de água. Montaram sentinela à pilha e nós recorremos aos barrotes dos estrados das barracas e, picaretas nas unhas (tínhamos metido algumas no Campo), tirámos os necessários para a ocasião. Os carcereiros insistiam para que não fizéssemos tamanho destroço, mas retorquimos que não íamos deixar-nos morrer. Um verdadeiro jogo das escondidas. Insistíamos com o subchefe Ferreira para fazer sentir ao director a absoluta necessidade da água fervida. No fundo, ele via a nossa razão, que era um crime monstruoso executar a ordem dada. Não convinha ao "Manuel dos Arames" que fosse chamada a atenção do exterior para as fogueiras. E é natural que receasse o pegar fogo no Campo, mas nenhum de nós estava interessado nisso, visto que não resolvia de modo nenhum a nossa situação. Apenas involuntariamente isso poderia acontecer. Se tinha tanto medo das consequências, o que estava em inteira discordância com a sua atitude criminosa, mandasse ferver-nos a água, coisa bem simples, como seria seu dever. Interessava-lhe antes poupar lenha do que as nossas vidas. Esta sua frase sintetiza os seus hediondos desígnios: "hão-de cair como tordos"- dissera em certa ocasião. Vivendo este dramático episódio nunca mais bebemos água por ferver. Chegou-se a um ponto em que não havia senão 12 presos, de pé. As mesas já citadas abarrotavam de pão duro que ninguém comia. Cometia-se um tremendo erro: dava-se pouca água a beber aos febris, com receio de que lhes fizesse mal, mas a situação foi corrigida depois de elucidados.
Agora, já nos levantávamos um pouco e passávamos algum tempo à sombra das coxias das barracas ou trocávamos o ambiente da nossa "casa" pelo dos camaradas vizinhos. Trocávamos impressões e prestávamos assistência moral mútua. A atmosfera estava pesada, sufocante, quase pegajosa. Os fan-fans (insectos muito interessantes no seu labor) trabalhavam afanosamente na construção dos seus ninhos de barro, onde depositavam os ovos ou se tornavam em crisálidas (?). O nosso aspecto geral impressionava-nos pelos rostos escaveirados com barba crescida e palidez terrosa. Com a pele nos ossos, logo nos fatigávamos de estar sentados e de conversar. Voltávamos para a cama infecta.
A pouco e pouco, iam-nos informando do que se havia passado no Campo. Camaradas que não víamos já há muito, diziam-nos que tinham ido para o hospital da Cidade da Praia. Muitos acreditávamos nesta peta inofensiva, esquecendo-nos que não havia Direcção capaz de tomar posição tão humana. Sucessivamente, soubemos da morte dos primeiros seis presos: o velho Quintas, o Cândido Alves Barja, o Francisco José Pereira, etc, ex-marinheiro estes dois últimos. Esta notícia tardiamente conhecida foi propositada pelos camaradas que andavam, a pé, para evitar a quebra do moral no Campo. Havia muitos "mortos-vivos" que voltaram à vida com escalpa pés, declaravam-nos os camaradas que os tinham visto moribundos. Foi uma luta tenaz, heróica de sofrimento e de abnegada solidariedade contra a morte. Todo este período de Agosto-Setembro-Outubro ficou tragicamente conhecido pelo nome de "Período Agudo de 1937". E o médico, o assassino "Tralheira", sempre ausente, ausente".
Editamos a 1ª parte do excerto de texto No Tarrafal, prisioneiro, da autoria de Joaquim Ribeiro.
No conteúdo apresentado é feita referência às condições existentes na colónia penal, bastante propiciadoras ao aparecimento de doenças. É referido um caso. Tecem-se considerações sobre os guardas da PSP chegados àquele espaço, em particular, as suas relações com os presos.
Ano em que se situam os acontecimentos (ou alguns deles): 1937.
"PERÍODO AGUDO
Chovia copiosamente e o capim crescia, crescia. As paredes dos barracões subiam. Na barraca tipo colonial dos guardas encontrava-se o guarda Grifo com uma biliosa, a primeira do ano. Dois dias depois foi o funeral.
