Inicio, então, a edição dos textos anunciada no post anterior. Começo, evidentemente, por aquele da autoria de João Pedro Cunha-Ribeiro, professor na Faculdade de Letras de Lisboa e que versa sobre o período pré-histórico. Este texto foi editado na revista "História", nº 66, Maio 2004, ano XXV (III Série), p. 22-25.
"A forma como o erotismo se foi expressando no devir dos tempos remete-nos um última instância para a Pré-história e, nesse sentido, levanta o problema da sua emergência no quadro do processo de hominização, no decurso do qual se assistiu à individualização da humanidade com o aparecimento dos primeiros hominídeos e, mais recentemente, à afirmação do próprio homem moderno.
Georges Bataille, na sua obra dedicada ao Erotismo, reflectia, aliás, tal preocupação, não apenas através das inúmeras referências sobre alguns dos modelos de comportamento que, em meados do século XX, se procuravam conectar com o homem pré-histórico, como também admitindo o erotismo como uma prática que permitiria dissociar a vida sexual dos primeiros homens da dos restantes animais.
Mesmo reconhecendo as dificuldades inerentes à identificação de tal prática através do parco registo fóssil e/ou dos vestígios arqueológicos que lhe podem estar associados, têm-se multiplicado as tentativas de reconstituição dos modelos de organização social dos hominídeos nossos antepassados e dos primeiros homens, sem naturalmente se esquecerem as práticas de acasalamento por eles adoptadas.
À procura das "origens" dos primatas superiores
O estudo dos primatas superiores africanos que sobrevivem, na actualidade, na África subsariana, tem sido frequentemente valorizado para a compreensão do comportamento dos mais antigos hominídeos. Esta situação foi reforçada com o recente reconhecimento da grande proximidade genética entre os homens e os chimpazés e bonobos, representando os gorilas o primeiro ramo divergente do tronco comum a todos eles.
Admite-se que, tal como os modelos de organização social evidenciam entre os actuais primatas uma grande diversidade, determinada pela maior ou menor escassez de alimentos, também entre os primeiros hominídeos se registaria uma idêntica variabilidade, tanto mais que estes últimos rapidamente se terão dispersado por uma vasta área de África. Ocupariam, aliás, ecossistemas mais secos e com uma contrastada sazonalidade, onde a disponibilidade de alimentos variava, pelo que tanto a formação de comunidades de maior dimensão, como a sua rápida dispersão por grupos pequenos, no quadro de uma complexa estrutura de fissão-fusão, igualmente observável entre alguns primatas superiores, representaria aí uma vantagem competitiva acrescida.
Quanto às estratégias de acasalamento e às práticas sexuais adoptadas pelos primeiros hominídeos, mais do que nelas procurar entrever as raízes justificativas de uma posição de prevalência do homem na sociedade, ou a evidência de paradigmas emergentes de sinal contrário, haverá que revelar, antes do mais, a sua indesmentível eficácia, bem patente na circunstância de o homem moderno ser a única espécie representada à escala do globo. Acresce a esta situação o facto de entre estes primeiros hominídeos os machos apresentarem uma maior envergadura do que as fêmeas, fenómeno de dimorfismo sexual muito comum a diversas espécies de animais e partilhado, neste caso específico, tanto com os chimpanzés e os bonobos como com os gorilas.
Provavelmente, o acasalamento entre estes nossos remotos antepassados e as práticas sexuais por eles adoptadas seriam determinados pelos muitos constrangimentos que conduziram à multiplicidade de comportamentos neste âmbito observáveis entre os actuais primatas superiores africanos. As fêmeas, quando chegavam à puberdade, abandonariam também os seus grupos de origem para impedir a ocorrência de práticas incestuosas e integrar-se-iam noutras comunidades. Já para evitar a eliminação das jovens crias por machos que procurariam assegurar a sobrevivência e o êxito dos seus próprios descendentes, poderiam ser várias as estratégias seguidas. Em nenhuma circunstância, porém, se conhece entre os primatas superiores actuais a opção por uma relação monogâmica relativamente estável, já que a mesma induziria tais práticas de infanticídio. Para além das comunidades onde o desenvolvimento das actividades quotidianas permite às fêmeas permanecerem junto dos machos dominantes com quem acasalam em exclusivo, como sucede entre os gorilas, nas restantes situações as fêmeas procuram assegurar o estabelecimento de relações sexuais com o maior número de machos, sugerindo-lhes a hipotética paternidade da sua futura descendência. Estão neste último caso as comunidades de fissão-fusão dos chimpazés e dos bonobos, embora nas primeiras o poder prevalecente se concentre nos machos adultos, enquanto nas segundas esse mesmo poder é, pelo menos parcialmente, partilhado com as fêmeas.
