março 31, 2004

CONTRIBUTO PARA A INTERPRETAÇÃO DO TERRORISMO CONTEMPORÂNEO: opinião de Carlos Vale Ferraz

Editado hoje, no jornal Público (Espaço Público/Opinião), um artigo do escritor Carlos Vale Ferraz, onde este apresenta uma proposta de análise (a sua) sobre o fenómeno do Terrorismo contemporâneo. Neste texto o autor parte dos acontecimentos verificados a 11 de Setembro de 2001 e 11 de Março deste ano, para tecer um conjunto de considerações em torno da problemática Ocidente-Islão, naquilo que se pode especificar em torno da questão dos confrontos verificados. Neste contexto, o debruçar da reflexão sobre a actuação da Al-Qaeda e das intenções do seu líder, Osama Bin-Laden.
Intitula-se o artigo: "As nossas dores e as guerras dos outros" e é mais uma referência para o que neste blog temos editado sobre o assunto.

"AS NOSSAS DORES E AS GUERRAS DOS OUTROS

Os acontecimentos do 11 de Março de 2004 em Madrid e os do 11 de Setembro em Nova Iorque geraram um pensamento dominante: estamos numa guerra de civilizações entre o mundo islâmico, por natureza fundamentalista e totalitário e as democracias ocidentais, por natureza, liberais e tolerantes.

Agora, ou pertencemos a um lado ou ao outro e a nenhum dos elementos de uma parte é permitido discutir os seus fundamentos e duvidar da sensatez, da bondade ou até da eficácia das operações que foram ou que venham a ser decididas.

Estes pressupostos conduzem aos resultados actuais, transformam conflitos de civilizações, que é o que ainda hoje existe entre o mundo islâmico e o Ocidente de matriz cristã, numa verdadeira guerra de civilizações. É para esta guerra que as assassinas acções de Osama Bin Laden e as desastradas respostas de George Bush nos estão a conduzir.

De facto, tem sido Osama Bin Laden e aquilo que se designa por Al-Qaeda, os mestres do jogo de morte em que todo este processo de terrorismo islâmico nos tem envolvido e em que nós, os ocidentais, nos temos deixado envolver.

Se a primeira regra de qualquer manual de guerra é conhecer o inimigo, perceber as suas intenções e os seus objectivos, qual é o objectivo de Bin Laden e da Al-Qaeda com as suas acções de terrorismo e propaganda?

Ao contrário do pensamento dominante, parece-me ser a de, numa primeira fase, se transformarem no movimento de referência de todo o mundo islâmico. É a acção clássica de uma minoria activa, voluntarista, determinada, militante para ocupar o poder e exercê-lo sobre uma maioria resignada. O objectivo de Bin Laden e da Al-Qaeda não é, para já, vencer o Ocidente, mas ganhar nele os troféus que lhe permitam apresentar-se diante do seu povo como os seus heróis e salvadores. É nesta fase, de conquista de louros para garantir adesões e impedir contestações, que a Al-Qaeda se encontra.

A pior maneira do Ocidente impedir que Bin Laden e a Al-Qaeda consigam ultrapassar esta fase é assumir-se como o seu inimigo agora, dizer-lhes: aqui estamos à vossa disposição para que vocês ganhem os louros que mais tarde vos servirão para justificarem o domínio sobre os vossos povos! Foi isto que as intervenções no Afeganistão e no Iraque fizeram, é isto que a nossa cumplicidade activa com Israel na humilhação e na mortandade dos palestinianos faz diariamente. É isto que Bin Laden quer e é isto que está a conseguir.

Se Nova Iorque e Madrid foram exibições, terríveis exibições, para consumo interno no mundo islâmico, a melhor estratégia do Ocidente deve e deveria ter sido, colocar a resposta ao terror onde ela deve ser colocada: no interior do mundo islâmico.

Se a maioria do mundo islâmico pretende ter com o Ocidente um convívio civilizacional, a resposta ao pretendido domínio da Al-Qaeda tem de assentar nas forças que, revendo-se no Islão, recusam a sua estratégia terrorista.

O Islão tem de travar entre si as suas guerras de reforma e contra-reforma e, não sendo elas um problema do qual o Ocidente possa ou venha a poder alhear-se, não é no Ocidente que devem travar-se as batalhas principais, nem contra o Ocidente, mas no mundo islâmico e entre facções islâmicas.

Daí ser salutar que no Ocidente os governos e os povos ponham em causa as opções de invasão e ocupação militar para fazer face a uma disputa interna de poder, mesmo que conduzida através de acções terroristas que o afectam tão dramaticamente, pois elas constituem parte de uma guerra onde o Ocidente é, para já, um pretexto e para o qual estes métodos são reconhecidamente inadequados, como as guerras de libertação anti-coloniais dos anos 60 e 70 provaram na Ásia e em África.

Escusar-se a fazer de inimigo num combate que não é o seu, não é sinal de cobardia nem de fraqueza, mas sim a recusa de favorecer os principais inimigos daqueles que podem e devem ser nossos aliados: a grande maioria dos povos islâmicos que não se revêem nem nos métodos nem nos objectivos da Al-Qaeda. Lutar contra o fundamentalismo islâmico, contra o terrorismo, exercer o direito de defendermos as nossas vidas, os nosso valores materiais e espirituais, evitar novos 11 de Setembro e 11 de Março, obriga-nos, isso sim, a procurar as melhores respostas e essas podem passar pela recusa de correr de olhos fechados, em fileiras cerradas contra os vespeiros que aqueles que agora tocam os sinos a rebate arrogantemente rebentaram a tiro de zagalote".

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março 29, 2004

O TERRORISMO CONTEMPORÂNEO VISTO POR MÁRIO SOARES. UMA PERSPECTIVA

Conforme anunciado em post de dia 27, editamos hoje, artigo de Mário Soares relativo à importância de concretizar negociações com os denominados "terroristas". Intitula-se o escrito "Variações sobre o terrorismo".
Este texto vem juntar-se a um conjunto de outros já editados neste blog sobre a mesma problemática.


"VARIAÇÕES DO TERRORISMO

Não sou pacifista, embora seja amante da paz e tenha a plena consciência do seu imenso valor, humano e político. Não sou pacifista, porque não sacrifico à paz- ou ao medo da guerra- outros valores, como: a liberdade, a Pátria, o futuro, a dignidade. Por isso, não sou também capitulacionista: nunca fui. Já era gente, quando Chamberlain e Daladier foram a Munique humilhar-se perante Hitler, abdicando dos valores democráticos que lhes cumpria defender. Esse acto de cobardia ficou gravado, indelevelmente, no meu espírito então jovem.
Vem isto a propósito do flagelo do terrorismo, dos atentados do 11 de Março, em Madrid, e de uma frase minha, repetida fora do contexto, que provocou indignação e ondas de choque em algumas almas cândidas lusitanas.
Não vou defender-me das críticas que me dirigiram. O julgamento é livre. Estou habituado, de resto, a nem sempre ser compreendido. É inevitável para quem pensa pela sua própria cabeça e, frequentemente, contra a corrente. Aliás, o tempo, que é um grande mestre, responderá por mim. Mas desejo contribuir com algumas achegas para uma reflexão objectiva sobre o terrorismo, que se impõe, e me parece útil, oportuna e salutar.
Começo por enunciar o óbvio: o terrorismo global- não confundir com o terrorismo herdado dos anos setenta/oitenta, que hoje ainda subsiste, com o IRA e a ETA- representa o horror absoluto e, por isso, tem de ser combatido com toda a determinação, força e coragem. Mas não só, e isso é já menos obvio: tem de ser também combatido com inteligência, informação e conhecimento. Quero dizer: a força militar é necessária, diria mesmo indispensável, mas não o suficiente. Tratando-se de um fenómeno novo e complexo- nascido do fanatismo religioso islâmico- tem outras componentes. Entre elas: a humilhação profunda, contra o Ocidente, das populações que o terrorismo penetra e as condições económico-sociais em que prolifera.