Esta morte aterrou toda a gente- carcereiros e presos. O director não tinha fornecido mosquiteiros aos guardas, como seria do contrato- dizia-se. Que lhe importava a morte de um guarda? Havia mil para o substituir. Não era pessoa de sentimentalismos nem de considerações, que se defendessem como pudessem, para isso ganhavam dinheiro. Agora, todos ficavam a pensar qual seria a seguir. Entre os presos, também o mesmo sinistro pensamento se apoderou deles, tanto mais que se haviam declarado sinais de perniciosa. Os pães já começavam a acumular-se nas toscas mesas fora das barracas e os trabalhadores olhavam-nos cobiçosos (única coisa boa que comíamos), muito embora não "gostassem" de pão, a ver se lhos dávamos. Qualquer contacto era considerado "subversivo".
A 4 de Setembro de 1937, chegaram ao Campo oito guardas da PSP e um subchefe. Ainda conheceram o nosso trabalho na vala. Entre eles havia duas figuras patuscas: o "Zé Maria" e o Buque, dois refinados patifes desde a primeira hora. Uns autênticos brutos, estúpidos que nem portas. Acicatados pelos guardas antigos, entre os quais o "Teixeirinha" (o Mata-Cães tinha embarcado doente para a Metrópole, mas morreu na viagem e foi deitado aos peixes), depressa aprenderam o abc da perseguição sob os motivos mais inverosímeis.
O Adelino que, ao princípio, se fazia passar por boa pessoa, conversava muito bem connosco na granja, tornou-se um refinado pirata na 2ª Direcção. O Rodrigues, tipo oportunista, fez o que pôde também na 2ª Direcção, amedrontado pelas ameaças do famigerado chefe de brigada Seixas. O Costa, homem que parecia bom e condoído, transformou-se num indivíduo absolutamente irreconhecível sob a pérfida chefia do criminoso Seixas. Só o Conceição se conservou igual a si próprio. Nenhum preso terá qualquer queixa contra ele, a não ser os “rachados”, por ele não consentir nas suas bufadelas contra a parte sã do Campo. Não há segredo disto, pois seria cometer grave injustiça e falta de honestidade para com ele, visto que foi um homem desassombrado, honesto e muito corajoso frente a ameaças e achincalhamentos no tempo da 2ª Direcção, de que mais adiante falaremos”.
(p. 182-183)
(Cont.)
Concluímos a edição do excerto de texto de Correia Pires, constante no seu livro Memórias de um prisioneiro do Tarrafal.
Na parte apresentada, o autor conta episódios decorridos durante a viagem e de como os presos se relacionavam entre si e porquê. Sublinha as particularidades detectadas aquando da chegada ao arquipélago de Cabo Verde.
"SETE DIAS DE VIAGEM
Viajámos na terceira classe e agora cada um em seu beliche, observa-se a primeira ordem do chefe da força que nos acompanhou e, que nos tivera dito que nem um bafejo nos consentiria a não ser para as necessidades elementares, não saíamos dos beliches. Naturalmente esta ordem não se cumpriu e a poucas horas de navegar já os presos se reuniam em grupos e tudo se passava contrariamente às ordens do chefe dos polícias. Primeiramente eram os presos entre si, depois a tripulação e a polícia que nos guardava, foi-se também familiarizando connosco e por fim já íamos à vontade, só nos portos a vigilância era exercida com algum rigor, facto que atestava o desfasamento da má impressão e juízo que faziam contra nós. Os presos agora reúnem-se e conversam em grupos e daí em certa altura ter sido aventada a hipótese de uma tomada do barco e fazê-lo seguir rumo a Dacar e possível fuga para Espanha governamental. Claro que só uma situação de desespero ou loucura tal podia ditar, mas iam connosco o Dr. Luís Figueiredo e o tenente Piçarra, velhos republicanos e useiros e vezeiros em aventuras deste género... Naturalmente que isto não passou de um pensamento fugidio e sem eco, pois nenhuma probabilidade de êxito havia.
O comportamento de cada um de nós uns para com os outros era afável, correcto e francamente solidário, embora fôssemos anarquistas, comunistas, republicanos e um ou outro embora anti-fascistas, alinhavam com todos e não tivemos discussões nem zangas em toda a viagem, ainda que a Guerra Civil de Espanha fosse um assunto escaldante e muito nos desviasse na sua apreciação; todos entendíamos que a unidade entre nós era mais necessária agora que nunca, isto todos percebiam e aceitavam.