Realce particular merece, contudo, o original comportamento sexual dos bonobos. A sua actividade sexual não apenas parece evidenciar um papel importante na estruturação da vida social, anulando mesmo potenciais tensões entre os seus membros, como permite entrever a ocorrência de práticas sexuais não reprodutivas, apresentando-se as suas fêmeas aparentemente sexualmente activas fora do tempo de ovulação."
(Cont.)
A partir de hoje e durante os próximos dias serão editados um conjunto de posts que versam sobre a evolução do Erotismo ao longo dos tempos, nomeadamente em termos de concepções, práticas e registos escritos, sendo também tidas em conta as representações a nível artístico.
Neste sentido serão editados textos elaborados por vários docentes universitários, textos estes que, pela sua extensão, serão por mim divididos em várias partes atendendo à orgânica interna considerada pelos próprios autores.
Tendo sido todos estes textos já editados na revista "História", deixo-os aqui para que a sua divulgação mais alargada seja uma realidade, não só mas também, em particular, junto daqueles que não tiveram/têm acesso à publicação.
Quanto ao textos e seus autores, são os seguintes:
- João Pedro Cunha Ribeiro- Sexo, bifaces e imagens
"À luz da evidência fóssil e da documentação arqueológica disponível não é possível reconstituir a evolução das práticas sexuais dos nossos mais remotos antepassados e dos primeiros homens. Será possível vislumbrar as "origens" do erotismo nas sociedades de bonobos?"
- Luís Manuel de Araújo- Assim na terra como no céu
"No Egipto, o mundo tinha sido criado por actos sexuais prenhes de erotismo com os amantes a serem representados em fruição plena da natureza e do corpo. No Império Novo, o erotismo transborda nos corpos femininos."
- António Ramos dos Santos- A sexualidade na Mesopotâmia
"Entre as obediências do casal patriarcal e as "turbulências" do amor livre a Mesopotâmia reconduz-nos a toda uma história tão antiga como moderna. Ou de todos os tempos."
- Nuno Simões Rodrigues- A invenção de Eros
"Com os Gregos, EROS desceu das cosmogonias que descreviam as origens do Todo, antropomorfizou-se e invadiu a literatura, a iconografia e a vida."
- José Augusto M. Ramos- Erotismo na Bíblia
"As reticências à corporalidade que se desenvolveram na cultura judaico-cristã ocidental podem não ter derivado da matriz bíblica fundamental. Aqui, o erotismo aproxima a experiência da sexualidade da emoção mística e do conhecimento de Deus."
- José Varandas- Idade Média. Os perigos da carne
"As autoridades medievais procuram conter os "excessos" do erotismo e da sexualidade num quadro normativo rígido. Mas, ao mesmo tempo, as representações artísticas mostram como essas dimensões eram vitais para o homem medieval."
- Vitor Serrão- Eros e decorum na Contra-Reforma
"Da representação de S. Jerónimo tentado pelas "mulheres licenciosas" (Mosteiro dos Jerónimos) à de Santa Maria Madalena em êxtase (Igreja da Graça, Lisboa) vai a distância entre a espiritualidade castrante de Trento e a ousadia criativa dos que insistem em combater os dogmas da Contra-Reforma."
- António Ventura- Literatura licenciosa. Portugal séc. XIX
"Uma literatura licenciosa- erótica e satírica-, nalguns casos obscena, surgiu em Portugal, ainda oculta, na segunda metade do séc. XVIII. Em finais do séc. XIX, pequenas ou grandes edições, ilustradas ou não, inundaram um mercado ávido e florescente."
É pois notória a vastidão de abordagens a partir dos grandes temas apresentados. Espero que tudo seja alvo do vosso interesse e que me acompanhem neste "percurso erótico" ao longo dos tempos.
Registo que, a partir de hoje, este blog voltará a entrar em actividade. Sublinho que projectos anteriormente iniciados serão continuados e que outros novos surgirão.
Em grande abraço para todos e um agradecimento muito especial pelas consultas até ao presente efectuadas.
Até ao próximo post!