Sendo um fenómeno complexo, requer, daqueles que o combatem, conhecimento, cruzando informações vindas, sobretudo, do mundo islâmico e investigação, no terreno, e junto das escolas corânicas, onde o vento da revolta, mesmo sob forma pacífica, como é frequentemente o caso, se faz sentir. Requer atenção, observação minuciosa, audição das pessoas, diálogo, uma diplomacia advertida, actuante e serviços secretos, no sentido de inteligência, eficazes e cujos relatórios não sejam depois distorcidos pela vontade dos políticos.
O que é a Al-Qaeda? Uma galáxia descentralizada de grupos terroristas organizados em rede? Será que a captura- ou a morte- de Osama Bin Laden não poderá vir a ser tão irrelevante como foi a prisão de Saddam Hussein? Ou tão estúpida e contraproducente- criando mártires- como o assassínio do líder espiritual (tetraplégico) do Hamas, Ahmed Yassin?
É preciso conhecer melhor a Al-Qaeda para a combatermos com eficácia. Não às cegas. Há milhares de livros, publicados em todas as línguas, sobre o terrorismo global- que está intimamente relacionado com a “globalização depredadora” que temos e com a “economia de casino” que nos rege. Estudemo-los. Atenção à diplomacia do Vaticano, extremamente activa, nomeadamente nos encontros ecuménicos organizados pela Comunidade de Santo Egídio, em que tenho participado. Exploremos os contactos que a Al-Qaeda parece ter com o mundo obscuro das finanças- dos “off-shores” e dos “paraísis fiscais”- com o “dinheiro sujo”, com a criminalidade organizada, com o tráfico ilegal de armas, incluindo atómicas, com o mercado da droga. Há franjas desse submundo que, seguramente, serviços secretos, mesmo os minimamente secretos, menos os mininamente organizados, podem penetrar e conhecer. Já o devem ter feito. Mas será que os grandes responsáveis querem tomar conhecimento dessa negra realidade e das pistas que indica?

Falemos com os teólogos, os intelectuais, os politólogos, os cientistas islâmicos, que os têm da melhor qualidade. Dar-nos-ão pistas, não tenho dúvidas, para um diálogo fecundo. A negociação- a admissão do princípio de negociar- começa aí. Repare-se: partindo de uma posição de força. De resto, negociar não significa ceder, nem muito menos abdicar. Só os fracos, temem enfrentar o outro, negociar: pensam que negociar é o mesmo que abdicar. Ora não é. Antes de mais, começa por ser avaliar as divisões, os pontos fracos do inimigo. Por enquanto estamos no escuro: sabemos pouco. Realmente, não sabemos (para negociar): Com quem? Como? Onde? Quando? Não diabolizemos, contudo, o inimigo, retirando-lhe toda a racionalidade. Pergunto: será inteligente da nossa parte? Os atentados de que temos conhecimento demonstram, da parte dos terroristas, certo domínio de tecnologias de ponta, meios logísticos e materiais, conhecimento, armas, informações actualizadas. Já nos lembrámos de investigar donde vem isso tudo?

(...)

Nunca as democracias negociaram com terroristas? A história está cheia de exemplos contrários a esta asserção. Citemos apenas dois, já no século XXI, de que a América de Bush e o Reino Unido de Blair, foram protagonistas:
1. A negociação com o Presidente Kadhafi, que chegou a ser bombardeado pelos americanos no seu reduto, onde aliás o filho do ditador encontrou a morte. Não chamaram a Kadhafi, anos a fio, “terrorista”? E pior: financeiro sistemático de perigosos terroristas? Pois bem, isso não impediu que negociassem com ele. Tornou-se um amigo e mais: um exemplo. (...)
2. A negociação da América, com a intermediação da China, com a Coreia do Norte, país incluído por Bush no “eixo do mal” e depois de ter ameaçado utilizar a bomba atómica contra o Ocidente, é outro exemplo significativo. A negociação formal realizou-se com publicidade, pompa e circunstância. Mas os resultados são ainda desconhecidos. (...)
Eis algumas achegas com que, modestamente, contribuo para uma reflexão sobre o flagelo do terrorismo, uma ameaça gravíssima, complexa e nova para o nosso conturbado século XXI. Se o conseguir, terá valido a pena ter cometido o enorme escândalo de ter ousado dizer em conjunto duas palavras frequentemente evocadas em separado: negociação e terrorismo. Um tabu, uma interdição quase religiosa, ao que parece, bem mais forte do que imaginaria..."

(Expresso, 27 de Março, p. 10 e 29)

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março 27, 2004

APRESENTAÇÃO DE TESE (DE DOUTORAMENTO) SOBRE A PIDE/DGS EM ÁFRICA AQUANDO DA GUERRA COLONIAL

Noticiado hoje, no jornal Público (Secção "Nacional"):

"O Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) assistiu ontem à defesa de uma tese de doutoramento sobre "A PIDE/DGS na Guerra Colonial (1961-1974)", pela investigadora Dalila Mateus. Através do trabalho, que foi elogiado por todos os membros do juri, é retratada uma polícia política brutal, eficaz e estimada entre os colonos brancos instalados nas colónias portuguesas.
A tese central do texto é que "houve nas colónias, durante a guerra, uma repressão em massa não só pela guerra, mas também pela própria violência da acção colonial".
A eficácia da polícia política foi um dos aspectos que o historiador e dirigente do Bloco de Esquerda, Fernando Rosas, destacou da tese. "Além de uma força policial era um corpo armado, com forte apoio e prestígio entre os colonos brancos, e concentrava os quadros mais novos e intelectualmente mais bem preparados, quando comparados com os da metrópole", acentuou Rosas.
Curiosamente, a investigadora chegou à conclusão que a PIDE não era a força mais violenta a actuar nas colónias. Dalila Mateus lembrou a forma como o Exército e até a admnistração tratava os "rebeldes" para justificar essa posição. Deu até como exemplo um caso, que lhe foi relatado numa entrevista, de um governante que se esqueceu de centenas de pessoas fechadas em vagões de transporte durante duas semanas.
Durante a defesa do trabalho foram igualmente abordadas algumas das díficeis relações a nível interno. A tese retrata a tensão entre Kaulza de Arriaga e a PIDE, que defendia a substituição daquele militar por - na opinião da autora - não gostar da visão "positiva" que este tinha do futuro da guerra.
O juri mostrou-se também surpreendido pela forma como a tese demonstrava a "capacidade de fazer política externa" da PIDE. O trabalho da investigadora assinala o facto de um corpo com cerca de mil agentes ser capaz de, num continente tão vasto como África, derrubar governos, orquestrar raptos. A investigadora usou o evento para alertar os membros do juri para alertar para o avançado estado de degradação em que se encontram os processos do arquivo da PIDE. "O processo da PIDE vai-se perder se não forem tomadas medidas extraordinárias, os processos estão tal qual como vieram", disse Dalila Mateus, que alertou ainda para os danos que o suporte fotográfico está a causar nos documentos escritos dos arquivos. N.S.L."

(Público, 27 de Março de 2004, p. 23)

[Sublinhados e itálicos da nossa responsabilidade.]


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O TERRORISMO GLOBAL NO MUNDO CONTEMPORÂNEO. Nota


(Mário Soares)

Saído hoje no jornal Expresso, um texto de Mário Soares intitulado "Variações sobre o terrorismo". Síntese elaborada na sequência da polémica causada pelas declarações feitas relativas à necessidade de se "negociar com os terroristas", o ex-Presidente da República apresenta o seu entendimento sobre os mais recentes acontecimentos envolvendo a problemática, disponibilizando desta forma um testemunho escrito relevante da interpretação do terrorismo contemporâneo, naquilo que este tem de mais particular nos anos recentes.
Deste texto faremos, em post posterior, edição integral. Para já, uma ilustração do conteúdo, tal como aparece no jornal semanal referenciado:

"Mário Soares explica o que entende negociar com as organizações terroristas e defende que o Ocidente deve procurar "pistas para um diálogo fecundo" partindo de "uma posição de força". "Negociar não significa ceder nem abdicar. Só os fracos temem negociar", afirma o ex-Presidente.
Embora considere o terrorismo global "o horror absoluto", Soares rejeita a "estratégia de retaliação pura e simples delineada por Bush". E observa que "a História está cheia de exemplos" contrários à afirmação de "que as democracias nunca negociaram com terroristas". Cita, a propósito, a negociação com Kadhafi, "que chegou a ser bombadeardo pelos americanos", e com o regime da Coreia do Norte, depois deste "ter ameaçado utilizar a bomba atómica"".

(Expresso, 27 de Março de 2003, p. 1)

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março 16, 2004

COMUNICADO

Comunico a todos aqueles que visitam/visitarão este blog que, por razões de ordem pessoal, a edição de novos posts não se vai verificar nos próximos tempos.

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A MORTE DE UMA RESISTENTE AO ESTADO NOVO: MARIA ÂNGELA VIDAL

Noticiada ontem no jornal Público, a morte de Maria Ângela Vidal, uma opositora/resistente, desde os 17 anos de idade, ao regime de Salazar. Nascida no Porto no dia 5 de Setembro de 1926, Ângela Vidal, faleceu no Hospital do Desterro, vítima de uma septicémia.
Apresentamos, em anexo, o texto da autoria de António Melo onde é sintetizada a vida desta mulher que, sem dúvida, vai ficar para a História como alguém que lutou por aquilo em que acreditou.

Texto incluído na secção "Nacional". 15/03/2004.