Por mar era a primeira vez que viajava, a segunda e última, foi a do meu regresso em Fevereiro de 45. Na segunda noite que dormia a bordo fui alvo de um acidente, embora sem consequências, não deixo de assinalar aqui. Parece-me que nas proximidades da Madeira, a tripulação pediu a toda a gente para fechar bem as vigias dos camarotes, porque íamos ter mar tempestuoso, recomendação que todos aceitaram, claro, mas por cima do meu beliche, a altas horas da noite, uma vaga embate e abre a vigia.
E uma forte bátega de água entra por esta dentro e quase encheu o meu camarote. Eu, que estava a dormir, imaginem a sensação desagradável que sofri! Entretanto, molhado que nem um pato saído da água, gritei e todos do camarote acordaram e foi total a balbúrdia que em toda a terceira classe se viveu. Fiquei no beliche de baixo por ir bastante adoentado, fui do acidente o mais atingido, tendo que mudar de roupa, na cozinha foi-me feito chá, que com manteiga devorei, podendo refazer-me enquanto camaradas e tripulação tiravam a água do camarote. Não voltei a deitar-me e já refeito do cheque, subi à proa do navio e ali me deixei estar algum tempo meditabundo, ouvindo o marulhar das ondas que rebentavam na proa, olhando também o horizonte vi as estrelas reflectidas no azul do mar, dando-me a sensação de caminharmos entre dois céus. Agora a borrasca amaina, faz-se dia e volto ao convívio dos camaradas, que comentam o incidente. Até nos rimos como acontece sempre que a ameaça de um perigo desaparece e o alívio de nada ter de mau sucedido após pânico passado! Agora aproximamo-nos da Madeira e recebemos ordem de não sair dos camarotes e passámos vendo o porto e a ilha pelas vigias.
A marcha continua agora menos tempestuosa e chegámos a S. Vicente, onde aportámos sem sairmos dos camarotes. Pelas vigias fomos vendo toda a vida do cais e ali vi um quadro de miséria nunca visto. Pretos descalços e esfarrapados em busca de algo que lhes matasse a fome, gente de bordo a atirar comida que eles disputavam como bando faminto. Era espectáculo, que a insensibilidade dos passageiros de 2ª e 1ª classe saboreava, acrescido ainda do jogo de moedas ao mar, que os desgraçados pretos em compita se jogavam no intento de primeiro chegar onde a moeda caía, no fundo do mar!!! Passadas as horas de carga e descarga, de novo ao mar, agora rumo directo à baía da vila do Tarrafal, onde chegaríamos no dia seguinte de manhã".
(p. 95-97)
Neste post editamos a primeira parte, por nós delimitada, do excerto de texto Memórias de um prisioneiro do Tarrafal, de Correia Pires.
No conteúdo apresentado, o autor faz referência à sua partida para a prisão, além Portugal continental, sem saber ao certo qual o seu destino. Salienta a origem dos presos, a ida da população ao porto de onde se verificava a partida do navio (Lisboa), assim como a sua situação em termos familiares e de como mulher e filhos ficariam dali para a frente.
Relaciona este estado com a sua inequívoca posição de revolucionário.
Ano em que tudo se passa: 1936.
"SETE DIAS DE VIAGEM
No dia 5 de Junho de 1936 partiram 41 presos com rumo ao mar, mas sem ao certo saberem para onde iam, segundo uns, iríamos para a ilha Terceira, Fortaleza de S. João Baptista; segundo outros, íamos com destino a S. Tiago, Campo de Concentração do Tarrafal. Os presos na sua maioria eram de Lisboa ou aí moravam. A notícia da sua deportação fez acorrer ao porto de embarque muita gente, entre muitos curiosos, como se depreenderá, em modos de desespero e de revolta, que deu a esta parte da cidade, autêntico aspecto de motim. Nos carros celulares em que éramos transportados poderíamos ver como o povo acorria, em gritos de revolta, vozeava clamores e protestos, que mais que tudo nos impressionava. A partida deu-se já quase à noitinha e as horas que passámos no cais foram horas de revolta e mau-estar por este drama de que nós éramos os seus verdadeiros actores.
Chegada a hora da partida, o chefe dos guardas fez-nos uma arenga e elucidou-nos das ordens rigorosas que tinha a nossa respeito, e afirmou que nem um bafejo nos consentiria. Em terra, com a nossa partida, a gritaria recrudesceu e os presos correspondiam em alucinante ovação, parecendo mais que iam para um passeio de recreio, que para uma deportação donde muitos não voltariam. Que me lembre todos se aguentaram com valentia, e a coragem e sangue-frio de uns, servia de alento a outros. Todos juntos conservámos uma disposição, diríamos, própria de homens que sabiam o que queriam e agora feitos ao mar, a gritaria dos que nos viam partir ia-se deixando de ouvir, à medida que o marulhar das ondas na proa do navio estoiravam e já só a visão da iluminação da cidade em lusco-fusco, se distinguia! Faz-se noite. Olhando a cidade iluminada, pela primeira vez na minha vida, vejo um espectáculo em que tudo de bom e mau que tinha vivido, recordo com um misto de tristeza e revolta. Olhando já o mar distante, contemplo a bela cidade de Lisboa, onde deixo os meus filhos e a pobre companheira imersa em tristeza e miséria que a fará, sem favor, uma mártir e heroína, criando e amparando, com o seu trabalho e sacrifício, cinco crianças, todas pequenas. Mães e filhos, seis vítimas do fascismo, ignoro se no Tarrafal haveria segundo com um problema familiar tão dramático. Assim é a vida e os que lutam conscientes do papel revolucionário que desempenham, tudo são capazes de arriscar e perder menos a sua dignidade de revolucionários e verdadeiros lutadores."
(p. 95)
(Cont.)
No sentido de enquadrarmos os exemplos de obras apresentados anteriormente respeitantes a experiências tidas na Colónia Penal do Tarrafal, faremos alvo de edição as principais ideias do texto do Professor António Ventura "Resistência e literatura autobiográfica", incluído no livro Memórias da Resistência. Literatura autobiográfica da resistência ao Estado Novo, já igualmente dado a conhecer.
Compõe-se o respectivo texto das seguintes partes:
1. Das opções, desagradáveis mas necessárias...
2. Definindo alguns critérios
3. A tradição autobiográfica em Portugal
4. A literatura autobiográfica como fonte para a história do Estado Novo
5. Diários e Memórias de escritores
7. Memórias da situação...
8. E mais memórias da Oposição
8.1. Socialistas, Republicanos e não só...
8.2. Alguns militares
8.3. Sindicalistas
8.4. Sindicalistas
8.5. As memórias sobre o Partido Comunista
8.6. Os monárquicos
9. Valor e limites da literatura autobiográfica
As ideias que irão ser apresentadas, far-se-ão em relação directa com cada um dos pontos registados. Salientamos que a ausência do ponto 6. tem a ver com a forma como o texto é editado no interior da obra e não por qualquer falha da nossa parte.
Terminamos, com este post, a edição das biografias (notas biográficas) de alguns dos autores dos livros relativos ao Tarrafal, cujos excertos iremos apresentar. Como último indivíduo a registar, temos:
JOAQUIM RIBEIRO
"Nasceu em Ferreira do Zêzere, a 8 de Novembro de 1910, e morreu no Porto, a 21 de Junho de 1981. Foi aluno da Casa Pia e alistou-se na Armada em 1930. Filiou-se no Partido Comunista Português em 1934 e pertenceu à Organização Revolucionária da Armada. Era 1º artilheiro do "Bartolomeu Dias" quando ocorreu a sublevação de 8 de Setembro de 1936. Detido nesse dia e julgado pelo Tribunal Militar Especial a 13 de Outubro, foi condenado a quatro anos de prisão maior, seguidos de oito anos de degredo, ou a 16 anos de degredo. Embarcou para o Tarrafal a 17 de Outubro do mesmo ano e ali permaneceu até 22 de Setembro de 1952, em que foi libertado, fixando residência no Porto.