"Maria Angela Vidal, uma referência da resistência antifascista portuguesa, morreu ontem em Lisboa, no Hospital do Desterro, vítima de uma septicemia. Fora internada no passado dia 25 de Fevereiro, já em estado muito grave, tendo entrado em coma três dias depois, não tendo recuperado. O corpo fica em câmara ardente na Igreja de São Mamede (à Rua da Escola Politécnica) a partir das 16 h. de hoje e o funeral realiza-se amanhã, em hora a anunciar. Nasceu no Porto, a 5 de Setembro de 1926, e deixa um filho, António Vidal, nascido em 1951, num período de clandestinidade política de Angela Vidal.

"A minha vida foi toda rebeldia", disse numa noite de Fevereiro de 2001, em que acedeu a falar de si, na livraria Ler Devagar - um depoimento que passou a livro e foi editado pelo PÚBLICO ("Vozes da Resistência").

Recordou nessa noite o que levou uma jovem de 17 anos, filha de um influente comerciante do Porto, com porta aberta na Rua de Santa Catarina, a tomar o compromisso de derrubar o regime do Estado Novo, através de acção política no Partido Comunista Português: "Entrei no trabalho político por revolta social e não por razões de ordem filosófica ou ideológica". Esse "trabalho" iniciou-o no MUNAF (Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista) no ano de 1943, quando as notícias da Emissora Nacional e dos jornais da censura prévia davam grande relevo à ofensiva a Leste do III Reich, que se ocupava Paris, como quase toda a Europa ocidental. Mas, embora o Portugal salazarista o não quisesse saber, Hitler começara a perder a II Guerra Mundial, com os seus exércitos presos no frio de Estalinegrado, incapazes de se soltarem da pressão aliada, a Leste e no Norte de África. A entrada no MUNAF dá-se em companhia da grande amiga da altura, Maria Natália Maia, mais tarde casada com o jornalista e animador cineclubista Manuel de Azevedo. É com ela que dois anos depois vai integrar o PCP.

Franzina, mas determinada para lá de todas as expectativas, aceita entrar na clandestinidade para, em trabalho de apoio ao secretariado comunista, apressar a queda do regime. A tarefa revelou-se bem mais difícil do que supusera e a vitória aliada em 1945 não significou o fim do fascismo em Portugal. Pelo contrário, com a "guerra fria", a política do regime endureceu e a PIDE (a polícia política do regime), refinou os interrogatórios aos detidos, introduzindo os métodos da tortura do sono e da "estátua", ou seja, obrigar o preso a ficar de pé, dias a fio.

Maria Angela correu praticamente o país de Norte a Sul, nesse trabalho incansável e discreto de apoio ao secretariado do PCP clandestino. Do Porto veio para Sintra, onde tomou conta da casa do pinhal perto da Lagoa Azul, e aí nasceu o filho, a 30 de Junho de 1951.

"Eu tinha 20 dias de parto e tive que andar cinco ou seis quilómetros para pôr um sinal na zona de Ranholas. Tinha que o fazer, mesmo se isso implicasse deixar o bebé sozinho" -era o sinal combinado para que o companheiro clandestino soubesse que tinha a passagem livre.

Daqui desceu até a Albufeira e foi aí, numa vila que nesse tempo ainda não era de vilegiatura, antes tinha fama de ser coito de contrabandistas, que a prenderam num fim de tarde de Setembro de 1953.

Foi condenada a quatro anos de prisão por atentar contra a segurança do Estado, mas acabou por sofrer mais do dobro, devido às famigeradas "medidas de segurança", ou seja, uma decisão tomada em função da "periculosidade" do detido, numa avaliação feita pela própria PIDE.

Quando foi restituída à liberdade - condicionada e com termo de residência - era uma sombra ambulante e foi o receio de que viesse a morrer na cadeia que levou a polícia a não renovar por mais três anos as "medidas de segurança".

Esse ano foi o da grande crise académica e ela não deixou de lá ir ver como continuavam as novas gerações uma luta que ela encabeçara vinte anos antes.

Em 1964, abandonou o PCP, inconformada com a linha política, que qualificou de demasiado seguidista em relação ao modelo soviético.

Sem outros apoios que não fosse o da força de vontade para participar na criação de um mundo mais solidário, passou a trabalhar na clínica de Santa Cruz, em Carnaxide, ajudando a que depois do 25 de Abril se transformasse na unidade pioneira da transplantes cardíacos que é hoje".

(p. 21)

Publicado por sandra em 06:49 AM | Comentários (1) | TrackBack

março 14, 2004

PAÍS BASCO: contributo para o conhecimento da sua História

Igualmente da autoria de João Carlos Silva (e editado na sequência do post anterior), o texto "País Basco: a resistência de uma língua, a sobrevivência de uma ideia", que apresentamos em anexo.
Tendo sido a sua edição original feita na secção "Destaque" do jornal Público de 12 de Março, pelo que tem de sinteticamente significativo, não poderíamos deixar de aqui fazer a sua reprodução.

NOTA: evidentemente que este texto não exclui outras leituras que podem/possam ser feitas, por forma a aprofundar conhecimentos.

"Os mais acérrimos defensores da independência basca gostam de afirmar que se encontra "cientificamente provado" que a sua nação vive no mesmo território, a Euskal Herria, há 18 mil anos e que a sua é uma história de sobrevivência e resistência colectiva contra tudo e todos. O linguista Luís Michelena não vai tão longe, mas defende ser possível afirmar que a língua basca é falada desde o ano 6000 a.C. e que foi a única de todas as línguas pré-indo-europeias a sobreviver à avalancha da cultura indo-europeia; o basco não tem hoje uma família à qual se possa acolher.

Resistentes a cartagineses, romanos, godos e muçulmanos, pela guerra ou pelas alianças, os bascos estabelecem-se pela primeira vez como unidade política com o ducado da Vasconia, no início do século VII. Dois séculos depois, o Reino de Pamplona (depois Reino de Navarra) era a sua primeira entidade independente, numa área sensivelmente semelhante ao País Basco de hoje. No início do século XI foram mesmo traçadas fronteiras entre Navarra e Castela, mas em 1200 Alava, Guipuzcoa e Biscaia abandonaram o reino e integraram-se em Castela.

Os tempos de independência de Navarra acabariam por chegar ao fim no início do século XVI, por força de uma invasão castelhana, mas Madrid comprometeu-se a respeitar a soberania dos conquistados, através de Estatutos especiais para as regiões bascas. São estes estatutos que ainda hoje são invocados pelos independentistas como uma das justificações para a sua luta.

Nas guerras de secessão carlistas de 1839 e 1876, os bascos estiveram ao lado dos secessionistas. Não só perderam os conflitos, como privilégios. Depois da primeira, os Estatutos especiais foram confirmados mas com uma ressalva essencial: "sem prejuízo da unidade constitucional". Depois da segunda, foi pior, com a proclamação da Lei da Abolição dos Estatutos, significando isso a abolição dos "fueros", leis e privilégios tradicionais, o pagamento de impostos a Madrid e a obrigatoriedade de cumprir o serviço militar sob a bandeira de Espanha.

É neste momento, e por oposição a estas disposições, que nasce a ideia moderna de nacionalismo basco, sob a inspiração de Sabino Arana y Goii, fundador do Partido Nacionalista Basco. É Arana que cria o neologismo "Euskadi" para designar o conjunto dos bascos e fala da Euskeria, uma confederação dos povos bascos de Espanha e de França. Funda um nacionalismo fundado na ideia de "raça" e "pureza de sangue".

Com a II República, fundada em 1931, há um avanço da autonomia e do nacionalismo basco, mas com divisões na região.

A guerra civil de 1936-39 viu a maior parte dos bascos do lado republicano (o tapete de bombas sobre Guernica é um símbolo basco e unievrsal), mas a vitória de Franco resultou no fim da maior parte dos privilégios bascos. A repressão começou também quase imediatamente - não apenas a repressão violenta e policial da oposição política, mas também, por exemplo, através da proibição do ensino do basco nas escolas.

A ETA nasceu em 1959 e até à morte de Franco, em 1975, travou contra Madrid uma luta sem quartel. E não desistiu nem depois de, com a transição para a democracia, os bascos terem recuperado os instrumentos de autonomia e a possibilidade de falarem a sua língua. Em 1979, um inquérito indicava que 38 por cento dos residentes se consideravam apenas bascos, 14 por cento apenas espanhóis, 26 por cento bascos e espanhóis, 12 por cento mais bascos que espanhóis, 6 por cento mais espanhóis que bascos; e quatro por cento não sabiam.

Foi no último quartel do século XIX que a rica burguesia basca se lançou na industrialização, que levou ao começo do abandono dos campos e, sobretudo, à imigração em massa de espanhóis de outras regiões para o País Basco, fenómeno que Sabino Arana interpretou com uma "invasão espanhola". A segunda industrialização, nos anos 1950-60, acentuou esta tendência.