Continuou a ter uma actividade política regular, pelo que voltou a ser preso duas vezes: a 8 de Março de 1962, durante uma manifestação no Porto, libertado a 9 de Abril, e a 8 de Julho de 1966, libertado a 11 de Novembro. Participou na CDE do Porto e apoiou a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos.
Depois de Abril de 1974 foi reintegrado na Armada. Nas eleições para a Assembleia Constituinte de 1975 foi candidato a deputado pelo PCP pelo círculo do Porto, e, no ano seguinte, eleito para a Assembleia Municipal de Matosinhos. Integrou a Comissão Administrativa da Junta de Freguesia de Custóias. Fundador da Cooperativa de Consumo "Espaço da Via Norte".
Escreveu No Tarrafal Prisioneiro, Porto, A Opinião, Col. Depoimentos nº 2, 1976, com prefácio de Francisco Miguel (pp. 9 a 13). O autor esclarece que o texto foi escrito em 1961. Descreve de forma minuciosa a sua experiência no campo prisional, sendo a obra ilustrada por algumas fotografias de grande interesse. Colaborou ainda no volume Tarrafal. Testemunhos, Lisboa, Editorial Caminho, 1978, obra colectiva coordenada por Franco de Sousa e na qual participaram duas dezenas e meia de antigos tarrafalistas. Neste último livro os depoimentos não estão individualizados".
(VENTURA, António- Ibidem, p. 182)
Editamos, agora, nota biográfica sobre:
CORREIA PIRES
"José Correia Pires nasceu em S. Bartolomeu de Messines, a 3 de Abril de 1907, e morreu em Almada, a 28 de Novembro de 1976. Carpinteiro de profissão, foi um destacado militante anarquista. Participou na agitação relacionada com o 18 de Janeiro de 1934, pelo que teve que fugir para Espanha. Regressou depois a Portugal e viveu na clandestinidade até que foi detido a 5 de Novembro de 1936; transferido a 9 de Janeiro de 1937 para a 1ª Esquadra e depois para a cadeia do Aljube a 1 de Março do mesmo ano. A 5 de Junho de 1937 foi para o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, de onde só regressou a 20 de Fevereiro de 1945, mas para o Forte de Caxias. Amnistiado pelo decreto-lei 34.377 de 12 de Janeiro de 1945, foi libertado a 9 de Março. Fixou-se em Almada, onde desenvolveu uma intensa actividade associativa, nomeadamente na Incrível Almadense e na Cooperativa Piadense. Depois de Abril de 1974 fez parte do Grupo de Cultura e Acção Libertária de Almada e colaborou na Voz Anarquista, entre outras publicações. Escreveu Memórias de um Prisioneiro do Tarrafal, Lisboa, Edições Déagá, 1975, no qual relata tanto a sua actividade anterior a 18 de Janeiro, como o exílio em Espanha e depois a experiência no Tarrafal. Sobre este último ponto, aborda as relações entre anarquistas e comunistas naquele campo de concentração".
(VENTURA, António- Ibidem, p. 94-95)
Continuamos a edição das biografias referidas. Desta vez debruçamo-nos sobre:
CÂNDIDO DE OLIVEIRA
"Cândido Fernandes Plácido de Oliveira nasceu em Fronteira, a 24 de Setembro de 1896, e morreu em Estocolmo, Suécia, a 23 de Junho de 1958. Entrou para a Casa Pia de Lisboa a 15 de Junho de 1905, depois de ter ficado órfão, e desde muito cedo se revelou um amante do desporto, em especial do futebol. Esteve na origem da fundação do Casa Pia Atlético Clube (Ateneu Casapiano). Foi um dos mais famosos jogadores portugueses do seu tempo, capitaneando a selecção nacional, nomeadamente no 1º Portugal-Espanha. Em 1928 foi seleccionador e treinador da equipa que representou Portugal nas Olimpíadas de Amsterdão. Jogou no Sport Lisboa e Benfica e treinou também a Associação Académica de Coimbra, o Belenenses, o Sporting e o Futebol Clube do Porto. Foi ainda treinador do Clube de Regatas Vasco da Gama, no Brasil. Tirou o Curso Comercial e empregou-se nos CTT como aspirante. Ali fez toda a carreira chegando a Chefe de Divisão. Quando era Inspector dos CTT, em plena II Guerra Mundial, Cândido de Oliveira trabalhou como agente secreto para a Inglaterra. Era o agente H. 204 e H 700, da rede clandestina Pax, do Special Operations Executive (SOE), que tinha como principal missão organizar a resistência em caso de invasão nazi. Cândido de Oliveira foi preso a 1 de Março de 1942 e encarcerado em Caxias, sendo deportado para Cabo Verde, campo de concentração do Tarrafal, a 20 de Junho do mesmo ano. Só regressou a Portugal [a] 1 de Janeiro de 1944. Impossibilitado de continuar no seu anterior emprego, fundou o jornal A Bola (19-1-1945), juntamente com Ribeiro dos Reis, que transformou num órgão desportivo de grande prestígio. Em 1946 ainda teve ligações ao levantamento chefiado pelo capitão Queiroga, conhecido como "Revolta da Mealhada".