Hoje, as três províncias bascas constituem a zona mais industrializada de Espanha e uma das mais desenvolvidas, beneficiando da sua situação geográfica, de uma poderosa infra-estrutura de comunicações e de uma força de trabalho das mais educadas.

Em termos estatísticos, o rendimento per capita do País Basco está, em toda a Espanha, apenas atrás do de Madrid e, na Europa, situa-se no primeiro pelotão, à frente por exemplo da Dinamarca, da França, da Finlândia ou da Suécia".

Publicado por sandra em 02:35 PM | Comentários (19) | TrackBack

O QUE É A ETA?

No jornal Público, da passada Sexta-feira (12/03/04) foram editados um conjunto de textos relacionados com a ETA e o País Basco. Atendendo ao momento que estamos a viver, devido aos acontecimentos em Madrid (11/03), a edição de tais textos parece-nos importante, inclusive, pelas referências históricas inerentes.
O texto em anexo intitula-se "ETA, o que é?", da autoria de João Carlos Silva (Secção: "Destaque").

ETA, O QUE É?

"(...) A violência, ainda que de forma teórica, esteve sempre presente desde 1959, aquando da formação da ETA, Euskadi Ta Askatasuna (País Basco e Liberdade). Princípios enunciados então: "Independentismo inegociável, posições radicais na estratégia política, recurso às armas se for preciso para expulsar o invasor". A ETA nasce de estudantes e intelectuais dissidentes do Partido Nacionalista Basco (PNV) numa reacção à "inoperância e colaboracionismo" dos dirigentes deste, na maior parte exilados desde o fim da guerra civil, em 1939.

Com referências ideológicas socialistas e próximas das dos movimentos de libertação do Terceiro Mundo, o nacionalismo radical da ETA prospera nas simpatias que colhe entre uma população reprimida, mas as suas acções de violência são apenas esporádicas, nas ruas, e um ou outro assalto à mão armada.

O primeiro de mil assassínios

A radicalização acontece na chamada V Assembleia, em 1967, de onde saem decisões concretas para passar à prática a teorização da luta armada, uma "guerra revolucionária" contra a ocupação de Madrid, sob a forma de guerrilha urbana.

Embora alguns registos mencionem duas vítimas anteriores (uma menina morta acidentalmente por uma bomba e um guarda civil baleado), o dia 7 de Junho de 1968 é geralmente considerado como aquele em que a ETA comete o seu primeiro assassínio. Selectivo, a merecer até benevolência de alguns sectores da oposição espanhola: a vítima chama-se Melitón Manzanas, era um polícia conhecido como "o torturador de Irún".

Até à morte de Francisco Franco, o movimento ganha notoriedade internacional em três etapas. Em 1970, com o processo de Burgos, em que seis dos seus 16 militantes (dois padres estavam entre eles) são condenados à morte (penas comutadas); em 20 de Dezembro de 1973, com o espectacular atentado, a "operação Ogro", que mata o primeiro-ministro Carrero Blanco, atirando o carro em que ele regressava da missa até à altura de um quinto andar; e com a execução, no estertor da ditadura, dos "mártires" Garmendia e Otaegui (que em Lisboa, em 1975, foram o pretexto para assaltos e saques à embaixada e ao consulado de Espanha).

Em 1970, a ETA sofreu uma cisão importante, quando, na VI Assembleia, uma maioria formou a ETA VI, vindo a abandonar depois a luta armada e deixando à ETA V a reorganização do movimento, sob controlo dos "militares". O ano de 1974 é o de nova cisão, primeiro com o abandono de militantes operários contra a luta armada, depois com a divisão entre ETA político-militar e ETA militar. O que os separa? Os primeiros admitem abandonar a luta armada se a democracia chegar; os segundos só consideram essa hipótese em caso de independência.

A monarquia parlamentar democrática chega com a morte de Franco, em Novembro de 1975, e encontra uma ETA (p.m.) severamente dizimada pela repressão que se seguiu ao atentado de Carrero Blanco, com 500 militantes presos no espaço de meses. Está também sem dinheiro: raptam dois industriais, um deles acaba por ser assassinado porque o resgate demora e, num sinal de antagonismos irresolúveis dentro do movimento, até um dos seus dirigentes e ideólogos, Pertur, acaba por ser raptado e morto por elementos da sua ala militar. Pertur fora contra o primeiro ataque indiscriminado da ETA, no Bar Correo, em Madrid, que deixou 12 mortos.

É neste ponto, em 1976, que se situa habitualmente o triunfo definitivo dos "militares" dentro da ETA, o fim da fase de luta armada e a deriva para o terrorismo. Mais de 90 por cento dos assassínios da ETA, note-se, foram cometidos depois da morte do ditador Franco, em democracia. A ETA militar torna-se de facto, a partir de 1978, "a única ETA", com um braço político, o Herri Batasuna; os da ETA (p.m.) que abandonaram a luta armada constituíram o Euskadiko Eskerra (Esquerda Basca).

Nas últimas décadas, a história da ETA tem sido a cronologia dos seus atentados, salpicada por mudanças de estratégia que incluíram tréguas temporárias, conforme as conveniências. Aconteceu em 1989, em 1998. A última fase terrorista recomeçou em 2000, após uma trégua de 14 meses.

Mas nunca houve uma admissão da organização de que podia abandonar as armas. Com os anos, a violência foi-se tornando a identidade e a razão de ser da ETA, o seu quase único instrumento político.

As eleições de 2004 em Espanha colhem a organização num momento que todos os analistas consideram ser um dos mais débeis da sua existência. Isto, por si só, poderia explicar uma acção fora do "modus operandi", um atentado em grande escala. Era isso que admitia o documento da Europol mencionado no princípio, que lhe definia até o objectivo: "criar uma comoção pública considerável e cobertura internacional".

Para todos os que olham para o massacre de Madrid, vêm a mão da ETA e, aqui mesmo, o princípio do seu fim, o mesmo documento não faz acalentar grandes esperanças. A ETA - afirma-se - "está interessada em atrair militantes em vários países europeus para dar cobertura legal e criar uma infraestrutura que ofereça apoio aos operacionais". E indicam-se países: Alemanha, Itália, Holanda, Bélgica, e Portugal. Em França, as operações "etarras" tornaram-se nos últimos anos cada vez mais difíceis.

"Apesar dos seus problemas - avisa a Europol - a ETA está a recrutar activamente gente cada vez mais jovem que possa escapar a julgamentos ou procura mesmo incorporar antigos activistas que estão a ser chamados depois de passarem um período na América Latina".

(p. 13)

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março 12, 2004

MOCIDADE PORTUGUESA FEMININA: a especificidade dos valores e comportamentos transmitidos no Boletim da MPF e na M&M

Dando por terminada (para já) a informação aqui disponibilizada sobre as publicações da MPF, editamos neste post, uma síntese relativa aos valores e comportamentos transmitidos às filiadas, mas também às raparigas em geral (nomeadamente, no âmbito da classe média).
Assim, e neste sentido, registam-se os seguintes tópicos enquadradores, extraídos da leitura do Boletim da MPFe M&M:

1- O que as raparigas deviam ser
2-Um período difícil- as férias
3- Relações sociais: servir de modelo aos pobres e praticar a caridade
4- As relações com os pais e com os jovens do outro sexo
5- Influências "desnacionalizadoras" e "tempos modernos"
6- Profissionalização e promoção femininas

Tal como os textos apresentados anteriormente, aquele em anexo é, igualmente, da autoria da investigadora Irene Flunser Pimentel.

VALORES E COMPORTAMENTOS TRANSMITIDOS

1- O que as raparigas deviam ser

"(...) no campo social, onde a MPF e o Boletim actuavam, tratava-se sobretudo de fazer da jovem uma futura esposa que soubesse cozinhar requintadamente e gerir o trabalho doméstico a cargo das criadas, assim como conseguir que tivesse uma cultura geral suficiente para acompanhar o futuro marido da mesma classe social. Era esse o seu lugar na nação, que raramente passava pelo exercício de uma profissão ou pela actividade política, em vez da qual se admitia um envolvimento do serviço social e educativo. No Boletim da MPF recusava-se, por um lado, o universalismo- no sentido da igualdade de acesso universal aos mesmos direitos- e promovia-se, por outro lado, o elitismo, dois conceitos que não se contradiziam mas se complementavam.
De um lado estava o futuro escol feminino, e do outro as raparigas de meios cuja miséria e potencial conflitualidade com a MPF tentava atenuar através da caridade cristã e da ideologia corporativa. O exemplo da roupa era paradigmático. Por um lado defendia-se, na escola, a ocultação das diferenças sociais através de uniformes e de batas:

"uma bata branca iguala pobres e ricas, e como toda a vaidade humana marca distâncias entre um vestido de chita e um vestido de seda, a bata que esconde o vestido barato e velhinho dumas e cobre o vestido caro e novo doutras realiza dentro da escola o que o espírito cristão procura realizar no mundo. A aproximação fraternal dos Homens, na simplicidade e no amor".