O livro Tarrafal, o Pântano da Morte, onde conta a sua experiência de deportado em Cabo Verde, ficou naturalmente inédito. Só foi publicado em 1974, pela Editorial República, com um prefácio de José Magalhães Godinho".
(VENTURA, António- Ibidem, p. 83)
Este, e os posts que se seguem, justificam-se na relação com aquele editado anteriormente, respeitante à exemplificação de obras (autobiográficas) relativas ao Tarrafal. Será, pois feita, a apresentação de cada um dos autores dos livros em questão, sendo os vários registos extraídos da obra de António Ventura: Memórias da Resistência. Literatura autobiográfica da resistência ao Estado Novo.
Servem estas biografias para ilustrar o enquadramento social dos prisioneiros da Colónia Penal de Cabo Verde, em particular, através daquelas que eram as suas actividades oposicionistas.
ACÁCIO TOMÁS DE AQUINO
"Nasceu em Lisboa (Alcântara) a 9 de Novembro de 1899, e ali morreu a 30 de Novembro de 1998. Foi operário da construção civil, trabalhador da Câmara Municipal de Lisboa entre 1918 e 1922 e ferroviário (1926-1933). Militante anarco-sindicalista da Confederação-Geral do Trabalho, fói sócio do Sindicato dos Metalúrgicos (1916), dos Trabalhadores do Município (1918) e da Construção Civil (1919-1933). Secretário da Federação dos Sindicatos da Construção Civil e da Confederação Geral do Trabalho, colaborou na imprensa operária e sindical, com destaque para O Construtor e A Batalha. Fez parte do comité de acção da CGT que preparava a greve geral que eclodiu a 18 de Janeiro de 1934, mas foi preso a 11 de Dezembro de 1933, sob acusação de ter entregue bombas a outro activista na Estação do Rossio, pelo que não participou no movimento. Foi condenado a 9 de Março de 1934, pelo Tribunal Militar Especial, a 12 anos de degredo em prisão. A 8 de Setembro seguiu para Angra do Heroísmo, de onde foi transferido para o Tarrafal, Cabo Verde, a 23 de Outubro de 1936. Aqui teve um papel preponderante na Organização Libertária Prisional. Regressou a Portugal a 10 de Novembro de 1949. A liberdade definitiva só lhe foi concedida a 22 de Novembro de 1952.
Depois do 25 de Abril de 1974 colaborou com diversas organizações e jornais libertários, nomeadamente em a Voz Anarquista, de Almada. Publicou O Segredo das Prisões Atlânticas, Lisboa, A Regra do Jogo, 1978, onde relata a sua experiência em Angra e no Tarrafal. Aborda também as relações entre comunistas e libertários no Tarrafal, transcrevendo correspondência entre a Organização Comunista Prisional e a Organização Libertária Prisional, criticando duramente Bento Gonçalves e outros elementos comunistas, que acusa de colaboracionismo. Colaborou no volume colectivo O 18 de Janeiro e Alguns Antecedentes, Lisboa, A Regra do Jogo, 1978".
(VENTURA, António- Memórias da resistência. Literatura autobiográfica da resistência ao Estado Novo. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 2001, p. 35)