Por outro lado, propunha-se, na rua, um vestuário modesto e austero mas adaptado aos diversos meios sociais, pois nenhuma filiada deveria usar roupa imprópria para a sua "condição":

"Deveis sempre mostrar aos pobres, pelo vosso próprio exemplo, como se veste de um modo correcto e com uma graça modesta, e ajudá-los a escolher o mais bonito e o mais apropriado para a sua condição. Se eles vêem que vós próprias não procureis vestir-vos dum modo superior à vossa condição, não serão tentados a vestir-se acima da sua".

Muitos artigos tentavam também quebrar preconceitos e arrogância excessivos impelindo as jovens à simplicidade e à caridade para com as mais pobres:

"Pobres Florinhas dos Salões [...] Quereis subir... e ninguém vos mostra o céu nesta sociedade mesquinha, corrompida e egoísta. Quereis descer até às Florinhas da Rua [...] e estais manietadas pelos preconceitos dos grandes [...] A missão do rico é curvar-se sobre o pobre que sofre e aliviá-lo. Nobre e sublime exemplo tem dado a Mocidade Portuguesa Feminina [...] preparando berços para as crianças de Portugal".

A filiada não devia ser como "as bem" que desprezavam os pobres e pensavam só em divertir-se, nem se devia importar com a troça das que seguiam as "doutrinas modernistas". Um dos responsáveis pelo figurino da nova rapariga da MPF foi sem dúvida o padre Gustavo de Almeida, que, nos seus apelos em favor da "heroicidade" e contra a "mediocridade" e a "cobardia", criticou particularmente os "gozadores da vida, parasitas da sociedade- os comilões, os dândis, os endinheirados, as "sécias", que "não vivem, vegetam". Segundo ele, a rapariga devia trabalhar para não ser "fútil, leviana, medíocre, egoísta, boneca de vaidades, bibelô de praia ou menina parasita". Nos seus editoriais do Boletim da MPF, Gustavo de Almeida apontou os "inimigos traiçoeiros" das jovens: "a revista lindamente apresentada, o jornal "sério", o filme "inocente", o senhor e o menino "bem", as meninas "possidónias". Duas décadas depois, em 1964, alertou de novo, na M&M, contra "certas camaradagens mais que suspeitas!, a "influência maldita da literatura francesa ou de figurino francês" e o "ensino universitário criminoso".
A partir de Maio de 1941, iniciou-se no Boletim da MPF, a cargo de Ilda Correia de Barros, delegada provincial do Douro Litoral, uma nova rubrica, com o título "O que nós queremos que as nossas raparigas sejam", que não tinha "só por fim uniformizar as raparigas" nem "só ensinar-lhes a parte técnica do governo da casa e dos cuidados das crianças", mas pretendia sobretudo "educar as raparigas- não de fora para dentro mas de dentro para fora". Em 1944, uma nova série de artigos intitulada "Raparigas sérias", assinada por Coccinelle, a habitual colaboradora dos artigos sobre difusão de comportamentos, apelou às leitoras para que fossem rectas, honestas, com bons princípios, simples, verdadeiras, cumpridoras dos seus deveres, elegantes, asseadas e ordenadas. Deviam, em suma, ter essa "elegância que as raparigas frívolas descuram tanto", e, ao contrário destas, que gastavam o seu tempo "em chás e majongues", mostrar-se espiritualmente superiores, amar os pobres e colaborar em obras sociais e religiosas.
Na M&M, foi a colaboradora Maria Mercier que deu às leitoras os mais variados conselhos sobre comportamentos: cabia-lhes irradiar bondade e praticar a caridade e saber comportar-se nas mais variadas situações. Entre as qualidades que as leitoras deviam possuir e os defeitos a combater contavam-se, no primeiro caso, a simplicidade, a elegância, a boa educação e a cultura, e, no segundo caso, a má-língua, a vaidade, o desleixo, a cólera, a curiosidade, a tagarelice, a indolência e a arrogância.

2- Um período difícil- as férias

Ao longo dos anos, estes conselhos foram sendo exaustiva e ininterruptamente difundidos nas duas revistas da MPF como se a constância das regras pudesse compensar as influências nefastas. Quando as férias se aproximavam, esse propósito era particularmente enfatizado nos números de Junho a Setembro do Boletim. As dirigentes temiam as mudanças que pudessem ocorrer durante um longo período de três meses em que a sua influência sobre as raparigas era substituída pela das famílias e de amigos potencialmente desviantes e, antes da partida, transmitiam inúmeros conselhos sobre o que as jovens deviam ler e a forma como se deviam comportar.
O Boletim tentou também atingir outros meios sociais, através de artigos dirigidos às "que não têm férias" e de consolo às que, por razões familiares, as passavam no campo:

"A tua casa fica talvez paredes-meias com as casas dos pobres. Não há palácios. Mas vê como é lindo o "cenário rústico" dessa casa de aldeia [...] E olha, os casinos, por que suspiras talvez, não te fazem falta! É bem melhor gozares as manhãs a passear do que perderes as noites a dançar. Aproveita bem as tuas manhãs de férias. Passa pela casa de Deus."

No Verão de 1939, a revista faz apelo à colaboração das filiadas, na rubrica "Como deve uma filiada da MPF preencher o tempo de férias. Embora as respostas não possam ser tomadas à letra dado que revelam uma tentativa de agradar ás dirigentes da MPF, são interessantes por reflectirem os valores inculcados. No Boletim de Junho de 1942, uma delas respondeu assim:

"Se não temos manos, vamos até casa dos quinteiros, conversemos com eles, ensinemos-lhes alguma coisa útil com jeitinho para os não melindrar, tratemos bem os filhos deles (mesmo que sejam muito feios e malcriados!), procuremos incutir a ideia de Deus naquelas almitas rudes mas boas, e ensinemos-lhes o catecismo diante dos pais para que eles aproveitem também. Feito isto chegaremos à noite contentes do nosso dia."

O local onde as jovens das classes média e alta passavam habitualmente as suas férias era evidentemente a praia; ora, quem diz praia diz fato de banho, uma das maiores preocupações da MPF. Diga-se, aliás, que a campanha pela "moralização das praias" tinha sido iniciada, em 1936, pela OMEN (Obra das Mães pela Educação Nacional) e pelas organizações católicas femininas, às quais se juntou a imprensa católica, que acusou a "judiaria" e o protestantismo pela difusão da "pornografia, nudismo e satã sensualidade".
A recorrência dos artigos sobre o "pudor" nas praias e expressões para afugentar as troças que recaíam sobre as filiadas que usavam o fato de banho regulamentar da Mocidade são reveladoras de que a austeridade e o moralismo da MPF não encontrava, no entanto, grande adesão entre as jovens das classes médias e alta. Num artigo sobre a praia do Estoril, a articulista elogiou o fato de banho da MPF e apelou às leitoras para abandonarem o "maillot feio e impróprio":

"Tende personalidade e coragem para afirmar essa personalidade não vos acanhando de aparecer correctas, mas sabendo dar alegremente o exemplo. A vossa influência pelo exemplo pode ser enorme. [...] Raparigas da Mocidade, o vosso dever é reagir contra tudo o que é mau. Se vos criticarem, que importa? [...] Vesti com orgulho o fato de banho da Mocidade: ele fala por vós e diz aos que vos vêem quem vós sois: verdadeiras raparigas alegres e saudáveis- mas puras."

Em Agosto de 1940, Maria Joana Mendes Leal dirigiu-se, no Boletim da MPF, às filiadas exortando-as a usar o fato de banho da MPF porque "os maillots dos fatos de banho excessivamente curtos e decotados, de fazendas leves e cores muito claras", lhes eram "proibidos pela moral cristã". No mês seguinte, a mesma dirigente queixou-se de que, na praia da Figueira da Foz, as jovens portuguesas não se distinguiam das estrangeiras de "ar desavergonhado"- provavelmente as refugiadas de guerra- e que nunca tinha visto "um único fato de banho que obedecesse às regras da moral" até vislumbrar, com alegria, três "queridas raparigas" com os fatos de banho da MPF. O grande argumento para demover as filiadas de imitar a moda usada pela maioria das raparigas era o de que não deviam "igualar a massa medíocre e grosseira". Em Junho de 1949 e em 1953, o tema continuou a ser abordado na M&M, num apelo às filiadas da MPF e às associadas da ACP para que não transigissem com "maillots indecentes", nem andassem "a passear em inconvenientes exibições" e usassem, pelo contrário, um fato de banho "com uma saia não muito curta e sem excessivo decote".

3- Relações sociais: servir de modelo aos pobres e praticar a caridade

Além de incitar as jovens do "escol" a servir de exemplo, nas aldeias onde passavam as férias, a interessar-se pela vida rural e a conhecer o povo português, a MPF preocupou-se sobretudo com as relações das jovens com pessoas de outros meios sociais, com as famílias, com as companheiras de escola e com os jovens. As leitoras do Boletim da MPF só se relacionavam de facto com pessoas de outras classes sociais através dos "subalternos" que prestavam serviço nas famílias.
Em Setembro de 1943, um artigo de "Mamia" (Roque Gameiro) dava às leitoras conselhos sobre como lidar com as criadas, termo que começava, segundo ela, a ser depreciativo em Portugal, "mercê da falta de generosidade" com que eram tratadas. Contra essa situação, havia que "olhar caridosamente" para quem "servia, não troçar da sua ignorância", ter a noção que se tratava de "uma pobre rapariga às vezes vinda de outra terra cheia de saudades dos seus", e "tender a fazer da criada uma pessoa amiga". Uma "boa filiada da MPF" devia abster-se de tocar à campainha para pedir tudo, um direito reservado só aos pais devido à sua idade e à sua posição social e dispensar bom tratamento às "criadas".
Em 1957, a M&M mantinha a mesma postura paternalista e elitista, nomeadamente na novela "Camaradagem", da autoria de Maria Amália Fonseca, que abordava as relações entre uma menina rica urbana e uma menina pobre do campo. Tal como outros artigos, este contribuía para a manutenção da situação social transmitindo nomeadamente a ideia de que os ricos não eram mais felizes do que os pobres, mesmo que estes fossem "selvagenzinhos e feios" e tivessem fome e frio. No final da década de cinquenta, a revista começou, porém, a preocupar-se com dar a conhecer às leitoras jovens de classes sociais diversas, através de entrevistas com "raparigas como nós mas com um género de vida tão diferente da facilidade, da futilidade, do comodismo que tantas vezes constitui a nossa vida".
Em 1960, um artigo de Maria Mercier elaborado em forma de teste, intitulado "Diz-me onde habitas, dir-te-ei quem tu és", descrevia jovens de um espectro social já mais diversificado, embora a forma caricatural e estanque sob a qual as classes sociais surgiam continuasse a revelar relacionamento e mobilidade sociais fracos. Eram retratadas duas "snobes" conservadoras das classes alta e média, uma "intelectual" e uma rapariga da pequena burguesia com um gosto medíocre e a veleidade de ascender socialmente. Seis anos depois, a mesma colaboradora da revista fez de novo o perfil de jovens de várias classes sociais, onde era particularmente criticado o "zé-ninguém que quer armar, que não desce a cumprimentar os jornaleiros".
Finalmente, em 1967, outro artigo, revelador de maior mobilidade social nas escolas, propunha às leitoras uma postura mais "igualitária", já que a realidade se encarregaria mais tarde de diferenciar socialmente as jovens:

"portas adentro da escola, do colégio, da faculdade, lá dentro és igual a todas as outras colegas, seja o pai ministro ou contínuo, nada de vassalagem das que vão de carro até ao portão, um dia uma será empregada dos correios, outra professora, sê amável, simples, camarada, igual a outras, não andes só num grupo "bem" nem te limites à convivência das modestas. Esses compartimentos exagerados acabam sempre por ser artificiais. [...] Deixa lá as diferenças que elas bem acabam por vir um dia mais tarde [...] e nem sempre como tu pensas...".

4- As relações com os pais e com os jovens do outro sexo

A mesma Maria Mercier tinha elaborado, em 1948, outro teste, subordinado à pergunta "serás tu uma boa filha?". Consoante as respostas às perguntas, a boa filha era aquela que preferia um serão em casa com a família, ajudava a mãe nos afazeres domésticos, lhe confiava tudo, conhecia as suas preocupações, não proclamava a sua independência, fazia companhia à avó, não "implicava" com os irmãos e consultava sempre os pais, porque a sua opinião "nem sempre é parcial e antiquada".
Se, na vida familiar, a filiada devia aceitar a autoridade paterna, encarando-a como uma emanação da autoridade de Deus, nas relações com os jovens, devia ver a liberdade como "um bem que o abuso transforma[va] em mal", um conselho particularmente repetido nas férias. A jovem "séria" devia, por isso, ser prudente, vigiar os seus próprios sentimentos e fazer-se respeitar; o epílogo seria, nesse caso, o casamento, "o mais sério acto e o mais lindo sonho" a que ela podia aspirar.
Em Maio de 1943, Maria Teresa Navarro, professora de Moral do Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho e directora do centro universitário de Lisboa da MPF, queixou-se da influência perniciosa de Hollywood e exortou as raparigas a ter cautela "com camaradagens", a não "fechar os olhos aos perigos e não aceitar servilmente os figurinos estrangeiros... só porque são estrangeiros". O cuidado devia ser sobretudo maior porquanto as relações com o outro sexo serviam um só fim- o casamento. Em Março de 1948, a colaboradora Coccinelle perguntou às leitoras qual a ideia que tinham do casamento, e, dez anos depois, Maria Franco escrevia na M&M uma "Carta a uma rapariga" a propósito de um casal de jovens que encontrara no cinema:
"não gostei do modo como quase te abandonaste sobre o ombro. Fiquei com a impressão que se ele te pedisse um beijo lho darias. [...] pensas que te vais casar com ele mas talvez isso não aconteça [...] Não estou a chamar-te estúpida, mas é que as teorias modernas têm o condão de tornar as raparigas inconscientes do bem e do mal. Precisas de alguém que te tire dessa onda de modernismo e inconsciência. Confia tudo à tua mãe. Quem melhor que ela te poderá guiar?"

O ano de 1958 foi profícuo em conselhos sobre flirt e namoro, e em alertas às jovens para que não vissem em cada rapaz um pretendente, tivessem consciência de que muitos queriam "namorar por vezes e não casar". As raparigas deviam abster-se de ostentar êxitos amorosos, leviandades e frivolidades, pois só as "provocadoras" eram responsáveis pelos atrevimentos dos rapazes. Dois anos depois, outro artigo aconselhava as jovens a não andar à procura do "homem ideal" e a "não arranjar um namorado para passar o Verão". Como o casamento era "para toda a vida", com a finalidade de ter filhos, elas deviam ter cuidado com "os rapazes que gostam de se divertir" mas só "querem para casar raparigas moralmente intactas". Em suma, além de desconfiar das intenções dos jovens, as jovens tinham de aprender a dizer "sim com os olhos e não com a boca".
Ao longo dos anos, foi também transmitida nas páginas da M&M uma imagem da "mulher ideal, segundo eles". Descrita como se fosse um jovem a falar, a rapariga ideal deveria ser "boa dona de casa mas sem maçar os outros com acontecimentos caseiros, compreensiva dos gostos e necessidades alheias, afectuosa para a família do marido, pontual, discreta [...] económica, sincera, com bom génio, dócil, séria, confiante, pouco tagarela e não usar bâton". Outros artigos enumeraram os defeitos de "que eles não gosta[va]m (1954) e "as qualidades que eles mais aprecia[va]m nas raparigas (1961).

5- Influências "desnacionalizadoras" e "tempos modernos"

A partir do final da Segunda Guerra Mundial, a MPF tentou, como se viu no artigo de Maria Teresa Navarro contra as influências estrangeiras, contrabalançar as modas vindas de uma Europa em construção onde se desejava, através de novos hábitos, esquecer os anos de guerra. A juventude portuguesa, especialmente aquela com maior acesso às novidades, também se distanciava dos comportamentos conservadores que o salazarismo autárcico tentava continuar a impor. O caminho da modernidade era, contudo, imparável, como se pode ver nos conselhos que a MPF dava às suas filiadas, incentivando-as a reagir a remoques e troças das colegas que, apesar de obrigadas a seguir nas escolas as actividades da organização, não usavam o uniforme nem aderiam aos princípios austeros e tradicionalistas por ela difundidos e seguiam as modas vislumbradas nas revistas femininas.
Em Setembro de 1945, a colaboradora Maria Benedita regozijou-se, no Boletim da MPF, por já não existirem “o horror do cabelo à Joãozinho de quando éramos pequenas” e a “moda do cabelo curto que empolgou e foi usada por todas as classes”. Ao mesmo tempo ridicularizava a jovem que queria “ser Marlene, a oleosa que quer ser Joan Crawford” e as que imitavam “Garbo e aquela sereia da qual só se vê metade da cara”, além de criticar a “permanente” por eliminar, na aparência, as diferenças sociais entre as jovens: “a menina do liceu, a criada, a mulher da hortaliça, a varina tudo usa permanente [...] parecem angolanas”.
Em Abril de 1947, o Boletim da MPF fustigava o swing, em Junho, um artigo da M&M considerou que as “saias mais compridas dão mais dignidade, e, em Fevereiro de 1951, outro texto defendia que a moda devia “seguir a moral cristã e a dignidade humana”. “Chapéus fantásticos”, “unhas de garras ensanguentadas”, decotes, cosméticos e extravagâncias eram totalmente desaconselhados, assim como o eram as “danças americanas, apesar de não pretendermos que dances só pavanas e gavotas”. A dirigente Maria Margarida Craveiro Lopes dos Reis exortou, por seu turno, as jovens a não se deixarem “envolver pelo barulho do século XX” e criticou aquela que “rodava o botão da telefonia e implora[va] do batuque frenático de qualquer music-hall o barulho” ou a outra que passava o tempo no cinema, “já neura e desiludida”.
Não havia, porém, como já se viu, pior exemplo de modernidade para a MPF que a vida nos Estados Unidos, país com uma influência e poder de atracção entre as jovens que eram particularmente temidos. Vários artigos descreveram a “vida diferente da América” e como, por trás de pretensas qualidades, se esconderiam insidiosamente tremendos defeitos: os homens “ajudavam”, mas a família não tinha “estabilidade” e o divórcio grassava. Mesmo as raparigas “sérias”, se “metidas na engrenagem do mundo moderno”, corriam o risco de soçobrarem ao “egoísmo” e ao “materialismo”.
Mas foi a partir de 1958- uma data paradigmática que surge sempre quando se fala em mudanças- que os novos tempos surgiram de forma recorrente na revista. Um artigo da M&M de Janeiro desse ano abordou o tema dos “bandos” de jovens e outro apresentou o tipo de raparigas que a MPF abominava: “as que dormem vestidas”, a intelectual que usa “roupa em acordeão” ou “a ruiva que usa bailarinas” deixando o pé deformado. No mesmo ano, Maria da Conceição Costa Lobo criticou, por seu turno, a rapariga na moda, que pensava ter “personalidade” por se dar ares de intelectual, vestir camisola largueirona e saia até aos pés, fumar e beber cocktails, só ler Aldous Huxley e ver filmes de tese.
No ano seguinte, surgiu, por seu lado, um novo inimigo: o “existencialismo”. Maria Joana Mendes Leal queixou-se de ter encontrado, numa recente viagem a Paris, um jovem português que se vangloriava de ter visitado “caves existencialistas”, e, noutro artigo, também de 1959, apelava-se às portuguesas para que fossem “modernas” mas “existencialistas-não!”. Por seu turno, Ester de Lemos, num artigo nostalgicamente intitulado “A cor do passado”, retratou horrorizada as “cabeças desgrenhadas”, a mania do disco e do filme, o mobiliário geométrico e o snack-bar.
Surgira entratanto um novo factor de modernidade, a televsão, “uma janela aberta para o mundo” que “mete o mundo no lar” e que, por isso, nunca devia ser ligada durante as refeições, para se “respeitar esses momentos de intimidade familiar”. Mais tarde, em Janeiro de 1962, a televisão continuou a ser considerada uma “manifestação ostensiva de individualismo face à família”, um “poderoso meio de cultura mas também de dissipação, recreativo mas destrutivo do ambiente familiar, com possibilidade de educar mas com nefastas influências nas mentalidades e nos costumes”.
Chegara também o tempo de se condenar a “nova vaga”, “vaga desgrenhada, arrastada para o mal e mediocridade” e de se fazer apelo à leitora para que não se transformasse numa “rapariga boneca”. No final da década, a MPF tentava desesperadamente manter, num “mundo moderno”, os seus valores e a defesa da “civilização cristã”, por contraponto à “civilização moderna”. Ao mesmo tempo que erigia como inimigas as novas modas que arrastavam a juventude- os “modes e rockers” que se tinham substituído aos “blousons noirs e teddy-boys” e os que só falavam de “Vietnames”-a MPF enaltecia a “verdadeira juventude”, aquela que honrava “a sua geração” e frequentava as actvidades da organização.

6- Profissionalização e promoção feminina

O tema do exercício de uma profissão quase não foi abordado pelo Boletim da MPF, como se o facto de ocultar uma realidade, embora ténue, afastasse milagrosamente o que a organização feminina mais temia: a atracção das raparigas, às quais se dirigia, pelo trabalho fora do lar. Mas, nos anos cinquenta, essa realidade era incontornável, e começaram a surgir, na M&M, artigos sobre o assunto quase sempre da autoria da mesma colaboradora, Ana Maria. Embora repetindo as palavras de Salazar sobre a falta que a mulher trabalhadora fazia aos filhos e ao lar, esclareceu, porém, que as jovens não deviam "desdenhar da profissão", dado que algumas talvez nunca se casassem e que outras podiam ter de vir a enfrentar a viuvez. Mas, como, segundo ela, as jovens não deviam, ao escolher uma profissão, olhar "demasiado alto", limitou-se a dar algumas informações sobre escolas de aprendizagem de profissões "femininas" convenientes: cursos de professorado primário, enfermagem e de educação infantil.
Num artigo de 1959, a mesma colaboradora continuou a defender a escolha de uma profissão feminina pelas que se viam confrontadas com a "dura necessidade" de trabalhar até que o amor as libertasse. A sua posição tinha, no entanto, evoluído, pois já aceitava que a mulher não se dedicasse só a "carreiras tradicionalmente femininas" e recusava o encerramento das raparigas no quadro estreito "da antiga pedagogia alemã Kirche, Kinder: Kleider, Kuche".
Outra colaboradora da M&M, Maria Margarida Craveiro Lopes dos Reis, uma dirigente da MPF que viria, aliás, a ser deputada na segunda metade da década de cinquenta, considerou, por seu turno, que o estudo e trabalho constituíam motivos de enriquecimento para a rapariga que, depois de exercer uma profissão, podia sempre vir mais tarde "a ser esposa e mãe". Uma opinião diferente da defendida por Christine Garnier que, numa entrevista concedida à M&M, no mesmo ano, a propósito da recente edição do seu livro Vacances avec Salazar, respondeu- aliás de forma inconsequente- como a MPF desejava que o fizesse:
"Que pena da mulher que trabalha! Falo contra mim, mas sinceramente julgo que a mulher perde quando se entrega a ocupações fora do lar muito do seu encanto e graça feminina. Ela não foi realmente feita para competir com o homem. Ele tem sobretudo um passo de milhões de anos de luta pela vida que o torna sempre muito superior à sua companheira."

Em Janeiro de 1960, a colaboradora da revista Maria Mercier já não perdeu tempo em defender ou condenar o trabalho feminina extradoméstico. Tratava-se então, num período em que já havia nos liceus tantas raparigas como rapazes e em que elas ingressavam crescentemente nas universidades, de difundir entre as jovens, nomeadamente da classe média-baixa, um determinado comportamento no futuro local de trabalho. Noutro artigo, de 1966, as raparigas eram aconselhadas a escolher uma profissão segundo as suas vocação e aptidão, e a consultar o Instituto de Orientação Profissional, embora as carreiras que serviam de exemplo continuassem a ser as "femininas": "Se detestas ensinar, não escolhas um curso sem outra saída [...] se não te interessas pelos problemas dos outros, não serves para assistente social."
A mesma visão essencialista da mulher portuguesa, possuidora de determinadas características e funções ligadas à assistência, ao ensino e à vida no lar, foi transmitida ao longo dos anos pela MPF. No final da década de sessenta, o ministro da Educação Nacional, Francisco Leite Pinto, escreveu uma nota onde considerou como principais características femininas a "dedicação por um lar, com marido e filhos" e a caridade, enquanto o centro da vida masculina era constituído pela profissão:

"As capacidades intelectuais e artísticas não são decerto monopólio do cérebro masculino [...] mas em breve verificamos que as actividades profissionais raramente absorvem a mulher como o homem. O "fim" da vida de uma mulher ultrapassa a profissão, a não ser que esta se identifique com a dedicação feita caridade."

Apesar de tudo, esta visão estereotipada da "essência" feminina não foi sempre difundida com a mesma radicalidade pela M&M. Um ano antes, um texto intitulado "A mulher no mundo de hoje" introduziu a ideia de "promoção feminina", dando conta, a seu modo, do caminho percorrido pelas mulheres em Portugal, num momento em que havia quatro mulheres na AN (Assembleia Nacional)- entre elas Ester de Lemos, colaboradora da M&M- e uma na Câmara Corporativa. Segundo a articulista, a mulher devia, porém, sobretudo "votar mesmo sem fazer política", cooperar na "defesa da família", nos bens económicos, na educação e cultura, "servir a Pátria e como cristã estabelecer o reino de Deus". O mesmo artigo esclarecia ainda que, embora a "ideia justa de promoção da mulher" supusesse "a igualdade de direitos com o homem, no trabalho, estudo, comunidade e família", essa igualdade trazia à mulher "responsabilidades inerentes à sua personalidade feminina" e fazia dela "um elemento de paz, uma força de bem, obreira do progresso humano orientado para o eterno ideal: Deus, Pátria, Família".

(p. 343-357)

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março 08, 2004

MOCIDADE PORTUGUESA FEMININA: as publicações (3)

Surgida em Maio de 1947, a publicação Menina e Moça (M&M), da responsabilidade da MPF, merece igualmente relevo pelos conteúdos a si inerentes.
Também nela se podem detectar os valores defendidos e as mensagens particulares transmitidas ao público a que se dirigia. Sendo que o que estava em causa era a formação da "Mulher portuguesa", os cuidados em termos de transmissão de ideias/princípios, naquela que é a sua maior abrangência possível, era uma realidade.
Vejamos, pois, o que escreve a investigadora aqui referenciada sobre tal publicação.

"A 1 de Maio de 1947, surgiu com o novo nome de Menina e Moça a publicação de massas da MPF que pretendia chegar já não só às filiadas, mas "a todas as raparigas de Portugal" e, por isso, tinha um aspecto gráfico mais arejado, da autoria de Maria Margarida Ottolini Coimbra, além de não mencionar, no título, o nome da MPF. A capa do primeiro número, que obviamente não pretendia comemorar o dia do trabalhador, titulava "Nossa Senhora, respondeu!", e a segunda página apresentava o primeiro de muitos concursos e inquéritos com os quais a M&M tentou obter a colaboração das leitoras.
Através da interrogação anódina "Nicho ou colmeia?", a MPF difundiu, nesse número, a ideia de que Portugal era um paraíso- pelo menos para algumas raparigas-, ao perguntar às jovens se preferiam "um aposento num arranha-céus" ou "uma pequena casa portuguesa". Havia, porém, o cuidado de especificar que, no arranha-céus, a leitora interrogada não teria "criada" mas "apenas uma mulher três horas por dia", enquanto "na casinha teria[s] uma criada para todo o serviço". Claro que o "nicho" foi escolhido por unanimidade, concluindo a M&M que todas as respostas revelam "não só o bom gosto das filiadas como boa formação no ideal que do seu futuro lar fazem".
A ideologia passou a ser introduzida, na M&M, de forma mais subtil do que no Boletim da MPF em rúbricas onde se notava um esforço para acompanhar os novos tempos: "História da
música"; "Cinema"; "Modas"; "Leitura" e "Desporto". No entanto, a revista continuou sobretudo a difundir determinados valores morais e comportamentos, induzidos nas rubricas de ficção, arte, cultura, ciência, cinema, literatura, culinária, moda, lar, nos inquéritos às leitoras, assim como nos artigos sobre mulheres célebres. A M&M teve também, como se viu, uma espécie de predilecção pelos concursos como aquele, em Maio de 1948, onde se pedia às leitoras para definir a melhor forma de servir Portugal, ou aquele, em 1958, sobre a eleição da "Miss Mulher Ideal".
Em 1961, a revista mudou de visual e, como sublinhou a própria M&M, "actualizou-se, modernizou-se conservando intacto o ideal formativo e cultural" para se tornar numa "revista da rapariga portuguesa que não tem ainda o gosto estragado pelas leituras que não valem nada e que poderão deformar a sua mentalidade e sensibilidade". (...) a M&M deixou de facto transparecer, nos anos cinquenta, um abandono do elitismo inicial e um maior acompanhamento da "democratização" e da mobilidade sociais que se fizeram então sentir na sociedade portuguesa".

(p. 340-342)

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MOCIDADE PORTUGUESA FEMININA: as publicações (2)

No sentido da especificação dos conteúdos referenciados no post anterior, editamos texto de Irene Flunser Pimentel relativo ao Boletim da MPF.
Nele concretizam-se os valores defendidos e a fazer optimizar nas jovens, as figuras femininas da História de Portugal entendidas como modelos a seguir e outros aspectos a cuidar no âmbito do decorrer da vida quotidiana.

"No número um da primeira publicação da MPF, surgido em 13 de Maio de 1939, a presidente da OMEN (Obra das Mães pela Educação Nacional), condessa de Rilvas, e a comissária nacional da MPF, Maria Guardiola, apresentaram os inimigos a combater- o "egoísmo", o "materialismo" e o "feminismo"- e o tipo de futuras mulheres que pretendiam criar- "disciplinadas, fortes, viris sem ser masculinas, com espírito profundamente cristão e nacional", orientadas para a "actuação no Lar, na família e na sociedade". O lugar de honra desse primeiro número foi atribuído à padroeira da MPF e de Portugal, Nossa Senhora de Fátima, pois a "história das nações é escrita pelos homens, mas vem do céu a inspiração e a graça que ajudam a realizar e tornam grandes os feitos desses homens!". Depois de "pregar os olhos lá em cima", a filiada devia ser a "semeadora deste ideal" em Portugal, seguindo os "exemplos daquelas que enchem tão bem a nossa história linha": as padroeiras terrenas Dona Leonor e Dona Filipa de Lencastre.
Uma breve leitura do Boletim da MPF nos seus primeiros cinco anos de vida- desde o nº 1 até ao nº 48, de Abril de 1943- revela uma vontade de moldar as leitoras, através de artigos maioritariamente dedicados à transmissão de valores e de comportamentos numa tentativa, compartilhada com a Igreja, de substituição do papel educativo das famílias. Embora o Boletim tivesse a pretensão de se dirigir a todas as jovens portuguesas- "todas" elas pretensamente enquadradas na MPF, que confundia desejos com realidade-, foi de facto as das classes sociais mais altas que quis e conseguiu atingir, como se pode ver pelos principais defeitos que se propôs combater no sei delas: a futilidade, o hedonismo, a soberba, a vaidade e a arrogância.
A seguir, do ponto de vista quantitativo, estavam os artigos que se debruçavam sobre as actividades da MPF, reveladores de um desejo inicial de filiar todas as jovens portuguesas na organização, e os dedicados à religião, especialmente os dos meses de Abril, Maio e Dezembro, sobre a Páscoa, o mês de Maria e o Natal. Nossa Senhora de Fátima tinha evidentemente presença assegurada, mas também outros santos surgiam regularmente, muitas vezes em artigos de formação religiosa assinados pelo padre Moreira das Neves, pelo cardeal Cerejeira, pelo arcebispo de Mitilene e pelo padre Gustavo de Almeida. O ideário nacionalista e salazarista foi muito difundido através dos editoriais deste último, além de ser transmitido através de quase todos os artigos: as rubricas de "Arte e património" focavam, por exemplo, exclusivamente a arte portuguesa.
Embora os principais valores femininos fossem enunciados pela MPF através da glorificação de modelos históricos e religiosos- Dona Leonor, Dona Filipa de Lencastre e a Virgem Maria-, a realeza e a santidade não eram as únicas características que a mulher ideal-típica da MPF devia possuir. Mulheres exemplares foram também Maria Amália Vaz de Carvalho, uma intelectual e educadora, ou Selma Lagerloff, ao mostrar que "as mulheres também ganham o Prémio Nobel". No entanto, assim como Fanny Mandelssohn foi escolhida como modelo por ter sacrificado o seu talento pela carreira do irmão, também Mme Pasteur mostrou ser uma daquelas que "desde que casou viveu só para o marido". Mesmo Georges Sand, "longe de ser uma mulher recomendável", nem sempre tinha tido "má ou inútil" influência sobre Chopin.
No estrangeiro, exceptuando a Espanha, de onde vinha o modelo da SF (Sección Femenina de la Falange Española Tradicionalista), havia sobretudo perigos, entre os quais se contou o "modernismo" dos EUA, criticado a propósito de uma reportagem sobre o pavilhão português na Exposição de Nova Iorque. Este servia evidentemente de contraponto positivo- como tudo o que era português-, de um Portugal mitificado de pobres mas dignos camponeses e pescadores, retratados folclórica e bucolicamente na rubrica "Conhecimento de Portugal e do seu povo", onde também se apelava às leitoras para realizarem, nas férias, reportagens fotográficas sobre paisagens portuguesas.
O período das férias servia habitualmente de pretexto para artigos sobre o campo e a praia, locais onde as filiadas de famílias mais ricas- às quais a MPF se dirigia- passavam os longos meses de Verão. Os textos sobre desporto também tinham como alvo as raparigas de um estrato social médio e alto, incentivando a prática de modalidades elitistas, onde havia sempre o cuidado de refrear os exercícios violentos e o espírito competitivo, mas também o de criticar certas mães por impedirem, com os seus temores, as filhas de praticar exercício físico."

(p. 338-340)

Publicado por sandra em 11:05 PM | Comentários (3) | TrackBack